O debate econômico na Argentina da democratização por Javier Amadeo - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Facultade de Filosofía, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Ciência Política

Programa de Pós-graduação em Ciência Política

O DEBATE ECONÔMICO NA ARGENTINA DA

DEMOCRATIZAÇÃO

Javier Amadeo

Tese apresentada ao Programa de Pós-Gradução em

Ciência Política da Facultade de Filosofía, Letras e

Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo,

para obtenção do título de Doutor em Ciência

Política

Orientadora: Profa. Dra. Maria Hermínia Tavares de Almeida

São Paulo

2005

Universidade de São Paulo

Facultade de Filosofía, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Ciência Política

Programa de Pós-graduação em Ciência Política

O DEBATE ECONÔMICO NA

ARGENTINA DA DEMOCRATIZAÇÃO

Javier Amadeo

São Paulo

2005

II

À Simone e

à minha família

III

AGRADECIMENTOS

Obrigado a todos que de uma forma ou de outra contribuíram para a realização deste trabalho e especialmente agradeço:

À minha família que para bem ou para mal fizeram de mim a pessoa que sou hoje.

À Simone, obrigado pela compreensão e pela infinita paciência, digna de Penélope,

e pelo amor destes anos.

Aos meus amigos Miguel, Gonzalo e Sergio por termos compartilhado a experiência

deste novo país.

Aos amigos feitos no Brasil: Eleonora, Hugo, Marcelo, Mercedes, Enca, Júlio.

À minha orientadora Profa. Maria Hermínia que sempre me incentivou para

continuar com a pesquisa apesar de todas as dificuldades.

Ao Prof. Atilio Boron por ter sido um estímulo intelectual desde o começo de minha carreira.

Aos Professores que participaram das bancas de qualificação Gildo Marçal Brandão,

Brasilio Sallum, Eduardo Kulgelmas e Bresser Pereira pelas excelentes sugestões e

contribuições, as quais foram fundamentais para o andamento desta pesquisa.

Aos professores e colegas desta casa por terem contribuído para minha formação.

Às funcionárias da Secretaria de Pós-Graduação, Rai, Marcia, Ana Maria, pela

atenção e paciência.

À CAPES pela bolsa que me permitiu a continuação de meus estudos no Brasil e a

elaboração da presente tese.

IV

RESUMO

O presente trabalho busca discutir o papel político das idéias econômicas em um

contexto de transformação estrutural.

A Argentina enfrentou, durante os anos 80 e 90, os dilemas próprios de um processo de reformas estruturais. O giro para estas reformas foi produzido sob o impacto da crise da dívida externa. A resposta inicial à emergência econômica, que teve um alcance limitado, não comportou mudanças apreciáveis na organização das instituições econômicas. Este alcance das políticas de ajuste foi correspondido com os diagnósticos do momento que postulavam que os desequilíbrios macroeconômicos eram, fundamentalmente, de curto

prazo.

O governo lançou, em 1985, um plano de estabilização heterodoxo. Os economistas

heterodoxos, chamando a atenção para os componentes inerciais da dinâmica inflacionária, sustentaram que as políticas ortodoxas, eram ineficazes e custosas para resolver o problema inflacionário. Contudo, esse programa não conseguiu estabilizar a economia. O fracasso da experiência heterodoxa abriu as portas para a ortodoxia. A partir do final dos anos 80 a agenda governamental foi dominada por uma onda de reformas estruturais. Em 1989, o governo eleito estabeleceu uma nova orientação em política econômica, a partir da qual levou adiante um profundo processo de ajuste.

Para entender a modalidade de mudança estrutural seguida pela Argentina existem

alguns elementos fundamentais. Em primeiro lugar, aqueles de caráter econômico

relacionados com o impacto da crise. Contudo, embora a crise econômica tenha constituído um estímulo poderoso para o início de um programa de reformas estruturais, por si só não foi suficiente para definir quando, como e em o que medida era necessário fazer o ajuste. A interpretação das causas da crise foi central na direção da inovação política.

Assim, o debate de idéias cumpriu um papel chave na entrada das reformas

econômicas na agenda pública. Para a direção da inovação política foi central a

interpretação das causas dos desequilíbrios econômicos. A controvérsia entre alternativas de políticas, que se levou a cabo tendo como pano de fundo a emergência econômica, constituiu a primeira via de entrada das reformas estruturais na agenda pública. Portanto, o V

desenlace da disputa de interpretações que se estabeleceu durante esses anos acerca da definição da natureza dos desequilíbrios é o foco central de nosso trabalho.

Palavras-chave: política econômica (Argentina), reformas estruturais, política

(Argentina), história do pensamento econômico, idéias econômicas.

VI

Abstract

The present work seeks to discuss the political power of the economic ideas in a

context of structural transformation.

Argentina faced, during ´80 ´90, the dilemmas characteristic of a process of

structural reform. The turn toward the structural reform took place under the impact of the crisis of the foreign debt. The initial answer to the economic emergency that had a limited reach, didn't behave appreciable changes in the organization of the economic institutions.

This limited reach of the adjustment belonged together with the diagnoses of the moment that postulated that the macroeconomic imbalances, were fundamentally imbalances of short term.

The government rushed, in 1985, a heterodox stabilization plan. The heterodox

economists, getting the attention on the inertial components of the inflationary dynamics, they sustained that the politicians of orthodox, were ineffective and expensive to solve the inflationary problem. However the program was not able to stabilize the economy. The failure of the heterodox experience opened the doors for the orthodoxy. From ends of the years eighty, the government agenda was dominated by a wave of political of structural reforms. In 1989, the elect government established a new orientation in economic politics, starting from which took a deep adjustment process ahead.

To understand the modality of structural change continued by the Argentina, some

fundamental elements exist. In the first place, those of economic character related with the impact of the crisis. But, although the economic crisis constituted a powerful stimulus for the setting in march of a program of structural reform, by itself it was not enough to define when, how and in what measure it must make the adjustment. The interpretation of the causes of the crisis was central in the address of the political innovation.

The debate of ideas completed a key role in the entrance of the economic reform in the public calendar. For the address of the political innovation it was central the interpretation of the causes of the economic imbalances. The controversy among alternative of political that was taken to end on the backdrop of the economic emergency, it constituted the first road of entrance from the structural reform to the public agenda. Therefore, the VII

outcome of the bid of interpretations that was begun in those years about the definition of the nature of the imbalances is the central focus for our work.

Key words: economic politics (Argentina), structural reform, politics (Argentina), history of the economic thought, economic ideas.

VIII

Resumen

El presente trabajo pretende discutir el papel político de las ideas económicas en un contexto de transformación estructural.

Argentina enfrentó, durante los ´80 y ´90, los dilemas propios de un proceso de

reformas estruturales. El giro hacia las reformas estructurales se produjo bajo el impacto de la crisis de la deuda externa. La respuesta inicial a la emergencia económica, que tuvo un alcance limitado, no comportó cambios apreciables en la organización de las instituciones económicas. Este alcance restringida de las políticas de ajuste se correspondió con los diagnósticos del momento que postulaban que los desequilibrios macroeconómicos, eran fundamentalmente de corto plazo.

El gobierno lanzó, en 1985, un plan de estabilización heterodoxo. Los economistas

heterodoxos, llamando la atención sobre los componentes inerciales de la dinámica

inflacionaria, sostuvieron que las políticas ortodoxas, eran ineficaces y costosas para resolver el problema inflacionario. Sin embargo este programa no consiguió estabilizar la economía. El fracaso de la experiencia heterodoxa abrió las puertas para la ortodoxia.

Desde fines de los años ochenta, la agenda gubernamental estuvo dominada por una ola de políticas de reformas estructurales. En 1989, el gobierno electo estableció una nueva orientación en política económica, a partir de la cual llevó adelante un profundo proceso de ajuste.

Para entender la modalidad de cambio estructural seguida por la Argentina, existen algunos elementos fundamentales. En primer lugar, aquellos de carácter económico

relacionados con el impacto de la crisis. Pero, si bien la crisis económica constituyó un poderoso estímulo para la puesta en marcha de un programa de reformas estructurales, por sí sola no bastó para definir cuándo, cómo y en qué medida habría de efectuarse el ajuste.

La interpretación de las causas de la crisis fue central en la dirección de la innovación política.

Así, el debate de ideas cumplió un papel clave en el ingreso de las reformas

económicas en la agenda pública. Para la dirección de la innovación política fue central la interpretación de las causas de los desequilibrios económicos. La controversia entre alternativas de políticas, que se llevó a cabo sobre el telón de fondo de la emergencia IX

económica, constituyó la primera vía de entrada de las reformas estructurales a la agenda pública. Por lo tanto, el desenlace de la puja de interpretaciones que se entabló en esos años acerca de la definición de la naturaleza de los desequilibrios es el foco central para nuestro trabajo.

Palabras-clave: política económica (Argentina), reformas estructurales, política

(Argentina), historia del pensamiento económico, ideas económicas.

X

SUMÁRIO

Dedicatória............................................................................................................................III Agradecimentos....................................................................................................................IV

Resumo...................................................................................................................................V

Abstract................................................................................................................................VII Resumen................................................................................................................................IX

Índice...................................................................................................................................XII Introdução...............................................................................................................................1

Primeira Parte: O governo de Alfonsín e o projeto heterodoxo........................................... 19

Capítulo I: O contexto de emergência do novogoverno democrático...................................19

Capítulo II: O Plano Austral............................... .................................................................96

Capítulo III: O Australito e o giro para a ortodoxia............................................................177

Segunda Parte: As políticas neoliberais da era Menem......................................................219

Capítulo IV: A entrada das reformas na agenda púbica.....................................................

Capítulo V: O processo de reformas estruturais da década de 90.....................................

Capítulo VI: O debate econômico dos anos 90. As avaliações do Plano de Convertibilidade Considerações finais.............................................................................................................

Bibliografía.........................................................................................................................

..

XI

ÍNDICE

Introdução.......................................................................................................................... 1

Primeira Parte: O governo de Alfonsín e o projeto heterodoxo

Capítulo I: O contexto de emergência do novo governo democrático............................19

1.1

O contexto internacional...........................................................................................19

1.1.1

O debate latino-americano........................................................................................22

1.1.2 O ajuste ortodoxo......................................................................................................23

1.1.3

A posição CEPAL: para um ajuste mais eficiente....................................................26

1.2 Hora zero: o governo democrático..........................................................................30

1.2.1

O processo de ajuste da economia argentina.............................................................33

1.2.2 A proposta neo-keynesiana.......................................................................................35

1.3

O esquema keynesiano de Grinspun.........................................................................39

1.3.1

A dívida como questão política.................................................................................46

1.3.2

O fracasso do gradualismo e suas conseqüências.....................................................52

1.4

Mudança de direção...................................................................................................54

1.4.1 A proposta heterodoxa..............................................................................................55

1.4.1.1 A concepção inercial da inflação...............................................................................71

1.4.2

Diagnóstico e propostas ortodoxas............................................................................76

1.4.2.1 A teoria monetária-fiscal da inflação....................................................................... 86

1.4..3 A visão crítica da economia argentina......................................................................90

Capítulo II: O Plano Austral............................................................................................. 96

2.1

Balanço da experiência anterior................................................................................96

2.2

A análise prévia ao Plano..........................................................................................99

2.3

As negociações com o Fundo e as medidas prévias ao Austral..............................103

2.4

O lançamento...........................................................................................................106

2.4.1

As medidas do Plano...............................................................................................109

2.4.2 Os apoios ao Plano..................................................................................................112

XII

2.4.3

Os primeiros efeitos do Plano.................................................................................115

2.5

As controvérsias nos primeiros meses do Austral...................................................120

2.5.1

Ajuste ortodoxo versos ajuste heterodoxo...............................................................122

2.5.2

Estabilização e déficit fiscal....................................................................................126

2.5.3

Estabilidade e crescimento......................................................................................129

2.5.4

Crescimento e reforma do estado............................................................................131

2.5.5

Reativação e salários...............................................................................................134

2.6

A segunda fase do Austral.......................................................................................137

2.6.1

Crescimento com estabilidade.................................................................................138

2.6.2

O modelo de crescimento liberal.............................................................................144

2.6.3

O novo poder econômico........................................................................................154

2.7

A flexibilização de abril de 1986............................................................................158

2.7.1

Tentativa de acordo de preços e salários.................................................................160

2.7.2

As razões da aceleração inflacionária ...................................................................164

2.7.3

Flexibilização e déficit fiscal...................................................................................167

2.8

A etapa do aperto monetário...................................................................................170

Capítulo III: O Australito e o giro para a ortodoxia.....................................................177

3.1

Contexto político: para as eleições de setembro.....................................................178

3.2

O lançamento do Australito....................................................................................180

3.2.1

Efeitos do congelamento.........................................................................................187

3.3

As medidas de julho: crise de um modelo centralizado e estatista ........................191

3.3.1

A situação econômica..............................................................................................194

3.3.2 As conseqüências das eleições de setembro e o fim do projeto de longo prazo.....195

3.3.3 Os novos temas da agenda: abertura, reforma do estado, desregulação e

privatizações............................................................................................................198

3.3.4

Situação no final de 1987........................................................................................203

3.4

O Plano Primavera e o epílogo do governo de Alfonsín.........................................206

3.4.1

As vulnerabilidades do plano .................................................................................210

3.4.2

Os resultados ............................................... ...........................................................212

3.5

A funcionalidade política da teoria da inflação inercial..........................................218

XIII

Segunda Parte: As políticas neoliberais da era Menem

Capítulo IV: A entrada das reformas na agenda púbica...............................................223

4.1

O consenso emergente.............................................................................................223

4.2

Hiperinflação e reformas estruturais.......................................................................231

4.2.1

O giro para a ortodoxia. ..........................................................................................239

4.3

Uma nova macroeconomia: estabilização e reformas estruturais...........................245

4.3.1

Reforma do Estado e Emergência Econômica....................................................... 248

4.3.2

Outra vez a hiperinflação........................................................................................251

4.4

A ortodoxia fiscal de Erman González...................................................................254

4.4.1

As primeiras privatizações......................................................................................256

4.4.2

O Plano Bonex........................................................................................................260

4.5

A Convertibilidade da moeda..................................................................................263

4.5.1

O Plano de Convertibilidade...................................................................................265

4.5.2

Os êxitos do Plano...................................................................................................270

4.5.3

Os limites do esquema cambial ..............................................................................276

4.5.4

Um ponto de inflexão chamado Tequila.................................................................278

4.6

Viabilidade política das reformas estruturais..........................................................281

4.6.1

O ajuste caótico.......................................................................................................284

4.6.2 A consolidação da estabilidade...............................................................................288

4.6.3 Os limites intrínsecos das reformas.........................................................................292

Capítulo V: O processo de reformas estruturais da década de 90..............................297

5.1

A abertura do mercado: o regime comercial e cambial...........................................298

5.1.1

Mercosul..................................................................................................................302

5.2

Reforma do Estado, financiamento do setor público e privatizações......................305

5.2.1

Financiamento do setor público..............................................................................307

5.2.2 Privatização das empresas públicas........................................................................308

5.3

Desregulação dos mercados ...................................................................................313

5.3.1 Mudanças nas regulações trabalhistas.....................................................................316

5.3.2 Reforma e desregulação da previdência social.......................................................320

XIV

5.4

A macroeconomia da Convertibilidade...................................................................322

5.4.1

A atividade financeira.............................................................................................323

5.4.2

A atividade real.......................................................................................................327

5.4.3

As transformações na indústria...............................................................................328

5.4.4

Reformas e investimento estrangeiro .....................................................................333

5.4.5

A evolução do emprego..........................................................................................336

5.4.6

As oscilações econômicas.......................................................................................338

Capítulo

VI: O debate econômico dos anos 90. As avaliações do Plano de

Convertibilidade................................................................................................................342

6.1

O consenso ortodoxo...............................................................................................342

6.2

Estabilidade e crescimento: Convertibilidade um modelo de crescimento

sustentável? ............................................................................................................348

6.2.1

Estabilidade e crescimento com preços relativos em desequilíbrio........................351

6.2.2

Convertibilidade e setor externo..............................................................................353

6.2.3

Políticas ativas.........................................................................................................357

6.2.4

A implementação do modelo neoliberal e as restrições ao desenvolvimento.........361

6.3

O debate sobre a política industrial existente..........................................................364

6.3.1

Reconversão industrial e política industrial ativa....................................................367

6.3.2

Política industrial e regime automotor ...................................................................371

6.3.3

Política industrial e integração regional ................................................................373

6.4

Reforma do Estado e privatizações .......................................................................375

6.4.1

Reforma do estado e eficiência do gasto público....................................................381

6.4.2

Privatizações e regulação estatal.............................................................................383

6.5

Debate sobre a desregulação dos mercados............................................................387

6.5.1

A (des-re)regulação dos mercados..........................................................................391

6.6

Reformas estruturais e a formulação de um novo modelo de políticas sociais.......394

6.6.1

Reforma no mercado trabalhista e desemprego......................................................396

6.6.2

Mercado de trabalho e oportunidades de vida.........................................................402

6.6.3 O custo das reformas, a questão social e as políticas frente à pobreza...................405

6.6.4

Políticas sociais em um projeto de modernização excluinte...................................410

XV

Considerações finais..........................................................................................................415

Bibliografía........................................................................................................................435

XVI

Introdução

“the idéias of economists and political philosophers,

both whem they are right and whem they are wrong,

are more powerfull tham is commonly understood”

Johm Maynard Keynes –

The geral theory of Employment, Interest and Money

O problema

Durante as décadas de 80 e 90 os países da América Latina enfrentaram os dilemas

próprios de uma mudança de época, que se caracterizaram pela redução do papel do Estado na economia e pela redefinição das suas relações com o mercado, bem como pela conexão entre economias nacionais e mercado internacional. Com o impulso das reformas

estruturais mediante as quais as orientações foram implementadas na última década, o modelo de desenvolvimento interno, promovido pelo Estado, que havia presidido o

desenvolvimento econômico e social da América Latina, foi substituído por um novo

padrão de desenvolvimento centrado no investimento privado, na abertura externa e nos sinais do mercado (Torre, 1998).

O giro às reformas estruturais foi produzido sob o impacto da crise da dívida

externa. As conseqüências da alta nas taxas de juros internacionais, da subseqüente moratória em seus compromissos da dívida externa, a qual se viram forçados os países da região, e o abrupto cessamento dos fluxos financeiros voluntários do exterior tiveram severos efeitos sobre as instituições econômicas da América Latina. Na década de 30 uma outra crise do comércio internacional havia conduzido esses países à adoção de um novo curso no processo de desenvolvimento em direção à industrialização substitutiva. Na década de 80 a região encontrou-se novamente frente a um fenômeno familiar: as mudanças exógenas precipitaram uma mutação nas regras do jogo e na organização de suas

economias. Como ocorreu durante as décadas de trinta e quarenta, as respostas dos países à mudança no contexto internacional dentro do qual desenvolviam-se suas economias

apresentaram destacadas diferenças. O fim do ciclo de desenvolvimento interno e

promovido pelo Estado seguiu diferentes trajetórias nos distintos países latino-americanos, 1

dependendo das circunstâncias específicas de cada um deles. Embora ao longo desses anos tenha sido visível a convergência entorno de políticas de austeridade fiscal, privatizações, liberalização comercial, e desregulação econômica, a oportunidade, o ritmo e os alcances do ajuste estrutural de uns e outros, o novo cenário não foi uniforme. Ainda que as mudanças no contexto internacional tenham condicionado fortemente as opções de

desenvolvimento dos países da América Latina, não ditaram, no entanto, as respostas concretas que estes deram aos desafios impostos pela crise. Para entender essa diversidade nas respostas é preciso considerar as restrições e os fatores contextuais de natureza interna (Torre, 1998).

Considerado a partir de uma perspectiva regional o processo de transformação

econômica pelo qual passou a Argentina nos últimos anos é parte dessa tendência geral.

A Argentina havia definido no pós-guerra um padrão de acumulação com dois

traços salientes: o primeiro, uma semi-autarquia econômica; o segundo o estabelecimento de uma economia mista fortemente dependente da liderança do setor público. Esse modelo de desenvolvimento configurou um espaço social caracterizado pela existência de um forte mercado interno, a presença de uma burguesia mercado-internista e de um movimento

operário organizado.

Em decorrência da crise da dívida a Argentina conheceu uma década

particularmente convulsionada, com comoções externas, deterioramento dos termos de troca e alta nas taxas de juros, além de graves desequilíbrios fiscais e altos níveis de inflação. Esses fatos, tanto internos como externos, tornaram evidente o esgotamento do modelo de desenvolvimento, cujas manifestações, no entanto, já estavam presentes desde antes da crise. A resposta inicial à emergência econômica, que teve um alcance limitado, consistiu em ajustes de curto prazo que não comportaram mudanças apreciáveis na

organização das instituições econômicas. Esse alcance limitado das políticas de ajuste foi correspondido com diagnósticos que postulavam que os desequilíbrios macroeconômicos, apesar de sua gravidade, eram desequilíbrios fundamentalmente de curto prazo e que os problemas da balança de pagamentos e das contas públicas podiam ser controlados com medidas conjunturais de caráter extraordinário sobre os gastos e ingressos fiscais, a política monetária, o mercado de câmbio etc.

2

Em 1985 o país questionou a terapia antiinflacionária gradualista, de corte

recessivo, em voga no continente lançando um plano de estabilização heterodoxo.

Chamando à atenção sobre os componentes inerciais da dinâmica inflacionária, os

economistas heterodoxos sustentaram que as políticas de demanda, ademais de socialmente custosas, eram ineficazes para resolver em um prazo razoável a alta e persistente inflação.

Entretanto, o novo plano não conseguiu controlar a inflação. O fracasso da experiência heterodoxa abriu as portas para a ortodoxia. A partir da perspectiva da ortodoxia

econômica, as pressões inflacionárias foram vinculadas ao comportamento das instituições econômicas características do padrão de desenvolvimento interno e promovido pelo Estado: de um lado, o caráter fechado das economias, que limitava a exposição das indústrias locais à concorrência externa e, do outro, a drenagem fiscal gerada pelas empresas públicas e pelos subsídios previstos aos capitais privados.

Desde o final dos anos oitenta, a agenda governamental esteve dominada por uma

onda de políticas de reformas estruturais que transformou radicalmente as instituições econômicas estabelecidas depois da segunda guerra mundial. O governo eleito em 1989

estabeleceu uma nova orientação de política econômica, de inspiração liberal, a partir da qual levou adiante um processo de reformas que transformou substancialmente a relação Estado-sociedade1, e o modelo de desenvolvimento baseado na substituição de importações foi substituído por uma nova visão de desenvolvimento. Uma série de novas orientações, de caráter político econômico, condensam esta mudança: a racionalização e a redefinição do papel do Estado na economia e a redefinição das relações entre as economias nacionais e os mercados internacionais.

Para entender a modalidade de mudança estrutural seguida pela Argentina, duas

ordens de fatores são relevantes. Em primeiro lugar estão aqueles de caráter econômico e que definem o grau diferencial de exposição ao choque externo e a capacidade do país para adaptar sua economia ao novo cenário. Uma série de fatores internos que incluíram tanto decisões de política econômica como formas de organização econômica prévias

determinaram a evolução de dois fenômenos econômicos centrais que organizaram o

1 A Argentina sufreu, em menos de 5 anos, uma das transformações de mercado mais amplas entre os países em desenvolvimento. A publicação conservadora Economic Freedom of the World colocava o país muito acima de reformadores conhecidos como Chile, Espanha e México em seu “Índice de Libertade Econômica”, e colocava o país no segundo posto mundial – somente atrás de Nova Zelandia, no índice de países que mais haviam incrementado sua libertade econômica durante a década de 1985-1995 (Etchemendy, 2001).

3

comportamento do país durante a crise: a brecha externa e a fiscal. Uma e outra brecha definiram as coordenadas internas do marco econômico adverso que conduziu a Argentina a imprimir uma nova direção a suas opções de desenvolvimento. Em segundo lugar,

embora a crise econômica tenha constituído um poderoso estímulo para o andamento de um programa de ajuste estrutural, por si só não bastou para definir quando, como e em que medida deveria ser efetuado o ajuste. Para explicar a modalidade de mudança estrutural que levou adiante a Argentina é necessário analisar uma série de fatores internos: o conflito de interesses sociais e políticos, o papel das instituições na implementação das políticas públicas, e a influência das idéias.

Nesse contexto o problema central configura-se em explicar como esta mudança foi

produzida.

O debate sobre as reformas estruturais: estado da arte

A extensa literatura2 sobre o processo de reformas estruturais pode ser agrupada de acordo com a seguinte divisão: a entrada das reformas na agenda pública, lançamento do processo de reformas e as reações sociais ao ajuste, enquanto o nosso interesse central fundamenta-se no primeiro dos problemas3.

A pergunta central da literatura política sobre o lançamento político do processo de reformas estruturais refere-se aos fatores que condicionam a capacidade dos governos para levar adiante as propostas de reforma. Diversos estudos comparativos sobre as condições políticas do ajuste acentuam a idéia da capacidade estatal e as vantagens da autonomia para levar adiante as reformas estruturais. Outros trabalhos enfatizam os problemas de ação coletiva que rodeiam a reforma, os perdedores estariam concentrados enquanto os

beneficiários estariam dispersos, a conseqüência lógica é a necessidade de uma autoridade forte que possa resolver os problemas de ação coletiva4.

Outra parte da literatura política sobre as reformas estruturais voltou-se à análise das reações sociais frente ao ajuste. A tolerância popular ao ajuste é uma situação anômala sob condições de regime democrático, a razão parece óbvia, a população não parece inclinada a 2 Haggard e Kaufmam 1991, 1992, 1993, 1996; Kaufman, 1990; Bresser Pereira, 1993; Waterbury, 1991; Przeworski, 1993; Kahler, 1990, 1992; Smith, 1993; Nelson, 1990, 1991a; Stallings, 1990, 1992, 1995; Williamson, 1994; Acuña, e Smith, 1996.

3 Para uma análise mais detalhada desta divisão ver: Torre, 1998.

4 Para uma análise detalhada ver Etchemendy, 2001.

4