O império romano de Aurélio Vítor por Moisés Antiqueira - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

MOISÉS ANTIQUEIRA

O Império romano de Aurélio Vítor

Versão corrigida. O exemplar original se encontra disponível no CAPH (Centro de Apoio à

Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda”) da FFLCH/USP

São Paulo

2012

MOISÉS ANTIQUEIRA

O Império romano de Aurélio Vítor

Tese apresentada à Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de

São Paulo para obtenção do título de Doutor em

História.

Área de Concentração: História Social

Orientadora: Profa. Dra. Maria Luiza Corassin

Versão corrigida. O exemplar original se encontra disponível no CAPH (Centro de Apoio à

Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda”) da FFLCH/USP

De acordo: _____________________________________

Profa. Dra. Maria Luiza Corassin

São Paulo

2012

ANTIQUEIRA, M. O Império romano de Aurélio Vítor. Tese apresentada à Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para a obtenção do título

de Doutor em História Social.

Aprovado em:

Banca Examinadora

Prof(a). Dr(a). _________________________ Instituição: ____________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: ____________________________

Prof(a). Dr(a). _________________________ Instituição: ____________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: ____________________________

Prof(a). Dr(a). _________________________ Instituição: ____________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: ____________________________

Prof(a). Dr(a). _________________________ Instituição: ____________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: ____________________________

Prof(a). Dr(a). _________________________ Instituição: ____________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: ____________________________

À memória de minha mãe, Valquíria,

iluminatio mea sempiterna

AGRADECIMENTOS

Manifestar os devidos agradecimentos a todos os que me ajudaram ao longo desta

trajetória não corresponde a tão somente uma formalidade. Trata-se, antes, de um humilde,

embora profundo, reconhecimento por tudo aquilo que me fora ofertado. No entanto, a

maneira mais singela de externar esse sentimento repousa na valorização de todos os

ensinamentos com os quais fui abençoado durante todos esses anos. O presente trabalho busca

refletir tais lições. E, malgrado as falhas e limitações desta pesquisa, as virtudes da mesma se

escoram no auxílio e na gentil atenção que várias pessoas me concederam. A todas estas,

registro aqui o meu muito obrigado. A outras, porém, sei que as palavras jamais contemplarão

a minha gratidão por inteiro. De todo modo, gostaria de agradecer imensamente:

A Micheli, a quem o destino permitiu que eu conhecesse e a quem o amor me manterá

unido. Por toda a ternura, paciência, compreensão e respeito que me impulsionaram a trilhar o

meu caminho nos momentos mais difíceis.

Ao meu pai, Gilberto e ao meu irmão, Lucas. Nosso sangue nos une; nosso amor nos

faz seguir adiante. À minha cunhada, Lia, e suas palavras de apoio e motivação. E também

aos meus avós maternos, João e Amélia, pelo inesgotável carinho.

À minha orientadora e amiga, Profa. Dra. Maria Luiza Corassin. Alguns anos já se

passaram desde que este rapaz do interior veio bater à sua porta. E hoje, finalizado o nosso

trabalho, aproveito para expressar, uma vez mais, quão afortunado fui por contar com todos os

seus conselhos e valiosas lições.

À Profa. Dra. Zélia Ladeira Veras de Almeida Cardoso e ao Prof. Dr. Breno Battistin

Sebastiani, pela importante e mais que oportuna contribuição a mim dispensada, por ocasião

do Exame de Qualificação deste trabalho.

Ao Prof. Dr. Joseph Farrell (University of Pennsilvania), pela gentileza em

compartilhar algumas considerações a respeito da intertextualidade nos meandros da literatura

latina e, de maneira especial, à Profa. Dra. Isabel Moreno Ferrero (Universidad de

Salamanca), por debater comigo uma série de questões relativas à obra de Aurélio Vítor e à

historiografia tardo-antiga como um todo.

Aos meus grandes amigos, de longa data e afeto perene: Alexandre Budaibes,

Christiane Teodoro Custódio, Daniel Fazenaro, Gabriel Terra Pereira e Paulo Roberto de

Oliveira.

Aos docentes e discentes vinculados ao Curso de Graduação em História da

Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em particular ao Prof. Dr. Marcos Luís

Ehrhardt, que mantém viva a chama da Antiguidade no oeste paranaense, ao Prof. Dr. João

Fernando Christofoletti, ao Prof. Ms. Danilo Ferreira da Fonseca, bem como aos amigos Alex

Sander Sanoto, Guilherme Ignácio Franco de Andrade e Lúcio Fellini Tazinaffo.

À criaturinha mais carinhosa e dócil que há neste mundo, o meu “cãopanheiro” Dig,

sempre ao meu lado durante as infindáveis horas dedicadas a esse texto.

E, finalmente, à pessoa mais maravilhosa que fez – e faz – parte de minha existência,

minha amada mamãe, Valquíria.

A História acolhe em sua memória aqueles mortais que,

através de feitos e palavras, se provarem dignos da

natureza, e sua fama eterna significa para eles, em que

pese sua mortalidade, que podem permanecer na

companhia das coisas que duram para sempre.

Hannah Arendt

E quando pensi che sia finita,

è proprio allora che comincia la salita.

Antonello Venditti

RESUMO

ANTIQUEIRA, M. O Império romano de Aurélio Vítor. 2012. 364 f. Tese (Doutorado) –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,

2012.

Um estudo historiográfico das Historiae abbreuiatae de Aurélio Vítor. Nisto consiste o

presente trabalho, que procura determinar de que modo o referido historiador, no ocaso do

reinado de Constâncio II, compôs uma narrativa dedicada à história do Império romano em

sua totalidade. Para tanto, em primeiro lugar buscamos definir a natureza da obra. Em que

pese os nítidos elementos biográficos que a integram, assim como a brevidade do texto, a obra

de Aurélio Vítor deve ser pensada enquanto uma história, na medida em que o objetivo do

autor se voltava para a exposição das causas que teriam condicionado o curso dos

acontecimentos, da batalha de Ácio até o penúltimo ano do governo de Constâncio II. Desta

forma, em um segundo momento, analisamos as estratégias de periodização e as concepções

que Aurélio Vítor adotou a fim de contemplar a história imperial. As ações e o caráter moral

dos sucessivos imperadores emergem nas Historiae abbreuiatae como o motor a partir do

qual se movimentava a história da era imperial romana. Isto implicava, pois, o

reconhecimento das oscilações que o mundo romano teria vivenciado ao longo de quase

quatro séculos e as contradições que animavam a conduta das personagens históricas. Do que

resultava, igualmente, na impossibilidade de se identificar um modelo ideal de imperador, em

razão dos fatores e das circunstâncias distintas que marcariam o desenrolar da história do

Império romano, como narrada por Aurélio Vítor.

Palavras-chave: Império romano. Aurélio Vítor. Historiografia tardo-antiga. Política romana.

Cultura romana.

ABSTRACT

ANTIQUEIRA, M. The Roman Empire of Aurelius Victor. 2012. 364 f. Tese (Doutorado)

– Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,

2012.

A historiographical study of Aurelius Victor’s Historiae abbreuiatae. That is what defines the

present work, which tries to ascertain how the aforementioned historian settled up a narrative

about the history of the Roman Empire in the twilight of the reign of Constantius II.

Therefore, we discuss at first the nature of the work. Despite the clear biographical trend we

can observe in the text, as well as the brevity that characterizes it, the work of Aurelius Victor

should be seen as a historical narrative since the author aimed to expose both the causes and

the course of Roman imperial history, from the Battle of Actium to the last but one year of

Constantius II’s reign. Thereupon we examine the strategies of periodization and the

perspectives defined by Aurelius Victor in order to compose his text. In the Historiae

abbreuiatae, the conduct showed by the emperors and their moral character represented the

driving force of the narrative. That led the author to emphasize the ups and downs of Roman

past in almost four hundred years of history. In this sense, Aurelius Victor did not lose track

of some contradictions that encourage historical figures into action. That resulted in Aurelius

Victor’s failure to identify an idealized model of Roman emperor due to distinct elements and

circunstances that he himself pointed out in the course of the history of the Roman Empire.

Keywords: Roman Empire. Aurelius Victor. Late antique historiography. Roman politics.

Roman culture.

LISTA DE ABREVIATURAS

AAAH

Acta ad Archaeologiam et Artium Historiam Pertinentia

AC

L’Antiquité Classique

ACD

Acta Classica Universitatis Scientiarum Debreceniensis

A&Cr

Antigüedad y Cristianismo: monografías históricas sobre la

Antigüedad tardia

AHB

The Ancient History Bulletin

AHR

American Historical Review

AJPh

American Journal of Philology

Annales (ESC)

Annales: Économies, Sociétés, Civilisations

ANRW

Aufstieg und Niedergang der römischen Welt: Geschichte

und Kultur Roms im Spiegel der neueren Forschung

ASNP

Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa. Classe de

Lettere e Filosofia

BMCRev

Bryn Mawr Classical Review

CAH2

The Cambridge Ancient History. Second Series

CFC(L)

Cuadernos de Filologia Clásica. Estudios Latinos

CHCL

The Cambridge History of Classical Literature

ChHist

Church History

CJ

Classical Journal

CLRE

Consuls of the Later Roman Empire

CP

Classical Philology

CQ

The Classical Quarterly

CR

Classical Review

CRAI

Comptes Rendus de l’Académie des Inscriptions et Belles-

lettres

CW

The Classical World

DHA

Dialogues d’Histoire Ancienne

EClás

Estudios Clásicos

FEC

Folia Electronica Classica

G&R

Greece and Rome

H&T

History and Theory

HAC

Historia Augusta Colloquium

Historia

Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte

HSCP

Harvard Studies in Classical Philology

JECS

Journal of Early Christian Studies

JLA

Journal of Late Antiquity

JRS

Journal of Roman Studies

JWI

Journal of the Warburg and Courtauld Institutes

K

Klio: Beiträge zur Alten Geschichte

MEFRA

Mélanges de l’École Française de Rome. Antiquité

NAC

Quaderni Ticinesi di Numismatica e Antichità Classiche

OCD

Oxford Classical Dictionary

P&P

Past and Present

PLRE 1

The Prosopography of the Later Roman Empire. Vol. 1

QUCC

Quaderni Urbinati di Cultura Classica

RE

Paulys Real-Encyclopädie der classischen

Altertumswissenchaft

REG

Revue des Études Grecques

REL

Revue des Études Latines

RFIC

Rivista di Filologia e di Istruzione Classica

RIDA

Revue Internationale des Droits de l’Antiquité

RN

Revue Numismatique

RPh

Revue de Philologie

RSI

Rivista Storica Italiana

SHHA

Studia Historica. Historia Antigua

TAPhA

Transactions and Proceedings of the American Philological

Association

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO – Sexto Aurélio Vítor e uma história do Império romano ...................... 15

CAPÍTULO 1 – História abreviada ou biografia dos Césares? .......................................... 21

1.1 Aurélio Vítor, a serviço do Império romano ...................................................................... 21

1.2 Algumas considerações acerca da tradição manuscrita do texto de Aurélio Vítor ........... 31

1.3 A tradição epitomatória latina na segunda metade do século IV ...................................... 44

1.4 As Historiae abbreuiatae entre biografia e história ............................................................ 61

1.5 Aurélio Vítor e o munus do historiador ............................................................................. 81

CAPÍTULO 2 – Império romano, uma história de decadência. Reflexões sobre o passado

e o presente em Aurélio Vítor................................................................................................... 93

2.1 Periodização histórica e decadência nas Historiae abbreuiatae ........................................ 93

2.2 Galieno e a (quase) ruína do Estado romano .................................................................. 104

2.3 A cidade de Roma: microcosmo da decadência................................................................ 122

2.4 O cristianismo ou o interdito do silêncio ......................................................................... 143

2.5 Um encômio à dinastia Constantiniana? O historiador, o passado e o presente ............ 155

CAPÍTULO 3 – O pêndulo de Aurélio Vítor .................................................................... 193

3.1 Militares, provinciais, bárbaros... .................................................................................... 193

3.2 Bons e maus imperadores, boas e más eras. O peso de uma tipificação ......................... 212

3.3 A ruptura inaugural. Augusto e a dinastia Júlio-Cláudia ................................................ 218

3.4 O pêndulo se move: Vespasiano e a reconstrução do mundo romano ............................. 233

3.5 O ponto de equilíbrio: do “cretense” Nerva ao “Antonino” Septímio Severo ................ 246

CAPÍTULO 4 – Sobre restaurações e eternos retornos .................................................... 267

4.1 “Caracalla, pari fortuna quo pater” ................................................................................... 267

4.2 Um tempo cíclico nas Historiae abbreuiatae? Aureliano e a refundação de Roma ......... 277

4.3 As representações sobre os senadores e a política imperial ............................................ 294

4.4 Aurélio Vítor e a cultura do criticismo” ......................................................................... 314

4.5 Juliano: um imperador ideal?........................................................................................... 323

CONSIDERAÇÕES FINAIS – Diocleciano e as contradições de Aurélio Vítor ....... 336

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 340

15

INTRODUÇÃO – Sexto Aurélio Vítor e uma história do Império romano

Em uma entrevista datada de outubro de 1999 e publicada na revista L’Histoire, o

medievalista Jacques Le Goff promovia uma de suas obras, que se centrava na figura de

Francisco de Assis. Interpelado acerca de seu interesse em personalidades de vulto, Le Goff

então respondeu: “sou [...] um biógrafo, se se trata de escrever a biografia de uma personagem

que faz com que a sociedade de uma época gravite em torno de si e que dela encarne,

ampliando-as, as características profundas”.1

Não obstante se assumisse enquanto “biógrafo”, em razão do objeto para o qual

devotava sua análise, Le Goff não perdia de vista o métier do historiador. O exame da vida de

um indivíduo dotado de significativa visibilidade social, como era o caso do santo nascido em

Assis, permitiria compreender globalmente um dado período e seus problemas, no entender

do intelectual francês. Ou seja, Le Goff nos indica que, embora o seu estudo se centrasse em

uma personagem, ele jamais deixara de ser “historiador”: tendo por norte uma vida singular,

objetivava-se apreender o conjunto de determinada sociedade.

Julgamos reconhecer semelhante perspectiva a partir da análise de uma obra bastante

distinta (e cronologicamente distante) daquela que Le Goff compôs há pouco mais de uma

década. Nos meados do século IV depois de Cristo2, um autor de língua latina chamado Sexto

Aurélio Vítor3 redigiu uma narrativa que contemplava a história do Império romano, desde a

batalha de Ácio, ocorrida em 31 a.C., até o penúltimo ano do reinado de Constâncio II (337-

361). Se, porém, levarmos em conta a apreciação que Corbett (1949, p. 255-256) efetuou

acerca da obra de Aurélio Vítor, nosso labor estaria privado de sentido. Corbett declara que a

leitura do texto em questão seria “deprimente”, uma vez que, segundo ele, se trataria de um

opúsculo desprovido de maior valor histórico ou, antes, corresponderia a algo “muito

insignificante” para recompensar um longo estudo. Filólogo, Corbett criticava a estrutura

narrativa, por vezes tortuosa e confusa, e mesmo as incoerências e os erros factuais que o

livro de Aurélio Vítor contém, resultando naquela virulenta avaliação.

Mas o desapreço em relação a Aurélio Vítor não se restringia a filólogos como

Corbett. Em uma rápida, porém interessante análise efetuada ainda na década de 1960,

MacMullen (1964b, p. 343) explica os motivos que faziam dos séculos III-V, até aquele

1 Cf. Le Goff (2010, p. 47).

2 A partir deste ponto, todas as datas se referem à era cristã, salvo indicação em contrário.

3 Doravante, Aurélio Vítor.

16

momento, uma época pouco apreciada por parte dos antiquistas e, em específico, por parte dos

historiadores. Primeiramente, a própria constituição do universo acadêmico europeu e

estadunidense, no interior do qual a História Antiga se inseriria como um “apêndice” aos

Departamentos de Letras Clássicas. Os estudantes se familiarizariam com a sociedade romana

a partir da leitura de luminares como Tito Lívio e Horácio, por exemplo, dispensando o

contato com a obra dos considerados “second-hand authors”, dentre os quais se listariam

aqueles que compuseram durante a era tardo-imperial, como era o caso de Aurélio Vítor.

Em segundo lugar, MacMullen sublinha a própria natureza da produção literária que

floresceu entre os séculos III e V. “The posture of retrospect”, que se verificaria em boa parte

dos autores tardo-antigos, teria conduzido o leitor moderno a voltar a sua atenção para os

escritores que viveram nos períodos precedentes, uma vez que corresponderiam às fontes de

informação (e de inspiração) dos literatos que viveram durante a Antiguidade Tardia. Nestes

termos, um historiador como Amiano Marcelino soaria menos atraente que Tácito, a quem

porventura havia emulado. Cremos que o quadro construído por MacMullen nos auxilia a

esclarecer algumas das razões pelas quais o livro composto por Aurélio Vítor recebeu pouca

atenção em meio aos estudos historiográficos realizados em boa parte do século XX.4

Faz-se necessário, porém, matizar tal assertiva. Nas últimas quatro décadas, vários

estudos referentes aos mais diversos temas, englobados nos limites temporais do “modelo

browniano” de Antiguidade Tardia, abordam e discutem passagens extraídas do livro de

Aurélio Vítor.5 À guisa de ilustração, dada a escassez de evidências literárias no que se refere

às múltiplas crises que irromperam, ao longo do século III, em diversas regiões que

compunham o Império romano, o texto escrito por Aurélio Vítor equivale a uma nada

desprezível fonte de conhecimento acerca do período por ora indicado.

No entanto, mesmo em um momento anterior à explosão dos trabalhos relativos à

Antiguidade Tardia, era possível encontrar valorações positivas a respeito do labor de Aurélio

Vítor. Poucos anos depois de Corbett tecer seu áspero ajuizamento, C. Starr (1956) salientaria

os eventuais predicados de Aurélio Vítor, a ponto de designá-lo como “historian of Empire”.6

4 Mendes (2002, p. 23), ao se referir aos livros elaborados por Aurélio Vítor e Eutrópio, destaca que “talvez pelo

caráter sintético e esquemático das duas obras ou pela existência de alguns equívocos históricos, elas tenham

sido tão pouco exploradas pela historiografia e mesmo consideradas ‘obras menores’ do século IV”.

5 Inúmeros são os exemplos. Para tanto, basta atentar aos trabalhos incluídos na bibliografia do presente estudo.

Contudo, vale ressaltar que em “Late Antiquity: a guide to the postclassical world”, obra de referência no que

tange à Antiguidade Tardia e organizada por Bowersock, Brown e Grabar (1999), não há verbete destinado a

Aurélio Vítor, ao passo que escritores como al-Baladhuri (?-ca. 892), autor de obras que relatam os primórdios

das conquistas islâmicas e Jordanes, responsável pela elaboração, em meados do século VI, de compilações

como a Getica e a Romana, receberam o seu devido lugar na supramencionada coletânea.

6 Em verdade, C. Starr seguia a trilha aberta por Amiano Marcelino, que efetuou em suas Histórias um rápido

comentário sobre Aurélio Vítor, definindo-o como um “scriptor historicus” (cf. Amm. Marc., 21.10.6).

17

A moderna crítica historiográfica, porém, raramente ecoou o juízo formulado por C. Starr.

Logo, a obra composta por Aurélio Vítor tem sido classificada ora como um conjunto de

biografias imperiais, ora como um breviário de história ou, mais propriamente, como uma

biografia [...] in forma compendiosa”, para citarmos La Penna (1986, p. 171). Nota-se uma

forte tendência no sentido de destrinchar as concepções e reflexões pertinentes à composição

de gêneros literários, como formuladas pelos próprios antigos, e projetá-las sobre qualquer

texto escrito na Antiguidade greco-romana, como se tais preceitos assumissem um valor fixo

e, pois, determinante. Em princípio, a biografia retrataria a conduta e as ações, exemplares,

que concernissem a uma única personagem, ao passo que a história se focaria na gesta

coletiva de um povo ou um tipo de sociedade. Por isto, as narrativas historiográficas se

diferenciariam dos relatos biográficos, ainda que se reconhecessem pontos de contato.

Com efeito, faz-se oportuno ressaltar que os próprios antigos estabeleceram uma

distinção entre história e biografia. Na prática, porém, as fronteiras entre os gêneros se

mostrariam menos rígidas. As transformações políticas e sociais que se desenrolaram ao longo

do período imperial romano redundaram no fato de que a diferença entre os gêneros,

assinalada por Cornélio Nepos ao final da República7, não se revelaria cristalina. Abordar a

história romana a partir de Augusto (27 a.C.-14 d.C.) implicava, pois, em se destacar aspectos

concernentes à personalidade dos príncipes. Assim, em especial após Suetônio, “la biographie

a été plus souvent integrée à l’historiographie” (CIZEK, 1995, p. 17).

Neste ensejo, argumentamos que a ideia de “história abreviada”, como exposta no

título dos dois manuscritos baixo-medievais que transmitiram o texto de Aurélio Vítor (sob a

forma plural de “Historiae abbreuiatae”), define com maior propriedade a natureza do livro

sobre o qual focamos o nosso trabalho. À luz da tradição epitomatória latina do século IV,

Aurélio Vítor compôs um sucinto relato acerca de quase quatrocentos anos de história do

Império romano. Porém, embora se centrasse na figura dos imperadores, Aurélio Vítor

procurou refletir sobre o devir dos acontecimentos, interpretando-os de maneira que, à

sucessão de uitae, sobrepunha-se uma análise voltada à história imperial romana em sua

totalidade. Sendo assim, no Capítulo 1, considerando-se as noções e as regras que os antigos

desenvolveram quanto à composição de obras históricas e biográficas, assim como as

mudanças e nuances que se observam na própria escrita da história romana durante o período

imperial, pensaremos as Historiae abbreuiatae a partir de um duplo percurso. Tomando de

empréstimo os preceitos advogados por Fontaine (1977) e por Burridge (2004), poder-se-ia

7 Cf. Nep., Pelop. 16.1.1.

18

argumentar que a obra de Aurélio Vítor derivava de uma “mistura de gêneros”, de forma que

as convenções relativas à história, à biografia e aos epítomes durante a Antiguidade Tardia

teriam sido manipuladas de maneira flexível.

Malgrado isto, é possível avaliar que Aurélio Vítor manipulou elementos e concepções

comuns à escrita da história em si – caso, por exemplo, do propósito de reabilitação do

passado, que remetia à prática herodoteana e taciteana –, nos quais se salientava a importância

do indivíduo e o papel essencial que as ações e motivações mais pessoais ocupariam no

desenrolar dos eventos. Em função disto, apontaremos também por quais motivos as Historiae

abbreuiatae não se definem adequadamente como um epítome, embora entronizassem como

princípio composicional o recurso retórico da breuitas. Por isto, urge explorarmos

inicialmente de que modo se constituiu a tradição manuscrita relativa à obra, bem como as

concepções que sustentam a usual (e equivocada) referência ao texto como De Caesaribus ou

Caesares, como se de uma série de compactas biografias dos imperadores se tratasse.

Todavia, ao concebermos o livro de Aurélio Vítor como uma “história abreviada”, não

poderíamos nos limitar à definição de sua forma, mas antes, e em particular, teríamos que nos

dedicar à análise da estrutura e das modalidades do discurso elaboradas por Aurélio Vítor, que

visavam conferir inteligibidade aos fatos abordados na obra. Em outras palavras, a partir do

Capítulo 2 o presente trabalho se volta ao estudo dos mecanismos e dos modos de

representação8 sobre os quais Aurélio Vítor fundamentou sua interpretação da história

imperial. Para tanto, fazia-se necessário que Aurélio Vítor delineasse uma organização

temporal para sua narrativa, a fim de conferir coerência ao relato dos eventos por ele

selecionados. Assim, o texto apresenta certas digressões ou comentários generalizantes que

constituem balizas temporais, seccionando o conjunto da história do Império romano em

cinco períodos distintos entre si. Argumentamos que Aurélio Vítor, ao definir tais recortes no

interior da história por ele narrada, havia assim procedido porque tais intervalos de tempo lhe

pareceram vivos e pertinentes para o próprio contexto histórico em que ele se inseria.

Deste modo, apontaremos no Capítulo 2 de que maneira Aurélio Vítor se agarrou a um

topos retórico e historiográfico observado na escrita da história romana desde a época tardo-

republicana, qual seja, a noção da decadência de Roma ou da “romanidade”, isto é, das

práticas, valores e representações que configurariam os traços identitários do “ser romano”.9

8 Entendemos que as formas de representação que um autor compõe em sua obra não se situam enquanto

“simples reflexos verdadeiros ou falsos da realidade, mas como entidades que vão construindo as próprias

divisões do mundo social” (CHARTIER, 2010, p. 7).

9 A “romanidade” é entendida aqui como sinônimo de uma “cultura romana”, no sentido da existência de um

compartilhamento de significados. Ou seja, defendemos a noção de que os indivíduos que pertencem (ou se

19

Ajuizamos que, ao se pontuar o desenrolar da história imperial mediante a sucessão dos

Augustos e Césares, um autor como Aurélio Vítor transmitiu uma percepção linear de

temporalidade, a qual se impôs um marcado corte: o falecimento do imperador Severo

Alexandre (222-235), episódio este que seria identificado como um ponto de viragem. De

acordo com Aurélio Vítor, a sociedade romana ingressaria, a partir de então, em uma espiral

descendente, caracterizada pela inversão da ordem social e dos valores ancestrais (cf. Hist.

abbreu. 24.9-11). Assim sendo, demonstraremos em que sentido o relato tangente ao governo

de Galieno (253-268) sintetizaria a ótica decadentista que se verifica no interior da narrativa.

No entanto, o referido discurso assumiria outras dimensões no interior do texto. A

perspectiva do “declínio de Roma”, na obra de Aurélio Vítor, corresponde à maneira pela qual

o historiador dialoga com sua própria época. Nestes termos, o devir da cidade de Roma pode

ser pensado como uma metonímia da decadência do mundo romano em seu todo, do que a

recusa de Aurélio Vítor em nomear explicitamente a cidade de Constantinopla surge como

traço mais saliente. Isto nos conduz, logo, à análise que Aurélio Vítor efetuou acerca dos

reinados das personalidades que se vinculavam umbilicalmente à localidade situada às

margens do Bósforo, ou seja, Constantino (306-337) e Constâncio II. Em que pese a forma

encomiástica por meio da qual Aurélio Vítor se referiu à casa constantiniana, argumentamos

que as Historiae abbreuiatae foram compostas de uma maneira tal que o autor veiculou, pelo

contrário, uma visão negativa acerca de Constantino e de seus filhos. Propomos, pois, a

existência de dois níveis hermenêuticos nos interstícios da narrativa que Aurélio Vítor havia

dedicado ao “tempo presente”: um, mais superficial, em que o historiador se posicionou de

modo cauteloso em relação à dinastia Constantiniana e outro, mais profundo, em que se

avaliava o presente à luz dos valores e dos ideais que se tomavam por tradicionais e, pois,

ancorados no passado.

Todavia, o discurso elaborado por Aurélio Vítor não se esgotava em uma retórica

decadentista. A leitura da obra nos permite identificar que o autor também concebeu o

movimento da história imperial partindo de ritmos diferentes, que respondiam a pressupostos

específicos que se articulavam nos meandros da narrativa. Deste modo, no Capítulo 3

indicaremos a função crucial que Aurélio Vítor atribuía aos imperadores no decurso da

história, de tal monta que a relevância dos diferentes principes não poderia ser limitada a uma

caracterização maniqueísta dos mesmos, divididos entre “boni” e “mali”. Isto não impediu,

julgam pertencer) a uma dada cultura partilham entre si um conjunto de ideias e experiências, expressas por

intermédio de um determinado número de práticas e de representações sobre as quais se assenta a construção de

uma identidade mutual (HUSKINSON, 2000a, p. 5).

20

porém, que Aurélio Vítor enxergasse na “uita moresque” dos imperadores o elemento que,

efetivamente, teria moldado as feições de um momento histórico circunscrito. Partindo destes

pressupostos, sugerimos que a história do Império esboçada por Aurélio Vítor oscilaria,

comparando-se com o movimento de um pêndulo, entre períodos de declínio, marcados em

grande medida pela ação dos soldados, que se aproveitavam da fraqueza e dos vícios de certos

soberanos, e épocas de renovação da ordem social, em que as virtudes dos príncipes

garantiriam, aos olhos do autor, a restauração da grandeza romana.

Sendo assim, exporemos uma análise acerca da maneira como Aurélio Vítor

apresentou a história imperial romana entre os reinados de Augusto e Septímio Severo (193-

211), ressaltando os traços que julgamos mais significativos em meio à construção discursiva,

e que colocavam em evidência a perspectiva que indicamos no parágrafo anterior. Em

seguida, no Capítulo 4 discutiremos em que sentido Aurélio Vítor teria manifestado uma

concepção temporal cíclica, em razão da forma pela qual insere o reinado de Aureliano (270-

275) em sua narrativa, representado enquanto um “segundo Rômulo”. Além disso,

atentaremos também para a caracterização e a avaliação que Aurélio Vítor teceu a respeito de

outras camadas sociais que integravam a sociedade romana, caso dos senadores e dos

funcionários imperiais, na medida em que o historiador compreendia que tais grupos exerciam

um determinado papel no tocante à manutenção do Estado imperial. Isto é, discorrer-se-á

sobre o lugar ocupado por tais agentes históricos no interior da narrativa, enquanto

promotores (ou não) dos valores que Aurélio Vítor reputava como componentes de uma

“romanidade ideal”, tal como se depreende da análise do texto. Finalmente, debateremos em

qual sentido o jogo antitético entre os períodos demarcados no decurso da história imperial

poderia guardar alusões ao iminente governo de Juliano, que ascendera na cena política

justamente no momento em que Aurélio Vítor redigia o seu texto.

Nas Considerações Finais, nos centraremos no retrato que Aurélio Vítor pincelou

acerca do imperador Diocleciano (284-305) e de seus feitos, a fim de ilustrarmos de que modo

as contradições observadas nas Historiae abbreuiatae consistem em um aspecto fundamental

em meio ao projeto historiográfico levado a cabo por Aurélio Vítor, no ocaso da dinastia

Constantiniana.

21

CAPÍTULO 1 – História abreviada ou biografia dos Césares?

1.1 Aurélio Vítor, a serviço do Império romano

Antes do historiador, o funcionário imperial. Esta era a condição que caracterizava

Aurélio Vítor ao tempo em que se pôs a redigir uma obra acerca da história do Império

romano. Nos meandros de seu texto, Aurélio Vítor trazia algumas referências às suas próprias

origens. Com efeito, em meio a uma breve reflexão acerca do prestígio das artes liberais, o

autor afirmava que se trataria de algo em que

todos os homens bons devem ter grande confiança [...], inclusive eu mesmo,

que, nascido no campo de um pai pobre e inculto ( tenui atque indocto

patre), alcancei até este momento uma vida bastante honrada1 graças a tão

nobres estudos ( Hist. abbreu. 20.5, grifo nosso).2

Ao que tudo indica, a área rural a qual Aurélio Vítor se refere corresponderia a algum

lugar no interior das províncias que integravam a África romana. O prefácio redigido para o

conjunto do corpus tripartite, no interior do qual a obra de Aurélio Vítor viria a ser

transmitida no Medievo3, aponta para as origens “africanas” do autor em questão. O indivíduo

responsável pela elaboração daquele corpus assegura ter se pautado em um grande número de

escritores, dos quais o último a ser listado seria “Victor Afer”.4

Em que pese a relevância destas informações, os elementos apontados por Aurélio

Vítor em sua própria narrativa não permitem que se reconstrua um quadro preciso a respeito

de sua vida e de sua carreira. Para tanto, dispomos de outras fontes, literárias e epigráficas,

que comportam alguns dados acerca do autor. Especula-se que tenha nascido por volta do ano

320, no seio de uma família que, como indicado em Hist. abbreu, 20.5, à primeira vista vivia

em humildes condições (BIRD, 1984, p. 5). Devemos, contudo, matizar tal proposição. Dado

o conhecimento das letras latinas que Aurélio Vítor possuía, a ponto de tornar possível a

1 Eis que nos deparamos com uma assertiva que ilustra uma das possibilidades que um humilior, no século IV,

teria para ascender socialmente, considerando que a posição que Aurélio Vítor viria a alcançar ao longo de sua

vida não se vinculava aos usuais critérios de status, a saber, nascimento e riqueza (HOPKINS, 1961, p. 247).

2 No que tange às citações à obra, dispensamos o formato de abreviatura (“Caes.”) usualmente empregado nos

estudos acadêmicos em favor de um novo modelo (“Hist. abbreu.”), que remete diretamente ao título que os

manuscritos atribuem ao texto composto por Aurélio Vítor. Sendo assim, seguimos a forma que se sugere nos

trabalhos de Fowden (1994, p. 149) e de Malosse (1999, p. 465).

3 Quanto à natureza, à elaboração e aos conteúdos desse corpus tripartite, ver Cap. 1, seção 1.2.

4 Cf. o prólogo inserido na obra Origo gentis Romanae.

22

composição de uma obra em prosa, soaria implausível que seu pai fosse demasiado pobre e

inculto; a capacidade de elaborar um texto sinaliza o fato de Aurélio Vítor ter obtido acesso à

educação letrada que escapava a grande parte da população do Império.5 Neste sentido, quiçá

o pai de Aurélio Vítor tivesse sido um pequeno proprietário6, que dispunha de recursos

suficientes para garantir que seu filho se instruísse na gramática e na retórica latinas.

É provável que Aurélio Vítor tenha deixado sua província natal e migrado para a

cidade de Roma ainda ao final da década de 330 e lá permanecido ao longo do decênio

seguinte. Aurélio Vítor demonstra que teria presenciado a (possível) aflição e o incômodo que

teriam consumido os ânimos da população da Urbs por conta do fato de que Constantino “foi

enterrado na cidade que leva o seu nome” (cf. Hist. abbreu. 41.17), ou seja, em

Constantinopla, ao invés de ser inumado na cidade de Roma. Ademais, em Hist. abbreu. 28.2,

o autor manifestou todo o seu pesar diante da constatação de que o milésimo centésimo

aniversário de fundação da cidade de Roma, ocorrido em 348, foi marcado pela ausência de

cerimônias solenes que, no entender de Aurélio Vítor, eram necessárias para que se celebrasse

devidamente tal acontecimento.

Desta forma, Bird (1984, p. 7) propõe que Aurélio Vítor tivesse ingressado na

“burocracia” imperial por volta da metade dos anos 340, integrando o corpo dos notários, uma

espécie de secretariado no interior do consistório imperial.7 Por sua vez, Amiano Marcelino

(21.10.6) nos informa que Aurélio Vítor se encontrava em Sírmio, na província da Panônia

Segunda, no ano de 361. Soa plausível, todavia, que ele residisse na região da planície

panônica desde os meados da década anterior, visto que introduziu em sua obra uma

laudatória menção a Anatólio, prefeito pretoriano da Ilíria entre 357 e o início de 360 (cf.

Hist. abbreu. 13.6). Talvez Aurélio Vítor tenha exercido o cargo de “numerário”, responsável

por um dos vários scrinia (ou “departamentos”) que formavam o aparato fiscal e financeiro da

5 Harris (1991, p. 329-330) determina que, considerando-se o Império romano em sua totalidade, os níveis de

letramento variaram bastante de uma região a outra. Malgrado isto, evidencia que uma larga parcela da

população provincial desconhecia por completo o latim e o grego, de modo que as línguas indígenas

configurariam a base para a comunicação verbal entre os habitantes dessas áreas. Nas províncias ocidentais, a

capacidade de ler e escrever em latim provavelmente se restringia às elites sociais citadinas e aos indivíduos cuja

atividade demandava o conhecimento das letras.

6 A procura constante por indivíduos que pudessem servir ao Estado imperial implicava, no decurso da era tardo-

antiga, a necessidade de uma nada desprezível mão de obra educada, a qual era preenchida por membros de

pequenas famílias proprietárias de terras, nas mais variadas províncias (TALBOT, 2007, p. 83).

7 Jones (1964, p. 572) destaca que, a princípio, o ofício dos notários era ocupado por pessoas bastante humildes.

No entanto, dado o caráter confidencial do trabalho que exerciam e a proximidade com a pessoa do imperador,

rapidamente adquiriram relevância. Já na década de 350, sob o reinado de Constâncio II, os notários foram

empregados em diversas missões, de natureza diplomática, administrativa e mesmo eclesiástica ou militar.

23

prefeitura do pretório da Ilíria, cujo centro administrativo correspondia, justamente, à cidade

de Sírmio, pelo menos até o final da década de 370 (BIRD, 1984, p. 10).8

Por volta da metade do mês de julho de 361, porém, a chegada do imperador Juliano

em Sírmio viria alterar radicalmente a sorte de Aurélio Vítor.9 Juliano, aclamado Augusto por

suas tropas em fevereiro ou março de 360, marchava a partir da Gália em direção ao Oriente

para confrontar-se com o imperador “senior” reinante, Constâncio II, que então organizava

uma expedição a ser lançada contra os persas sassânidas. É possível que Aurélio Vítor tivesse

mantido contato com Juliano durante a brevíssima estada deste em Sírmio; dias depois, o

monarca já havia se movido para a cidade de Nis (na província da Mésia Primeira). Algum

tempo depois, oficiais ligados a Juliano ordenaram que Aurélio Vítor se dirigisse até Nis para

que se reunisse com o monarca. Juliano, muito provavelmente ainda na condição de

usurpador10, conferiu a Aurélio Vítor o governo consular da província da Panônia Segunda,

juntamente com uma estátua de bronze11, que foi erigida em local desconhecido dos

pesquisadores modernos. Como aclara Jones (1964, p. 391), não havia regramento algum que

proibisse um imperador de indicar indivíduos que pertencessem às camadas inferiores para

ocupar relevantes postos na administração provincial. Tratava-se, pois, de uma seleção

pessoal por parte do soberano, que refletiria suas próprias preferências ou idiossincrasias.

Nestes termos, a escolha de Aurélio Vítor – ou de qualquer outro funcionário que fosse – não

congrega em si algo surpreendente ou inaudito.

Assim, a partir de novembro de 361, atribuiu-se a Aurélio Vítor a tarefa de administrar

uma importante província, estrategicamente localizada a meio caminho entre as partes

ocidental e oriental do Império. Ademais, o governo da Panônia Segunda representou uma

8 A transformação da prefeitura do pretório em magistratura cuja função era supervisionar uma das três ou quatro

permanentes subdivisões administrativas do Império operou-se, em princípio, com Constante (337-350), que a

partir de 340 indicou dois prefeitos para administrar as áreas que outrora repousavam sob a autoridade de seu

irmão Constantino II (337-340), quais sejam, a Gália, a Bretanha e a Hispânia. Em 354, Constâncio II, na

condição de único Augusto reinante, estendeu o sistema de prefeituras do pretório regionais para a porção

oriental do Império. Tais mudanças podem ser vistas como um complemento à gradual separação entre os ramos

civil e militar da administração imperial, processo este que foi consolidado ao longo do reinado de Constantino.

Porém, nas quatro primeiras décadas do século IV, os prefeitos pretorianos ainda se encontravam inseridos nas

cortes imperiais, acompanhando os diferentes monarcas em seus deslocamentos pelo território imperial

(LIEBESCHUETZ, 1987, p. 464).

9 A cronologia dos deslocamentos de Juliano no ano de 361 se baseia em Nixon (1991, p. 118). Para uma datação

tardia, pautada na tese de que Juliano alcançou a cidade de Sírmio apenas no dia 10 de outubro do referido ano,

cf. Bowersock (1978, p. 58) e Bird (1984, p. 11).

10 Constâncio II pereceu na Cilícia, vitimado por uma febre, em 3 de novembro de 361, quando conduzia seu

exército rumo ao Danúbio, tendo em vista a presença de Juliano na Ilíria. Vale lembrar que haveria de se

transcorrer alguns dias, e mesmo semanas, até que a notícia referente à morte do imperador fosse amplamente

conhecida. Logo, é provável que Aurélio Vítor tivesse se encontrado com um indivíduo que, tecnicamente

falando, se situava enquanto um usurpador, porque Constâncio II não havia reconhecido a elevação de seu

primo, o César Juliano, à posição de Augusto.

11 Como informado por Amiano Marcelino (21.10.6).

24

considerável mudança na condição social de Aurélio Vítor, pois este passava a usufruir o

estatuto de “claríssimo” e, deste modo, garantia seu ingresso na ordem senatorial (JONES,

1964, p. 532-533). Entretanto, não se sabe ao certo por quanto tempo Aurélio Vítor governou

a referida província. Ao final do mês de maio de 365, um indivíduo sobre o qual não

dispomos senão do nome, Fortunato, foi indicado para ocupar o mesmo cargo que Aurélio

Vítor havia assumido em novembro de 361.12 Contudo, não existem indícios claros acerca da

existência de outro varão que tivesse exercido a mesma função, sucedendo imediatamente a

Aurélio Vítor e antecedendo ao supramencionado Fortunato. Seja como for, podemos supor

que, depois da morte de Juliano em junho de 363, Aurélio Vítor tivesse sido alijado do ofício

na Panônia Segunda, pois os imperadores cristãos Valentiniano (364-375) e Valente (364-

378) adotaram uma política de substituição de grande parcela dos governadores indicados

pelo “apóstata” Juliano (SANCHO GÓMEZ, 2008, p. 21).

Infelizmente, não dispomos de informações acerca da vida e da carreira de Aurélio

Vítor até que alcancemos os anos de 388 e 38913, período em que ele exerceu a função de

iudex sacrarum cognitionum”, ou seja, um juiz de apelação designado pelos imperadores,

dotado da prerrogativa de decidir certos litígios (BERGER, 2008, p. 319). Isto demonstra que

Aurélio Vítor dispunha de um considerável conhecimento do direito romano.14 Mais

importante ainda, lança luz sobre um dos pontos que mais se sobressaem no interior das

Historiae abbreuiatae, qual seja, a ênfase destinada à atividade jurídica dos imperadores. Por

isto, sugerimos que Aurélio Vítor tivesse deixado o norte da África e se estabelecido na

cidade de Roma, em fins da década de 330, para se instruir no campo jurídico, uma vez que,

12 Para tanto, cf. PLRE 1, p. 370.

13 Tanto González y González (1997, p. II) quanto Gonçalves (2006, p. 3) afirmam que Aurélio Vítor foi

agraciado com o exercício do consulado em 369. Tal assertiva, no entanto, carece de sustentação. De fato, nota-

se a existência de um determinado “Victor” como cônsul no ano reportado, ao lado de Valentiniano II (375-392),

jovem filho de Valente. Contudo, tratar-se-ia de Flávio Vítor, magister equitum no Oriente desde o governo de

Joviano até, aproximadamente, o ano de 379 (cf. CLRE, p. 272-273). Ou seja, uma personagem que não pode ser

confundida com Aurélio Vítor. Sem contar que o cônsul do ano de 369 correspondia a um indivíduo de extração

sármata, se a informação trazida por Amiano Marcelino (31.12.6) estiver correta. Em suma, Flávio Vítor

equivalia a um miles e a um barbarus, um tipo de indivíduo em relação ao qual Aurélio Vítor se revelaria

completamente avesso em sua obra.

14 O fato de Aurélio Vítor ter administrado a província da Panônia Segunda também pode ser tomado como uma

evidência indireta da familiaridade que o autor possuiria em relação às leis. Isto porque, após as reformas

administrativas realizadas na época tetrárquica e refinadas pelos Constantinianos, a principal responsabilidade

legada aos governadores das multiplicadas – porém territorialmente reduzidas – províncias se circunscrevia à

aplicação da justiça. Deste modo, as fontes jurídicas, não raro, se referiram a eles a partir do título de “iudices

(HARRIES, 1999, p. 162). Além disso, vale recordar que tais governadores não dispunham mais do comando

militar, a cargo dos duces, e tinham de responder diretamente aos seus superiores imediatos, os vicários e os

prefeitos pretorianos e, em última instância, aos imperadores, que usualmente se encontravam distantes. Neste

ensejo, Aurélio Vítor teria se mostrado habilitado para exercer o governo da Panônia Segunda em razão, entre

outros, de seus conhecimentos na área do direito.

25

conforme Marrou (1973, p. 456), na Urbs se localizava o único centro “oficial” de ensino do

direito para toda a parte ocidental do Império.15

Outrossim, sabemos que Aurélio Vítor ocupou, no biênio 388-389, o prestigioso cargo

de “praefectus urbis Romae”, prefeito da cidade de Roma, por indicação do imperador

Teodósio (379-395).16 Magistratura de elevado valor social, mas que também compreendia

uma sensível tarefa, sobretudo durante a Antiguidade Tardia, em que o absenteísmo imperial

tornou-se um fator com o qual os habitantes de Roma tiveram que conviver. De acordo com

Marcone (1995), no século IV o praefectus urbi se via diante da delicada responsabilidade de

assegurar a ordem pública em uma cidade que não contava mais com a assistência imediata

por parte dos imperadores. A manutenção da tranquilidade urbana passava, pois, pelo ato de

satisfazer as necessidades básicas da plebe romana. Logo, garantir a distribuição regular da

annona equivalia à solução elementar para a prevenção de desordens no interior da cidade.17

Pois bem, Aurélio Vítor assumiu tão relevante ofício na condição de sucessor de

Sêxtio Rústico Juliano, provavelmente no último quadrimestre do ano de 388, e veio a ser

substituído por Ceiônio Rufio Albino, que se tornou prefeito da cidade em 17 de junho de

389. Aurélio Vítor dedicou uma estátua a Teodósio, erigindo-a no Fórum de Trajano, por

ocasião da visita do imperador à cidade, que se desenrolou entre os meses de junho e agosto

de 389.18 Tal monumento apresenta em seu pedestal uma inscrição em que se encontram

15 Greatrex (2001, p. 157) esclarece que jovens ambiciosos, advindos das mesmas camadas sociais das quais se

presume que Aurélio Vítor era originário, preferiam ingressar em uma escola de direito por causa das

oportunidades de ascensão social oferecidas àqueles que dominassem as letras jurídicas. Porém, uma vez

integrados ao serviço burocrático imperial, seja na corte ou nas províncias, o progresso na carreira poderia

resultar assaz limitado. Uma eventual maneira de se destacar dos demais correspondia ao engajamento em

alguma atividade literária, lançando mão das técnicas retóricas apreendidas graças ao estudo das artes liberais.

Esse ponto de vista fundamenta as hipóteses formuladas a respeito da nomeação de Aurélio Vítor para governar

a província da Panônia Segunda, como se nota em Bowersock (1978, p. 59) e também em Bird (1984, p. 11).

16 T. Barnes (1974, p. 445-446) assinala que, no século IV, a nobilitas ainda correspondia a um grupo

diferenciado no seio da ordem senatorial. Todavia, ao menos a partir das reformas de Constantino, um senador

figurava como nobilis se ele ou algum antepassado tivessem sido cônsul ordinário, prefeito da cidade ou prefeito

pretoriano. Isto ilustra o relevante status que Aurélio Vítor havia adquirido. Mas a distinção apontada por T.

Barnes não encontrava espaço na obra do próprio Aurélio Vítor; este, por vezes, empregou o termo nobilitas para