O modelo de Historiografia da ciência Kuhniano: da obra A estrutura das revoluções científicas aos.. por Debora de Sá Ribeiro Aymoré - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Débora de Sá Ribeiro Aymoré

O modelo de historiografia da ciência kuhniano: da obra A

estrutura das revoluções científicas aos ensaios tardios

São Paulo

2010

Débora de Sá Ribeiro Aymoré

O modelo de historiografia da ciência kuhniana: da obra A

estrutura das revoluções científicas aos ensaios tardios

Dissertação apresentada ao programa de

Pós-Graduação

em

Filosofia

do

Departamento de Filosofia da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Mestre em Filosofia

sob a orientação do Prof. Dr. Maurício de

Carvalho Ramos.

São Paulo

2010

Agradecimentos

A todos os que direta e indiretamente contribuiram para o desenvolvimento

deste trabalho. Não poderia descrever em detalhe de quais fontes vieram as ideias

aqui contidas, mas estou certa que aqueles que lerem estas páginas poderão

perceber sua influência. Porém, nas limitações e eventuais erros cometidos, assumo

total responsabilidade.

Aos meus pais Alonso e Maria João, pela presença constante na minha vida e

apoio, apesar de hoje vivermos em Estados diferentes.

Aos meus irmãos Alonso e Denise, e demais parentes, por todo o carinho e

toda a compreesão por meus esquecimentos e ausências.

Ao amigo André Coelho por todas as intermináveis conversas que temos

desde antes da faculdade de Direito, que me proporcionaram o contato com a

filosofia.

À amiga Daniela Gabbay por todo o apoio que me deu desde a minha

chegada a São Paulo e por ouvir com interesse minhas reflexões filosóficas.

Aos demais amigos que, com sua presença constante, fazem com que eu

encontre forças para continuar, mesmo quando diante das dificuldades.

Ao Prof. Dr. Caetano Ernesto Plastido pela oportunidade que me ofereceu

aceitando o meu ingresso na Pós-graduação em filosofia da USP.

Ao Prof. Dr. Maurício de Carvalho Ramos por ter aceito orientar o

desenvolvimento deste trabalho.

Ao Prof. Dr. Pablo Rubén Mariconda por todas as oportunidades que cria para

os estudantes do Departamento de filosofia da USP.

E, finalmente,

Ao CNPq pelo financimento que me proporcionou nos anos de mestrado.

RESUMO

AYMORÉ, D. O modelo de historiografia da ciência kuhniano: da obra A estrutura

das revoluções científicas aos ensaios tardios. 2010. 196f. Dissertação (Mestrado) -

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

O objetivo central de nosso trabalho é analisar criticamente os aspectos centrais do

modelo de historiografia da ciência proposto por Thomas Kuhn (1922-1996). Para

alcançar este objetivo, começaremos o nosso exame com A estrutura das

revoluções científicas (1962), que contém a primeira formulação mais completa

sobre a estrutura de desenvolvimento da ciência, juntamente com o Posfácio de

1969. Em seguida, investigaremos alguns dos ensaios publicados nas coletâneas A

tensão essencial (1977) e O caminho desde a estrutura (2000). Ao final da análise

veremos que a historiografia de Kuhn tem como base o postulado da história real da

ciência e os pressupostos da relação entre a história e a filosofia da ciência, da

centralidade do paradigma, da pluralidade de leituras de texto e da relação entre

história interna e externa da ciência.

Palavras-chave: Thomas Kuhn, historiografia da ciência, paradigma, léxico.

ABSTRACT

AYMORÉ, D. Kuhnian historiography of science: from The strucuture of scientific

revolutions until later essays. 2010. 196f. Thesis (Master Degree) – Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São

Paulo, São Paulo, 2010.

The central aim of our work is to critically examine the central aspects of the historiography

of science proposed by Thomas Kuhn (1922-1996). To achieve this goal, we will begin our

examination with The structure of scientific revolutions (1962), which contains the first

more complete formulation about the structure of scientific development, along with the

Postscript of 1969. Then we will also investigate some essays in the collections The

essential tension (1977) and The road since Structure (2000). After the analysis we realize

that Kuhn's historiography is based on the postulate of the real history of science and the

assumptions of the relationship between history and philosophy of science, the centrality

of the paradigm, the plurality of readings of text and the relationship between internal and

external history of science.

Key Words: Thomas Kuhn, historiography of science, paradigm, lexicon.

7

SUMÁRIO

Introdução .......................................................................................................................... 8

Capítulo 1: Caracterização geral da historiografia e da epistemologia kuhniana ..... 14

1.1 As relações entre física, história da ciência e filosofia da ciência em Kuhn ........ 14

1.2 A revolução historiográfica e a nova filosofia da ciência ..................................... 26

1.3 A imagem kuhniana do desenvolvimento da ciência ........................................... 34

1.3.1 A ciência normal, o período paradigmático e o período pré-paradigmático . 35

1.3.2 A pesquisa científica normal ........................................................................ 45

1.3.2.1 A ciência normal e a solução de problemas ........................................... 45

1.3.2.2 Primeira aproximação do conceito de paradigma ................................... 53

Capítulo 2: Pressupostos da historiografia kuhniana .................................................. 66

2.1 A meta-história e sua aplicação na análise dos fatos .......................................... 67

2.2 O progresso paradigmático e o progresso revolucionário ................................... 80

2.3 Conceitos-chave da historiografia kuhniana ........................................................ 91

2.3.1 Paradigma e léxico ....................................................................................... 92

2.3.2 Revolução científica e especiação ............................................................. 102

2.3.3 Incomensurabilidade na Estrutura .............................................................. 121

Capítulo 3: O problema da incomensurabilidade ....................................................... 137

3.1 Incomensurabilidade local e léxico .................................................................... 139

3.2 Incomensurabilidade aplicada às historiografias ............................................... 152

3.2.1 Analogia entre a atividade científica e a atividade da história da ciência ... 153

3.2.2 História interna e externa e a centralidade do paradigma .......................... 161

3.3 Os três sentidos de incomensurabilidade e o modelo historiográfico kuhniano 172

Conclusões .................................................................................................................... 190

Bibliografia ..................................................................................................................... 195

8

Introdução

O objetivo central de nosso trabalho é analisar criticamente os aspectos centrais do

modelo de historiografia da ciência proposto por Thomas Kuhn (1922-1996). Para

alcançar este objetivo, começaremos o nosso exame com A estrutura das revoluções

científicas (1962), que contém a primeira formulação mais completa sobre a estrutura de

desenvolvimento da ciência, juntamente com o Posfácio de 1969. Em seguida,

investigaremos alguns dos ensaios publicados nas coletâneas A tensão essencial (1977)

e O caminho desde a estrutura (2000).

O objetivo central apresentado no início desta introdução subdividido nos objetivos

que seguem: (1) analisar as relações propostas por Kuhn entre história e filosofia da

ciência, em especial nas consequências desta relação para a historiografia da ciência,

com suas implicações metodológicas e na formação do historiador da ciência; (2) analisar

as diferenças principais entre a historiografia tradicional da ciência e a nova historiografia

da ciência proposta por Kuhn; (3) analisar os aspectos da filosofia da ciência de Kuhn que

poderá caracterizar o pano de fundo teórico do historiador da ciência kuhniano,

fornecendo a estrutura do desenvolvimento da ciência ou sua meta-história; (4) analisar

as principais revisões meta-históricas na passagem da Estrutura para os ensaios tardios,

especialmente quanto ao paradigma e ao léxico, a revolução científica e a especiação e

quanto ao problema da incomensurabilidade; (5) analisar as consequências do problema

da incomensurabilidade para a historiografia da ciência, especialmente quanto à relação

do historiador com textos científicos obsoletos e quanto à definição e o aprendizado do

léxico. Além disso, pretendemos propor uma interpretação ampla do conceito de

incomensurabilidade para a historiografia, não se restringindo ao uso feito por Kuhn nos

ensaios tardios quanto trata da incomensurabilidade local; (6) analisar o posicionamento

de Kuhn quanto à discussão entre história interna e externa, quanto às acusações de

relativismo e quanto à história da racionalidade científica, neste ponto fazendo uso das

discussões deste autor com Imre Lakatos; Finalmente, (7) analisar os pressupostos e os

métodos de compõe o modelo historiográfico kuhniano, esclarecendo, quando for o caso,

os limites de sua abordagem da história da ciência.

A análise da historiografia de Kuhn perpassa, desta maneira, diferentes momentos

do desenvolvimento das suas ideias sobre a filosofia e a história da ciência, o que nos

leva, em algumas situações particulares, à comparar e sistematizar conceitos utilizados

9

na Estrutura e nos ensaios tardios. Este é o caso dos conceitos de “paradigma” e de

“léxico”, dos conceitos de “revolução científica” e de “mudança de léxico” e dos seus de

incomensurabilidade. Este último representando desafio especial, pois na Estrutura Kuhn

trata da incomensurabilidade metodológica, de visão de mundo e semântica, enquanto

nos ensaios tardios trata apenas da incomensurabilidade local. Em todo o caso, nossa

perspectiva é a de encontrar os elementos comuns nos diferentes conceitos aplicados por

Kuhn nestes dois momentos de desenvolvimento de suas ideias sobre a ciência,

favorecendo a perspectiva de que há um sistema filosófico e histórico nas obras de Kuhn

e que eles estão relacionados entre si. Apresentaremos a seguir os capítulos da

dissertação, bem como as ideias que desenvolvemos em cada um deles.

No Capítulo 1 apresentamos uma caracterização geral da historiografia e da

epistemologia de Kuhn. O ponto inicial de nossa dissertação é a descrição do modo pelo

qual Kuhn, um físico de formação, teria passado a se interessar pela história e pela

filosofia da ciência. Isto não seria algo especialmente interessante, não fosse o fato de

que o próprio Kuhn apresentasse a gênese de suas ideias a partir de uma série de

atividades como pesquisador e professor, aproximadamente após 1948. Assim, adotamos

inicialmente o mesmo tom de biografia intelectual para aproximarmos a ciência da filosofia

e da história da ciência.

Como veremos ainda no primeiro capítulo da dissertação, Kuhn apresenta sua

filosofia e sua historiografia da ciência em oposição, por um lado, à filosofia tradicional da

ciência, referindo-se mais diretamente aos empiristas lógicos e aos racionalistas críticos,

e, por outro lado, à história tradicional da ciência. Nestes dois casos, Kuhn apenas

ofereceu uma caracterização geral de suas posições, mas é possível perceber maior

precisão nos ensaios em que debateu suas teses epistemológicas e historiográficas

diretamente com Karl Popper e Imre Lakatos.

A seguir, no mesmo capítulo, apresentamos a estrutura segundo a qual Kuhn

concebe o desenvolvimento da ciência, que, por sua vez, passa do período de pré-

paradigmático ao paradigmático, sendo somente neste segundo momento que podemos

falar propriamente de ciência, devido à adesão da comunidade científica ao paradigma. A

partir desta caracterização bem estabelecida, afirmamos a evidência da centralidade que

Kuhn atribui ao paradigma, o que deve ser levado em conta pelo o historiador da ciência

que adote a historiografia kuhniana como modelo de representação da ciência. Sendo

assim, no final do capítulo propomos uma primeira aproximação ao conceito de

10

paradigma, que como será visto, ao invés de acompanhar a progressiva restrição da

aplicação do termo, haja vista que no Posfácio de 1969 à Estrutura Kuhn propõe que o

conceito de paradigma seria equivalente ao de “exemplar”, apostamos na estratégia de

ampliação do conceito, considerando que paradigma é composto de valores, de

paradigmas metafísicos, de generalizações simbólicas e, inclusive, mas não

exclusivamente, dos exemplares.

Ao final do Capítulo 1 teremos à disposição o conceito de paradigma que, só

consideramos como primeira aproximação, por termos em vista a análise comparativa

entre paradigma e léxico que será desenvolvida no Capítulo 2. Assim, o Capítulo 2 se

apresenta como transição, tanto da epistemologia de Kuhn, para as preocupações mais

historiográficas, quanto uma transição entre as ideias apresentadas por este autor na

Estrutura e nos ensaios tardios. A partir deste capítulo esperamos já estar clara a

dificuldade em tentar desvincular as teses epistemológicas das teses historiográficas de

Kuhn. A primeira forma que encontramos de apresentar a relação entre a filosofia e a

história da ciência é mostrar que a historiografia da ciência de Kuhn é não-factual, no

sentido de que o historiador da ciência não lida com a mera escolha e organização dos

dados, pois estes são, na verdade, compreendidos como fontes para a narrativa histórica,

fontes estas passíveis de interpretação.

Outra questão apresentada no Capítulo 2 é a noção de progresso científico

kuhniano, pois veremos que os paradigmas científicos estão, na verdade, sujeitos a

variações ao longo do desenvolvimento da ciência. Estas variações, segundo Mendonça

& Videira (2007), levam a duas concepções de progresso distintas na obra kuhniana: o

primeiro, relacionado à ciência normal, apresenta-se como um aprofundamento do

paradigma científico (progresso paradigmático), enquanto o segundo, como mudança do

paradigma e que leva às diversas especialidades na ciência (progresso revolucionário).

No item final do capítulo analisaremos os pares de conceitos aplicados por Kuhn na

Estrutura e nos ensaios tardios e iniciamos nossa análise sobre a incomensurabilidade,

que só se concluirá no Capítulo 3.

Esperamos que ao final do Capítulo 2, esteja clara nossa interpretação de que a

ênfase de Kuhn em problemas relativos à linguagem e mais especificamente à

incomensurabilidade própria dos ensaios tardios é, na verdade, uma questão de enfoque

neste aspecto e não um abandono das teses desenvolvidas nas suas obras anteriores.

Desta maneira, o conceito de paradigma que estabelecemos no Capítulo 1, com base na

11

Estrutura, permanecerá até o final da dissertação, pois consideraremos que o léxico

apenas apresenta o que é o paradigma em termos exclusivamente linguísticos, ou seja,

como a comunidade científica, em primeiro lugar, delimita o seu objeto de estudo através

da definição de termos e da relação que diferentes termos estabelecem entre si na

linguagem científica. Consequentemente, consideramos também que a ideia de revolução

científica não é abandonada em favor da de mudança de léxico ou da especiação. Tal

como no caso da relação entre paradigma e léxico, a relação entre revolução científica e

mudança de léxico seria, a nosso ver, apenas uma questão de foco, pois, na verdade,

tanto o léxico, como a mudança de léxico, continuam inseridos no desenvolvimento da

ciência.

O Capítulo 3 tem como tema a incomensurabilidade e suas consequências para a

historiografia da ciência kuhniana. Como dissemos, a questão da incomensurabilidade é

tratada inicialmente pelo Capítulo 2 e finalizada no Capítulo 3. A complexidade desta

análise levou a que distinguíssemos a linguagem científica, nas três dimensões da

linguagem: a pragmática, a semântica e a sintática. Neste particular, apresentamos a

teoria de Luiz Henrique Dutra sobre a pragmática linguística como solução de conciliação

das ideias de Kuhn quando ao uso e ao significado dos termos. Isto por que, quando trata

do aprendizado da linguagem científica pelos cientistas mais novos, Kuhn afirma que a

apresentação da linguagem científica não se dá através dos conceitos e sim pela

aplicação dos mesmos no próprio contexto da pesquisa científica.

Desta maneira, pareceu-nos, que para Kuhn, assim como para Dutra, a pragmática

linguística possui certa precedência, quando tratamos da linguagem científica, mas,

reiteramos, ela não é uma dimensão independente das demais. Podemos perceber isto

pela importância que Kuhn atribui à interpretação e, por outro lado, pela adoção da tese

da holismo semântico nas considerações de Kuhn sobre a linguagem. Sendo assim, é

necessário, em primeiro lugar, compreender que, para Kuhn, a tradução completa de uma

linguagem em outra é impossível, pois haverá sempre resíduos ou perdas na tradução

(incomensurabilidade local). A opção que resta àquele que não conhece a linguagem

científica é aprendê-la, processo este que está diretamente ligado à interpretação dos

contextos de uso dos termos científicos e não da tradução.

No entanto, à primeira vista, procuraremos mostrar que associar o aprendizado da

linguagem científica a interpretação poderia levar à ideia de que a comunidade científica

não compartilha a mesma linguagem e, portanto, não possui o fechamento linguístico que,

12

segundo Kuhn, é capaz de proporcionar a comunicação não problemática entre seus

membros, pois haveria tantos usos da linguagem quando haveriam intérpretes para a

mesma. Mas, não é isso que acontece, pois, no caso do aprendizado da linguagem pelo

neófito, os cientistas mais experientes corrigem aplicações indevidas de referentes aos

termos científicos, corrigindo, assim, o significado. O que, a nosso ver, mostra claramente

a associação entre as dimensões pragmática, sintática e semântica.

O problema da linguagem também se coloca para o historiador da ciência, pois ele

não compartilha a mesma linguagem científica que as comunidades que analisa e, neste

sentido, também é obrigado a aprender uma nova linguagem através da interpretação do

significado dos termos e das relações que estes estabelecem entre si no léxico da

comunidade científica. Aliás, as aproximações que encontramos entre as concepções de

Kuhn sobre a atividade científica e a atividade da historiografia da ciência nos levaram

considerar que Kuhn, conscientemente ou não, estabelece uma analogia entre estas duas

atividades, de tal maneira que podemos afirmar que tanto o cientista como o historiador

não lidam em suas respectivas atividade com fatos puros, que ambos postulam objeto

independente da teoria (no caso da ciência o mundo em si e no caso da história a história

real) e que realizam a interpretação da linguagem.

Finalmente abordamos a relação que Kuhn estabelece em sua historiografia da

ciência entre história interna e história externa, que desloca nossa discussão da

linguagem e do significado de termos, teoria e léxico, para uma perspectiva mais ampla

da história da ciência, que, apesar de não estar suficientemente desenvolvida pelo próprio

Kuhn, pode ser apresentado como um dos pressupostos de sua historiografia.

Definiremos, assim, ao longo da dissertação que a historiografia da ciência de Kuhn não

foi capaz de apresentar uma metodologia para abordagem da ciência em todos os

detalhes para a aplicação na narrativa histórica. No entanto, a historiografia de Kuhn

define um postulado e quatro pressupostos que podem ser detalhados em uma

metodologia, o próprio autor, no entanto, não a apresenta, exceto, talvez por sua

abordagem da pluralidade de leituras de texto. Assim, ao final de nossa análise,

apresentaremos a ideia que a historiografia da ciência kuhniana adota o postulado do

mundo em si (perspectiva epistemológica) e da história real (perspectiva historiográfica).

Além disso, os quatro pressupostos são o da relação entre a história e a filosofia da

ciência, o da centralidade do paradigma, o da pluralidade de leituras de texto e o da

relação entre a história interna e externa da ciência. O último item retoma os três sentidos

13

de incomensurabilidade, tal como Kuhn apresenta na Estrutura e tratamos de suas

consequências para a historiografia da ciência.

Antes de finalizarmos nossa introdução, gostaríamos de explicar o uso que faremos

na dissertação dos quadros e das figuras que nela apresentamos. Dado o volume de

conceitos e de relações que precisaríamos estabelecer entre eles, utilizamos dois

recursos gráficos. O primeiro, os quadros apresentam resumos sobre conjuntos de ideias

analisadas anteriormente, desta maneira, possuem pouca contribuição interpretativa

sobre as ideias apresentadas. Já o segundo recurso que são as figuras são, por uma

lado, também a organização de certo conjunto de ideias, mas, por outro, apresentam

contribuição interpretativa relevante, pois normalmente tratam da combinação de vários

conceitos, a nosso entender, interligados. Deste modo, os quadros e as figuras serviram

tanto para a sistematização de ideias, como para referências posteriores.

14

Capítulo 1: Caracterização geral da historiografia e da epistemologia kuhniana

1.1 As relações entre física, história da ciência e filosofia da ciência em Kuhn

Na obra A tensão essencial, originalmente publicada em 1977, Kuhn aborda as

relações entre física, história da ciência e filosofia da ciência, mas, para compreendê-las,

é preciso explorar a trajetória intelectual deste autor, que, físico de formação, passou a

dedicar-se à história e à filosofia da ciência. Kuhn afirma no prefácio da A tensão

essencial que a ideia de escrever o livro A estrutura das revoluções científicas (doravante

Estrutura), publicado em 1962, surgiu 15 anos atrás, período em que realizava seu

doutoramento (1945-1949). Kuhn foi chamado nesta mesma época de seu doutorado para

apresentar uma série de conferências sobre as origens da mecânica do século XVII,

sendo este o início da mudança tanto de sua visão sobre a história como também de sua

transição para uma nova área profissional.

Aliás, em entrevista concedida a Aristides Baltas, Kostas Gavroglu e Vassiliki Kindi,

Kuhn afirma que na sua graduação, antes mesmo de cursar pós-graduação em Física em

Harvard, insistia em ser um físico teórico. Mas foi no primeiro ano de sua estada em

Harvard que fez um curso de filosofia (cf. Baltas, Gavroglu & Kundi, 2006b, p. 319),

disciplina que voltaria recorrentemente a fazer parte de seus interesses. Kuhn estudou

nesta e em outra disciplina voltada para a História da filosofia, as ideias de Descartes,

Spinoza, Hume e Kant, mas afirma ter sido este último o que mais lhe interessou, em

especial quanto às pré-condições do conhecimento (cf. Baltas, Gavroglu & Kundi, 2006b,

p. 321). Veremos como na Estrutura Kuhn apresenta o paradigma como o conjunto

compartilhado de pressupostos da pesquisa científica e, posteriormente, nos ensaios

tardios, esta ideia de pré-condição do conhecimento retorna, quando este autor trata do

léxico como categorias variáveis de conhecimento científico.

Durante a pós-graduação em Harvard, Kuhn teve contato com o professor James

Bryant Conant, que lhe deu a oportunidade de ser seu assistente em curso que ministrou

sobre On understanding science, livro baseado em conferências que Conant ministrara

em Yale. Foi Conant quem pediu a Kuhn que preparasse a apresentação sobre a história

da mecânica. E, apesar de Kuhn afirmar que nunca havia tido interesse real pela história,

o contato com a obra de Aristóteles foi extremamente importante para a transição da

15

Física para a história e a filosofia da ciência (cf. Baltas, Gavroglu & Kundi, 2006b, p. 333-

4). Outra oportunidade importante proporcionada pelo apoio de Conant foi a aceitação de

Kuhn no quadro da Society of Fellows por três anos, o qual seria um cargo semelhante ao

de professor colaborador e no qual Kuhn começou a trabalhar efetivamente em 1948, por

ter usado o primeiro ano para concluir sua tese de doutorado. Neste período, Kuhn pode

se dedicar a história da ciência, mas, como ele mesmo afirma, tendo em vista a

abordagem filosófica que pretendia aplicar a ela (cf. Baltas, Gavroglu & Kundi, 2006b, p.

337).

Deste modo, nos estudos realizados para a composição destas conferências sobre

mecânica, Kuhn procurou observar o que autores anteriores a Galileu e Newton disseram

sobre o assunto, levando-o a analisar o conceito de movimento na física de Aristóteles e

em obras de autores posteriores não especificadas por Kuhn, mas que, segundo este

autor, seriam herdeiras da tradição aristotélica. Mas, assim como os historiadores da

ciência de sua época, Kuhn abordou os textos antigos tendo como referência a física e a

mecânica de Newton. Como consequência da perspectiva de que partia, Kuhn concluiu

preliminarmente que os aristotélicos sabiam pouco de mecânica e muito do que diziam

estava errado. Por esta razão afirma que “tal tradição nunca teria podido fornecer um

fundamento para o trabalho de Galileu e dos seus contemporâneos. Estes

necessariamente a rejeitaram e começaram o estudo da mecânica desde o início” (Kuhn,

1989, p. 13).

Até o momento, Kuhn aceitava a ideia generalizada de que os predecessores de

Galileu e de Newton não ofereceram o fundamento para a mecânica do século XVII, o que

estava em conformidade com a orientação de grande parte dos historiadores da época,

mas, ao mesmo tempo, tal generalização não lhe parecia completamente correta. Passou,

então, a se questionar como era possível que Aristóteles, um filósofo competente em

áreas como a biologia e a política, poderia ter falhado em tão grande medida quando

tratou da física e, mais especificamente, em sua abordagem do movimento dos corpos (cf.

Kuhn, 1989, p. 13). Kuhn afirma ainda na entrevista que concedeu à Baltas, Gavroglu &

Kundi que, na verdade, analisar a obra do cientista não é suficiente, pois seria necessário

ir além e mostrar como a partir de outro referencial conceitual se chegou àquela obra (cf.

Baltas, Gavroglu & Kundi, 2006b, p. 334).

Frente a sua perplexidade diante da generalização aceita pelos historiadores da

ciência de sua época e somando isto ao fato de Aristóteles ter sido tomado a sério por

16

tantos pensadores e durante tão longo período de tempo, Kuhn adotou um novo modo de

ler a teoria do movimento aristotélica tendo, posteriormente, generalizado esta

experiência até chegar a novo modo de ler os textos antigos em geral. Era o nascimento

de sua reflexão filosófica e historiográfica da ciência. Assim, Kuhn afirma ter aprendido

duas lições a partir da leitura de Aristóteles, e que ele aplicou em seus estudos de Boyle,

Newton, Lavoisier, Dalton, Boltzmann e Planck: a primeira lição é de que há muitas

maneiras de se ler um texto e aquela baseada no conhecimento atual é muitas vezes

inapropriada para a leitura de textos do passado; a segunda lição afirma que, apesar

desta plasticidade de leituras de textos, nem todas as leituras são igualmente aceitáveis,

pois algumas possuem maior grau de plausibilidade e de coerência que outras. Kuhn

menciona inclusive a possibilidade de haver apenas uma leitura plausível e coerente, mas

não desenvolve esta temática (cf. Kuhn, 1989, p. 15). Na sequência de seu texto, Kuhn

informa que, ao transmitir estas lições aos seus alunos, apresentou as duas lições

anteriormente mencionadas segundo a seguinte máxima:

Na leitura das obras de um pensador importante, procurar em primeiro lugar os absurdos

aparentes no texto e perguntar a si próprio como é possível que uma pessoa sensata os

poderia ter escrito. Quando tiver encontrado uma resposta, quando tais passagens

ganham sentido, então talvez se descubra que passagens mais importantes, aquelas que

previamente se julgam compreendidas, mudaram de sentido (Kuhn, 1989, p. 15).

Deste modo, a análise textual de autores do passado começa com uma primeira

leitura do texto, que pode levar o intérprete a perceber absurdos teóricos, pois este

intérprete provavelmente lerá a obra tendo como pano de fundo a educação que recebeu,

bem como o conhecimento estabelecido em sua época sobre o assunto ou o autor em

questão. Daí a necessidade de uma segunda leitura, que leve em conta certo grau de

desprendimento do intérprete em relação ao seu pano de fundo, para que ele seja capaz

de analisar a obra ou o autor em seu próprio contexto teórico, mudando, portanto, de uma

perspectiva temporal e teoricamente externa ao texto, para uma perspectiva interna e

contextualizada que evite o anacronismo.

Uma vez que o intérprete constate que há uma pluralidade de leituras do texto,

digamos, entre a leitura que identifica absurdos no texto do passado e uma segunda

leitura que torna o texto mais coerente internamente, cabe ao intérprete fazer uma

escolha entre elas, atentando, porém, aos critérios estabelecidos por Kuhn da

plausibilidade e da coerência. Estes critérios, por sua vez, ressaltam a necessidade tanto

17

da coerência interna do texto, como a de percepção do contexto intelectual da época,

evitando ao máximo o anacronismo na interpretação. Segundo Kuhn, uma vez que

tomemos estes cuidados, os aparentes absurdos que percebemos na primeira leitura do

texto terão desaparecido, pois a obra como um todo ganhará um novo significado.

É possível destacar até este ponto da exposição que Kuhn faz de sua trajetória

intelectual três elementos que trazem consequência para sua historiografia da ciência,

pois o historiador da ciência lida, entre outras fontes, com textos científicos. Estes

elementos são o pressuposto da plasticidade de leituras de texto, a busca pelos

aparentes absurdos dos textos e a busca de solução1 destes mesmos absurdos. O

primeiro deriva das lições que Kuhn retira dos estudos que realizou da física aristotélica

para as conferências sobre as origens da mecânica do século XVII que seria, a nosso ver,

um dos pressupostos da historiografia da ciência, pois perpassará toda obra kuhniana. Os

dois últimos derivam da máxima que Kuhn utilizou para ensinar estes pressupostos aos

seus alunos e que se apresentam como regras metodológicas por tratarem mais

especificamente do modo como se aborda um texto como objeto de estudo do historiador.

Existem pelo menos duas partes da obra de Kuhn em que podemos notar a

mudança de sua perspectiva sobre a importância da história. A primeira, quando afirma

que durante os anos dedicados à física, não deu importância à história, pois considerava

o produto final desta disciplina uma narrativa de fatos do passado, a maior parte dos quais

aparentemente indiscutíveis, sendo a tarefa do historiador não mais que o exame de

textos, retirando deles os fatos relevantes que seriam a seguir relatados em estilo literário

e em ordem cronológica aproximada (cf. Kuhn, 1989, p. 12-3). No entanto, tal como vimos

antes, após a experiência do estudo da física aristotélica, Kuhn obteve um novo modo de

ler os textos antigos e a sua própria visão sobre a história se modificou. Assim, aquela

imagem segundo a qual o historiador lida apenas com relato de fatos em ordem

cronológica passa a ser identificada por Kuhn com a historiografia tradicional da ciência.

Em substituição a esta, Kuhn propõe sua nova historiografia da ciência, que, por sua vez,

destaca o elemento da interpretação na análise de fatos, de documentos ou de textos,

sendo que o primeiro contato do historiador com os textos é influenciado pelo pano de

fundo de sua própria formação.

Há também uma segunda parte da obra de Kuhn que indica a crescente

1 Afirmamos que o intérprete resolve os aparentes absurdos que identifica na primeira leitura do texto

científico obsoleto no sentido de que ele modifica o pano de fundo de sua interpretação, tornando-o mais

próximo do autor, do contexto intelectual e da época em que o texto foi escrito.

18

importância que ele atribui à história: “Na história, mais do que em qualquer outra

disciplina que conheço, o produto acabado da investigação disfarça a natureza do

trabalho que a produziu” (Kuhn, 1989, p. 13). Mais uma vez, parece-nos que o autor faz

alusão ao tipo de atividade executada pelo historiador, já que, segundo a historiografia

tradicional, bastaria recolher fatos e apresentá-los em forma cronológica, o que

aparentemente não implica interpretação. Mas, uma vez que interpretar é uma atividade

inerente à historiografia, na história da ciência teríamos a necessidade de levar em conta,

como veremos em detalhe mais adiante, pelo menos três disciplinas: a ciência, enquanto

objeto de estudo, a história, indicando as mudanças ao longo do tempo, e a filosofia,

produzindo um refinamento conceitual, capaz de fornecer uma crítica ao texto em

questão.

Assim, a historiografia da ciência proposta por Kuhn, aplicada ao seu estudo do

movimento em Aristóteles, não implicou uma conversão de Kuhn à física aristotélica, mas

apenas o levou a novo modo de ler o texto aristotélico. O resultado desta experiência foi

que, por mais que ainda reconhecesse algumas dificuldades da física de Aristóteles,

poucas dentre elas poderiam ser realmente caracterizadas como erros (cf. Kuhn, 1989, p.

14). Ao tratar da citação que Descartes faz do conceito de movimento de Aristóteles no Le

monde, Kuhn transita da questão da plasticidade de leituras de textos do passado para a

questão de como ocorre a mudança de visão sobre a natureza, sendo esta sua percepção

inicial das revoluções científicas, pois:

O que minha leitura de Aristóteles parecia daí por diante tornar claro era uma espécie de

mudança geral no modo como os homens viam a natureza e lhe aplicavam a linguagem,

mudança que não podia propriamente descrever-se como constituída por adições de

conhecimentos ou por meras correções fragmentárias de erros (Kuhn, 1989, p. 16).

Desta forma, a plasticidade de leituras de texto é uma questão, como vimos, de

metodologia da história, que parte da perspectiva de que os fatos históricos podem ser

interpretados de maneiras diferentes. Por outro lado, a visão de natureza é um problema

filosófico com consequências mais amplas que a primeira, pois as mudanças nas teorias

científicas implicam um ajuste de todo sistema de explicação, de verificação das teorias e

de definição do objeto de estudo de uma determinada ciência. Veremos estas mudanças

mais gerais de visão de natureza, quando tratarmos com mais detalhe das revoluções

científicas. Basta para este momento apenas salientar que foi em sua aproximação da

história que Kuhn começou a formular sua teoria sobre as revoluções científicas, que será

19

uma das peças-chave de sua interpretação de como se dá o desenvolvimento da ciência,

já que ele apresenta críticas à ideia de que a ciência se desenvolve exclusivamente por

acúmulo de conhecimento.

Aprofundemos agora esta questão com base no ensaio As relações entre história e

filosofia da ciência, texto originalmente publicado em 1976, e posteriormente na coletânea

A tensão essencial. Assim, em As relações entre a história e a filosofia da ciência Kuhn

propõe distinguir história e filosofia, reconhecendo-as como campos de investigação

independentes, mas que vão interagir quando têm como objeto de estudo a ciência. Kuhn

inicia sua análise dessa relação entre as duas disciplinas propondo inicialmente a

diferença quanto aos objetivos da história e da filosofia da ciência. A seguir, passa para

uma descrição de sua experiência docente, na qual a interação com alunos, alguns com

formação em filosofia e em outros em história. Esta experiência docente permitiu que

Kuhn observasse mais três diferenças, além dos objetivos das duas disciplinas, a saber, a

metodológica, a diferença na composição de textos, fazendo neste ponto também um

relato da sua experiência como autor de textos para a física, a história e a filosofia, e,

finalmente, aborda a diferença quanto ao papel desempenhado pela crítica. Vejamos cada

um destes elementos em particular.

Quanto à primeira diferença relativa aos objetivos das duas disciplinas, Kuhn afirma

que, nos Estados Unidos, história e filosofia eram, na sua época, consideradas disciplinas

distintas e, para ele, elas devem ser assim mantidas. Kuhn propõe, então, que o diálogo

entre elas deve ser interdisciplinar e não intradisciplinar, o que permite o “diálogo entre

campos diferentes, sem subverter a base disciplinar de cada um deles” (Kuhn, 1989, p.

30). Esta base institucional diferente, que segundo Kuhn pode ser observada, por

exemplo, na autonomia de cada departamento na emissão de diplomas, é o ponto de

partida de sua análise, mas as diferenças entre história e filosofia se aprofundam ainda

mais quando Kuhn trata dos objetivos de uma e de outra disciplina.

Enquanto o objetivo da história é a narrativa dos fatos do passado, uma descrição

que torne plausível e compreensível os acontecimentos, a filosofia pretende alcançar

determinadas generalizações de caráter universal, ou seja, buscar o que há de verdadeiro

em todas as épocas e lugares (cf. Kuhn, 1989, p. 31). Esta diferença de objetivos leva

Kuhn a rejeitar a possibilidade de que história e filosofia possam ser praticadas ao mesmo

tempo e admitir a dificuldade de operar cada modo de investigação alternativamente (cf.

Kuhn, 1989, p. 32). Apesar desta dificuldade de lidar ora com a história ora com a

20

filosofia, Kuhn considera que o diálogo interdisciplinar entre tais disciplinas é frutífero

quando unem esforços para a compreensão da ciência como fenômeno histórico.

Quanto à segunda diferença relativa aos diferentes métodos de investigação, Kuhn

transita da explicação sobre os objetivos para uma descrição de sua experiência docente,

na qual conviveu com modos de investigação distintos, aplicados por seus alunos que

eram, como dissemos, alguns historiadores e outros filósofos. De um modo geral,

observou que os que eram historiadores (a) representavam com maior facilidade os

elementos conceituais de cada autor, e procuravam descobrir (b) o que cada um pensava

e as repercussões da teoria apresentadas nos textos estudados pelos historiadores para

autores contemporâneos e sucessores (cf. Kuhn, 1989, p. 33-4). Já os filósofos pareciam

mais interessados em (a) distinções analíticas, (b) reconhecendo mais facilmente as

lacunas teóricas, e (c) em reconstruir os argumentos isolando seus elementos filosóficos

centrais com o objetivo de criticá-los (cf. Kuhn, 1989, p. 33-4). Este elemento de crítica,

aliás, receberá um tratamento a parte por Kuhn, dada sua importância para a

caracterização da investigação filosófica.

O que nos parece interessante destacar é que Kuhn, possivelmente influenciado

pela manutenção da história e da filosofia como disciplinas distintas, afirma que a

formação dos investigadores (neste caso ele trata especificamente de seus alunos de

graduação) deve respeitar esta autonomia disciplinar. Por este motivo, considera errado

treinar o estudante simultaneamente no modo de investigação histórico e filosófico, pois

cada modo de investigação exige uma atitude mental própria. Reforçando a ideia de que

cada disciplina exige certa atitude, Kuhn informa que seus alunos, mesmo lidando com os

mesmos textos, obtinham diferentes resultados em suas investigações, parecendo, à

primeira vista, que utilizavam textos diferentes como base de suas investigações. No

entanto, os textos-base eram sempre os mesmos e o que os levava a diferentes

resultados em suas investigações era justamente o treino que cada grupo havia recebido

em sua formação como historiadores ou como filósofos, fazendo com que cada grupo

fosse levado a interpretar os mesmo signos de maneira diferente (cf. Kuhn, 1989, p. 32).

Quanto à terceira diferença, relativa à composição de textos, Kuhn passa para uma

descrição de sua própria experiência com a atividade de composição de textos, como

historiador e como filósofo. Porém, antes de entrarmos neste tópico, gostaríamos de

chamar à atenção que, tanto nesta caracterização como na próxima, que trata da

influência da atividade crítica, Kuhn recorre a terceiro elemento na comparação entre

21

história e filosofia, que é a perspectiva do cientista, mais especificamente de um físico.

Kuhn afirma que tanto o historiador como o físico realizam uma investigação previa à

escrita dos seus trabalhos. Porém, no caso do texto histórico, a atividade criativa presente

na investigação inicial do autor não cessa durante todo o processo de confecção do texto.

Já composição do texto científico, segundo Kuhn, se reduz à seleção, à condensação e,

por vezes, à tradução dos termos teóricos. O trabalho histórico, por outro lado, em que

pese fundar-se em anotações de pesquisa, em documentos e em livros organizados

cronologicamente, pode exigir revisões do texto pelo historiador até que ele consiga

compor uma narrativa histórica (cf. Kuhn, 1989, p. 35).

No caso do filósofo, observa Kuhn, ele não realiza uma pesquisa prévia à

composição de seu texto tal como o historiador e o físico, pois seu foco está nos

problemas e nas possíveis soluções que a eles se apresentam. Inspirados pela crítica do

texto, o filósofo compõe seu próprio texto quando possui uma perspectiva de solução dos

problemas encontrados na obra que analisou. No entanto, sua atividade de escrita se

reaproxima à do historiador, pois, segundo Kuhn, a composição do texto filosófico

também está sujeita à revisão (cf. Kuhn, 1989, p. 36). Resumidamente, Kuhn afirma que a

diferença entre a composição da narrativa histórica e a do artigo filosófico é que a

primeira exige investigação preparatória e o trabalho surge pouco a pouco, enquanto que

o texto de filosofia não exige o mesmo tipo de investigação prévia, surgindo o texto de

uma vez, quando o filósofo está convicto do modo de resolução de problemas por ele

encontrados na obra que analisou (cf. Kuhn, 1989, p. 36).

Finalmente, a quarta e última diferença proposta por Kuhn entre história e filosofia

é relativa à atividade crítica, considerada por este autor como eminentemente filosófica,

pois os filósofos criticam trabalhos uns dos outros e de seus predecessores, sem que isto

cause qualquer tipo de constrangimento entre seus pares. Já o historiador e o cientista

não fazem da crítica o seu foco central, pois, segundo Kuhn, o primeiro parte das fontes e

dos dados que recolhe para a composição da narrativa histórica e o segundo, por mais

que corrija trabalhos de outros cientistas, não pode fazer da crítica sua tarefa central, sob

pena de ser excluído por outros praticantes da ciência (cf. Kuhn, 1989, p. 37). Kuhn

sugere, portanto, que apenas o filósofo exerce a atividade crítica de modo contumaz e

legitimado pelo seu grupo de acadêmicos. Apresentamos a seguir nosso quadro 1, com o

resumo das quatro diferenças propostas por Kuhn entre a história e a filosofia da ciência.

22

(1) Objetivos

(2) Método de

(3) Composição de (4) Crítica

investigação

textos

Física

Não aborda

Não aborda

- Investigação prévia - Não é central

- Texto: seleção,

condensação e

tradução

História - Narrativa dos fatos - Representação de - Investigação prévia - Não é central, pois

elementos

- Texto: sofre

parte das fontes e

conceituais

revisões até

dos dados

- Repercussões para alcançar a narrativa

contemporâneos e

histórica, surge

sucessores

pouco a pouco

Filosofia - Generalizações

- Distinções

- Não há

- É central

universais

analíticas

investigação prévia

- Identificação de

- Focaliza problemas

lacunas

e soluções

- Reconstrução dos

- Texto: sofre

argumentos

revisões, mas surge

- Crítica

de uma vez

Quadro 1: resumo das características da física, da história e da filosofia da ciência abordadas por

Kuhn no ensaio As relações entre história e filosofia da ciência.

Kuhn caracteriza sua descrição das diferenças entre história e filosofia como

quase-sociológica, que interpretamos no sentido de que descreve uma experiência,

sendo, no caso em questão, uma descrição da atividade científica. Kuhn afirma que sua

historiografia da ciência lida com a história real das ciências e propõe uma resposta para

a questão sobre a contribuição que cada disciplina, história e filosofia, pode dar a outra.

Assim, para o historiador da ciência, a filosofia é um instrumento básico, se levarmos em

conta que, segundo Kuhn, até o século XVII boa parte da ciência fazia parte da filosofia e,

mesmo nos tempos atuais, as disciplinas ainda interagem. Kuhn chega mesmo a afirmar

que “Uma abordagem com êxito a muitos dos problemas centrais da história da ciência é

impossível para aquele que não domina o pensamento das principais escolas filosóficas

dos períodos e áreas que estuda” (Kuhn, 1989, p. 37-8). Além disso, os estudantes de

história dificilmente terminam a graduação com o domínio de toda a história da filosofia,

mas precisam ser capazes de lidar com o material filosófico sempre que sua pesquisa

assim o exigir (cf. Kuhn, 1989, p. 38). Kuhn afirma ainda que os homens que

estabeleceram a tradição contemporânea de história da ciência, entre eles A. O. Lovejoy

e especialmente Alexandre Koyré, eram filósofos antes de se dedicarem à história das

23

ideias científicas. Pode-se aprender muito com eles sobre como reconhecer a estrutura e

a coerência de sistemas de ideias diferentes dos nossos (cf. Kuhn, 1989, p. 38).

Segundo Kuhn, este método de análise que visa a integridade de um modo de

pensar do passado e que é rotulado pela historiografia tradicional como conhecimento

ultrapassado, não é o modo geralmente o adotado pelos filósofos. Em todo o caso, para

que ele seja aplicado com êxito na investigação na área da história da ciência, é de

fundamental importância a sensibilidade filosófica com os conceitos, o que permite, por

sua vez, uma maior compreensão da estrutura e da coerência de sistemas de ideias

diferentes dos atualmente em voga (cf. Kuhn, 1989, p. 38). Neste sentido, Kuhn defende

que a filosofia da ciência é relevante para o historiador, mas, chegando a uma conclusão

aparentemente paradoxal, admite que a própria filosofia da ciência também é influenciada

pela história (cf. Kuhn, 1989, p. 39). Deste modo, nos perguntamos como é possível que

ao mesmo tempo a filosofia influencie o tipo de história realizada e seja influenciada pela

história. A seguir desenvolvermos nossa explicação sobre este duplo sentido do termo

filosofia.

O problema do duplo sentido dado por Kuhn ao termo filosofia no texto que ora

tratamos se coloca da seguinte maneira. Por um lado, a filosofia da ciência anterior à

proposta kuhniana, especialmente a filosofia analítica de tradição norte-americana,

compartilha a imagem de que a ciência se desenvolve linearmente ou segundo o mesmo

método. Deste modo, segundo Kuhn, a filosofia tradicional da ciência sugere que no

desenvolvimento da ciência há acréscimo ao conhecimento científico. Neste sentido, o

recurso ao passado histórico da ciência se justifica apenas naqueles pontos que, para o

historiador, contribuem para a compreensão do estado atual do conhecimento científico.

Exemplo desta imagem tradicional da ciência está nos manuais científicos, já que Kuhn

considera que eles mascararam as revoluções científicas, sendo, portanto, uma imagem

equivocada (porque limitada) do desenvolvimento científico.

Por outro lado, o segundo sentido de filosofia presente no texto As relações entre

história e a filosofia da ciência é o de que esta disciplina é de suma importância para que

o historiador alcance uma compreensão mais completa do desenvolvimento da ciência,

bem como para que ele possa compreender os textos científicos do passado em seu

próprio contexto. Em vista destes dois sentidos de filosofia apresentados por Kuhn,

precisamos esclarecer que, quando este autor sugere a importância da filosofia para a

história, está levando em conta sua própria proposta filosófica e na aplicação desta para a

24

análise da ciência. Daí que, a nosso ver, precisamos identificar no pensamento kuhniano

dois modos de praticar a historiografia: um modo pré-revolução historiográfica, que tem

como conceito-base a ideia de desenvolvimento por acumulação, e um modo de

historiografia pós-revolução, representado, como dissemos, por autores como Lovejoy e

Koyré.

Enquanto a primeira historiografia é caracterizada por Kuhn como defensora da

linearidade e pela substituição de conhecimentos antigos por novos, devido à avaliação

dos cientistas envolvidos de que as novas ideias estão mais corretas que suas

predecessoras, a segunda historiografia questiona esta centralidade do conceito de

desenvolvimento por acumulação. Vemos, então, que existe uma determinada imagem de

ciência que fundamenta e, por este motivo, influencia a análise do historiador, quer ele

esteja ou não consciente do papel desempenhado por sua compreensão geral da ciência,

sendo esta última a tradição da qual Kuhn se considera continuador. Assim, o duplo

sentido do termo filosofia é resolvido explicitando já que, no primeiro caso, o referente é a

filosofia da ciência anterior à proposta kuhniana e, no segundo caso, é a nova filosofia da

ciência proposta por Kuhn.

Na interação interdisciplinar pretendida por Kuhn, a história da ciência é o campo

que se ocupa com a evolução das ideias, métodos e técnicas científicas (cf. Kuhn, 1989,

p. 39-40), enquanto a filosofia da ciência é a área que trata da estrutura das teorias

científicas, do estatuto das entidades teóricas ou das condições de produção do

conhecimento seguro. A história da ciência pode auxiliar o filósofo da ciência a conquistar

cada vez mais familiaridade com a ciência-objeto de seu estudo, embora esta não seja a

única alternativa de familiarização, pois Kuhn considera seriamente a possibilidade de

experiência prática no campo investigado, como seria, por exemplo, nos próprios

laboratórios de pesquisa científica contemporâneos. A história, neste sentido, apresenta-

se como uma alternativa mais prática ao filósofo que investiga certo campo científico (cf.

Kuhn, 1989, p. 40-1), já que não demanda nenhum tipo de autorização dos cientistas

envolvidos, o que provavelmente seria pré-requisito para acompanhar uma pesquisa

realizada em laboratório. Kuhn afirma ainda que há vários argumentos em contrário a esta

sugestão de que a história da ciência possa servir como fonte de familiarização do filósofo

da ciência. Kuhn conclui, sem explicitar a quem se refere, dizendo que alguns consideram

que a atividade da filosofia é a “reconstrução racional e ela necessita apenas preservar os

elementos essenciais para a ciência enquanto conhecimento seguro” (Kuhn, 1989, p. 41).

25

Neste caso, a ciência contida nos livros escolares seria suficiente para a informação do

investigador e poderia, no máximo, ser suplementada pelo estudo de textos clássicos,

como, por exemplo, as Duas novas ciências de Galileu ou os Principia de Newton (cf.

Kuhn, 1989, p. 41).

Veremos, no entanto, que na Estrutura Kuhn discorda da ideia de que os livros

utilizados na educação de novos cientistas são fonte a partir da qual se possa extrair uma

imagem completa do desenvolvimento da ciência, pois eles constantemente a apresentam

de modo linear e cumulativo. Assim, mesmo desempenhando a função precípua de

formar os futuros praticantes da ciência no paradigma científico atual, estas obras

tendem, como vimos, a mascarar as revoluções científicas que são, segundo Kuhn, os

momentos de ruptura com a linearidade e com a cumulatividade. Uma vez que a história e

a filosofia da ciência possuem diferentes objetivos, Kuhn considera que elas podem

trabalhar a partir de uma diversidade de fontes. Sua impressão negativa sobre os livros

utilizados como base da educação científica está na ideia de que a reconstrução feita pelo

filósofo geralmente não é reconhecida como ciência pelos próprios cientistas, exceto,

talvez, os cientistas sociais que, segundo Kuhn, utilizam-se das mesmas fontes que os

filósofos (cf. Kuhn, 1989, p. 41-2).

Vimos que, especialmente a partir do ano de 1947, Kuhn transitou de seus estudos

de física teórica para um interesse crescente pela história da ciência. A oportunidade de

estudo da física aristotélica o fez perceber que, na interpretação de textos científicos do

passado, estava implicada a plasticidade de leituras, o que repercute na formação de uma

nova imagem da ciência e, consequentemente, nos fundamentos que servem de base

para a historiografia da ciência. Por este motivo, afirmamos que o interesse de Kuhn em

recorrer aos fatos (veremos adiante que o melhor termo a ser utilizado, no contexto da

historiografia da ciência, é “fonte” e não “fato”), aos autores e às obras do passado não

era apenas o de reconstruir o desenvolvimento histórico cronologicamente, a fim de tornar

as descobertas de novas teorias e as invenções de novas técnicas coerentes e

compreensíveis. Além disso, observamos o quanto a história da ciência pôde proporcionar

ao próprio Kuhn, físico de formação, uma nova filosofia da ciência e, portanto, uma nova

perspectiva de como se dá o desenvolvimento da ciência. Daí que as duas disciplinas,

história e filosofia da ciência, por autônomos que sejam seus objetivos, relacionam-se em

favor do conhecimento mais completo da ciência.

No próximo item, aprofundaremos esta concepção, abordando o que na introdução

26

da Estrutura Kuhn chamou de revolução historiográfica. A partir da dualidade apresentada

entre historiografia pré-revolucionária ou tradicional e historiografia pós-revolucionária,

poderemos mostrar o surgimento de segunda dualidade entre a imagem tradicional e a

nova imagem da ciência, sendo que esta última a presente na proposta de Kuhn.

1.2 A revolução historiográfica e a nova filosofia da ciência

Na introdução2 da obra Estrutura, que tem como subtítulo Um papel para a história,

Kuhn parece animado pela mesma intenção geral apresentada no ensaio As relações

entre história e filosofia da ciência, ou seja, demonstrar como, a partir de sua experiência

de estudo de textos científicos obsoletos, ele pôde obter uma nova caracterização da

atividade científica. A disciplina história da ciência, segundo Kuhn, tem o papel de

informar o filósofo da ciência sobre a comunidade científica que é objeto de sua pesquisa.

No entanto, como veremos neste item, apenas uma das historiografias, que chamamos

anteriormente de pré-revolução e pós-revolução historiográfica, pode cumprir este papel,

pois cada uma implica em uma compreensão diferente do desenvolvimento da ciência.

Assim, não é apenas a história que exerce influência sobre o tipo de filosofia realizada,

mas também a filosofia, presente na história através dos pressupostos implícitos ou

explícitos do historiador, leva a uma forma determinada de narrar a história da ciência.

Para mostrar esta interação, Kuhn parte da análise da imagem de ciência que pode ser

extraída dos manuais científicos, dos textos de divulgação científica e das obras

filosóficas, apontando, especialmente nos manuais científicos, os problemas de

compreensão da ciência aos quais elas podem conduzir.