O tiro final e outros contos sensacionais por Arthur Conan Doyle - Versão HTML

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Sir Arthur Conan Doyle

O Tiro Final

& Outros Contos

Sensacionais

Tradução de:

Fernando B. Ximenes

Índice

Introdução

O Tiro Final

O Pastor de Jackman's Gulch

O Vexame de Los Amigos

O Médico Negro

O Peitoral do Judeu

Introdução

Sir Arthur Conan Doyle nasceu em Edin-

burgo, em 22 de maio de 1859 e morreu em

Crowborough (Sussex), em 7 de julho de

1930. Filho de uma família católica, iniciou

seus estudos com os jesuítas de Stonyhurt e,

assim que se formou em Medicina, na sua

cidade natal, viajou como medico naval pelos

mares árticos e litorais africano. Mais tarde,

participou nas campanhas do Sudão e África

do Sul, assim como na Guerra Européia, e fez

conferências em quase todo o mundo. Ao

mesmo tempo em que exercia a Medicina,

dedicava-se a escrever novelas policiais. O

êxito de seu primeiro livro A Study in Scarlet

(1887) — publicado por esta editora com o tit-

ulo de Um Estudo em Vermelho — o levou a

abandonar de vez a atividade medica e

entregar-se a literatura. Escreveu outras his-

torias no mesmo estilo, entre as quais as mais

famosas integrantes, a série de aventuras de

Sherlock Holmes. Nestas obras, que iniciam o

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gênero baseado na solução lógico-psicologica

dos casos mais intrincados e misteriosos, a

figura do brilhante detetive Sherlock Holmes

contrasta com a do sóbrio cronista de suas

aventuras, o Dr. Watson. O personagem cri-

ado por Conan Doyle tornou-se tão popular

que suas historias for am filmadas para o

cinema, com William Gilette no papel prin-

cipal. Conan Doyle também e autor de nov-

elas históricas, como Micah Clarke (1889),

The White Company (1891) e The Exploits of

Brigadier Guard (1896), bem como opúsculos

de propaganda patriótica, os quais lhe pro-

porcionaram o titulo de cavalheiro: The

Great Boer War (1900), The War in South

Africa (1902), Cause and Conduct of the

World War. Em 1900, Sir Henry Irving rep-

resentou com êxito a comédia The Story of

Waterloo, de Conan Doyle. Durante os últi-

mos anos de sua vida aficcionou-se com

paixão pelo espiritismo e ciências ocultas, que serviram-lhe de inspiração para as obras La

Nueva Revelacion (1918), The Wandering of a

Spiritualist (1921) e History of Spiritualisme

(1926). Sherlock Holmes foi um, dos persona-

gens mais populares da literatura européia

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no primeiro quarto do século e deu lugar a

uma série interminável de figuras nele

inspiradas.

Para uma compreensão mais clara da

extraordinária

personalidade

de

Conan

Doyle, e precise que se de importância a sua

paixão pelo método de detecção que o levou a

preocupar-se com a vida tanto quanto com a

morte. Ao interessar-se pela Medicina (a of-

talmologia, em particular) e posteriormente

pelo mundo invisível e sua documentação,

tentou eliminar todo o supérfluo de dentro de

si, com a finalidade única de alcançar a es-

sência, num ritmo de vida que hoje seria

muito natural, mas na época em que viveu

era considerado frenético pelas outras pess-

oas. Em todos os seus escritos, percebe-se o

compromisso de refinar o método adotado

por ele para detectar, definir, determinar e

solucionar o mistério da vida e da morte. Seu

interesse sincero por todos os povos e todas

as coisas o tornou um cientista, cuja ciência

era a vida, e definiu o seu exercício como o

conhecimento e a experiência especiais

capazes de transformá-la na magia da arte.

Seu maior desejo era dividir seus dons com

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todas as pessoas, fossem quem fossem, ainda

que isso lhe saísse caro.

Quando Sir Arthur falava em "terror", tinha uma explicação muito pessoal. Ele

acreditava que o cérebro humano se com-

punha de camadas sucessivas capazes de ser-

em investigadas, sob determinadas circun-

stancias, por aqueles que tivessem o poder de

vislumbrar o invisível ou o sobrenatural.

Para ele, o cérebro era uma casa com muitos

quartos, alguns cheios de luz, outros escuros.

Sua nora, Nina C. D. Harwood, traduziu em

palavras mais acessíveis suas idéias sobre o

terror: "A pessoa que não vê além do que lhe mostram os olhos e envolvida pelo olhar do

sobrenatural, a quem nada escapa, e disso

resulta a marca indelével do terror numa ca-

mada Até então adormecida do seu cérebro."

Nenhuma curiosidade, nenhum detalhe

da vida ou de seus legados, por mais di-

minuto que fosse, deixava de merecer a

atenção de Conan Doyle ou escapava da sua

visão cósmica.

O perfil que acabou de ser traçado da

sua personalidade somado com a qualidade

da sua obra conhecida mundialmente, são

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provas irrefutáveis de que Conan Doyle foi

uma pessoa especial, que não passou simples-

mente por esse mundo, mas viveu in-

tensamente cada minuto da sua vida,

preocupou-se com. todos os mistérios que en-

volvem o ser humano e deixou uma

mensagem expressa nas linhas de cada his-

toria que escreveu. Sua obra e imortal; deve

ser editada e reeditada sempre, para que, at-

ravés das gerações, toda a humanidade

tenha o privilegio de desfrutar de momentos

preciosos ao lado de um de seus mais geniais

representantes.

Ao lançarmos os Contos de Crime, Ter-

ror e Mistério, pretendemos levar ao publico

uma parte da obra de Conan Doyle inédita no

Brasil. São historias excelentes que permane-

ceram quase inacessíveis durante muitos

anos. Embora Holmes e o Dr. Watson não

façam parte de nenhuma delas, algumas tem

fortes características sherlockianas, como e o

caso de O Gato Brasileiro, O Mistério de Sas-

assa Valey e, principalmente, As Recordações

do Capitão Wilkie. A maioria, porém, difere

bastante do estilo de Holmes, seja pelo alto

grau de suspense, pelo humor — do qual

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Holmes era totalmente desprovido ou par

tratarem do sobrenatural — que o detetive de

Baker Street abominava. Trata-se, portanto,

de pequenas obras-primas que constituem a

nata da obra curta de crime, terror e mistério

de Sir Arthur Conan Doyle.

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O Tiro Final

"O Tiro Final" é, sem duvida, a peça mais rara desta Seleção, e provavelmente a mais rara de tantas quantas foram publicadas por Doyle. Este editor só tem conhecimento da existência de quatro exemplares, e até hoje ela nunca foi relançada.

A história foi publicada originalmente em Lon-

dres por John Dicks numa brochura intitulada "An Actor's Duel and The Winning Shot", com autoria 11/184

atribuída a Conan Doyle. O curioso livreto e, na verdade, o catálogo da editora John Dicks para o ano de 1894, no qual foram incluídas as duas historias citadas no titulo para lhe dar apelo comercial e permitir a sua venda nas bancas de jornais. "An Actor's Duel", apesar de evidencias apontando no sentido de sua venda ou, pelo menos, sua oferta a revista Blackwood, não foi escrita por Conan Doyle; sobre isto, o editor desta coletânea não tem a menor duvida. Trata-se de uma historieta insípida, arrastada e descosida sobre a vingança de um ator, no palco, contra um colega que arruinara sua filha. Não há nada de Conan Doyle em seu estilo. E não seria, de modo algum, a primeira vez que seu nome era associado a uma obra de outro

autor por um editor inescrupuloso.

"O Tiro Final", por outro lado, e Conan Doyle no melhor da sua forma. E surpreendente que uma editora de terceira categoria, como a de John Dicks, tivesse conseguido publicá-la, pois se não for a melhor de Doyle, e excepcionalmente bem escrita e pertence a fase em que ele uniu a compulsão sexual aos temas sobrenaturais, e da qual "O Parasita" e o exemplo su-premo. O artifício de fazer com que a historia fosse contada na primeira pessoa por uma jovem mulher também não e inédito na obra de Conan Doyle. Antes, num conto humorístico intitulado "Our Derby 12/184

Sweepstakes", de 1882, ele já fizera a mesma coisa com igual credibilidade. Doyle estava sempre se aventurando, aparentemente sem maiores dificuldades, em novos campos da arte de contar histórias, e quase sempre com sucesso.

"Aviso: esteja a população advertida contra um homem que se diz chamar Octavius Caster. Ele pode

ser reconhecido pela grande estatura, pelos cabelos cor de linho, e por uma feia cicatriz no lado esquerdo do rosto, indo desde o olho até o canto da boca. Sua pre-dileção por cores vivas — gravatas verdes, etc. — talvez facilite a sua identificação. Um ligeiro sotaque de outras terras pode ser notado em sua fala. Este homem es-ta fora do alcance da lei, poréme mais perigoso que um cão danado. Evitem-no como quem evita a peste que

caminha a luz do dia. Qualquer comunicado quanto ao seu

paradeiro

será

recebido

com

os

devidos

cumprimentos por A.C.U., Lincoln Inn., Londres."

Esta é a íntegra de um anúncio que deve ter sido

visto por muitos leitores nas colunas dos matutinos de Londres na primeira metade do ano corrente. Acredito, inclusive, que tenha suscitado uma razoável curiosidade em certos meios, e diversos palpites foram oferecidos quanto a identidade de Octavius Caster e a

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natureza das acusações que contra ele pesavam.

Quando afirmo que o "aviso" foi publicado por meu irmão mais velho, Arthur Cooper Underwood, advogado e meu representante legal, espero o meu reconhecimento como a pessoa mais capacitada a fazer um

esclarecimento autêntico a respeito dos motivos que nos levaram a procurar os jornais.

Até aqui o horror e a vacuidade das minhas sus-

peitas, aliados ao sofrimento da perda de meu querido noivo na véspera do nosso casamento, me impediram

de revelar estes fatos. Entretanto, agora, rememorando tudo, encontro uma ligação entre muitos pequenos detalhes que a época passaram quase desapercebidos e

que formam uma cadeia de evidências capazes de inst-igar a imaginação do publico, embora inútil num

tribunal de justiça. Relatarei, portanto, sem exagero ou preconceito, tudo o que ocorreu desde o dia em que

este homem, Octavius Caster, entrou em Toynby Hall

até a realização do grande torneio de tiro. Eu sei que muita gente ridiculariza o sobrenatural, ou o que nossos pobres intelectos preferem considerar sobrenatural, e que o fato de ser eu uma mulher, contribuíra ainda mais para reduzir o impacto das minhas palavras. Só posso jurar aqui que nunca fui uma mulher impressionável ou fraca de espírito, e que outros cidadãos 14/184

vieram a partilhar da mesma opinião que formei acerca de Octavius Caster. Agora, a história.

Era na casa do Coronel Pillar, em Roborough, no

aprazível condado de Devon, que passávamos os feriados de outono. Nesta ocasião, eu estava noiva de seu filho mais velho, Charley, há alguns meses, e esperávamos marcar o casamento para antes do término das

ferias de verão. Ninguém duvidava de que Charley conseguiria o diploma, e de todo modo era rico o bastante para viver uma vida independente, enquanto que eu

mesma não fora abandonada pela sorte. O velho Cor-

onel estava satisfeitíssimo com a perspectiva do matri-monio, assim como a minha mãe. Para onde quer que

olhássemos, não havia o menor sinal de nuvens no horizonte. Ninguém duvide, portanto, se eu disser que passamos um mês de agosto encantador. Até o mais

desgraçado dos mortais teria posto suas penas de lado sob a influência feliz dos moradores de Toynby Hall.

Lá estava o Tenente Daseby, ou "Jack", como era invariavelmente chamado, recém-vindo do Japão no

navio Shark da marinha de Sua Majestade, e que des-

frutava de uma situação igual a nossa com Fanny Pillar, irmã de Charley, de maneira que dávamos uma espécie de apoio moral uns aos outros.

Lá estava, também, Harry, irmão mais novo de

Charley, e Trevor, seu melhor amigo em Cambridge.

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Por fim, lá estava a minha mãe, a mais doce de

todas as mães, observando-nos deliciada através de

seus óculos de aro de ouro, aparando solicita todas as arestas que surgissem entre os dois casais, e sempre disposta a expor a eles suas próprias duvidas e medos e perplexidades quando o jovem e atlético Mr. Nicholas Underwood foi cortejá-la nas províncias e esqueceu das filhas de Crockford e Tattersall pelo amor da filha de um ministro religioso do interior.

Não posso, contudo, esquecer o velho e galante

guerreiro que era o nosso anfitrião; com suas piadas antigas, sua gota e sua pose inofensiva de bicho feroz.

— Não sei o que anda acontecendo com o velho

ultimamente — comentava Charley. — Ele não xingou a administração Liberal uma única vez desde que você

veio para cá, Lottie; e eu acho que se ele não arranjar um meio de descarregar a irritação bem depressa, a

questão irlandesa tomara conta do organismo do meu

pobre pai, ai, será o fim.

Talvez na privacidade de seus aposentos o veter-

ano militar aproveitasse para compensar a auto-abneg-ação do dia. Ele parecia gostar de mim com um jeito to-do especial, me dedicando uma infinidade de pequenas gentilezas e atenções.

— Você e uma boa menina — comentou ele certa

noite, depois de ter bebido muito vinho do Porto. —

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Que sujeito sortudo, o Charlie! Ele tem mais bom gosto do que eu imaginava. Anote bem as minhas palavras,

Miss Underwood: a senhorita descobrira que esse

jovem cavalheiro não e tão bobo quanto parece!

Feito este elogio torto, o Coronel cobriu o rosto

solenemente com o seu lenço e mergulhou na terra dos sonhos.

Nunca hei de esquecer o dia em que começou a

nossa desgraça! O jantar havia terminado, e estávamos na sala de estar, com todas as janelas abertas, para que entrasse a brisa odorosa do sul. Minha mãe se sentara num canto, entregue aos seus bordados, que só largava para nos ofertar, de vez em quando, um dos seus truísmos que, aquela alma bondosa, se afiguravam como

comentários originalíssimos, fundados exclusivamente na sua experiência pessoal. Fanny e o Tenente estavam de namorico no sofá, enquanto Charley andava de um

lado para o outro, impaciente. Eu me sentara a janela, olhando sonhadora para as grandes florestas de Dart-moor, que se estendiam até a linha do horizonte,

douradas e luminosas a luz do sol poente, exceto onde uns poucos outeiros impunham seu contorno forte contra o fundo vermelho de céu.

— Não dá, não dá — disse Charley, vindo até

perto de mim na janela. — E uma vergonha desperdiçar um entardecer como este assim sem fazer nada.

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— Que se dane o entardecer! — exclamou Jack

Daseby. — Você está sempre se martirizando com as

horas. Fan e eu não saímos daqui por nada neste

mundo; não é verdade, Fan?

A mocinha anunciou a sua intenção de permane-

cer aninhada entre as almofadas, olhando desafiadora para o irmão.

Esses namorados apaixonados são uma coisa

desmoralizante, você não acha, Lottie? — perguntou

Charley zombeteiro.

Vexaminosos — respondi.

E eu me lembro de quando Daseby era o sujeito

mais ativo de Devon; olhe só para ele agora! Fanny, Fanny, veja só o que você fez deste homem!

Não ligue para ele, meu rapaz — disse minha

mãe de seu cantinho. — Mesmo assim, a experiência

me ensinou que a moderação e uma qualidade preciosa nos moços. O falecido Nicholas também pensava assim.

Ele nunca se deitava a noite sem antes ter pulado de um lado a outro do tapete da sala. Eu costumava

chamar a sua atenção para o perigo, mas ele não ligava, Até que uma noite caiu sobre o guarda-fogo e distendeu um músculo da perna; depois, ele mancou até o dia da morte, porque o Doutor Pearson pensou que fosse uma fratura óssea e colocou uma tala, e a tala endureceu a articulação do joelho.

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Minha mãe tinha uma capacidade incrível de di-

vagação e, freqüentemente, perdia-se em casos paralel-os sem conseguir encontrar o caminho de volta ao assunto do comentário. Nesta ocasião, porem, Charley o havia guardado na memória, pois vira a possibilidade de aplicação imediata.

— Uma observação excelente, Mrs. Underwood

— admitiu ele. — Nos sequer pusemos os pés fora de

casa hoje. Lottie, ainda temos uma hora de sol. Que tal irmos pescar trutas? Se a sua mãe não tiver objeções, é claro!

— Ponha alguma coisa no pescoço, querida —

disse minha mãe, percebendo que fora vencida com

seus próprios argumentos.

— Esta bem, mamãe — respondi. — Vou dar um

pulo no quarto para trazer o meu chapéu, também.

— E uma boa idéia; quando voltarmos, já vai es-

tar quase escuro — disse Charley, enquanto eu me en-caminhava para a porta.

Quando desci, encontrei meu noivo aguardando

impaciente com seus apetrechos de pesca no saguão.

Atravessamos juntos os jardins e passamos por baixo dos janelões abertos da sala de estar, onde três rostos irônicos nos contemplavam.

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— Esses namoros apaixonados são uma coisa

desmoralizante — disse Jack, olhando pensativo para as nuvens.

— Vexaminosos — acrescentou Fan.

E os três riram até o ponto de acordarem o

cansado Coronel; ouvimos, lá de fora, os esforços que eles faziam para explicar ao veterano pouco habituado a sutilezas o motive da brincadeira. Aparentemente, nada seria capaz de fazê-lo apreciar a piada.

Descemos juntos o caminhozinho cheio de

curvas e atravessamos o portão de madeira que da para Tavistock Road. Charley diminuiu o passo, já do outro lado, como se indeciso quanto ao rumo que tomar. Se ao menos soubéssemos que o nosso destino dependia

de uma coisa tão trivial!

Vamos seguir até o rio, querida, ou você prefere

um dos regatos da charneca?

Como você quiser — respondi.

— Então eu voto pela charneca. Assim, o trajeto

será mais longo depois que a noite cair.

Charley lançou um olhar amoroso a figurinha de

xale branco que o acompanhava.

O regato a que ele se referia atravessava uma re-

gião quase desértica do condado; pela trilha que escol-hemos, ele ficava a algumas milhas de Toynby Hall;

mas como éramos jovens e saudáveis, seguimos em

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frente apesar das pedras e dos espinheiros. Não encon-tramos nenhuma criatura viva durante o nosso per-

curso solitário, a não ser alguns carneiros magricelas de Devonshire que nos espiavam assustados e nos

seguiam por dois ou três minutos, como se curiosos

com os motivos que nos levavam a invadir seus

domínios. Estava quase escuro quando atingimos o

regato, que desce rumorejante de uma ravina es-

carpada e corre em meandros até, a distância, desaguar no Plymouth. Acima de nos erguiam-se duas grandes

colunas de pedra, entre as quais a água escorria lenta para formar um laguinho parado e fundo. O laguinho

sempre fora um dos lugares preferidos de Charley, e a luz do, dia era um recanto gracioso; mas agora, com a lua nascente refletida em suas águas espelhadas e atir-ando sombras escuras contra as rochas suspensas, ele parecia tudo menos um local de encontro de duas pessoas apaixonadas.

— Para dizer a verdade, querida, acho que não

vou pescar — confessou Charley enquanto nos sentávamos a margem do laguinho, sobre o limo. — E um lugar esqui-sito, a esta hora, não e?

— Muito! — confirmei.

Um calafrio me correu pelas costas.

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Vamos só conversar, descansar um instante, e

depois retornamos pelo mesmo caminho. Você esta tre-mendo! Não é frio, é?

Não — confessei, tentando ativar a coragem. —

Não e frio. Eu estou assustada. Bobagem minha.

Bobagem? Não sei. Eu entendo. Também estou

me sentindo meio deprimido aqui. O barulho da água

mais parece o ronco da garganta de um moribundo.

Pare, Charley! Você quer me matar de medo?

Esta bem, esta bem, querida. Não vamos deixar

que isto aqui atrapalhe a nossa felicidade — disse ele, sorrindo e tentando me reconfortar. — Vamos fugir

logo deste ossuário e... Olhe! Veja!... Nossa! O que e aquilo?

Charley recuara, e olhava para cima pálido como

o nada. Segui a direção dos seus olhos, e mal contive um grito.

Eu já mencionei que o laguinho onde nos

encontra-vamos fica na base de uma escarpa. No alto dessa escarpa, uns sessenta pés acima das nossas

cabeças, aparecera uma figura alta, sombria, que aparentemente nos observava sem que tivéssemos nos dado conta. A lua acabara de apontar acima do vale, e o contorno magro e anguloso do estranho se destacava nítido e claro contra o seu brilho de prata.

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Havia algo de fantasmagórico no aparecimento

súbito e silencioso daquele homem desconhecido,

ainda mais quando associado a natureza rara do

cenário. Agarrei-me ao meu noivo aterrorizada, sem

voz, com o olhar grudado na figura que nos via do alto.

— Olá, como vai? — berrou Charley com

irritação.

Ele passara num segundo do medo a raiva, como

e costume entre os ingleses.

Quem e você? O que você esta fazendo ai? Diga

logo!

Eu sabia! Eu sabia! — disse o homem que nos

observava, e desapareceu da nossa vista.

Ouvimos seus passes tateantes entre as pedras

soltas, e em poucos minutos ele surgiu as margens do regato com o mesmo olhar fixo sobre nos. For mais pa-vorosa que tivesse sido a sua aparência quando o perce-bemos da primeira vez, a impressão se intensificava —

e não se diluía — com a proximidade. A lua que o banhava em cheio revelava um rosto fino e comprido, de uma palidez doentia, e este efeito era acentuado ainda mais pelo contraste com a sua gravata verde berrante.

Uma cicatriz no lado da face havia sido mal curada e re-puxava a boca para cima num dos cantos, distorcendo todas as suas feições, principalmente quando ele

tentava sorrir. A mochila nas suas costas e o cajado 23/184

grosso nas suas mãos o denunciavam como turista, enquanto a graça com que retirou o chapéu ao notar a

presença de uma senhorita mostrava que ele possuía o savoir faire de um homem do mundo. Havia um que

nas suas proporções angulares e no seu rosto lívido que, visto em conjunto com a capa preta que pendia

dos seus ombros, me fez recordar estranhamente o

morcego-vampiro que Jack Daseby trouxera do Japão

em sua viagem anterior e que era o bicho-papão do refeitório da criadagem em Toynby.

— Mil desculpas pela intromissão — disse ele,

com um leve sotaque estrangeiro, que emprestava uma beleza peculiar a sua voz. — Eu seria obrigado a dormir na charneca se não tivesse a boa sorte de encontrá-los aqui.

— Que historia e esta! — esbravejou Charley. —

For que você não chamou e nem nos deu algum aviso

de que estava lá? Miss Underwood ficou assustada, e com toda razão.

O estranho fez mais uma mesura com o chapéu

desculpando-se por ter provocado o constrangimento.

— Eu sou um viajante sueco — prosseguiu ele,

com a mesma entonação curiosa — e estou de visita a este seu lindo pais. Permita-me que me apresente: sou o Doutor Octavius Gaster. Talvez o senhor saiba me

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dizer onde posso dormir, e como se sai desta região, que e enorme e pouco habitada.

Foi muita sorte sua nos encontrar — disse Char-

ley. — Não e nada fácil atravessar a charneca.

Nem me diga! — confirmou o nosso novo

conhecido.

Muita gente de fora já foi achada morta por aqui

— prosseguiu Charley. — As pessoas se perdem e an-

dam em círculos até tombarem fatigadas.

Ha! Ha! — riu o sueco. — Logo eu, que vaguei

em barco aberto entre o Cabo Branco e as Canárias

morrer de fome numa charneca inglesa! Mas onde e

que ha uma hospedaria por aqui?

Ouça! — disse Charley, cujo interesse fora des-

pertado pela alusão do estranho e que, normalmente, era o mais cordial de todos os homens. — Não existe hospedaria num raio de muitas milhas; e eu suponho

que você já tenha caminhado bastante hoje. Venha a

nossa casa e meu pai, o Coronel, ficara encantado de conhecê-lo. Não lhe faltara uma cama para dormir.

Como posso agradecer a tanta gentileza da sua

parte? — quis saber o viajante. — Eu só sei que quando voltar a Suécia levarei boas historias dos ingleses e de sua hospitalidade!

Bobagem! disse Charley. — Vamos andando,

pois Miss Underwood esta com frio. Enrole bem o xale 25/184

no pescoço, meu bem. Não demoramos a chegar em

casa.

Seguimos em silêncio, tropeçando aqui e ali,

mantendo-nos o mais longe possível da trilha

pedregosa, perdendo-a de vista vez por outra quando uma nuvem cobria a face da lua e tornando a vê-la mais além com o retorno da luz. O estranho parecia imerso em pensamentos, porém tive a impressão de que me

estudava no escuro, enquanto andávamos os três lado a lado. Eu não gostei.

Quer dizer que você ficou a deriva num barco

aberto? — perguntou Charley, rompendo enfim o

silêncio.

Ah, sim, e verdade — respondeu o estranho. —

Eu já vi muita coisa na vida, e já venci muitos perigos, mas nenhum maior do que este. Porem o assunto e

triste demais para os ouvidos de uma dama. Eu já lhe pus muito medo hoje.

Não precisa ter receio de me assustar agora —

disse eu, apoiando-me no braço de Charley.

Compreendo. Mas ha tão pouco a contar, e tudo

tão triste! Um amigo meu, Karl Osgood, de Upsala, e eu próprio, abrimos uma firma comercial. Poucos homens brancos conviveram com os mouros de Cabo Branco

até hoje, mas apesar disso resolvemos ir e durante alguns meses estivemos lá, vendendo isto ou aquilo, e 26/184

amealhando marfim e ouro. E uma terra estranha,

onde não ha madeira nem pedra; as casas são feitas

com plantas marinhas. Quando afinal achamos que já

tínhamos ganhado o bastante, os mouros conspiraram

para nos matar, e nos atacaram durante a noite. Apesar da surpresa, conseguimos fugir até a praia e pular

numa canoa. Pusemo-nos ao mar, deixando tudo para

trás. Os mouros nos perseguiram, poréma escuridão

nos ajudou a despistá-los; quando o dia amanheceu,

não havia mais terra a vista. Antes das Canárias, não tínhamos nenhuma esperança de obter abrigo ou ali-mento, e foi para lá que seguimos. Eu cheguei vivo, embora muito fraco e quase louco; meu pobre amigo Karl faleceu um dia antes das ilhas surgirem no horizonte.

Eu bem que avisei! Não tenho culpa nenhuma pelo que aconteceu. Eu disse: "Karl, a forca que você vai ganhar comendo-as não compensa a perda de sangue!" Ele riu das minhas preocupações, retirou o facão do meu cinto, cortou as duas, comeu, e morreu.

Comeu o que? — perguntou Charlie.

As orelhas — explicou o estranho.

Eu e Charley nos entreolhamos horrorizados.

Não havia nem sombra de sorriso no rosto sério do

viajante. Não era uma brincadeira.

— Ele era um sujeito teimoso — prosseguiu. —

Mas ele sabia que uma coisa daquelas nunca poderia

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dar certo. Se tivesse usado a vontade, ele teria sobre-vivido como eu sobrevivi.

E você acha que a vontade de um homem pode

evitar que ele sinta fome? — perguntou Charley.

O que não pode fazer a vontade? — retrucou

Octavius Caster, e tornou a se fechar em silêncio até que chegamos enfim a Toynby Hall.

A nossa demora dera motivo a um quase alarme,

e Jack Daseby estava prestes a partir com Trevor,

amigo de Charley, para nos procurar. E de se imaginar, portanto, a alegria e o alivio que sentiram ao nos verem chegar sãos e salvos. Não foi menor o espanto causado pelo nosso acompanhante.

Onde e que vocês foram arranjar este cadáver de

segunda-mão? — perguntou Jack, levando Charley para um canto do salão de fumar.

Shhhh. Ele não e surdo — reclamou Charley. —

E um medico sueco em viagem pela Inglaterra, e um

ótimo sujeito também. Ele viajou num bote de Nao-sei-onde para Outro-lugar-qualquer. Eu lhe ofereci pouso por esta noite.

Está bom. Mas uma coisa eu garanto: um rosto

daquele não faz a fortuna de ninguém!

— Ha! Ha! Perfeito... perfeito! — riu-se o alvo da

observação, vindo calmamente para junto de nós para 28/184

desespero do marujo falastrão. — Não; corno vocês

dizem aqui, ele nunca fará a minha fortuna.

O homem começava a se sentir a vontade, e sor-

riu até que o talho medonho do seu rosto o fizesse parecer o reflexo de um espelho quebrado mais do que

qualquer outra coisa.

— Suba e tome um banho; eu lhe empresto um

par de chinelos — disse Charley, expulsando o estranho do salão com gentileza e pondo fim a uma situação até certo ponto embaraçosa.

O Coronel Pillar era um modelo de hospitalid-

ade, e recebeu o Doutor Caster efusivamente, como se fosse um velho amigo da família.

— Salve, senhor! A casa e sua, e pelo tempo que

quiser ficar será bem tratado. Tudo aqui e muito

parado, e uma visita vale ouro.

Minha mãe se mostrou mais reservada.

— Um rapaz muito bem informado, Lottie —

comentou ela comigo. — Mas eu gostaria que ele pis-

casse mais os olhos. Mesmo assim, querida, a vida me ensinou uma grande lição: a aparência do homem conta muito pouco se comparada aos seus atos... Não, eu não gosto de pessoas que nunca piscam; o que e que eu posso fazer?

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Com estas jóias de sabedoria original, minha

mãe me beijou e me deixou entregue a meus próprios

pensamentos.

Independentemente da sua figura, o Doutor

Octavius Gaster revelou-se um sucesso social, com toda certeza. Já no dia seguinte ele se instalara tão confortavelmente como membro da casa que o Coronel se-

quer admitia cogitar de sua partida. Ele assombrava a todos com a extensão e a variedade dos seus conhecimentos. Ele era capaz de contar ao velho Coronel mais coisas sobre a Criméia do que o próprio militar sabia; ele deu informações ao marinheiro sobre o litoral do Japão e até fez engasgar ao meu atlético noivo conversando sobre o remo, discursando sobre alavancas de

primeira ordem, pontos fixos e fulcros. Charley acabou vexado! Mas tudo isso era feito com tal modéstia, com tal respeito, que ninguém se sentia ofendido por ser derrotado em seu próprio terreno. Em tudo o que ele dizia e fazia notava-se uma forca tranqüila mas, ainda assim, impressionante.

Eu me lembro de um exemplo do que eu falo que

deixou a todos nos deslumbrados. Trevor possuía um

buldogue ferocíssimo que, apesar disso, adorava o dono e não admitia sob hipótese alguma que ninguém to-masse liberdades com ele. E fácil deduzir que o animal não gozava de grande popularidade ali; apesar disso, 30/184

em consideração ao orgulho que Trevor sentia dele,

tomou-se a decisão de não expulsar o cachorro, mas

apenas trancafiá-lo no estábulo com bastante espaço.

Desde o inicio, o bicho demonstrou uma profunda

aversão ao visitante, que só de aproximar-se provocava uma ver da exibição de todas as presas quantas haviam na sua bocarra. No segundo dia, passávamos todos juntos pela porta do estábulo quando os rosnados da criatura atraíram a atenção do Doutor Caster.

Ha! E o seu cachorro, Mr. Trevor, não e?

E o Towzer sim — admitiu Trevor.

Um buldogue, se não me engano: o chamado an-

imal nacional da Inglaterra, pelos habitantes do

Continente.

Puro-sangue

acrescentou

o

estudante,

orgulhoso.

São bichos feios, muito feios! Você se importa de

ir comigo ao estábulo e desatar a corrente dele para que eu possa observá-lo melhor? E uma pena manter um

animal tão forte e cheio de vida como este no cativeiro.

Ele morde — avisou Trevor, com uma expressão

zombeteira nos olhos. — Mas eu imagino que você não tenha medo de cachorros.

— Medo? Não. Por que eu haveria de ter medo?

O olhar zombeteiro de Trevor se intensificou no

momento em que ele abriu a porta. Ouvi Charley

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sussurrar algo para ele no sentido de que a gozação estava indo longe demais; poréma resposta de Trevor

ficou perdida em meio aos latidos que vinham lá de

dentro. O restante de nos recuou a uma distância respeitável, enquanto que Octavius Gaster permaneceu

diante da porta aberta com um ar de genuína curiosidade em seu rosto pálido.

Aquilo ali, vermelho e luminoso no escuro, são

os olhos dele?

São os olhos dele — disse o estudante,

agachando-se e desafivelando a correia.

Venha cá! — disse Octavius Gaster.

Os

latidos

e

rosnados

do

cachorro

transformaram-se, de repente, num longo ganido e, ao invés de arremeter furioso contra o intruso, como todos esperavam, ele se arrastou pela palha parecendo buscar abrigo num dos cantos do estábulo.

O que esta acontecendo com ele? Que diabo de

coisa e esta? — exclamou o seu dono perplexo.

Venha cá! — repetiu Gaster numa voz aguda e

metálica, com um tom irresistível de comando. —

Venha cá!

Para nosso assombro, o cachorro saiu de onde se

encontrava e foi até o seu lado, mas nem de longe se parecia com o Towzer agressivo que conhecíamos. Era inconcebível. Suas orelhas estavam caídas, sua cauda 32/184

abaixada, e de uma ponta a outra ele era a imagem perfeita da humilhação canina.

— Um belo cão, mas excessivamente tranqüilo —

comentou o sueco acariciando. — Agora, seu moco, vá embora!

O animal se virou e foi mansamente para o seu

canto. Ouvimos o barulho da sua corrente sendo afivelada, e no instante seguinte Trevor saia pela porta do estábulo com um dedo sangrando.

— Maldito cachorro! Não sei o que pode ter

acontecido com ele. Towzer esta comigo ha três anos e nunca me mordeu.

Eu suponho — não posso afirmar com certeza —

mas eu suponho que vi um tremor espasmódico na ci-

catriz do nosso visitante, o que denunciava uma in-

tenção de rir. Rememorando os fatos, acho que foi a partir daquele momenta que comecei a sentir um medo e uma aversão indefiníveis pelo homem.

Corriam as semanas, e o dia fixado para o

casamento começava a ficar próximo. Octavius Gaster continuava como hóspede de Toynby Hall e cativara o proprietário a tal ponto que qualquer menção a possibilidade de partida era recebida com risos e escárnio pelo bom soldado.

— Para cá você veio, e aqui ira ficar; ficar, com as graças de Deus!

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Ao que Octavius sorria e dava de ombros,

comentando em voz baixa os atrativos de Devon, o que deixava o Coronel de bom humor pelo menos Até o fim do dia.

Eu e meu noivo estávamos ocupados demais um

com o outro para prestar atenção aos movimentos do

viajante. Nós costumávamos encontrar com ele às vezes durante os nossos passeios pela floresta, sempre sentado e lendo em completa solidão. Ao nos ver por perto, ele invariavelmente guardava o livro no bolso. Eu me lembro de uma ocasião em que nos deparamos com ele

tão subitamente que o volume ainda estava aberto a

sua frente.

Ah, Gaster, estudando, como de costume! —

disse Charley. — Que velha traça, que rato de biblioteca fomos hospedar! Qual e o livro? Ah, um idioma estrangeiro! Sueco?

Não, não e sueco. E árabe — esclareceu Gaster.

Não vai me dizer que você lê árabe?

Leio bem; muito bem, para ser franco.

E o assunto qual e? — perguntei ao tempo em

que virava as páginas do volume antigo e sebento.

Nada que possa interessar a alguém tão jovem e

bonita como você, Miss Underwood — respondeu ele,

olhando-me da maneira que se tornara habitual ultimamente. — Ele trata dos dias em que a mente era mais 34/184

forte do que aquilo que vocês chamam de matéria; de quando viviam grandes espíritos capazes de existir sem esses nossos corpos grotescos e podiam moldar todas as coisas a sua vontade invencível.

— Ah, entendo! Uma espécie de história de fant-

asmas — disse Charley. — Adieu, Caster. Não queremos atrapalhar mais os seus estudos.

Deixamos o nosso hóspede sentado no pequeno

vale, ainda absorvido na leitura do seu tratado místico.

Deve ter sido a imaginação que me induziu a pensar tê-

lo visto de relance, tentando esconder sua figura conhecida atrás de uma arvore, dali a meia hora, mais ou menos, enquanto ainda caminhávamos pela floresta.

Mencionei a minha impressão a Charley, mas ele riu e debochou de mim.

Eu aludi, ha pouco, a maneira peculiar que esse

Caster tinha de olhar para mim. Seus olhos pareciam perder a expressão siderúrgica que possuíam normalmente, tornando-se suaves, eu diria quase que acarici-antes, a falta de um termo apropriado. Tenho a desconfiança de que eles me influenciavam estranhamente

pois, sem olhar para Caster, eu sabia dizer quando seu olhar estava voltado para mim. For diversas vezes

tentei convencer-me de que esta idéia se devia a algum problema do sistema nervoso ou a minha imaginação

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mórbida, porémminha mãe afastou este equivoco da

minha mente.

Você sabe de uma coisa engraçada? — perguntou

ela assim que entrou no meu quarto certa noite,

fechando cuidadosamente a porta ao passar. — Se não fosse um absurdo sem mais tamanho, Lottie, eu seria capaz de apostar que o doutor esta doido de paixão por você.

Que tolice, mamãe! — disse eu, quase deixando

cair a vela de tão consternada que fiquei com a

possibilidade.

— Eu não estou brincando, Lottie. E verdade —

prosseguiu minha mãe. — Ele fica olhando para você

embevecido, igualzinho ao seu pobre pai Nicholas olhava para mim antes de nos casarmos. E mais ou

menos assim.

Minha querida mãe lançou um olhar languido e

irremediavelmente triste a cabeceira da cama.

— Agora, já para o seu quarto! — ordenei. — E

chega de idéias malucas. O Doutor Caster sabe tanto quanto você que eu estou noiva e de casamento

marcado.

— O tempo dirá — concluiu a velha brincalhona

que e a minha mãe ao fechar a porta.

Mas eu fui para a cama com aquelas palavras

ainda ecoando nos ouvidos.

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Não deixa de ser muito estranho que naquela

mesma noite um tremor que começava a se tornar ha-

bitual me sacudiu e me acordou. Fui depressa até a

janela e olhei para o jardim através das laminas da veneziana, e lá estava a figura magra e vampiresca do nosso hóspede sueco de pé a entrada da casa, aparentemente observando a minha janela. Ele deve ter percebido o movimento da cortina pois, acendendo um ci-

garro, começou a caminhar de um lado para o outro da alameda. Reparei que durante o café da manha, no dia seguinte, ele se desdobrou em explicações sobre como não conseguira pegar no sono e só conseguira acalmar os nervos andando ao ar livre e fumando um cigarro.

Afinal, quando pude esfriar a cabeça e raciocinar

com mais serenidade, admiti que a aversão que eu sentia pelo homem e a desconfiança que ele me inspirava se baseavam em coisas muito pequenas. Um homem

tem o direito de ter ma aparência, de gostar de literatura exótica e até de olhar com admiração para uma jovem bonita, mesmo que noiva, sem se tornar com

isso um ser anti-social. Dou estas explicações para que vejam até que ponto eu não alimentava nenhum preconceito nas minhas opiniões acerca de Octavius

Caster.

— Pessoal, o que vocês acham de um piquenique

hoje? — propôs o Tenente Daseby certa manha.

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Maravilhoso! — exclamamos em uníssono.

Já estão comentando a partida do velho Shark

para breve, e Trevor terá que retornar aos seus

afazeres. Temos que aproveitar o pouco tempo que nos resta ao máximo.

O que significa piquenique? — perguntou o

Doutor Gaster.

É outra de nossas instituições britânicas que vo-

cê precisa estudar, Gaster — disse Charley. — É a nossa versão de um fête champêtre.

Compreendo. Vai ser uma ocasião muito alegre,

espero — concordou o sueco.

Podemos escolher entre meia dúzia de lugares —

prosseguiu o Tenente. — Ha Lover's Leap, ou Black

Tor, ou Beer Ferris Abbey.

— Este e o melhor lugar. Nada como ruínas para

um piquenique.

Que seja Beer Ferris Abbey, então. Alguém ai

sabe a distância exata?

Seis milhas — disse Trevor.

— Sete pela estrada — corrigiu o Coronel, com

precisão militar. — Mrs. Underwood e eu ficaremos em casa, e o resto do bando que se arranje na carroça.

Vocês estarão todos em boa companhia.

Não precise nem dizer que a sugestão foi aceita

por unanimidade.

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— Vou mandar que a carroça fique pronta para

daqui a duas horas, e portanto não podemos perder um segundo. Quero salmão, salada, ovos cozidos, uísque, e muito mais. Do uísque cuido eu. O que você vai fazer, Lottie?

Eu separo a louca — disse eu.

Eu levo o peixe — disse Daseby.

E eu dos legumes — acrescentou Fan.

O que você vai fazer, Caster? — perguntou

Charley.

Para falar a verdade — disse o sueco com sua voz

musical e seu estranho sotaque — nada resta para mim.

Mas eu posso ajudar as senhoritas a fazer o que vocês chamam de salada.

Você se tornara bem mais popular nesta nova

função do que na anterior — disse eu, rindo muito.

Ah, você acha? — disse Caster virando-se rápido

para mim e corando Até a raiz dos seus cabelos cor de palha. — Muito bem! Ha! Ha! Muito bem!

E com uma risada dissonante ele saiu da sala.

— Lottie — zangou meu noivo — assim você ma-

goa o homem.

— Mas eu não tive a intenção de ferir ninguém.

Se você quiser eu o procure e peço desculpas.

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— Ah, esqueça, Lottie. Deixe-o para lá. Um

sujeito com uma cara daquelas não tem o direito de ser tão sensível. Ele se recupera. Fique tranqüila.

Eu falava a verdade quando disse que não tive a

menor intenção de ofender Caster; mesmo assim, eu

me sentia triste por tê-lo incomodado. Depois que ar-rumei os pratos e talheres num cesto grande, fui ver o que os outros estavam fazendo; ninguém ainda terminara a sua parte. O momento me pareceu propicio para que eu me desculpasse daquele comentário impróprio; portanto, sem contar nada a ninguém, sai de mansinho e fui pelo corredor na direção do quarto do nosso hóspede. Eu devo ter caminhado muito de leve, ou talvez os grossos tapetes de Toynby Hall abafem todos os

sons. O certo e que Mr. Caster não percebeu a minha chegada. Sua porta estava aberta, e quando me coloquei diante dela eu o surpreendi lá dentro com uma

aparência tão estranha que me pôs petrificada de susto e medo.

Ele segurava um recorte de jornal na mão, e o

que lia lhe dava muito prazer. E também na sua alegria se ocultava algum sentimento medonho, pois ele con-torcia o corpo como se risse, mas não emitia som nenhum pelos lábios. Seu rosto, de lado para mim, revelava uma expressão que nunca antes eu vira num ser

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humano. Só posso descrevê-la como sendo de jubilo

selvagem.

Assim que eu me recuperei o bastante para dar

um passo a frente e anunciar a minha presença, ele

atirou o pedaço de jornal sobre a mesinha com um

gesto súbito e, após torcer-se em mais um espasmo

convulsivo de satisfação, saiu apressado pela outra porta, que dava para o salão de bilhar e, dali, para o saguão de entrada. Ouvi seus passos até que desapare-ceram a distância, e espiei outra vez para dentro do quarto. O que poderia ter dado tanta alegria aquele homem

sisudo?

Eu

imaginava

alguma

piada

inigualável, uma obra-prima de humor.

Será que já existiu mulher cujos princípios eram

fortes o suficiente para vencer a sua curiosidade? Olhando cautelosa ao meu redor para me certificar de que não havia ninguém por perto, esgueirei-me para dentro do quarto e examine! o papel que ele estivera lendo.

Era o recorte de um jornal inglês e, pelo seu estado, deduzi que costumava ser muito lido e manuseado, uma

vez que algumas de suas partes estavam quase ilegíveis.

Entretanto, havia muito pouco motivo para risos no seu conteúdo, a menos que minha inteligência andasse em-botada. O artigo dizia aproximada-mente o seguinte: MORTE SUBITA NO CAIS — O comandante do

vapor Olga, de Tromsberg, foi encontrado morto em

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sua cabine na tarde de quarta-feira. Ao que se sabe, o falecido era um homem violento, e tinha discussões freqüentes com o medico do barco. Naquele dia, em par-

ticular, ele se mostrara mais agressivo do que de costume, declarando em alto e bom som que o medico era necromante e adorador do demônio. Este retirou-se

para o convés a fim de evitar a perseguição. Pouco depois, o imediato entrou na cabine e encontrou o

comandante morto sobre a mesa. A morte foi atribuída a um problema cardíaco agravado pelo temperamento

explosivo do marujo. Hoje serão iniciadas as

investigações.

Este era o parágrafo que o vosso estranho visit-

ante considerava tão engraçado! Desci as escadas correndo, dominada por um misto de pasmo e repugnân-

cia. Mas eu sou uma pessoa tão bem-intencionada que a inferência sombria tantas vezes feita por mim mesma desde aquele dia nem por um instante atravessou o

meu pensamento. Eu o via como um enigma curioso e

repulsivo — nada mais.

Quando o reencontrei para o piquenique, todas

as lembranças do meu comentário infeliz pareciam ter desaparecido para sempre da sua mente. Ele se

mostrou agradável, como sempre, e sua salada foi considerada uma chef-d'oeuvre, enquanto que suas can-

çonetas suecas e seus contos de todos os climas e países 42/184

nos emocionavam e divertiam, alternadamente. En-

tretanto, só depois da refeição a conversa se fixou num tema que parecia ter um sabor especial para aquele

homem ousado.

Esqueço quem puxou o assunto do sobrenatural.

Acho que foi Trevor, contando uma peça que pregara

nos alunos de Cambridge. A historia teve um efeito singular em Octavius Caster, que sacudia seus longos

braços invectivando contra os que ridicularizavam ou Putnam em duvida a existência do desconhecido.

— Eu quero que me digam — disse ele, pondo-se

de pé exaltado — qual de vocês já experimentou o que chamam de instinto do fracasso. A ave selvagem tem

um instinto que lhe diz em que rocha solitária do

oceano sem fim ela deve colocar o seu ovo, e será que ela se decepciona? A andorinha voa para o sul quando o inverno se aproxima, e será que o instinto faz com que perca o rumo? E este instinto que nos fala de espíritos desconhecidos a nossa volta, e que pervade toda criança inculta, toda raça selvagem, pode estar equivocado? Eu respondo: nunca!

— Bis, Caster! — bradou Charley.

Respire um pouco e continue — disse o

marinheiro.

Não, nunca! — repetiu o sueco, ignorando as

nossas chacotas. — Se vemos que a. matéria existe

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separada da mente, porque não admitimos a existência da mente separada da matéria?

— Desista — disse Daseby.

Será que não temos provas? — prosseguiu

Caster, com os olhos luminosos de exaltação. — Qual a pessoa que tenha lido o livro de Steinberg sobre os es-píritos, ou o livro daquela americana eminente, Ma-

dame Crowe, e que, ainda assim, persiste na duvida?

Não e verdade que Gustav von Spee encontrou seu

irmão nas ruas de Estrasburgo, o mesmo irmão que se afogara três meses antes no Pacifico? Home, o espírita, não flutuou em plena luz do dia sobre os telhados de Paris? Quem nunca ouviu as vozes dos mortos ao seu

redor? Eu, por mim...

Pois e; e você? — perguntamos quase todos no

mesmo instante.

Ah, não interessa — disse ele, passando a mão

pela testa e lutando muito para se controlar. — Este tipo de assunto e muito triste para uma ocasião de

festa.

E apesar de todos os nossos esforços não con-

seguimos extrair nada de Caster sobre as suas próprias experiências com o sobrenatural.

Foi um dia alegre. A breve dissolução do grupo

parecia fazer com que cada um desse o maximo de si