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O julgamento de Gabriel por Sylvain Reynard - Versão HTML

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Julia levantou a cabeça e encarou um homem de cabelos negros e pele muito bronzeada. Ele era

mais alto que ela, mas não muito, e corpulento. Usava um terno preto muito caro, com uma rosa

solitária presa à lapela. Julia o reconheceu como um dos convidados que havia se sentado atrás dela

durante a palestra.

– Sim, muito – respondeu ela em italiano.

– Sempre admirei a profundidade que Da Vinci imprimia a suas pinturas, especialmente o

sombreamento e os detalhes na peça de mármore.

Ela sorriu e se voltou para o quadro.

– Era exatamente isso que eu estava analisando. E também as penas nas asas do anjo. São incríveis.

O cavalheiro fez uma mesura.

– Por favor, permita que eu me apresente. Sou Giuseppe Pacciani.

Julia hesitou, reconhecendo o sobrenome. Era o mesmo do suspeito de ser o mais famoso serial

killer de Florença.

O homem parecia esperar que ela respondesse a sua apresentação, por isso Julia conteve o impulso

de sair correndo.

– Julia Mitchell. – Ela estendeu a mão num gesto cortês, mas ele a surpreendeu ao agarrá-la pelos

braços e aproximá-la de seus lábios, erguendo os olhos em sua direção enquanto a beijava no rosto.

– Encantado. E, se me permite, devo dizer que sua beleza rivaliza com a de La Bella Simonetta.

Especialmente à luz da palestra dessa noite.

Julia desviou o olhar e recolheu a mão depressa.

– Permita-me lhe oferecer uma bebida.

Ele se apressou em chamar um garçom e pegou duas taças de espumante da bandeja. Bateu as taças

uma na outra e fez um brinde à saúde deles.

Julia bebericou o espumante Ferrari, agradecida, pois aquilo serviu para distraí-la do olhar

intenso do homem. Ele era charmoso, mas ela estava descon ada e não era só por causa do seu

sobrenome.

Ele abriu um sorriso voraz.

– Sou professor universitário. Literatura. E você?

– Eu estudo Dante.

– Ah, il Poeta. Também sou especialista em Dante. Onde você estuda? Não é aqui. – Os olhos dele

se desviaram do rosto de Julia e percorreram o corpo dela até os seus pés, antes de voltarem a

encará-la.

Ela deu um passo largo para trás.

– Na Universidade de Toronto.

– Ah! Uma canadense. Uma ex-aluna minha está estudando lá. Talvez vocês se conheçam. – Ele se

aproximou um passo.

Julia decidiu não corrigi-lo quanto a sua nacionalidade e tornou a recuar.

– Acho que não. A Universidade de Toronto é enorme.

Giuseppe sorriu, mostrando dentes muito retos e brancos que emitiam um brilho estranho sob a

luz do museu.

– Já viu o quadro Perseu libertando Andrômeda, de Piero di Cosimo? – Ele apontou uma das

pinturas do salão.

Julia assentiu.

– Já.

– Há elementos da pintura amenga na obra dele, percebe? Observe também as guras paradas na

multidão. – Ele gesticulou para um grupo reunido no canto direito do quadro.

Julia deu um passo para o lado a m de enxergar melhor. Giuseppe parou atrás dela, muito mais

perto do que devia, observando-a analisar a pintura.

– Gosta?

– Sim, mas pre ro Botticelli – respondeu ela, teimando em manter os olhos no quadro, na

esperança de que ele se cansasse de ficar perto dela e se afastasse.

(De preferência para a outra margem do Arno.)

– Você é aluna do professor Emerson?

Julia engoliu em seco.

– Não. Eu... estudo com outra pessoa.

– Ele é considerado bom para os padrões americanos, o que explica por que foi convidado para

discursar aqui. Mas a palestra dele foi constrangedora. Como você descobriu Dante?

Julia estava prestes a discutir com Giuseppe sobre sua opinião a respeito da palestra quando ele

estendeu a mão para tocar seus cabelos.

Ela se encolheu e recuou, mas os braços dele eram longos e sua mão a seguiu. Ela abriu a boca para

censurá-lo quando alguém bufou perto dos dois.

Giuseppe e Julia se viraram devagar e depararam com Gabriel, seus olhos cor de sa ra faiscando,

as mãos na cintura, inflando seu paletó aberto como as plumas de um pavão furioso.

Ele deu um passo ameaçador à frente.

– Vejo que já conheceu minha fidanzata. Sugiro que mantenha suas mãos sob controle, a menos

que queira perdê-las.

Giuseppe fez uma careta antes de sua expressão se abrandar num sorriso educado.

– Estamos conversando já há alguns minutos. Ela nem mencionou o seu nome.

Para que Gabriel não tivesse chance de arrancar os braços de Giuseppe, sujando de sangue o piso

impecável da Galleria, Julia se colocou entre os dois e pousou a mão no peito dele.

– Gabriel, este é o professor Pacciani. Ele também é especialista em Dante.

Os dois homens trocaram olhares e Julia percebeu que Pacciani era o homem que havia

interrompido de modo grosseiro a palestra de Gabriel, murmurando e tossindo.

Ele ergueu as mãos, fingindo se render.

– Mil perdões. Eu deveria ter percebido que ela era sua pelo modo como você a olhava durante a

sua... palestra. Perdão, Simonetta. – Pacciani a encarou e manteve os olhos xos nos dela, sua boca se

entreabrindo num sorriso irônico.

Ao som do sarcasmo de Pacciani, Gabriel se aproximou um passo, os punhos cerrados.

– Querido, preciso encontrar um lugar para deixar minha taça. – Julia balançou a taça de

espumante vazia, na esperança de que isso distraísse Gabriel.

Ele pegou a taça e a entregou a Pacciani.

– Tenho certeza de que você sabe o que fazer com isso.

Puxando Julia pela mão, ele a arrastou para longe dali. Conforme os dois atravessavam o Salão

Botticelli, os convidados se separavam, como o mar Vermelho.

Julia viu cada um dos presentes olhar para eles e foi ficando mais e mais vermelha.

– Para onde estamos indo?

Ele a conduziu rumo ao corredor ladrilhado contíguo e começou a percorrê-lo, afastando-se o

máximo possível dos ouvidos dos demais convidados. Empurrando-a para um canto escuro, ele a

posicionou entre duas grandes estátuas de mármore sobre seus pedestais. Ela parecia minúscula

entre as formas imponentes.

Gabriel pegou a bolsa dela e a jogou de lado. O som do couro se chocando ao chão ecoou pelo

corredor.

– O que você estava fazendo com ele? – Os olhos de Gabriel faiscavam e suas faces estavam

avermelhadas, o que era raro de acontecer.

– Só estávamos conversando até que ele...

Gabriel a puxou para um beijo tórrido, en ando uma das mãos nos cabelos dela enquanto a outra

deslizava pelo seu vestido. Empurrou-a com o corpo até ela sentir a parede fria da galeria contra a

pele nua de suas costas.

– Nunca mais quero ver outro homem pôr as mãos em você.

Ele forçou a língua na boca de Julia, obrigando-a a abrir os lábios, enquanto deslizava a mão pela

curva de suas nádegas, massageando a carne com os dedos.

Na mesma hora Julia percebeu que ele havia sido cuidadoso todas as vezes em que a tocara. Mas

não agora. Parte dela estava em chamas, desesperada por recebê-lo. Outra parte se perguntava o que

ele faria se ela o mandasse parar...

Gabriel levantou a perna esquerda de Julia, apertando a coxa dela contra seu próprio quadril.

Ela o sentiu através do tecido do vestido, ouvindo o tafetá de seda farfalhar, como se fosse o

sussurro de uma mulher ofegante. O vestido sem dúvida queria mais.

– O que preciso fazer para torná-la minha? – rosnou ele, a boca colada na dela.

– Eu sou sua.

– Não esta noite, ao que parece. – Gabriel sugou o lábio inferior dela para dentro da boca,

mordiscando-o de leve. – Não entendeu minha palestra? Cada palavra, cada pintura foi para você.

Sua mão subiu pela saia do vestido de Julia, percorrendo sua coxa até chegar à tira de pano que se

estendia em volta do quadril dela.

Ele recuou para olhar seu rosto.

– Não está usando cinta-liga hoje?

Ela balançou a cabeça.

– Então o que é isto? – Os dedos dele puxaram a tira muito fina.

– Uma calcinha – sussurrou ela.

Os olhos dele brilharam na penumbra.

– Que tipo de calcinha?

– Uma tanga.

Gabriel abriu um sorriso perigoso antes de colar os lábios à orelha dela.

– E devo supor que a vestiu para mim?

– Só para você. Sempre.

Sem aviso, Gabriel a levantou, pressionando-a contra a parede. Levando os lábios ao seu pescoço,

ele colou o quadril ao dela. Os saltos longos e nos dos sapatos de Julia se cravaram logo acima das

nádegas dele. Ele a encarou com seus olhos azuis, alucinados.

– Quero você. Agora.

Com uma das mãos, Gabriel puxou a tira de pano até ela se rasgar. De repente, Julia se viu nua. Ele

estendeu a mão para trás, para esconder a tanga no bolso do paletó, e os saltos dela se moveram,

enterrando-se no traseiro dele com tanta força que ele se encolheu.

– Você tem ideia de quanto achei difícil me controlar depois da palestra? Como ansiei por ter

você nos meus braços? Ficar jogando conversa fora foi uma tortura quando tudo o que eu queria

era isto. Quem dera você pudesse ver como ca sexy com as costas contra a parede e as pernas em

volta de mim. Quero você assim, mas sussurrando meu nome, ofegante.

Gabriel deslizou a língua pela base do pescoço de Julia, e ela fechou os olhos. O desejo dela lutava

contra sua mente, que a incitava a empurrá-lo para longe, parar e pensar por alguns instantes.

Quando estava nesse estado de espírito, Gabriel era perigoso.

De repente, Julia ouviu vozes ecoando pelo corredor e arregalou os olhos.

Os sons de passos e risadas animadas se aproximaram. Gabriel ergueu a cabeça, levando os lábios à

orelha dela.

– Não dê um pio – sussurrou.

Ela sentiu os lábios dele se curvarem num sorriso, pressionados em sua pele.

Os passos pararam a poucos metros de distância e Julia ouviu duas vozes masculinas conversando

em italiano. Seu coração continuou acelerado enquanto ela tentava ouvir algum sinal de

movimento. Gabriel continuou a acariciá-la de leve, tapando a boca de Julia com a dele, abafando

seus gemidos. De vez em quando, sussurrava palavras sensuais para ela: frases que a faziam

ruborizar-se.

Uma das vozes masculinas riu alto. Julia ergueu a cabeça, surpresa, e Gabriel aproveitou a chance

para beijar seu pescoço, mordiscando a pele delicada.

– Por favor, não me morda.

As vozes ecoavam em volta deles. Demorou um pouco, mas por m o signi cado das palavras dela

conseguiu vencer a excitação frenética de Gabriel. Ele levantou a cabeça, afastando-se do pescoço

de Julia.

Com seus peitos unidos daquele jeito, ele podia sentir o coração dela. Fechou os olhos, como se

arrebatado pelo seu ritmo acelerado. Quando tornou a abri-los, as chamas já haviam se apagado

quase por completo.

Julia havia se esmerado em esconder a marca da mordida de Simon com maquiagem, mas Gabriel

a encontrou com o dedo, contornando-a de leve antes de beijá-la. Ele expirou muito devagar e

balançou a cabeça.

– Você é a primeira mulher que diz não para mim.

– Não estou dizendo não.

Ele olhou por sobre o ombro e viu dois homens mais velhos entretidos numa conversa. Estavam

perto o suficiente para vê-lo, se olhassem em sua direção.

Ele voltou a encarar Julia e abriu um sorriso triste.

– Você merece mais do que ser possuída contra a parede por um amante ciumento. E não estou

interessado em ser flagrado pelo nosso anfitrião. Peço desculpas.

Ele a beijou e esfregou o polegar debaixo do seu lábio inferior inchado, limpando uma pequena

mancha de batom vermelho de sua pele clara.

– Não vou arruinar a con ança que vi em seus olhos ontem à noite. Quando eu estiver com a

cabeça no lugar e tivermos o museu só para nós dois... – A expressão dele cou carregada enquanto

fantasiava com aquilo. – Talvez em outra ocasião.

Ele tirou os saltos de Julia de cima de suas nádegas e a pôs de pé, inclinando-se para ajeitar a saia

de seu vestido. O tafetá farfalhou sob o toque dele e então pareceu se calar com tristeza.

Por sorte, o dottore Vitali e seu companheiro escolheram aquele exato momento para voltar à

festa, o som de seus passos ficando cada vez mais baixo à medida que eles se afastavam.

– O banquete será servido daqui a pouco. Seria um insulto eu ir embora agora. Mas, quando levar

você para o hotel... – Ele cravou os olhos nos dela. – Nossa primeira parada vai ser na parede junto à

porta do nosso quarto.

Julia assentiu, aliviada por ele não estar mais zangado. Na verdade, ainda se sentia um pouco

nervosa, mas muito excitada diante da perspectiva de fazer sexo contra a parede.

Ele ajeitou a calça e abotoou o paletó, forçando seu corpo a se acalmar. Tentou arrumar o cabelo,

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mas só conseguiu car mais parecido com alguém que acabara de arrastar a amante para fazer sexo

num canto escuro do museu.

Sexo no museu é motivo de especial arrependimento para certos acadêmicos. (Mas não deve ser

desdenhado antes de se experimentar.)

Julia penteou o cabelo dele e endireitou sua gravata, conferindo seu rosto e seu colarinho em

busca de marcas de batom. Quando terminou, ele pegou a bolsa e a pashmina dela, que também

havia caído no chão, e as devolveu a Julia com um beijo. Com um sorriso malicioso, ajeitou a

calcinha no bolso do paletó para que ela não ficasse à mostra.

Ela deu um passo hesitante, descobrindo que a ausência da calcinha lhe dava uma surpreendente

sensação de liberdade.

– Eu poderia beber você como se fosse uma taça de espumante – sussurrou ele.

Ela ficou na ponta dos pés para beijar seu rosto.

– Gostaria que você me ensinasse seus truques de sedução.

– Só se você me ensinar a amar como você ama.

Gabriel a conduziu pelo corredor vazio e escadas abaixo até o primeiro piso, onde o banquete

estava começando.

O professor Pacciani voltou cambaleando para seu apartamento em frente ao Palazzo Pitti nas

primeiras horas da madrugada – o que não era nada incomum.

Ele se atrapalhou com as chaves, praguejando ao deixá-las cair no chão, e entrou no at, fechando

a porta atrás de si. Foi até o pequeno quarto onde seus dois lhos de 4 anos dormiam, beijou-os e

depois se arrastou até seu escritório.

Fumou preguiçosamente um cigarro enquanto esperava o computador iniciar, então acessou sua

conta de e-mail. Ignorou a caixa de entrada e escreveu uma breve mensagem para uma ex-aluna e

amante. Os dois não se falavam desde a formatura dela.

Ele mencionou ter conhecido o professor Emerson e sua jovem fidanzata canadense. Embora ele

tivesse cado impressionado com a monogra a de Emerson, publicada pela Oxford University

Press, a palestra do professor lhe deu uma impressão de pseudointelectualidade que não tinha

espaço num discurso acadêmico. Ou bem se era intelectual e acadêmico, ou bem se era um

palestrante interessado em entreter o público. As duas coisas era impossível. Pacciani perguntou, de

forma grosseira, se as coisas seriam assim nas universidades da América do Norte.

Ele concluiu seu e-mail com uma sugestão explícita e detalhada de um futuro encontro sexual,

possivelmente no nal da primavera. Então terminou seu cigarro no escuro e se juntou à esposa na

cama de casal.

CAPÍTULO TRÊS

hrista Peterson nascera em berço de ouro e não havia desculpa alguma para sua natureza

Cmalévola. Seus pais se amavam e eram apaixonados por sua lha única. O pai era um

oncologista de renome em Toronto. A mãe era bibliotecária no Havergal College, uma escola

particular de elite só para moças que Christa frequentara da educação infantil ao ensino médio.

Christa também frequentou a escola dominical. Foi crismada na Igreja Anglicana. Estudou o Livro

de Oração Comum, de

omas Cranmer, mas nada disso tocou seu coração. Aos 15 anos, descobriu

o imenso poder da sexualidade feminina e logo essa passou a ser não só sua moeda de troca, mas

também sua arma favorita.

Sua melhor amiga, Lisa Malcolm, tinha um irmão mais velho, muito bonito, chamado Brent. Era

ex-aluno do Upper Canada College, uma escola particular só para rapazes que servia aos membros

da velha aristocracia canadense. Brent tinha cabelos louros, olhos azuis e era alto e sarado. Fazia

parte da equipe masculina de remo da Universidade de Toronto. Poderia muito bem ter estampado

várias peças de publicidade.

Christa costumava admirar Brent a distância, mas, por ser quatro anos mais velho, ele nunca havia

reparado nela. Até que certa vez, bem tarde, quando foi passar a noite na casa de Lisa, Christa topou

com Brent a caminho do banheiro. Ele cou fascinado por seus longos cabelos negros, grandes

olhos castanhos e seu corpo jovem, porém maduro. Ele a beijou com carinho no corredor e roçou

dedos titubeantes pelo seu seio. Então tomou sua mão e a convidou para o seu quarto.

Após meia hora de amassos e carícias por cima das roupas, ele quis ir além. Christa hesitou, pois

era virgem, então Brent começou a fazer promessas disparatadas e extravagantes: presentes,

encontros românticos e, por m, um relógio de inox Baume & Mercier que seus pais tinham lhe

dado de presente quando fizera 18 anos.

Christa adorava aquele relógio. Conhecia-o bem, pois era a menina dos olhos de Brent. Na

verdade, desejava mais o relógio do que seu dono.

Quando Brent o colocou em seu pulso, Christa olhou-o, maravilhada com a sensação fria do aço

em sua pele e com a facilidade com que ele deslizava para cima e para baixo em seu braço no. Era

uma prova. Um sinal de que o desejo de Brent por ela era tão intenso que ele estava disposto a lhe

dar um de seus bens mais preciosos.

Isso fez Christa se sentir desejada. E poderosa.

– Você é tão linda – sussurrou ele. – Não vou machucá-la. Mas, por Deus, como quero você.

Prometo que vou lhe dar prazer.

Christa sorriu e deixou que ele a deitasse em sua cama estreita, como um sacrifício inca num altar,

entregando-lhe sua virgindade em troca de um relógio de 3 mil dólares.

Brent manteve sua palavra: foi gentil; não teve pressa. Beijou-a, explorando sua boca com carinho.

Venerou seus seios. Preparou Christa com os dedos, testando-a para se certi car de que ela estava

pronta para ele. Quando a penetrou, foi com cuidado. Não houve sangue. Apenas mãos grandes

deslizando em seus quadris e uma voz grave que murmurava que ela devia relaxar, até que o

desconforto passou.

Como prometido, ele lhe deu prazer. Fez com que ela se sentisse bonita e especial. E, quando

acabaram, ele a abraçou forte a noite inteira, pois, por mais que fosse impulsionado por suas

necessidades carnais, não tinha a alma perversa.

Eles repetiriam esse ato várias vezes ao longo dos três anos seguintes, apesar de outros

envolvimentos românticos. Antes de penetrá-la, Brent sempre lhe dava um presente.

Pouco depois de Brent, foi a vez do Sr. Woolworth, o professor de matemática de Christa no 11 º

ano. Os encontros dela com Brent lhe haviam ensinado muito sobre os homens, como interpretar

seus anseios e desejos, como seduzi-los, provocá-los e deixá-los na palma de sua mão.

Ela atiçou o Sr. Woolworth de forma impiedosa até que ele não aguentasse mais e implorasse a ela

que o encontrasse em um hotel depois da aula. Christa gostava quando os homens imploravam. No

modesto quarto de hotel, seu professor a surpreendeu com um colar de prata da Ti any. Prendeu o

fecho delicado em volta de seu pescoço e beijou-a de leve. Em troca, Christa o deixou explorar seu

corpo por horas a fio até ele adormecer, exausto e saciado.

Ele não era tão atraente quanto Brent, mas era muito mais experiente. Para cada presente que

recebia, Christa permitia que ele a tocasse não só como antes, mas de outras e novas maneiras.

Quando o caso deles terminou e Christa foi estudar na Universidade de Bishop, em Quebec, havia

ganhado uma imensa quantidade de joias e um amplo conhecimento sexual. Acima de tudo, tinha se

tornado uma das poucas mulheres que achava que o papel da sedutora devoradora de homens devia

ser seguido.

Ao completar o mestrado em Estudos Renascentistas na Università degli Studi di Firenze, Christa

já havia estabelecido um padrão para os seus relacionamentos. Preferia homens mais velhos, em

posições de poder. Relações proibidas a excitavam: quanto mais improváveis e impensáveis, melhor.

Passou dois anos tentando seduzir um padre que trabalhava no Duomo, em Florença – e

conseguiu pouco antes de se formar. Ele a possuiu na cama de solteiro de seu minúsculo

apartamento, mas, antes de tocá-la, fez os dedos longos e quentes dela se fecharem em volta de um

pequeno ícone pintado por Giotto. Era inestimável. Mas ela também era, pensou Christa. Ela

permitiria que os homens a possuíssem, mas a um preço. E, no m das contas, sempre ia para a

cama com os homens que queria.

Até seu primeiro ano como doutoranda na Universidade de Toronto, quando conheceu o

professor Gabriel O. Emerson. Ele era de longe o mais atraente e sexy de todos os homens que ela já

havia conhecido. E parecia adorar sexo. Cada poro do seu corpo emanava uma sensualidade tórrida

e brutal. Christa quase conseguia sentir o cheiro dela.

Ela o observou caçar em seu bar preferido, o Lobby. Notou sua abordagem sorrateira e sedutora e

a maneira como as mulheres reagiam a ele. Estudou-o do mesmo modo como estudava italiano e

pôs em prática o que aprendeu.

Mas ele a rejeitou. Nunca olhou para o seu corpo. Fitava seus olhos com frieza, como se ela nem

fosse mulher.

Christa começou a vestir roupas mais provocantes. Ele nunca lançou um olhar sequer abaixo de

seu pescoço.

Tentou ser doce e autodepreciativa. Ele se mostrou impaciente.

Assou biscoitos para ele e começou a deixar guloseimas anônimas em seu escaninho. Essas coisas

permaneciam intocadas por semanas até a Srta. Jenkins, a secretária do departamento, jogá-las no

lixo por medo de uma infestação de insetos.

Quanto mais o professor Emerson a rejeitava, mais ela o queria. Quanto mais cava obcecada em

conquistá-lo, menos se importava em receber presentes em troca. Seria capaz de se entregar a

Emerson de graça, se ao menos ele a olhasse com desejo.

Mas ele não fazia isso.

Então, no outono de 2009, quando teve a oportunidade de encontrá-lo na Starbucks para discutir

sua tese, ela esperou, ansiosa, que a reunião terminasse com um jantar e, quem sabe, uma visita ao

Lobby. Ela se comportaria da melhor forma possível, mas tentaria seduzi-lo. Com alguma sorte, ele

não resistiria.

Preparando-se para a reunião, ela gastou 600 dólares numa chemise da marca Bordelle e comprou

também uma cinta-liga e meias nas pretas. Não se incomodou em acrescentar calcinha. Sempre

que sentia a pressão da cinta-liga em sua pele, ela tinha a sensação de estar em chamas. Perguntou-

se como seria quando o professor Emerson soltasse a meia das presilhas, de preferência com os

dentes.

Para azar de Christa, Paul e Julia tinham escolhido ir à mesma Starbucks, na mesma hora. Christa

tinha certeza de que seus colegas notariam qualquer impropriedade da sua parte. O professor

também sabia disso e por esse motivo seria muito mais profissional do que de costume.

Então, quando Christa confrontou Paul e Julia, estava furiosa. Ela queria insultar os dois para que

fossem embora antes que o professor chegasse. Fez tudo o que pôde para garantir que isso

acontecesse. Mesmo assim, sua tentativa de intimidar os colegas de curso foi um desastre. O

professor Emerson chegou mais cedo do que o esperado e escutou tudo o que ela disse.

– Srta. Peterson. – Gabriel apontou uma mesa vazia bem longe de Paul e Julia e indicou que

Christa deveria segui-lo.

– Professor Emerson, eu lhe comprei um venti latté com leite desnatado. – Ela tentou lhe entregar

a bebida, mas ele recusou com um gesto.

– Só os bárbaros tomam café com leite depois do desjejum. Você nunca foi à Itália? A propósito,

Srta. Peterson, leite desnatado é para idiotas. Ou garotas gordas.

Ele deu meia-volta e foi até o balcão pedir seu próprio café, enquanto Christa tentava bravamente

esconder sua fúria.

Julianne, sua desgraçada. A culpa é toda sua. E desse monge.

Christa se sentou na cadeira que o professor Emerson havia apontado, sentindo-se quase

derrotada. Mas não por completo, pois, de onde estava, tinha uma visão perfeita do traseiro do

professor em sua calça de anela cinza. Suas nádegas eram redondas como duas maçãs. Maduras e

deliciosas.

Ela queria mordê-las.

Algum tempo depois, o professor voltou com seu maldito café. Embora tecnicamente os dois

ainda estivessem na mesma mesa, ele se sentou o mais longe possível dela e a encarou com um olhar

severo.

– Precisamos conversar sobre o seu comportamento. Mas antes quero deixar uma coisa bem clara:

concordei em encontrá-la aqui hoje porque eu queria tomar um café. Daqui para a frente, nos

encontraremos no departamento, como de costume. Suas tentativas óbvias de engendrar

compromissos sociais entre nós dois serão inúteis. Entendido?

– Sim, senhor.

– Uma palavra minha e a senhorita terá que arranjar um novo orientador. – Ele pigarreou. – Daqui

para a frente, vai me chamar apenas de professor Emerson, mesmo quando estiver falando de mim

para outra pessoa. Fui claro?

– Sim, professor Emerson. – Ohhhh, professor. Você não faz ideia de quanto quero gritar o seu nome.

Professor, professor, professor...

– Acima de tudo, a senhorita vai parar de fazer comentários pessoais sobre meus outros alunos, em

especial sobre a Srta. Mitchell. Fui claro?

– Claríssimo.

Foi então que Christa começou a car ligeiramente irritada, mas conteve sua reação. Ela pôs toda

a culpa em Julia. Queria que ela fosse expulsa da pós-graduação. Só não sabia como faria isso.

Ainda.

– Por m, qualquer coisa que me ouvir falar sobre outro aluno ou outra pessoa ligada à

universidade deverá ser considerada con dencial e a senhorita não contará a ninguém. Do

contrário terá que encontrar outro orientador. Acha que é inteligente o bastante para respeitar

essas regras simples?

– Sim, professor.

Christa se zangou um pouco com aquele tom condescendente, mas a verdade é que também achava

a rabugice dele sexy. Queria provocá-lo até ela desaparecer. Seduzi-lo a fazer coisas indizíveis com

ela, a...

– Qualquer outro abuso direcionado a alunos será comunicado ao chefe do departamento, o

professor Martin. Acredito que conheça bem as regras que governam o comportamento do corpo

discente. Não preciso recordá-la das proibições contra maus-tratos, preciso?

– Mas eu não estava maltratando Julia, estava só...

– Poupe-me da sua ladainha. E duvido que a Srta. Mitchell tenha lhe dado permissão para chamá-

la pelo primeiro nome. A senhorita irá se dirigir a ela da forma adequada ou então nem lhe dirija a

palavra.

Christa baixou a cabeça. Aquele tipo de ameaça não era sexy. Ela havia se esforçado muito para

entrar para o doutorado na Universidade de Toronto e não iria pôr tudo a perder. Não por causa

de uma putinha patética que estava tramando algo com o assistente de pesquisa do professor.

Gabriel notou sua reação, mas cou calado, bebericando devagar seu espresso. Não sentiu remorso

e estava começando a se perguntar o que mais poderia fazer para levá-la às lágrimas.

– Estou certo de que a senhorita conhece a política da universidade a respeito de assédio. É uma

política de mão dupla. Professores podem apresentar queixa se acharem que estão sendo assediados

por um aluno ou uma aluna. Se passar dos limites comigo, vou arrastá-la para a sala do reitor tão

depressa que sua cabeça vai ficar girando. Entendido?

Christa ergueu o queixo e o encarou com olhos arregalados e assustados.

– Mas nós... eu achei que...

– Não tem “mas”! – estourou Gabriel. – A não ser que esteja delirando, vai perceber que não existe

nós. Não vou me repetir. A senhorita sabe onde está pisando.

Ele olhou para Julia e Paul uma última vez.

– Agora que já terminamos com as amenidades, gostaria de lhe dizer o que achei da sua última

proposta de tese. Estava um lixo. Em primeiro lugar, sua tese não tem nada de original. Em

segundo, a senhorita não tentou sequer fornecer uma revisão da literatura que chegue

minimamente perto de ser adequada. Se não puder corrigir sua proposta para sanar esses

problemas, terá que procurar outro orientador. Se decidir me entregar uma versão revisada, faça

isso em duas semanas. Agora, se me dá licença, tenho outra reunião que não é uma perda de tempo.

Boa tarde.

Gabriel saiu da Starbucks bruscamente, deixando Christa um tanto abalada e com o olhar perdido.

Ela ouviu parte do que ele disse, é claro, mas sua mente estava concentrada em outras coisas.

Primeiro, iria fazer algo para se vingar de Julia. Não sabia o que nem quando. Mas iria fazer

picadinho (metaforicamente falando) daquela vadia.

Segundo, reescreveria a proposta de tese e, com sorte, conquistaria a aprovação acadêmica do

professor Emerson.

Terceiro, iria redobrar seus esforços para seduzi-lo. Agora que o vira nervoso, a coisa que mais

desejava era vê-lo com raiva dela – sem roupas. Ela iria fazê-lo mudar de ideia. Iria romper sua casca

grossa. Iria vê-lo ajoelhado diante dela, implorando por ela, e então...

Claramente, os saltos de 10 centímetros e a lingerie da Bordelle não eram su cientes. Christa teria

que ir à Holt Renfrew comprar um vestido novo. Algo europeu. Sexy. Um Versace.

Então iria ao Lobby para pôr seu terceiro plano em ação...

CAPÍTULO QUATRO

a cobertura de um hotel de luxo em Florença, havia roupas jogadas por toda a sala de estar,

Ndescrevendo uma trilha, como se fossem migalhas de pão, da entrada até uma parede que não

estava mais vazia. Gemidos e ritmos indiscretos ecoavam no ar, utuando por sobre elegantes

sapatos masculinos feitos à mão, um sutiã preto, um terno sob medida largado sobre a mesa de

centro, um vestido de tafetá que formava no chão uma poça azul Santorini...

Se um detetive examinasse a cena, daria pela falta da calcinha e dos sapatos da mulher.

O ar estava repleto dos aromas de flor de laranjeira e Aramis, misturados ao cheiro almiscarado de

suor. O quarto estava escuro. Nem mesmo o luar que vinha do terraço alcançava a parede onde dois

corpos nus se agarravam. O homem estava com as costas eretas e segurava no colo a mulher, que

envolvia os quadris dele com as pernas.

– Abra os olhos.

O pedido de Gabriel foi entrecortado por uma cacofonia de sons: pele deslizando contra pele,

gemidos desesperados abafados por lábios, breves sorvos de oxigênio e o leve baque das costas de

Julia na parede.

Ela conseguia ouvi-lo gemer a cada investida, mas sua capacidade de falar tinha se perdido,

concentrada numa só sensação: prazer. Cada movimento do seu amante lhe dava prazer, até mesmo

o atrito entre seus peitos e a sensação das mãos dele a sustentando. Ela oscilava à beira do êxtase,

ofegante, à espera de que o próximo movimento a fizesse cair. Quase lá, quase, quase, quase...

– Você... está... bem? – Gabriel estava ofegante e sua última palavra soou como um gemido, quando

Julia girou os tornozelos de leve, pressionando os saltos afiados na carne dele.

Julia jogou a cabeça para trás e soltou alguns sons incoerentes ao chegar ao orgasmo, ondas

intensas irradiando de onde eles estavam conectados e disparando por seus nervos, até que todo o

seu corpo estivesse vibrando. Gabriel sentiu, é claro, e gozou logo em seguida; duas investidas

profundas e ele gritou seu nome com a boca no pescoço de Julia, tremendo dos pés à cabeça.

– Você me deixou preocupado – sussurrou ele pouco depois.

Estava deitado de costas no centro de uma cama grande e branca, enquanto sua amante sonolenta

se enroscava ao seu lado, a cabeça dela descansando sobre sua tatuagem.

– Por quê?

– Você não abria os olhos. Não falava nada. Fiquei com medo de ter sido bruto demais.

Ela correu os dedos pela barriga de Gabriel até alguns pelos que desciam a partir do seu umbigo,

percorrendo-os preguiçosamente, sentindo sua textura.

– Você não me machucou. Foi diferente desta vez... mais intenso. A cada vez que você se movia,

uma sensação incrível atravessava o meu corpo. Eu não conseguia abrir os olhos.

Gabriel sorriu para si mesmo, aliviado, e pressionou os lábios na testa dela.

– Esta posição é mais profunda. E ainda houve as preliminares no museu. Não consegui tirar as

mãos de você durante o jantar.

– Só porque sabia que eu tinha perdido minha calcinha.

– Não. Foi porque desejo você. Sempre. – Ele abriu um meio sorriso.

– Com você, cada vez é melhor do que a anterior – sussurrou ela.

O rosto de Gabriel ficou melancólico.

– Mas você nunca diz meu nome.

– Digo seu nome o tempo todo. Fico surpresa que ainda não tenha me pedido que use um apelido

carinhoso, como Gabe, Dante ou professor.

– Não é disso que estou falando. O que quero dizer é que você nunca diz meu nome... quando goza.

Ela ergueu o queixo para ver o rosto dele. Sua expressão combinava com seu tom de voz,

melancólica e momentaneamente vulnerável. A máscara de confiança havia caído.

– Para mim, seu nome é sinônimo de orgasmo. Vou passar a chamá-los de Emgasmos.

Ele riu alto, uma gargalhada gostosa, que fez seu peito chacoalhar e obrigou Julia a se sentar na

cama. Ela riu também, grata por seu momento de melancolia ter passado.

– Você tem um senso de humor muito peculiar, Srta. Mitchell.

Ele se esticou para beijá-la uma última vez antes de relaxar nos travesseiros e adormecer.

Julia cou acordada por mais algum tempo, re etindo sobre o garotinho ansioso e inseguro que

se revelava raras vezes e nos momentos mais inesperados.

Na manhã seguinte, Gabriel presenteou Julia com seu café da manhã predileto no Ca é Perseo,

uma excelente gelateria na Piazza della Signoria. Eles caram do lado de dentro, pois a temperatura

típica de dezembro havia voltado e o tempo estava chuvoso e frio.

Qualquer um poderia car sentado na praça o dia inteiro, todos os dias, e observar o mundo

passar. Ela é cercada de edifício antigos – a Galleria degli U zi cava bem na esquina. Há uma

fonte impressionante e belas esculturas, que incluem uma reprodução do Davi de Michelangelo e

uma estátua de Perseu segurando a cabeça decepada da Medusa em frente a uma linda loggia.

Julia evitou olhar para Perseu enquanto tomava seu gelato. Gabriel evitou olhar para as legiões de

florentinas lindas para observar sua amada. Com voracidade.

– Tem certeza de que não quer provar? Framboesa e limão combinam muito bem. – Ela estendeu

uma colher em que os dois sabores se misturavam.

– Ah, eu quero provar, sim. Mas não isso. – Os olhos dele brilharam. – Pre ro algo um pouco mais

exótico. – Ele colocou seu espresso de lado e pegou a mão dela. – Obrigado por ontem à noite e por

hoje de manhã.

– Eu que lhe agradeço, professor. – Julia apertou a mão dele e se ocupou do seu café da manhã,

por assim dizer. – Estou surpresa que meu corpo não tenha deixado uma marca na parede do nosso

quarto. – Ela deu uma risadinha, estendendo-lhe uma pequena colherada de sorvete.

Gabriel permitiu que ela lhe desse de comer e, quando a língua dele despontou para lamber os

lábios, Julia cou zonza. Uma enxurrada de imagens daquela mesma manhã invadiu sua mente. E

uma em especial ficou gravada nela.

Ó deuses dos namorados que são deuses do sexo e gostam de dar prazer às suas amantes, obrigada pela

manhã de hoje.

Ela engoliu em seco.

– Foi a primeira vez, sabia?

– Prometo que não vai ser a última.

Gabriel tornou a lamber os lábios só para provocá-la, louco para fazê-la se contorcer.

Ela se inclinou para a frente, no intuito de dar um beijinho em seu rosto. Mas ele não quis saber

disso. Deslizou uma de suas mãos até a nuca de Julia e a puxou para perto.

Sua boca estava doce por conta do sorvete e do gosto próprio de Julia. Ele gemeu quando a

soltou, desejando poder levá-la de volta ao hotel para repetirem o que haviam feito na noite

anterior, ou talvez para o museu...

– Posso lhe perguntar uma coisa? – Julia se ocupou de seu pote de sorvete para não ter que

encará-lo.

– Claro.

– Por que disse que eu era sua noiva?

– Fidanzata tem vários significados.

– Mas o principal deles é noiva.

– Ragazza não expressa a profundidade do que sinto por você.

Gabriel moveu os dedos dentro dos seus novos e apertados sapatos. A boca dele se contorceu

enquanto ele pensava no que dizer em seguida, se é que deveria dizer mais alguma coisa. Decidiu

ficar calado, remexendo-se em sua cadeira, sentindo-se desconfortável.

Julia percebeu o que julgou ser um desconforto físico.

– Desculpe-me pelos saltos.

– Como?

– Vi as marcas na sua bunda quando você estava se vestindo hoje de manhã. Não quis machucá-lo.

Ele sorriu com malícia.

– É um risco que correm os obcecados por saltos altos. Carrego minhas cicatrizes amorosas com

orgulho.

– Vou ser mais cuidadosa da próxima vez.

– Nem pensar.

Julia arregalou os olhos diante do repentino lampejo de paixão na expressão dele.

Ele capturou os lábios dela com os seus antes de sussurrar no ouvido de Julia:

– Vou lhe comprar um par de botas com saltos ainda mais altos, então verei o que você consegue

fazer com elas.

Enquanto eles atravessavam a Ponte Vecchio debaixo de um só guarda-chuva, Gabriel a arrastou

de loja em loja, tentando convencê-la a aceitar algum presente ou uma joia extravagante:

reproduções etruscas, moedas romanas, colares de ouro, etc. Mas ela se limitava a sorrir e recusar as

ofertas, apontando para os brincos de diamantes de Grace e dizendo que eles eram mais do que

su cientes. A falta de apego a coisas materiais que Julia demonstrava só fazia com que Gabriel

tivesse mais vontade de empilhá-las a seus pés.

Quando chegaram ao meio da ponte, Julia puxou-o pelo braço e o conduziu até à beirada para que

pudessem observar o rio Arno.

– Tem uma coisa que eu gostaria que você me desse, Gabriel.

Ele a encarou com um olhar intrigado, o ar frio de Florença ruborizando as faces de Julia. Ela era

a encarnação da bondade, da luz, da ternura e da doçura. Mas era extremamente teimosa.

– Diga.

Julia fez uma pausa para correr a mão pela barreira que a separava do parapeito da ponte.

– Quero tirar minha cicatriz.

Ele cou quase surpreso. Sabia que ela sentia vergonha da marca da mordida de Simon. Gabriel a

havia surpreendido aplicando o corretivo naquela manhã e os olhos dela caram marejados quando

ele lhe perguntou o que era aquilo.

Ela evitou encará-lo e prosseguiu:

– Não gosto de olhar para ela. Não gosto do fato de você ter que olhar para ela. Quero que

desapareça.

– Encontraremos um bom cirurgião plástico na Filadélfia, quando formos passar o Natal em casa.

– Teremos tão pouco tempo com eles. Não poderia fazer isso com o meu pai. Nem com Rachel.

Gabriel trocou o guarda-chuva de mão e a puxou para um abraço. Ele a beijou, descendo os lábios

pelo seu pescoço até tocar a cicatriz.

– Será um prazer fazer isso por você e muito mais. Só precisa pedir. Mas gostaria que zesse algo

por mim.

– O quê?

– Gostaria que conversasse com alguém. Sobre o que aconteceu.

Julia baixou os olhos.

– Eu converso com você.

– Estou falando de alguém que não seja um cretino. Posso pagar um médico para remover a

cicatriz da sua pele, mas ninguém pode remover as marcas de dentro de você. É importante que

perceba isso. Não quero que se decepcione.

– Não vou me decepcionar. E pare de chamar a si mesmo desse tipo de coisa. Isso me aborrece.

Ele assentiu, como se admitisse que Julia tinha razão quanto ao último ponto.

– Acho que poderia ajudar se você tivesse alguém com quem conversar... sobre tudo. Tom, sua

mãe, ele e eu. – Gabriel lançou-lhe um olhar angustiado. – Sei que sou uma pessoa difícil. Acho que,

se você tivesse alguém com quem conversar, seria bom.

Ela fechou os olhos.

– Está bem, mas só se você concordar em fazer a mesma coisa.

Ele ficou tenso.

Ela abriu os olhos e começou a falar depressa:

– Sei que você não quer e, acredite, eu entendo. Mas, se vou fazer isso, você também tem que fazer.

Você cou muito irritado ontem à noite e, embora saiba que não estava com raiva de mim, fui eu

que tive que aguentar as consequências.

– Tentei recompensá-la depois – disse ele, cerrando os dentes.

Ela ergueu a mão para acariciar seu maxilar retesado.

– É claro. Mas me incomodou que você tenha cado tão transtornado por conta de uma cantada

de um estranho. E que tenha achado que o sexo aliviaria sua raiva e me marcaria como sua.

O rosto de Gabriel ficou chocado, pois ele nunca tinha interpretado sua atitude dessa forma.

– Eu jamais machucaria você. – Ele apertou sua mão.

– Eu sei.

Gabriel pareceu angustiado e o pânico em seus olhos não diminuiu quando Julia ergueu a mão

para acariciar seus cabelos.

– Somos uma dupla e tanto, não? Com nossas cicatrizes, nossas histórias e todos os nossos

problemas. Um romance trágico, imagino. – Ela sorriu, tentando fazer graça da situação deles.

– A única tragédia seria perder você – disse ele, beijando-a de leve.

– Você só vai me perder se deixar de me amar.

– Então sou um homem de sorte, pois ficarei com você para sempre.

Ele tornou a beijá-la, tomando-a nos braços.

– Fui obrigado a fazer terapia durante a reabilitação. Continuei me consultando com um

terapeuta por mais ou menos um ano depois disso, além de frequentar reuniões de autoajuda

semanais. Já passei por isso antes.

Julia franziu a testa.

– Você está em recuperação e não vai às reuniões. Eu não quis tocar nesse assunto, mas é um

problema sério. Além do mais, você ainda bebe.

– Eu era viciado em cocaína, não alcoólatra.

Ela perscrutou os olhos dele. Era como se tivesse descoberto um velho mapa medieval que traçava

os limites do mundo com as palavras Aqui há dragões.

– Nós dois sabemos que os Narcóticos Anônimos sugerem enfaticamente que viciados não bebam.

– Ela suspirou. – Por mais que eu tente ajudar, algumas coisas estão fora do meu alcance. Por mais

que goste de fazer sexo com você, não quero me tornar sua nova droga favorita. Não posso

consertar as coisas.

– É isso que você acha? Que eu uso o sexo para consertar as coisas?

Sua pergunta era séria e Julia resistiu ao impulso de responder com sarcasmo.

– Acho que já usou o sexo para consertar as coisas, sim. Você mesmo já admitiu isso, lembra? Que

usava sexo para combater sua solidão. Ou se punir.

Uma sombra cruzou o semblante de Gabriel.

– Não é assim com você.

– Mas, quando uma pessoa ca perturbada, antigos padrões de comportamento vêm à tona. Isso

também se aplica a mim, só que meus mecanismos de defesa são diferentes. – Ela o beijou com

carinho, mas por tempo suficiente para que seu pânico diminuísse e ele retribuísse o beijo.

Quando suas bocas se desgrudaram, eles continuaram abraçados até Julia decidir quebrar o

silêncio:

– A sua palestra ontem à noite me fez lembrar de uma coisa. – Ela sacou seu telefone da bolsa e

passou rapidamente por uma série de fotos. – Aqui.

Gabriel pegou o telefone da mão dela e olhou para a bela pintura. Santa Francisca Romana ninava

um bebê com a ajuda da Virgem Maria, enquanto um anjo observava a cena.

– É linda – disse ele, entregando-lhe o telefone.

– Gabriel – falou ela com brandura –, olhe para o quadro.

Ele obedeceu. E foi invadido por uma sensação muito estranha.

Ela começou a falar em voz baixa:

– Eu sempre adorei esta pintura. Achava que era por causa das semelhanças entre Gentileschi e

Caravaggio. Porém é mais do que isso. Santa Francisca perdeu alguns de seus lhos para a praga. A

pintura busca retratar uma de suas visões do que aconteceu com essas crianças.

Julia vasculhou os olhos de Gabriel para ver se ele havia entendido o que ela queria dizer. Mas ele

não entendera.

– Quando olho para esta imagem, penso na sua lha, Maia. Grace a está segurando, cercada de

anjos. – Julia apontou para as guras no quadro. – Está vendo? O bebê está em segurança e é amado.

O Paraíso é assim. Você não precisa se preocupar.

Julia ergueu os olhos para o rosto dele, angustiado e belo. Os olhos de Gabriel estavam cheios de

lágrimas.

– Sinto muito. Muito mesmo. Estava tentando consolar você. – Ela passou seus braços em volta do

pescoço dele, apertando-o com força.

Algum tempo depois, ele enxugou os olhos. Escondeu o rosto em seus cabelos, sentindo-se grato e

aliviado.

Na tarde seguinte, a chuva parou. Então o casal pegou um táxi até a Piazzale Michelangelo, que

oferecia uma vista panorâmica da cidade. Eles poderiam ter pegado um ônibus turístico, como

turistas normais, mas Gabriel não era exatamente normal.

(Poucos especialistas em Dante são.)

– O que Rachel dizia no e-mail? – perguntou Gabriel enquanto eles admiravam o telhado

ladrilhado do Duomo.

Julia brincou com suas próprias unhas.

– Ela e Aaron mandaram um abraço. Queriam saber se estávamos felizes.

Gabriel estreitou os olhos.

– Só isso?

– Hum... não.

– E?

Ela deu de ombros.

– Parece que Scott está namorando. Basicamente foi isso.

– Bom para Scott. – Ele deu uma risadinha. – Mais alguma coisa?

– Por que está perguntando?

Ele inclinou a cabeça de lado.

– Porque percebo quando você está escondendo alguma coisa.

Ele começou a correr os dedos para cima e para baixo pela carne macia da cintura de Julia, um

lugar em que ela sentia mais cócegas do que o normal.

– Você não vai fazer isso em público.

– Ah, vou sim. – Ele sorriu e começou a mover os dedos com determinação, fazendo cócegas.

Ela começou a rir e tentou se desvencilhar dele, mas Gabriel a segurou com firmeza.

– Vamos, Julianne. Conte o que Rachel falou.

– Pare de fazer cócegas – falou ela, ofegante – que eu conto.

Gabriel parou de mover as mãos.

Ela respirou fundo.

– Ela queria saber se nós já tínhamos... hum... dormido juntos.

– Ah, é? – Os lábios dele se curvaram em um meio sorriso. – E o que você disse?

– A verdade.

Ele a encarou.

– Mais alguma coisa?

– Ela disse que esperava que você estivesse se comportando e que eu estivesse feliz. E eu respondi

que sim, para as duas coisas. – Ela esperou alguns instantes, pensando se deveria ou não mencionar

o e-mail de um certo fazendeiro de Vermont.

– Mas não foi só isso. Continue. – Ele ainda tinha um sorriso indulgente estampado no rosto.

– Bem, Paul me mandou um e-mail.

O sorriso de Gabriel sumiu.

– O quê? Quando?

– No dia da sua palestra.

– E por que não me contou antes? – perguntou ele, furioso.

– Por isso. – Ela gesticulou para a óbvia irritação em seu rosto. – Sabia que você caria irritado, e

não queria fazer isso quando você estava prestes a se apresentar diante de um salão cheio de pessoas

importantes.

– O que ele dizia?

– Que você aprovou a proposta de tese de Christa.

– O que mais?

– Ele me desejou um Feliz Natal e disse que enviaria um presente para o meu endereço de

Selinsgrove.

As narinas de Gabriel se dilataram.

– Por que ele faria isso?

– Porque é meu amigo. Deve ser uma garrafa de xarope de bordo, que carei feliz em dar para o

meu pai. Paul sabe que eu tenho namorado e que estou muito, muito feliz. Posso encaminhar o e-

mail para você, se quiser.

– Não precisa. – Os lábios de Gabriel se crisparam numa linha fina.

Julia cruzou os braços diante do peito.

– Você me deu o maior apoio para passar tempo com Paul quando a professora Agonia estava por

perto.

– Aquilo foi diferente. E não tenho a menor intenção de voltar a falar sobre ela, nunca mais.

– Para você é fácil. Não fica topando o tempo todo com homens que me levaram para a cama.

Gabriel a fuzilou com o olhar.

Julia cobriu a boca com a mão.

– Desculpe. Não deveria ter dito isso. Foi horrível.

– Como deve se lembrar, já topei com pelo menos um homem com quem você esteve envolvida.

Ele lhe deu as costas e se afastou, aproximando-se do parapeito do mirante. Julia o deixou sozinho

por alguns minutos, então parou a seu lado e encaixou com cuidado seu dedo mindinho entre os

dele.

– Desculpe.

Ele não respondeu.

– Obrigada por me salvar de Simon.

Gabriel fez uma careta.

– Você sabe que eu tenho um passado. Pretende ficar trazendo-o à tona?

Ela baixou os olhos para os próprios sapatos.

– Não.

– Aquele comentário estava abaixo do seu nível.

– Desculpe.

Gabriel manteve seu olhar xo na cidade que se estendia diante deles. Telhados vermelhos

brilhavam sob o sol, enquanto o domo de Brunelleschi dominava a paisagem.

Julia decidiu mudar de assunto:

– Christa estava estranha na sua última aula. Parecia ressentida. Você acha que ela sabe sobre nós

dois?

– Ela está azeda porque não recebi com bons olhos suas investidas escandalosas. Mas cumpriu o

prazo de entrega de sua proposta revisada e o trabalho estava aceitável.

– Então ela não... chantageou você?

– Não vejo todas as outras mulheres como rivais suas – retrucou ele, perdendo a paciência e

afastando a mão de Julia.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa.

– Esse comentário está abaixo do seu nível.

Depois de alguns instantes, a raiva de Gabriel pareceu diminuir. Ele encurvou os ombros.

– Me perdoe.

– Não vamos perder nosso tempo brigando.

– Concordo. Mas não gosto da ideia de Paul car lhe mandando e-mails. Embora imagine que

você poderia ser amiga de gente pior. – Gabriel soou mais afetado do que o normal.

Ela sorriu e lhe deu um beijo no rosto.

– Este é o professor Emerson que eu conheço e amo.

Ele pegou o telefone para tirar uma foto dela com aquela linda vista ao fundo. Julia estava rindo.

Ele tirava uma foto atrás da outra quando seu telefone começou a tocar. O som não muito

melodioso das badaladas do Big Ben ressoou entre eles.

Julia o encarou com um olhar de desafio.

Ele fez uma careta e a puxou para um beijo intenso. Então aninhou o rosto dela em sua mão,

determinado a separar os lábios de Julia com os seus e enfiar a língua com carinho em sua boca.

Ela retribuiu o beijo, envolvendo a cintura dele com os braços para puxá-lo mais para perto. E,

durante todo esse tempo, o Big Ben não parava de repicar.

– Não vai atender? – ela enfim teve a chance de perguntar.

– Não. Já disse que não vou falar com ela.

Ele tornou a pressionar os lábios nos de Julia, mas apenas por alguns instantes.

– Tenho pena dela – declarou Julia.

– Por quê?

– Porque ela concebeu uma lha com você. Porque ela ainda o deseja, mas o perdeu. Se eu

perdesse você para outra pessoa, ficaria arrasada.

Gabriel bufou, impaciente.

– Você não vai me perder. Pare com isso.

Julia abriu um sorriso fraco.

– Hum, preciso lhe dizer uma coisa.

Ele recuou.

– Quero que saiba que só vou falar isto porque me preocupo com você. – Ela o encarou com uma

expressão séria. – Tenho pena de Paulina, mas é óbvio que ela está jogando nas suas costas todo o

peso do que aconteceu para que você continue fazendo parte da vida dela. Chego a me perguntar se

ela não arranja problemas só para que você vá salvá-la. Acho que está na hora de ela desenvolver um

apego emocional por outra pessoa. Alguém por quem possa se apaixonar.

– Não discordo – respondeu ele, tenso.

– E se ela não conseguir ser feliz até se libertar de você? Você se libertou dela e me encontrou.

Seria misericordioso da sua parte permitir que Paulina se liberte também, para que possa encontrar

a felicidade.

Gabriel assentiu, taciturno, e beijou a testa dela, mas se recusou a continuar falando daquele

assunto.

O restante da estadia do casal em Florença foi feliz, uma espécie de lua de mel. Eles visitavam

diversas igrejas e museus durante o dia, entremeando com passadas no hotel, onde faziam amor,

algumas vezes devagar, outras loucamente. Todas as noites Gabriel escolhia um restaurante

diferente para o jantar e, em seguida, eles voltavam a pé, parando em alguma das pontes para

namorar como dois adolescentes em meio ao ar frio da noite.