O desertor por Manuel Inácio da Silva Alvarenga - Versão HTML

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CANTO I

Musas, cantai o Desertor das letras,

E a Verdade entre júbilos o aclama

Que, depois dos estragos da Ignorância,

Por longos, e duríssimos trabalhos

Restaurador do seu Império antigo.

Conduziu sempre firme os companheiros

Brilhante luz, paterna liberdade,

Desde o loiro Mondego aos Pátrios montes.

Vós, que fostes num dia sepultadas

Em vão se opõem as luzes da Verdade

Co bravo Rei nos campos de Marrocos,

Ao fim, que já na idéia tem proposto:

Quando traidoras, ímpias mãos o armaram

E em vão do Tio as iras o ameaçam.

Vítima ilustre da ambição alheia,

Tornai, tornai a nós. Da régia stirpe

E tu, que à sombra duma mão benigna,

Renasce o vingador da antiga afronta.

Gênio da Lusitânia, no teu seio

Assim o novo Cipião crescia

De novo alentas as amáveis Artes;

Para terror da bárbara Cartago.

Se ao surgir do letargo vergonhoso

Possam meus olhos ver o Ismaelita

Não receias pisar da Glória a estrada,

Nadar em sangue, e pálido de susto

Dirige o meu batel, que as velas solta,

fugir da morte, e mendigar cadeias;

O porto deixa, e rompe os vastos mares

E amontoando Luas sobre alfanges

De perigosas Sirtes povoados.

Formar degraus ao Trono Lusitano.

Dissiparam-se as trevas horrorosas,

Quais seriam as causas, quais os meios

Que os belos horizontes assombravam,

Por que Gonçalo renuncia os livros?

E a suspirada luz nos aparece.

Os conselhos, e indústrias da Ignorância

Tal depois que raivoso, e sibilante

O fizeram curvar ao peso enorme

Sobre o carro da Noite o Euro açoita

De tão difícil, e arriscada empresa.

Os tardios cavalos do Bootes,

E tanto pode a rústica progênie!

E insulta as terras, e revolve os mares,

Raia a manhã serena entre doiradas,

A vós, por quem a Pátria altiva enlaça

E brancas nuvens: ri-se o Céu, e a Terra:

Entre as penas vermelhas, e amarelas

Vento dorme, e as Horas vigilantes

Honrosas palmas, e sagrados loiros,

Abrem ao claro Sol a azul campanha.

Firme coluna, escudo impenetrável

Aos assaltos do Abuso, e da Ignorância,

A soberba Ignorância entanto observa,

A vós pertence o proteger meus versos.

E se confunde ao ver o próprio trono

Consenti que eles voem sem receio

Abalar-se, e cair: o seu ruído

Vaidosos de levar o vosso nome

Redobra os ecos nos opostos vales,

Aos apartados climas, onde chegam

E o Mondego feliz ao mar undoso

Os ecos imortais da Lusa glória.

Leva alegre a notícia, porque chegue

Das suas praias aos confins da Terra.

Já o invicto Marquês com régia pompa

Ela abatida, e só não acha abrigo,

Da risonha Cidade avista os muros.

E desta sorte em seu temor suspira.

Já toca a larga ponte em áureo coche.

Ali junta a brilhante Infantaria;

Verei eu sepultar-se entre ruínas

Ao rouco som de música guerreira

O meu reino, o meu nome, e a minha glória;

Troveja por espaços: a justiça,

Depois de ser temida, e respeitada?

Fecunda mãe da Paz, e da Abundância,

Pobre resto de míseros vassalos

Vem a seu lado: as Filhas da Memória

Não há mais que esperar. Já fui rainha:

Digna imortal coroa lhe oferecem,

Já fostes venturosos: não soframos

Prêmio de seus trabalhos: as Ciências

As injúrias, que o vulgo nos prepara:

Tornam com ele aos ares do Mondego;

Injúrias mais cruéis do que a desgraça.

Deixemos para sempre estes terríveis

Ralhando entrou. Que esperas tu dos livros?

Climas de mágoa, susto, horror, e estrago.

Crês que ainda apareçam grandes homens

Mostrai-me algum lugar desconhecido,

Por estas invenções, com que se apartam

Onde oculta repouse, até que possa

Da profunda ciência dos antigos?

Tomar de quem me ofende alta vingança.

Morreram as postilas, e os Cadernos:

Mas onde, se um Prelado formidável,

Caiu de todo a Ponte, e se acabaram

Esse Argos, que me assusta, vigilante

As distinções, que tudo defendiam,

Ao lugar mais remoto estende a vista?

E o ergo, que fará saudade a muitos!

Monstros do cego abismo, em meu socorro

Noutro tempo dos Sábios era a língua

Empenhai o poder do vosso braço;

Forma, e mais forma: tudo enfim se acaba,

Que se entre os homens me faltar asilo,

Ou se muda em pior. Que alegres dias

Ao triste vão dos ásperos rochedos,

Não foram os de Maio, quando a estrada

Onde o Tenaro escuro, e cavernoso

Se enchia de Arrieiros, e Estudantes!

Da morada sombria as portas abre,

Ó tempo alegre, e bem-aventurado!

Irei chorar meus dias sem ventura:

Que fácil era então o azul Capelo

Irei... Assim falando misturava

Adornado de franjas, e alamares,

Gemidos, e soluços, que sufocam

O rico anel, e a flutuante borla,

Dentro do peito a voz, e umedecia

Honra, e fortuna, que chegava a todos!

Co pranto amargo a face descorada.

Hoje é grande a carreira, e serão raros

Mas logo, serenando o rosto aflito,

Os que se atrevam a tocar a meta.

Corre por entre sustos, e esperanças

Ah Gonçalo! Gonçalo! que mais vale

Ao caro abrigo do fiel Gonçalo.

Tirar coa própria mão no fértil Souto

A sonolenta, a pigra Ociosidade

Moles castanhas do espinhoso ouriço!

Por esta vez deixou de acompanhá-la:

Quanto é doce ao voltar da Primavera

E a lânguida Perguiça forcejando

O saboroso mel no loiro favo!

Pôde apenas segui-la com os olhos.

Ó alegre, e famosa Mioselha

Fértil em queijos, fértil em tramoços!

Toma a forma dum célebre Antiquário

Só lá de romaria em romaria

Sebastianista acérrimo, incansável,

Podes viver feliz, e descansado:

Libertino com capa de devoto.

Quem te obriga a levar sobre os teus ombros

Tem macilento o rosto, os olhos vivos,

O desmedido peso, que te espera?

Pesado o ventre, o passo vagaroso.

Nunca trajou à moda: uma casaca

Não tenhas do bom Tio algum receio:

Da cor da noite o veste, e traz pendentes

Comigo irás: bem sabes quanto posso.

Largos canhões do tempo dos Afonsos.

Se te envergonhas de ser só, descansa;

Dizem que o tempo da mais bela idade

Fiel parente, amigo inseparável,

Consagrou às questões do Peripato.

Eu farei que abraçando o mesmo exemplo

Já viu passar dez lustros, e experiente

Muitos se apressem a seguir teus passos.

Sabe enredos urdir, e pôr-se em salvo.

Assim falava: quando um ar de riso

Entra por toda a parte, e em toda a parte

Apareceu no rosto de Gonçalo.

É conhecido o nome de Tibúrcio.

Tudo o que se deseja se acredita;

Nem há quem o seu gosto desaprove.

Gonçalo, que foi sempre desejoso

Ele porque já traz no pensamento

Da mais bela instrução, lia, e relia

Poupar-se dos estudos à fadiga

Ora os longos acasos de Rosaura,

Não vacila na escolha, e se aproveita

Ora as tristes desgraças de Florinda,

Da feliz ocasião, que lhe assegura

E sempre se detinha com mais gosto

O meditado fim de seus desejos.

Na cova Tristiféia, e na passagem

Da perigosa ponte de Mantible.

Convocam-se os heróis, e deliberam

Repetia de cor de Albano as queixas

Em pleno consistório, onde Gonçalo

Chamando a Damiana injusta, ingrata;

Silêncio pede, e assim a todos fala.

Quando Tibúrcio apaixonado, e triste

Heróis, a quem uma alma livre anima,

Que desprezando as Artes, e as Ciências,

Narcisa chega entre raivosa, e triste,

Ides buscar da Pátria no regaço,

E fingindo esquecer-se da mantilha

Longe da sujeição, e da fadiga

Para mostrar-se irada, desta sorte

Doce descanso, amável liberdade:

Em alta voz lhe fala. Será certo

Se algum de vós (o que eu não creio) ainda

Que pertendes fugir, e que me deixas

Tem na alma o vão desejo dos estudos,

Infeliz, enganada, e descontente?

Levante o dedo ao alto. Uns para os outros

Assim faltas cruel, pérfido, ingrato

olharam de repente, e de repente

Dum longo amor aos ternos juramentos?

Rouco, e brando sussurro ao ar se espalha:

Não disseste mil vezes... mas que importa

Qual nos bosques de Tempe, ou nas frondosas

Que os meus males recorde? enfim, perjuro,

Margens, que banha o plácido Mondego,

As tuas vãs promessas me enganaram.

Costuma ouvir-se o Zéfiro suave,

Justiça pedirei ao Céu, e ao Mundo:

Quando meneia os álamos sombrios.

O mundo tem prisões, o Céu tem raios.

Nenhum alçou a mão, e a Ignorância

Pareceu consolar-se, imaginando

Falava; e o herói, que arrasta ainda

Sonhadas glórias de futuro império.

Dum incômodo amor os duros ferros,

Parece vacilar; quando Tibúrcio

Dispõe-se a companhia, e se aparelha

Dá conselhos a um, a outro ameaça

Para partir antes que o Sol desate

Pondo irados os olhos em Narcisa.

Sobre a Terra orvalhada as tranças d'oiro.

Diz-lhe que em vão suspira, que em vão chora

Tibúrcio tudo apronta. Mas Janeiro

E que sempre tiveram as mulheres

Loquaz, traidor, doméstico inimigo

Para enganar aos míseros amantes

Voa de casa em casa publicando

As lágrimas no rosto, o riso na alma.

Da forte esquadra a próxima partida.

Gonçalo então, que o seu dever conhece,

Dá provas de valor, e de prudência.

Guiomar, velha que há muito que insensível

Ouve Narcisa bela, (lhe dizia)

Às delícias do amor, aferrolhando

Serena a tua dor, e os teus queixumes:

Emagrece nos míseros cuidados

O teu pranto me move, injusto pranto,

Da faminta ambição, e é na Cidade

Que o meu constante amor de ingrato acusa:

Uma ave de rapina, que entre as unhas

Sossega: a nova herança dum morgado

Leva tudo o que encontra aos ermos cumes

É quem me chama, a ausência será breve.

Da escalvada montanha, onde a festejam

Tempo depois virá que em doces laços

Coa boca aberta os ávidos filhinhos:

Eterno amor as nossas al mas prenda,

Triste agora, e infeliz ouve, e se assusta

E então farás tibornas e magustos.

Das notícias cruéis, que o Moço espalha.

Nem sempre cobre o mar a longa praia:

Ó Ama desgraçada! Ó dia infausto!

Nem sempre o vento com furor raivoso

Agora que esperava mais sossego

Do robusto pinheiro o tronco açoita.

Principiam de novo os meus trabalhos!

Estas, e outras palavras arrancava

Acaba de falar, e lhe oferece

Do peito descontente, enquanto a Filha

A leve bolsa, que Narcisa aceita

Amorosa, e sagaz estuda os meios,

Como penhor sincero de amizade,

Com que possa deter o ingrato amante:

Bolsa, que deve ser na dura ausência

Faz ajuntar de partes mil à pressa

Breve consolação de tristes mágoas.

Cordões, e anéis, e a pedra reluzente,

Que os olhos desafia: os seus cabelos,

O experto Amigo, que se mostra em tudo

Que desconhecem o toucado, empasta

Companheiro fiel, com os olhos tristes,

Coa cheirosa pomada: a Mãe se lembra

Pondera os longos, e ásperos caminhos:

Da própria mocidade, e lhe vai pondo

Lembra funestas noites de estalagem,

Com a trêmula mão vermelhas fitas.

E adverte em vão, que ao menos por cautela

Simples noiva da aldeia, que ao mover-se

Deve fazer-lhe a bolsa companhia.

Teme perder o desusado adorno,

Deixando enfim inúteis argumentos

Nunca formou mais vagarosa os passos.

Remete a decisão ao próprio braço.

Não se esquecem das unhas, nem dos dentes,

E neste giro o seu prazer sustenta.

Armas, que a todos deu a Natureza.

Ouvem-se pela casa em som confuso

Entanto a mãe, que já por experiência

As troncadas injúrias, e os queixumes.

Os enganos conhece mais ocultos,

Assim dois cães, se o hóspede imprudente

Busca novos pretextos de vingança

Lança da mesa os ossos esburgados,

Fingindo torpes, e horrorosos crimes,

Prontos avançam; duma, e doutra parte

E espera ouvir gemer em poucas horas

Se vê firme o valor: mordem-se, e rosnam;

O mancebo infeliz em prisão dura.

Mas não cessa a contenda. Amigo, e amante,

Mas Rodrigo, que ouviu o rumor vago,

Que farias, Gonçalo, em tanto aperto?

À pressa chega, e desta sorte fala.

Concorre a plebe, e o férvido tumulto

Vai pelas negras Fúrias conduzido

Que desgraças te esperam! foge, foge

Despertando nos peitos a desordem.

Gonçalo, enquanto há tempo: gente armada

Ninguém sabe por quê, mas todos gritam.

Vem logo contra ti. Guiomar convoca

Já voam as cadeiras pelos ares:

Todo o poder do mundo: um só momento

Pedras, e paus de longe se arremessam.

Não percas, caro amigo; os companheiros

E se a cândida Paz com rosto alegre

Com alvoroço esperam. Ah deixemos,

Serenou as desgraças deste dia,

Deixemos duma vez estas paredes,

Os teus dentes, intrépido Gonçalo,

Onde co próprio sangue escrita deixas

Viste voar em negro sangue envoltos.

De teu trágico amor a breve história.

Torna alegre Narcisa, e cinco vezes

É já outro o Mondego: a liberdade

Abriu a bolsa, e numerou a prata:

Destes campos fugiu, e só ficaram

Fez diversas porções, que num momento

A dura sujeição, e o triste estudo.

Tornou a confundir: não doutra sorte

Enfim hei de apartar-me desta sorte?

O menino impaciente, e cobiçoso,

Ó sempre tristes, sempre amargos sejam

Quando alcança o que há muito lhe negavam,

Os teus últimos dias, velha infame.

Repara, volta, move, ajunta, espalha,

Gonçalo, sim, chorando, monta, e parte.