O grande ABC paulista: o fetichismo da região por Cecília Cardoso Teixeira de Almeida - Versão HTML

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mercadorias, indivíduos, informações, incluindo novas necessidades derivadas à

manutenção de seus vínculos recíprocos. A complexa ordenação econômica e

social efetiva-se quando é territorializada, reproduzindo as condições de suas

estratégias e objetivos, no traçado destas conexões.

Na última passagem citada, Juil ard vincula regionalização à idéia de

eficácia quanto ao desenvolvimento praticado pela organização das forças

produtivas. Nessa consideração, hesita sobre os moldes de delimitação regional

empregados, solucionando esse impasse a partir da ótica exclusiva, da economia

política, isto é, rumo à gestão e à administração pública do privado, incorporada

como incumbência do planejamento.

No entanto, não resolve a definição dos limites regionais para a própria

geografia, tampouco questiona sua posição referente ao entendimento das

realidades em seus entraves, criados, por sua vez, a partir das formas produtivas

hegemônicas. Ou seja, conduz essa ciência à tão somente corresponder às

demandas vigentes, sem oferecer qualquer alternativa à reflexão geográfica,

veiculando-as simplesmente sem nenhuma apreciação crítica, impedimento ou

restrição. Acompanhar a evolução das transformações não bastou à reformulação

dos preceitos geográficos, que mais uma vez se compromete com o discurso da

oficialidade.

Mesmo assim, devemos reconhecer que assim como Foucher, Juil ard

demonstra certa apreensão quanto às transformações pelas quais passa o mundo

contemporâneo, sobretudo as repercussões no campo do conhecimento

geográfico, que para ela devem fecundar de novos significados o mesmo debate

regional. A realidade, portanto, convocaria reformulações, rigores e competências,

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permitindo que a assistência dos geógrafos se concretizasse, ganhando assim,

originalidade de sentido e expediente. Como a autora colocou:

“La evolución del mundo há modificado los términos em los que se

plantea el problema regional; más exactamente, há dado uma

importância creciente a um tipo de organización del espacio al que,

hasta entonces, se había prestado uma atención insuficiente.”

(JUILLARD in MENDOZA et al i., 1982;pág 291)

A Região passa a ser entendida como um marco dinâmico e em mutação

porque se encontra entremeada com as relações produtivas estabelecidas em

cada momento da história. Podemos observar um teor de fusão entre as

expressões “Região” e “ordenação espacial” mencionadas por Juil ard, ou a

primeira figurada como efeito do processo de objetivação da segunda. Essas

constatações nos fizeram pensar sobre o ponto de partida por ela estabelecido e

empregado na construção dos raciocínios desenvolvidos em seus trabalhos, isto

é, o lugar da ideação e do real concreto, em seu entendimento, e qual seria para

ela a direção dessas determinações. Nossa impressão é que, na busca

incondicional pela gênese da Região, refere-se a esta ora como dado da

realidade, posição que a autora mesmo critica em diversas passagens, ora como

um tipo de artifício administrativo, uma ferramenta para equacionar as ações

exigidas pelo pragmatismo econômico.

Essa direção reforça a acuidade com as atividades econômicas em suas

expressões territoriais, donde remonta o valor da paisagem, como uma espécie de

noção geográfica aglutinadora entre os feitos físicos e humanos. Ao apreciar a

região sob tais contornos, sugere nova aproximação com a ocupação dos

economistas, se bem que destacando e esmiuçando suas especificidades:

“Partiendo del modelo más simple y más abstracto posible, el economista

la va complicando; procede de lo general a lo particular y aborda

finalmente, com alguna reticência, um caso concreto. El geógrafo, por su

parte, comienza com casos particulares, localizados, complejos, pero

poço extensos; se esfuerza luego por ampliar su conjunto de

observaciones y comparaciones para concebir uma organización

planetária del espaço; al hacer esto, se vê obligado a generalizar, a crer

em la abstrcción, lê parece que se sale de su papel. Se imaginaría

gustosamente uma fructífera conjunción de lãs dos disciplinas, em su

marcha convergente, em um nível espacial intermédio que sería la

región.” (JUILLARD in MENDOZA et al i., 1982;pág. 291)

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Descrevendo o caminho percorrido por ambas as perspectivas, denota-se

sua compreensão das alçadas pertinentes a cada uma, em que encontra

confluências, que na sua visão são solucionadas no espaço epistêmico

hipoteticamente incitado pela Região. Para a economia, o trajeto vai do geral com

constatações simples, ao específico que requer maior adição de elementos, por

fim se corporificando em casos únicos. De maneira oposta, a geografia traça seu

curso a partir dos feitos peculiares concebidos como pouco extensos, rumo ao

universal, entendido como fruto de maior abstração. Sem embargo à intensidade e

à relevância dos processos e fenômenos, não pode ser medida exclusivamente

pela extensão nem desdenhada pelo uso da abstração. Na verdade, temos aqui a

tradução da versão metodológica de Etienne, isto é, o entendimento de Geografia,

de Economia, e, de maneira mais abrangente, do próprio ato cognitivo científico.

De tal sorte, ocorrem algumas formas anacrônicas de considerar os

vocábulos generalização e abstração, para além dos limites postos por aquilo que

enxergamos ou percebemos. Dentro delas, o segundo termo não é previsto como

fase ou momento inerente ao processo de conhecimento, sem o qual estaríamos

impedidos de supor, especular ou sequer usar o que acumulamos e armazenamos

de nossas experiências, assim como do próprio desdobramento histórico

gnosiológico por nós herdado.

Ambigüidades ou pequenas inconsistências que novamente sobrevém,

quando faz alusão a “um caso concreto”. Sobre tal aspecto, entretanto, na mesma

orientação dos comentários precedentes, podemos afirmar: o sujeito que conhece

parte da realidade e retorna a ela lapidando sua caracterização, rumo a penetrar

em suas contradições e capturar-lhe os elementos de maior significação. Este

procedimento se repete quantas vezes for imposta sua necessidade. Daí nos

reservarmos a qualificar de Ciência ou reflexão científica, esse tipo de metodologia

e suas decorrentes sistematizações.

Para Juillard, os estudos econômicos se caracterizam pela conformação

de modelos genéricos, de movimentos e manifestações incondicionais, inquirindo

um padrão de ocorrência e de leis de incidência. Os casos específicos lhes

fornecem interesse menor por quão direcionados àquele ponto de vista. Já nas

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pesquisas geográficas, os aspectos ímpares são destacados para levar adiante as

comparações surgidas da observação, donde se extraem conclusões amplas,

todavia, isoladas de seus elementos particulares. Para a autora, nenhuma das

tarefas é suficiente para apreender, esclarecer, prever, enfim, dominar a realidade

da qual fazemos parte.

O encaminhamento metodológico para essas questões se delineia, então,

a partir da definição de Região, quando tomada por nível espacial intermediário.

Mais que isso, a autora responde aos caracteres implícitos aos paradigmas da

ciência positiva, mesmo que transmutados sob a forma funcionalista ou a do

estruturalismo. Assim, procura dar subsídios tanto à autenticidade – visão única e

singular que deve ter cada conhecimento –, quanto ao horizonte de entendimento,

ou mesmo, à envergadura da explicação, no que diz respeito às diferentes

disciplinas científicas. A estes pontos, voltaremos posteriormente, para introduzir

nossas próprias colocações sobre método.

No entanto, surgiram os projetos executados por Pierre Dumolard, por

volta da década de 70, que trouxeram para nós um exemplo de acepção cuja

explicação, qualificação e cognição regional assumem um teor mais totalizante.

Este protótipo teórico sobre região, com influências da geografia francesa clássica,

desenha seu entendimento e formulações tomando-a como um sistema aberto

que manifesta estruturas internas distintas em cada momento. Assim, uma prática

regional analítica que investiga a lógica ou ordem subjacente à composição

regional, encontra no horizonte teórico sistêmico seu arcabouço de demarcações.

Com esse propósito de delimitar regiões, ressalta a necessidade de:

(...) “encontrar, sobre la base de lãs estructuras verticales, uma relación

entre lugares o un orden em el conjunto de lãs relaciones horizontales.”

(DUMOLARD in MENDOZA et al i, 1982; pág.116-7)

Ou seja, devemos considerar as regiões como uma amálgama de

elementos únicos que as edificam, mas também, resultam de processos comuns,

que se estabelecem em todos os lugares. Esse tipo de raciocínio metodológico

traz consigo a possibilidade de caracterizar o funcionamento do sistema regional,

que Dumolard denomina “trocas energéticas”, a partir das quais alçamos sua

estrutura interna. Com isso, identificamos as bases de que são formadas tais

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estruturas, quer dizer, seus fatores verticais (locais), assim como, as relações

estabelecidas horizontalmente.

“Sin embargo, se regionalizará basándose em diferencias, aunque estas

diferencias relativas no tengan la importância global que se lês atribuía.

Teoria regional e prática de la regionalización se completan, pero

corresponden a ópticas diferentes.” (DUMOLARD in MENDOZA et al i,

1982; pág, 452)

A noção de sistema nos leva a idéia de algo que se reproduz

continuamente num movimento circular, cujo ponto inicial de funcionamento se

funde ao final e assim por diante. Significa um reinício constante com força

bastante para se manter e se sustentar, apesar das trocas com o externo. Mas

isso não quer dizer que inexistam transformações. Pelo contrário, Dumolard insiste

na idéia de equilíbrio apenas temporário de tais forças.

Assim torna relativa a importância das características singulares aos

lugares, que na prática de organização espacial global, perdem intensidade.

Podemos notar a indicação do caráter escalar dos acontecimentos e dos

fenômenos, com os quais a Geografia se depara, e, portanto, da definição de

escalaridades para o processo analítico, na medida em que se concretizam em

distintos níveis.

Estrutura, forma, função, coesão, complexidade, instantaneidade, eis aqui

as palavras-chave presentes nas colocações de Dumolard. Em um de seus livros,

elenca seis proposições sobre a formação de Regiões, aqui delineadas

sinteticamente. Aponta esse geógrafo,

I. uma realidade observável em várias escalas e por isso quaisquer

pontos do ecúmeno são parte de uma região em acordo a esta

escalaridade;

II. um sistema complexo e aberto cuja estrutura regional significa um

estado instantâneo;

III. sua existência está ligada à coesão espaço-temporal;

IV. funcionalidade e comunidade cultural são fatores de coesão;

V. homogeneidade e heterogeneidade são formas de coesão;

VI. formas e fatores de coesão se combinam.

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Façamos uma pausa para alguns comentários sobre os itens listados,

para refletir sobre o alcance de sua empreitada.

Sobre o inciso I, vemos que o mundo do ecúmeno Dummolardiano

poderia ser tranquilamente cartografado (até mesmo mentalmente) como uma

sobreposição de divisões regionais que abrangem e incorporam quaisquer

lugares, ali definidos como pontos. Dessa forma, procura apreender os mais

distintos níveis de grandeza, diretamente vinculados à magnitude das escalas, em

questão. Dessa orientação, sobressai a importância dos estudos e entendimentos

regionais, para assim decifrar a complexidade própria às realidades.

Região como aparelho ou organismo vivo, cujo esqueleto que lhe dá

sustentabilidade constitui-se de conexões internas entre fatores, localmente

dadas, ou mesmo, fora desse alcance; nesta visão, um sistema aberto, e talvez

por isso, efêmero. Aqui, todavia, deixa de prever que, cada um desses feixes de

ligações presentes, da mesma forma guarda dentro de si outros níveis escalares

e, sobretudo interdependências não necessariamente explícitas, em um jogo

infinito de implicações, e que somente a análise poderá clarificar sua projeção

(sobre outros feixes e/ou lugares) e substância.

Portanto, não existem fenômenos, processos ou fatos nos quais não

estejam correlacionadas distintas qualidades de escalas, inviabilizando a

pretensão de enquadrá-las em apenas uma ou outra classe de relações a que se

referia anteriormente. De modo sucinto equivale dizer que, nenhuma escala tem

no seu devir, uma autonomia metafísica, isolada das demais. O que caracteriza

instantaneidade substituiríamos por movimento.

A partir do terceiro tópico, quando começa a tratar da coesão regional,

remete-se a espaço-temporalidade, como base de entendimento que também

constitui pré-requisito à sua existência. Decodifica esses termos associados

respectivamente às noções de lugar, localidade, área e o segundo como período,

época, momento.

A esta espécie de suporte espaço-temporal responsável pela coesão,

acrescenta-lhe a função. Ou seja, aborda o papel que tais Regiões desempenham

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quanto às atividades econômicas, em um liame de identidade cultural entre

comunidades, cujas expressões objetivas se instauram na formas ou

características de homo ou heterogeneidade. Interessante notarmos a presença

do par lógico forma/conteúdo, em que, temos para Dummolard, àquelas formas

determinadas e preenchidas por meio do conteúdo específico composto de

relações econômicas e culturais.

Contudo, alguns termos por ele evocados perdem densidade discursiva,

na medida em que provocam um reducionismo no teor e na envergadura. São

exemplos disso: as conformações sociais ocultam-se nas comunidades, espaço

sorve-se na idéia de substrato, tempo submerge na noção de sucessão,

abrandando seus respectivos usos e significação.

Temos, portanto, o entrelaçamento das perspectivas clássicas e seu

aprimoramento que redunda na forma sistêmica, como fundamentação para essa

avaliação regional. Destaca-se ainda, por parte do autor, um esforço em restaurar

os conteúdos regionais a partir da idéia de complexidade.

Nessa mesma época, André Dauphiné demonstra certa inquietação

acerca dos profissionais, geógrafos ou não, que se fazem valer do marco regional

para explanações e formulações de raciocínios, acusando-os de empregá-lo de

maneira indevida, abusiva e simplificadora. Para galgar nova etapa e assim

ultrapassar esse obstáculo, o autor traz ao debate regional, o controverso

emprego da linguagem matemática e estatística ao aparato conceitual da

Geografia. Controverso porque rejeitado como instrumento capaz de apreender as

realidades que a Geografia trata. Ainda assim, enfrenta tais questionamentos

argumentando por meio de exemplos de emprego, convergindo em alguns

elementos ao feitio teórico de Dummolard, traçado anteriormente. Veremos, no

entanto, que o recurso utilizado nem amplia tampouco supera as limitações por ele

mesmo identificadas, o que justificaria tornar-se alvo das mesmas críticas

propaladas sobre seus colegas. Condenando as posições que circunscrevem a

Região a mero conceito ou então às chamadas classes espaciais, enfatiza:

“Para um geógrafo científico, la región no es um concepto, idea defendida

desde hace mucho tiempo por los geógrafos anglosajones.(...)los nuevos

geógrafos americanos, cualquiera que sea su ideologia, reducen la región

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a uma simple clase espacial.” (DAUPHINNÉ in MENDOZA et al i, 1982;

pág. 446)

Nem circunscrita a conceito, menos ainda à classe espacial, que

considera apenas o número de elementos internos distintivos para assim dispô-las

em classe elementar – formada por um único caráter–, ou complexa, quando mais

de um. Então se constituem as “características de diferenciação”, assim por ele

denominadas.

De tal sorte, coloca que, concebidas dessa forma, Região e

regionalização, se assemelham a qualquer metodologia classificatória, isto é,

precisamente como sinonímia daquele procedimento, apenas somando-se ao fato

de estarem amparadas por um atributo suplementar: a localização. Ainda

Dauphiné:

“Pero assimilar la región a uma simple clase espacial es provocar um

empobrecimento importante del concepto de región, excluyendo, por

ejemplo, todos los processos de difusion, que son esenciales para

comprender lãs teorias del desarrol o regional.” (DAUPHINNÉ in

MENDOZA et al i, 1982; pág.446)

Dessas considerações, depreende a adoção do instrumental matemático

como solução, a fim de garantir a disseminação precisa dos conteúdos

relacionados. Seu umbral conceitual vincula-se ao operativo, o que para esse

autor não induz a mesma inconsistência atribuída a seus pares.

Variáveis e índices são declarados como a maneira segura de enriquecer

tanto conceitos descritivos quanto explicativos. E sobre essa distinção ressaltamos

a autonomização dada à linguagem, como se pudesse prescindir de justificações.

Exemplificando, temos a exposição dos diferentes tipos de redes

abordadas em Geografia – das fluviais aos transportes, das cidades às

informações –, que sofrem acréscimo de valor quando incorporadas pela “teoria

de gráficos”, ampliando significativamente o seu poder de retratar um dado

processo, por meio do cruzamento de um numeroso arsenal de índices,

corretamente escolhidos.

Da mesma forma, se dirige ao termo difusão ligado a um específico

fenômeno geográfico. Em seu entendimento, esse conceito evolui por ser espaço-

temporal e tal evolução pode ser representada por uma curva logística, que

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decodificará o seu movimento. Ainda mais expressivo, vemos o vínculo entre

modelos matemáticos e Geografia, ao mencionar a teoria da dominância, advinda

da Economia, cuja formalização absorveu a técnica dos gráficos de influência e

que acaba por entusiasmar a análise geográfica:

“Así “ la dominância de um pólo X sobre um pólo Y es la conjugación de

la influencia directa y de las múltiples influencias indirectas que ejerce X

sobre Y; la transmisión de estas influencias depende de la configuración

de la red que situa a X em relación com Y; uma pertubación producida

em X desencadena repercusiones em Y, pero mediante um juego

complejo de amplificaciones y de amortiguaciones.” (DAUPHINNÉ in

MENDOZA et al i, 1982;pág.449)

Nesse exemplo, Dauphinné revela como concebe a dinâmica dos

fenômenos de dominação e de influência entre lugares, num esforço de repassar

as qualidades do processo em questão para a delimitação quantitativa cercada por

variáveis e arranjos causais. De sorte que essa orientação permite-lhe esboçar um

modelo ilustrativo de tal postura.

E continua,

“De la misma forma, F. Perroux define el concepto de poder y el concepto

de poder econômico partiendo del instrumento matemático “(DAUPHINNÉ

in MENDOZA et al i, 1982;pág.449)

Mas o que lhe escapa é a comparação de temas que não se revelam

quando sufocados pelo instrumental matemático. Ora, a estatística pode ser de

grande valia, mas não como feitio predeterminado diante da realidade. O que se

espera é a construção de uma reflexão que interprete as aparentes oposições,

incoerências e surpresas daqueles achados. E mesmo que outrora a explicação

tenha sido exigida como tarefa, em verdade o que talvez constitua a maior das

dificuldades seja aceitar o entendimento como etapa parcial e momentânea,

porquanto revogável com respeito à dinâmica do real.

O conhecimento que entende como científico fica muito bem

caracterizado com uma frase de seu texto:

“toda ciência tiene como objetivo explicitar lo que esta implícito: lãs

manzanas caían de los manzanos antes del descubrimiento de Newton,

pero no se sabía explicar.”( DAUPHINNÉ in MENDOZA et al i, 1982;

pág.450)

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Prosseguindo, esse hipotético aprimoramento infunde o desafio de

transladar da configuração matemática a da Geografia, com a intenção de

formular novos conceitos. Mais que isso redescobre a contribuição de Paul Claval

quando alude a “autocorrelação espacial”, o que Dauphinné qualifica como um tipo

de condição axiomática para a ciência geográfica, legitimando-a como tal.

“Em efecto,si no se postula este axioma, lãs distribuiciones espaciales se

deben al azar, no obedecen a ninguna ley, y la geografia ya no tiene

justificación;(...) Ciertamente, (...) no es suficiente, y se contraba de forma

más o menos implícita em nuestros maestros; pero el concepto

matemático de autorelación espacial explicia nuestro proceder.”

(DAUPHINNÉ in MENDOZA et al i, 1982; pág. 450)

Novamente os geógrafos, às voltas com a profissão, e procurando

justificar seus contributos, buscam reconhecimento intelectual e pragmático, ou,

em poucas palavras, suas singulares razões de ser.

A despeito do que vimos nas abordagens das redes, assim como na

noção de difusão, e na teoria da dominação, a proeminência é instalar um

conjunto amplo de proposições regionais em que o artifício quantitativo leve a

apurar os conceitos por ela criados sem, no entanto, substituí-los.

Finalmente, para atender ao objetivo de situar o leitor no ambiente de

discussão construído pela Geografia francesa durante o século XX, comentaremos

três últimas contribuições de grande importância e notabilidade.

No conhecido trabalho intitulado “A Geografia Ativa” em conjunto com

outros autores, Bernard Keiser concentra suas apreciações sobre a idéia de

Região soldada à vocação fundamental da ciência geográfica, demonstrando as

simplificações realizadas para legitimar o caráter útil desse instrumento e desse

conhecimento. Equacionando o tema, apresenta a forma pela qual os geógrafos

têm descrito seu entendimento sobre tal conceito. Assim, coloca desde o início:

(...)“ele (o geógrafo) tende a considerar a região como o campo de ações

concomitantes de intensidades variáveis, mais do que como uma

inscrição espacial precisa de equilíbrios fundamentais.” (KEISER et al i,

1973; pág. 282.)

E ressalta:

“Mas isso não o dispensa de definir com precisão aquilo que ele quer

tratar, de pesquisar criteriosamente o impacto espacial exato dos

fenômenos que ele analisa.” (KEISER et al i, 1973; pág.283)

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De modo a parecer que Região emerge como um instrumento conceitual,

por meio do qual se pode analisar, avaliar e prever as implicações de certo

número de fenômenos que, dispondo de forças qualitativamente distintas, podem

ao mesmo tempo produzir e representar os efeitos das mais diversas ordens

escalares. Todavia, Região não existe exclusivamente como conceito. Sua

fundamentação sobressai das próprias realidades que se formam, a que irá se

dedicar simulando-as no plano do conhecimento. Por suposto, também não

representa um ser, ou seja, uma espécie de ente, cuja existência esteja desligada

das relações que os indivíduos estabelecem entre si e que a edifica.

Nas palavras do autor, não são apenas relações que dão forma e

conteúdo às regiões. Uma gama de laços, aqui amplamente entendidos como

fatores de “coesões espaciais”, deve sempre estar inserida no “quadro físico” ou

“situação”, resultante mesmo das “inibições” e “dons” da Natureza. Esses laços,

produzindo uma organização econômica e social, só então constituirão uma

Região. Associada a esta condição de existência, Keiser combina-a à noção de

centralidade, a partir da qual aquela se organiza, bem como de seu papel e função

no conjunto nacional e numa economia global.

Deriva-se de tais colocações uma definição que pretende dar um cariz

comum às diferentes conceituações promovidas pelos usos, elaborações e

abordagens alcançadas pelas mais dessemelhantes áreas profissionais:

“Uma região é, sobre a terra, um espaço preciso, mas não imutável,

inscrito em um quadro natural determinado, e que responde a três

características essenciais: os laços existentes entre seus habitantes, sua

organização em torno de um centro dotado de certa autonomia, e sua

integração funcional em uma economia global.”(KEISER et al i, 1973;

pág.284)

A partir disso, segue advertindo sobre a formação e estrutura da Região,

quanto ao método de estudo regional e, por fim, acerca do desenvolvimento

desigual entre elas.

O que nos parece bastante distante das outras proposições é o fato de

definir incisivamente o conceito de Região, numa tentativa de contemplar o diálogo

entre áreas de trabalho e resgatar o seu sentido mais amplo que o de simples

ferramenta de entendimento, por sua vez não descartado. Suas contribuições

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abordam, implicitamente, o real movimento do pensamento, que ora se distancia,

ora se integra, porém sempre como parte integrante diante da realidade; quem se

dedica aos estudos regionais é que pode conferir à descrição o seu verdadeiro

significado.

“Certamente, o conceito de região não é algo indiferente: dependendo do

conceito que tiver de região, o pesquisador pode fazer variar a

delimitação, a apresentação dos resultados e eventualmente mesmo, o

diagnóstico prospectivo. Mas a matéria de que é moldada a região é uma

realidade objetiva que se impõe. Nenhuma matéria pode deixar de

considerá-la (...).” (KEISER et al i, 1973; pág.305)

O conceito de região surge como mediação entre elementos da realidade

que se examina – o objeto, e o pesquisador que a este se dedica –, o sujeito da

investigação. O problema que identificamos se instaura na ausência de uma teoria

geral regional em que esse tipo de relativismo em face do conceito ainda esteja

fortemente presente, confinando o conhecimento geográfico a um patamar de

reflexão aquém do que se espera de uma ciência, todavia não a ciência sob os

critérios do positivismo lógico. A delimitação do estudo confunde-se com a idéia do

objeto em pensamento – a região, podendo ficar a cargo do que pressente o

investigador. Então a indagação: existem tantas conceituações quanto ao número

de indivíduos que se envolvem em estudos regionais?

Ora, o alcance e os contornos regionais para serem definidos, devem

antes ter por base à mesma concepção, garantindo o diálogo e a comunicação,

evitando o perigoso equívoco de participar resultados e conclusão sem

entendimento por parte de quem os recebe. Com isso queremos apontar: o

discurso para ser inteligível deve tornar claros os pressupostos sobre os quais se

construíram tais conceitos, daí a importância desse debate para nosso trabalho.

Doravante, soma-se então, a necessidade de transpor esse obstáculo

evitando assim aquela espécie de “diálogo de surdos”, onde nenhuma das partes

escuta ou atinge o que está sendo posto pela outra e, cujo resultado não raro

remete à falsa sensação de alinhamento entre os ajuizamentos presentes. A

qualidade das especulações, o próprio fruto do esforço intelectual fica

comprometido quando estritamente galgado no senso comum, na opinião em fim

no corriqueiro das percepções. Não pelo trivial em si, mas para o que ele conduz,

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isto é, uma ausência de discussão sobre os critérios utilizados. Com isso invalida-

se a reconstrução necessária ao arrazoamento dos fenômenos e processos reais,

que a cada momento tornam-se mais sofisticados e complexos. Que o nosso

pensamento possa servir e acompanhar tais dinâmicas e demandas.

Incluindo-se nessa fase (década de setenta) e rastreando um pouco mais

a mesma “escola”, Leonard Guelke, em texto de 1977, também apresenta

desagravo em relação ao ambiente profissional da Geografia. Isto porque denota o

processo de decadência instaurado sobre os estudos regionais e da geografia

regional como um todo, resgatando um passado recente, em que tinha nessa

mesma fração, seu core essencial.

Na intenção de dimensionar as práticas dos geógrafos, parte a

investigação sobre as razões que levaram ao escanteio da Geografia Regional,

como “setor” secundário em prol de estudos com destaque à problemática

espacial, o que para ele representou um imenso e desconfortável equívoco. Diz-

nos:

“A ascensão da Nova Geografia, com sua ênfase nas relações espaciais

e o uso dos métodos estatísticos, coincidiu com o declínio da importância

dos estudos regionais. (...) Atualmente (...) é olhada como um tipo de

estudo subjetivo, largamente descritivo e de importância menor ao

avanço desse setor científico.” (GUELKE in Christofoletti (org.), 1982;

pág.213)

Lembramos de Estrabão, o primeiro pensador clássico a constatar o

caráter holístico da Geografia, que remonta a importância de trazer resultados dos

demais campos do conhecimento para compor uma imagem fiel de uma dada

realidade. De acordo com Guelke, estava desenhada a justificativa filosófica para

a existência dessa ciência – seu dado integrativo –, e sua posterior independência

a partir do século XIX. Todavia, ressalta:

“Muitos textos regionais trataram de ampla gama de elementos físicos e

culturais em áreas específicas, mas poucos realmente atingiram a síntese

desses elementos. (...) A despeito das dificuldades de produzir bom

trabalho regional, das quais muitos geógrafos estavam perfeitamente

cientes, a idéia de que Geografia era essencialmente um campo

integrativo continuou a ter ampla aceitação e a importância da Geografia

Regional foi raramente questionada.” (GUELKE in Christofoletti (org.),

1982; pág.214)

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Nessa direção, o autor critica o emprego descomunal de descrições e a

formação nos geógrafos, de uma mentalidade fortemente empírica, donde abriam

precedentes aos que acusavam inconsistência dos inventários produzidos e o

revolver de sua legitimidade científica.

Assim, em sua opinião dois termos pareciam constituir a pedra angular

sobre a qual se obstaculizavam a análise regional. O estudo dos aspectos únicos

– por evitar descobertas passíveis de importantes generalizações, e que por outro

lado induziam a organização de sínteses, de questionável valia interpretativa.

Continuam suas especulações agora sobre as influências de Hartshorne e

de outros, que destacaram o caráter espacial da Geografia, sem confiná-la ao

incipiente estudo das distribuições espaciais, consistindo seu principal alvo as

recíprocas determinações entre fenômenos. Mesmo assim delineada, para Guelke

tal perspectiva provocou repercussões nefastas, como mostra seu relato, a citação

a seguir:

“Ao transladar a palavra “geográfico” como sendo “espacial”, sem

qualificação, os novos geógrafos despojaram a palavra de uma de suas

conotações mais básicas e antigas, que era a de conectar Geografia com

a Terra ou com sua superfície como um objeto concreto.(...)abandonaram

a idéia da significância geográfica em seu significado tradicional e, ao

mesmo tempo, eliminaram a necessidade da geografia Regional como o

core central da disciplina.”( GUELKE in Christofoletti (org.), 1982;

pág.218)

Com estas afirmações, o autor demonstra mais uma vez sua vinculação à

Geografia Regional, não pelo que esta possa oferecer em termos de tratamento e

de elaboração teóricos, mas por ter desempenhado o papel de identificar a

propriedade peculiar da Geografia. Como se o caráter integrativo desta ciência

colocado sobre as sínteses – objetivo último que alimenta a geografia regional –,

indicasse, por si mesmo, a totalidade dos dados entre aspectos físicos e culturais.

Além das passagens observadas, existe ainda um aspecto a mais a ser

retomado em Guelke, na nossa visão, bastante expressivo. Estamos nos referindo

à exclusão da temporalidade na análise geográfica e por ele criticada, na medida

em que a abordagem espacial fora asseverada para a geografia. O próprio autor

objeta:

“A Geografia, em comum com a Geologia ou Sociologia, terá seus

aspectos espacial e temporal. A natureza da superfície da terra significa

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que muitos estudos geográficos terão importantes aspectos espaciais,

mas esses aspectos seriam uma conseqüência do objeto de estudo dos

geógrafos e não uma questão de definição.(...)O objeto de estudo

delimita o que deve ser estudado, não como ele deve ser explicado.”

(GUELKE in Christofoletti (org.), 1982; pág.221)

Encerra seu escrito discorrendo sobre as duas principais deficiências da

Geografia proposta por Hartshorne. A primeira se refere à prática de adotar

modelos explicativos que têm por apoio as correlações funcionais deixando

escapar o elemento fundamental de diferenciação da ação humana: a Razão, ou

em suas palavras, “o pensamento”. A segunda, alusão sobre a deficiência

histórica quanto à profundidade das apreciações geográficas, em função do

entrave temporal, anteriormente descrito.

Em suas conclusões, produz o que em sua opinião, poderia constituir a

superação para ambos os impasses e, de maneira mais radical, a restituição do

lugar da Geografia Regional dentro do corpo dessa ciência. Dividimos a citação

em duas partes para examiná-la com maior cautela:

“Adotando uma filosofia com ênfase sobre o homem como um animal

racional, os geógrafos estarão em posição para providenciar explicações

causais das atividades humanas sobre a Terra, e desta maneira

adicionando uma dimensão intelectual até então ignorada ao objeto de

estudo.” (GUELKE in Christofoletti (org.), 1982; pág.223)

O escólio causal surge em oposição àquele do funcionalismo, o que a

princípio nos dá ares de equívoco. A causalidade pode e por vezes deve aparecer

nas correlações entre os processos, se inerentes às objetivações da temática

estudada. Não nos parece ser essa a maior dificuldade. Questão maior repousa

sobre a aptidão limitante deste tipo de raciocínio, para apreender em

profundidade, suas complexas dinâmicas. Parece-nos que a lógica formal, alicerce

daquele procedimento, demonstra restrição quanto ao objetivo de aclarar os

fundamentos e conseqüências do que está sendo tratado.

Quanto à “dimensão intelectual”, dentro da própria geografia francesa,

temos a racionalidade como fator distintivo dos seres humanos, aliando-se às

demais, presentes no meio em que se encerram. O que constatamos é a variação

do grau de determinação nas diferentes abordagens.

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“A profundidade histórica necessária pode novamente ser acomodada na

Geografia Regional pela reenfatização da Geografia como estudo da

Terra como o mundo do homem e eliminando todas as referências ao

espaço nas definições geográficas.” (GUELKE in Christofoletti (org.),

1982; pág.223)

No momento não nos parece interessante passar ao largo do debate

espacial pela mera exumação de um tema que se tornou impeditivo por quanto

inobservados seus possíveis significados em relação ao conjunto dos campos de

pesquisa e, em especial, à Ciência Geográfica. O autor mesmo tomou espaço e

tempo como aspectos intrínsecos aos eventos, e por isso, figurados em outros

conhecimentos. Ignorando as causas porque enveredaram neste caminho,

desloca-o ao campo das escolhas pessoais, desconectando-o da complexidade

inerente àquilo que se pesquisa. O que lhe escapa é o fato de que talvez os

termos anteriores de análise tenham se mostrado aquém do intricado movimento

concreto, donde a perspectiva espacial.

Em verdade temos aqui vários problemas, se bem que todos circunscritos

à questão metodológica, seja no que tange a relação sujeito objeto, seja o

acobertamento das determinações vindas das esferas que compõem as visões de

mundo no decorrer da história. Isto significa a valoração proveniente da ética,

estética, moral, etc. em cada momento, e que retorna à ciência num jogo

incessante de reciprocidade mútua.

Estes embaraços se dilatam e redundam numa prática profissional que

produz a migração dos conteúdos e nexos entre conceitos, assim como, a

definição de espaço e tempo atrelada respectivamente à geografia e a história.

Com isso, fica uma vez mais evidente a inconsistência e a ausência de buscas

mais profundas sobre nossas categorias e juízos, dos mais usuais e elementares

até aqueles que escapam propriamente à alçada específica a certo conhecimento.

Nesse sentido, faltavam-lhes e talvez a nós, uma crítica epistêmica de maior

envergadura.

Curiosamente, as acepções de Região, Espaço, Tempo, Natureza,

Matéria, usuais e inseridos no cotidiano dos indivíduos, tornaram-se, desde a

época desses geógrafos, empecilho para uma interlocução profícua entre os

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diversos campos de reflexão, sobre os fenômenos e acontecimentos em processo

na geografia da realidade.

Então, como transpor essa cizânia? Parece-nos, a princípio, que devemos

evocar nossas matrizes e bases lógicas para cercar algumas saídas. Novamente a

deficiência de uma base sólida e comum, que permita estender a amplitude de

nossos próprios debates.

Em livro intitulado “Os Métodos da Geografia” de 1972, Pierre George

desenvolve uma crítica de caráter epistemológico sobre o que viria a ser a ciência

geográfica de então, ou seja, sistematiza as formas de entendimento e execução

investigativa que tem caracterizado esse conhecimento.

Ao iniciar tal tarefa, toma como quesito fundamental o fato de a geografia

ter em si o caráter de síntese demonstrado pela confluência de métodos,

afirmando-a como o estudo do espaço contínuo e por fim, um saber vinculado à

ação e às conjunturas em que se insere.

Depois da introdução, o autor explana sobre o papel das fontes

documentais, as especificidades de sua natureza, assim como o teor das coletas,

interpretação e apresentação. Finalmente são levantados os problemas e

domínios pertinentes a ela, e isto pautado na divisão do trabalho intelectual dentro

da universidade, divisão esta que deriva, e, ao mesmo tempo, refunda a dicotomia

sociedade-natureza. Deste modo, o trabalho segue discriminando geografia física

e humana, seus respectivos âmbitos e procedimentos, para em capítulo

especialmente dedicado à Geografia Regional, avaliar seus impasses e

progressão.

Mas por que estamos descrevendo esse percurso? Com essa obra,

temos objetivamente indicada a discussão de método, na qual, por meio do

encadeamento dos conteúdos, evidenciamos algumas importantes questões:

concepção de ciência geográfica, a relação geral regional, a linguagem

cartográfica e as escolhas para a delimitação regional, a distinção região natural e

geográfica, e, evidentemente, os significados e compromissos dessa produção,

numa interlocução profícua com a ciência do século XX.

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A reflexão ordena os principais embates entre os quais a geografia se

embrenhou e alguns encaminhamentos rumo às suas soluções. Assim,

encontramos sua opinião sobre os trabalhos realizados entre as décadas de 20 e

30, os quais:

(...) “foram criticados com bastante justiça pois o que ofereciam

essencialmente era uma sucessão de monografias sobre cada um dos

elementos constituintes, sem emprestar nenhuma ênfase aos

mecanismos das relações existentes entre os diversos

fatores.”(GEORGE, 1973; pág.103)

Aqui temos a presença de uma crítica incisiva sobre o fato de essas

pesquisas ignorarem as ligações dinâmicas entre as informações angariadas, a

partir das quais é possível definir o que é de cunho regional ou não. Com isso,

surge mais uma vez, o problema da demarcação dessas ingerências que

fatalmente induzem aos inconvenientes de uma representação cartográfica, cujos

limites não foram sequer aventados. Ora, a cartografia é um instrumento, uma

linguagem que não substitui, nem se confunde com a realidade a ser pesquisada.

Diz ele:

“Delimitar significa, em primeiro lugar, escolher critérios básicos, segundo

os quais se pretende estabelecer a personalidade da região estudada ou

a classificação e a divisão regional em determinado território.”( GEORGE,

1973; pág.105)

A tarefa de execução regional passa pela escolha dos dados mais

significativos, de certo número de fenômeno(s) em detrimento de ulteriores, ou

seja, constrói uma sucessão onde situa àqueles de posição acessória, que apenas

são evocados nos resultados. De tal sorte, torna-se imperativa a utilização de

sínteses parciais que justifiquem e revelem a presença intrínseca destes

apreciados como secundários. Obviamente, tal ordem de elementos está

diretamente vinculada ao tema da carta ou mapa. E foi pensando nesses

percalços, que George menciona a região natural como ponto de partida,

frequentemente usado pela escola francesa:

(...)“a região natural não oferece um quadro inteiramente satisfatório para

a construção de uma imagem representativa de uma unidade real de

existência, de atividade e de desenvolvimento.”( GEORGE, 1973;

pág.105)

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Com isso desenvolve as justificativas para a elocução região geográfica,

que entendemos quase como uma solução para fundamentar novamente o

sentido reflexivo e norteador para nossas ações profissionais, e mesmo para a

geografia regional como fonte de entendimento. Explica:

“Com efeito, a expressão região geográfica vem sendo empregada desde

o início do século, para designar uma unidade de atividade, de

povoamento homogêneo, de cultura, que confira a seu quadro, seja este

também homogêneo ou, pelo contrário, heterogêneo, uma certa coesão e

personalidade.”( GEORGE, 1973;pág.106)

Parece que os termos cognitivos ligados a essa noção se instalam nas

idéias de coesão, semelhanças e dessemelhanças na edificação, é certo, de uma

personalidade oponente às circunvizinhas. Definição e delimitação baseadas nas

produções e potencialidades, nas forças de atração ou repulsão conexa às

tendências demográficas. Todavia, observa a falsificação provocada por essa

demarcação que antes de tudo serve a objetivos administrativos, sendo a ciência

geográfica de maior envergadura e ressalta:

“(...) representam sempre um legado, na medida que confirmam a

posteriori um estado de fato, atribuindo ao mesmo um valor jurídico ou

administrativo, ao passo que a realidade geográfica significa uma

mobilidade constante presa ao ritmo dos processos de crescimento e de

desenvolvimento.”( GEORGE, 1973; pág.106)

Assim colocada, a Geografia do real segue seu curso ativo e o

pensamento sobre ela, isto é, os geógrafos, em suas investigações, terão de

acionar alterações conceituais condizentes a tal dinamismo. Prosseguindo nesse

caminho, o autor se volta às possibilidades de superar um pensamento regional

que se nutre de um “espaço finito”, visto como superfície restrita, substituindo-o

pela análise das múltiplas determinações que agem e concorrem, ferindo

constantemente a fixidez abstrata da abordagem tradicional. Desse modo, são

identificadas e esclarecidas duas orientações balizadas em termos de “fluxos” e de

“tensões”: a primeira sobre a teoria do espaço polarizado e a segunda

comprometida com a confecção de modelos com vistas à “harmonização” ou

“ativação” espacial.

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Ao apresentá-las, denota suas respectivas ambições explicitando os

falseamentos que cada uma carrega. Sobre a noção de região polarizada, por

exemplo, nos diz:

“Apresenta-se sob uma forma “voluntarista” de organização do território a

qual, na realidade, só fornece muitas vezes uma visão unilateral das

relações. (...) Ora não existe nada mais impreciso que os limites da zona

de influência de uma cidade. ”(GEORGE, 1973; pág.108)

Depreende-se, daí, uma conceituação unilateral porque comprometida

com uma intervenção que possui fins específicos, “organizacionistas”, e que,

portanto, irão aquilatar as peculiaridades levantadas, desprezando ou majorando

elementos específicos, a fim de enquadrá-los naquele quadro diretivo.

Evidentemente, distinguindo-a da laborada pela Geografia, o autor assinala que,

veiculando propósitos precisos, esquadrinha mecanismos e condições para a

objetivação do que lhe foi encomendado. A ciência Geográfica não. Seu empenho

se refere ao exame dos processos e à elucidação de suas conseqüências, sejam

boas ou nefastas, e sempre tomadas em seus complexos movimentos.

Em face da Teoria dos modelos, George ainda incide comentários mais

duros, censurando de maneira veemente o reducionismo por ela provocado e,

evidentemente, de quem dela se vale. Como ilustram as duas citações

subseqüentes:

“(...)certos autores sentiram-se propensos a definir sistemas abstratos de

relações de forças teóricas responsáveis pelo estabelecimento de uma

espécie de equilíbrio invisível, que se impõe, dentro de um prazo mais ou

menos longo,à organização das relações regionais.” (GEORGE,

1973;pág.109)

Tomado como esquema de organização territorial e das ligações

implicações que o encerram, decodificam sua espacialidade por uma quantidade

limitada de componentes, e que mesmo em grande número, serão incapazes de

contemplar a multiplicidade do real. Para a Geografia de George, interessa e

preocupa a incessante busca de:

“(...) todas as “rugosidades” susceptíveis de comprometer o modelo,

assim como a variedade do meio natural , tanto no espaço quanto no

tempo (problema dos ritmos de variações), em escala inter-regional, e

todo o efeito estático e dinâmico, de qualquer sentido proveniente do

legado de gerações precedentes, tanto área do equipamento concreto

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como na das ações irreversíveis e na das mentalidades.” (GEORGE,

1973; pág.110)

Com essas afirmações, depreende-se o que estava sendo pensado para

a geografia como sua principal incumbência, à frente das imposições que o

pragmatismo ocasiona e requer, inferindo inclusive sobre os fundamentos teóricos

de tais concepções e explicitando seu caráter coercitivo.

Mas, reincidindo sobre as colocações que o autor perfaz, a categoria

espaço se mostra associada à organização territorial, à área, a escalas, à porção

e à superfície terrestre. Com isso, traduz uma imprecisão não sobre a delimitação

ou influência arrolada por um processo específico. Parece-nos mais relevante e

contundente observar que, mesmo corroborando com as críticas enfatizadas por

ele, permanece a dúvida sobre o alcance desse geógrafo a respeito dos matizes e

ditames lógicos que seu trabalho denuncia, ou seja, das heranças decorrentes da

processualidade inerente à história do conhecimento e das próprias ciências, das

quais emanam nossos conceitos. Todavia, é notável e essencial salientarmos que

não detectamos este fato exclusivamente em George. Uma das tônicas a que

voltaremos mais tarde nesse trabalho repousa justamente na idéia de que esses

conceitos ainda hoje são verificados dentro dos mesmos limites, no âmbito

geográfico, ou seja, com importantes deficiências. Para encerrarmos a referência

a esse autor, segue mais uma de suas considerações:

“É na ação que se fazem e desfazem as fronteiras regionais e isto com

rapidez tanto maior pelo fato de inicialmente, essas fronteiras terem sido

imprecisas ou mesmo inexistentes, salvo sob forma de meros contornos

fisiográficos.” (GEORGE, 1973;pág.112)

Vemos aqui dois momentos passíveis de comentários. O primeiro, quando

o autor afirma o papel da “ação” na construção das fronteiras, que depois de

fixadas correspondem consecutivamente a uma espécie de instantâneo dos

embates que ali concorreram através das distintas atividades. Este fado aponta

para um segundo aspecto, a coexistência de forças políticas e econômicas em

escala local e geral, de várias ordens e/ou origens, donde suas ambigüidades.

Ora, as dinâmicas que envolvem a unidade Sociedade-Meio fornecem, por um