O sinal dos quatro por Arthur Conan Doyle - Versão HTML

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Sherlock Holmes

em:

O Signo dos Quatro

Por Sir Arthur Conan Doyle

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O Signo dos Quatro

Capítulo primeiro

A ciência da dedução

Capítulo segundo

Exposição do caso

Capítulo terceiro

À procura de uma solução

Capítulo quarto

A história do homem calvo

Capítulo quinto

A tragédia de Pondicherry Lodge

Capítulo sexto

Sherlock Holmes faz uma demonstração

Capítulo sétimo

O episódio do barril

Capítulo oitavo

Os irregulares da Baker Street

Capítulo nono

Uma falha na seqüência

Capítulo décimo

O fim do ilhéu

Capítulo décimo primeiro

O grande segredo de Agra

Capítulo décimo segundo

A estranha história de Jonathan Small

A ciência da dedução

— O meu cérebro — disse Sherlock Holmes — se revolta contra a estagnação.

Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais abstruso criptograma, ou a mais intrincada análise, e estarei no meu elemento. Detesto a rotina monótona da existência. Preciso ter a mente em efervescência. E por isso que escolhi a minha profissão especial, ou melhor, criei-a, porque sou o único no mundo a exercê-la.

— O único detetive particular? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.

— O único detetive particular consultivo — redargüiu ele. — Sou o mais alto tribunal de apelação em matéria de pesquisa criminal. Quando Gregson, ou Lestrade, ou Athelney Jones se vêem em maus lençóis, como aliás é o seu estado normal, o assunto é apresentado a mim. Examino os dados como um técnico e dou um parecer de especialista. Não procuro honras nesses meus trabalhos, O meu nome não aparece nos jornais. O trabalho em si, o prazer de encontrar um campo para as minhas faculdades específicas, é a única recompensa que pretendo. De mais a mais, você já teve algum contato com os meus métodos de trabalho no caso de Jefferson Hope.

— É verdade — confirmei com entusiasmo. — E me impressionaram de tal modo, que até condensei o assunto numa pequena brochura com o título meio fantástico de Um estudo em vermelho.

Holmes abanou a cabeça tristemente.

— Passei os olhos por ela — disse ele. — Sinceramente, não posso felicitá-lo.

A investigação é, ou devia ser, uma ciência exata e, como tal, tratada de maneira fria e sem a menor emoção. Você procurou lhe dar certo colorido romântico, o que produz o mesmo efeito de uma história de amor ou de um rapto transformados na quinta proposição da geometria euclidiana.

— Mas havia algo de novelesco — repliquei. — Eu não podia alterar os fatos.

— Deviam ter sido suprimidos alguns fatos, ou, pelo menos, tratados com um justo senso de proporção. Em todo esse caso, o único ponto que merecia referência é o curioso raciocínio analítico dos efeitos até as causas, por meio do qual eu consegui desvendá-lo.

Essa crítica a um trabalho feito especialmente para lhe agradar me aborrecia muito. Confesso também que me irritava aquele seu egoísmo, que parecia exigir que todas as linhas do meu livro fossem dedicadas exclusivamente às suas proczas. Mais de uma vez, durante os anos vividos com Holmes na Baker Street, tive ocasião de observar que uma pequena vaidade se escondia sob as suas maneiras discretas e didáticas. Não fiz, todavia, qualquer comentário, e continuei calado na minha cadeira, ocupado em tratar da minha perna ferida.

Havia algum tempo que a bala de um mosquete afegão a tinha atravessado de lado a lado, e, embora eu pudesse caminhar, ela me doía bastante sempre que o tempo mudava.

— A minha clientela está se estendendo pela Europa — disse Holmes, após alguns momentos, enchendo o seu velho cachimbo de raiz de roseira. — Fui consultado na semana passada por François le Villard, que ultimamente, conforme você talvez saiba, tem adquirido algum renome no serviço francês de investigações. Ele possui a rápida intuição dos celtas, mas falta-lhe a grande bagagem de conhecimentos exatos, essencial para um maior desenvolvimento da sua arte, O caso relacionava-se com um testamento e tinha alguns aspectos interessantes. Tive oportunidade de relacioná-lo com dois casos paralelos, um em Riga, em 1857, e outro em St. Louis, em 1871, os quais lhe sugeriram a solução exata. Aqui está a carta que recebi esta manhã, agradecendo o meu auxílio.

Ao dizer isso, atirou-me uma folha amarrotada de papel de carta estrangeiro.

Passei os olhos por ela, notando os abundantes pontos de exclamação e os

“magni/iques”, “coa p5 de maitre” e “tours de /orce” que a pontilhavam, tudo denotando a ardente admiração do francês.

— Fala como de aluno para mestre — observei.

— Oh!, ele valoriza demasiado a minha assistência — disse Sherlock Holmes com indiferença. — Também ele tem um apreciável talento. Possui duas das três qualidades necessárias para um detetive ideal. Tem a capacidade de observação e a de dedução. Só lhe faltam os conhecimentos, que poderá adquirir com o tempo. Está traduzindo para o francês os meus pequenos trabalhos.

— Os seus trabalhos?

— Oh! você não sabia? — perguntou Holmes, rindo. — Sim, sou culpado de várias monografias. Todas versam sobre assuntos técnicos. Esta, por exemplo, intitula-se: “Da diferença entre as cinzas de vários tabacos”. Nela enumero cento e quarenta tipos de tabaco usados em charutos, cigarros e cachimbos, com lâminas coloridas que ilustram a diferença entre as cinzas. E um ponto que vem constantemente à baila nos processos criminais e que às vezes é de suprema importância como indício. Se você puder dizer positivamente, por exemplo, que determinado crime de morte foi praticado por um homem que estava fumando um charuto de tabaco indiano, é óbvio que isso reduz o campo das pesquisas. Para um olho experimentado, há tanta diferença entre as cinzas pretas de um Trichinopoly e as brancas de um Caporal como entre uma couve e um tomate.

— Você tem um gênio extraordinário para as minúcias — observei.

— Apenas avalio a sua importância. Eis aqui a minha monografia sobre o levantamento de pegadas, com algumas notas sobre as impressões. Este, por exemplo, é um curioso trabalhinho sobre a influência do ofício na forma da mão, com litografias das mãos de ardosieiros, marujos, corticeiros, compositores, tecelões e lapidadores de diamantes. E um assunto de grande interesse prático para o detetive científico. . . principalmente nos casos de corpos não-identificados, ou para descobrir os antecedentes dos criminosos.

Mas estou aborrecendo-o com a minha mania.

— De modo algum — contestei sinceramente. — Isso é do maior interesse para mim, principalmente depois que tive a oportunidade de lhe observar a aplicação prática. Mas você falava há pouco de observação e dedução. Até certo ponto uma implica a outra, não é verdade?

— Não, senhor. Só raramente — respondeu ele, recostando-se voluptuosamente na sua cadeira, e tirando do cachimbo finos anéis de fumaça azulada. — Por exemplo, a observação me mostra que você esteve esta manhã na agência postal da Wigmore Street, mas a dedução me faz saber que, ao chegar lá, expediu um telegrama.

— Correto — exclamei. — Correto em ambos os pontos! Mas confesso não perceber como possa ter chegado a isso. Foi uma coisa que de repente me deu na telha, e não a mencionei a ninguém.

— Pois é a própria simplicidade — afirmou ele, rindo da minha surpresa. Tão absurdamente simples que torna supérflua qualquer explicação. Contudo, pode servir para definir os limites da observação e da dedução. A observação me diz que você tem um pequeno torrão avermelhado preso à sola do sapato.

Exatamente em frente à agência postal da Wigmore Street, abriram a calçada, deixando um pouco de terra no caminho, de forma que é difícil não pisá-la ao entrar. A terra é de um vermelho típico, que, até onde sei, não se encontra em qualquer outro lugar das redondezas. Tudo isso é observação. O resto é dedução.

— Como deduziu, então, que mandei um telegrama?

— Ora, evidentemente, eu sabia que não tinha escrito uma carta, uma vez que passei toda a manhã sentado à sua frente. Vejo, além disso, que há uma folha de selos na sua escrivaninha e um grosso maço de postais. Para que iria, então, à agência postal, senão para mandar um telegrama? Elimine todos os outros fatores, e o que restar deve ser a verdade.

— Nesse caso, não há dúvida de que é assim — repliquei, depois de meditar um instante. — Trata-se, como diz, de uma coisa muito simples. Seria impertinência minha se submetesse as suas teorias a uma prova mais rigorosa?

— Pelo contrário — respondeu ele. — Isso me impediria de ficar entediado algum tempo. Terei o maior prazer em examinar qualquer problema que me apresente.

— Já ouvi dizer que é difícil um homem ter consigo um objeto de uso diário sem deixar nele a marca da sua individualidade, de tal modo que um observador experimentado é capaz de interpretá-la. Pois tenho aqui um relógio que veio recentemente parar às minhas mãos. Quer ter a bondade de me dar a sua opinião sobre o caráter e os hábitos do último proprietário?

Entreguei-lhe o relógio não sem uma certa malícia, pois julgava impossível semelhante prova, e pretendia que isso lhe servisse de lição contra o tom um tanto dogmático que ele às vezes assumia. Holmes avaliou o peso do relógio com a mão, olhou atentamente o mostrador, abriu a tampa traseira e examinou o mecanismo, primeiro a olho nu e depois com uma poderosa lente convexa.

Mal pude reprimir um sorriso diante do seu rosto descoroçoado quando finalmente o devolveu a mim.

— Quase não há elementos — observou ele. — O relógio foi limpo recentemente, o que me roubou os fatos mais sugestivos.

— Tem razão — disse eu. — Fizeram uma limpeza geral antes de o enviarem a mim.

No íntimo, eu acusava o meu companheiro de esconder o seu fracasso sob a mais comum das desculpas. Que elementos poderia ele encontrar num relógio sujo?

— Apesar de pouco satisfatória, a minha pesquisa não foi de todo infrutífera observou ele, fitando o teto com os olhos sonhadores e sem brilho. — Se não me disser o contrário, julgo que o relógio pertenceu ao seu irmão mais velho, que o herdou de seu pai.

— Deduziu-o, sem dúvida, do "H. W.' gravado nas costas?

— Exatamente. O W. sugere o seu nome. A data do relógio é de cinqüenta anos atrás, e as iniciais são quase tão antigas como o relógio: logo, foi usado pela última geração. As jóias geralmente passam para o filho mais velho, e é muito provável que este tenha o mesmo nome do pai. Seu pai, se bem me lembro, faleceu há muitos anos. Por conseguinte, o relógio estava nas mãos do seu irmão mais velho.

— Até aqui, tudo certo — disse eu. — Alguma coisa mais?

— Ele era um homem de hábitos desordenados... muito desordenados e descuidados. Iniciou a vida com boas perspectivas, mas desperdiçou as oportunidades, viveu algum tempo na pobreza, com intervalos ocasionais de prosperidade, e por fim, entregando-se à bebida, faleceu. Isto é tudo o que posso deduzir.

Pulei da minha cadeira e pus-me a coxear impacientemente pela sala. Aquilo me fazia doer o coração.

— Isso não é digno de você, Holmes — disse eu. — Nunca o teria imaginado capaz de descer tanto. Decerto andou fazendo indagações sobre a história do meu infeliz irmão, e agora finge ter deduzido de um modo abstruso aquilo que já sabia. Você não pode esperar que eu acredite nas suas palavras quando me diz que leu tudo isso nesse velho relógio! E cruel e, para falar com toda a franqueza, raia ao charlatanismo.

— Meu caro doutor — disse ele afavelmente —, queira aceitar o meu pedido de desculpas. Encarando o assunto como um problema abstrato, esqueci que era uma coisa íntima e dolorosa. Asseguro-lhe, todavia, que nem ao menos sabia da existência do seu irmão até o momento em que examinei o relógio.

— Mas então, em nome de tudo quanto é fantástico, como obteve esses fatos?

São absolutamente corretos em todos os pormenores.

— Ah! Isso foi sorte. Só expus o saldo das probabilidades. Não esperava tamanha precisão.

— Mas não foi apenas pura adivinhação?

— Não, não. Jamais arrisco um palpite. Isso é um hábito chocante... fatal para a capacidade de raciocinar logicamente. O que lhe parece estranho o é apenas porque você não acompanhou a linha do meu pensamento nem observou pequenos fatos dos quais se podem tirar grandes deduções. Por exemplo, comecei por certificar-me de que seu irmão era descuidado. Observando a parte inferior da caixa desse relógio, notará que ela não está gasta apenas em dois lugares, mas está toda amassada e arranhada: conseqüência do hábito de guardar objetos duros, tais como chaves ou moedas, no mesmo bolso.

Decerto, não é grande façanha supor que um homem que trata tão desdenhosamente um relógio de cinqüenta guinéus seja um homem descuidado. Também não é muito rebuscada a dedução de que uma pessoa que herda um objeto de tamanho valor não esteja bem provida noutros sentidos.

Inclinei a cabeça para mostrar que acompanhava o seu raciocínio.

— Nas casas de penhor da Inglaterra é muito comum gravarem o número da caução, com um alfinete, na parte interna da tampa. É mais prático do que uma etiqueta, e não há perigo de que o número seja trocado ou perdido. Há pelo menos quatro desses números visíveis para a minha lente, no interior dessa tampa. Dedução principal: seu irmão via-se freqüentemente em apuros financeiros. Dedução secundária: ocasionalmente melhorava de vida, pois, do contrário, não poderia resgatar o penhor. Finalmente, peço-lhe que olhe para a tampa interna, onde fica o buraco da chave. Veja os milhares de arranhões em torno dele... são marcas deixadas pela chave, ao escorregar. A mão firme de um homem sóbrio nunca teria feito esses sulcos. Mas podem-se vê-los sempre no relógio de um bêbado. Quando lhe dá corda, à noite, tem a mão insegura.

Onde está o mistério disso tudo?

— É claro como o dia — respondi. — Lamento a injustiça que lhe fiz. Devia ter tido mais fé nas suas maravilhosas faculdades. Posso perguntar-lhe se atualmente tem alguma pesquisa em mãos?

— Nenhuma. Não posso viver sem trabalho mental. Haverá outra coisa pela qual valha a pena viver? Olhe para a janela. Já houve um mundo tão vazio, tão cinzento e deprimente? Veja como o nevoeiro rola pelas ruas, entremostrando as casas desbotadas. Haverá algo mais irremediavelmente prosaico e material? De que me vale ter essas faculdades, doutor, quando não há onde exercê-las? O crime é banal, a existência é banal, e as outras qualidades, exceto as que sejam banais, não têm função na face da terra.

Abri a boca para contestar essa tirada, quando, após uma decidida pancada na porta, a nossa senhoria entrou com um cartão de visita numa salva de bronze.

— Uma jovem deseja vê-lo — disse ela, dirigindo-se ao meu companheiro.

— Srta. Mary Morstan — leu ele. — Hum! Não me lembro desse nome. Diga à jovem que entre, sra. Hudson. Não se retire, doutor. Prefiro que fique aqui.

Exposição do caso

A srta, Morstan entrou na sala com um passo firme e a maior compostura na aparência. Era uma jovem loira, pequena, elegante, de mãos enluvadas, e vestida com muito gosto e apuro. Havia, contudo, certa simplicidade no seu traje que denotava limitados recursos financeiros. Ele era de fazenda escura, mais cinza do que bege, sem guarnições nem enfeites. Ela usava também um pequeno turbante do mesmo tecido baço, alegrado apenas por uma pena branca de um dos lados. Seu rosto não tinha nem feições regulares nem beleza de traços, mas a expressão era doce e amável, e os grandes olhos azuis irradiavam simpatia e espiritualidade. Com toda a minha experiência em mulheres, que se estende por vários países e abrange três continentes, eu jamais vira uma face que tão eloqüentemente sugerisse uma natureza sensível e requintada. Não pude deixar de observar que, ao se sentar na cadeira indicada por Holmes, suas mãos e seus lábios tremiam, e que dava toda a aparência de grande perturbação íntima.

— Venho procurá-lo, sr. Holmes — disse —, porque uma vez o senhor auxiliou minha patroa, a sra. Cecil Forrester, a solucionar uma pequena complicação doméstica. Ela ficou muito impressionada com a sua gentileza e habilidade.

— Sra. Cecil Forrester repetiu ele, pensativamente. — Parece-me que tive a oportunidade de lhe prestar um ligeiro serviço. Mas, ao que me lembro, foi um caso muito simples.

— Ela pensa de maneira diferente. Seja como for, o senhor não poderá dizer o mesmo quanto ao meu caso. Não posso imaginar coisa mais estranha, mais inteiramente inexplicável, do que a situação em que me encontro.

Holmes esfregou as mãos, e os seus olhos brilharam. Inclinou-se para a frente da cadeira, com uma expressão de extraordinária concentração nas feições nítidas e aquilinas.

— Exponha o seu caso — disse ele, num tom ríspido de profissional.

Senti-me em posição deveras embaraçosa.

— Queiram desculpar-me — disse eu, levantando-me.

Para minha surpresa, a jovem ergueu a mão enluvada a fim de me deter.

— Se o seu amigo — disse ela — tiver a bondade de ficar aqui, talvez possa me prestar um inestimável serviço.

Voltei para a minha cadeira.

— Em resumo — disse ela —, os fatos são estes: meu pai, que era oficial de um regimento indiano, mandou-me para a Inglaterra quando eu ainda era criança. Minha mãe morrera, e eu não tinha qualquer parente aqui. Fui, contudo, para um excelente colégio de Edimburgo, onde permaneci como interna até os dezessete anos. Em 1878, meu pai, que então era capitão do regimento, obteve uma licença de um ano e veio à Inglaterra. De Londres, telegrafou-me dizendo que tinha chegado muito bem e que eu fosse procurá-lo imediatamente no Langham Hotel, onde estava hospedado. Era, lembro-me bem, uma mensagem cheia de bondade e carinho. Ao chegar a Londres, dirigi-me para o Langham e fui informada de que o capitão Morstan estava realmente hospedado ali, mas havia saído na noite anterior e não tinha voltado. Esperei todo o dia sem ter notícias dele. A noite, a conselho do gerente do hotel, comuniquei-me com a polícia, e, na manhã seguinte, pusemos anúncios em todos os jornais. As nossas indagações não trouxeram qualquer resultado; e desde aquele dia até hoje nada mais se soube a respeito do meu desventurado pai. Ele voltava à pátria com o coração cheio de esperança, procurando encontrar paz e conforto, e em vez disso.

Levou a mão à garganta, e um soluço sufocante interrompeu-lhe a frase.

— A data? — pediu Holmes, abrindo o seu caderno de anotações.

— Ele desapareceu a 3 de dezembro de 1878... há quase dez anos.

— A bagagem?

— Ficou no hotel. Nada havia nela que contivesse qualquer indicação: roupas, alguns livros e um grande número de curiosidades das ilhas de Adaman. Ele fora um dos oficiais da guarnição do presídio que existe lá.

— Tinha muitos amigos aqui em Londres?

— Sabemos apenas de um... o major Sholto, que era do mesmo regimento, o 34.° de Infantaria de Bombaim. Q major tinha se aposentado havia pouco tempo e morava em Upper Norwood. Nós o procuramos, naturalmente, mas ele nem sequer sabia que o seu colega de regimento se encontrava na Inglaterra.

— Um caso singular — observou Holmes.

— Ainda não lhe expus a parte mais singular — disse a srta. Morstan. — Há cerca de seis anos. . . no dia 4 de maio de 1882, para sermos exatos. . .

apareceu um anúncio no Times pedindo o endereço da srta. Morstan e dizendo que seria do seu interesse apresentar-se. Não dizia onde nem a quem. Nessa época eu começara a trabalhar para a família da sra. Cecil Forrester na qualidade de governanta. A conselho dela, publiquei o meu endereço na coluna dos pequenos anúncios. No mesmo dia, chegou pelo correio uma caixinha de papelão, dirigida a mim, na qual encontrei uma grande pérola de fino oriente.

Não havia qualquer palavra escrita. Desde então, todos os anos, na mesma data, aparece uma caixa idêntica, com uma pérola idêntica, sem qualquer referência quanto ao remetente. Segundo o perito que as examinou, são pérolas de um tipo raro e têm grande valor, O senhor pode verificar como são belas.

Abriu uma caixinha chata, enquanto falava, e me mostrou seis pérolas das mais lindas que já vi.

— Sua declaração é muito interessante — disse Sherlock Holmes. Aconteceu-lhe mais alguma coisa?

— Sim, e justamente hoje. É por isso que vim aqui. Hoje de manhã recebi esta carta, que talvez o senhor queira ler.

— Muito obrigado — disse Holmes. — O envelope também, por favor. Carimbo: Londres S. W. Datado de 7 de julho. Hum! Marca de um polegar masculino no canto... provavelmente do carteiro. Papel da melhor qualidade. Envelope de seis pence o maço. Pessoa exigente em matéria de papelaria. Nenhum endereço. “Esteja na terceira coluna da esquerda diante do Lyceum Theatre, esta noite, às sete horas. Se desconfiar, venha com dois amigos. Sofreu um dano, e será feita justiça. Não traga a polícia. Se o fizer, tudo será em vão. Um amigo desconhecido.” Não há dúvida, isto é realmente um pequeno mistério!

Que pretende fazer, srta. Morstan?

— É precisamente o que lhe desejo perguntar.

— Então iremos sem falta... a senhora, eu e... ah!, sim, o dr. Watson é o homem indicado. O seu correspondente diz dois amigos. O doutor e eu já temos trabalhado juntos.

— Mas será que ele quer ir? — perguntou a jovem, com certo tom de súplica na voz e na expressão.

— Será uma honra e uma satisfação — disse eu com veemência —, se puder prestar-lhe um serviço.

— Ambos são muito bondosos — volveu ela. — Tenho levado uma vida retirada, e não tenho amigos a quem apelar. Se eu voltar aqui às seis, está bem?

— Não deve vir mais tarde — disse Holmes. — Mas ainda há um outro ponto.

Essa letra é a mesma do endereço que vinha nas caixinhas com as pérolas?

— Tenho-as aqui — respondeu ela, apresentando meia dúzia de pedaços de papel.

— A senhora é sem dúvida uma cliente modelo. Tem a intuição devida.

Vejamos, então.

Holmes espalhou os papéis sobre a mesa e começou a olhar rapidamente de um para outro.

— São letras disfarçadas, exceto a da carta — disse ele pouco depois. — Mas não há dúvida quanto à autoria. Veja como o irrepreensível i é interrompido, e o floreio final do s. Foram indubitavelmente escritos pela mesma pessoa. Não quero insinuar falsas esperanças, srta. Morstan, mas não há nenhuma semelhança entre esta letra e a de seu pai?

— Nada poderia ser mais diferente.

— Esperava que me dissesse isso. Muito bem. Vamos esperá-la às seis.

Permita-me, por favor, que fique com estes papéis. Talvez eu tenha tempo de examiná-los mais a fundo. São apenas três e meia. Au revoir, então.

— Au revoir — respondeu a nossa visitante; e, com um olhar vivo e afável para cada um de nós, repôs no seio a caixinha com as pérolas, retirando-se a passos rápidos.

Em pé junto à janela, vi-a descer desembaraçadamente a rua, até que o turbante cinzento e a sua pena branca se tornaram apenas um pontinho claro na multidão incolor.

— Que mulher atraente! — exclamei, voltando-me para o meu companheiro.

Ele reacendeu o cachimbo e recostou-se novamente na sua poltrona, com as pálpebras semicerradas.

— É? — disse ele, languidamente. — Não notei.

— Você é realmente um autômato... uma máquina de calcular — bradei-lhe. —

— As vezes, tem qualquer coisa de positivamente inumano.

Holmes sorriu ligeiramente.

— É de capital importância — disse ele — não permitir que o nosso julgamento seja distorcido por qualidades pessoais. Para mim, um cliente é uma simples unidade, um dado num problema. As qualidades emotivas não se coadunam com um raciocínio claro. Afirmo-lhe que a mulher mais encantadora que já vi foi enforcada por ter envenenado três criancinhas para ficar com o dinheiro do seguro, e que o homem mais repulsivo que conheço é um filantropo que já gastou quase um quarto de milhão com os pobres de Londres.

— Neste caso, entretanto.

— Nunca faço exceções. Uma exceção anula a regra. Já teve ocasião de estudar grafologia? Que me diz da letra desse sujeito?

— E legível e regular — respondi. — Talvez um homem de hábitos comerciais e com certa força de caráter.

Holmes abanou a cabeça.

— Veja as letras ascendentes — disse ele. — Mal sobressaem das outras.

Este d poderia ser um á, e este 1, um e. Os homens de caráter diferenciam sempre as letras compridas, por ilegível que seja a sua escrita. Há uma certa indecisão nos seus kk e amor-próprio nas maiúsculas. Agora vou sair. Preciso de algumas referências. Permita-me que lhe recomende este livro... um dos mais notáveis que já se escreveram. É o Martírio do homem, de Winwood Reade. Voltarei dentro de uma hora.

Sentei-me junto da janela com o livro na mão, mas os meus pensamentos estavam longe das ousadas especulações do escritor. Revia mentalmente a nossa visitante... os seus sorrisos, o timbre sonoro de sua voz, o estranho mistério que pairava sobre a sua vida. Se ela contava dezessete anos quando o pai desaparecera, devia ter agora vinte e sete... uma doce idade, na qual a juventude já perdeu o embaraço que lhe é próprio e se tornou um pouco reservada pela experiência. Assim, continuei a meditar, até me virem à cabeça pensamentos tão perigosos que corri para a minha escrivaninha e mergulhei furiosamente no último tratado de patologia. Quem era eu, um médico militar, com uma perna fraca e situação financeira ainda mais débil, para me atrever a pensar em tais coisas? Ela era uma unidade, um dado... nada mais. Se o meu futuro era negro, certamente era melhor enfrentá-lo como homem do que procurar abrilhantá-lo com as vespas da imaginação.

À procura de uma solução

Já eram cinco e meia quando Holmes voltou. Estava alegre, animado, e com excelente disposição de espírito, um estado que nele se alternava com crises da mais profunda depressão.

— Não há grande mistério neste assunto — disse ele, pegando a xícara de chá que eu acabava de lhe servir. — Os fatos parecem admitir somente uma explicação.

— O quê? Você já o solucionou?

— Bem, isso seria dizer demais. Descobri um fato sugestivo, e é tudo. É, todavia, muito sugestivo. Acabo de verificar, ao consultar a coleção do Times, que o major Sholto, de Upper Norwood, pertencente ao 34.° Regimento de Infantaria de Bombaim, faleceu a 28 de abril de 1882.

— Talvez eu seja muito obtuso, Holmes, mas não vejo o que isso possa sugerir.

— Não? Você me surpreende. Encare-o, então, desta maneira: o capitão Morstan desaparece. A única pessoa em Londres a quem ele pode ter visitado é o major Sholto. O major Sholto afirma não saber que o seu amigo estava em Londres. Uma semana após a sua morte, a filha do capitão Morstan recebe um valioso presente, que é repetido a cada ano e agora culmina com uma carta que diz que ela sofreu um dano. A que dano poderá referir-se, exceto ao de a terem privado do pai? E por que motivo os presentes começariam logo após a morte de Sholto, a menos que o herdeiro de Sholto, sabendo do mistério, desejasse oferecer uma compensação? Sugere alguma outra hipótese que apresente o mesmo dilema e enquadre os fatos?

— Mas que compensação mais estranha! E oferecida de maneira igualmente estranha! Por que motivo, também, escreveria ele uma carta agora, e não há seis anos? Além disso, a carta fala em fazer-lhe justiça. Que justiça lhe podem fazer? É demais supor que o pai ainda esteja vivo. E, ao que se sabe, não há outra injustiça no caso dela.

— Há algumas dificuldades... certamente há — disse Holmes, pensativo. —

Mas a nossa expedição desta noite vai resolvê-las todas. Olhe, lá está o carro com a srta. Morstan. Está pronto? Então é melhor irmos descendo, pois já passa um pouco da hora.

Peguei o chapéu e a minha bengala mais grossa, mas observei que Holmes tirava o seu revólver da gaveta e o enfiava no bolso. Pensava, evidentemente, que o nosso trabalho noturno talvez fosse sério.

A srta. Morstan estava abrigada numa capa escura, e o seu rosto delicado mostrava-se sereno mas pálido. Ela não seria mulher se não sentisse certo desassossego perante a estranha empresa em que nos íamos meter, mas mesmo assim estava perfeitamente senhora de si, e respondeu com presteza a algumas perguntas adicionais que Sherlock Holmes lhe fez.

— O major Sholto era amigo íntimo de meu pai — disse ela. — Suas cartas estão cheias de referências ao major. Ele e meu pai comandavam a guarnição das ilhas Andaman, de forma que estavam em freqüente contato. A propósito, na escrivaninha de meu pai foi encontrado um papel curioso, que ninguém pôde entender. Não me parece que tenha a menor importância, mas pensei que talvez o senhor quisesse vê-lo, de modo que o trouxe comigo. Ei-lo.

Holmes desdobrou o papel cuidadosamente e alisou-o sobre um dos joelhos.

Depois, muito metodicamente, examinou-lhe toda a superfície com a sua lente dupla.

— Foi fabricado na Índia — observou. — Esteve algum tempo pregado numa prancha. O diagrama nele traçado parece ser parte da planta de uma grande construção, com inúmeros saguões, corredores e passagens. Num determinado ponto, há uma pequena cruz feita com tinta vermelha, e acima dela: “3.37 vindo da esquerda”, escrito a lápis, quase apagado. No canto esquerdo, há uma espécie de hieróglifo formado por quatro cruzes em linha, com os braços ligados. Ao lado está escrito, em caracteres muito grosseiros:

“O signo dos quatro: Jonathan Small, Muhammed Singh, Abdullah Khan, Dost Akbar”. Não, confesso que não vejo qual a relação disto com o assunto.

Contudo, é evidentemente um documento importante. Estava cuidadosamente guardado dentro de uma agenda de bolso, porque uma face está tão limpa como a outra.

— Foi na agenda de bolso dele que o encontramos.

— Guarde-o cuidadosamente então, srta. Morstan, pois talvez esse papel nos seja útil. Começo a suspeitar que este assunto talvez seja mais profundo e sutil do que a princípio supus. Devo reconsiderar as minhas idéias.

Holmes recostou-se no assento do carro, e logo os olhos vagos e a expressão sombria do seu rosto me indicaram que se embrenhara em seus pensamentos. A srta. Morstan e eu tagarelávamos a meia voz sobre a nossa presente expedição e os seus possíveis resultados, mas o nosso companheiro manteve a sua impenetrável reserva até o final da viagem.

Era uma noite de setembro, e, apesar de ainda não serem sete horas, já estava bastante escuro devido ao denso nevoeiro que, após um dia sombrio, envolvia agora a grande cidade. Nuvens cor de barro desciam melancolicamente sobre as ruas enlameadas. No Strand, os lampiões eram apenas manchas nevoentas de luz difusa, lançando uma fraca reverberação circular no pavimento viscoso. O clarão amarelado das vitrines refletia-se no ar vaporoso, projetando uma luz lôbrega e inconstante sobre as calçadas apinhadas. Para mim, havia qualquer coisa de espectral e amedrontador na interminável procissão de rostos que assomavam e desapareciam naqueles estreitos fachos de luz: rostos tristes e alegres, abatidos e risonhos. Como todo o gênero humano, passavam da sombra para a luz e voltavam novamente para a sombra. Não me impressiono facilmente, mas a noite fosca e melancólica, aliada à estranha missão que nos levava, combinavam-se para me tornar nervoso e deprimido. As maneiras da srta. Morstan davam-me a entender que ela também experimentava o mesmo sentimento. Somente Holmes podia pairar acima das influências comezinhas. Tinha o seu caderno de apontamentos aberto sobre os joelhos, e de quando em quando garatujava cifras e notas à luz da sua lanterna de bolso.

No Lyceum Theatre, o público já se apinhava diante das entradas laterais.

Pela fachada principal, rumorejava um contínuo desfile de carruagens, que ali deixavam a sua carga de homens de peito engomado e mulheres com capas e diamantes. Logo após termos chegado à terceira coluna, que era o nosso ponto de encontro, um homem baixo, moreno, empertigado, vestido de cocheiro, aproximou-se de nós.

— São as pessoas que vêm com a srta. Morstan? perguntou ele.

— Sou a srta. Morstan, e estes dois cavalheiros são meus amigos — disse ela.

O recém-chegado observou-nos com olhos admiravelmente penetrantes.

— Desculpe-me, senhorita — disse ele, de modo um tanto rude —, mas preciso que me dê sua palavra de que nenhum dos seus companheiros é agente da polícia.

— Dou-lhe a minha palavra de honra a esse respeito — respondeu ela.

O homem soltou um assobio agudo e, ato contínuo, um rapazinho maltrapilho encostou um cupê à nossa frente e abriu a porta. O homem subiu para a boléia, e nós fomos para os nossos lugares. Mal acabávamos de nos sentar, o cocheiro fustigou o cavalo, e arrancamos numa vertiginosa corrida através das ruas nevoentas.

A situação era curiosa. Dirigíamo-nos para um lugar ignorado, em missão igualmente ignorada. Contudo, ou aquele convite não passava de uma burla —

o que era uma hipótese inconcebível —, ou então tínhamos bons motivos para pensar que a nossa viagem teria conseqüências importantes. A atitude da srta.

Morstan continuava tão resoluta e composta como antes. Tentei alegrá-la e diverti-la com reminiscências das minhas aventuras no Afeganistão; mas, para dizer a verdade, eu próprio estava tão excitado com a nossa situação, e tão curioso quanto ao nosso destino, que as minhas histórias sofreram certa confusão. Ainda hoje ela afirma que eu lhe contei um emocionante caso de um mosquete que olhou para a minha barraca altas horas da noite e no qual dei um tiro com um filhote de tigre de dois canos. A princípio, tinha uma certa noção do rumo que tomávamos, mas, em seguida, com aquela correria, o nevoeiro e o meu escasso conhecimento de Londres, perdi a orientação e não sabia mais nada, exceto que o caminho parecia muito longo. Sherlock Holmes, entretanto, ia perfeitamente à vontade, sussurrando os nomes enquanto o cupê atravessava praças e entrava e saía por tortuosas travessas.

— Rochester Row disse ele. — Agora é a Vincent Square. Sairemos na Vauxhall Bridge Road. Aparentemente, vamos para os lados de Surrey. Sim, era o que eu pensava. Estamos sobre a ponte. Entrevê-se o rio de quando em quando.

Com efeito, vimos ligeiramente uma nesga do Tmisa, com os lampiões refletindo-se na água escura e silenciosa; mas o nosso carro seguiu adiante, e logo se embrenhou no labirinto das ruas da margem oposta.

— Wandsworth Road — disse o meu companheiro. Priory Road. Lakhall Lane.

Stockwell Place. Robert Street. Coldharbour Lane. A nossa investigação não parece nos levar a zonas muito elegantes.

Tínhamos, realmente, alcançado um bairro duvidoso e mal-afamado. Longos conjuntos de casas sombrias, com fachadas de tijolos, eram apenas aliviados pelo clarão incerto das tavernas nas esquinas. Seguiram-se depois ruas e ruas de casas com um jardinzinho à frente, e novamente os intermináveis conjuntos de construções novas com suas gritantes fachadas de tijolo. . . tentáculos monstruosos que a cidade gigantesca ia lançando para o campo. Por fim, o cupê se deteve diante da terceira casa de uma rua recém-aberta. Nenhuma das outras casas estava habitada, e a que tínhamos à frente estava tão escura como as vizinhas, exceto por um bruxulear na janela da cozinha. Ao batermos, porém, a porta foi imediatamente aberta por um criado indiano, de turbante amarelo, roupas brancas e folgadas, e uma faixa também amarela. Havia algo de estranhamente incoerente naquela figura oriental enquadrada na porta comum de uma residência suburbana de terceira categoria.

— O sahib os espera — disse ele, mas simultaneamente ouviu-se uma voz alta e aguda que vinha de alguma sala interior.

— Traga-os aqui, khitmutgar [1] — gritou ele. — Traga-os imediatamente à minha presença.

[1] “Criado”, em hindi. (N. do T.)

A história do homem calvo

Acompanhamos o indiano através de um corredor sórdido e vulgar, mal-iluminado e ainda mais mal-mobiliado, até uma porta à direita, que ele abriu.

Um jato de luz amarelada inundou-nos, e no centro desse fulgor deparamos com um homenzinho de cabeça pontuda, orlada por uma linha eriçada de cabelos ruivos que lhe acentuavam o cocuruto calvo e reluzente, como um pico montanhoso emergindo entre abetos.

Estava de pé, esfregando as mãos, com as feições em contínuo movimento, ora sorrindo, ora enrugando a testa, sem um instante de repouso sequer. A natureza tinha lhe dado um lábio pendente e uma linha demasiado visível de dentes amarelos e irregulares, que ele em vão procurava esconder, passando continuamente a mão na parte inferior do rosto. A despeito da calvície conspícua, parecia jovem. Aliás, acabava de entrar na casa dos trinta.

— Um criado seu, srta. Morstan — repetia ele, numa voz estridente. — Um criado seu, cavalheiros. Queiram entrar no meu refúgio. Ë uma salinha pequena, senhorita, mas mobiliada de acordo com o meu gosto. Um oásis de arte no áspero deserto de South End.

Ficamos atônitos ante o aspecto do aposento em que ele nos introduziu.

Naquela casa desolada, parecia tão fora de lugar como um diamante de primeira água num engaste de latão. As mais ricas e soberbas cortinas e tapeçarias revestiam as paredes, arrepanhadas aqui e ali para mostrar um quadro finamente emoldurado ou um vaso oriental, O tapete era negro e âmbar, tão macio e espesso que os pés se afundavam agradavelmente nele como num leito de musgo. Duas grandes peles de tigre, em cima dele, aumentavam a impressão de iuxo oriental, bem como um enorme narguilé, a um canto, sobre uma esteira. Um candeeiro de prata, lavrado em forma de pomba e preso a um fio de ouro quase invisível, pendia no centro da sala. Ardia nele uma substância aromática que impregnava docemente o ar.

— Sr. Thaddeus Sholto — disse o homenzinho, com os seus trejeitos e sorrisos. — É o meu nome. É a srta. Morstan, sem dúvida. E esses cavalheiros.

— Sr. Sherlock Holmes e dr. Watson.

— Um médico, bem? — exclamou ele, muito alvoroçado. — Trouxe o seu estetoscópio? Posso pedir-lhe que...teria o senhor a bondade? Tenho graves dúvidas quanto à minha válvula mitral, se quiser me fazer o favor. A aorta não me preocupa, mas gostaria muito de ouvir a sua opinião sobre a válvula mitral.

Auscultei-lhe o coração, como me pedia, mas não pude encontrar nada de estranho, exceto, realmente, que o homem estava num transe de medo, pois tremia da cabeça aos pés.

— Parece normal — disse-lhe eu. — O senhor não tem motivos para se preocupar.

— A senhorita desculpe a minha ansiedade — acrescentou ele, negligentemente, para a srta. Morstan. — Sou um homem muito doente, e há tempos que tinha as minhas suspeitas sobre essa válvula. Estou encantado por saber que eram infundadas. Se o seu pai, srta. Morstan, não abusasse do coração como abusou, talvez ainda estivesse vivo.

Tive vontade de esbofeteá-lo, tão indignado fiquei ante essa referência grosseira e intempestiva a um assunto tão delicado. A srta. Morstan sentou-se sem uma gota de sangue no rosto.

— Eu tinha a íntima certeza de que ele estava morto — disse ela.

— Posso dar-lhe todas as informações — acrescentou ele —, e mais, posso fazer-lhe justiça. E certamente a farei, diga o que disser meu irmão Bartholomew. Tenho muito prazer em ver os seus amigos aqui, não apenas como seus acompanhantes, mas também como testemunhas do que vou fazer e dizer. Poderemos comparecer os três de cabeça erguida perante meu irmão Bartholomew. Mas nada de estranhos... de policiais ou autoridades. Podemos resolver tudo satisfatoriamente entre nós, sem qualquer interferência. Nada aborreceria tanto o irmão Bartholomew como a publicidade.

Dito isso, sentou-se num canapé baixo e pousou inquisidoramente em nós os seus olhos azuis, piscos e lacrimejantes.

— Da minha parte — disse Holmes —, tudo o que o senhor possa dizer não sairá daqui.

Concordei com um aceno de cabeça.

— Excelente! Excelente! — disse ele. — Posso oferecer-lhe um copo de chianti, srta. Morstan? Ou de tócai? Não tenho outros vinhos. Abro uma garrafa? Não? Muito bem, então espero que não se oponha ao fumo, ao balsâmico odor do tabaco oriental. Estou um pouco nervoso, e o meu narguilé é um precioso sedativo.

Aproximou a chama de uma vela do recipiente bojudo, e a fumaça começou a borbulhar alegremente através da água de rosas. Sentamo-nos os três em semicírculo, com a cabeça inclinada para a frente e o queixo nas mãos; e o estranho homenzinho dos trejeitos, de crânio pontudo e reluzente, ficou no centro, tirando baforadas inquietas.

— Logo que resolvi fazer-lhe essa comunicação — prosseguiu ele —, podia ter enviado o meu endereço, mas receei que a senhorita não ligasse ao meu pedido e trouxesse pessoas desagradáveis. Tomei a liberdade, por conseguinte, de marcar o encontro de tal maneira que o meu criado Williams pudesse vê-los primeiro. Tenho inteira confiança na discrição dele, e recomendei-lhe que não fizesse nada se a companhia não lhe agradasse.

Espero que me perdoem essas precauções, mas sou um homem de gostos um tanto discretos, e até poderia dizer requintados, de forma que para mim não há nada mais antiestético do que um policial. Tenho uma aversão natural a todas as formas de materialismo grosseiro. Raramente entro em contato com o populacho. Moro, como vêem, cercado por um ambiente de certa elegância.

Posso me chamar de padroeiro das artes. E a minha fraqueza. Essa paisagem é um Corot legítimo, e, embora um conhecedor tenha algumas dúvidas quanto a esse Salvador Rosa, não poderá haver nenhuma questão quanto ao Bouguereau. Inclino-me bastante pela moderna escola francesa.

— O senhor há de me desculpar, sr. Sholto — disse a srta. Morstan —, mas estou aqui a seu pedido para ouvir uma coisa que deseja me dizer. E muito tarde, e eu gostaria que esta conversa fosse a mais breve possível.

— De qualquer modo, levará algum tempo respondeu ele —, pois com certeza teremos de ir a Norwood para ver meu irmão Bartholomew. Iremos todos, e tentaremos acalmar meu irmão. Ele está furioso comigo por eu ter tomado a atitude que me pareceu correta. Tivemos uma acalorada troca de palavras ontem à noite. Os senhores não imaginam como ele é terrível quando se enfurece.

— Se vamos a Norwood, talvez fosse conveniente partirmos imediatamente —

aventurei-me a observar.

Ele riu até ficar com as orelhas vermelhas.

— Isso não adiantaria nada — disse. — Não sei o que ele seria capaz de dizer se eu os levasse assim de repente. Não, preciso prepará-los primeiro, definindo a situação em que estamos. Inicialmente, devo dizer-lhes que há diversos pontos da história que eu próprio ignoro. Posso apenas expor-lhes os fatos até onde os sei.

“Meu pai”, prosseguiu o homenzinho, “como já devem ter adivinhado, era o major John Sholto, do exército indiano. Ele se aposentou há uns onze anos, e foi morar na Pondicherry Lodge, em Upper Norwood. Como tinha prosperado na índia, trouxe consigo uma considerável soma de dinheiro, uma grande coleção de curiosidades valiosas e um séquito de criados nativos. Com essas vantagens, comprou uma casa para si e começou a viver em grande luxo. Meu irmão gêmeo, Bartholomew, e eu éramos os únicos filhos.

“Lembro-me muito bem da sensação causada pelo desaparecimento do capitão Morstan. Lemos os pormenores nos jornais e, sabendo que ele fora grande amigo de nosso pai, discutimos livremente o caso na sua presença. Ele se unia às nossas especulações quanto ao que teria acontecido. Nunca, sequer por um instante, suspeitamos que ele tivesse todo o segredo guardado no peito, e que, de todos, era o único a saber do destino de Arthur Morstan.

“Sabíamos, no entanto, que algum mistério, que algum perigo positivo pairava sobre o nosso pai. Ele tinha muito medo de sair sozinho, e sempre teve ao seu serviço dois guarda-costas disfarçados de porteiros da Pondicherry Lodge. Williams, que os trouxe aqui esta noite, era um deles. Já foi campeão de boxe, na Inglaterra, entre os lutadores de peso leve. Nosso pai nunca nos revelou o que temia, mas demonstrava enorme aversão por homens com perna de pau. Uma ocasião, chegou a disparar o revólver contra um homem sem uma perna, para depois verificar que o homem não passava de um inofensivo vendedor exercendo o seu trabalho. Tivemos de pagar uma grande quantia para abafar o assunto. Meu irmão e eu costumávamos pensar que aquilo era apenas um capricho de nosso pai, mas posteriormente os acontecimentos nos levaram a mudar de opinião.

“Em princípio de 1882, meu pai recebeu uma carta da India que lhe causou grande abalo. Quase desmaiou à mesa do almoço quando a abriu, e desde esse dia foi sempre piorando até que morreu. Nunca pudemos descobrir o que continha a carta, mas, enquanto ele a segurou na mão, vi que era breve e garatujada em péssima letra. Havia muitos anos que ele sofria de dilatação do baço, mas piorou rapidamente, e em fins de abril fomos informados de que não havia mais esperanças e que ele desejava falar conosco pela última vez.

“Quando entramos no quarto, ele estava soerguido nos travesseiros e respirava com dificuldade. Suplicou-nos que fechássemos a porta e nos aproximássemos do leito, um de cada lado. Depois, agarrando-nos as mãos, fez-nos uma singular declaração, em voz entrecortada pela dor e pela comoção. Procurarei reproduzi-la nas suas próprias palavras:

“‘Tenho somente uma coisa me pesando na consciência, neste momento supremo. E a maneira como tenho tratado a órfã do pobre Morstan. Esta maldita ambição, que foi o meu constante pecado através da existência, tem roubado o tesouro cuja metade, pelo menos, devia ser dela. Contudo, ainda não toquei nele, tão cega e insensata é a avareza, O simples sentimento de posse tem sido tão caro a mim, que nunca pude suportar a idéia de dividi-lo com alguém. Vêem essa grinalda de pérolas ao lado do frasco de quinino? Pois até disso não pude me separar, embora a tenha tirado com a intenção de mandar a ela. Vocês, meus filhos, lhe darão uma justa parte do tesouro de Agra. Mas não lhe mandem nada. . . nem mesmo a grinalda. . . antes de eu falecer. Afinal de contas, muitos homens têm estado tão mal como eu e conseguiram escapar.

“‘Vou lhes dizer como morreu Morstan’, continuou meu pai. ‘Havia muitos anos que ele sofria do coração, mas não dizia isso a ninguém. Só eu sabia.

Quando estávamos na Índia, ele e eu, por um singular conjunto de circunstâncias, entramos na posse de um considerável tesouro. Eu o trouxe comigo para a Inglaterra, e, na noite em que Morstan chegou, veio imediatamente aqui a fim de levar a sua parte. Veio da estação a pé e foi recebido pelo meu fiel e velho Lal Chowdar, que já faleceu. Morstan e eu tivemos opiniões opostas quanto à divisão do tesouro, e trocamos palavras acaloradas. Ele acabava de saltar da cadeira, num ímpeto de cólera, quando levou subitamente a mão ao peito, com o rosto arroxeado, e caiu para trás, batendo a cabeça na quina da arca onde estava o tesouro. Inclinando-me sobre ele, vi, horrorizado, que estava morto.

“‘Durante longo tempo, fiquei atordoado na minha cadeira, sem saber o que fazer, O meu primeiro impulso, naturalmente, foi pedir auxílio; mas não podia deixar de reconhecer que, segundo todas as probabilidades, seria acusado de tê-lo assassinado. A sua morte, ocorrida num momento de discussão, e aquele ferimento na cabeça, seriam provas irremovíveis. Além disso, um inquérito oficial não deixaria de evidenciar certos fatos acerca do tesouro, fatos que eu ansiosamente desejava manter em segredo. Morstan dissera- me que ninguém no mundo sabia aonde ele tinha ido. E não me parecia haver necessidade de que o soubessem agora.

“‘Estava ainda pensando no assunto, quando, erguendo os olhos, vi meu criado, Lal Chowdar, no limiar da porta. Esgueirou-se para dentro e trancou-a.

‘— Não tema, sahib — disse ele; — ninguém precisa saber que o senhor o matou. Vamos escondê-lo e ver quem pode mais!

“‘Repliquei-lhe que não o tinha matado, mas Lal Chowdar meneou a cabeça e sorriu.

“‘Ouvi tudo, sahib — disse ele; — ouvi a discussão e o golpe. Mas os meus lábios estão fechados. Todos estão dormindo. Podemos tirá-lo daqui.

“‘Aquilo foi o bastante para me decidir. Se o meu próprio criado não podia acreditar na minha inocência, como esperar que ela ficasse provada perante doze comerciantes idiotas num tribunal? Lal Chowdar e eu demos sumiço no corpo nessa mesma noite, e poucos dias depois os jornais londrinos noticiavam o misterioso desaparecimento do capitão Morstan. Vocês verão, pelo que lhes digo, que não tenho a menor culpa. A minha única falta está no fato de que escondemos não apenas o corpo, como também o tesouro, e que tenho-me aferrado ao quinhão de Morstan como se fosse meu. Desejo, por isso, que façam a restituição. Aproximem- se para ouvir-me. O tesouro está escondido em... ’

“Nesse instante”, prosseguiu o homenzinho da calva reluzente, “uma horrível transformação ocorreu na fisionomia de meu pai. Seus olhos se arregalaram, seu queixo caiu, e ele gritou numa voz que nunca poderei esquecer:

“‘Não o deixem entrar! Pelo amor de Deus, não o deixem entrar!’

“Voltamo-nos para a janela, onde ele tinha os olhos pregados. Um rosto olhava da escuridão. Distinguíamos perfeitamente o branco do nariz achatado contra a vidraça. Era um rosto barbudo, cabeludo, com olhos selvagens, cruéis, e uma expressão de concentrada malevolência. Meu irmão e eu corremos para a janela, mas o homem já havia desaparecido. Quando voltamos para junto de meu pai, sua cabeça tinha tombado e o coração cessara de bater.

“Esquadrinhamos o jardim, nessa noite, mas não encontramos nenhum sinal do intruso, exceto a marca de um só pé, deixada no canteiro, junto à janela. Se não fosse esse único traço, bem podíamos ter pensado que a nossa imaginação é que conjecturara aquele rosto selvagem e cruel. Todavia, tivemos em seguida uma prova ainda mais forte de que forças secretas trabalhavam em torno de nós. Na manhã seguinte, a janela do quarto de meu pai foi encontrada aberta, e os seus armários e malas, na mais completa desordem. Na cômoda, estava afixado um pedaço de papel, e nele se viam garatujadas as palavras: ‘O

signo dos quatro’. Nunca soubemos o que essa frase significava, nem quem pudesse ter sido o nosso visitante. Até onde posso julgar, nenhum objeto de meu pai fora roubado, mas tudo tinha sido remexido. Meu irmão e eu, naturalmente, ligamos esse singular incidente ao medo que acossava meu pai durante a sua existência; mas ainda é um completo mistério para nós.”

O homenzinho interrompeu-se para reacender o seu narguilé e ficou alguns instantes fumando pensativamente. Sentados nos nossos lugares, absortos, tínhamos ouvido a sua extraordinária narrativa. Durante o breve relato da morte do pai da srta. Morstan, ela ficara mortalmente pálida, e por um instante receei que fosse desmaiar. Refez-se, contudo, bebendo o copo de água que discretamente lhe servi de uma garrafa veneziana que estava sobre uma mesinha a meu lado. Sherlock Holmes continuava recostado na sua cadeira com uma expressão abstrata, de pálpebras meio descidas sobre os olhos cintilantes. Ao observá-lo, não pude deixar de recordar o quanto, nesse mesmo dia, ele se queixara da banalidade da vida. Ali, ao menos, estava um problema que exigiria o máximo da sua sagacidade. O sr. Thaddeus Sholto olhava de um para outro de nós com evidente orgulho pelo efeito causado pela sua história, e então prosseguiu, entre baforadas do seu desmesurado cachimbo:

— Meu irmão e eu ficamos, como podem imaginar, muito alvoroçados com o tesouro de que meu pai havia f a- lado. Durante semanas e meses, cavamos e revolvemos todos os recantos do jardim sem descobrir seu paradeiro. Era de enlouquecer pensar que o esconderijo estava nos seus lábios no momento em que morreu. Podíamos avaliar o esplendor das riquezas desaparecidas pela grinalda que ele tirara. Quanto a essa grinálda, meu irmão e eu tivemos uma pequena discussão. As pérolas eram evidentemente de grande valor, e ele não aceitava a idéia de se separar delas, pois, aqui entre amigos, também ele tinha certa tendência para o defeito de meu pai. Pensava, além disso, que, se nos desfizéssemos da grinalda, talvez pudéssemos nos meter em apuros. Tudo o que pude fazer foi persuadi-lo a que me deixasse descobrir o endereço da srta.

Morstan e mandar-lhe uma pérola a intervalos determinados, a fim de que pelo menos ela nunca passasse necessidades.

— Foi uma idéia comovente — disse a nossa companheira gravemente. — Foi grande bondade da sua parte.

O homenzinho ondulou a mão num gesto depreciativo.

— Nós lhe éramos devedores — disse ele. — Pelo menos, era essa a minha maneira de ver, embora meu irmão Bartholomew não tivesse a mesma opinião.

Ambos tínhamos dinheiro bastante. Eu não desejava mais. Além disso, era de muito mau gosto tratar uma jovem de modo tão mesquinho. Le mauvais goüt mène au crime [1]. Os franceses têm uma maneira incisiva de dizer essas coisas. Nossa diferença de opiniões foi tão longe que achei melhor morar separado, e deixei o Pondicherry Lodge, trazendo comigo Williams e o velho kbitmutgar. Ontem, porém, soube que tinha ocorrido um fato de extrema importância. O tesouro fora descoberto. Comuniquei-me imediatamente com a srta. Morstan, e agora só nos resta ir a Norwood e solicitar a nossa parte.

Ontem à noite, expliquei o meu ponto de vista a meu irmão Bartholomew, de forma que pelo menos seremos visitantes esperados, se não bem-vindos.

O sr. Thaddeus Sholto cessou de falar, mas não de se remexer no seu luxuoso canapé. Todos ficamos em silêncio, pensando no novo aspecto que o misterioso assunto havia tomado. Holmes foi o primeiro a se levantar.

— O senhor procedeu muito bem do princípio ao fim disse ele. — É possível que possamos lhe conceder uma pequena retribuição por ter trazido alguma luz sobre o que para o senhor continua obscuro. Mas, como a srta. Morstan ainda há pouco observou, já é tarde e convém irmos adiante sem demora.

O nosso novo amigo enrolou meticulosamente o tubo do seu narguilé e tirou de trás de uma cortina um comprido sobretudo com gola e punho de astracã, abotoado com ala- mares. Fechou-o até em cima, a despeito da noite abafada, e deu um toque final na sua indumentária com um boné de pele de coelho cujas abas lhe cobriam as orelhas, de forma que nada se via dele além do rosto móvel e comprido.

— Minha saúde é um pouco frágil — observou ele, ao conduzir-nos pelo corredor. — Sou obrigado a proceder como um enfermo.