O pesadelo por Jorge Manuel Diogo Peres - Versão HTML

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O

PESADELO

de

jorge peres

O PESADELO

I

A noite ia alta e calma. Era uma daquelas noites sem uma réstia de

vento onde nada se ouvia ... nem pessoas ... nem animais ... nada ...

silêncio absoluto.

O quarto era grande mas acolhedor, muito sóbrio, da cómoda ao

guarda fato, à cama ... uma cama de ferro pintada de branco e com a cabeceira trabalhada em forma de coração, trazendo à memória, por certo,

muitas histórias perdidas no tempo dos confins do século XIX.

As paredes estavam nuas, todas, à excepção de uma. Aí, bem a meio,

sobressaia o auto-retrato da Van Gogh, estranho quadro para se encontrar

num quarto ... mas estava ali.

Naquele quarto, e naquela cama, alguém dormia profundamente. E a

sua profunda respiração, era a única coisa que se ouvia, de uma forma tão

perfeita, que aquele som parecia fazer parte daquele quadro.

A escuridão era apenas atenuada pela iluminação exterior que

penetrava através da persiana semi-fechada. O ambiente era o normal de

qualquer noite.

Um ruído veio quebrar todo este encanto. Não que fosse um barulho

muito forte, mas naquela paz, qualquer som feria a noite.

Lentamente, a manzeira da porta rodou com um pequeno estalido. A

porta abriu-se pouco a pouco.

O PESADELO

II

Uma figura humana envolta em bruma difusa, entrou tentando fazer

o mínimo barulho possível. Pé ante pé, foi-se aproximando da cama.

Dois passos e um feixe de luz vindo da persiana destacou-lhe

parcialmente os contornos.

Era um indivíduo alto, magro, com um bigode normal, e um rosto

pontiagudo onde sobressaia uma verruga no queixo. Na mão algo brilhava.

Foram necessários mais dois passos, para se destinguir o objecto que

ele trazia na mão. Uma grande faca de cozinha.

Sempre vagarosamente, dirigiu-se para a cama onde dormia,

calmamente, o primeiro sujeito. Pareceu hesitar por momentos. Depois,

subindo a faca, vibrou um rápido, mas violento golpe, no corpo inerte. E

outro golpe, e outro ainda, e outro ... e outro ... ... ...

Diversas vezes aquela faca penetrou no sujeito adormecido.

Depois o atacante recuou e saiu do quarto, tal como entrou, no máximo dos cuidados ... muito lentamente ...

O quarto mergulhou de novo no silêncio. Só o respirar sonolento do

sujeito, imóvel na cama, não se ouvia já.

António sentou-se na cama. Que sonho ... céus!!! Era a terceira noite,

só naquela semana, que se repetia aquele estranho pesadelo. Sempre igual.

Sempre a mesma cena.

E o pior é que não reconhecia nada, nem o quarto, nem a personagem

assassina. Nem sequer conseguia destinguir as feições do indivíduo que

dormia e que acabava morto, assim, daquela maneira tão bárbara.

Curiosamente a figura do assassino era tão nítida, que por certo o

reconheceria se cruzasse com ele na rua.

Sentou-se nervosamente na cama e acendeu a luz. Procurou o maço de

cigarros.

--- Já te pedi muitas vezes para não fumares na cama. Ainda arranjas

um incêndio.

Bolas! Preocupado como estava com o seu pesadelo nem se lembrara

que Linda, sua mulher, estava mesmo ali.

--- Que se passa António?! Perdeste o sono ?!!!

--- É aquele sonho ... ...

--- Outra vez?! --- sentou-se a seu lado.

Já lhe tinha contado. À primeira vez não ligara muita importância.

Mas já era demais. A continua repetição, noite após noite, era preocupante.

Linda voltara a deitar-se. Era, o que de melhor, ele poderia fazer

também.

O PESADELO

III

Apagou a luz e tentou adormecer de novo. Desta vez não houve

qualquer sonho, mas quando o despertador tocou aquela infernal sineta,

pareceu-lhe que tinha acabado de se deitar.

O dia laboral apanhara-o exausto. Não tinha a mínima paciência para

encarar os problemas do escritório, aquela manhã. A cabeça pesava-lhe

como chumbo. Mas como cumpridor que era das suas obrigações, ali estava.

Aliás, como chefe de pessoal daquela empresa de contabilidade,

competia-lhe dar o exemplo. No entanto essas suas funções permitiam-lhe

usufruir de umas horas calmas, sem o monitor do computador à sua frente.

Bateram à porta do seu gabinete. O som fora suave, mas explodira

dentro da sua cabeça como se fosse um tiro.

--- António ?!?! --- era César, o patrão.

Na verdade a relação de ambos era muito especial. Amigos de há

muitos anos, desde os imemoriais tempos de liceu, haviam sido muito ligados, andando sempre juntos. Quando César resolveu montar aquela empresa, propusera-lhe sociedade. A ideia não o entusiasmou muito, até

porque as finanças, na época, não andavam lá muito famosas. Aí, César,

expusera-lhe a situação de uma maneira clara. Ou seria sócio, ou seu funcionário, como o seu braço direito. De qualquer dos modos não abdicava do seu trabalho, nem da sua experiência naquele ramo.

César conhecia-o bem. Tinham-se formado juntos em Informática.

Ambos com excelentes notas, embora ele sempre um pouco mais fraco.

Mas César tinha maiores posses económicas. Os seus bens

monetários e imobiliários vinham-lhe já de família. Nunca se casara e vivia

sozinho, numa casa que herdara do pai, já falecido. As suas únicas companhias eram a governanta, o jardineiro, uma ou outra companheira de

ocasião, a coisa nunca durava muito, e alguns amigos, em qual grupo ele se

incluía, com quem, de vez em quando, compartilhava a bem recheada garrafeira.

A amizade deles era tão sólida que António o convidara para

padrinho, quando resolvera casar com Linda, o que consistiu motivo de

orgulho para César. Um bom rapaz.

--- OOOhhh!!! Bom dia César.

--- Uuuuaaaauuuu!!! Essa cara faz-me supor a cura de uma valente

ressaca. Acertei???

--- Qual quê !!! Nem uma gota aqui entra há já vinte e quatro horas.

Não consegui foi dormir na esta noite.

--- E pelos vistos a insónia foi forte!

--- Sabes aquele sonho que te contei a semana passada?

O PESADELO

IV

--- O do homem da grande faca? --- abriu os braços e simulou avançar com algo na mão. Não se conteve e deu uma gargalhada.

--- Tu achas muita graça. Olha que eu já não estou a achar piada

nenhuma a esta história. E Linda também não.

--- Bem António. Há quem diga que os sonhos podem revelar algo

que poderá acontecer no futuro. Quem sabe se não será esse o caso?!

--- Olha! Para te ser franco, eu nunca acreditei muito nessas coisas ...

mas mesmo assim, e eventualmente aceitando essa teoria, de pouco me iria

adiantar. Nunca consigo ver a cara de quem está deitado.

César encolheu os ombros. E saiu, fechando a porta atrás de si.

António voltou a tentar concentrar-se no trabalho. Parou quando soou o

timbre o telefone interno.

Era César de novo.

--- António, eu tenho um amigo muito ligado a essas coisas de sonhos, profecias, situações assim ... Acho que é psicólogo, ou

parapsicólogo, nem sei bem. Se quiseres eu ligo-lhe e encontramo-nos à

tarde. Vamos beber um copo aí a qualquer sítio. Talvez ele te possa ajudar.

Que dizes?

--- Não parece má ideia. Eu quero mesmo é por esta cabeça em

ordem, o mais rapidamente possível.

--- Então eu trato disso.

António pousou o auscultador do telefone pensativamente. Procurou

numa da suas gavetas uma aspirina efervescente. Por fim lá encontrou uma

e predispôs-se a ir à casa de banho, tratar daquele horrível dor de cabeça.

O dia foi-se arrastando entre o ruído das impressoras e o suave burburinho de vozes na sala de computadores. Finalmente e muito a custo,

lá chegaram as seis horas. Ao bater exacto da hora, César entrou-lhe no

gabinete.

--- Vamos. O Morais está à espera no carro. Deixa ficar o teu, depois

eu trago-te aqui de novo.

No carro estava, efectivamente, um indivíduo, um pouco mais velho

do que eles, mas parecendo alegre e bem disposto. Feitas as apresentações

foram até um bar nas imediações da cidade.

A conversa depressa foi ao encontro do assunto base ... António

repetiu de novo todo o seu sonho. Morais ouviu-o atentamente. Depois

houve uns segundos de silêncio.

--- Bem! Sabe que os sonhos constituem uma matéria ainda pouco

explorada, e ficamos um pouco ao sabor dos teóricos estudiosos. Se fosse

analisar o seu sonho pela óptica de Freud, teria de encontrar nele, por força,

elementos da sua vida sexual. --- fez uma pausa para beber mais um pouco

do seu whisky gelado --- No entanto, a insistência da repetição contínua,

O PESADELO

V

noite após noite ... tudo isso leva-me a criar uma primeira conclusão. É

possível que não seja um sonho mas sim uma mensagem.

--- Uma mensagem?!!!

--- Sim ... o que me contou leva-me a crer que alguma força está a

tentar entrar em contacto consigo.

--- Alguma força?!!!

César mantinha-se atento, copo de cerveja na mão, não perdendo

pitada da conversa. Aqueles assuntos sempre lhe tinha despertado o interesse, mas simultaneamente, sentia também um respeito muito grande

que o levava a ficar silencioso.

--- Bom! Vou tentar ser concreto. Penso que há uma força espiritual,

logo não material, que se está a esforçar por lhe deixar uma mensagem.

--- Você quer dizer ... um espirito??? !!!

--- Exactamente.

--- Para lhe ser franco, Morais, nunca fui muito de acreditar em espíritos, mas mesmo aceitando o facto de que o sonho constitua um aviso,

a mensagem estaria incompleta. Aviso de quem ... ??? !!! para quem !!! ???

--- Sobre isso não lhe posso adiantar muito mais. A partir daqui

entramos em campos subjectivos de interpretação, e a minha ideia passa a

valer tanto quanto a sua.

António voltara a casa ainda mais confuso do que partira de manhã.

Contou a sua esposa toda a conversa do bar. Ela também achou muito

estranho.

--- Continuo a pensar que estás a empolgar demasiado toda a história

desse sonho. Meter espíritos nessa história só vai complicar-te ainda mais a

cabeça. Tenta esquecer tudo isso. Se te deitares, pensando profundamente

que vais dormir toda a noite, vais ver que és capaz.

--- Não é fácil esquecer tudo isto.

--- Eu sei que não. Mas esta noite vou ajudar-te a esquecer.

Olharam-se cumplicitamente e sorriram. Esquecer e dormir bem era

o que ele realmente mais queria.

Aquela noite começou receosa. Quase que tinha medo de ir para a

cama, e que tudo se repetisse de novo. Mas Linda estava imparável. As

coisas aqueceram, e quando cerca de uma hora depois de se deitar resolveu

apagar a luz, estava tão exausto que o que queria mesmo era dormir.

Valera a pena seguir o conselho de Linda. Na verdade desta vez o

sonho não se repetiu.

Uma semana depois, António dispunha-se realmente, a esquecer tudo

aquilo. No seu escritório encontrava-se completamente embrenhado no

trabalho, meio mergulhado em papeis. Só à segunda vez ouviu tocar o

telefone.

O PESADELO

VI

--- Sim?!

A telefonista informou-o que era o patrão.

--- Ok. Passe a chamada, por favor. Estou. Sim, César, diz ...

César ia fazer anos, e para comemorar predispunha-se a fazer uma

pequena festa, em sua casa. Era mais uma reunião de amigos do que propriamente uma festa. O telefonema era para o convidar, a ele e a Linda,

claro.

--- Ok. César ... nove horas ? ... está bem ... lá estaremos. Adeus. Até

logo.

As festas de César eram sempre de cortar a rotina. Telefonou para

casa, prevenir a esposa e prosseguiu no seu trabalho.

Quando chegou a casa ficou deslumbrado com a figura de sua

mulher. Linda, não só de nome, mas assim se encontrava ... absolutamente

linda.

--- Uuuuaauuuu!!! Assim vale a pena chegar a casa.

--- Gostas?!

--- E é lá possível não gostar? Vais arrasar!

--- Não é a eles que eu quero arrasar, seu bobo. --- Abraçou-se forte a

ele.

--- Tens a certeza de que queres ir?

--- Claro que sim. E a ti vai-te fazer muito bem uma festinha.

Precisas espairecer. Vai-te aprontar, vai .

Realmente a festa adivinhava- se concorrida. Cinco casais, todos

mais ou menos conhecidos, iriam reunir-se naquela casa tão grande, e geralmente tão vazia.

César era o único solteiro, mas não estava só. Uma elegante loira

acompanhava-o. Ele apresentou-a como ... uma velha amiga... e apesar dos

olhares sorridentes dos que iam chegando, eles comportavam-se com muita

naturalidade.

António e esposa chegaram batia pontualmente o relógio as nove

horas da noite.

--- Pontual como sempre. --- e voltando-se para Linda --- Ainda mais

bela do que sempre.

--- És sempre o mesmo incorrigível, César.

--- Eu não sou é minimamente inteligente, porque se o fosse não

seria teu padrinho, mas sim teu marido.

--- Eh! Lá rapaz. Olha que eu estou aqui.

Riram a boas gargalhadas. César era realmente inofensivo.

--- Os meus parabéns, amigo.

--- Obrigado António. Estamos a ficar velhos, pá.

--- Quer dizer ... fala por ti ...

O PESADELO

VII

--- E tu estás muito longe, não?!!!

Divertidos, foram andando para a sala. Os restantes convidados

foram chegando gradualmente. Às dez horas todos estavam já sentados à

grande mesa. As conversas foram-se entremeando e desenvolvendo-se

conforme se ia avançando no menu, servido pela inseparável governanta,

senhora de porte largo e sorriso de orelha a orelha.

Cerca das onze horas, a porta do salão abriu-se e alguém chamou

César. A conversa era privada, pelo que o volume de voz era inaudível para

os restantes.

A princípio António mal prestou atenção. Mas alguma coisa naquele

recém-chegado lhe era familiar. Olhou com mais atenção. Não. Não se

lembrava de jamais ter visto tal pessoa. Voltou a olhar, procurando o motivo para a sua sensação de déjàvue. Era uma pessoa absolutamente

banal, sem qualquer sinal particular, a não ser, talvez, aquela verruga no

queixo ... ... ...

António olhou ainda mais atento ... alto, magro, rosto pontiagudo,

verruga no queixo ... ... não havia dúvida ... ...

Esperou que ele se retirasse, depois fez sinal a César.

--- Que se passa António ?! ... Estás branco ... ...

--- Preciso de falar contigo, em particular ... é urgente ...

César levou-o imediatamente para uma sala contígua àquela onde se

encontravam.

--- Então rapaz ... desembucha !!!

--- Quem é aquele indivíduo que entrou à pouco e te chamou à parte?

--- Quem ?! Gerónimo ?! É o meu jardineiro. É o meu homem de

confiança. Já trabalhava para o meu pai antes de mim. Penso que é talvez o

mais antigo nesta casa. Porquê?

--- É ele César. É ele! É o homem do meus sonho! É o homem da

faca!!!

--- Gerónimo?!!! Impossível! Não faz mal a uma mosca. Veio

trabalhar para o meu pai ainda em miúdo. Crescemos e brincámos juntos

tantas vezes. Há mais de vinte anos que trabalha aqui em casa.

--- César. Bem sabes que a única personagem do meu sonho que eu

consigo identificar é o assassino. E é ele ... ... não tenho dúvidas ... ...

--- António. Se calhar é melhor teres calma, estás nervoso ...

--- Faz-me um favor, César. Mostra-me o teu quarto.

--- O meu quarto?!!! Mas ...

--- Por favor César, mostra-me o teu quarto. É importante.

Subiram as largas escadas, até ao primeiro andar. Linda juntou-se a

eles intrigada.

--- Que se passa?!

O PESADELO

VIII

--- O teu marido pirou de vez minha filha.

--- António ?!!!?

Mas ele não respondeu. De respiração ofegante seguia César por um

corredor. Aí o amigo parou junto a uma porta, que abriu, dando um passo

atrás e deixando espaço para pele passar.

--- Pronto! Aqui tens.

O quarto era espaçoso e agradável. Estava decorado de forma a fazer

lembrar princípios de século. Mas o que chamou a atenção de António foi a

cama. Uma cama de corpo e meio, em ferro pintado de branco. À cabeceira

o ferro fora trabalhado de modo a dar o aspecto de um coração. Por cima,

na parede um grande quadro ... um auto-retrato de Van Gogh.

--- O quadro ... a cama ... César tudo encaixa. O meu sonho passa-se

aqui neste quarto... ... ... César tu corres o risco de ser assassinado à facada... nesta cama ... ... por Gerónimo.

--- Basta António. Estou farto de ouvir tantas barbaridades. Estás

louco pá! O teu pesadelo deu-te a volta ao miolo. Gerónimo nunca faria

uma coisas dessas. Já te disse que crescemos juntos. É o meu homem de

confiança nesta casa, ouviste? --- o seu tom era já colérico.

--- Mas César bate tudo certo ...

--- Chega. Não quero ouvir mais nada. Estás a por em causa o bom

nome de uma pessoa, que ao longo dos anos, já deu inúmeras provas da sua

honestidade e fidelidade.

--- César! Eu sou o teu melhor amigo. Tens de despedir esse

Gerónimo. Tens de me ouvir.

--- António. Não quero ouvir mais nada. Deves precisar de

descansar. Talvez seja uma boa ideia ires par casa repousar. Linda, faz-me

um favor ... leva-me o teu marido daqui ...

Fez-se silêncio. Após breves instantes de pausa António virou-lhe as

costas e desceu as escadas. Linda seguiu-o. Ninguém dos presentes deu

pela discussão.

O trajecto até casa fez-se num perfeito mudismo, ele demasiado

nervoso para falar, ela respeitando o seu estado agitado. Em casa tentou

acalmá-lo.

--- Então António! Calma. Não te esqueças de que te estás a basear

num sonho.

--- Eu sei filha! Eu sei ...

--- E o mais estranho é que tu nunca acreditaste nestas coisas...

--- Já sei! Nem tu me levas a sério, não é verdade?!!!

--- Olha ... e se te acalmasses e fosses dormir ?

Dormir. Dormir... Mas a noite foi longa demais. Foi muito difícil

adormecer com todos aqueles pensamentos. Realmente era complicado. Ele

O PESADELO

IX

nunca acreditara em sonhos ... mas caramba ... ... havia demasiadas coincidências ... e ele não podia fazer nada. Nem a sua própria mulher o

apoiava. O amigo não acreditava nele. E se ele estivesse realmente certo? E

se ele estivesse mesmo enganado? E se o seu sonho não fosse mais do que

isso mesmo?

De manhã, de novo, se sentia exausto. Já no escritório, não se conseguia concentrar. O tempo arrastava-se lentamente. E como o iria encarar César? Fora realmente um pouco inconveniente, e logo na sua festa

de aniversário. Não tinha esse direito. O melhor que tinha a fazer era telefonar-lhe, pedindo desculpa. A sua amizade era bem mais importante

do que qualquer história saída de um qualquer sonho. Era isso mesmo.

Estava já de auscultador na mão, quando a porta do seu gabinete se

abriu e entrou César, com cara de preocupação. Entrou de rompante e sentou-se à sua frente.

--- Já está.

--- Já está ... o quê ?!!!?

--- Em primeiro lugar peço-te desculpa pela minha reacção de ontem.

Não dormi nada em toda noite a pensar no que me disseste. Conseguiste-

me perturbar. No fundo acho que tens razão. Há demasiadas coincidências,

e depois ... ... para quê correr riscos? Assim, quando nasceu o sol, tomei

uma decisão. Logo cedinho, chamei o Gerónimo e despedi-o . Depois vim

directo para aqui. Acho que te devo um pedido de desculpas. No fundo, tu

apenas te preocupaste pelo meu bem estar.

--- Bem! César! Consegues deixar-me sem palavras, rapaz. Eu é que

te devo um pedido de desculpas, por te ter estragado a tua festa de anos.

Devo confessar que não esperava aquela tua reacção de ontem, mas penso

que a mereci.

--- Esquece amigo, a nossa amizade vale mais do que isso.

Abraçaram-se comovidos.

--- Em todo o caso, penso que fizeste bem em despedir o Gerónimo.

É mais seguro assim. E ele? Como reagiu?

--- Ficou espantado, mas não argumentou nada, nem perguntou

porquê ... nada de nada. Claro que o informei que lhe iria dar uma boa

indemnização, por todos estes anos de trabalho lá em casa. Bom. E agora

vou até casa descansar um bocado. Agora acho que já vai ser possível.

Levantou-se e antes de sair voltou-se para trás.

--- Almoçamos?

--- Claro, à hora do costume.

--- Cá estarei.

O PESADELO

X

O silêncio voltou àquele escritório. Aparentemente tudo estava

resolvido. Afinal, sempre fora possível evitar o evoluir dos acontecimentos.

Podia respirar à vontade.

Quarenta e oito horas depois, António já nem mais pensava no

assunto. Era uma tarde quente, de um calor sufocante. Quando o telefone

tocou, tinha ele acabado de se levantar da secretária, a fim de baixar ainda

mais a temperatura do ar condicionado.

--- Sr. António estão aqui uns senhores da policia para falar consigo.

Da policia ?!!! Que se teria passado !!! Algo a ver com Linda?

Mandou entrar de imediato.

--- É o Sr. António Videira?

--- Sim. Sim... O próprio. Sentem-se por favor.

--- Obrigado. Sr. Videira nós somos da policia judiciária e

pertencemos à secção de homicídios.

Homicídios? Mas isso queria dizer que alguém tinha morrido.

--- Eu sou o inspector Moreira e este é o sub-inspector Santos.

Importa-se que fume?

--- Faça favor. Esteja à vontade.

Procurou na outra secretária um cinzeiro que colocou perto deles.

--- Pois bem Sr. Videira. O assunto que nos trás até aqui é deveras

delicado. O nome de César Rodrigues Galvão, diz-lhe alguma coisa?

--- Claro que sim. É meu patrão e o meu melhor amigo. Porquê?!

--- Há quanto tempo não está com ele?

--- Deixe cá ver ... desde ontem.

--- E podemos saber onde foi esse vosso último encontro, Sr.

Videira?

--- Claro! Foi num restaurante, aqui desta rua, ele veio almoçar comigo. Foi o reconciliar depois de uma pequena discussão.

--- Discussão?! E podemos saber qual o motivo dessa discussão?

E eles que nunca mais entravam no importante. Ele estava a ficar

bastante alterado.

--- Sim ... Bem ... Mas primeiro eu gostaria de saber qual o motivo da

vossa presença aqui.

--- Muito bem Sr. Videira. O Sr. César Galvão já não pertence ao

mundo dos vivos.

--- O quê? !!! ... Não é possível ... ... !!!

Meu Deus. Que teria acontecido a César? Ficou perplexo. O seu

melhor amigo ... ...

--- Mas como morreu? !!! ...

--- Bem! Digamos que naturalmente ele ainda estaria vivo. Alguém

se encarregou de se antecipar ao que poderia ser natural.

O PESADELO

XI

--- Como?! César foi assassinado?!

--- Foi sim. Gostaríamos que nos acompanhasse ao Instituto de

Medicina Legal, precisamos que alguém identifique o cadáver.

--- Com ... certeza ...

António sentia-se tremer. A noticia apanhara-o desprevenido. César

assassinado. Seria um equívoco? Entrou no carro dos agentes meio sonâmbulo. Nem deu por chegar ao Instituto.

Mas não havia dúvidas. Assim que o inspector levantou a ponta do

lençol branco reconheceu-o imediatamente. Era César. O seu rosto estava

sereno, como se dormisse.

--- Segundo o médico legista morreu instantaneamente ao primeiro

golpe. Nem seriam necessários mais ...

--- Golpe?!!!

O inspector destapou ainda um pouco mais o lençol. O peito continha

cerca de uma dezena de golpes, ao que parecia, muito profundos.

Retiraram-se para uma outra sala.

--- E agora Sr. Videira, espero que esteja mais recomposto.

--- Ainda nem estou em mim.

--- Acreditamos Sr. Videira. Mas precisamos de conversar.

--- Claro. Mas porque me procuraram a mim?

--- Primeiro porque nos parece ser a pessoa mais chegada. Depois

porque a cozinheira, foi ela quem encontrou o corpo, nos disse que o devíamos procurar. Não nos deu grandes explicações, só disse que o senhor

teria algo para nos contar.

Só então António compreendeu toda a situação. César assassinado,

morto em sua casa ... enquanto dormia ... por um objecto cortante ... ... ...

outra vez aquele maldito sonho. Mais uma vez repetiu-o de ponta a ponta.

Os inspectores pareceram muito interessados.

Quando saiu do edifício do Instituto era já noite. Nem sabia o que

pensar. Queria era ir para casa ter com Linda, contar-lhe tudo. Afinal despedir Gerónimo não resolvera grande coisa. Estava destroçado.

Três meses depois encontrava-se, com Linda na sala do Tribunal

Judicial. O juiz lia a sentença.

--- Gerónimo da Conceição Tomaz, é considerado culpado por

homicídio, em primeiro grau, na pessoa de César Galvão. Segundo sua

própria confissão os acontecimentos desenrolaram-se dia ... ... ...

A leitura da sentença prosseguia longa e implacável. Vinte e oito

anos de prisão. Gerónimo permanecia sentado, abatido e silencioso, como

se não estivesse bem naquele presente, mas sim noutro local, noutro tempo.

À saída do tribunal, António e Linda encontraram-se com o inspector

Moreira.

O PESADELO

XII

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--- Assunto encerrado Sr. Videira.

--- Não me conformo. Porquê?! Porquê ele?! Logo ele que era o

homem de confiança de César? Porquê?!!!

Era, Sr. Videira ... era ... Mas segundo ele alegou, o facto de ser

despedido de uma forte tão súbita, tão repentina transtornou-o . Achou que

era injusto. Cometeu o acto num acesso de loucura e servindo-se das chaves de casa que ainda possuía em seu poder.

António estava batido. Linda apertava-lhe o braço.

--- Parecia um indivíduo tão calmo.

--- Pois, é minha senhora. Mas se todos os assassinos tivessem essa

faceta gravada na testa, seria bem mais fácil o nosso trabalho. Não lhe

parece?

--- Isso também é verdade.

--- Bem gostei de contactar consigo, só lamento que tenha sido por

este motivo. Alguma coisa que necessite, disponha Sr. Videira.

--- Muito obrigado, Inspector Moreira.

Deu a mão a Linda e preparou-se para regressar a casa. Cada vez

mais tinha medo de adormecer. Nem queria pensar em ter outro pesadelo.

jorge peres

O PESADELO

XIII

Não sei se estarão de acordo comigo, mas

penso não ter havido ninguém que mais nos fizesse

desconfiar dos sonhos que temos do que FREUD.

A tanto não chego, embora pense que nada

nesta vida é gratuito ou desprovido de

significado.

É enquanto dormimos que somos mais puros de

espirito, que nos soltamos e que mais nos

libertamos da carga social que nos envolve no dia

a dia.

Talvez seja nossa obrigação, por isso,

prestar maior atenção ao que sonhamos.

Façam como eu e tenham sempre perto da

mesinha de cabeceira, um lápis e um bloco de

apontamentos a fim de poderem apontar logo ao

acordar, o sonho que tiveram.

Façam-no antes dele se dissipar na espuma

da louca corrida do dia a dia.

Por certo terão uma surpresa.

O PESADELO

XIV

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