O destino viaja de ônibus por John Steinbeck - Versão HTML

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A advertência que se faz a todos

É que nossas vidas e seu fim

demonstram

Quão transitórios somos, afinal.

EVERYMAN

Para GWYN

Peço que todos dêem ouvidos

E atentem, com reverência, para esta questão,

Que como peça moral se apresenta.

CAPÍTULO I

Quarenta e duas milhas aquém de San Isidro, na grande rodovia que

cruza a Califórnia de norte a sul, há uma bifurcação conhecida há quase cem anos como a Encruzilhada dos Rebeldes. Dessa encruzilhada parte uma

estrada municipal, que avança por quarenta e nove milhas, numa sucessão de curvas quase em ângulos retos, até atingir a outra grande rodovia estadual que leva de San Francisco a Los Angeles e, é claro, a Hollywood. Quem deseja ganhar o litoral, partindo do vale, tem de tomar a estrada municipal que

começa na Encruzilhada dos Rebeldes e galgar colinas, cruzar um pequeno

deserto, terras cultivadas e um desfiladeiro entre as montanhas, para atingir a rodovia da costa justamente no centro da cidade de San Juan de La Cruz.

A Encruzilhada dos Rebeldes é assim denominada desde 1862. Nessa

ocasião, ao que se diz, uma família de ferreiros, os Blanken, ali se estabelecera com forja e bigorna. Os Blanken e seus genros, gente pobre, ignorante,

orgulhosa e violenta, procediam do Kentucky. Não tendo propriedades nem

bens de raiz, trouxeram consigo para a Califórnia as suas únicas posses - seus preconceitos e seu partidarismo. Não tendo escravos, mesmo assim estavam

dispostos a dar a vida pela livre causa da escravidão. Quando a Guerra Civil começou, os Blanken chegaram a pensar em cruzar novamente a vastidão do

Oeste, a fim de lutar pela Confederação. Mas já haviam feito a longa viagem numa direção e o trajeto era muito extenso. Assim, foi na própria Califórnia, onde a maioria esmagadora da população apoiava a causa do Norte, que os

Blanken segregaram da União cento e sessenta acres de terra e uma ferraria, e declararam a Encruzilhada território confederado. Afirma-se também que eles chegaram a cavar trincheiras e a abrir seteiras nas paredes da ferraria, para defender aquela ilha rebelde dos odiados ianques. E os ianques locais, em sua maioria mexicanos e alemães, irlandeses e chineses, longe de atacar os

Blanken, haviam ficado muito orgulhosos da atitude adotada por eles. Os

Blanken jamais viveram tão bem, com tanta fartura, como durante a guerra, pois o inimigo os abastecia com galinhas, ovos e lingüiça de porco na época de abate, já que todos concordavam em que, independentemente da causa que

defendiam, a coragem dos Blanken merecia reconhecimento. Foi assim que a

bifurcação ganhou o nome de Encruzilhada dos Rebeldes, que conserva até

hoje.

Finda a guerra, os Blanken tornaram-se ociosos e agressivos, sempre

prontos a manifestar seu ódio e suas queixas, como acontece com toda nação derrotada e, assim, tendo-se evaporado o orgulho que suscitavam entre os

seus vizinhos durante o conflito, a gente do lugar foi aos poucos deixando de trazer-lhes cavalos para ferrar e charruas para reparar. Finalmente, o que os Exércitos da União não tinham logrado pela força das armas, o First Nacional Bank de San Isidro conseguiu por meio de uma hipoteca vencida.

Agora, quase cem anos depois, resta dos Blanken apenas a lembrança

de uma gente muito orgulhosa e implicante. Nos anos que se seguiram, a terra que lhes pertencera mudou de mãos muitas vezes, até ser finalmente

incorporada ao império de um magnata da imprensa. A velha ferraria

incendiou-se, foi reconstruída e incendiou-se novamente, e o que dela restou foi transformado numa garagem com bombas de gasolina e, mais tarde, em

oficina-restaurante-garagem e posto de serviço. Posteriormente, converteu-se também em estação rodoviária, quando Juan Chicoy e sua mulher compraram

as instalações e obtiveram um alvará para fazer circular um ônibus entre a Encruzilhada dos Rebeldes e San Juan de La Cruz. Tendo os rebeldes Blanken desaparecido da face da terra, levados pelo próprio orgulho e pela atitude insultuosa que são os reflexos da ignorância e da indolência, ninguém mais se lembra deles, nem de como eram. Mas a Encruzilhada dos Rebeldes é muito

conhecida e os Chicoy são muito populares.

Atrás das bombas de gasolina ficava o pequeno restaurante para

refeições ligeiras, equipado com um balcão, tamboretes fixos e três mesinhas, para quem preferia comer em melhor estilo. Como era costume dar gorjeta a Sra. Chicoy quando ela servia nas mesinhas, mas não quando servia no

próprio balcão, elas raramente eram usadas. Na primeira prateleira atrás do balcão havia doces, rosquinhas, pirulitos e bolinhos; na segunda, latas de sopa, laranjas e bananas; na terceira, caixas de flocos de milho, flocos de arroz e outros cereais torturados.

No fim do balcão funcionava uma pequena grelha com pio ao lado, as

alavancas usadas para bombear cerveja e soda, as sorveteiras e, sobre o

balcão, entre as caixinhas de guardanapos de papel, fichas de metal para a vitrola automática, frascos de sal, pimenta e molho de tomate; as tortas eram colocadas sob largas redomas de plástico transparente. Todo o espaço livre das paredes era decorado com calendários e gravuras brilhantemente

coloridas de jovens inverossímeis, de seios empinados e cintura esguia - loiras, morenas ou ruivas, mas todas apresentando busto bem desenvolvido, de

forma que o visitante de uma outra espécie bem poderia julgar, baseado na preocupação do artista e dos apreciadores, que a sede da procriação humana reside nas glândulas mamárias.

Alice Chicoy, isto é, a Sra. Juan Chicoy, que trabalhava entre todas

aquelas garotas sorridentes, tinha cadeiras largas, peito chato e caminhava pesadamente, arrastando os pés. Nem por sombra tinha ciúmes das garotas

dos calendários, nem das pequenas dos cartazes da Coca-Cola. Jamais vira

uma garota como aquelas e duvidava de que alguém já tivesse visto. Fritava ovos e carne picada, aquecia sopa enlatada, bombeava cerveja, sondava o nível das sorveteiras e, ao anoitecer, os pés lhe doíam tanto que ela se tornava irritadiça, sempre com uma resposta atravessado na ponta da língua. E, à

medida que o dia avançava, seu penteado se desmanchava, os cabelos

desciam pela testa e colavam-se-lhe ao rosto úmido, para serem de início

afastados com repelões e mais tarde, quando pendiam na frente dos olhos,

com assoprões nervosos.

Ao lado do restaurante ficava a garagem, instalada na velha oficina da

ferraria, cujo forro e cujas traves do teto eram ainda escuros, cobertos pela fuligem negra da velha forja. A garagem era o domínio que Juan Chicoy

presidia, quando não estava dirigindo o ônibus entre a Encruzilhada dos

Rebeldes e San Juan de La Cruz. Juan Chicoy era um sujeito bom e tranqüilo, de sangue irlandês e mexicano e que dobrava a curva dos cinqüenta anos

observando o mundo com olhos muito vivos e negros, plantados no rosto

moreno e simpático sob uma basta cabeleira.

A Sra. Chicoy amava-o loucamente e também com um pouco de medo,

pois ele era homem e não há muitos homens neste mundo, como Alice Chicoy

descobrira. Não há muitos deles neste mundo, como todos nós descobrimos,

mais cedo ou mais tarde.

Na garagem, Juan Chicoy consertava câmaras de ar furados,

desobstruía tubos de gasolina, limpava o sedimento duro como diamante, que se forma nos carburadores, colocava novos diafragmas em bombas de gasolina agonizantes e fazia todos os outros pequenos reparos que estão muito acima da capacidade de compreensão do motorista amador. Só não trabalhava na

oficina das dez e meia às quatro do tarde. Nesse período, dirigia o ônibus, conduzindo para San Juan de La Cruz os passageiros que desembarcavam na

Encruzilhada dos Rebeldes dos grandes ônibus da Greyhound e trazendo de

San Juan de La Cruz os passageiros que vinham tomar, na Encruzilhada dos

Rebeldes, o ônibus da mesma emprêsa que passava às quatro e cinqüenta e

seis, rumo ao norte, ou o Greyhound que descia para o sul, às cinco e

dezessete.

Enquanto o Sr. Chicoy dirigia o ônibus, o trabalho na garagem era feito

por uma sucessão de meninotes desenvolvidos ou rapazes imaturos, que

funcionavam mais ou menos como aprendizes. Nenhum deles durava muito no

emprego. Os motoristas desprevenidos que encarregavam os rapazes de uma

limpeza no carburador jamais poderiam avaliar sua capacidade de infligir

danos ao melhor dos carburadores e, embora Juan Chicoy fosse magnífico

mecânico, seus aprendizes eram geralmente rapazolas indolentes, que

passavam o tempo, entre um reparo e outro, metendo fichas na vitrola

automática ou procurando irritar Alice Chicoy. Para esses jovens, a grande oportunidade acenava constantemente, impelindo-os rumo ao sul, na direção de Los Angeles e, é claro, na de Hollywood onde, com o tempo, todos os

adolescentes do mundo acabarão por congregar-se.

Atrás da garagem ficavam as duas pequenas privadas, fronteadas por

treliças, com um letreiro que dizia HOMENS e outro que dizia SENHORAS.

Atalhos separados levavam às duas privadas, um flanqueando a garagem pela direita, o outro pela esquerda.

O que caracterizava a Encruzilhada e a tornava visível a grande

distância, por sobre os campos cultivados, eram os grandes carvalhos

brancos, que se erguiam em torno da garagem e do restaurante. Altos e

graciosos, de troncos e galhos muito negros, verde-claros durante o verão, pretos e tristes no inverno, os carvalhos eram pontos de referência no vale longo e plano. Não se sabe se os Blanken plantaram os carvalhos ou se,

simplesmente, decidiram estabelecer-se perto deles. A última hipótese parece a mais fundamentada, pois os Blanken não eram gente que plantasse algo que não se possa comer, e as árvores davam a impressão de ter mais de cem anos.

Bem poderiam ter duzentos; por outro lado, provavelmente suas raízes

estavam mergulhadas num veio d’água subterrâneo, o que teria determinado

seu rápido desenvolvimento naquela região semideserta.

No verão, as árvores projetavam sua sombra fresca em torno do posto

de serviço e assim, freqüentemente, os viajantes ali estacionavam para comer, enquanto os motores de seus carros esfriavam. O posto de serviço era

agradável à vista, pintado de vermelho e verde; uma cerca viva de gerânios, farta e espessa, circundava o restaurante. O cascalho branco, espalhado em frente e em torno dos bombas de gasolina, era revolvido e irrigado diariamente.

No restaurante e na garagem imperava o sistema e a ordem. Nas prateleiras do restaurante, por exemplo, as latas de sopa, as caixas de cereais e mesmo as grandes laranjas eram arrumadas numa sucessão de pequenas pirâmides,

sempre com quatro unidades na base, três a seguir, duas mais em cima e uma no topo. Do mesma forma eram arrumadas as latas de óleo lubrificante na

garagem, e as correias de ventilador pendiam de pregos cravados nos paredes, suspensas por ordem de tamanho e tipo. Tudo muito bem arrumado. As

janelas do restaurante eram protegidas por telas de arame e a porta externa, também entelada, batia com força após a entrada ou saída de cada freguês.

Alice Chicoy odiava moscas.

Num mundo que não compreendia muito bem e no qual não sabia como

agir, as moscas eram para ela o suplício final e maldoso que lhe era imposto.

Assim, ela as odiava com ódio cruel, e a morte de cada mosca, envenenada

pelo inseticida da bomba ou agonizando penosamente sobre o visgo do papel pega-moscas, era para ela motivo de prazer.

Tal como Juan e sua interminável sucessão de jovens aprendizes na

garagem, Alice contratava e despedia continuamente toda uma sucessão de

moças que a auxiliavam no restaurante. Essas jovens, estabanadas,

românticas e em busca de marido - as mais bonitas geralmente partiam com

um freguês depois de alguns dias de trabalho - pareciam pouco interessadas no serviço. Espalhavam a sujeira sobre o balcão, com trapos úmidos,

sonhavam no contemplação das revistas de cinema, suspiravam quando a

vitrola automática tocava - e a última das auxiliares contratadas pela Sra.

Chicoy tinha olhos avermelhados, vivia endefluxada e escrevia longas e

apaixonadas cartas a Clark Gable. Alice Chicoy suspeitava de que todas elas permitiam a entrada de moscas no restaurante. Norma, sua mais recente

tentativa no capítulo das auxiliares, sentira muitas vezes o peso da língua de Alice Chicoy, no que se referia às moscas.

A rotina matinal na Encruzilhada era invariável. A primeira claridade da

manhã, e no inverno antes dela, Alice acendia as luzes do restaurante e ligava a máquina de café expresso (coroada por uma efígie prateada que bem

poderia, em período arqueológico futuro, ser apresentada como uma das

divindades da raça dos Amudkins, os quais precederam os Atomitas que, por desconhecidas razões, haviam desaparecido da face da terra). O restaurante estava aquecido e bem arrumado quando os primeiros motoristas de caminhão estacionavam para tomar café. Depois deles chegavam os vendedores, que

deixam suas casas pela madrugada e seguem à toda para as cidades do sul, a fim de aproveitar bem o dia. Os vendedores sempre estacionavam ao avistar os caminhões ao lado do restaurante, pois os motoristas de caminhão são tidos como bons conhecedores dos restaurantes de beira de estrada.

Manhã alta, começavam a chegar os automóveis dos primeiros turistas,

em busca de café e informações sobre o caminho a seguir.

Os turistas procedentes do Norte não interessavam especialmente a

jovem Norma, mas os procedentes do Sul ou aqueles que chegavam de San

Juan de La Cruz pela estrada municipal, e que poderiam proceder de

Hollywood, sempre a fascinavam. Nos quatro meses em que ali trabalhava,

Norma ficara conhecendo pessoalmente quinze pessoas que tinham estado em

Hollywood, cinco das quais haviam visitado alguns dos estúdios e duas que haviam visto Clark Gable de perto. Inspirada pelos relatos das últimas, ela escrevera uma carta de catorze páginas que começava assim: "Prezado Sr.

Gable" - e terminava:" amorosamente, Uma Amiga". As vezes ela sentia arrepios de emoção, só de pensar em que o Sr. Gable poderia vir a saber que fora ela a autora da carta.

Norma era uma jovem fiel. Que as outras, as fúteis, corressem atrás dos

novos que surgiam, dos astros do momento - os Sinatras, os Van Johnsons, os Sonny Tufts. Mesmo durante a guerra, durante a época em que Gable não

trabalhou no cinema, Norma mantivera-se fiel a ele, aquecendo seus sonhos com uma fotografia colorida de Gable, em traje de vôo e com dois pentes de projéteis de metralhadora de 50 mm, pendentes dos ombros.

Ela não escondia seu desprezo por Sonny Tufts.

Apreciava homens mais adultos, com traços interessantes. As vezes,

esfregando um trapo molhado pelo balcão, com olhos sonhadores colados â

porto do restaurante, cerrava as pálpebras e sonhava um pouco. Então, no

jardim secreto de sua imaginação, Gable entrava no restaurante, parava,

surpreso ao avistá-la, entreabrindo ligeiramente os lábios e indicando, com os olhos, que acabara de reconhecer a mulher que seria sua. E em torno deles as moscas esvoaçavam, de um lado para o outro, impunemente.

As coisas jamais ultrapassavam esse ponto. Norma era muito tímida.

Além disso, seus conhecimentos de amor eram eminentemente teóricos. No

verdade, sua vida amorosa, até então, limitara-se a uma série de lutas

corporais travados nos assentos traseiros de automóveis, durante as quais se empenhara a fundo em manter as roupas sobre o corpo. A força de

concentração, jamais tinha sido vencida numa dessas lutas. Estava certa de que o Sr. Gable não somente jamais faria uma coisa dessas, como ainda

ficaria indignado se alguém tocasse no assunto perto dele.

Norma usava os vestidos baratos e laváveis vendidos pela National

Dollar Stores, embora, é claro, tivesse também um vestido de cetim para as festas. Mas quando se presta atenção, pode-se descobrir algo de belo até

mesmo num desses vestidos baratos e laváveis. Possuía também um broche

mexicano, de prata trabalhada, representando um marco de calendário asteca, que lhe fora legado por sua tia, pela qual Norma velara por sete meses,

embora ela desejasse realmente o casaco de pele de foca e o colar barroco de pérolas e turquesas. Mas estes foram destinados a outro ramo da família.

Norma tinha também um colar de pequenas contas de âmbar, deixado por sua

mãe. Jamais usava o os dois ao mesmo tempo. Além dessas preciosidades,

possuía outras jóias que representavam pura loucura e que ela sabia não

serem mais que pura loucura. Bem no fundo de sua mala, guardava uma

aliança folheada a ouro e um anel de diamante gigante, tipo brasileiro, que lhe tinham custado cinco dólares. Usava-os somente quando ia para a cama. Pela manhã, aliança e anel voltavam para o fundo da maio. Ninguém neste mundo

tinha conhecimento da existência das duas jóias, além dela. A noite,

adormecia fazendo girar aliança e anel no anular da mão esquerda.

Os alojamentos do pessoal na Encruzilhada eram dispostos de maneira

muito simples. Diretamente atrás do restaurante havia um corredor. Uma

porta no fim do balcão dava para o dormitório-sala de estar dos Chicoy, que continha uma coma de casal coberta por uma manta afegã, um enorme

aparelho de rádio, duas poltronas acolchoadas e uma cômoda - jogo completo de dormitório, como se diz - e uma lâmpada de leitura, cujo quebra-luz era de vidro fosco, esverdeado, imitando mármore. Para atingir seu quarto, Norma tinha de passar obrigatóriamente pelo dormitório-sala de estar dos Chicoy, uma vez que, segundo a teoria de Alice, as jovens devem estar submetidas a certa supervisão, e não dispor de inteira liberdade de movimentos. Para ir ao banheiro, tinha de cruzar o quarto dos Chicoy - ou sair pela janela de seu quarto, que era o que fazia habitualmente. O quarto do aprendiz de mecânico ficava do lado oposto do prédio, mas tinha entrada independente e ele podia movimentar-se livremente através dela e usar o cubículo que ostentava a placa HOMENS, atrás da garagem.

Era um belo e compacto grupo de edifícios, funcional e agradável. No

tempo dos Blanken, a Encruzilhada dos Rebeldes fora um lugar miserável,

sujo e suspeito, mas os Chicoy ali floresceram. Havia algum dinheiro no banco e um certo grau de segurança e felicidade. Essa ilha coberta pelos grandes carvalhos podia ser avistada a quilometros de distância. Não era preciso

consultar mapas rodoviários para localizar a Encruzilhada dos Rebeldes e a estrada municipal que leva a San Juan de La Cruz. No grande vale, os trigais estendiam-se para o este, até o sopé das altas montanhas, e a oeste eles

terminavam quase nos lombadas das colinas arredondadas, onde cresciam os

carvalhos selvagens, pontos escuros contra o verde da vegetação. No verão, quando o sol amarelado ardia no céu, esturricando as colinas, a sombra

projetada pelos grandes carvalhos da Encruzilhada dos Rebeldes era uma

visão agradável, dessas que a gente não esquece. No inverno, quando as

chuvas pesadas caíam, o restaurante era um local aquecido e abrigado,

cheirando a café, feijão e torto. Na primavera, quando a relva era muito verde nos prados e na encosta das colinas, quando as flores do campo

desabrochavam em magníficos tons de azul e ouro, quando espontavam nas

grandes árvores os brotinhos de um verde amarelado, não havia lugar mais

encantador em todo o mundo. Sua beleza não era dessas que acabam

cansando. Era das que pegam a gente pela garganta, ao amanhecer, e chegam a produzir um prazer tão profundo que até dói na boca do estomago, quando o sol se põe. O doce odor das flores do campo e da verde relva aceleram a

respiração de quem contempla a paisagem, produz um arfar quase sexual. E

foi nessa estação, em que tudo desabrocha e cresce, que Juan Chicoy, embora o dia ainda não tivesse rompido, saiu de casa e caminhou para o ônibus,

iluminando o caminho com uma lanterna elétrica.

Carson Espinhudo, o aprendiz de mecânico, seguia ao seu lado,

sonolento e estonteado. As luzes do restaurante ainda estavam apagadas.

Sobre as colinas do oriente não surgira nem mesmo o alvor acinzentado

que precede a madrugada. Ainda estava tão escuro que as corujas piavam

despreocupadamente. Juan Chicoy aproximou-se do ônibus, estacionado na

frente da garagem. A luz da lanterna, ele parecia um grande balão, onde

alguém perfurara enormes janelas prateadas. Carson Espinhudo, ainda

estremunhando, seguia-o de mãos nos bolsos, tremendo, não de frio, mas por estar meio tonto de sono.

Soprou, vinda do campo, uma brisa fresca trazendo consigo o aroma

das flores e o cheiro forte da terra, empenhada no esforço de produção da primavera.

CAPÍTULO II

A lanterna elétrica, coberta por um quebra-luz chato, iluminava com

sua luz crua somente pernas e pés, pneumáticos e troncos das árvores, junto ao solo.

Ela oscilava como um pêndulo e sua pequena lâmpada incandescente,

branco-azulada, quase cegava e Juan Chicoy, ao chegar à garagem, tirou uma penca de chaves do bolso do macacão, destacou a do cadeado e abriu de par em par as grandes portas. Depois acendeu a luz interna e desligou a lanterna.

Juan apanhou primeiro um gorro de mecânico, de tecido riscadinho,

que estava sobre o banco de trabalho. Usava macacão de zuarte, sem mangas e com grandes botões de cobre nas alças e sobre o reforço dos bolsos laterais, e envergava uma jaqueta de couro, escuro, com punhos e gola de lã tricotada.

Seus sapatos de trabalho eram do tipo arredondado e forte, com solas tão

grossas que até pareciam inchadas. Sob a luz da lâmpada da garagem, uma

velha cicatriz que tinha no rosto, ao lado do nariz, parecia um risco de

sombra. Correndo os dedos pela cabeça, ele ajeitou a basta cabeleira negra sob o gorro de mecânico. Suas mãos eram curtas, largas e fortes, com dedos espatulados e unhas achatadas pelo trabalho, aqui e ali deformadas e

enegrecidas por marteladas. O terceiro dedo da mão esquerda não tinha a

última falange e havia um pequeno cogumelo de tecido, uma protuberância de carne, na ponta da junta amputada. A protuberância era de um tecido

brilhante e diferente do resto do dedo, como se a ponto da junta tivesse

tentado transformar-se numa unha; nesse dedo ele usava uma larga aliança

de ouro como se, já que o dedo não servia mais para o trabalho, desejasse atribuir-lhe ao menos uma função ornamental.

Um lápis, uma régua e um medidor de pressão de ar surgiam de um

bolso do macacão. Juan fizera a barba na véspera e ao longo de seus

maxilares e no pescoço os fios que repontavam eram brancos, como o pêlo de um velho cão de caça. Isso era mais que aparente porque o resto da barba era negro-azulada. Seus olhos escuros eram apertados e cheios de humor, tal

como os de um homem que entrecerra os olhos quando a fumaça do cigarro os irrita e ele não pode tirá-lo da boca. A boca de Juan era cheia e boa, uma boca relaxada, com o lábio inferior ligeiramente avançado - não numa

demonstração de petulância, mas de bom humor e autoconfiança - e o lábio

superior bem conformado, riscado ao centro por uma profunda cicatriz, quase branca contra o tom queimado da pele. O lábio devia ter sido profundamente cortado havia muito tempo e a cicatriz branca parecia agora um profundo

desfiladeiro no tecido, que se erguia de ambos os lados. Suas orelhas não eram grandes, mas acabanadas, projetando-se do crânio como duas conchas,

ou na posição em que as colocamos, com as mãos, quando desejamos ouvir

melhor alguma coisa. Juan dava a impressão de estar constantemente atento ao que ouvia, enquanto seus olhos pareciam estar rindo do que ouvia, e

metade de sua boca desaprovando. Seus movimentos eram sempre seguros,

ainda quando não estivesse fazendo coisas que requerem segurança. Suas

mãos moviam-se rápida e precisamente, atingindo exatamente o ponto visado.

Seus dentes eram longos, com as bordas incrustadas de ouro, o que lhe

dava ao sorriso uma certa ferocidade.

Dos pregos cravados na parede, sobre a banca de trabalho, ele retirou

as ferramentas que desejava, colocando-as numa caixa chata e alongada -

chaves inglesas, alicates, várias chaves de fenda, um martelo elétrico e uma marreta. Ao seu lado, Carson Espinhudo, ainda tonto de sono, apoiava o

cotovelo sobre a superfície oleosa da banca.

Espinhudo envergava o "sweater" remendado de um clube de

motociclismo e tinha na cabeça a coroa serrilhada de um velho chapéu de

feltro. Era um rapaz de dezessete anos, magro e de cintura fina, ombros

estreitos, nariz alongado e olhos que, muito claros pela manhã, se tornavam pardo-esverdeados à medida que o dia avançava. Uma pelugem dourada

cobria-lhe a ponta do queixo e seu rosto era perfurado, intumescido e roído pela acne. Entre as velhas cicatrizes, havia novas pústulas, purpurinas e vermelhas, algumas em processo de crescimento e outras murchando. A pele

rebrilhava com os inúteis medicamentos que são vendidos aos que sofrem

desse mal.

As calças de zuarte de Espinhudo ajustavam-se como luva ao seu corpo

e eram tão longas que as barras dobradas continham mais de trinta

centímetros de tecido. Eram presas, na cintura fina, por um largo cinto de couro, muito bem trabalhado, com larga fivela de prata entalhada, que

ostentava quatro pequenas turquesas. Espinhudo fazia o possível para manter as mãos longe do rosto, mas quando dava por si estava coçando a área

inflamada e tinha de esforçar-se para baixá-las novamente.

Escrevia para todos os laboratórios farmacêuticos que anunciam

preparados destinados a acabar com as espinhas e consultara toda uma série de médicos, os quais sabiam que nada poderiam fazer por ele e que

provavelmente as espinhas desapareceriam por si, dentro de alguns anos.

Contudo, prescreviam-lhe poções e ungüentos e um deles chegara a mantê-lo numa dieta exclusiva de legumes.

Seus olhos eram longos, estreitos e enviesados para cima, como os de

um lobo sonolento e, àquela hora matinal, estavam quase totalmente cobertos de muco. Espinhudo dormia prodigiosamente. Abandonado a si mesmo, podia

dormir quase indefinidamente. Todo o seu corpo e toda a sua alma eram

campo de batalha especialmente violenta da adolescência. Sua concupiscência era constante e, quando não era clara e diretamente sexual, encontrava

derivativo na mais profunda das melancolias, nos sentimentos tristes e

penosos, ou num misticismo forte e indefinido. Sua mente e suas emoções

viviam como o rosto, em erupção constante, constantemente irritadas e em

carne viva. Passava por fases da mais violenta pureza, quando se sentia

assombrado ante sua própria devassidão, e tais fases eram seguidas de

períodos de langorosa melancolia, que o prostravam, passando ele então

diretamente da depressão para o sono. Tratava-se de um processo que

funcionava quase como um opiato e o mantinha entorpecido e indiferente por longos períodos.

Naquela manhã, ele usava mocassins de couro branco e marrom, que

calçara sem meias, e seus tornozelos, sob as barras das calças de zuarte

dobradas, surgiam escuros e encardidos. Durante as fases de depressão,

Espinhudo ficava tão prostrado que nem pensava em tomar banho ou comer

regularmente. A coroa serrilhada do chapéu de feltro, que usava na cabeça, não tinha nada de bela, mas servia para manter longe de seus olhos a basta cabeleira loira e impedir que fosse manchada pelos respingos de óleo quando trabalhava debaixo dos automóveis. Contemplava fixamente Juan Chicoy, com olhar sem expressão, enquanto colocava as ferramentas na caixa e sua mente ainda se revolvia mansamente entre as macias nuvens algodoadas do sono

quase nauseante, de tão forte.

- Apanhe a lâmpada portátil e ligue logo o fio na tomada - disse Juan. -

Vamos, Espinhudo. Animo, acorde de uma vez!

Espinhudo sacudiu-se, como um cão molhado.

- Não sei, hoje não consigo acordar direito.

- Está certo, leve a lâmpada para fora e tire também o carrinho. Temos

de trabalhar ligeiro.

Espinhudo apanhou a lâmpada portátil, protegida por uma armação de

arame em forma de cesta, e começou a desenrolar o longo fio elétrico coberto de borracha, trançado no cabo da lâmpada. Depois ligou o soquete na tomada perto da porta e a forte lâmpada brilhou. Juan apanhou a caixa de

ferramentas, saiu da garagem e ergueu os olhos para o céu escuro. O ar não era mais o mesmo.

Uma leve brisa fazia tremularem as folhas mais tenras dos carvalhos e

acariciava os gerânios. Era uma brisa incerta, prenúncio de chuva. Juan já podia cheirá-la, como cheiraria uma flor.

- Por Deus - murmurou - se ainda por cima chover...

A este, os picos das montanhas começavam a surgir, muito escuros,

contra o branco leitoso da aurora. Espinhudo saiu do garagem com a lâmpada portátil, desenrolando o longo fio à medida que avançava.

A luz da lâmpada, as grandes árvores pareciam dançar no espaço,

refletindo o clarão em seus brotos amarelo-esverdeados. Espinhudo conduziu a lâmpada até o ônibus e voltou para a garagem a fim de apanhar o carrinho de mecânico, uma tábua sobre pequenas rodas de aço, que se usa para

trabalhar debaixo dos carros, e o colocou ao lado do ônibus, junto à lâmpada.

- Bem, parece que vai chover mesmo - observou.

- Aqui na Califórnia, quase todo ano chove nesta estação.

- Não estou me queixando da estação - respondeu Juan - mas com o

diferencial desmontado, os passageiros esperando e ainda por cima a terra empapada de água...

- É bom para os pastos - afirmou Espinhudo.

Juan parou, a encará-lo. Seus olhos estreitaram-se, divertidos.

- Claro - concordou. - Claro que é bom.

Constrangido, Espinhudo baixou os olhos. Agora, iluminado pela forte

lâmpada portátil, o ônibus tinha um aspecto estranho, quase patético, pois onde deveriam estar suas rodas traseiras havia apenas dois cavaletes de

madeira e, em lugar de repousar sobre os eixos, repousava sobre uma viga

apoiada nos cavaletes.

Era um velho ônibus, equipado com motor de quatro cilindros, de baixa

compressão, e um câmbio especial, patenteado, que lhe dava cinco marchas

para a frente, em lugar das três normais, duas reduzidas e duas à ré. Os

flancos arredondados da carroçaria, pesada e rebrilhante em sua pintura de alumínio, não ocultavam as marcas de antigas colisões, remendos e

amolgaduras de uma longa e violenta carreira. Não raro, quando se pinta em casa um velho automóvel, a pintura faz com que ele pareça mais obsoleto e dilapidado do que se pudesse envelhecer honrosamente.

No interior, o ônibus também fora recondicionado. Os assentos e

encostos, originalmente de palhinha, haviam sido recobertos de oleado e,

embora feito com capricho, - serviço não era obra de profissional. Quem

entrava no ônibus sentia ainda o cheiro azêdo do oleado, mesclado ao cheiro forte de óleo e gasolina. Era um ônibus velho, muito velho, que fizera muitas viagens e conhecera muitas situações difíceis. Seu soalho, de tábuas de

carvalho, tinha sido gasto e polido pelos pés de varias gerações de passageiros.

Os flancos do ônibus haviam sido entortados e desentortados muitas vezes. "

As janelas não podiam ser baixadas, pois toda a carroçaria fora colocada

ligeiramente fora de esquadro. No verão, Juan retirava os vidros e, no inverno, voltava a colocá-los.

O assento do motorista estava tão gasto que se via o conteúdo das

molas do estofamento, mas uma almofada de tecido estampado desempenhava

a dupla função de proteger o motorista e esconder as velhas molas. Suspensas do topo do pára-brisa, pendiam as mascotes: um sapatinho de bebê - para

proteção, pois os pés incertos de um bebê requerem a constante atenção e

assistência de Deus; - uma pequenina luva de boxe - para força, potência, segurança no volante, impulso dos pistões para fazer girar o virabrequim, poder da pessoa como indivíduo responsável e orgulhoso. Pendia também do

pára-brisa uma bonequinha de cabeleira de penas, envolta em provocante

sarong. Isso se destinava ao prazer da carne e da vista, do nariz e dos ouvidos.

Quando o ônibus estava em movimento, as três mascotes dançavam e

giravam sobre a cabeça do motorista. No suporte centrar do pára-brisa, sobre o topo do painel de instrumentos, havia uma pequena estatueta de metal da Virgem de Guadalupe, pintada em cores vivas.

Os raios que se projetavam de sua cabeça eram de ouro - seu manto era

azul; os pés da imagem repousavam sobre uma lua de metal, sustentada por

querubins. Ela era a ligação de Juan Chicoy com a eternidade. Pouco tinha a ver com a religião, no que se refere à Igreja e ao dogma, - muito com a religião no que se relaciona com a memória e os sentimentos. A virgem morena era

para ele sua mãe e a casinha em que, falando espanhol com um leve sotaque, ela o embalara. A mãe tomara a Virgem de Guadalupe como sua divindade

pessoal. Esquecidos tinham sido St. Patrick e Sta. Bridget e as dez mil pálidas virgens do Norte, para dar lugar àquela morena divindade que tinha sangue nas veias e uma estreita ligação com o povo.

Sua mãe admirava a Virgem, cujo festa se celebra no México com fogos

e foguetes e, está claro, o pai de Juan Chicoy, que era mexicano, não se

preocupava com a questão. Os foguetes tinham por finalidade festejar os

santos. Quem poderia pensar de outra forma? O tubo preso à varinha que

subia ao céu, chispando, era evidentemente o espírito ascendendo ao paraíso e o estouro e o clarão lá em cima representavam a dramática chegada à sala do trono celeste. Juan Chicoy, embora não fosse praticante, não se sentiria bem, agora que tinha mais de cinqüenta anos, se tivesse de dirigir o ônibus sem a imagem da Virgem de Guadalupe a velar por ele. Sua religião era prática.

Sob a Virgem, ficava o compartimento do porta-luvas, que continha um

revólver Smith & Wesson 45, um rolo de gaze, um vidro de iodo, um frasquinho de sais aromáticos e um quarto de litro de uísque. Juan confiava em que, equipado dessa forma, poderia enfrentar qualquer situação.

Sobre os pára-choques fronteiros do ônibus ainda se podia ler, com

certo esforço, a velha inscrição: “el gran poder de Jesus” (o grande poder de Jesus). Mas a inscrição havia sido obra de um proprietário anterior. Agora se lia sobre os pára-choques traseiros e dianteiros a simples palavra "Querida", pintada em grossas letras. Por isso o ônibus era conhecido como "Querida", por todos que dele faziam uso. Naquele momento, porém, estava imobilizado, sem as rodas traseiras, com o posterior suspenso, repousando sobre a viga colocada entre os dois cavaletes de madeira.

Juan Chicoy tinha nas mãos a nova engrenagem do pinhão e da coroa

do diferencial, que manuseava com cuidado, ajustando-lhe os dentes.

- Chegue mais perto com essa lâmpada - disse a Espinhudo, fazendo o

pinhão girar dentro da coroa. - Ainda me lembro de que uma vez coloquei uma coroa nova num pinhão velho e o negócio arrebentou de saída.

- Os dentes velhos roncam pra burro - observou Espinhudo. - A gente

pensa até que o troço vai explodir de um momento para o outro. Que será que arrebentou os dentes da coroa velha?

Juan ergueu a engrenagem da coroa contra a luz e fez o pinhão girar

lentamente, examinando o encaixe dos dentes das duas pecas.

- Não sei - respondeu. - Há muito coisa que ninguém sabe sobre metais

e motores. Veja a Ford. Ela fabrica cem carros, por exemplo, e dois ou três deles não servem para nada. Não é esta ou aquela peça que não funciona bem, o carro inteiro não presta. As molas, o motor, o bomba d'água; a correia do ventilador, o carburador. Pouco a pouco, tudo vai quebrando e ninguém sabe por quê. A gente pega um outro carro do mesmo modelo e pensa que é igual, mas vai ver e não é. Tem qualquer coisa que os outros não têm. É mais

potente. É como um camarada corajoso no duro, disposto a tudo. Esse nunca quebra, aconteça o que acontecer.

- Tive um desses - disse Espinhudo. - Um modelo A. Vendi ele. Aposto

que ainda está circulando por aí. Foi meu três anos e nunca gastei um tostão com ele.

Juan colocou a coroa e o pinhão novos no estribo do ônibus e ergueu do

chão a velha coroa. Indicou com o dedo a área fendida, onde os dentes tinham quebrado.

- Metal é um negócio gozado - disse. - Às vezes, parece que fica

cansado. Você sabe, lá no México, onde eu nasci, os açougueiros costumam

ter duas ou três facas de talho. Usam uma e deixam as outras cravadas na

terra. Descansa a lâmina, dizem eles. Não sei se é verdade, mas essas facas de talho são mesmo afiadas como navalhas. Acho que ninguém entende muito de

metais, nem mesmo o pessoal que trabalha nas fundições. Vamos meter este

pinhão no diferencial. Olhe, segure a luz aqui, assim.

Juan rodou o carrinho para baixo do ônibus, estirou-se sobre a longa

tábua, deu um impulso com os pés e desapareceu sob as entranhas do

veículo.

- Segure a luz um pouco mais para a esquerda. Não, mais alto. Assim.

Agora passe as ferramentas, sim?

As mãos de Juan começaram a trabalhar ativamente e uma gota de óleo

correu-lhe rosto abaixo. Ele limpou a cara com as costas da mão.

- Trabalho chato, esse - grunhiu.

Espinhudo curvou-se para observá-lo.

- Eu podia pendurar a lâmpada naquele jumelo - sugeriu.

- Não, não adianta porque daqui a pouco preciso da luz do outro lado -

respondeu Juan.

- Tomara que ponha esse negócio em ordem ainda hoje - suspirou

Espinhudo. - Esta noite quero dormir na minha cama. Não se pode dormir

direito numa cadeira.

Juan sorriu.

- Já viu gente mais brava que os passageiros, quando tive de voltar com

o ônibus quebrado? Parecia até que eu tinha arrebentado o negócio de

propósito. Estavam tão danados que reclamaram como o diabo das tortas da

Alice. Acho que eles pensam que ela faz as tortas. Mas, afinal de contas, quem viaja detesta qualquer contratempo.

- Pois é, mas estão lá nas nossas camas - resmungou Espinhudo. - Não

sei por que essa gente reclama tanto. Você, eu, Alice e Norma é que tivemos de dormir nas cadeiras. E os tais Pritchards é que são os mais chatos. Mildred, a garota, até que é boazinha, mas o velho e a velha são de amargar. Acham que estão sendo tungados. Ele já me disse mais de cem vezes que é presidente não sei do quê e que alguém vai ter de pagar por isso. Ultraje, foi o que ele disse. E

ele e a mulher dele estão dormindo na sua cama. Onde é que a Mildred está dormindo? - os olhos de Espinhudo brilharam na escuridão.

- Numa das poltronas, acho - respondeu Juan. - ou com o pai e a mãe

dela, quem sabe. Aquele camarada da tal companhia de novidades ficou com a cama de Norma.

- Fui com a cara dele - disse Espinhudo. - Não abriu a boca para

bronquear, como os outros. Disse que era melhor mesmo descansar um pouco

aqui. Não explicou com o que trabalha. Mas os tais Pritchards são de encher, menos a Mildred. Sabe para onde vão, Sr. Chicoy? Pois vão visitar o México.

Mildred esteve estudando espanhol na escola. Vai servir de intérprete para os velhos.

Juan colocou o pino de segurança na engrenagem e introduziu-o

cuidadosamente no lugar.

- Agora vamos tratar do diferencial.

A luz do dia clareava o céu e os picos das montanhas distantes. O

mundo em preto e cinza começava a dissolver-se e as coisas brancas e azuis surgiam prateadas e vermelhas, embora tudo o que fosse verde escuro ainda parecesse negro. As folhas mais tenras dos carvalhos pareciam negras e

brancas e o contorno das montanhas destacava-se duramente contra o céu.

Nuvens informes e pesadas, que rolavam incertos, começavam a colorir-se de rosa-escuro em suas bordas orientais.

Subitamente, as luzes do restaurante brilharam e a cerca-viva de

gerânios nasceu da escuridão. Juan voltou a cabeça para olhar.

- Alice está de pé - disse ele.- O café não deve demorar. Olhe, de uma

mão aqui, sim?

Os dois trabalhavam bem em conjunto. Sabiam o que devia ser feito.

Cada qual cumpria o que lhe competia. Espinhudo deitara-se também na

borda do carrinho e dava o aperto final nas porcas do diferencial, sentindo-se bem por estar trabalhando harmoniosamente ao lado de Juan.

Juan fazia força com a chave, para apertar uma porca de seu lado, a

chave inglesa resvalou e a cabeça da porca arrancou pele e carne das costas de sua mão. O sangue escorreu, escuro e grosso, pela mão suja de óleo. Ele levou-a à boca, para sugar o ferimento, e manchou os lábios de óleo.

- Machucou muito? - perguntou Espinhudo.

- Não, acho que isso é até sorte. Não se pode terminar um serviço

desses sem um pouco de sangue. Pelo menos, era o que meu pai dizia sempre.

- Juan sugou novamente o ferimento, que agora vertia menos sangue.

A luz e o calor da aurora já se filtravam sob o veículo, fazendo com que

a lâmpada elétrica perdesse algo de seu brilho.

- Só queria saber quantos vão chegar pelo Greyhound - observou

Espinhudo, falando sozinho. Então, foi possuído de um forte impulso, que

nasceu da forte afeição que nutria pelo Sr. Chicoy, naquele momento. O

pensamento era tão claro que quase o feriu. - Sr. Chicoy... - começou ele, atrapalhando-se, num tom de quem está pedindo, de quem vai solicitar,

implorar.

Juan ficou com o braço parado no ar, aguardando o pedido, pedido de

um dia de folga, pedido de aumento, pedido de alguma coisa. Aquilo só

poderia ser um pedido. Aquilo estava implícito no tom, e para Juan equivalia a encrenca. As encrencas sempre começam dessa forma.

Espinhudo silenciara. Não encontrava as palavras.

- Que é que você quer? - perguntou Juan, cautelosamente.

- Sr. Chicoy, não podia dar um jeito... quer dizer... não podia dar um

jeito de não me chamar de Espinhudo?

Juan retirou a chave inglesa da porca e voltou a cabeça para fitá-lo. Os

dois estavam deitados de costas, juntos, face a face. Juan tinha diante dos olhos as velhas crateras cicatrizadas, os prenúncios das novas espinhas que se formavam e uma grande pústula madura, amarelada, a ponto de vazar,

perto do nariz de Espinhudo. E, ao olhar, os olhos de Juan se enterneceram.

Ele sabia.

Aquilo lhe ocorreu subitamente, não podia compreender por que ainda

não havia dado pela coisa.

- Como é seu nome? - perguntou secamente.

- Ed - respondeu Espinhudo. -, Ed Carson, parente longe de Kit Carson.

Antes de aparecer esse negócio no meu rosto, eles costumavam chamar-me de Kit, na escola. - Sua voz era calma e controlada, mas o peito arfava-lhe com força, subindo e descendo, e o ar zumbia-lhe nas narinas.

Juan desviou os olhos, voltando o rosto para a lâmpada que ainda

ardia, suspensa da traseira do ônibus.

- OK. - disse ele - vamos levantar o bruto com os macacos. - Rolou para

o lado, saindo debaixo do veículo. - Agora, lubrifique logo isso.

Espinhudo partiu para a garagem, quase correndo, e voltou com a

pistola de lubrificação, puxando o cabo de ar comprimido. Depois meteu o

cano da pistola no orifício da engraxadeira e o ar comprimido silvou no

cartucho. A pistola matracou até a graxa começar a vazar pelo bujão. Ele

retirou o cano e rosqueou o bujão.

- Kit - disse Juan - lave as mãos e vá ver se o café já está pronto, sim?

Espinhudo seguiu para o restaurante. Junto da porta, onde se erguia

um grande carvalho, a sombra era ainda quase noturna. Ali ele parou, por um momento, recuperando o folego. Tremia, arrepiado, como se estivesse

resfriado.

CAPÍTULO III

A luz da manhã já clareava as montanhas que se erguiam a este

quando Juan Chicoy se ergueu e sacudiu com a mão a terra das pernas e das calças de seu macacão. O sol refulgia nas vidraças do restaurante e aquecia a grama em torno da garagem. Sua luz destacava o rubor das flores vermelhas do campo e, aqui e ali, o azul ferrete dos acianos.

Juan Chicoy colocou um pé no estribo do ônibus e curvou-se para

dentro. Esticando o braço, torceu a chave de contato e comprimiu o botão de partida com as costas da mão. O motor de partida rosnou, num protesto

enferrujado, e o motor do ônibus pegou, rugindo até Juan fechar o afogador.

Com o motor em marcha lenta, ele comprimiu o pedal de embreagem com uma

mão, engatou a reduzida e soltou a embreagem. As rodas traseiras giraram

lentamente no ar e ele deu volta ao ônibus, para verificar se o diferencial estava roncando.

Espinhudo lavava suas mãos sobre uma lata de gasolina, na garagem.

O sol aquecia uma folha de árvore parda, que o vento jogara a um canto da porta da garagem.

Pouco depois, uma pequena mosca abandonou a folha, que lhe servira

de abrigo durante a noite, e arrastou-se lentamente sob o calor do sol da manhã. Suas asinhas iridescentes estavam ainda pesadas e endurecidas pelo frio da noite. A mosca esfregou suas pernas contra as asas, esfregou as pernas e depois esfregou a cara com as patas fronteiras, sob o sol que por entre as grossas nuvens aquecia seus fluidos. Bruscamente a mosca levantou vôo,

circulou duas vezes no ar, passou sob os carvalhos e foi bater contra a tela da porta do restaurante, caiu para trás e zumbiu no chão, de costas. Depois se ergueu, levantou vôo novamente e foi colocar-se no batente da porta, em

posição.

Alice Chicoy, com o corpo dolorido pela noite mal dormida numa

cadeira, chegou à porta e olhou para o ônibus. Abriu apenas uma fresta de alguns centímetros na porta, mas a mosca aproveitou a oportunidade e voou para dentro do restaurante. Alice avistou-a e imediatamente atacou a intrusa com o pano de pratos que tinha na mão. A mosca esvoaçou estonteada, por

um momento, e desapareceu sob uma borda do balcão. Alice observou as

rodas traseiras do ônibus, girando lentamente no espaço, voltou à máquina de café expresso e abriu a válvula do vapor. O fluido pardo encheu o tubo

indicador de vidro ao lado da máquina, ralo e fraco. Ela correu o pano de pratos sobre o balcão e, ao fazê-lo, notou que, sob sua cobertura transparente de plástico, a grande torta de coco apresentava uma larga solução de

continuidade, de bordas irregulares. Apanhando uma faca, ela ergueu a

campânula de plástico, acertou cuidadosamente as bordas cortadas e meteu

as aparas na boca. Quando a campânula já estava quase no lugar, a mosca

surgiu, voou por baixo da cobertura e precipitou-se sobre a massa

esbranquiçada da torta. Colocando-se sob uma protuberância, para não ser

avistado do alto, ela dedicou-se ao doce com

método e rapidez. Era dona de uma alta e larga montanha de torta de coco e estava muito contente.

Espinhudo entrou, cheirando a graxa e gasolina, e sentou-se em seu

lugar do costume, num dos tamboretes.

- Muito bem - disse ele - já terminamos tudo, o ônibus está novo.

- Você e quem mais? - perguntou Alice, sarcasticamente.

- Bem, é claro que o Sr. Chicoy se encarregou da parte técnica. Gostaria

de tomar uma xícara de café e comer um pedaço de torta.

- Você já andou comendo torta de coco, antes de eu me levantar. - Alice

empurrou com as costas da mão o cabelo que lhe caía sobre os olhos. - Não pode negar.

- Está certo, ponha na minha conto - disse Espinhudo. - Pago tudo o

que como, não pago?

- Mas por que come tanto doce? Você passa o dia tirando doces do

mostruário. Torra quase todo seu salário nisso. Você vive de doces. Aposto que é isso que provoca essas espinhas. Por que não experimenta deixar de comer doces por algum tempo?

Constrangido, Espinhudo baixou os olhos para as mãos. Sob suas

unhas, nos pontos que a gasolina não atingira, havia manchas escuras de

graxa.

- Os doces dão muita energia - disse ele. - Quem trabalha, precisa de

muita energia. Lá pelas três da tarde, por exemplo, quando há uma folgo no serviço, é preciso comer alguma coisa para renovar a energia.

- Energia, uma ova - observou Alice - Você

tem tanta necessidade de alimento com energia quanto eu tenho de... - Não pronunciou a última palavra. Tinha uma linguagem das mais profanas, mas

jamais pronunciava todas as palavras, preferia deixar a coisa pendendo no ar.

Ela encheu uma xícara de café - uma xícara grossa, de fundo chato, sem pires

- clareou a mistura com leite quente e empurrou-a para o rapaz.

Espinhudo, com os olhos colados à jovem do anúncio da Coca-Cola, que

se rebolava provocantemente sobre a vitrola automática, pos três colheres cheias de açúcar na xícara e ficou a mexer a mistura, distraidamente, com a colher em posição vertical.

- Queria um pedaço de torta - repetiu ele, pacientemente.

- Está certo, afinal o enterro é seu Vai ficar com a barriga como um

balão.

Espinhudo lançou um olhar ao traseiro bem conformado de Alice e

desviou rapidamente a vista. Alice apanhou novamente a faca que já usara e cortou uma fatia da torta de coco. A fatia caiu sobre a mosca, comprimindo-o contra o pires. Alice fez o pires deslizar pelo balcão e Espinhudo

imediatamente começou a trabalhar sobre a fatia de torta com sua colher de café.

- O pessoal ainda não se levantou? – perguntou ele.

- Não, mas eles já estão fazendo barulho. Um deles deve ter usado toda

a água quente. Não ficou uma gota para o restaurante.

- Deve ter sido Mildred - observou Espinhudo.

- O que?

- A menina. Talvez tenha tomado banho.

Alice encarou-o.

- Olhe aqui, engula essa torta que dá energia e não comece a imaginar

besteiras.

- Não disse nada. Puxa, tem uma mosca aqui na torta!

Alice fungou.

- Ontem havia uma mosca na sua sopa. Acho que você traz moscas no

bolso.

- Não, olhe aqui. Ela ainda está esperneando.

Alice aproximou-se, para olhar.

- Pois mate a mosca! - gritou. - Esmague-a! Quer que fuja? - Apanhou

um garfo da caixa que ficava atrás do balcão, esmagou a mosca e os restos de torta e atirou tudo na lata do lixo.

- E a minha torta? - perguntou Espinhudo.

- Não se preocupe, você ganha outra. Não sei como sempre encontra

moscas. Ninguém mais encontra mosca na comida por que só você.

- Acho que é - disse baixinho.

- O que?

- Eu disse... sorte minha - observou Espinhudo.

- Ouvi o que você disse. - Ela estava agitada e nervosa. - Cuidado com