O homem que andava de costas por Jorge de Palma - Versão HTML

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O homem que andava

de costas

Quando as pessoas viam aquele homem dando passos

para trás, ou seja andando de costas, por vários

quarteirões, julgavam que ele estava louco. Ele próprio

chegou a pensar assim. Mas só começou a agir dessa

forma depois que fatos o levaram a uma única conclusão.

Teria que regredir.

Tudo começou naquela tarde de outubro quando,

como fazia sempre, José de Oliveira saiu do trabalho, por

volta de treze horas e foi para casa. Possuía carro, mas

por morara a apenas alguns quarteirões, foi caminhando.

Ao chegar em sua residência, notou que havia um carro

estranho na garagem e que sua chave não servia no

cadeado do portão, que, obviamente havia sido trocado.

Pensou em entrar de alguma forma, mas não conseguiu.

Sabia que não havia ninguém em casa porque a mulher e

os dois filhos estavam trabalhando naquele horário.

Muitas vezes o filho utilizava o carro para ir ao trabalho.

Por isso seu carro não estava ali. Mas mesmo assim,

imaginando que algum deles tivesse voltado e estava com

visitas, resolveu bater palmas.

Um homem de aparência jovem saiu da casa e Oliveira

ficou intrigado. Não o conhecia e por isso o

cumprimentou:

-Boa tarde senhor, poderia chamar alguém da minha

família?

- Não sei do que o senhor está falando. Moro aqui há

mais de um ano e não conheço ninguém de sua família -

retrucou o homem.

Oliveira ficou boquiaberto. A princípio não sabia o que

dizer. Depois começou a rir e falou:

- Isso deve ser alguma "pegadinha"! Eu é que moro

aqui e o senhor não está me deixando entrar em minha

casa.

O outro replicou:

- O senhor deve estar enganado - E, em seguida, foi

para o interior da residência.

Oliveira ainda quis falar alguma coisa, mas se conteve.

De repente imaginou o pior. Se não era brincadeira, então

havia estranhos na sua casa, num momento em que ele e

sua família haviam saído. Poderiam ser ladrões que foram

pegos de surpresa com a sua chegada e estavam tentando

disfarçar a situação. Por isso, resolveu chamar a polícia.

Pegou o celular e discou para o 190.

Um policial militar atendeu e ele explicou a situação.

Deu o endereço e ficou aguardando. Depois de algum

tempo, uma viatura apareceu no começo da rua. Ele deu

sinal e os policiais se aproximaram.

Quando Oliveira falou pessoalmente sobre o que estava

ocorrendo, os policiais resolveram tomar precauções.

Sacaram suas armas, aproximaram-se da casa, bateram

palmas e, quando a porta estava sendo aberta um deles

gritou:

-É a polícia. Saiam com as mão para cima.

O mesmo homem que atendera Oliveira antes saiu com

as mão levantadas, aproximou-se do portão e perguntou:

-O que está acontecendo?

-Nós é que perguntamos. O que o senhor está fazendo

aí - falou um dos policiais.

- Eu moro aqui - respondeu o homem.

- O senhor pode provar? Mostre os seus documentos.

O "morador" da casa abaixou as mãos, avisou que ia

colocar a mão no bolso e sacou sua carteira. Entregou

seus documentos aos policiais que o identificaram como

Ricardo Silva e em seguida se prontificou a abrir o portão

para que os policiais entrassem.

Os policiais olharam para Oliveira e ele ficou sem saber

o que dizer. Aquela era sua casa hã mais de três anos.

Saíra cedo para ir trabalhar. Deixou o serviço às treze

horas, como sempre fazia, e agora alguém dizia que era

morador em sua casa.

Silva fez questão que os policiais entrassem na casa,

apresentou-lhes sua esposa, um filho de dois anos e até

um contrato de aluguel, comentando a seguir:

-Este homem ai fora deve ser louco! É melhor vocês

conversarem com ele.

Os policiais saíram da casa e se dirigiram até Oliveira,

passando a interrogá-lo:

-O senhor está brincando conosco?

- Não senhor, esta é minha casa. Eu trabalho num

restaurante aqui próximo e o pessoal de la pode

testemunhar que estou certo.

Um dos policiais achou que seriam melhor seguirem até

o restaurante. Mas o outro demonstrou preocupação:

-E seu houve alguma coisa errada na casa a gente sai

daqui?

Por isso eles decidiram chamar outra viatura. Uma ficou

em frente à casa e outra seguiu com Oliveira até o

restaurante.

Na medida em que a viatura ia seguindo, Oliveira

começou a notar alguma coisas que o intrigaram. O posto

de gasolina, por exemplo, que até uma hora atrás estava

em obras, agora parecia perfeito e funcionando

normalmente. Em um terreno vazio pela manhã, havia

sido construída uma casa. "Não é possível, devo estar

sonhando", pensou ele.

Quando chegaram ao restaurante, um dos policiais disse

para Oliveira ficar na viatura enquanto ele ia falar com o

proprietário.

Wilson de Campos, o proprietário do restaurante não se

surpreendeu quando viu uma viatura parar em frente ao

prédio, porque, quase que diariamente, policiais vinham

comprar marmitex no seu estabelecimento. Ele até fazia

um desconto especial para os PMs. Mas quando o

policiais se dirigiu a ele, contou os fatos e citou um

nome, ele ficou admirado:

- O José Oliveira? - exclamou!

-Eu não acredito - disse o comerciante. E em sua cabeça

uma série de fatos, se repassaram. José Oliveira era seu

funcionário há alguns anos. Abria o restaurante todas as

manhãs e administrava tudo na sua ausência. Não faltava

ao serviço e não cometia falhas. Tudo ia bem até aquele

dia, hã dois anos, quando saiu do serviço às treze horas e

nunca mais voltou. Wilson não pode deixar de pensar na

família daquele funcionário desaparecido. "Meu Deus,

quanto eles sofreram, será que agora tudo vai voltar ao

normal?

Foi pensando nisso que o comerciante, antes de

comentar qualquer coisa, pediu aos policiais para ver

José. Dirigiu-se até a viatura e ao ver o velho funcionário,

o cumprimentou:

José ouviu aquela voz amiga e se sentiu calmo. Mas ao

virar-se e ver o rosto do amigo e patrão, não pode se

conter:

-Nossa, parece que você ficou mais velho de uma hora

para outra.

E o Wilson, com aquela calma de comerciante, meio

político, retrucou:

-Também pudera, faz dois anos que você não aparece...

Para os policiais, aquele cena criou um novo impasse.

Por isso eles decidiram entrar no assunto e tentaram

entender a história. Mas não houve entendimento. José

dizia que deixara o serviço há pouco mais de uma hora e

o comerciante alegava que o funcionário havia

abandonado o emprego hã dois anos.

Um dos policiais chamou Wilson de lado e perguntou

se ele tinha o endereço da família de José.

-É lógico que tenho. Eles mudaram de casa, mas faz dois

anos que estão procurando por ele.

Com o endereço em mãos, os policiais resolveram levar

José até a casa de seus familiares. Foi um reencontro

contraditório. Enquanto José se sentia ao mesmo tempo

feliz e confuso, sua mulher e dois filhos diziam coisa que

ele não conseguia entender.

-O que aconteceu? Onde você esteve, pai? - disse o

filho Mário, o mais velho.

-Ora, eu estava trabalhando, sai de casa cedo e, quando

voltei, tudo estava mudado.

Foi então que José percebeu que seus familiares

também pareciam mais velhos. Haviam se mudado para

uma casa menor, com apenas três cômodos. Então

perguntou:

-Por que vocês se mudaram tão de repente?

- Nós esperamos seis meses e como você não voltou,

tivemos que mudar, por questão de economia. Tínhamos

que pagar um aluguel menor.

-E como está sua mãe?

-Ela ficou desesperada, procurou muito pelo senhor e

por fim adoeceu. Está de cama. Está doente.

José decidiu entrar na casa. Não era como a sua velha

residência, na Rua Inglaterra, mas reconheceu o jogo de

estofados. Também parecia mais velho, como tudo o que

via. Mas se sentiu reconfortado. Ao menos nem tudo

havia mudado completamente.

Quando entrou no quarto viu a esposa na cama. Sentiu

vontade de chorar. E parecia estar dois anos mais velha,

mas ficou emocionada ao vê-lo. Umas dois horas atrás ele

e ela pouco se falavam. Haviam perdido aquele amor da

juventude. Mas agora ela tinha um rosto sofrido e

pareceu, apesar de muito judiada, feliz ao vê-lo.

-O que aconteceu? Onde você esteve? - perguntou ela.

-Eu fui trabalhar hoje de manhã e agora voltei para

casa, como faço todos os dias - disse ele.

Ela ficou confusa com a resposta, mas não quis discutir.

-Está bem, enfim você voltou e parece que está bem -

concordou ela.

Com o passar dos dias e cada vez entendendo menos o

que tinha acontecido, José não se perdoava pelo que tinha

acontecido a sua mulher e a seus filhos. Não podia

acreditar que havia negado a eles dois anos de sua vida,

que os obrigara a entrar num regime de contenção de

despesas, de se desfazer de bens, de mudar de casa, de

ficar doentes. Podia valer pouco no dia a dia, mas

sempre estivera presente. Sem pouco dizer, sempre os

amara.

Por outro lado, José não conseguia se culpar. Não fizera

nada de errado. Fora trabalhar e voltara para casa. O que

teria acontecido? Quando os filhos o algum conhecido

insistia em lhe perguntar sobre o seu desaparecimento, ele

apenas dizia: "Eu fiz uma caminhada". Mas, aos poucos

ele foi pensando e definiu: "Eu caminhei no tempo".

Quando tudo ficou claro em sua mente, José chegou a

uma conclusão. Se a caminhada para casa, o afastara do

caminho e o levara para longe através do tempo e do

espaço, só havia uma forma de reparar tudo. Seria tentar

descobrir o ponto em que tudo aconteceu. Mas depois de

fazer a caminhada por dezenas de vezes, sem notar nada e

sem acontecer nada de anormal, ele decidiu fazer o

caminho contrário. Como isso também não resolveu,

pensou:

"Quem sabe se eu caminhasse de costas, voltando à

origem de tudo?". E foi assim que ele passou a andar,

sempre para trás.

A bala perdida

Jonas Oliveira, estudante, 23 anos, tinha uma vida

tranquila. Conseguira um bom emprego e ganhava o

suficiente para cursar a faculdade. Esperava se formar no

final do ano e, mais adiante, quem sabe, concretizar o

casamento com Lúcia, a quem namorava há alguns anos.

Por isso, naquela noite, ele tinha todos o motivos para

estar feliz. Seguia para a faculdade, onde encontraria

Lúcia. Caminhava pela avenida, sorridente, sem

preocupações, quando, parou abruptamente. Seu rosto

ficou inexpressivo e ele tombou sobre a calçada. As

pessoas que por alí passavam correram até ele para saber

o que estava acontecendo. Foi então que viram o pequeno

orifício na testa, onde havia um sangramento. Jonas

estava morto.

A princípio, as pessoas ficaram boquiabertas, mas

depois começaram os comentários e as especulações. O

jovem só poderia ter sido vitima de uma bala perdida.

Mas o impressionante é que ninguém ouvira tiroteio

algum, embora isso fosse comum naquela região próxima

da favela. Poderia até ser disparo de uma arma com

silenciador.

A polícia técnica foi informada, fez perícia no local e

encaminhou o corpo para necrotério, onde seriam feitos

os exames necroscópicos. O médico que fez os exames

encontrou um pequeno objeto na cabeça do estudante.

Estava muito amassado e não parecia com as balas

tradicionais de revólveres e pistolas. Mas como tinha

muitas outras autopicias a realizar, ele guardou o objeto

em um saco plástico, como prova do crime a ser

analisada posteriormente. Alguns dias depois, quando

isso seria feito, foi descoberto que o objeto havia

desaparecido. Havia um buraco no saco plástico, como se

tivesse sido derretido. A morte de Jonas Oliveira jamais

foi esclarecida.

Em outra região muito distante dali, uma família

também recebeu uma triste notícia na linguagem local:

"Lamentamos informar que seu filho, este notável

cientista, morreu em uma de suas missões de

reconhecimento no novo mundo. Pelas últimas imagens

transmitidas de sua nave, o aparelho onde estavam mais

cinco membros na tripulação, sofreu falha, ficou

descontrolado e colidiu com a cabeça de um ser natural

do planeta em estudo. Enviamos equipe para resgate dos

corpos e destroços da nave, a qual deve voltar em breve"

O corredor

Um sorriso amarelo tinge a boca da noite. O leve

colorido penetra no imenso corredor sem teto. Mas o que

importa isso ao João? Não se importa, caminha.

Atrás dele, não muito próximo, caminha também um

estranho senhor inteiramente vestido de negro, barba

negra, cabelos pretos. Passos lentos firme e pesados.

Como João segue por ali porque é o seu caminho e não há

possibilidades de ir por outro lugar. Ir para onde? Se em

qualquer porta que se entra haverá sempre um regresso ao

imenso e reto corredor sem teto? Para que se preocupar?

Tudo está tão quieto! João não pensa assim. Deixa o

homem de negro cada vez mais para trás. Vê outros

homens de banco, mulheres de vermelho, crianças de

azul.

Afinal, o que estão fazendo? Amando, odiando,

chorando, gritando, cantando e andando. Andar paciente,

andar triste, andar cansadora, cismado, apresado, lento,

manco, trôpego...

João tem passos precipitados. Está a fim de achar um

meio ou tem por princípio achar um fim? Nem uma, nem

outra: ambas são impossíveis para certos espíritos que

não se acomodam com as simples trocas de palavras.

Palavras técnicas, políticas, filosóficas...

De que adiantou aquele número infindável de ismos se

nada esclareceu nada? Se o corredor é imenso e a sua

busca ou fuga não tem solução plausível.

Alcança uma senhora que já caminha com velhos

passos. Vai passando-a quando ouve em tom profético:

-Você tem muita pressa, jovem...

- Ele pensa em continuar, porém interroga-a

subitamente:

- Onde é o meio?

A velha escancara um sorriso sem dentes. Caminha

ainda mais lentamente obrigando-o a esperá-la. Ele se

contraria, contudo aguarda a resposta. Talvez esta velha,

sem cultura aparente, lhe esclareça alguma coisa. Espera

a resposta. Finalmente a velha diz:

- Diga-me quais são as características e eu poderei lhe

dar uma resposta.

A revolta estoura dentro dele. Maldita senhora que o fez

parar.

-Mas nem isso a senhora sabe?

Vai embora sem dizer mais nada. Quase correndo.

"Velha ignorante. Perguntar quais são as características...

Será que ele não sabe ou vem com aquele maldito método

de interrogar para corrigir depois dizendo a mesma coisa

com palavras mais bonitas ou adequadas? Todos devem

saber ou ter uma ideia sobre as características: deve haver

muita vastidão, sem vastidão, ou então deve ser bem

pequeno, de forma circular, mas de uma maneira que tudo

e todos caibam dentro dele.

Nisto nota um andar trôpego. Reconhece a dona de

infeliz andar.

-Dorinha, você ainda está por aqui?

-Sim.

-Que aconteceu?

Dorinha encara-o abobalhada e lança outra pergunta:

-Com o que?

-Com tudo - responde, perguntando João - com aquele

seu canteiro de flores que havia lá no início, onde o

corredor não tinha paredes de concreto, com os nosso

amigos, você sabe...

- Está bem - replica Dorinha - as flores iam bem, mas

depois começaram a sangrar, sangrar...

-E os outros?

-Uns estão indo na frente. Outros pararam. Você também

deve ter parado pois ainda está aqui.

-Sim, eu entrei na biblioteca, li todos os livros, mas

depois saí correndo.

-Por que?

-Porque nada fiquei sabendo, mas você disse que alguns

pararam...

-Sim, o Robertinho parou... no hospital...

-E ele já saiu de lá?

-Sim.

-Por onde?

-Por cima...

-Mais alguém parou?

-A Santinha, o Agostinho e o Mário. Ficaram na Igreja.

Dizem que é um bom lugar. Eles gosta de lá.

- E Você?

- Estou indo e vindo.

João pensa um pouco e arrisca:

-Você já sabe onde é o meio?

Dorinha balança a cabeça negativamente. Termina a

conversa. João segue. Está determinado. Vai até o fim.

Divisa ao longe um vulto solitário. Há um cigarro na

boca daquele indivíduo. Chega até ele respirando fundo e

vai fazer-lhe a mesma pergunta que fez a todo mundo,

desde que aprendeu a perguntar. Muda de ideia no último

instante e, para não ficar chato, pede-lhe um cigarro,

agradece e sai apressado. Deve haver um meio...

Escureceu. Quantos mil cigarros já fumou? Quantas

milhares de vezes fez a mesma pergunta. Não importa,

não perguntará a mais ninguém.

No escuro segue sem receio na retidão do corredor.

Agora são passos longos, rápidos, desenfreados, até que

um grito sai de sua garganta, com as poucas forças do

pulmão cansado:

-Não sou louco...

Apenas o eco repete-lhe o grito. Cai repentinamente sem

poder ir adiante. A peça terminou. Levanta-se com

tremendo esforço, tira a camisa de manga compridas,

contorna-a no pescoço e puxa até perder as forças...

Quando Dorinha passa por ali, na manhã seguinte, dá

uma terrível gargalhada e grita:

− Mais um saiu por cima!

O planeta dos yelow

Fomos aproximando-nos com a impressão de íamos

vagarosamente, mas estávamos em vertiginosa

velocidade.

De longe o pequeno planeta dos Yellows assemelhava-

se a uma laranja.

O capitão Lanejuv informou que lá chovia

frequentemente, mas o pequeno planeta nunca perdia a

sua cor amarelada.

Em algms horas, passadas com lentidão e com o

ambiente ficando cada vez mais amaelo, a nave pousou

com a delicadesa de uma bailarina. Silêncio desanimador!

Logo, olhos também amarelados espreitaram-nos com

preguiçosa curiosidade.

Planeta chato aquele! E pensar que precisávamos parar

ali para reabastecer a nave...

Desde que o viajante espacial George Mark o havia

descoberto há duzentos anos, pouco ou nada a não ser

nosso posto de reabastecimento havia mudado ali.

Ninguém a não ser os yellows habitavam o planeta. Vi

uma vez no Universal Computer, que um cientista da

Terra viveu no planeta durante cinco anos, porém o livro

que trazia consigo foi destruído quando a nave, na qual

viajava de volta para a Terra explodiu por um defeito

técnico indeterminado matando todos os seus tripulantes.

Os yellows receberam-nos como tinham recebido os

poucos viajante que ali haviam chegado antes, com

aquela preguiçosa curiosidade nos olhos e sem se

importar com mais nada.

Jamais algum deles havia colocado a mão em nosso

posto de reabastecimento.

Através da neblina amarela eles aproximavam-se da

mave e Naikan que precedera a chuva, o great father dos

yellows, o mesmo que recebera George Mark, duzentos

anos atrás, ainda vivia e foi justamente ele que veio

receber-nos.

Como todos os outros, ele tinha o corpo grande e a

cabeça pequena demais. Em lugar da boca tinha uma

espécie de focinho que se afinava até a espessura de uma

caneta. Parecia um funil com a ponta para fora.

Segundo nosso computador, eles alimentavam-se de uma

espécie de mel produzido por insetos gigantes que

habitavam o planeta.

Após dar-nos a ordem de colocar os equipamentos

adequados para nossa saída da nave, foi conversar com

Naikan. Conversar é modo de dizer, pois os yellow se

comunicavam de uma maneira diferente de todos outros

seres que conhecíamos.

Com doze dedos, seis em cada mão, eles apertavam

vários pontos sobre o peito, como se estivessem tocando

piano. Lenejuv assim como eu e outros tripulantes o

entendíamos perfeitamente pois o vocabulário dos

yellows é muito pequeno.

Sentí-me interessado em Naikan e assim que pude, pedi

permissão ao capitão e fui "falar" com ele. Após um "bate

papo" informa fiquei sabendo que sua filosofia de vida

era simples: Vive e não prejudicar. Não se importavam

com o tempo pois nem possuíam calendário.

Cada mulher yellow deixava poucos descendentes que

teriam a única função de viver não pejudicar. As poucas

lutas que haviam eram com os insetos gigantes porém,

fora disso não havia mais nenhum motivo para brigas. E

não havendo motivos, eles não brigavam pois seu

temperamento calmo era constante. Não tive mais tempo

de conversar com Naikan, porque escureceu rapidamente

e todos foram para suas cavernas.

No outro dia tivemos a única surpresa mista de alegria e

tristeza naquele planeta. Naikan chegou com a primeira

claridade amarela do dia e fez apenas alguns sinais: "Eu

morro amanhã", "Venham". Lanejuv e eu o seguimos

curiosos até que ele estendeu o braço direito indicando

um local. Lanejuv olhou e imediatamente ficou tenso.

Correu para lá e pouco depois gritou: "É Zorah! Está

morto!". Certamente houvera um acidente com a nave e

Zorah e seus companheiros morreram ali no planeta dos

yellow.

Voltamos para a nave e ao saber do ocorrido, os

tripulantes respiraram aliviados. Agora todos poderiam

voltar para suas pátria. Terminara a missão: poderíamos

voltar para o Centro Universal e informar que o pirata do

universo, o homem que queria fazer guerrra estava morto.

Apressamos-nos todos em partir. A nave já estava

reabastecida. No último instante, lembrei-me dos sinais

de Naikan: "Eu morro amanhã" e comecei a imaginar

como seria saber o dia exato da morte. Fui até ele, abracei

seu corpo amarelo e, sinceramente... chorei.

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O autor

Jorge de Palma é filho de Carmo de Palma e

de Adelina Candian de Palma. Nasceu em

Iracemápolis-SP, em 20 de dezembro de 1952.

Trabalhou muitos anos como jornalista, atuando

nos jornais Diário de Limeira, Diário de

Pernambuco, Diário de Americana, O Liberal

(Americana) e Tododia (Americana), entre

outros.

Reside em Americana-SP.

O autor escreveu esta estória quando tinha

17 anos.. A primeira edição foi publicada há

mais de 30 anos.

Contato pelo e-mail:

jorgepalma@bol.com.br

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