O limpador de botas por Charles Dickens - Versão HTML

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O L I M P A D O R

D E B O T A S

Em que lugares havia estado na mocidade?, repetiu ele quando

lhe formulei a pergunta. Santo Deus!, havia estado em todas as

partes! E que profissões exercera? Quase todas as que se pode

ser!

Se havia visto muitas coisas? Certamente. Eu mesmo diria isso,

posso assegurar, se soubesse de um vigésimo do que lhe

acontecera na vida. Tanto que seria muito mais fácil para ele falar

do que não vira do que aquilo que vira. Muito mais fácil.

Qual a coisa mais curiosa que havia visto? Bem! Não sabia ao

certo. Naquele instante não poderia avaliá-lo... talvez um

unicórnio... que encontrara uma vez numa feira. Mas, se eu

imaginasse um jovem cavalheiro de oito anos incompletos fugindo

com uma bela senhorinha de sete - não seria isso um bom

começo para uma história? Claro que sim. Eis que ele próprio

havia visto essa história, com os olhos que Deus lhe dera, e

inclusive limpara os sapatos com que eles haviam fugido,

pequenos sapatos nos quais sua mão nem cabia.

O pai de Harry Júnior vivia na casa dos Elmses, em Shooter's Hill,

a seis ou sete milhas de Lunnon. Era um homem espirituoso, bem

apessoado, que caminhava de cabeça erguida e tinha o que se

pode chamar de eclético. Escrevia versos, montava, corria, jogava

críquete, dançava, representava, tudo fazendo satisfatoriamente.

Sentia-se muito orgulhoso de Harry Júnior, seu único filho, mas

não o levava a se perder com mimos em excesso. Era um

cavalheiro de gosto e vontade próprios, o que logo se notava.

Assim, embora fosse um bom companheiro para aquele excelente

menino, e gostasse de vê-lo entretido na leitura de contos de

fadas, e nunca se cansasse de ouvi-lo dizer que ele era Norval,

cantarolando canções infantis, mantinha a sua autoridade sobre o

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menino, um autêntico menino, e bom seria se todas as crianças

fossem assim!

Como sabia o limpador de botas de tudo isso? Porque havia sido o

jardineiro auxiliar. Naturalmente era impossível que, na qualidade

de jardineiro, indo e vindo pelo gramado, sob as janelas da casa,

ceifando, varrendo, desramando, e podando, e mais isto e aquilo,

não se inteirasse dos assuntos da família. Isso sem contar com o

fato de que, numa manhã, Harry Júnior lhe perguntou:

- Cobbs, de que modo escreveria a palavra "Norah", se te

pedissem?

Ato contínuo, pôs-se a escrevê-la nas ripas da cerca, com letra de

forma.

Ele não poderia dizer que tivesse dado muita atenção às crianças

antes disso; mas era lindo vê-los, os dois pequenos, andando de

cá para lá, profundamente enamorados. E a coragem do menino!

Meu Deus, ele teria tirado o chapéu, arregaçado as mangas e

avançado para um leão, se algum aparecesse para assustar sua

bem amada. Uma vez, Harry Júnior, em companhia de Norah,

deteve-se diante de Cobbs, que catava ervas daninhas no

cascalho, e disse-lhe firmemente:

- Cobbs, gosto muito de você.

- Verdade, senhor? Fico muito contente em ouvir isso.

- Gosto sim, Cobbs. Porque você acha que gosto de você, Cobbs?

- Confesso que não sei, Harry Júnior.

- Porque Norah também gosta de você, Cobbs.

- É mesmo, senhor? Isso é muito honroso.

- Honroso, Cobbs? Ser querido por Norah vale mais do que ter

milhões de puros diamantes.

- Certamente, senhor.

- Vai deixar-nos, não é assim, Cobbs? - Não gostaria de ocupar

outro cargo, Cobbs?

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- Não teria objeções, se fosse um bom cargo.

- Pois bem, Cobbs - determinou Harry Júnior - será nosso

jardineiro-chefe quando nos casarmos.

Dito isso, enlaçou seu braço no de Norah, que vestia um

aventalzinho azul-celeste, e ambos se afastaram.

O limpador de botas me assegurava que, melhor do que apreciar

um quadro ou assistir uma peça de teatro, era ver as duas

crianças, com seus cabelos louros encaracolados, seus olhos

brilhantes e o caminhar ágil e firme pelo jardim, completamente

enamorados. Cobbs achava sinceramente que os passarinhos os

julgavam seus amigos e que cantavam para eles com a intenção

de agradá-los. Por vezes, ambos se sentavam sob as árvores e ali

ficavam abraçados, os rostinhos macios bem juntos, lendo

histórias como "O Príncipe e o Dragão", "Os Encantadores Bons e

Maus" e "A Linda Filha do Rei". Algumas vezes, Cobbs os ouvira

falando de seus planos de morar numa casinha na floresta, com

abelhas e vacas, para viverem só de mel e leite. Outra vez, deu

com eles junto ao tanque e ouviu Harry Júnior, que dizia:

- Minha adorável Norah, me dá um beijo e me diz que me ama

com loucura, senão vou me atirar dentro da água.

Cobb não tinha dúvida de que cumpriria o prometido, se ela não

tivesse atendido seus pedidos. Resumindo, o limpador de botas

me assegurou que tudo aquilo despertava nele próprio a sensação

de também estar enamorado, embora sem saber exatamente por

quem.

- Cobbs - disse Harry Júnior ao jardineiro quando ele regava as

flores - em junho vou visitar vovó, que mora em York.

- Realmente, senhor? Espero que se divirta bastante. Eu também

vou para Yorkshire quando sair daqui.

- Vai visitar sua avó, Cobbs?

- Não, senhor. Não a tenho mais.

- Não tem mais avó, Cobbs?

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- Não, senhor.

O menino ficou olhando-o regar as flores por tempo e depois lhe

disse:

- Ficarei muito contente em ir, Cobbs. Norah vai também.

- Vai estar muito feliz então, senhor - acrescentou Cobbs - com

sua linda namorada ao seu lado.

- Cobbs - censurou o menino, ruborizando-se - não permito

brincadeiras desse tipo, se eu puder impedir.

- Não foi brincadeira, senhor - desculpou-se Cobb, humilde. - Não

tive essa intenção.

- Fico muito contente de que seja assim, Cobbs, porque gosto de

você como sabe. E porque vai viver conosco... Cobbs!

- Senhor.

- Que é que você acha que vovó costuma me dar quando vou

visitá-la?

- Não posso imaginar, senhor.

- Me dá uma nota de cinco libras do Banco da Inglaterra, Cobbs.

- Puxa! -exclamou Coobs - é um montão de dinheiro, Harry

Júnior.

- Pode-se fazer um montão de coisas com esse dinheiro, não é

mesmo, Cobbs?

- Acho que sim, senhor.

- Cobbs, vou te contar um segredo. Em casa de Norah, zombam

de nós, forçam as risadas pelo nosso compromisso matrimonial...

levam na brincadeira, Cobbs!

- Assim é, senhor - disse Cobbs - a maldade da natureza humana.

6

O menino, exata imagem do pai, ficou parado por um momento

com o rosto iluminado voltado para o pôr-do-sol e depois se

despediu:

- Boa noite, Cobbs. Vou entrar.

Quando perguntei ao limpador de botas por que resolvera deixar,

naquela época, o serviço, ele não soube o que responder. Achava

que poderia ter continuado na casa até hoje se tivesse tido

vontade. Mas era jovem naquela época e pretendia mudar de

vida. Isso era o que ele desejava - mudar. Quando comunicou ao

Sr. Walmers que ia deixar o emprego, este lhe disse:

- Cobbs, tem alguma queixa a fazer? Pergunto isso porque, se

algum dos meus empregados tem algo de que se queixar, se

puder, quero lhe dar satisfações.

- Não, meu senhor - explicou Cobbs - agradeço muito, senhor,

estou melhor do que poderia estar em qualquer outro emprego. A

verdade é que vou em busca da fortuna, meu senhor.

- Oh, é isso, Cobbs? Faço votos de que a encontre.

E o limpador de botas assegurou-me - e o fez com um gesto,

levando a calçadeira à cabeça, modo de saudação apropriada ao

seu ofício - que até hoje não encontrara a dita fortuna.

Pois bem, vencido o prazo marcado, o limpador de botas deixou

os Elmses, e Harry Júnior foi para a casa da velha senhora em

York; esta velha senhora teria sido capaz de arrancar os dentes

(se ainda os tivesse) para dá-los ao menino, tal era a paixão que

nutria por ele. E não é que a criança (pois criança podemos

chamá-lo com razão) foge da casa da avó em companhia de

Norah, dirigindo-se a Gretna Green, com o propósito de se

casarem!

Sim, senhor: o limpador de botas estava na mesma Hospedaria do

Azevim (deixara-a várias vezes com a intenção de melhorar de

vida, mas acabava sempre voltando por uma ou outra razão)

quando, numa tarde de verão, parou um coche à porta e dele

desceram as duas crianças. O cocheiro da diligência disse ao

patrão de Cobbs:

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- Não compreendo bem o que pretendem estas crianças, mas as

ordens do pequeno cavalheiro foram para que os trouxesse aqui.

O pequeno cavalheiro apeou-se, estendeu a mão à sua dama para

ajudá-la a descer, deu uma gorjeta ao cocheiro e se dirigiu ao

dono da hospedaria:

- Vamos passar a noite aqui. Providencie, por favor, uma sala de

estar e dois dormitórios. E costeletas fritas e pudim de cereja para

dois!

Passando o braço por Norah (que trajava o seu aventalzinho azul-

celeste), entrou na hospedaria mais aprumado do que um

general.

O limpador de botas deixava a meu critério avaliar qual teria sido

a surpresa, dos presentes, ao verem as duas criaturinhas

entrando - surpresa que se tornou ainda maior quando Cobbs, que

as vira sem por elas ser visto, explicou ao hoteleiro o provável

objetivo da viagem de ambos.

- Cobbs - anunciou-lhe então o patrão - se é assim, tenho de ir a

York para tranqüilizar os familiares. Por enquanto, cuide de vigiá-

los e distraí-los até a minha volta. Mas antes de tomar a decisão

definitiva, Cobbs, gostaria que confirmasse com eles se a tua

suposição é verdadeira.

- Vou tratar disso imediatamente, senhor - retrucou Cobbs.

Subindo ao apartamento do andar superior, o limpador de botas

encontrou Harry Júnior sentado num enorme sofá - já enorme de

origem e gigantesco quando comparado ao menino - enxugando

as lágrimas de Miss Norah, com seu lenço. Claro que seus

pezinhos não alcançavam o chão e o limpador de botas não

achava palavras para descrever quão pequenas lhe pareceram as

crianças.

- É Cobbs! É Cobbs! - exclamou Harry Júnior, correndo para ele e

agarrando-lhe a mão. Miss Norah também veio correndo, pelo

outro lado, agarrando-se à outra mão, e ambos se puseram a

saltitar de alegria.

- Eu os vi, senhor, quando desciam do coche, disse Cobbs. - Logo

os reconheci, porque não podia me enganar com a altura e

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aparência dos patrõezinhos. Qual o objetivo da jornada dos

senhores?... Matrimonial?

- Vamos nos casar em Gretna Green, Cobbs - relatou o menino. -

Fugimos com essa finalidade. Norah está bastante deprimida,

Cobbs, mas se alegrará, agora que temos o nosso amigo.

- Muito obrigado, senhor, e muito obrigado, senhora - disse Cobbs

- pelo bom juízo que fazem de mim. Trouxeram bagagem,

senhor?

O limpador de botas me assegurou, sob sua palavra de honra, que

a dama trazia uma sombrinha, um frasco de sais, uma torrada e

meia com manteiga, oito balas de hortelã e uma escovinha de

cabelo, provavelmente de boneca. O cavalheiro trazia um rolo de

barbante, um canivete, três ou quatro folhas de papel de carta

dobrada várias vezes, uma laranja e uma canequinha de Chaney

com seu monograma.

- Quais são exatamente os seus planos, senhor? - perguntou

Cobbs.

- Prosseguir viagem pela manhã - respondeu o menino, cujo valor

era digno de admiração - e nos casar no mesmo dia.

- Muito bem, senhor - disse Cobbs. - E seria de seu agrado que eu

os acompanhasse, senhor?

- Oh, sim, sim, Cobbs! Sim! - exclamaram ambos, alegres a

saltitar novamente.

- Bem, senhor - continuou Cobbs - me perdoem pela liberdade de

dar minha opinião, mas eu gostaria de sugerir o seguinte: sei de

um pônei, senhor, que atrelado a uma pequena carruagem, que

eu tomaria emprestada, poderia levar o senhor e senhora Harry

Walmers Júnior (eu seria o cocheiro, se lhes parecesse bem), ao

fim da jornada no menor tempo possível. Não estou certo, senhor,

se o pônei vai estar em liberdade amanhã, mas mesmo que

tivéssemos que esperar até depois de amanhã, ainda valeria a

pena. Quanto às vossas pequenas despesas aqui, senhor, no caso

de lhes faltar dinheiro, não se preocupem pois sou sócio do

estabelecimento e nele tens crédito.

9

O limpador de botas declarou-me que - quando os viu batendo

palmas, pulando de contentes, chamando-o de o "bom Cobbs!", o

"querido Cobbs!", e, no auge da felicidade dos corações

confiantes, beijando-se na sua frente - sentiu-se o mais miserável

dos canalhas por enganá-los assim.

- Alguma coisa que desejam para já, senhor? - perguntou Cobbs,

envergonhado de si mesmo.

- Gostaríamos de alguns doces depois do jantar - declarou Harry

Júnior, cruzando os braços, avançando um pé, olhando-o de

frente - duas maçãs... e geléia. Para o jantar, preferimos torradas

e água. Mas Norah está acostumada a tomar meio cálice de vinho

de groselha de sobremesa. E eu também.

- Farei o pedido no bar, senhor - disse Cobbs, retirando-se.

Ao contar-me isso, Cobbs experimentava os mesmos sentimentos

de então, e confessou ter concordado com o hospedeiro a

contragosto; de todo o coração, desejara que existisse um lugar

absurdo onde aquelas crianças pudessem contrair um absurdo

casamento e viver absurdamente felizes daí para frente. Mas

como era isso impossível, conformou-se com o plano do patrão e

este se pôs a caminho de York, meia hora depois.

O carinho que as mulheres da casa... sem exceção... todas elas....

casadas e solteiras... passaram a admirar o menino depois de

saberem da sua história, surpreendeu o limpador de botas. Teve

este de desdobrar-se para impedir que fossem ao apartamento

para beijá-lo. Subiram perigosamente até as vidraças, correndo

até risco de vida, para conseguirem vê-los através da vidraça.

Formavam fila para contemplá-lo pelo buraco da fechadura.

Ficaram loucas pelo menino e pela sua coragem.

Ao anoitecer, o limpador de botas foi até o apartamento para ver

como estavam passando os fujões. O pequeno cavalheiro, sentado

perto da janela, amparava a pequena dama em seus braços. Esta,

com o rosto marcado de lágrimas, descansava, exausta e semi-

adormecida, com a cabeça apoiada no ombro do companheiro.

- A Senhora Harry Walmers Júnios está fatigada, senhor? -

perguntou Cobbs.

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- Está sim, Cobbs, não está acostumada a ausentar-se de casa e

acha-se deprimida novamente. Cobbs, acha que poderia arranjar

uma torta de maçã?

- Desculpe-me, senhor - disse - o senhor deseja uma...?

- Acho que uma torta de maçã de Norfolk a reanimaria, Cobbs. Ela

gosta muito.

O limpador de botas saiu em busca do revigorante solicitado.

Quando o trouxe, o cavalheiro entregou-a à dama, deu-lhe de

comer na boca com uma colher com a qual provou um pouco ele

mesmo. Mas a dama estava realmente sonolenta e deprimida.

- Que acha, senhor - perguntou Cobbs - se eu trouxer um

candelabro para guiá-los até os seus aposentos?

O cavalheiro aprovou a sugestão. A camareira antecipou-se

subindo pela grande escada, seguida da dama com seu

aventalzinho azul-celeste, galantemente escoltada pelo cavalheiro

que abraçou-a à porta do quarto dela e retirou-se para o seu, cuja

porta foi cuidadosamente trancada pelo limpador de botas.

Cobbs não pôde deixar de se sentir ainda mais envergonhando da

sua maldade quando, no dia seguinte, no desjejum (havia

ordenado, na véspera, leite com água, adoçado, torradas e geléia

de groselha), ambos lhe perguntaram pelo pônei. Foi

verdadeiramente penoso - me confessava isso sem embaraço -

olhar para aquelas duas criaturinhas e pensar no abominável

embusteiro que ele havia se tornado. No entanto, continuou a

mentir, tão cinicamente quanto um troiano, sobre o pônei. Disse-

lhes que, infelizmente, o pônei estava tosquiado e que não seria

conveniente levá-lo ao tempo nesse estado, pois poderiam se

ressentir os seus órgãos internos. Mas o tratamento terminaria

naquele mesmo dia e no dia seguinte a pequena carruagem

estaria pronta para a viagem. O limpador de botas julgava - ao

refletir sobre o caso comigo, no meu quarto - que a Senhora

Harry Walmers Júnior começava a perder o entusiasmo. Ao deitar-

se, não lhe haviam enrolado os cabelos; tão pouco parecia capaz

de pentear-se por si mesma; a irritavam os cachos caindo sobre

seus olhos. Porém, nada abatia o ânimo de Harry Júnior. Sentado

diante da xícara do desjejum, servia-se de geléia com tanta

elegância quanto seu par.

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O limpador de botas estava propenso a acreditar que, terminado o

desjejum, ambos se haviam ocupado em desenhar soldadinhos...

pelo menos sabia que muitos desses desenhos foram encontrados

na lareira - desenhos de soldadinhos montados. No transcurso da

manhã, Harry Júnior tocara a sineta (era realmente surpreendente

como aquele menino conservava sua postura) e perguntara com

ansiedade:

- Cobbs, há algum passeio bonito pelas vizinhanças?

- Há sim, senhor - respondeu Cobbs. - Temos o Caminho do

Amor.

- Ponha-se daqui para fora, Cobbs! - essa foi a expressão usada

pelo menino. - Está com zombarias.

- Peço perdão, senhor - desculpou-se Cobbs - mas o Caminho do

Amor existe de fato. É um belo passeio e eu me sentiria muito

orgulhoso de poder mostrá-lo ao senhor e à Senhora Harry

Walmers Júnior.

- Norah, querida - disse Harry Júnior - isto é curioso. Devemos

realmente ir conhecer o Caminho do Amor. Põe o chapéu, minha

adorada, e Cobbs nos levarás até lá.

O limpador de botas deixava para mim o encargo de imaginar que

grande vilão ele não deveria ter se sentido quando o jovem par

lhe disse, durante a caminhada, que havia decidido pagar-lhe dois

mil guinéus por um ano como jardineiro-chefe, levando em conta

a sua lealdade de amigo. O limpador de botas desejara que a

terra se houvesse aberto para enterrá-lo, tão mesquinho se sentiu

quando os olhinhos brilhantes de ambos se fixaram nele,

confiantes. Tratou de mudar o rumo da conversa, como pôde, e

guiou-os pelo Caminho do Amor até um prado à beira do rio, onde

Harry Júnior quase se afogou tentando apanhar um nenúfar para

a senhora Norah; nada temia aquele menino. Depois de algum

tempo, estavam caindo de cansaço. Tudo era tão novo e estranho

para eles, que se cansavam ao extremo. Deixando-se cair num

recanto forrado de margaridas, adormeceram como crianças

perdidas no floresta, no caso, no prado.

O limpador de botas não sabia - talvez eu o soubesse, mas isso

não faz diferença - por que um homem se enternece como um

tolo ao ver duas lindas crianças dormindo em pleno dia, sonhando

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menos adormecidas do que quando acordadas. Mas a verdade é

que quando a gente pensa em si próprio, na vida que se levou

desde o berço e no pouco que se vale, que se a gente não está

pensando no passado está se preocupando com o futuro, e jamais

se vive o hoje; e assim por diante.

O parzinho acordou finalmente e o limpador de botas ficou certo

de uma coisa: o ânimo da Senhora Harry Wlamers Júnior vacilava.

Quando Harry Júnior lhe passou o braço pela cintura, ela pediu

"que não a aborrecesse tanto". Quando ele lhe perguntou: "Norah,

a luz da minha vida, teu Harry te aborrece?", ela respondeu:

- Sim. Quero ir para casa!

Um frango assado e um pudim de pão e manteiga ao forno

reanimaram a Senhora Walmers um pouco; mas o limpador de

botas teria desejado, confessava-me em tom de segredo, vê-la

mais sensível ao chamado do amor e menos ao da groselha. No

entanto, Harry Júnior mantinha-se firme, o coração tão

apaixonado quanto antes. Ao entardecer, a Senhora Walmers

sentiu-se muito sonolenta e pôs-se a chorar. Logo depois foi se

deitar, como na véspera, e Harry Júnior fez o mesmo.

Às onze horas da noite, voltou o hospedeiro num coche,

acompanhado do Sr. Walmers e de uma senhora idosa. O Senhor

Walmers parecia ao mesmo tempo muito alegre e preocupado e

perguntou à hospedeira:

- Somos muito gratos, senhora, por haver cuidado tão

bondosamente dos nossos pequenos; nossa gratidão não tem

limites. Por favor, senhora, onde se encontra o meu filho?

A hospedeira respondeu:

- Cobbs tem tomado conta de seu adorável menino, senhor.

Cobbs, leve-o ao quarenta.

O Senhor Walmers voltou-se para Cobbs e disse:

- Ah, Cobbs, estou muito satisfeito em te ver! Já sabia que

estavas aqui!

Cobbs confirmou:

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- Sim, senhor. Seu criado muito obediente.

Talvez eu tivesse me surpreendido ao ouví-lo dizer isso, mas

Cobbs me assegurou que ao subir as escadas o seu coração batia

como um martelo.

- Perdoa-me, senhor, - disse ele enquanto soltava o ferrolho da

porta - mas espero que não esteja muito zangado com Harry

Júnior. Harry Júnior é um excelente menino, senhor, que vai

honrá-lo e de quem ficará orgulhoso.

O limpador de botas me deu a entender que se o pai do excelente

menino não tivesse concordado com ele, no estado de ânimo que

se encontrava, seria capaz de agredi-lo, deixando para depois as

suas conseqüências.

Mas o Senhor Walmers limitou-se a dizer:

- Não Cobbs. Não, meu amigo, Muito obrigado!

Aberta a porta, entrou. Cobbs acompanhou-o, levando um

candelabro,

e

viu-o

chegar-se

ao

leito,

inclinar-se

e

carinhosamente beijar a face do menino adormecido. Depois, ficou

um instante a contemplá-lo, sendo impressionante a sua

semelhança com Harry Júnior (conta-se que também havia fugido

com a sua esposa). Depois sacudiu suavemente o ombro do

menino:

- Harry, meu querido! Harry!

Harry Júnior ergueu-se sobressaltado e olhou-o. Olhou para

Cobbs. Tal era o sentimento de honra daquela criança, que olhou

logo para Cobbs, a ver se não lhe causara dificuldades.

- Não estou zangado, meu querido. Quero apenas que te vistas e

que volte para casa.

- Sim, papai.

Harry Júnior vestiu-se rapidamente. Quando terminou, seu peito

começou a dilatar-se, e mais se dilatou quando se postou diante

do pai, que o olhava também, silencioso.

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- Por favor, eu poderia... (a fibra daquela criança dominando as

lágrimas, prestes a explodir!) por favor papai querido... posso...

posso beijar Norah antes de ir?

- Pode, sim, meu filho.

Tomou Harry Júnior pela mão, e Cobb foi adiante, com a luz;

chegaram ao outro quarto, onde a senhora idosa estava sentada à

cabeceira da cama e a pequenina Senhora Harry Walmers Júnior

dormia profundamente. Lá chegados, o pai ergueu o menino até o

travesseiro e este encostou o rostinho, por um só instante, no

tépido rostinho da adormecida, atraindo-a gentilmente para si. O

espetáculo comoveu tanto as camareiras que espiavam pela fresta

da porta que uma delas exclamou:

- É uma vergonha separá-los!

Mas a camareira sempre fora, informou-me o limpador de botas,

de coração mole. Ao dizer isso não queria dizer nada de mal

contra ela, pelo contrário.

E isso foi tudo, concluiu o limpador de botas. O Senhor Walmers

partiu no coche, tendo entre as suas mãos as mãos de Harry

Júnior. A senhora idosa e sua filha, que jamais chegou a ser a

Senhora Harry Walmers Júnior (casou-se com um capitão muitos

anos depois e morreu na Índia), partiram no dia seguinte. No final

das contas, Cobbs apresentava-me seus dois pontos de vista, para

ver se eu concordava com eles: primeiro, não existem muitos

casais de noivos que cheguem ao casamento inocentes de toda a

maldade como aquelas duas crianças; segundo, talvez fosse uma

verdadeira bênção para muitos casais de noivos serem detidos

antes de se casar e cada um voltar para a sua casa.

*****************

15

index-14_1.jpg

SOBRE O AUTOR E SUA OBRA

Charles Dickens

Charles John Huffan Dickens nasceu em

Portmouth, Hampshire em 7 de

setembro de 1812 e aos 12 anos

empregou-se numa fábrica para ajudar

a família.

Após estudos mínimos, trabalha como

ajudante num escritório de advogados.

Logo de seguida é cronista parlamentar

e redator de jornais humorísticos, até

que, com The Pickwick Papers, aos

vinte e seis anos, se torna de repente

num autor de sucesso. Os seus

romances posteriores, publicados em

forma de folhetim mensal, conhecem grande êxito.

Autodidata na sua adolescência, redime-se de tantas misérias e

dedica a sua vida, com êxito, à literatura e jornalismo. Publica

quase a totalidade da sua amplíssima obra em fascículos,

procedimento usual na época.

Nos seus romances Dickens denuncia freqüentemente o poder

político e os ricos vaidosos e especuladores. Nele o pensamento

idealista e o romance sentimental unem-se para comover a

sensibilidade do leitor e despertar a sua consciência moral. O

realismo de Dickens não é sombrio e negativo, mas amável e

sorridente, cheio de humor. Os seus melhores relatos têm por

heróis crianças e tipos extravagantes.

A sua obra mais apreciada é The Pickwick Papers, romance

imediata e popularmente admirado. Esta obra-prima do humor e

da ternura apresenta o Sr. Pickwick, sábio distraído que viaja por

Inglaterra. Entre o choro, a espera e o riso, a história do sr.

Pickwick têm o último como ingrediente principal. Dickens

abusava do humor para com isso facilitar a aceitação de seus

textos pelo público. Nesse livro, o escritor se revelou um dos

16

melhores humoristas da literatura mundial, criando, com rara

habilidade, personagens engraçadíssimas.

Dickens é um mestre das narrativas protagonizadas por crianças

( David Copperfield, Tempos Difíceis, Oliver Twist). Nelas reflete a

sua própria infância infeliz, com o que a narrativa alcança o vigor

e o colorido do autobiográfico. Fustiga com insistência uma

sociedade insensível ao abandono das crianças e aos sofrimentos

dos indigentes.

" David Copperfield", um de seus mais conhecidos romances, foi

publicado em 1849. O historiador e psicanalista inglês Peter Gay,

acredita que, neste livro, a vitalidade, a observação e as notáveis

instituições de Dickens deixaram sua marca em toda a parte e

merecem ser levadas a sério. Gay o considera como a obra-prima

do autor, na qual se narra uma infância de privações e

sofrimentos amorosos do personagem que dá nome ao livro,

tendo como pano de fundo os contrastes da sociedade industrial

da época.

Escreve ainda " História de Duas Cidades" (1859), " Grandes

Esperanças" (1861) e " Nosso Amigo Comum" (1864). Nos últimos

anos de sua vida iniciou o livro " O Mistério de Erwin Drood", cujo

desfecho permaneceria desconhecido: Dickens morreu em 9 de

julho de 1870, antes de concluí-lo.

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