O dialeto caipira por Amadeu Amaral - Versão HTML

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O DIALETO CAIPIRA

Amadeu Amaral

INTRODUÇÃO

Tivemos, até cerca de vinte e cinco a trinta anos atrás, um dialeto bem pronunciado, no território

da antiga província de S. Paulo. É de todos sabido que o nosso falar caipira - bastante

característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e

inconfundível - dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia a sua

influência à própria minoria culta. As mesmas pessoas educadas e bem falantes não se podiam

esquivar a essa influência. (1)

Foi o que criou aos paulistas, há já bastante tempo, a fama de corromperem o vernáculo com

muitos e feios vícios de linguagem. Quando se tratou, no Senado do Império, de criar os cursos

jurídicos no Brasil, tendo-se proposto São Paulo para sede de um deles, houve quem alegasse

contra isto o linguajar dos naturais, que inconvenientemente contaminaria os futuros bacharéis,

oriundos de diferentes circunscrições do país...

O processo dialetal iria longe, se as condições do meio não houvessem sofrido uma série de

abalos, que partiram os fios à continuidade da sua evolução.

Ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não

existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana. De

algumas décadas para cá tudo entrou a transformar-se. A substituição do braço escravo pelo

assalariado afastou da convivência cotidiana dos brancos grande parte da população negra,

modificando assim um dos fatores da nossa diferenciação dialetal. Os genuínos caipiras, os

roceiros ignorantes e atrasados, começaram também a ser postos de banda, a ser atirados à

margem da vida coletiva, a ter uma interferência cada vez menor nos costumes e na

organização da nova ordem de coisas. A população cresceu e mesclou-se de novos elementos.

Construíram-se vias de comunicação por toda a parte, intensificou-se o comércio, os pequenos

centros populosos que viviam isolados passaram a trocar entre si relações de toda a espécie, e

a província entrou por sua vez em contato permanente com a civilização exterior. A instrução,

limitadíssima, tomou extraordinário incremento. Era impossível que o dialeto caipira deixasse de

sofrer com tão grandes alterações do meio social.

Hoje, ele acha-se acantoado em pequenas localidades que não acompanharam de perto o

movimento geral do progresso e subsiste, fora daí, na boca de pessoas idosas, indelevelmente

influenciadas pela antiga educação. Entretanto, certos remanescentes do seu predomínio de

outrora ainda flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tendências,

criadas pelas novas condições.

Essas outras tendências irão continuando, naturalmente, a obra incessante da evolução

autônoma do nosso falar, que persistirá fatalmente em divergir do português peninsular, e até do

português corrente nas demais regiões do país. Mas essa evolução já não será a do dialeto

caipira. Este acha-se condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Legará, sem

dúvida, alguma bagagem ao seu substituto, mas o processo novo se guiará por outras

determinantes e por outras leis particulares.

Desapareceu quase por completo a influência do negro, cujo contato com os brancos é cada vez

menor e cuja mentalidade, por seu turno, se modifica rapidamente. O caipira torna-se de dia em

dia mais raro, havendo zonas inteiras do Estado, como o chamado Oeste, onde só com

dificuldade se poderá encontrar um representante genuíno da espécie. A instrução e a

educação, hoje muito mais difundidas e mais exigentes, vão combatendo com êxito o velho

caipirismo, e já não há nada tão comum como se verem rapazes e crianças cuja linguagem

divirja profundamente da dos pais analfabetos.

Por outro lado, a população estrangeira, muito numerosa, vai infiltrando as suas influências, por

enquanto pouco sensíveis, mas que por força se farão notar mais ou menos remotamente. Os

filhos dos italianos, dos sírios e turcos aparentemente se adaptam com muita facilidade à

fonética paulista, mas na verdade trazem-lhe modificações fisiológicas imperceptíveis, que se

irão aos poucos revelando em fenômenos diversos dos que até aqui se notavam.

O que pretendemos neste despretensioso trabalho (de que pedimos escusa aos componentes)

é - caracterizar essa dialeto "caipira", ou, se acham melhor, esse aspecto da dialetação

portuguesa em S. Paulo. Não levaremos, por isso, em conta todos os paulistismos que se nos

têm deparado, mas apenas aqueles que se filiam nessa velha corrente popular.

É claro que não é esta uma tarefa simples, para ser levada a cabo com êxito por uma só

pessoa, muito menos por um hóspede em glotologia. Mas é bom que se comece, e dar-nos-

emos por satisfeito, se tivermos conseguido fixar duas ou três idéias e duas ou três observações

aproveitáveis, neste assunto, por enquanto, quase virgem de vistas de conjunto, sob critérios

objetivos. Quanto aos erros que, apesar de todo o nosso esforço, nos hajam escapado,

contamos com a benevolência dos entendidos.

* * *

Fala-se muito num "dialeto brasileiro", expressão já consagrada até por autores notáveis de

além-mar; entretanto, até hoje não se sabe ao certo em que consiste semelhante dialetação,

cuja existência é por assim dizer evidente, mas cujos caracteres ainda não foram discriminados.

Nem se poderão discriminar, enquanto não se fizerem estudos sérios, positivos, minuciosos,

limitados a determinadas regiões.

O falar do Norte do pais não é o mesmo que o do Centro ou o do Sul. O de S. Paulo não é igual

ao de Minas. No próprio interior deste Estado se podem distinguir sem grande esforço zonas de

diferente matiz dialetal - o Litoral, o chamado "Norte", o Sul, a parte confinante com o Triângulo

Mineiro.

Seria de se desejar que muitos observadores imparciais, pacientes e metódicos se dedicassem

a recolher elementos em cada uma dessas regiões, limitando-se estritamente ao terreno

conhecido e banindo por completo tudo quanto fosse hipotético, incerto, não verificado

pessoalmente. Teríamos assim um grande número de pequenas contribuições, restritas em

volume e em pretensão, mas que na sua simplicidade modesta, escorreita e séria prestariam

muito maior serviço do que certos trabalhos mais ou menos vastos, que de quando em quando

se nos deparam, repositórios incongruentes de fatos recolhidos a todo preço e de

generalizações e filiações quase sempre apressadas.

Tais contribuições permitiriam, um dia, o exame comparativo das várias modalidades locais e

regionais, ainda que só das mais salientes, e por ele a discriminação dos fenômenos comuns a

todas as regiões do país, dos pertencentes a determinadas regiões, e dos privativos de uma ou

outra fração territorial. Só então se saberia com segurança quais os caracteres gerais do dialeto

brasileiro, ou dos dialetos brasileiros, quantos e quais os subdialetos, o grau de vitalidade, as

ramificações, o domínio geográfico de cada um.

Seremos imensamente grato às pessoas que se dignarem de nos auxiliar, de acordo com as

idéias que aí ficam esboçadas, no aumento e no aperfeiçoamento desta modesta tentativa. A

essas recomendamos as seguintes normas a observar:

a) não recolher termos e locuções apenas referidos por outrem, mas só os que forem

pessoalmente apanhados em uso, na boca de indivíduos desprevenidos;

b) indicar, sempre que for possível, se se trata de dicção pouco usada ou freqüente, e se

geralmente empregada ou apenas corrente em determinado grupo social;

c) grafá-la sempre tal qual for ouvida. Por exemplo: se ouvirem pronunciar capuêra, escrever

capuêra e não capoeira. Isto é essencial, e há muitíssimas coleções de vocábulos que, por não

terem obedecido a este preceito, quase nenhum serviço prestam aos estudiosos, não passando,

ou passando pouco de meras curiosidades;

d) se houver diferentes modos de pronunciar o mesmo vocábulo, reproduzi-los todos com a

mesma fidelidade;

e) sempre que possa dar-se má interpretação à grafia adotada, explicar cumpridamente os

pontos duvidosos;

f) ter especial cuidado em anotar os sons peculiares à fonética regional (como o som de r em

arara, ou o som de g em gente) ; declarar como devem ser pronunciadas tais letras, no caso de

que o devam ser sempre da mesma maneira, e adotar um sinal para distinguir uma pronúncia

de outra, no caso de haver mais de uma (por exemplo, um ponto em cima do g quando soa

aproximadamente dg, para o diferençar do que soa a moda culta; uma risca sobre o c, para

significar que é explosivo, como em chave (tchave), etc.

I - FONÉTICA

1.º GENERALIDADES

1. Antes de tudo, deve notar-se que a prosódia caipira (tomando o termo prosódia numa

acepção lata, que também abranja o ritmo e musicalidade da linguagem) difere essencialmente

da portuguesa.

O tom geral do frasear é lento, plano e igual, sem a variedade de inflexões, de andamentos e

esfumaturas que enriquece a expressão das emoções na pronunciação portuguesa.

2. Os acentos em que a voz mais demoradamente carrega, na prolação total de um grupo de

palavras, não são em geral os mesmos que teria esse grupo na boca de um português; e as

pausas que dividem tal grupo na linguagem corrente são aqui mais abundantes, além de

distribuídas de modo diverso. Na duração das vogais igualmente difere muito o dialeto: se,

proferidas pelos portugueses, as breves duram um tempo e as longas dois, pode-se dizer,

comparativamente, que no falar caipira duram as primeiras dois tempos e as segundas quatro.

Este fenômeno está estreitamente ligado à lentidão da fala, ou, antes, se resolve num simples

aspecto dela, pois a linguagem vagarosa, cantada, se caracteriza justamente por um

estiramento mais ou menos excessivo das vogais (2),

3. Também decorre dessa mesma lentidão, como um resultado natural, o fato de que o

adoçamento e elisão das vogais átonas, coisas comuns na pronunciação portuguesa, são aqui

fenômenos relativamente raros. Com efeito, compreende-se bem que o português, na sua

pronunciação vigorosa e rápida, torture muito mais os vocábulos, abreviando-os pelo

enfraquecimento e supressão das vozes átonas internas, ligando-os uns aos outros pela

absorção das átonas finais nas vogais que se lhes seguem: subrádu, p'dáçu, c'rôa, 'sp'rança,

tiátru, d'hoj'em diante, um'august'assemblêia. Da mesma forma, compreende-se que o caipira

paulista, no seu pausado falar, que por força há de apoiar-se mais demoradamente nas vogais,

não pratique em tão larga escala essas mutações e elisões.

O caipira (como, em geral, todos os paulistas) pronuncia, em regra, claramente as vogais

átonas, qualquer que seja a posição das mesmas no vocábulo: esperança, sobrado, pedaço,

coroa, e recorre poucas vezes a sinalefa. Nos próprios monossílabos átonos me, te, se, de, o,

que, etc., as vogais conservam o seu valor típico bem distinto, ao contrário do que sucede com

os portugueses, em cuja pronunciação normal elas se ensurdeceram, assumindo tonalidades

especiais.

Pode dizer-se que no dialeto não lia vogais surdas: todas soam distintamente, salvos os casos

de queda ou de sinalefa. Dai provém o dizer-se que os caipiras acentuam todas as vogais, o que

é falso, mas explica-se. E que não se leva em conta a duração relativa das átonas e tônicas, a

que atrás nos referimos.

4. Não podemos, porém, atribuir inteiramente à influência da lentidão e pausa da fala essa

melhor prolação das vogais átonas, no dialeto. Haverá também causas históricas, por ora

pressentidas apenas.

O fenômeno é, naturalmente, complexo, e são complexas as suas causas; mas é impossível

negar que existe pelo menos uma estreita correlação entre um e outro fato.

5. Seria, aliás, muito interessante um estudo acurado das feições especiais da prosódia caipira,

com o objetivo de discriminar a parte que lhe toca na evolução dos diferentes departamentos do

dialeto. Chegar-se-ia de certo a descobertas muito curiosas, até no domínio dos fatos sintáticos.

A diferenciação relativa à colocação dos pronomes oblíquos, no Brasil, deve explicar-se, em

parte, pelo ritmo da fala e pelo alongamento das vogais (3), Esses pronomes, no português

europeu, se antepõem ou pospõem a outras palavras, que os atraem, incorporando-os.

Prosodicamente, não têm existência autônoma: são sons ou grupos de sons, destinados a

adicionarem-se aos vocábulos acentuados, segundo leis naturais inconscientemente

obedecidas (ênclise, próclise). Passando para o Brasil, a língua teve que submeter-se a outro

ritmo, determinado por condições fisiológicas e psicológicas diversas: era o suficiente para

quebrar a continuidade das leis de atração que agiam em Portugal. O alongamento das vogais,

dando maior amplitude aos pronomes na pronúncia, tornando mais sensível a sua

individualidade, veio acentuar, de certo, aquele efeito.

2.º OS FONEMAS E SUAS ALTERAÇÕES NORMAIS

6. Os fonemas do dialeto são em geral os mesmos do português, se não levarmos em conta

ligeiras variantes fisiológicas, que sempre existem entre povos diversos e até entre frações de

um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, só a fonética experimental poderia

dar uma notação precisa. Cumpre, entretanto, observar o seguinte:

a) s post-vocálico tem sempre o mesmo valor: é uma linguo-dental ciciante, não se notando

jamais as outras modalidades conhecidas entre portugueses e mesmo entre brasileiros de

outras regiões; s propriamente sibilante, assobiado, e bem assim chiante, são aqui

desconhecidos. Para produzir este som a língua projeta a sua ponta contra os dentes da arcada

inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes da arcada superior, só

deixando uma pequena abertura sob os incisivos: modo de formação perfeitamente igual ao de

c em cedo. (4)

b) r inter e post-vocálico (arara, carta) possui um valor peculiar: é linguo-palatal e guturalizado.

Na sua prolação, em vez de projetar a ponta contra a arcada dentária superior, movimento este

que produz a modalidade portuguesa, a língua leva os bordos laterais mais ou menos até os

pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade para cima, sem tocá-la na abóbada

palatal. Não há quase nenhuma vibração tremulante. Para o ouvido, este r caipira assemelha-se

bastante ao r inglês post-vocálico. É, muito provavelmente, o mesmo r brando dos autóctones.

Estes não possuíam o rr forte ou vibrante, sendo de notar que com o modo de produção acima

descrito é impossível obter a vibração desse último fonema. (5)

c) A explosiva gutural gh tem uma tonalidade especial, sobretudo antes dos semiditongos cuja

prepositiva é u, casos em que freqüentemente se vocaliza: áu-ua = água, léu-ua = légua).

d) ch e j palatais são explosivos, como ainda se conservam entre o povo em certas regiões de

Portugal (6), no inglês (chief, majesty) e no italiano (ciclo, genere).

e) A consonância palatal molhada lh não existe no dialeto, como na maioria dos dialetos port. de

África e Ásia, e como em vários dialetos castelhanos da América. (7)

7. Os fenômenos de diferenciação fonética que caracterizam o dial. resumem-se desta forma: