Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio por Cláudio Manuel da Costa - Versão HTML

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Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio

Cláudio Manuel da Costa (pseudônimo Glauceste Satúrnio)

Obras

De CLÁUDIO MANUEL DA COSTA, Árcade Ultramarino, chamado Glauceste Satúrnio, oferecidas ao Ilmo e Exmo Sr. D. JOSÉ LUIZ DE MENEZES ABRANCHES

CASTELO BRANCO, Conde de Valadares, Comendador das Comendas de S. João da Castanheira, S. Julião de Montenegro, Sta. Maria de Viade e Sta. Maria de Locores, da Ordem de Cristo, Governador e Capitão General da Capitania das Minas Gerais etc. etc. etc.

Primus ego in Patriam mecum, modo vita supersit,

Aonio rediens deducam vértice Musas.

VIRGÍLIO, Geórgicas

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ÍNDICE:

Carta Dedicatória

Prólogo ao Leitor

Sonetos

Epicédio I

Epicédio II

Epicédio III

Romance

Fábula do Ribeirão do Carmo

Éclogas

Epístolas

Romances

Cançonetas

Canzonette

Cantatas

Protestação

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Carta Dedicatória

ILmo E EXmo SR.,

Não é a vaidade de honrar os meus escritos o que me obriga a escrever na frente deles o grande nome de V. Excelência; nem é o empenho de prevenir a mordacidade dos críticos o que me anima a buscar tão superior Mecenas. Persuado-me, com o parecer do Sulmonense, que, se a causa por sua natureza não é boa, se faz pior com o patrocínio: e pouco me devem as produções inúteis da minha ociosidade, na qual perdi apenas as breves horas que pude respirar de uma vida séria. A obrigação, Senhor, e o afeto são os dous fortíssimos e únicos estímulos, que promovem à presença de V. Excelência o meu estéril obséquio. Produzir ao público esta confissão é toda a minha glória.

Não se engane o mundo, se para formar o elogio de V. Excelência espera que eu entre a desenvolver a dilatada série da sua Genealogia. Eu sei que largo campo me pudera oferecer uma Ascendência que, honrando a duas Monarquias, interessou no seu sangue os Senhores Reis D. Fernando em Portugal, e D. Henrique Segundo em Castela. Depois desta ponderação, pouco importará o dizer-se que ela se tem enlaçado com as primeiras casas do Reino. Pouco importará o contar na sua Varonia os títulos e brasões de Noronha, Cascais, Vila Real, Linhares, Bragança, Monsanto, Portalegre, Caminha, Alvito, Povolide, Abranches, Ilha do Príncipe, Óbidos, Angeja e Alegrete. Bastaria apontar que a memória de tão esclarecidos Progenitores foi condecorada em dous de junho de mil setecentos e dous, na Pessoa do Senhor D. Miguel Luiz de Menezes, com o título de Conde de Valadares, título, de que V. Excelência, para honra de Portugal, é o quinto, felicíssimo e legítimo sucessor.

Eu rendo uma profunda veneração a tão ilustre Família, mas deixo esta lembrança, porque V. Excelência tão bem a deixa. Estimando por casualidade a fortuna do berço, nós o vemos fundar a maior nobreza nas ventagens do seu espírito. Virtuoso, liberal, sábio e magnífico, maior pelos merecimentos pessoais do que pelos títulos que tem, nós vemos que os Pobres o amam como seu Pai; os Políticos o atendem como seu Mestre, e os Grandes o respeitam como seu Modelo. Lisboa, enfim, e todo o Portugal publicam as suas virtudes.

Quem não admira o perfeito zelo com que V. Excelência busca em todas as cousas a honra de Deus, a glória do Rei, e o bem dos Vassalos! Quem não louva aquela generosa piedade, com que edifica os Povos, aquela prudência ilustrada, com que regula as ações, e aquela bondade natural, com que se faz universalmente amável!

A quem não arrebata o gênio vasto, que brilha em V. Excelência, a penetração viva e delicada, com que tudo compreende, e a ciência dilatada, com que profundou os sistemas da moral mais sã, e da melhor política! Estas são as qualidades que formam o caráter de uma alma grande; e estas são as que distinguem um Herói do resto dos mais homens.

O SENHOR D. JOSÉ, O PRIMEIRO, digno deste nome, e digno de reinar pelos séculos, querendo mostrar a estimação que faz de um Vassalo tão distinto, confiou de V. Excelência o governo das Minas Gerais, da minha pátria, da Capitania mais importante, pois, enfim, é a mais rica.

Oh! E quantas lágrimas não atropelou V. Excelência na ocasião de deixar a Europa!

Que suspiros não custou a Lisboa a inveja nobre de ver transportar-se para o Brasil o objeto maior das suas esperanças! O espaço breve de vinte e dous anos, que V.

Excelência apenas contava, tinha enchido as gentes de tanta expectação, como pudera fazer recomendáveis os últimos dias de qualquer Grande. A benevolência, a piedade e a inteireza qualificavam à preciosa índole de V. Excelência, não menos no serviço do Rei, que no zelo da Religião.

Ainda, Senhor, ainda se ouvem os suspiros do Hospital, onde V. Excelência, com o emprego de Mordomo-Mor, eternizou a sua virtude. As provas da caridade, que acabou ali de exercitar, foram tão dignas de admiração, quanto maiores de todo o crédito e próprias só do seu grandioso ânimo. Eu mesmo, eu mesmo estou vendo ainda o desordenado tropel de pobres, de doentes e de aflitos, que forcejavam por demorar os passos ao seu Benfeitor. Qual se desfazia em prantos! Qual com os ais embaraçava a despedida! Qual mostrando as chagas àquela mão, que as costumava curar, queria com esta lembrança atrair a compaixão! E V. Excelência cheio de bondade, e cheio de espírito, consolando a uns, beneficiando a outros, abraçando a todos, com amor, com zelo, com piedade, despedindo-se, partindo, voltando... Que é o que faço! Insensivelmente cheguei a enternecer o coração do meu Herói. Bastou uma leve imagem de ternura para abalar as suas entranhas. Eu cedo já, Senhor, eu cedo. Reserve-se à posteridade o estender o nome de V.

Excelência e o eco das suas ações. Eu teria uma grande satisfação de ajuntar a minha pena a esta fama.

Felizes os habitadores das Minas! Felizes os Vassalos d'El Rei Fidelíssimo! Feliz a minha Pátria, e feliz eu, que da prudente conduta de um tão grande General devemos auspicar a nós mesmos um governo suavíssimo!

Feliz eu mil vezes que, devendo a V. Excelência a honra de consentir que passem as minhas obras debaixo da sua proteção, tenho a glória de confessar com o mais profundo respeito que sou

De V. Excelência

Súdito obrigadíssimo,

Cláudio Manuel da Costa

Prólogo ao Leitor

SE NÃO FOR MUITA A TUA MALDADE, sempre hás de confessar que algum agradecimento se deve a um Engenho, que desde os sertões da Capitania das Minas Gerais aspira a brindar-te com o pequeno obséquio destas Obras. Conheço que só entre as delícias do Pindo se podem nutrir aqueles espíritos, que desde o berço se destinaram a tratar as Musas: e talvez nesta certeza imaginou o Poeta desterrado que as Cícladas do mar Egeu se tinham admirado de que ele pudesse compor entre os horrores das embravecidas ondas.

Não permitiu o Céu que alguns influxos, que devi às águas do Mondego, se prosperassem por muito tempo: e destinado a buscar a Pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado, aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância! Que menos, do que abandonar as fingidas Ninfas destes rios e no centro deles adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a este clima os corações de toda a Europa! Não são estas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos. Turva, e feia, a corrente destes ribeiros, primeiro que arrebate as idéias de um Poeta, deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a terra, que lhes tem pervertido as cores.

A desconsolação de não poder substabelecer aqui as delícias do Tejo, do Lima e do Mondego" me fez entorpecer o engenho dentro do meu berço, mas nada bastou para deixar de confessar a seu respeito a maior paixão. Esta me persuadiu invocar muitas vezes e a escrever a Fábula do Ribeirão do Carmo, rio o mais rico desta Capitania, que corre e dava o nome à Cidade Mariana, minha pátria, quando era Vila.

Bem creio que te não faltará que censurar nas minhas Obras, principalmente nas Pastoris onde, preocupado da comua opinião, te não há de agradar a elegância de que são ornadas. Sem te apartares deste mesmo volume, encontrarás alguns lugares que te darão a conhecer como talvez me não é estranho o estilo simples, e que sei avaliar as melhores passagens de Teócrito, Virgílio, Sanazaro e dos nossos Miranda, Bernardes, Lobo, Camões etc. Pudera desculpar-me, dizendo que o gênio me fez propender mais para o sublime: mas, temendo que ainda neste me condenes o muito uso das metáforas, bastará, para te satisfazer, o lembrar-te que a maior parte destas Obras foram compostas ou em Coimbra, ou pouco depois, nos meus primeiros anos, tempo em que Portugal apenas principiava a melhorar de gosto nas belas letras. letras. A lição dos Gregos, Franceses e Italianos, sim, me fizeram conhecer a diferença sensível dos nossos estudos dos e dos primeiros Mestres da Poesia. É infelicidade que haja de confessar que vejo e aprovo o melhor, mas sigo o contrário na execução.

Contra esta obstinação não há argumento: e sendo empresa dificultosa acomodar semelhante gênero de iguaria ao paladar de todos (porque uns o têm muito entorpecido, e outros demasiadamente delicado) contentar-me-ei com que nestas Obras haja alguma cousa que te agrade, ainda que uma grande parte te desgoste. A experiência do contrário me fará condenar o teu gênio, ou de indiscreto, se tudo aprovas, ou de invejoso se nada louvas.

AD LECTOREM

EPIGR.

Ipse sibi plaudat Naso, plaudique peroptet;

Dum videt in formas corpora versa novas:

Exige, fronde virens cingat tua tempora laurus,

Dum blandis resonas, culte Tibulle, modis:

Mœonides longum, longum sibi spondeat œvum,

Qui cecinit segetes, Arma, virumque, Maro:

Non eadem nabis repetuntur munera, Lector;

Cum tibi sim gratus, prœmia digna feram.

SONETOS

I

Para cantar de amor tenros cuidados,

Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;

Ouvi pois o meu fúnebre lamento;

Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados

Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;

Da lira de Anfião ao doce acento

Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,

Para cingir de Apolo a verde rama,

Lhes influiu na lira estro divino:

O canto, pois, que a minha voz derrama,

Porque ao menos o entoa um peregrino,

Se faz digno entre vós também de fama.

II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,

Em meus versos teu nome celebrado;

Por que vejas uma hora despertado

O sono vil do esquecimento frio:

Não vês nas tuas margens o sombrio,

Fresco assento de um álamo copado;

Não vês ninfa cantar, pastar o gado

Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as pálidas areias

Nas porções do riquíssimo tesouro

O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro

Enriquecendo o influxo em tuas veias,

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

III

Pastores, que levais ao monte o gado,

Vêde lá como andais por essa serra;

Que para dar contágio a toda a terra,

Basta ver se o meu rosto magoado:

Eu ando (vós me vêdes) tão pesado;

E a pastora infiel, que me faz guerra,

É a mesma, que em seu semblante encerra

A causa de um martírio tão cansado.

Se a quereis conhecer, vinde comigo,

Vereis a formosura, que eu adoro;

Mas não; tanto não sou vosso inimigo:

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;

Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,

Chorareis, ó pastores, o que eu choro.

IV

Sou pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;

Ali me ouvem os troncos namorados,

Em que se transformou a antiga gente;

Qualquer deles o seu estrago sente;

Como eu sinto também os meus cuidados.

Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia

Firmes vos contemplastes, e seguros

Nos braços de uma bela companhia;

Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.

V

Se sou pobre pastor, se não governo

Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;

Se em frio, calma, e chuvas inclementes

Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno

Desta choça, em que vivo, coas enchentes

Dessa grande fortuna: assaz presentes

Tenho as paixões desse tormento eterno.

Adorar as traições, amar o engano,

Ouvir dos lastimosos o gemido,

Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido

Soa melhor a voz do desengano,

Que da torpe lisonja o infame ruído.

VI

Brandas ribeiras, quanto estou contente

De ver nos outra vez, se isto é verdade!

Quanto me alegra ouvir a suavidade,

Com que Fílis entoa a voz cadente!

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente,

Tudo me está causando novidade:

Oh como é certo, que a cruel saudade

Faz tudo, do que foi, mui diferente!

Recebei (eu vos peco) um desgraçado,

Que andou té agora por incerto giro

Correndo sempre atrás do seu cuidado:

Este pranto, estes ais, com que respiro,

Podendo comover o vosso agrado,

Façam digno de vós o meu suspiro.

VII

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,

Estes os troncos, estes os rochedos;

São estes inda os mesmos arvoredos;

Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,

Rio, montanha, troncos, e penedos;

Que de amor nos suavíssimos enredos

Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh quão lembrado estou de haver subido

Aquele monte, e as vezes, que baixando

Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;

Que da mesma saudade o infame ruído

Vem as mortas espécies despertando.

IX

Pouco importa, formosa Daliana,

Que fugindo de ouvir me, o fuso tomes;

Se quanto mais me afliges, e consomes,

Tanto te adoro mais, bela serrana.

Ou já fujas do abrigo da cabana,

Ou sobre os altos montes mais te assomes,

Faremos imortais os nossos nomes,

Eu por ser firme, tu por ser tirana.

Um obséquio, que foi de amor rendido,

Bem pode ser, pastora, desprezado;

Mas nunca se verá desvanecido:

Sim, que para lisonja do cuidado,

Testemunhas serão de meu gemido

Este monte, este vale, aquele prado.

X

Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,

Porás a ovelha branca, e o cajado;

E ambos ao som da flauta magoado

Podemos competir de extremo a extremo.

Principia, pastor; que eu te não temo;

Inda que sejas tão avantajado

No cântico amebeu: para louvado

Escolhamos embora o velho Alcemo.

Que esperas? Toma a flauta, principia;

Eu quero acompanhar te; os horizontes

Já se enchem de prazer, e de alegria:

Parece, que estes prados, e estas fontes

Já sabem, que é o assunto da porfia

Nise, a melhor pastora destes montes.

XI

Formosa é Daliana; o seu cabelo,

A testa, a sobrancelha é peregrina;

Mas nada tem, que ver coa bela Eulina,

Que é todo o meu amor, o meu desvê-lo:

Parece escura a nove em paralelo

Da sua branca face; onde a bonina

As cores misturou na cor mais fina,

Que faz sobressair seu rosto belo.

Tanto os seus lindos olhos enamoram,

Que arrebatados, como em doce encanto,

Os que a chegam a ver, todos a adoram.

Se alguém disser, que a engrandeço tanto

Veia, para desculpa dos que choram

Veja a Eulina; e então suspenda o pranto.

XII

Fatigado da calma se acolhia

Junto o rebanho à sombra dos salgueiros;

E o sol, queimando os ásperos oiteiros,

Com violência maior no campo ardia.

Sufocava se o vento, que gemia

Entre o verde matiz dos sovereiros;

E tanto ao gado, como aos pegureiros

Desmaiava o calor do intenso dia.

Nesta ardente estação, de fino amante

Dando mostras Daliso, atravessava

O campo todo em busca de Violante.

Seu descuido em seu fogo desculpava;

Que mal feria o sol tão penetrante,

Onde maior incêndio a alma abrasava.

XIII

Nise? Nise? onde estás? Aonde espera

Achar te uma alma, que por ti suspira,

Se quanto a vista se dilata, e gira,

Tanto mais de encontrar te desespera!

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera

Entre esta aura suave, que respira!

Nise, cuido, que diz; mas é mentira.

Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,

Mostrai, mostrai me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde!

Ah como é certa a minha desventura!

Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?

XIV

Quem deixa o trato pastoril amado

Pela ingrata, civil correspondência,

Ou desconhece o rosto da violência,

Ou do retiro a paz não tem provado.

Que bem é ver nos campos transladado

No gênio do pastor, o da inocência!

E que mal é no trato, e na aparência

Ver sempre o cortesão dissimulado!

Ali respira amor sinceridade;

Aqui sempre a traição seu rosto encobre;

Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna, que soçobre;

Aqui quanto se observa, é variedade:

Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!

XV

Formoso, e manso gado, que pascendo

A relva andais por entre o verde prado,

Venturoso rebanho, feliz gado, Que à bela

Antandra estais obedecendo;

Já de Corino os ecos percebendo

A frente levantais, ouvis parado;

Ou já de Alcino ao canto levantado,

Pouco e pouco vos ides recolhendo;

Eu, o mísero Alfeu, que em meu destino

Lamento as sem razões da desventura,

A seguir vos também hoje me inclino:

Medi meu rosto: ouvi minha ternura;

Porque o aspecto, e voz de um peregrino

Sempre faz novidade na espessura.

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia

No silêncio, que a noite convidava;

Nada o sono suavíssimo alterava

Na muda confusão da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,

No sossego maior não repousava;

Sentindo o mal, com lágrimas culpava

A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;

Querer enternecê-na é inútil arte;

Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;

Que à Lise rende a alma, a vida à morte:

Por que uma parte alente a outra parte.

XVII

Deixa, que por um pouco aquele monte

Escute a glória, que a meu peito assiste:

Porque nem sempre lastimoso, e triste

Hei de chorar à margem desta fonte.

Agora, que nem sombra há no horizonte,

Nem o álamo ao zéfiro resiste,

Aquela hora ditosa, em que me viste

Na posse de meu bem, deixa, que conte.

Mas que modo, que acento, que harmonia

Bastante pode ser, gentil pastora,

Para explicar afetos de alegria!

Que hei de dizer, se esta alma, que te adora,

Só costumada às vozes da agonia,

A frase do prazer ainda ignora!

XVIII

Aquela cinta azul, que o céu estende

A nossa mão esquerda, aquele grito,

Com que está toda a noite o corvo aflito

Dizendo um não sei quê, que não se entende;

Levantar me de um sonho, quando atende

O meu ouvido um mísero conflito,

A tempo, que o voraz lobo maldito

A minha ovelha mais mimosa ofende;

Encontrar a dormir tão preguiçoso

Melampo, o meu fiel, que na manada

Sempre desperto está, sempre ansioso;

Ah! queira Deus, que minta a sorte irada:

Mas de tão triste agouro cuidadoso

Só me lembro de Nise, e de mais nada.

XIX

Corino, vai buscar aquela ovelha,

Que grita lá no campo, e dormiu fora;

Anda; acorda, pastor; que sai a Aurora:

Como vem tão risonha, e tão vermelha!

Já perdi noutro tempo uma parelha

Por teu respeito; queira Deus, que agora

Não se me vá também estoutra embora;

Pois não queres ouvir, quem te aconselha.

Que sono será este tão pesado!

Nada responde, nada diz Corino:

Ora em que mãos está meu pobre gado!

Mas ai de mim! que cego desatino.

Como te hei de acusar de descuidado,

Se toda a culpa tua é meu destino!

XX

Ai de mim! como estou tão descuidado!

Como do meu rebanho assim me esqueço,

Que vendo o trasmalhar no mato espesso,

Em lugar de o tornar, fico pasmado!

Ouço o rumor que faz desaforado

O lobo nos redis; ouço o sucesso

Da ovelha, do pastor; e desconheço

Não menos, do que ao dono, o mesmo gado:

Da fonte dos meus olhos nunca enxuta

A corrente fatal, fico indeciso,

Ao ver, quanto em meu dano se executa.

Um pouco apenas meu pesar suavizo,

Quando nas serras o meu mal se escuta;

Que triste alívio! ah infeliz Daliso!

XXI

De um ramo desta faia pendurado

Veja o instrumento estar do pastor Fido;

Daquele, que entre os mais era aplaudido,

Se alguma vez nas selvas escutado.

Ser eternamente consagrado

Um ai saudoso, um fúnebre gemido;

Enquanto for no monte repetido

O seu nome, o seu canto levantado.

Se chegas a este sítio, e te persuade

A algum pesar a sua desventura,

Corresponde em afetos de piedade;

Lembra te, caminhante, da ternura

De seu canto suave; e uma saudade

Por obséquio dedica à sepultura.

XXII

Neste álamo sombrio, aonde a escura

Noite produz a imagem do segredo;

Em que apenas distingue o próprio medo

Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde não geme, nem murmura

Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,

Sentado sabre o tosco de um penedo

Chorava Fido a sua desventura.

As lágrimas a penha enternecida

Um rio fecundou, donde manava

D'ânsia mortal a cópia derretida:

A natureza em ambos se mudava;

Abalava-se a penha comovida;

Fido, estátua da dor, se congelava.

XXIII

Tu sonora corrente, fonte pura,

Testemunha fiel da minha pena,

Sabe, que a sempre dura, e ingrata

Almena Contra o meu rendimento se conjura:

Aqui me manda estar nesta espessura,

Ouvindo a triste voz da filomena,

E bem que este martírio hoje me ordena,

Jamais espero ter melhor ventura.

Veio a dar me somente uma esperança

Nova idéia do ódio; pois sabia,

Que o rigor não me assusta, nem me cansa:

Vendo a tanto crescer minha porfia,

Quis mudar de tormento; e por vingança

Foi buscar no favor a tirania.

XXIV

Sonha em torrentes d'água, o que abrasado

Na sede ardente está; sonha em riqueza

Aquele, que no horror de uma pobreza

Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado

De um contínuo delírio esta alma presa,

Quando é tudo rigor, tudo aspereza,

Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia

Do enfermo, do mendigo, se descobre

Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,

Se apesar desta ingrata aleivosia,

Quanto mais rico estou, estou mais pobre.

XXV

Não de tigres as testas descarnadas,

Não de hircanos leões a pele dura,

Por sacrifício à tua formosura,

Aqui te deixo, ó Lise, penduradas:

Ânsias ardentes, lágrimas cansadas,

Com que meu rosto enfim se desfigura,

São, bela ninfa, a vítima mais pura,

Que as tuas aras guardarão sagradas.

Outro as flores, e frutos, que te envia,

Corte nos montes, corte nas florestas;

Que eu rendo as mágoas, que por ti sentia:

Mas entre flores, frutos, peles, testas,

Para adornar o altar da tirania,

Que outra vítima queres mais, do que estas?

XXVI

Não vês, Nise, este vento desabrido,

Que arranca os duros troncos? Não vês esta,

Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,

Entre o horror de um relâmpago incendido?

Não vês a cada instante o ar partido

Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,

Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,

O raio a cada instante despedido.

Ah! não temas o estrago, que ameaça

A tormenta fatal; que o Céu destina

Vejas mais feia, mais cruel desgraça:

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;

Verás a tempestade, que em mim passa;

Conhecerás então, o que é ruína.

XXVII

Apressa se a tocar o caminhante

O pouso, que lhe marca a luz do dia;

E da sua esperança se confia,

Que chegue a entrar no porto o navegante;

Nem aquele sem termo passa avante

Na longa, duvidosa e incerta via;

Nem este atravessando a região fria

Vai levando sem rumo o curso errante:

Depois que um breve tempo houver passado,

Um se verá sobre a segura areia,

Chegará o outro ao sítio desejado:

Eu só, tendo de penas a alma cheia,

Não tenho, que esperar; que o meu cuidado

Faz, que gire sem norte a minha idéia.

XXVIII

Faz a imaginação de um bem amado,

Que nele se transforme o peito amante;

Daqui vem, que a minha alma delirante

Se não distingue já do meu cuidado.

Nesta doce loucura arrebatado

Anarda cuido ver, bem que distante;

Mas ao passo, que a busco neste instante

Me vejo no meu mal desenganado.

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,

E por força da idéia me converto

Na bela causa de meu fogo ativo;

Como nas tristes lágrimas, que verto,

Ao querer contrastar seu gênio esquivo,

Tão longe dela estou, e estou tão perto.

XXIX

Ai Nise amada! se este meu tormento,

Se estes meus sentidíssimos gemidos

Lá no teu peito, lá nos teus ouvidos

Achar pudessem brando acolhimento;

Como alegre em servir-te, como atento

Meus votos tributara agradecidos!

Por séculos de males bem sofridos

Trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrastável, pedra dura

De teu rigor não há correspondência,

Para os doces afetos de ternura;

Cesse de meus suspiros a veemência;

Que é fazer mais soberba a formosura

Adorar o rigor da resistência.

XXX

Não se passa, meu bem, na noite, e dia

Uma hora só, que a mísera lembrança

Te não tenha presente na mudança,

Que fez, para meu mal, minha alegria.

Mil imagens debuxa a fantasia,

Com que mais me atormenta e mais me cansa:

Pois se tão longe estou de uma esperança,

Que alívio pode dar me esta porfia!

Tirano foi comigo o fado ingrato;

Que crendo, em te roubar, pouca vitória,

Me deixou para sempre o teu retrato:

Eu me alegrara da passada glória,

Se quando me faltou teu doce trato,

Me faltara também dele a memória.

XXXI

Estes os olhos são da minha amada:

Que belos, que gentis, e que formosos!

Não são para os mortais tão preciosos

Os doces frutos da estação dourada.

Por eles a alegria derramada,

Tornam-se os campos de prazer gostosos;

Em zéfiros suaves, e mimosos

Toda esta região se vê banhada;

Vinde, olhos belos, vinde; e enfim trazendo

Do rosto de meu bem as prendas belas,

Dai alívios ao mal, que estou gemendo:

Mas ah delírio meu, que me atropelas!

Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo,

Eram (quem crera tal!) duas estrelas.

XXXII

Se os poucos dias, que vivi contente,

Foram bastantes para o meu cuidado,

Que pode vir a um pobre desgraçado,

Que a idéia de seu mal não acrescente!

Aquele mesmo bem, que me consente,

Talvez propício, meu tirano fado,

Esse mesmo me diz, que o meu estado

Se há de mudar em outro diferente.

Leve pois a fortuna os seus favores;

Eu os desprezo já; porque é loucura

Comprar a tanto preço as minhas dores:

Se quer, que me não queixe, a sorte escura,

Ou saiba ser mais firme nos rigores,

Ou saiba ser constante na brandura.

XXXIII

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

XXXIV

Que feliz fora o mundo, se perdida

A lembrança de amor, de amor a glória,

Igualmente dos gostos a memória

Ficasse para sempre consumida!

Mas a pena mais triste, e mais crescida

É ver; que em nenhum tempo é transitória

Esta de amor fantástica vitória,

Que sempre na lembrança é repetida.

Amantes, os que ardeis nesse cuidado,

Fugi de amor ao venenoso intento,

Que lá para o depois vos tem guardado.

Não vos engane o infiel contentamento;

Que esse presente bem, quando passado,

Sobrará para idéia do tormento.

XXXV

Aquele, que enfermou de desgraçado,

Não espere encontrar ventura alguma:

Que o Céu ninguém consente, que presuma,

Que possa dominar seu duro fado.

Por mais, que gire o espírito cansado

Atrás de algum prazer, por mais em suma,

Que porfie, trabalhe, e se consuma,

Mudança não verá do triste estado.

Não basta algum valor, arte, ou engenho

A suspender o ardor, com que se move

A infausta roda do fatal despenho:

E bem que o peito humano as forças prove,

Que há de fazer o temerário empenho,

Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.

XXXVI

Estes braços, Amor, com quanta glória

Foram trono feliz na formosura!

Mas este coração com que ternura

Hoje chora infeliz esta memória!

Quanto vês, é troféu de uma vitória,

Que o destino em seu templo dependura:

De uma dor esta estampa é só figura,

Na fé oculta, no pesar notória.

Saiba o mundo de teu funesto enredo;

Por que desde hoje um coração amante

De adorar teus altares tenha medo:

Mas que empreendo, se ao passo, que constante

Vou a romper a fé do meu segredo,

Não há, quem acredite um delirante!

XXXVII

Continuamente estou imaginando,

Se esta vida, que logro, tão pesada,

Há de ser sempre aflita, e magoada,

Se como o tempo enfim se há de ir mudando:

Em golfos de esperança flutuando

Mil vezes busco a praia desejada;

E a tormenta outra vez não esperada

Ao pélago infeliz me vai levando.

Tenho já o meu mal tão descoberto,

Que eu mesmo busco a minha desventura;

Pois não pode ser mais seu desconcerto.

Que me pode fazer a sorte dura,

Se para não sentir seu golpe incerto,

Tudo o que foi paixão, é já loucura!

XXXVIII

Quando, formosa Nise, dividido

De teus olhos estou nesta distancia,

Pinta a saudade, à força de minha ânsia,

Toda a memória do prazer perdido.

Lamenta o pensamento amortecido

A tua ingrata, pérfida inconstância;

E quanto observa, é só a vil jactância

Do fado, que os troféus tem conseguido.

Aonde a dita está? aonde o gosto?

Onde o contentamento? onde a alegria,

Que fecundava esse teu lindo rosto?

Tudo deixei, ó Nise, aquele dia,

Em que deixando tudo, o meu desgosto

Somente me seguiu por companhia.

XXXIX

Breves horas, Amor, há, que eu gozava

A glória, que minha alma apetecia;

E sem desconfiar da aleivosia,

Teu lisonjeiro obséquio acreditava.

Eu só à minha dita me igualava;

Pois assim avultava, assim crescia,

Que nas cenas, que então me oferecia,

O maior gosto, o maior bem lograva;

Fugiu, faltou-me o bem: já descomposta

Da vaidade a brilhante arquitetura,

Vê-se a ruína ao desengano exposta:

Que ligeira acabou, que mal segura!

Mas que venho a estranhar, se estava posta

Minha esperança em mãos da formosura!

XL

Quem chora ausente aquela formosura,

Em que seu maior gosto deposita,

Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,

Que não seja funesta, triste, e escura!

A apagar os incêndios da loucura

Nos braços da esperança Amor me incita:

Mas se era a que perdi, glória infinita,

Outra igual que esperança me assegura!

Já de tanto delírio me despeço;

Porque o meu precipício encaminhado

Pela mão deste engano reconheço.

Triste! A quanto chegou meu duro fado!

Se de um fingido bem não faço apreço,

Que alívio posso dar a meu cuidado!

XLI

Injusto Amor, se de teu jugo isento

Eu vira respirar a liberdade,

Se eu pudesse da tua divindade

Cantar um dia alegre o vencimento;

Não lograras, Amor, que o meu tormento,

Vítima ardesse a tanta crueldade;

Nem se cobrira o campo da vaidade

Desses troféus, que paga o rendimento:

Mas se fugir não pude ao golpe ativo,

Buscando por meu gosto tanto estrago,

Por que te encontro, Amor, tão vingativo?

Se um tal despojo a teus altares trago,

Siga a quem te despreza, o raio esquivo;

Alente a quem te busca, o doce afago.

XLII

Morfeu doces cadeias estendia,

Com que os cansados membros me enlaçava;

E quanto mal o coração passava,

Em sonhos me debuxa a fantasia.

Lise presente vi, Lise, que um dia

Todo o meu pensamento arrebatava,

Lise, que na minha alma impressa estava,

Bem apesar da sua tirania.

Corro a prendê-la em amorosos laços

Buscando a sombra, que apertar intento;

Nada vejo (ai de mim!) perco os meus passos.

Então mais acredito o fingimento:

Que ao ver, que Lise foge de meus braços,

A crê pelo costume o pensamento.

XLIII

Quem és tu? (ai de mim!) eu reclinado

No seio de uma víbora! Ah tirana!

Como entre as garras de uma tigre hircana

Me encontro de repente sufocado!

Não era essa, que eu tinha posta ao lado,

Da minha Nise a imagem soberana?

Não era . . . mas que digo! ela me engana:

Sim, que eu a vejo ainda no mesmo estado:

Pois como no letargo a fantasia

Tão cruel ma pintou, tão inconstante,

Que a vi.. .? mas nada vi; que eu nada cria.

Foi sonho; foi quimera; a um peito amante

Amor não deu favores um só dia,

Que a sombra de um tormento os não quebrante.

XLIV

Há quem confie, Amor, na segurança

De um falsíssimo bem, com que dourando

O veneno mortal, vás enganando

Os tristes corações numa esperança!

Há quem ponha inda cego a confiança

Em teu fingido obséquio, que tomando

Lições de desengano, não vá dando

Pelo mundo certeza da mudança!

Há quem creia, que pode haver firmeza

Em peito feminil, quem advertido

Os cultos não profane da beleza!

Há inda, e há de haver, eu não duvido,

Enquanto não mudar a Natureza

Em Nise a formosura, o amor em Fido.

XLV

A cada instante, Amor, a cada instante

No duvidoso mar de meu cuidado

Sinto de novo um mal, e desmaiado

Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra fúnebre, e distante

Rompe o vulto do alivio mal formado;

Ora mais claramente debuxado,

Ora mais frágil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;

Logo aos olhos mais longe se afigura,

O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;

Porque nem permanece o dano certo,

Nem a glória tão pouco está segura

XLVI

Não vês, Lise, brincar esse menino

Com aquela avezinha? Estende o braço;

Deixa-a fugir; mas apertando o laço,

A condena outra vez ao seu destino?

Nessa mesma figura, eu imagino,

Tens minha liberdade; pois ao passo,

Que cuido, que estou livre do embaraço,

Então me prende mais meu desatino.

Em um contínuo giro o pensamento

Tanto a precipitar-me se encaminha,

Que não vejo onde pare o meu tormento.

Mas fora menos mal esta ânsia minha,

Se me faltasse a mim o entendimento,

Como falta a razão a esta avezinha.

XLVII

Que inflexível se mostra, que constante

Se vê este penhasco! já ferido

Do proceloso vento, e já batido

Do mar, que nele quebra a cada instante!

Não vi; nem hei de ver mais semelhante

Retrato dessa ingrata, a que o gemido

Jamais pode fazer, que enternecido

Seu peito atenda às queixas de um amante.

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,

Que vês nesse penhasco, essa dureza

Há de ceder aos golpes algum dia:

Mas que diversa é tua natureza!

Dos contínuos excessos da porfia,

Recobras novo estímulo à fereza.

XLVIII

Traidoras horas do enganoso gosto,

Que nunca imaginei, que o possuía,

Que ligeiras passastes! mal podia

Deixar aquele bem de ser suposto.

Já de parte o tormento estava posto;

E meu peito saudoso, que isto via,

As imagens da pena desmentia,

Pintando da ventura alegre o rosto.

Desanda então a fábrica elevada,

Que o plácido Morfeu tinha erigido,

Das espécies do sono fabricada:

Então é, que desperta o meu sentido,

Para observar na pompa destroçada,

Verdadeira a ruína, o bem fingido.

XLIX

Os olhos tendo posto, e o pensamento

No rumo, que demanda, mais distante;

As ondas bate o Grego Navegante,

Entregue o leme ao mar, a vela ao vento

Em vão se esforça o harmonioso acento

Da sereia, que habita o golfo errante;

Que resistindo o espírito constante,

Vence as lisonjas do enganoso intento.

Se pois, ninfas gentis, rompe a Cupido

O arco, a flecha, o dardo, a chama acesa

De um peito entre os heróis esclarecido;

Que vem buscar comigo a néscia empresa,

Se inda mais, do que Ulisses atrevido,

Sei vencer os encantos da beleza!

L

Memórias do presente, e do passado

Fazem guerra cruel dentro em meu peito;

E bem que ao sofrimento ando já feito,

Mais que nunca desperta hoje o cuidado.

Que diferente, que diverso estado

É este, em que somente o triste efeito

Da pena, a que meu mal me tem sujeito,

Me acompanha entre aflito, e magoado!

Tristes lembranças! e que em vão componho

A memória da vossa sombra escura!

Que néscio em vós a ponderar me ponho!

Ide-vos; que em tão mísera loucura

Todo o passado bem tenho por sonho;

Só é certa a presente desventura.

LI

Adeus, ídolo belo, adeus, querido,

Ingrato bem; adeus: em paz te fica;

E essa vitória mísera publica,

Que tens barbaramente conseguido.

Eu parto, eu sigo o norte aborrecido

De meu fado infeliz: agora rica

De despojos, a teu desdém aplica

O rouco acento de um mortal gemido.

E se acaso alguma hora menos dura

Lembrando-te de um triste, consultares

A série vil da sua desventura;

Na imensa confusão de seus pesares

Acharás, que ardeu simples, ardeu pura

A vítima de uma alma em teus altares.

LII

Que molesta lembrança, que cansada

Fadiga é esta! vejo-me oprimido,

Medindo pela magoa do perdido

A grandeza da glória já passada.

Foi grande a dita sim; porem lembrada,

Inda a pena é maior de a haver perdido;

Quem não fora feliz, se o haver sido

Faz, que seja a paixão mais avultada!

Propício imaginei (é bem verdade)

O malévolo fado: oh quem pudera

Conhecer logo a hipócrita piedade!

Mas que em vão esta dor me desespera,

Se já entorpecida a enfermidade

Inda agora o remédio se pondera!

LIII

Ou já sobre o cajado te reclines,

Venturoso pastor, ou já tomando

Para a serra, onde as cabras vais chamando,

A fugir os meus ais te determines.

Lá te quero seguir, onde examines

Mais vivamente um coração tão brando;

Que gosta só de ouvir-te, ainda quando

Mais sem razão me acuses, mais crimines.

Que te fiz eu, pastor? em que condenas

Minha sincera fé, meu amor puro? A

s provas, que te dei, serão pequenas?

Queres ver, que esse monte áspero, e duro

Sabe, que és causa tu das minhas penas?

Pergunta-lhe; ouvirás, o que te juro.

LIV

Ninfas gentis, eu sou, o que abrasado

Nos incêndios de Amor, pude alguma hora,

Ao som da minha cítara sonora,

Deixar o vosso império acreditado.

Se vós, glórias de amor, de amor cuidado,

Ninfas gentis, a quem o mundo adora,

Não ouvis os suspiros, de quem chora,

Ficai-vos; eu me vou; sigo o meu fado.

Ficai-vos; e sabei, que o pensamento

Vai tão livre de vós, que da saudade

Não receia abrasar-se no tormento.

Sim; que solta dos laços a vontade,

Pelo rio hei de ter do esquecimento

Este, aonde jamais achei piedade.

LV

Em profundo silêncio já descansa

Todo o mortal; e a minha triste idéia

Se estende, se dilata, se recreia

Pelo espaçoso campo da lembrança.

Fatiga-se, prossegue, em vão se cansa;

E neste vário giro, em que se enleia,

Ao duvidoso passo já receia,

Que lhe possa faltar a segurança.

Que diferente tudo está notando!

Que perplexo as imagens do perdido

Num e noutro despojo vem achando!

Este não é o templo (eu o duvido)

Assim o afirma, assim o está mostrando:

Ou morreu Nise, ou este não é Fido.

LVI

Tu, ninfa, quando eu menos penetrado

Das violências de Amor vivia isento,

Propondo-te então bela a meu tormento,

Foste doce ocasião de meu cuidado.

Roubaste o meu sossego, um doce agrado,

Um gesto lindo, um brando acolhimento

Foram somente o único instrumento,

Com que deixaste o triunfo assegurado.

Já não espero ter felicidade,

Salvo se for aquela, que confio,

Por amar-te, apesar dessa impiedade.

Em prêmio dos suspiros, que te envio,

Ou modera o rigor da crueldade,

Ou torna-me outra vez meu alvedrio.

LVII

Bela imagem, emprego idolatrado,

Que sempre na memória repetido,

Estás, doce ocasião de meu gemido,

Assegurando a fé de meu cuidado.

Tem-te a minha saudade retratado;

Não para dar alívio a meu sentido;

Antes cuido; que a mágoa do perdido

Quer aumentar coa pena de lembrado.

Não julgues, que me alento com trazer-te

Sempre viva na idéia; que a vingança

De minha sorte todo o bem perverte.

Que alívio em te lembrar minha alma alcança,

Se do mesmo tormento de não ver-te,

Se forma o desafogo da lembrança?

LVIII

Altas serras, que ao Céu estais servindo

De muralhas, que o tempo não profana,

Se Gigantes não sois, que a forma humana

Em duras penhas foram confundindo?

lá sobre o vosso cume se está rindo

O Monarca da luz, que esta alma engana;

Pois na face, que ostenta, soberana,

O rosto de meu bem me vai fingindo.

Que alegre, que mimoso, que brilhante

Ele se me afigura! Ah qual efeito

Em minha alma se sente neste instante!

Mas ai! a que delírios me sujeito!

Se quando no Sol vejo o seu semblante,

Em vós descubro ó penhas o seu peito?

LIX

Lembrado estou, ó penhas, que algum dia,