O grande ABC paulista: o fetichismo da região por Cecília Cardoso Teixeira de Almeida - Versão HTML

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CECÍLIA CARDOSO TEIXEIRA DE ALMEIDA

O GRANDE ABC PAULISTA: O FETICHISMO DA REGIÃO

Tese de Doutorado apresentada ao Programa

de Pós-graduação em Geografia. Área de

concentração: Geografia Humana.

Departamento de Geografia, FFLCH – USP.

Orientador: Prof. Dr. André Martin

São Paulo

2008

Àqueles a quem devo:

Elvio Rodrigues Martins. A inspiração profissional. Por menos que demonstre sou

imensamente grata pelas discussões, sugestões e apoio de quem sempre e mais

torceu por meu êxito. Obrigada do fundo do meu coração.

Elvira Cardoso T. de Almeida, por me lembrar que tudo passa e tem remédio...

Lúcio Teixeira de Almeida, por compreender minha impaciência com seu silêncio...

Lilian Lisboa Miranda por seu carinho, acolhimento e seriedade profissional. Bons

toques, nas horas certas. Uma boa surpresa que a vida trouxe e que gostaria para

todos os tempos. Obrigada!

Isabel Alvarez por ter “carregado o piano” em conjunto, com suas acolhidas e

risadas. Essa Béliquis é fogo! Uma admirável e forte amiga.

Ruy Moreira, quem me deu o norte profissional. Das conversas às sextas-feiras,

muitas idéias entre as quais a matéria prima dessa pesquisa. Muitíssimo obrigada,

feio”!

Um agradecimento muito especial ao André, pelo tom sempre calmo dos

encontros de orientação e pela sensibilidade frente às conjunturas profissionais em

que me encontrei.

No mais, aos amigos que estiveram próximos presentes e não...

Dedico este trabalho a:

Elvira Cardoso Teixeira de Almeida

Lúcio Teixeira de Almeida

E in memorian:

Armindo Cardoso

Jayme Pinheiro de Almeida

RESUMO

O tema desse trabalho se refere à definição do intitulado “Grande ABC

Paulista” à luz do debate da teoria da região e regionalização, desenvolvida a

partir das escolas de geografia introduzidas no Brasil, sobretudo a de influência

francesa.

Resgatamos tal noção através das contribuições de maior expressão

quanto à discussão regional demonstrando as formas como foram incorporadas ao

pensamento geográfico brasileiro e ao aparato técnico-operativo relacionado ao

Estado.

A partir disso, nos voltamos à formação territorial e aos desdobramentos

municipais que atualmente constituem o ABC, ou seja, as transformações quanto

ao papel que desempenhou ao longo do processo de desenvolvimento paulista, a

fim de avaliar a pertinência dessa denominação como unidade regional tomada e

usada pela impressa e autoridades políticas locais. Para tanto, averiguamos o

contexto em que surgiu no cenário brasileiro e as razões que induziram sua

disseminação e utilização a partir dos anos 50.

ABSTRACT

The theme of this work concerns the definition of "Greater ABC Paulista" in

the light of discussions of the theory of the region and regionalization, developed

from schools of geography made in Brazil, especially that of French influence.

We redeem this concept through the contributions of more words about the

regional discussion demonstrating the ways in which they were built into the

thinking and the geographic Brazilian technical device-related operating the state.

From there, we turn to the training area and the developments that

currently constitute the local ABC, or the changes on the role it played during the

development process Paulista, to assess the relevance of this designation as a

regional unit making and printed and used by local political authorities. To do so,

investigate the context discovered in the Brazilian scenario and the reasons that

led its dissemination and use from the 50

Palavras Chave

Metrópole, Região, Representação, Territorialidades, ABC Paulista

Key Words

Metropolis, Region, Representation, Territory, ABC Paulista

SUMÁRIO

Introdução...................................................................................... p.6

Capítulo 1 – Região e Geografia. O debate instaurado pela

Escola francesa e suas repercussões sobre a geografia

brasileira – fundamentações teórico-metodológicas................. p.14

1.1 - O ambiente de discussão da escola francesa de Geografia:

autores significativos para o debate regional.................................. p.17

1.2 - A Região. Considerações metodológicas............................... p.18

1.3 - As repercussões da Escola Francesa nas propostas de

divisão regional para o território brasileiro....................................... p.49

1.4 - Um ensaio de proposição – Região como categoria representativa

dos processos geográficos............................................................. p.61

1.4.1 - A Região do Grande ABC, a partir das inferências desenvolvidas

– “nem realidade empírica nem produto cognitivo”......................... p.66

1.5 - As determinações e os aspectos subjacentes à concepção/percepção

no cotidiano: continuidades/ descontinuidades; unidade/ fragmentação;

homogeneidade/heterogeneidade.................................................... p.73

6

Capítulo 2 - A Gênese de conformação territorial do ABC Paulista e a

posição de destaque em face da Região Metropolitana de São Paulo

(RMSP). ........................................................................................... p.102

2.1 - A Vila de Piratininga e as razões que levaram a escolha

de seu sítio........................................................................................ p.106

2.2 - Santo André da Borda do Campo e o processo de evolução

subseqüente: desdobramentos municipais....................................... p.178

2.3 - As emancipações políticas como resposta às demandas econômicas -

Frações sociais envolvidas nesse litígio, a seguir de 1930 e a forja

identitária; os anos 50 e a introdução do setor automotivo............... p.194

2.4 - As linhas gerais que caracterizaram as relações campo-cidade. A

conjuntura em que seu a composição do ABC Paulista.................... p.222

2.5 - Dessemelhança entre produção e consumo............................. p.249

2.6 - A queda tendencial nas taxas de lucros e a Grande Indústria no ABC

........................................................................................................... p.258

2.6.1 - Os anos 80 e as palavras de ordem: globalização, just in time,

adaptação, flexibilização, desregulamentação, estoque zero............ p.260

2.6.2 - Deslocamento fabril e setorial, desterritorialização industrial,

desindustrialização, descentralização, desconcentração e fragmentação

decisórias e produtivas. Alguns esclarecimentos................................ p.270

Capítulo 3 - Os anos 90: da região à cidade-região. Os reflexos das

transformações produtivas na definição do ABC Paulista........... p.274

3.1 - Os condicionamentos para re-definir “ região do Grande ABC” capazes

de revelar sua geograficidade............................................... p.281

3.2 - A definição oficial das regiões metropolitanas brasileiras e a região da

ciência geográfica: conteúdos, critérios, objetivos e limitações.......... p.288

3.3 - Representação e realidade: A Ciência Geográfica frente à

geograficidade do real......................................................................... p.306

7

3.4 - Região, regionalização: regiões homogêneas e polarizadas: do

planejamento setorial ao regional...................................................... p.309

3.5 – O ABC Paulista e a reprodução das relações produtivas. Inferências e

ligações entre o mundial, o regional e o local na organização da esfera

produtiva e na gestão pública das frações sociais presentes........... p.314

Considerações Finais...................................................................... p.323

Bibliografia........................................................................................ p.329

Introdução

Região metropolitana X região do ABC: oposição, complementaridade ou

unidade? Processos, agentes, escalas e sua representação.

Certas qualidades observadas sobre o chamado ABC paulista nos

intrigavam desde há muito. Uma espécie de encantamento diante do fato de

estarmos tão próximos do maior e mais importante pólo industrial brasileiro e ao

mesmo tempo saber tão pouco a seu respeito. Sete cidades das quais três ou

quatro se ouviam notícias com maior freqüência e notadamente São Bernardo do

Campo.

Este município cuja expressividade decorrera inicialmente da presença de

unidades fabris, instaladas, sobretudo, a partir dos anos 50, nos anos 80 por meio

à organização política do operariado, obteve projeção em diversas escalas: local,

regional, nacional e mesmo, internacional. Desta posição dominante adira a

justificativa para a expressão “Grande ABC”. Em sendo assim, sob que pretextos

fora convertida em “Região” uma vez que composta de cidades com tão díspares

realidades? Haveria razões para reavê-la apartada do arranjo territorial

metropolitano, e, portanto, daqueles circunscritos a sua própria definição? E,

seguindo outra linha de interlocução, como esse dinâmico centro produtor resistiria

às intempéries diagnosticadas pelos analistas econômicos ao término dos anos

9

80, sem para tanto, contar com as relações de que já dispunha com a capital

paulista?

Nesse caso, é reconhecido o fato de que as escolhas para tal elaboração

e o enquadramento dos municípios do ABC a uma mesma unidade regional,

repousaram sobre a presença marcante da atividade industrial em suas

interdeterminações, e destas, com as demais atividades metropolitanas. De sorte

essa identificação tem raízes no projeto nacional de industrialização, veiculado

pelo gabinete presidencial sob o governo de Juscelino Kubitschek, mas que

somente ganhou destaque quando unidades fabris tornam-se predominantes, isto

é, como centro e motor econômico nacional, capaz de redesenhar sua geografia. 1

Como o esperado, toda ordem de impasses inerentes aos

desdobramentos de uma implantação industrial de magnitude, até então inédita no

país, se fizeram sentir e redundaram na formação de uma força sindical do mesmo

modo aparelhada e expressiva.

Em pouco tempo o ABC, além de pólo industrial, passou ao conhecimento

público como lugar de ampla organização e mobilização política no que diz

respeito às condições e reivindicações trabalhistas, em face do grande capital que

ali se alojou. Isso não significa que, anteriormente a este período, tenham

inexistido iniciativas de atuação por parte da força de trabalho. Muito ao contrário,

as contendas por ela vividas foram marcadas por uma predominante postura de

enfrentamento.

Entretanto, tendo por horizonte de pesquisa apreender as relações entre

as metamorfoses porque passou a geografia do ABC, fundamentalmente por

intermédio do capital industrial automotivo, e as conseqüentes representações que

obtiveram (por parte do Estado, imprensa, senso comum, Ciência Geográfica),

basta indicar o final da década de 80, como marco decisivo de ações

reivindicatórias associadas à instalação de mudanças internas à esfera produtiva.

Durante essa fase chamada de “abertura” política emergiu uma série

movimentos de paralisação e de greves, em função das condições em que se

1 Existe uma extensa bibliografia sobre o desenvolvimento industrial do ABC a partir do nascimento

dos diferentes municípios, com suas especificidades, assim como sobre sua reformulação

cartográfica e administrativa. Podemos indicar a tese de doutorado de Maria Matilde Almeida Melo,

apresentada em 2001 ao programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC S.Paulo.

10

encontravam. Passados esses episódios e inseridas nos tempos que,

posteriormente ficariam como o mais duro período de crises sucessivas pelas

quais atravessou a economia brasileira, a indústria em seu formato transnacional

redimensionou as estratégias adotadas para sua acumulação, e redefiniu as

escolhas praticadas anteriormente.

Dessa apreciação resultou a retirada de fábricas outrora fomentadas pelas

generosas benfeitorias e facilidades ofertadas pela administração pública, e de

outro lado o encerramento de atividades manufatureiras ali tradicionalmente

fixadas. Em verdade, essa cadeia de decisões traduziu localmente os rumos que

as empresas deliberaram internacionalmente.

Iniciado o decênio ulterior surgiram fortes rumores sobre mudanças nesse

perfil econômico, tanto referente à força dos sindicatos, como propriamente às

adaptações exigidas pela esfera produtiva. Por conseguinte, a ostentação desse

fato ganhou todo o ABC, tendo por conduto a imprensa local, que transmitiu não

apenas esses acontecimentos como também tratou de alardear sobre a

desenfreada onda de demissões que supostamente adviriam daquela ocasião em

diante. Associadas a elas, vieram respostas referentes aos dirigentes políticos, às

plataformas dos partidos e sindicatos que rapidamente incorporaram este discurso

dirigindo-o em seu favor.

Notícias alarmavam as possibilidades de o ABC perder a posição de

liderança no quadro da industrialização brasileira, em razão de um pujante

passado de lutas e de negociações sobre as condições trabalhistas. Este dado foi

considerado como motivação suficientemente forte para levar ao procedimento de

egressão presente entre as unidades fabris.

Dirigindo-se a outros locais e atraídas por vantagens comparativas

concernentes aos fatores produtivos e a cobrança de impostos, esta migração era

dada como inequívoca e conseqüentemente o início de um processo mais longo e

de maior profundidade, ou seja, a temida desindustrialização.

A intimidação causada por aquelas ameaças trouxe à luz as evidências

sobre os vínculos concretos entre tensões geradas pela produção, a urgência de

firmar uma identidade regional e as formas de entendimento geográfico presentes.

11

Independente de nossas dúvidas sobre a legitimidade do termo região para nos

remeter ao ABC, essas relações de força fizeram com que investigássemos a

procedência originária de tal termo e que colocássemos em xeque o traçado de

seus contornos, apontando a uma redefinição.

Isto posto, passemos aos termos de nossa pesquisa. Primeiramente

buscamos fazer um apanhado geral sobre a introdução e trajetória da geografia no

Brasil. Procuramos verificar os princípios que costumaram acompanhar a

perspectiva regional no âmbito dessa ciência, a fim de abalizar as propostas de

regionalização, as influências que incidiram sobre ela, seus critérios e

pressupostos.

Em outras palavras, propusemos esquadrinhar as implicações dessas

acepções, os pontos de partida e subsídios de delimitação, enfim, compilar o

debate sobre seus significados e razões de ser. Assim supúnhamos que dessa

forma poderíamos averiguar os contributos da ciência geográfica ao aparato

administrativo oficial, cuidando em apontar as limitações respectivas a cada

âmbito. Da diversidade de propostas regionais obtidas para o Brasil, desdobraram-

se posteriormente a composição de regiões metropolitanas nos anos 70.

Contudo, devemos salientar que não se trata de uma explanação dos vários

autores das diversas escolas que passaram por esta discussão. 2 Coube a nós

apenas resgatar e, assim esclarecer, os elementos fundamentais que nos deram

suporte para desenvolver esse trabalho. Interessou-nos demonstrar a

correspondência entre as dinâmicas produtivas e suas diferentes apreensões, – os

reflexos sobre a construção do senso comum e à própria pesquisa regional –, para

daí retomá-las na perspectiva geográfica, no plano de seus conceitos e articulação

lógica. Para dar continuidade, fomos apurar em que medida esse recorte forjou a

disseminação de uma identidade particular, como um dos vértices a manter,

justificar e garantir à emancipação política, a autonomia decisória de que requer o

traçado municipal, em face da região metropolitana de São Paulo, isto em relação

aos recursos de que ambos dispõem. Em outros termos, examinamos a

pertinência e o caráter ideológico implícitos à oposição ABC Paulista e Capital.

2 Para tanto, indicamos o trabalho de Elvio R.Martins, tese de doutorado apresentada em 1997 ao

departamento de Geografia da FFLCH da USP.

12

Ainda no primeiro capítulo, somamos reflexões derivadas da Filosofia e das

Ciências Sociais, para corroborar e sustentar uma possível sugestão de

entendimento geográfico cujo mote empírico constituiu a referida metrópole e,

nela, o ABC paulista.

Depois desse levantamento que cruzou autores, conceitos e paradigmas

sobre os quais desenvolvemos nossas conjecturas, passamos à etapa

subseqüente que corresponde ao segundo capítulo.

Nele cotejamos alguns nomes da geografia e da história assim como de

outras ciências, a fim de explanar os diferentes momentos de formação do ABC

paulista, inserido no contexto brasileiro. Nesse momento de nossa investigação,

incidimos propriamente sobre a interpretação e comentários daqueles que, por

motivações diversas, a ele se dedicaram.

Com essa intenção, resgatamos a leitura sobre a metrópole paulista

realizada por Aroldo de Azevedo e seus colaboradores no clássico trabalho de

pesquisa intitulado “A Cidade de São Paulo - Estudos de Geografia Urbana”

distribuído em quatro preciosos volumes e datados do ano de 1956.

Para com ele dialogar, trouxemos Otaviano Gaiarsa em seu livro “A cidade

que dormiu três séculos”, de 1968. Esse historiador andreense nos contou, passo

a passo numa perspectiva estritamente local e parcial, o processo de composição

do arranjo territorial abecedense. Apesar de seus depoimentos e impressões se

comprometerem com a objetividade, a neutralidade e o rigor postos pelo

positivismo, em verdade, nos ofereceram uma voz de referência e de testemunho

muito particular sobre o mesmo tema. Se Aroldo de Azevedo pensou na posição

central ocupada pela cidade de São Paulo, no vigor de polaridade sobre seus

arrabaldes, Gaiarsa inversamente recai sobre o ABC responsabilizando a Capital

por ofuscar-lhe o dinamismo e valor.

Com o propósito de fechar essa etapa, capturamos as contribuições de

Francisco de Oliveira e Thomas Skidmore que nos ofereceram o quadro político e

econômico geral do Brasil no período que recobre, desde a década de 30 até o

final dos anos 70. Com eles nos foi permitido averiguar as passagens em que se

13

deram as transformações quanto às tarefas pertinentes aos distintos níveis de

gestão administrativa.

Evidenciamos, ainda, o papel e a articulação dos interesses das muitas

frações sociais envolvidas e os ardis de que se valeram para sobrepor

hegemonicamente uma a outra ao longo deste tempo. Ao estabelecer os elos

entre os projetos nacionais e os caminhos que levaram aos contornos geográficos

regionais e locais, retomamos as indagações sobre a correspondência entre

realidade e representação (senso comum, imprensa, lideranças políticas, ciência

geográfica).

A datação aludida se justificou através das importantes mudanças

acometidas pela crise dos anos 80. Tais foram suas dimensões que adentraram

ao decênio subseqüente convertendo-se em estratégias produtivas com “palavras

de ordem” como “adaptações”, “flexibilidade”, “estoque zero” em meio aos

paradigmas obscuros, mas ditos como pressupostos à “globalização”.

Temos daí, uma das balizas dos anos 90, ou seja, a intenção de

concretizar o programa de alterações sobre a tessitura produtiva, como diretriz

posta por meio às relações internacionais entre empresas e a afirmação da

mundialização do capital.

Como estandarte máximo de enfrentamento aos impasses relacionados à

tendência de queda das margens de lucros, foi composto o repertório de

desculpas para toda sorte de arbitrariedades no que tange à organização do

trabalho e a recolocação do ABC paulista. Em tais circunstâncias, tornou-se

patente o evidente fomento, por parte do Estado, em promover um ambiente de

competição entre cidades brasileiras capazes de abrigar o capital produtivo.

Esse conjunto de acontecimentos delineou o caminho de prosseguimento

do terceiro e último capítulo. Nele introduzimos a discussão sobre cidades-regiões,

desenvolvida justamente por conta das transformações a que testemunhamos nas

últimas décadas, vinculadas aos arranjos produtivos e sua corporificação

territorial. Com esta, pensamos fazer as amarrações finais que por sua vez

indicaram a necessidade de empreender novos trabalhos, esperamos, em futuro

próximo.

Capítulo 1

Região e Geografia. O debate instaurado pela escola francesa e suas

repercussões sobre a geografia brasileira – fundamentações teórico-

metodológicas

O debate sobre região e regionalização dentro da geografia pode se

apresentar, aos olhares desavisados, como uma mera discussão semântica que

não traduz nenhum patamar de entendimento de maior envergadura em face do

conjunto de desafios e problemas que se colocam como alvo de reflexão. Também

pode parecer estranho, que uma pesquisa que tenha por tema as transformações

introduzidas no ABC paulista pelas mãos do capital industrial e pela ação das

transnacionais, inicie com um capítulo em que o mote principal se dê por meio a

construção do conhecimento geográfico, e mais diretamente, àquele relacionado à

composição da categoria região e as necessidades de regionalização.

No entanto, temos a intenção de estabelecer um panorama geral das

concepções geográficas no Brasil, para colocá-las frente a frente aos

acontecimentos que se efetivaram por meio das realizações da iniciativa privada

(o capital produtivo) aliado à ação do Estado. Esse procedimento tornará possível

observar e indagar sobre as correspondências e pertinências entre as

denominações usualmente evocadas para tratar a conformação territorial de São

Paulo tal como Região do Grande ABC, Região Metropolitana de São Paulo e

Cidade-Região. Em outras palavras, queremos a partir de um modelo empírico, –

as complexas mudanças pelas quais passam as dinâmicas fabris abecedensses -,

avaliar como foram transmitidas e decodificadas para o plano da elaboração

científica e, se ainda, tomam por referência os critérios de unidade e de

isolamento enquanto regiões.

15

Entretanto, não seria possível perfazer esse caminho sem identificar as

ingerências da geografia francesa sobre a produção brasileira, especificamente,

no que tange à contenda regional. Sabidamente reconhecida, a extensão de tais

influências será aqui abordada com o intuito de discriminar, no último capítulo

desse trabalho, os aspectos que determinaram ou que permitiram destacar

formalmente da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), o denominado

“Grande ABC Paulista”, e assim, refletir sua atual pertinência.

Como veremos no capítulo seguinte, o ABC, hoje composto por sete

municípios, foi sendo desmembrado de uma mesma unidade territorial e política.

As razões que levaram a esse processo de emancipações atrelaram-se às

transformações produtivas instauradas em São Paulo, e, pela conseqüente

ampliação de seu desempenho e papel no conjunto da economia brasileira. O

ABC nasceu como fruto de uma perspectiva política de industrialização nacional

devidamente endossada pelo poder central ou governo federal para o estado

paulista, e, portanto, ajustado pelo recorte de caráter técnico-operativo na direção

de avaliar e viabilizar os investimentos públicos e privados. De outro lado, esse

recorte regional permitiu às instâncias públicas superiores administrar as

necessidades e demandas impostas pelo capital privado, a partir do momento de

sua instalação, e mais tarde, para sua manutenção e permanência.

Portanto, as escolhas para o enquadramento desses municípios à RMSP

repousaram sobre a divisão territorial do trabalho em que a presença marcante da

atividade industrial determinou suas correlações, e destas com a capital. Sua

assimilação como região se deu por meio do projeto nacional de industrialização

veiculado pela ação do Estado, e mais expressivamente, sob o governo de

Juscelino Kubitschek, mas que só obteve destaque quando as unidades fabris

tornam-se efetivamente seu centro motor, redesenhando àquela geografia em sua

função. 3

De tal sorte, surgiram todos os impasses inerentes aos desdobramentos

de uma implantação industrial de magnitude ainda inédita no país, redundando na

3 Existe uma extensa bibliografia sobre o desenvolvimento industrial do ABC a partir do nascimento

dos diferentes municípios, com suas vocações e especificidades, assim como sobre sua

reformulação cartográfica e administrativa. Podemos indicar a tese de Maria Matilde, apresentada

ao programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC S.Paulo.

16

formação de uma força sindical do mesmo modo organizada e significativa. Logo o

ABC, além de pólo industrial, passaria a ser entendido como lugar de ampla

organização e mobilização quanto às reivindicações trabalhistas, as condições de

exploração do operariado em face do grande capital. Genericamente, podemos

nos remeter como marco desta ação, ao final da década de 80, com a chamada

fase de “abertura” política, quando estourou uma série de greves por parte da

força de trabalho.

Passado esse tempo e inserido no famoso e duro período de crises

sucessivas pelas quais passou a economia brasileira, a indústria em seu formato

transnacional adentra os anos 90, redimensionando as alternativas oferecidas

para sua acumulação, e redefinindo as escolhas anteriores. A expressão empírica

dessa atitude constitui a própria saída de algumas das fábricas outrora

fomentadas pelas generosas ofertas da administração pública, como também o

fechamento de ramos tradicionais, ali localizados.

Feitas essas breves colocações, incidiremos sobre as principais

indagações no contexto da uma teoria da região e da regionalização formulada

pela escola francesa e por nós herdada.

É importante salientar que não se trata de um trabalho em que estejam

explanados os vários autores das diversas escolas que passaram por este

debate4. Nosso interesse configura, num primeiro momento, avaliar a

correspondência entre as dinâmicas efetivas da produção industrial e sua

expressão no plano da reflexão e dos conceitos, isto é, o quanto tal divisão forjou

a disseminação de uma oposição entre ABC paulista e a cidade de São Paulo e,

em que medida, pode-se considerá-la verdadeira. Ainda na mesma direção, as

relações entre realidade e mitos lançados por meio do senso comum e da opinião

formada pela imprensa, a respeito dos impasses criados pelas tensões

gestionárias desta região. Assim, o entendimento de alguns dos processos

vigentes no ABC e seus resultados serão agora abordados sob estes dois

domínios do conhecimento: a ciência geográfica e o senso comum.

4Para tal contribuição, indicamos o trabalho de Martins, 1997, tese de doutorado apresentada ao

departamento de Geografia da FFLCH da USP.

17

Isto porque as formas com que ambas as perspectivas tomam os

encaminhamentos dirigidos pela administração pública ao capital produtivo,

especialmente à produção industrial, demonstram os aspectos ideológicos ligados

ao marketing político. Em outras palavras, sua a apreensões das dinâmicas que

envolvem a orientação política e econômica por parte do poder público, produzem

linhas discursivas de onde nascem argumentos que mais tarde se incorporam com

maior ou menor êxito aos horizontes vislumbrados pela ação pública em cada

contexto.

Para conseguirmos este intento, vamos explorar, brevemente, os

caminhos pelos quais a geografia se embrenhou no que tange à discussão

regional. Passaremos então às formas de entendimento da realidade traduzida no

conceito de região em um período da história da geografia. Passamos a ela.

1.1 - O ambiente de discussão da escola francesa de Geografia: autores

significativos para o debate regional

Vidal de La Blache, Albert Demangeon, Daniel Foucher, Etienne Juil ard,

Pierre Dumolard, Andre Dauphené, Bernard Keiser, Leonard Guelke, Pierre

George, Yves Lacoste;

Ao longo do desenvolvimento da ciência Geográfica entre os séculos XIX

e XX, encontramos diferentes pensadores refletindo e definindo o caráter

específico de tal disciplina, seu objeto de reflexão, e por conseqüência, as tarefas,

metodologias e procedimentos que caberiam especificamente aos geógrafos.

Temos por exemplo, Max Sorre, Etiene Juil ard, Daniel Foucher, Pierre

Dummolard, Bernard Kaiser, David Grigg, enfim, um rol de autores que em alguma

passagem de suas produções ocuparam-se em identificar a particularidade da

geografia como campo do entendimento, colocando um ponto final no

questionamento de sua legitimidade enquanto conhecimento, preocupação essa

hegemônica durante tal andamento.

Mas foi com Vidal de La Blache (entre outros) que esta ciência chega

mesmo a ser concebida enquanto conhecimento regional. A partir de seus

18

trabalhos, introduziram-se inquietações que para fins expositivos podemos dividir

em duas vertentes. A primeira delas, parte do princípio que as Regiões

constituem-se como objeto observável empiricamente. Desta posição derivam-se

indagações tais como quais deveriam ser os pressupostos para definir uma região,

a que critérios correspondem sua delimitação, e que ferramentas caberiam à sua

demarcação. A segunda se dirige ao questionamento da existência propriamente

objetiva das regiões, ou seja levanta questionamentos sobre a conveniência da

metodologia regional diante das realidades estudadas, isto é, os significados e

suas razões de ser.

Tendo a primeira sobreposto a segunda, as regiões naturais e os gêneros

de vida constituintes do planeta tornar-se-iam a base sobre a qual caberia aos

geógrafos o ato de regionalizar, partindo da observação, passando à descrição, e

estabelecendo a correlação dos elementos delas integrantes, com o objetivo

último de alcançar a explicação.

Mas apesar da forte influência e do legado deixado por tais preceitos,

procedimentos e empreitadas dadas à geografia, isso foi há um pouco mais de

meio século e hoje nos voltamos a algumas indagações: O que entendemos por

região? Como e por que nos utilizamos dela? O que permite à imprensa afirmar o

ABC como região destacada e destacável da grande São Paulo? Que implicações

político-ideológicas possuem na gestão cotidiana das opções econômicas

realizadas pelo grande capital e corporações? Como isto ressoa no imaginário das

pessoas que ali estão e na formação de suas opiniões ou escolhas?

1.2 - A Região. Considerações metodológicas

Como havíamos dito, Vidal de La Blache circunscreveu a análise e

explicação geográfica ao âmbito da regionalização, seguindo a idéia de que os

atributos da própria região estariam concretamente presentes na realidade

objetiva, permitindo, portanto sua descrição.

“Los hechos se aclaram según el ordem com el que se agrupen. Si se

separa lo que se debe aproximar, si se une lo que debe separar, rompe

toda la relación natural; es impossible reconocer o encadenamiento que

enlaza, si enbargo, los fenômenos de los que se ocupa la geografia y

19

que constituye su razón de ser cientifica´.” (LA BLACHE in MENDOZA et

al i,1982 págs. 243-4)

Todavia, os elos entre os fenômenos relevantes a estes estudos, o

encadeamento que esclarece a disposição de seus elementos constituintes e a

maneira como se reúnem não se podem revelar segundo o autor, a não ser pela

distinção entre àquilo que define como artificial em contrapartida ao dado natural.

Referindo-se à importância desse procedimento para os geógrafos e ciência

Geográfica, nos diz:

“Em realidad no puede ser más oscuro. Lo artificial no puede ser claro;

pues al destruir lãs relaciones naturales de lãs cosas se condena uno a

no darse cuenta de nada: es ponerse em contradiccíon com realidades

que saltan a la vista.” (LA BLACHE in MENDOZA et al i ,1982; pág. 245)

Destas duas citações, podemos salientar três pontos para nossa reflexão.

O primeiro diz respeito ao caráter objetivo afirmado por La Blache, para nós,

irresoluto; o segundo, a menção da palavra artificial em oposição à natural tendo

por base a dicotomia homem natureza; e, finalmente, o terceiro, quanto à

abrangência da análise geográfica, os fenômenos e fatos com os quais deve se

ocupar e de seu estatuto científico atrelado a ambos os pontos descritos. De forma

sucinta, é muito simples concluir a que epistemologia esse geógrafo responde.

Parece-nos que, com esses pronunciamentos, é ele, La Blache, que fragmenta a

totalidade em partes, considerando-as como unidades estanques de um mesmo

corpo, apenas encadeadas por um artifício metodológico de agrupamento. É o que

constatamos mais uma vez nesse trecho da mesma autoria, quando busca

explicar a Região Natural:

“Intentemos pues clarificar lo que hay que entender por región natural. El

mejor médio para el o será librarnos de toda rutina escolástica y

situarnos, siempre que sea possible, ante realidades. La geografia no és

precisamente uma ciência de libros;” (LA BLACHE in MENDOZA et al i,

1982;pág. 246)

Ora, se assim fosse, a divisão regional em linhas gerais forneceria um

resultado unívoco para os diferentes sujeitos a quem a ela se colocasse. Mais que

isto, as interpretações apresentariam diferenças porque passadas pela

subjetividade individual, sem, no entanto examinar a empiricidade da região. E,

20

isto não é o que verificamos acontecer efetivamente. Em um trabalho sobre a

França, o próprio La Blache sofreu críticas por seus pares ao propor uma divisão

regional calcada em aspectos de ordem climato-botânica, ou seja, ao tomá-los

como fundamento exclusivamente determinante da região, apontando-os como

dados inquestionáveis em sua concretude e precisão.

Mas por que nos detivemos em expor tais considerações? É importante

lembrar-se da mencionada herança que a escola francesa deixa para a geografia

desenvolvida aqui no Brasil, cabendo a nós revalidá-la ou superá-la, assim como

investigar o quanto dessa tradição ainda permanece na lógica de entendimento

que construímos em nossos trabalhos.

Isto posto, passamos aos demais autores que, junto com La Blache –

concordando, discordando ou superando a idéia de Região Natural –, compõem

nossos propósitos, entre os quais, o de ilustrar algumas das principais posições da

escola francesa, de grande inserção na geografia brasileira. Posteriormente

apresentaremos nossa hipótese.

Assim, por exemplo, temos Albert Demangeon que, com seus estudos

regionais, acaba por desenvolver uma espécie de protótipo de enquete para ser

aplicado. Essa lista de perguntas traçada por ele teria o mérito de trazer à luz

aqueles aspectos necessários ao entendimento das dinâmicas de uma específica

região. Com esta intenção, tal proposta compõe-se de uma série de indagações

subdivididas e encaixadas em blocos temáticos. São eles: Terreno, Clima,

Hidrografia, Bosques, Árvores frutíferas, Economia rural, Cultivos, Criação de

gado, Indústria e comércio, Propriedades e explorações, Modos de vida e povos,

População e Divisões territoriais.

Esquadrinhando o conteúdo desse modelo, torna-se evidente o plano

cognoscitivo posto naquele momento e no qual se pretende emoldurar a

investigação regional. Manifesta-se uma explanação que aborda as localidades

como realidades estanques por meio do exame descritivo daquilo observado,

justapondo elementos, numa coerência um tanto contestável. Isto porque

identificamos em seus encadeamentos e de sua inserção em determinadas

classes de perguntas, a estagnação da análise pretensamente regional. Nesta

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abordagem a fixação dos elementos pertinentes aos lugares desconsidera os

fluxos e as interações entre as partes integrantes, pois dificultariam o encaixe em

uma daquelas modalidades. Ou seja, pela dinâmica própria ao que está sendo

estudado, tais classes de perguntas promoveriam uma incessante recolocação,

provocando diferenciações em seus resultados e conclusões. Portanto, esse

caminho o geógrafo não deve perfazer.

Os equivocados excessos deste procedimento esvaziam o caráter rico e

ativo da própria paisagem observada. Apesar de conhecermos o raciocínio que

levou àquele tipo de levantamento, não encontramos nenhuma menção que

aclarasse as razões para suas escolhas, permanecendo justificadas por si

mesmas. Ora, mais uma vez a percepção se pronuncia sobre os demais

instrumentos de entendimento levando à superficialidade, em tal tratamento de

mote regional.

De tal sorte, expressões como território, lugar, classe de terreno, excesso

de nascimentos, aparecimento e duração de vegetais, disposição de moradia,

dispersão populacional, etc., são colocadas simultaneamente, muitas vezes

fundindo os significados das categorias geográficas – ora usando uma ora, outra,

indiscriminadamente –, sem, no entanto, conduzir aos plausíveis objetivos da

pesquisa, por sua vez, ausentes de referimento. O resultado alcançado constitui

um mosaico de peças estanques, aprisionadas na posição que cumprem no

quadro da lógica da descrição.

Seu trabalho também sugere o escopo alusivo ao projeto unitário de

ciência Geográfica, o que poderia ser interessante pela imagem de totalidade a ela

subjacente. Todavia a unidade ergue-se sobre uma noção de natureza, composta

pela somatória daqueles corpos físicos que se observam, objetos inorgânicos que

têm suas dinâmicas vinculadas à vida orgânica.

Na outra ponta do questionário, os sujeitos (vida orgânica) aparecem sob

a insígnia população ou povos, não apenas excluídos desse conjunto intitulado

natureza, assim como das formações sociais que interam. Tal deslocamento pode

ser entendido pelo fato de que faz parte da Natureza tudo o que não deriva do

trabalho humano, e menos ainda, o próprio homem. Surge uma sociedade

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travestida de população, obliterando indivíduos e classes, que só aparecem

enquanto agentes mecânicos da produção e/ou modificadores da realidade

anterior.

Uma Geografia de Regiões nem sociais nem naturais, nem humanas,

nem físicas, que não atinge suas metas, apenas agrupa, lista e rotula. Reificada,

essa articulação metodológica reafirma a descrição, a objetividade e o empirismo

porquanto instrumentos essenciais para esses estudos. Tal constatação nos leva

a acreditar que o positivismo lógico se fez ouvir não só pelas impossibilidades

circunstanciais de escapar aos seus desígnios, mas por um compromisso ou

necessidade de corresponder a eles, sobretudo no que concerne à legitimidade

científica do conhecimento geográfico, seus procedimentos e objeto particular.

No entanto, em Daniel Foucher década de 40, encontramos aludida certa

suspeita tanto sobre o alcance do ato descritivo, como quanto ao emprego da

idéia Vidaliana de Região Natural. Mesmo valendo-se dela, sugere que se

ampliem correlações para que se possam apreender as transformações pelas

quais passam os lugares. Observamos isto no trecho a seguir:

“Para los geógrafos, la región es em primer lugar lo que l aman la región

natural.(...)Mientras la geografia se há limitado a discripciones mas o

menos cargadas de nomenclaturas, no há sentido la necessidad de

buscar el contenido exacto de esas individualidades naturales, que se

han convertido desde entonces em el punto de apoyo esencial de sus

especulaciones. (FOUCHER in MENDOZA et al i., 1982; pág. 281)

E, ainda Foucher:

“Pero, en fin, la región natural existe e se afirma a menudo por ciertas

identidades de poblamiento, de explotación, de formas de vida. Se

producen armonías entre a tierra y el hombre, em el augusto matrimonio

de la naturaleza com el que debe pedirle que provea su subsistência,

fecundándola com su trabajo. (FOUCHER in MENDOZA et al i., 1982;

pág. 283)

O mundo descrito nestas citações parece ter se cindido em dois. Quando

se remete à Região Natural, sugere cuidado em endossar a tradicional concepção

Vidaliana. Contudo, ao se deparar com as transformações de sua época, restringe

sua aplicação a certos tipos de trabalho, por exemplo, o agrícola, ou ainda, faz

dela substrato dos demais fenômenos.

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Embora carregado de pressupostos biológicos (como harmonia, equilíbrio,

etc.), apresenta a inquietação de converter em termos geográficos as alterações

ocasionadas pela urbanização. Daí resignificar a ideação de região. Decorrente

dessa avaliação, o autor introduziu a noção de nodosidade resgatada das

contribuições do geopolítico britânico Halford Mackinder, em que afirma:

“Lãs ciudades siempre han representado um nudo se relaciones, per han

representado um nudo de relaciones, pero el fenômeno de nodalidad,

tomando esta expressión, trás Vidal de la Blache, de Mackinder, se há

complicado y reforzado singularmente, com el crescimento y la

organización de lãs ciudades modernas.” (FOUCHER in MENDOZA et

al i., 1982; pág. 286)

Assim, traz para a discussão regional, o novo papel exercido pelas

grandes cidades que passam a ser, mais que em qualquer outro momento da

história do desenvolvimento humano, o centro da vida de relações. Essa recente

posição de prestígio se confirma pela extensão de suas influências, objetivadas

em geografias.

Talvez embutido em suas afirmações, esteja um interesse na gênese de

formação das Regiões, só que agora a partir do fenômeno urbano, que

corresponde à expressão social da forma material específica, particular à cidade

industrial. Evidentemente que Foucher não declara isto, tampouco nesses termos.

Mas enfatiza a força catalisadora de atividades que possuem tais cidades,

excedendo sua própria territorialidade.

Este duplo aspecto aparentemente contraditório – centralidade e extensão

– é, na verdade, o despertar de uma consciência intelectual que se depara com o

ritmo crescente e acelerado das forças produtivas, distintas do que alcunhou

antigas economias fechadas de antes” , e conseqüentemente, sua conversão no

campo do conhecimento geográfico e na visão de Região.

“Llegamos, pues, a cocebir la región como el terrtorio que se ordena

armónicamente em las formas de su actividad alredor de uma metrópoli

que se há convertido em capital.” (FOUCHER in MENDOZA, 1982; pág.

287)

Em seu ponto de vista, a unidade regional passa a ser comandada não

pelo que há em comum internamente a um lugar, e sim por meio da diversidade

produzida direta ou indiretamente pelas metrópoles. Demonstra a coerência

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existente entre os aspectos estudados, quando investiga as tramas desta nova

complexidade. De certa maneira, Foucher indica, senão a transposição, um

afrouxamento na rigidez do critério regional moldado sobre as denominadas

“características únicas”.

Mas de todas as contribuições que porventura tenha trazido, a mais

apropriada para nossa discussão, são os momentos em que se deteve na

equivalência entre a intricada geografia da modernidade e as propostas de

regionalização elaboradas pelo Estado, especificamente para a França. Vejamos a

seguir:

“Divisiones administrativas que quieran “crear –como decía L. Gal ois

em 1908- organismos mas conscientes de su unidad y de sus intereses”

deben ir más al á de esas pequenas unidades naturales, cuyos

contornos pueden tener em cuenta, com mucho, al reunirlas.”

(FOUCHER in MENDOZA et al i., 1982;pág. 285)

Como mencionamos anteriormente, para Foucher Região Natural perde

força interpretativa diante do mundo contemporâneo, limitando-se agora a suporte

da vida social.

Por outro lado, as regiões atuais não têm, necessariamente, vinculação

direta ou estreita com as vicissitudes políticas, o que demonstra certo divórcio em

relação às demandas do jogo de tensões provocado pela governabilidade. Mas

isso são nossas especulações. Para o autor, a geografia é sinônima ao tempo

presente, deixando o passado para a história.

Mas foram nos anos sessenta, que uma geógrafa chamada Etienne

Juillard enfrentou, de forma mais dura, a problemática regional. Aproximando-se

das idéias La Blache sobre região e regionalização, explorou e questionou os

atributos por ele definidos para caracterizar a unidade regional, tal qual a

conseqüente empreitada de revelar as individualidades próprias àquelas

localidades, postas a cargo dos geógrafos. Para a autora, as condições

irrepetibilidade e homogeneidade somadas à determinação de tal tarefa,

promoveriam um embotamento do diálogo profícuo entre geografia regional e

geral, reforçando as enumerações exaustivas tão correntes nas usuais

monografias, acomodando a intenção de um esforço maior de generalização. A

conceituação tradicional, em sua opinião, endossa e estimula as pretensas

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sínteses impregnadas de imprecisão e, por isso, são incapazes de fornecer uma

teoria regional tão imperativa naquele momento. Esta premência pode ser

justificada em diversos autores e trabalhos, quando por conta de suas

investigações, empregam deliberadamente o conceito de território, delatando a

ausência de bases comuns ou mesmo única para todas as aplicações realizadas.

Em suas palavras:

“Território definido unas veces por uma cierta uniformidad natural, étnica

ou econômica, otras distrito heredado de la historia y que nosresponde a

ninguna realidad actual, la región se concibe generalmente como uma

espécie de “dato” cuyos limites se esfuerzan em justificar em el umbral

del estudio.” (JUILLARD in MENDOZA et al i., 1982; pág 289)

Nessa citação, Juil ard observa e critica oportunamente a posição

Vidaliana sobre a existência empírica das Regiões, como algo posto no real, cujos

limites emergem objetivamente. A seu ver, essas delimitações de caráter duvidoso

servem, em verdade, de amparo às incumbências regionais, dispensando maiores

sofisticações de detalhes no que diz respeito aos critérios adotados. Em oposição

às aspirações de La Blache, testemunhamos em suas colocações um enorme

mal-estar com o tratamento teórico-prático dado à regionalização, e isto nos

diferentes círculos profissionais.

“Ahora bien, la región ya no es hoy esse terreno um poço confidencial de

la investigación geográfica, ni esse marco folklórico em que se

complacen cierta ideologias reacionárias. Cada vez más, em los médios

de actuación econômica y social, si piensa el desarrol o em términos de

ordenación del território de regionalización.(...)La necesidad de eficácia

plantea el problema de la definición de la región.” (JUILLARD in

MENDOZA et al i., 1982; pág 290)

Tentando buscar novas saídas para os problemas apresentados, acaba

por conduzir-se ao âmbito do funcionalismo e à adoção dos termos espaço

uniforme e espaço funcional. A temática espacial surge para dar conta das

abrangências e magnitudes alcançadas a partir da sofisticação produtiva, e

mesmo, da frenética teia de interações que incorporam e superam os limites

encontrados em períodos pretéritos.

A idéia de complementaridade entre regiões, a partir da uniformidade da

paisagem e da coesão das funções, caracteriza a unidade regional de Juillard.

Complementaridade que pressupõe interdependência entre os lugares de

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diferentes regiões, ligadas à divisão de atividades e às competências singulares a

cada uma. De tal sorte, produz o aspecto de coesão funcional cuja feição empírica

constitui a própria paisagem em sua paridade. Este enfoque carrega consigo outro

ponto de vista importante, a combinação dos tipos de relações entre os elementos

componentes da região e os múltiplos atributos dos fenômenos que podem

comparecer. Vemos a introdução do par qualidade/quantidade quando reconhece,

na complexidade do que observa e pesquisa, a ampliação de fluxos de