O idílio degradado: um estudo do romance Til, de José de Alencar por Paula Maciel Barbosa - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA

Paula Maciel Barbosa

O idílio degradado:

um estudo do romance Til, de José de Alencar

São Paulo

2012

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA

O idílio degradado:

um estudo do romance Til, de José de Alencar

Paula Maciel Barbosa

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Literatura Brasileira do Departamento de Letras

Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de São

Paulo, para a obtenção do título de Doutor em

Letras

Orientador: Prof. Dr. José Antonio Pasta Jr.

São Paulo

2012

Resumo

Este trabalho analisa o romance Til, de José de Alencar, examinando-o em seus

aspectos formais, que revelam a matéria histórica que o embasa. Ao trazer a ação para uma

fazenda de café escravista do Segundo Reinado, e propondo-se a figurar todas as camadas

sociais envolvidas no mundo da fazenda, Alencar aponta para o núcleo de todo o sistema, o

café e o trabalho escravo. Com isso, o romance figura dois polos, centro e periferia – ou a

casa-grande e seus arredores –, que são postos em confronto, o que projeta sobre o romance

ambiguidades de todos os tipos, além de responder pela instabilidade da própria estrutura do

romance.

Em uma primeira parte, levanta-se o contexto histórico em que o romance foi escrito,

assim como se descreve o Til em suas diferenças e continuidades em relação à obra de

Alencar. A segunda parte do trabalho volta-se para as características formais do livro, tratando

de caracterizar suas personagens e de analisar o ponto de vista narrativo. A terceira parte trata

da atmosfera lúgubre do romance, vinculando-a à escravidão e a seus desdobramentos nas

relações sociais, que se mostra, então, como dado essencial da obra, ainda que a simples

leitura de seu enredo não aponte diretamente para isso.

Abstract

The present work analysis José de Alencar’s novel Til, examining it in its formal

aspects, which reveal the historic substance that lay its foundation. In bringing the action to a

slave-holding coffee farm in the Brazilian Segundo Reinado (Second Reign), and intending to

encompass all social classes involved in the farm’s world, Alencar points to the core of the

whole system, the coffee production and the slave labour. In this way, the novel shapes two

opposed realities – center and periphery – or the casa-grande (Big House) and its

surroundings –, which are confronted, projecting over the novel all kinds of ambiguities,

besides being the cause of the instability of the novel structure itself.

In a first part, the historic context in which the novel was written is raised, and Til is

described in its differences and continuities in relation to Alencar’s general work. The second

part of the work turns to the formal features of the book, dealing with the depiction of its

characters, and analyzing the narrative point of view. The third part deals with the novel's

lugubrious atmosphere, linking it to the slavery and its unfoldments in the social relations,

which is shown, in this way, as an essential element of the novel, even if the mere reading of

the plot does not directly point to that.

Agradecimentos

Agradeço a José Antonio Pasta Júnior pela Confiança e pela Orientação, generosa e segura.

A Thaís Toshimitsu, Cecília Bergamin, Hélio de Mello Filho, Pedro Fragelli, Fábio Alves,

Íside Mesquita, Jefferson Donizeti e Ana Paula Pacheco, agradeço as discussões, as leituras,

os livros emprestados ou sugeridos – o Coleguismo –, ao longo dos anos.

Aos professores Valéria de Marco, Vagner Camilo e Ivone Daré Rabello, sou grata pela

leitura cuidadosa e pelas contribuições, nos exames de qualificação.

A Matias Lisboa e Marcelo Maneo, agradeço a ajuda na preparação final do texto.

A minha família e a outros amigos não citados, agradeço a todos, e a cada um, por tudo.

Dedico este trabalho a Murilo de Andrade Lima Lisboa, a sua Memória.

Este trabalho contou, em seus 18 meses finais de preparação, com o apoio de uma bolsa de

estudos da CAPES.

Índice

Parte I – Alencar e a crise do Segundo Reinado: contextualizações.................................... 1

1. Considerações iniciais.............................................................................................................2

2. As duas fases de Alencar.........................................................................................................9

2.1 O político José de Alencar............................................................................... 10

2.2 A produção na década de 1870 …....................................................................36

2.3 O regionalismo de Alencar como retomada do indianismo.....................…....46

3. O tema do trabalho na obra de Alencar …............................................................................61

4. Os dois Alencares ou a forma fraturada................................................................................69

Parte II - O Til..........................................................................................................................76

1. Confronto e dissimulação......................................................................................................77

2. O estudo dos dependentes ….................................................................................................93

2.1 Jão Fera.............................................................................................................93

2.2 Berta................................................................................................................110

2.3 Miguel …....................................................................................................... 134

3. A elite distraída....................................................................................................................141

4. A educação de Brás.............................................................................................................147

Parte III - Violência e fantasmagoria: a escravidão nas formas......................................155

1. A paisagem assombrada......................................................................................................156

2. Na casa de Zana...................................................................................................................166

3. A Noite de São João............................................................................................................182

4. Os romances da fazenda......................................................................................................189

Bibliografia............................................................................................................................203

Anexo I...................................................................................................................................217

Anexo II.................................................................................................................................224

Parte I – Alencar e a crise do Segundo Reinado: contextualizações

Que ideia faz esse senhor de literatura, e sobretudo de

literatura nacional? Acaso está ele convencido de que a

arte e a poesia podem existir em um estado de completa

abstração da sociedade em cujo seio se formam?

José de Alencar

1

1. Considerações iniciais

Pouco conhecido pelo público e pouco valorizado pela crítica, o romance Til, de José

de Alencar, intriga desde seu título impreciso e estranho até seu final melancólico.

Desequilibrado e violento, muitas vezes cru e esquematizado, possui, porém, uma mistura

interessante de formalizações literárias diferentes e de temas alencarinos que faz com que, a

meu ver, funcione como um romance exemplar para o estudo da obra de José de Alencar.

Escrito em um momento político crucial para o Segundo Reinado (e para o deputado

José de Alencar) – durante as férias parlamentares no ano da aprovação da Lei do Ventre

Livre –, o Til funciona, também, como libelo político para propagação das ideias de Alencar

e, ao mesmo tempo, como emblema de sua posição política excêntrica: antes da publicação

em volume, pela Garnier, o romance saiu em folhetins, entre 21 de novembro de 1871 e 20 de

março de 1872, no jornal A República, jornal vinculado ao recém criado Partido Republicano,

uma dissidência do Partido Liberal. Em carta1 à redação, o monarquista Alencar descreve seu

livro como “ligeiro esboço de costumes, cujo título bem indica a folga da fantasia, não

apurada pelo estudo” . Dois anos depois, na nota que acompanha a primeira parte de Guerra

dos Mascates, refere-se ao livro novamente chamando a atenção para sua despretensão: “É o

Til desses livros que se compõem com material próprio, fornecido pela imaginação e pela

1 Quintino Bocaiúva, amigo de Alencar, pede ao autor seu mais recente trabalho, já nas mãos de seu editor, para

a publicação em folhetins no novo jornal. Baptiste Louis Garnier, que acabara de firmar contrato com Alencar

para a publicação de toda a sua obra, consente na publicação em folhetins. Alencar escreve a seguinte carta à

redação de A República:

“Meus ilustres colegas, por minha parte, de boa vontade, convenho na cessão que lhes fez o meu editor, o Sr. B.

L. Garnier, de algumas folhas de lavra tosca, pois são da minha, para que v.v. as publiquem em folhetim do seu

diário.

Lembrança como esta, que partindo de qualquer me lisonjearia, neste caso vale honras, porque provém de

antagonistas políticos mais propensos entre si e por natural tendência a se mostrarem mais severos na censura, do

que pródigos no apreço.

Sinto que a estreiteza do tempo reclamado por vários trabalhos já em via de impressão, não me permita destinar-

lhes outras coisas, além do ligeiro esboço de costumes que aí vai e cujo título bem indica a folga da fantasia, não

apurada pelo estudo.

Não me demove a consideração de se ter sua folha consagrado à opinião adversa; embora esteja bem

convencido de que há de ser o fato mui explorado pela intriga, que de antemão já me assinalou como um

republicano disfarçado. Não sou, malgrado eles, que tanto se incomodam com os monarquistas da ideia; por isso

empenham-se em tratar-nos de hereges. Pese-lhes embora; sou monarquista sincero e convicto. Mas, como nunca

professei o fetichismo da realeza, espero o triunfo para minhas ideias da civilização do povo, nunca de sua

ignorância.

Quero que o meu país seja monarquista, não pela rotina, mas por verdadeira fé nessa instituição; e, para isso, é

necessário que estude as doutrinas opostas e se esclareça com a livre discussão.

Se o encanto da república, a magia que exerce nos espíritos entusiastas está, permitam-me a franqueza, no fruto

proibido; a cárie das monarquias, o que lhes rói o cerne, é a presumida infalibilidade.

Convencidos, nós os monarquistas, de que é possível atacar a cidade invencível, corremos a defender a brecha,

por onde no momento do perigo hão de fugir espavoridos os gansos do Capitólio. Rio de Janeiro, 31 de outubro

de 1871. J. de Alencar.” (publicada em Cartas e Documentos de José de Alencar, organização de Raimundo de

Menezes, São Paulo, 1967, pp. 79-80).

2

reminiscência; e que portanto se podem escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da

mesa de jantar” .2

No ano anterior, no famoso prefácio a Sonhos D’Ouro, “Benção Paterna”, classificara

o Til como pertencendo a uma categoria de livros que descrevem um Brasil tradicional e

singelo:

Neste período a poesia brasileira, embora balbuciante ainda, ressoa, não

já somente nos rumores da brisa e nos ecos da floresta, senão também

nas singelas cantigas do povo e nos íntimos serões de família.

Onde não se propaga com rapidez a luz da civilização, que de repente

cambia a cor local, encontra-se ainda em sua pureza original, sem

mescla, esse viver singelo de nosso país, tradições, costumes e

linguagem, com um sainete todo brasileiro. Há, não somente no país,

como também nas grandes cidades, até mesmo na corte, desses recantos,

que guardam intacto, ou quase, o passado.

O Tronco do Ipê, o Til e O Gaúcho, vieram dali; embora, no primeiro

sobretudo, se note já, devido à proximidade da corte e à data mais

recente, a influência da nova cidade, que de dia em dia se modifica e se

repassa do espírito forasteiro.3

É curiosa a definição de singeleza e pureza para o romance. Embora procure retratar

um ambiente rural modesto e sem ostentação – o que sustentaria o seu caráter singelo –, o

livro não tem nada de singelo se tomamos a expressão em seu sentido de inocência e de coisa

constituída por apenas um material, sem misturas. Se a crítica da época ressaltou no livro o

aspecto nacionalista4 e harmônico, o primeiro estudo feito sobre a obra de José de Alencar,

poucos anos após sua morte, e ainda cotado como um dos pontos altos de sua fortuna crítica,

já ressalta em Til seu aspecto amargo e heterogêneo:

2 Alencar, José de. Guerra dos Mascates. Obra Completa, Rio de Janeiro, Aguilar, 1960, vol. III, p. 83. O

manuscrito de Til está nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa. As folhas originais (estreitas e compridas,

como as de um bloco, todas iguais e escritas em letra miúda e tinta preta) foram coladas em folhas grossas e

encadernadas em dois grandes volumes encapados com couro vermelho, o que explica a boa conservação do

manuscrito. A homogeneidade do papel, da tinta e da letra corroboram a informação de que o romance foi escrito

de enfiada, durante uma viagem de férias. Há muitas alterações de palavras; nesse caso a palavra original está

riscada com a mesma tinta e a segunda opção escrita por cima (não se consegue ler a palavra riscada). O autor

deixou, em quatro lugares do texto, a marcação “Volte”. Nesses lugares falta um parágrafo presente no folhetim

e nas edições posteriores. Há algumas anotações, em tinta azul, feitas para a impressão em folhetins no jornal A

República. Apesar da boa conservação do manuscrito, o quarto volume de Til não se manteve intacto: os

capítulos 2, 7, 8, 10, 12 e 14 deste volume foram perdidos.

3 Idem. “Benção Paterna”, prefácio de Sonhos D’Ouro, Obra Completa, op. cit., volume I, p. 698 .

4 “Os costumes brasileiros, e principalmente os da província de S. Paulo, estão aí pintados por mão de mestre.

Eis um romance que nosso povo pode chamar exclusivamente seu dele, porque tudo é dele, e provém dele.

Assim pegue a moda.” (Queiroga, Salomé. “Carta a Stokler” in Lendas e cantigas populares, Rio de Janeiro,

Tipografia Perseverança, 1873. Apud Castelo, José Aderaldo. Textos que Interessam à História do Romantismo,

São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1959, Vol. I, p. 47). / “Não é só o estilo poético e delicado, é mais do

que isso: o estado da nossa natureza, o mais perfeito brasileirismo nos quadros que descreve.” (“Til, por José de

Alencar” A Reforma – órgão democrático. Rio de Janeiro, 12 de abril de 1872, n. 81. Apud Silva, Hebe Cristina.

Imagens da Escravidão: uma leitura de escritos políticos e ficcionais de José de Alencar, Dissertação de

Mestrado, UNICAMP, Instituto de Estudos da Linguagem, 2004, Anexos, p. 215).

3

No período da vida literária de José de Alencar que estudo,

realizava-se, talvez, um triste movimento do céu para o elemento

adverso. O Til, com probabilidade, é o romance em que sua maneira

mais se quis aproximar dos padrões da nova escola: o pessimismo era a

causa de tão curioso efeito. Descobrem-se, no livro, cenas, descrições,

que aparecem de permeio com as pastorais antigas, como laivos de tinta

escura e diferentemente manipulada. O romance foi escrito quase todo

em Minas, durante o tempo em que ele buscava alívio aos seus

incômodos nas águas de Caxambu. Traçou os melhores capítulos, por

assim dizer, em cima dos objetos, e essa impressão tão direta fez, sem

contestação, palpitar acremente muitos dos seus períodos.5

José Veríssimo, em sua História da Literatura Brasileira, de 1912, classifica Til –

juntamente com O Tronco do Ipê, O Gaúcho, e O Sertanejo – como um romance

representativo do pitoresco, tema natural das novas nações, e também como um “romance da

vida mestiça brasileira”6. Essa classificação será mantida nas décadas seguintes e vamos

encontrá-la, na década de 1950, na edição da obra completa de José de Alencar, da Editora

Aguilar, onde os quatro livros recebem a rubrica de “regionalistas”. Na mesma década, na sua

Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido afina mais a classificação ao afirmar

que “O Tronco do Ipê e Til inauguram o romance fazendeiro, a descrição da vida rural já

marcada pelas influências urbanas”7.

Se, nas críticas de jornal contemporâneas ao lançamento, o romance é bem acolhido,

esta primeira impressão positiva não se mantém, e a posição do livro em relação às outras

obras do autor pode ser resumida nas palavras que abrem o estudo, de 1951, que precede o

Til, na bem cuidada edição das obras de José de Alencar feita pela editora José Olympio:

Na família contraditória, excessiva, mas, afinal, fascinante que são

os romances de José de Alencar, Til desempenha o ofício quase

dispensável de parente pobre.8

Essa posição de “parente pobre” e “dispensável” reflete-se na fortuna crítica do livro.

Não há nenhum estudo de fôlego sobre o romance. Til é sempre citado de passagem . Esse

ostracismo facilita, por um lado, a abordagem do romance. O sentimento é o de se falar em

um ambiente ermo e deserto, mas, por isso mesmo, vazio de lugares-comuns e de postulados,

e, portanto, cheio de possibilidades.

5 Araripe Jr., Tristão de Alencar. “José de Alencar ” in Obra Crítica de Araripe Júnior, Rio de Janeiro, Casa de

Rui Barbosa, 1958. p 229.

6 Veríssimo, José. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1929, p. 273.

7 Candido, Antonio. Formação da Literatura Brasileira, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Itatiaia, 1993, Vol. II,

p. 201.

8 Pimentel, Osmar. “Um inventor de mundo novo” in Alencar, José de. Til – Romance Brasileiro, Rio de

Janeiro, José Olympio, 1955, (vol. XI das Obras de Ficção de José de Alencar).

4

De qualquer forma, e independente da classificação dada ao romance e de sua recepção

– embora esse horizonte não seja alheio a esta pesquisa, que procura entender o romance em

suas conexões com outras obras do autor, com o momento histórico em que foi escrito e com

o projeto político de Alencar –, a estranheza que Til provoca em seus leitores parece ser

causada pela tentativa de figuração de um estrato menos privilegiado da sociedade e, além

disso, do abismo existente entre ele e a elite. Nesse sentido, pode-se pensar que as afirmações

do autor sobre a despretensão do livro devam-se a seu tema rural9, ou melhor, à camada social

que o autor se propõe a figurar.

Nessa mudança de perspectiva em relação aos romances anteriores, a grande novidade

trazida por Til é que nele há um confronto entre o mundo da elite e o resto da sociedade que,

apesar de ser mostrada como gravitando em volta do núcleo poderoso, tem no enredo do livro

um papel de peso equivalente. O livro traz à tona o confronto entre as várias camadas que

compõem aquela sociedade – e o confronto está na essência do romance –, focalizando o

mundo do trabalho e da produção em uma fronteira agrícola. Os temas do trabalho, da posse

da terra, da força de trabalho dos escravos, dos homens livres e pobres e dos imigrantes

estavam na ordem do dia e, como se sabe, eram preocupações de José de Alencar. Por isso,

esta primeira parte trata de aspectos, de certa forma, externos ao romance, mas importantes

para a compreensão do contexto em que a obra foi escrita. Além disso, nela, o romance será

descrito em suas relações com a obra do autor, em suas diferenças e continuidades.

Na segunda parte, núcleo do trabalho, será feita a análise literária do romance, com a

descrição de suas características formais, a caracterização de suas personagens e a análise do

ponto de vista. Uma terceira parte tratará de uma característica do romance que merece

atenção, embora seja de difícil exposição: seu aspecto que descreve uma realidade contrária

às leis naturais, onde fenômenos extraordinários acontecem, fenômenos que pressupõem uma

dimensão transcendente e fantasmagórica, em uma atmosfera lúgubre onde reina o

descontrole e a frágil autonomia das personagens, suscetíveis a transes e a fusões com outros

9 Lúcia Miguel Pereira chama a atenção para o fato de que era mais fácil para os romancistas perder as ilusões e

se aproximar do real quando o assunto era uma realidade distante da elite urbana, leitora dos livros. No caso de

Til, acho que esse efeito de maior facilidade de realismo quando se fala da esfera mais baixa da sociedade é

patente: “Fazendo parte de uma sociedade cujos extremos de pudicícia só se comparavam aos extremos de

convencionalismo, que não suportaria ver denunciadas as suas anomalias, não se poderiam os escritores

desvencilhar facilmente dos preconceitos românticos, tão bem ajustados ao estado de espírito da minoria educada

que ditava as regras. Por isso, entre os romancistas urbanos, o amor reinava todo-poderoso, com seu cortejo de

suspiros, lágrimas e desmaios. Foi pela tangente do pitoresco que a observação se insinuou; lidando com gente

humilde, com gente que os brasileiros educados à europeia consideravam com uma indulgência galhofeira,

ousavam os autores se aproximar mais da realidade.” Pereira, Lúcia Miguel. Prosa de Ficção – de 1870 a 1920,

Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988, p. 36.

5

seres, em uma estranha transfusão de almas. A proliferação de duplos, em várias instâncias do

romance – personagens, enredo, narrador – aponta para o tempo do mito e da história que se

repete – porque nunca superada –, o que faz com que a dimensão do espaço seja

hipertrofiada, assim como o é a teia imagética, muito densa, que aponta para imagens de

forças que pairam descontroladas ou afloram do subterrâneo. Vincular essa esfera do mito, do

descontrole e da superstição ao tema da escravidão e de seus desdobramentos nas relações

sociais é um dos objetivos dessa última parte.

O hibridismo e o contraste são características que sobressaem no romance. Na raiz

delas, o fato de que o romance mantenha atributos dos romances urbanos de Alencar – como,

por exemplo, o tema do namoro entre jovens, do casamento de um jovem pobre e talentoso

com uma herdeira rica – e, ao mesmo tempo, de um lado, o tom chão, descritivo e pitoresco

do regionalismo, de outro, a dimensão transcendente já apontada. Como se não bastassem

tantas misturas, há ainda a coexistência do romance que trata do indivíduo10 e do romance que

constrói uma alegoria da nação.

O dois romances fazendeiros mantêm entre si muitos paralelos, mas muitas diferenças,

também. De certa forma, muitas vezes, a comparação entre os dois, em suas coincidências e

diferenças, ajuda a iluminar aspectos de cada um dos romances. O objetivo deste trabalho é a

análise de Til, por isso O Tronco do Ipê será citado apenas quando puder esclarecer a leitura

deste romance. Um ponto de contato entre os dois romances fazendeiros, por exemplo, é que

ambos tratam da realidade alienada vivida pelos proprietários. No entanto, se O Tronco do Ipê

poderia ser chamado de “romance da casa-grande”, o Til poderia ser conhecido como

“romance do terreiro”. Nele não existe – ao contrário do que acontece na maioria dos

romances de José de Alencar – a descrição dos interiores. O livro todo se passa em trânsito:

temos estradas, caminhos, cancelas, porteiras, terreiros, varandas, janelas, ruas, lugares de

10 O romance tem uma afinidade essencial com a problemática individual. Ian Watt, em seu belo ensaio, A

Ascensão do Romance, vincula a forma-romance à ascensão da burguesia, classe social vinculada ao meio

urbano e a uma nova maneira de viver e de sobreviver. Esta classe tem como base a família nuclear, formada por

pai, mãe e filhos, em contraste com grandes famílias patriarcais auto-suficientes. O papel da mulher e do

casamento, novas perspectivas de mudança de classe, a afirmação da individualidade, novos padrões morais,

para citar algumas das mudanças, são novidades que passam a ser estudadas pelo romance. A característica

básica do romance, segundo Watt, é o “realismo formal”, um novo modo de representação que consegue uma

identificação entre leitor e personagem de uma forma inédita, como se a própria vida fosse refletida na mente dos

protagonistas, como se houvesse ali um relato autêntico de verdadeiras experiências individuais. Para isso, o

romance descreve a vida cotidiana com uma atenção à dimensão da experiência sensível e um tratamento do

tempo que dá a impressão de que vivemos com a personagem minuto a minuto. “Penetramos em sua mente

assim como em sua casa” (p.153). A experiência urbana, com sua segregação e solidão, é vinculada ao romance:

“Pois o mundo do romance é essencialmente o mundo da cidade moderna; ambos apresentam uma visão da vida

em que o indivíduo se volta para as relações privadas e pessoais porque já não pode ter uma comunhão maior

com a natureza ou a sociedade”(p.161). Cf. Watt, Ian. A Ascensão do Romance, São Paulo, Companhia das

Letras, 2007 .

6

emboscada... As personagens estão frequentemente indo ou voltando de algum lugar. Quando

muito temos uma visão do interior das casas através da janela. É como se o mundo burguês,

com seus interiores confortáveis e sua cisão da dimensão coletiva, não tivesse ainda se

formado de maneira completa. Estamos mergulhados em um mundo rural que mistura uma

natureza exuberante ainda não degradada, terras cultivadas de forma eficaz em grandes

fazendas e pequenas propriedades improdutivas que tendem à ruína. Isso tudo em um meio

social baseado na violência.

Uma pequena comunidade, Santa Bárbara, às margens do Rio Piracicaba, no interior

de São Paulo, é o cenário para a história de duas gerações. O livro se abre em 1846, às

vésperas das comemorações de São João, e o leitor acompanha os flertes de quatro jovens –

Berta, Miguel, Linda e Afonso – e as desventuras do capanga Jão Fera, que tenta, depois do

pedido feito por Berta, se desobrigar de um trato que firmou com um forasteiro para dar cabo

da vida do rico fazendeiro Luís Galvão.

Luís Galvão, por sua vez, é pai de Linda e Afonso, irmãos gêmeos, marido de D.

Ermelinda e proprietário da Fazenda das Palmas, importante fazenda de café da região. Na

casa-grande, além da família, vive, também, Brás, sobrinho órfão de Luís Galvão que sofre de

epilepsia e de debilidade mental.

Berta e Miguel são irmãos de criação, educados por Nhá Tudinha: viúva, mãe

biológica de Miguel, doceira de mão-cheia e comadre de Luís Galvão, padrinho de seu filho.

Berta não sabe nada sobre seus pais. O segredo de seu passado será revelado ao leitor ao

longo do livro e à personagem no final do enredo. Trata-se do fato de ser Berta filha ilegítima

de Luís Galvão; portanto, meia-irmã de Afonso e Linda.

A situação flagrada é de exceção e perigo: a morte do fazendeiro afetaria a vida das

personagens do romance e a iminência do atentado é o motor de todo o enredo. Além disso,

há um segundo perigo que ronda o romance: a reencenação do assassinato da mãe de Berta,

desta vez tendo a filha como vítima. A teia social da fazenda e de seus arredores é descrita de

forma a retratar a comunidade, composta por diferentes estratos – escravos do eito, escravos

domésticos, feitores, administradores, caipiras, vendeiros, mascates, fazendeiros, capangas,

pequenos agricultores –, que convivem em um alto grau de tensão. Tensão, aliás, que é

reforçada pela revelação do segredo que desabona o passado do fazendeiro e que está

vinculado à situação presente de perigo.

7

O livro é dividido em quatro partes, ou volumes11. A terceira parte se abre com uma

volta ao passado, 1826, que dá subsídios ao leitor para entender o presente da narrativa. Nesse

flashback, o passado de Berta é esclarecido e o leitor é apresentado à mãe da heroína, Besita,

que vive com sua escrava Zana em uma pequena propriedade de seu marido, Ribeiro, que

viveu pouco tempo em Santa Bárbara, pois chegara para tomar posse desta propriedade, que

herdara, quando conheceu sua noiva, abandonada um dia depois do casamento pelo marido,

que foi resolver um problema inadiável relativo à herança e não deu sinal de vida durante dois

anos, pois, “vendo-se rico, de repente, não resistiu o moço à tentação de gozar dos prazeres”.

Neste flashback, o leitor conhece, também, a história de duas personagens do livro

quando eram mais jovens: Luís Galvão e Jão Fera. A relação entre eles e Besita e as

circunstâncias do nascimento de Berta e do assassinato de Besita pelo marido, na década de

1820, explicam muitas atitudes das personagens em 1846.

O leitor deste estudo, por sua vez, terá, também, aos poucos, mais subsídios para

entender o romance.

11 Originalmente, cada parte tinha o nome de “volume”, nomenclatura que se mantém em algumas edições. Na

época de sua publicação, o romance foi realmente separado em quatro pequenos volumes, que podiam ser

vendidos separadamente.

8

2. As duas fases de Alencar

Til faz parte de uma fase da literatura de José de Alencar considerada por muitos

críticos – principalmente seus contemporâneos – como sua segunda fase literária. De acordo

com essa teoria, o percurso literário de José de Alencar seria composto de uma primeira fase,

que terminaria com a publicação de Iracema, em 1865, e de uma segunda fase, inaugurada em

1870 com a publicação de A Pata da Gazela e de O Gaúcho. No intervalo entre as duas fases,

Alencar dedicou-se a sua carreira política, tendo uma participação efetiva nos debates

públicos e no ministério, como veremos.

No estudo, já citado, Araripe Júnior define as duas fases:

Pela primeira vez, n´ O Gaúcho, a mulher deixa de ser o ponto

central de suas composições. Como que lhe desponta uma obsessão

demoníaca, que, afrouxando os laços que o prendiam às “miniaturas”

gentis e à candura natural, concentra todos os esforços de sua

imaginação sobre uma sombra de Banquo. Essa sombra é o

pessimismo, o desgosto, o amor-próprio ofendido, que,

desconhecendo-se, sistematiza-se, coordena-se em figuras, em formas

literárias. Este sentimento, ou, antes, este estado doentio,

engrandecido pela idealização, que continua a trabalhar com a mesma

intensidade em seu espírito, iminente agora a tudo quanto constitui o

amor do artista, não só ensombra os sorrisos de Cecília e Iracema, nas

suas novas criações feminis, como abre uma brecha à irrupção de

caracteres ferozes, mas de uma ferocidade ilógica, de cenas

truculentas, mas de um horror vacilante, indeciso, incongruente, como

os que se experimenta em sonhos mal dormidos.12

Em 1888, em sua História da Literatura Brasileira, Silvio Romero aponta para a

questão:

Alguns observadores opinam que a vida literária de José de Alencar está

naturalmente dividida em dois períodos: antes do ministério (1852-1868)

e depois do ministério (1868-1877), sendo o primeiro de pujança e o

segundo de declínio. (...)

Os referidos críticos preferem os produtos da primeira fase, por mais

plácidos, mais suaves, mais graciosos, aos do último período, que se lhes

afiguram mórbidos, desequilibrados, filhos da irritação e de

preocupações pessimísticas.13

O crítico conclui afirmando que, para ele, as obras da segunda fase são superiores,

pois possuem mais “intensidade passional”, e tornaram-se mais reais, mais humanas.14

12 Araripe Jr., Tristão de Alencar. “José de Alencar ” in Obra Crítica de Araripe Júnior, op. cit., pp. 218 e 219.

13 Romero, Sílvio. História da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1960, p. 1.465.

14 Idem, ibidem, p. 1.466.

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José Veríssimo considera, também, que a obra de Alencar pode ser dividida em duas

fases e, assim como Araripe, considera a segunda fase inferior à primeira. As obras da

segunda fase trariam

um gosto malsão do extravagante, mesmo do monstruoso, uma

afetação do monstruoso, uma afetação do desengano e de desilusão,

que lhe revê a chaga da alma mal ferida.15

Taunay, amigo de Alencar, em suas Reminiscências – obra sempre citada nas

biografias de Alencar, por seu depoimento sobre a recepção de O Guarani – tomava como

coisa dada as duas fases e, apesar de dizer que a segunda fase era prejudicada pelo fato de

alguns livros conterem “alusões políticas certeiras e ferinas”, preferia esta à primeira, por ser

“de cunho mais pensado, observador e documentário” .16

Não se trata, aqui, de se defender a existência ou não das duas fases, ideia que foi

perdendo força com o tempo. A crítica atual prefere dividir as obras por assunto17, seguindo

de certa forma a indicação do próprio autor no prefácio já citado, “Benção Paterna”. De

qualquer forma, não me parece de todo absurda a divisão em duas fases, uma vez que as obras

escritas a partir de 1870 traziam mudanças temáticas e formais importantes, de que trataremos

à frente. Como indicado por Araripe, quando trata de Til, a “nova escola” já está no horizonte

de Alencar, que se chama de “anacrônico” no prefácio de O Gaúcho.

Além disso, a historiografia é unânime em apontar a década de 1870 como uma fase

de declínio do Segundo Reinado e do Romantismo nacional. A Guerra do Paraguai, a

discussão sobre a abolição da escravidão, a criação do Partido Republicano, as novas escolas

de pensamento, os novos escritores – Machado de Assis, publica seu primeiro romance,

Ressurreição, no mesmo ano de Til – são indicadores de que as coisas estão mudando.

O próprio Alencar assina, em 1870, um contrato com a editora Garnier que indica uma

mudança no mercado literário nacional. Sua experiência como ministro, em um período

político conturbado e crucial para o país, o marcou, também, de forma pessoal.

2.1 O político José de Alencar

Nos cinco anos que separam as duas fases literárias, Alencar dedicou-se com afinco a

sua carreira política. Publicou por conta própria três séries de Cartas Políticas de Erasmo: Ao

Imperador (1865), Ao Povo (1866) e Ao Imperador (Novas Cartas Políticas de Erasmo)

15 Veríssimo, José, História da Literatura Brasileira, op. cit. , p. 277.

16 Taunay, Alfredo D’Escragnolle. Reminiscências, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1908, p. 224.

17 Temos assim os romances urbanos, os históricos, os regionalistas e os indianistas. O Guarani, ora é

classificado como indianista, ora como histórico.

10

(1867). Além disso, em 1867, escreveu um panfleto satirizando o mundo palaciano, A Corte

do Leão, e publicou, em 1868, um longo e detalhado estudo intitulado O Sistema

Representativo, onde analisa e propõe soluções para a representação das minorias nas

eleições, e um estudo denominado Questão de Habeas Corpus. Tudo indica que essa

dedicação aos estudos políticos tenha motivado o convite recebido para ocupar o importante

cargo de ministro da Justiça, no polêmico Gabinete 16 de Julho, em 1868. Polêmica, também,

foi sua atuação no ministério, de onde pediu demissão em janeiro de 1870. Sai do poder com a

pecha de pirracento e irritadiço e sentindo-se traído por seus companheiros de gabinete. Suas

relações com o Imperador são sensivelmente abaladas, o que culmina em sua preterição para o

cargo de senador, apesar de ter sido o mais votado na lista sêxtupla entregue a D. Pedro II.

Todos os seus biógrafos são unânimes em afirmar que José de Alencar nunca mais foi

o mesmo depois de sua experiência no Poder Executivo, inaugurando uma nova fase em sua

posição política. A partir daí, rompe com o Partido Conservador e torna-se uma voz solitária e

ativa na imprensa e na câmara dos deputados, para onde foi eleito por seu estado de origem, o

Ceará, já para os trabalhos de 1870.

O próprio Alencar contribuiu para a disseminação da ideia de que seu estado de

espírito melancólico era o responsável por uma nova fase literária, ao assinar seus dois livros

do ano de 1870 com o pseudônimo de “Sênio” e explicá-lo ao leitor, no prefácio de O

Gaúcho, como signo de sua “velhice precoce” e da alma, provocada não pelo tempo, mas por

“desilusões”. Há um aspecto destas obras assinadas por Sênio ao qual não se deu muita

atenção e me parece importante: o fato de que nessas obras Alencar esteja dando

prosseguimento a suas críticas à política do momento e à defesa de seu projeto para a nação.

Não que anteriormente não existisse em Alencar um projeto mais amplo e empenhado com a

realidade contemporânea, uma vez que a criação de balizas para a sociedade brasileira é uma

das características mais importantes de seu projeto literário. Trata-se aqui, porém, de uma

intervenção política mais pontual, quase como se seus livros fossem um instrumento político

argumentativo de convencimento, crítica e intervenção nas discussões políticas em pauta no

Parlamento.

A carreira política de José de Alencar começa em 1861, quando é eleito deputado pelo

Ceará e pelo Partido Conservador. No começo da campanha, ainda flerta com políticos

liberais cearenses aliados de seu pai. O senador Alencar faleceu em março de 1860 e deixou

seu filho em uma posição mais confortável para escolher o caminho que lhe parecia mais de

acordo com suas convicções pessoais. Embora tenha carregado a pecha de traidor por toda a

vida, há várias explicações para a atitude do escritor que o isentam da acusação de ter se

11

locupletado da posição dominante dos conservadores no momento da eleição para não repetir

a derrota de 1856, em sua primeira tentativa de eleição para a Câmara.

José de Alencar tinha, desde o começo de sua carreira de jornalista, uma relação forte

com o líder conservador Eusébio de Queiroz, que o ajudara em muitos momentos. Foi a ele

que Alencar recorreu para conseguir um contrato que livrou da falência o Diário do Rio de

Janeiro, órgão que o jovem escritor, em 1855, assumiu com mais alguns amigos, depois de

sua saída do Correio Mercantil. Queiroz foi também o responsável por sua indicação para o

cargo de chefe da secretaria do Ministério da Justiça e, mais tarde, por sua promoção a

consultor da mesma secretaria. A morte do pai o encaminhou para a decisão pelo Partido

Conservador e o livrou de uma herança de mais de quarenta anos de história política de seu

pai no Partido Liberal. É interessante seguir a correspondência de Alencar, nesse ano de 1860,

com parentes e correligionários ligados a seu pai e ao Partido Liberal cearense; há todo um

jogo político intrincado que parece atrapalhar o pretendente à vaga de deputado, perdido entre

atitudes esperadas e suscetibilidades que não quer arranhar.

Numa anotação pessoal sem data e nunca publicada, Alencar confessa sua admiração

pelo senador Alencar e por Eusébio de Queiroz: “Dois homens a quem eu gostaria de copiar:

conselheiro Eusébio e senador Alencar”18. A afirmação, quase infantil, demonstra o forte

vínculo de Alencar com a figura do líder conservador.

Além disso, o próprio senador Alencar, um liberal histórico, tinha queixas do rumo

tomado por seu partido nos últimos anos de sua vida, desde a Conciliação. O Partido Liberal

tinha o mesmo nome, mas não defendia mais os mesmos interesses dos primeiros tempos.

Muitos arranjos novos aconteciam desde os anos de 1850 e continuariam pelos anos de 1860,

que assistem a novas acomodações partidárias: o Partido Liberal de Zacarias de Góis não tem

afinidades com os liberais históricos (Zacarias era conservador no começo de sua carreira); o

Partido Progressista, fundado em 1862, mistura conservadores, liberais e conciliados; o

Partido Republicano é criado em 1870 por dissidentes dos dois partidos.

Na Circular aos Eleitores, Teófilo Ottoni, liberal histórico mineiro, afirma:

E, em 1851, quando, com razão ou sem ela, me pareceu que os chefes

liberais, candidatos às pastas de ministros, se mostravam na imprensa e

no parlamento dispostos a fazer ao governo pessoal mais concessões do

que aquelas que eu julgava admissíveis, retirei-me da política, e deixei de

estar em comunhão com qualquer partido. 19

18 Manuscrito autógrafo pertencente ao arquivo do Museu Nacional, apud Neto, Lira. O Inimigo do Rei- Uma

biografia de José de Alencar. São Paulo, Globo, 2006.

19 Ottoni, Teófilo. Circular aos Eleitores (1860). Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de

Janeiro, Imprensa Nacional, 1916, Tomo LXXVIII, parte II, p.225.

12

O próprio Alencar, em outro texto nunca publicado, espécie de autobiografia política

que deixou inconclusa, provavelmente de 1873, dá suas razões para a mudança em relação à

opção partidária de sua família:

Nasci no seio do mais puro liberalismo brasileiro; daquele que se

acrisolou nos cárceres e ergástulos do absolutismo; e se eclipsou sem

outras honras além daquelas que o povo lhe deferira. Ali, numa

atmosfera de ardente patriotismo, eduquei-me eu. (...)

Ainda criança vi se traçarem os fatos mais importantes do Partido

Liberal num período de dez anos: a Maioridade, a Revolução de Minas, a

Sociedade dos Patriarcas Invisíveis, a Revolução de Pernambuco. (...)

Se do limiar da vida pública eu visse vultos como o do senador

Alencar, no Partido Liberal; talvez me lançasse nele; mas o Partido

Liberal apresentava um período de decadência .20