Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio por Cláudio Manuel da Costa - Versão HTML

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Na muda solidão deste arvoredo,

Comuniquei convosco o meu segredo,

E apenas brando o zéfiro me ouvia.

Com lágrimas meu peito enternecia

A dureza fatal deste rochedo,

E sobre ele uma tarde triste, e quêdo

A causa de meu mal eu escrevia.

Agora torno a ver, se a pedra dura

Conserva ainda intacta essa memória,

Que debuxou então minha escultura.

Que vejo! esta é a cifra: triste glória!

Para ser mais cruel a desventura,

Se fará imortal a minha história.

LX

Valha-te Deus, cansada fantasia!

Que mais queres de mim? que mais pretendes?

Se quando na esperança mais te acendes,

Se desengana mais tua porfia!

Vagando regiões de dia em dia,

Novas conquistas, e troféus empreendes:

Ah que conheces mal, que mal entendes,

Onde chega do fado a tirania!

Trata de acomodar-te ao movimento

Dessa roda volúvel, e descansa

Sobre tão fatigado pensamento.

E se inda crês no rosto da esperança,

Examina por dentro o fingimento;

E verás tempestade o que é bonança.

LXI

Deixemo-nos, Algano, de porfia;

Que eu sei o que tu és, contra a verdade

Sempre hás de sustentar, que a divindade

Destes campos é Brites, não Maria!

Ora eu te mostrarei inda algum dia,

Em que está teu engano: a novidade,

Que agora te direi, é, que a cidade

Por melhor, do que todas a avalia.

Há pouco, que encontrei lá junto ao monte

Dous pastores, que estavam conversando,

Quando passaram ambas para a fonte;

Nem falaram em Brites: mas tomando

Para um cedro, que fica bem defronte,

O nome de Maria vão gravando.

LXII

Torno a ver-vos, ó montes; o destino

Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;

Onde um tempo os gabões deixei grosseiros

Pelo traje da Côrte rico, e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,

Os meus fiéis, meus doces companheiros,

Vendo correr os míseros vaqueiros

Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,

Que chega a ter mais preço, e mais valia,

Que da cidade o lisonjeiro encanto;

Aqui descanse a louca fantasia;

E o que té agora se tornava em pranto,

Se converta em afetos de alegria.

LXIII

Já me enfado de ouvir este alarido,

Com que se engana o mundo em seu cuidado;

Quero ver entre as peles, e o cajado,

Se melhora a fortuna de partido.

Canse embora a lisonja ao que ferido

Da enganosa esperança anda magoado;

Que eu tenho de acolher-me sempre ao lado

Do velho desengano apercebido.

Aquele adore as roupas de alto preço,

Um siga a ostentação, outro a vaidade;

Todos se enganam com igual excesso.

Eu não chamo a isto já felicidade:

Ao campo me recolho, e reconheço,

Que não há maior bem, que a soledade.

LXIV

Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!

Parece, que se cansa, de que a um triste

Haja de aparecer: quanto resiste

A seu raio este sítio tenebroso!

Não pode ser, que o giro luminoso

Tanto tempo detenha: se persiste

Acaso o meu delírio! se me assiste

Ainda aquele humor tão venenoso!

Aquela porta ali se está cerrando;

Dela sai um pastor: outro assobia,

E o gado para o monte vai chamando.

Ora não há mais louca fantasia!

Mas quem anda, como eu, assim penando,

Não sabe, quando é noite, ou quando é dia.

LXV

Ingrata foste, Elisa; eu te condeno

A injusta sem-razão; foste tirana,

Em renderes, belíssima serrana,

A tua liberdade ao néscio Almeno.

Que achaste no seu rosto de sereno,

De belo, ou de gentil, para inumana

Trocares pela dele esta choupana,

Em que tinhas o abrigo mais ameno?

Que canto em teu louvor entoaria?

Que te podia dar o pastor pobre?

Que extremos, mais do que eu, por ti faria?

O meu rebanho estas montanhas cobre:

Eu os excedo a todos na harmonia;

Mas ah que ele é feliz! Isto lhe sobre

LXVI

Não te assuste o prodígio: eu, caminhante,

Sou uma voz, que nesta selva habito;

Chamei-me o pastor Fido; de um delito

Me veio o meu estrago; eu fui amante.

Uma ninfa perjura, uma inconstante

Neste estado me pôs: do peito aflito,

Por eterno castigo, arranco um grito,

Que desengane o peregrino errante.

Se em ti se dá piedade, ó passageiro,

(Que assim o pede a minha sorte escura)

Atende ao meu aviso derradeiro:

Lágrimas não te peço, nem ternura:

Por voto um desengano, te requeiro

Que consagres à minha sepultura.

LXVII

Não te cases com Gil, bela serrana;

Que é um vil, um infame, um desastrado;

Bem que ele tenha mais devesa, e gado,

A minha condição é mais humana.

Que mais te pode dar sua cabana,

Que eu aqui te não tenha aparelhado?

O leite, a fruta, o queijo, o mel dourado;

Tudo aqui acharás nesta choupana:

Bem que ele tange o seu rabil grosseiro,

Bem que te louve assim, bem que te adore,

Eu sou mais extremoso, e verdadeiro.

Eu tenho mais razão, que te enamore:

E se não, diga o mesmo Gil vaqueiro:

Se é mais, que ele te cante, ou que eu te chore.

LXVIII

Apenas rebentava no oriente

A clara luz da aurora, quando Fido,

O repouso deixando aborrecido,

Se punha a contemplar no mal, que sente.

Vê a nuvem, que foge ao transparente

Anúncio do crepúsculo luzido;

E vê de todo em riso convertido

O horror, que dissipara o raio ardente.

Por que (diz) esta sorte, que se alcança

Entre a sombra, e a luz, não sinto agora

No mal, que me atormenta, e que me cansa?

Aqui toda a tristeza se melhora:

Mas eu sem o prazer de uma esperança

Passo o ano, e o mês, o dia, a hora.

LXIX

Se à memória trouxeres algum dia,

Belíssima tirana, ídolo amado,

Os ternos ais, o pranto magoado,

Com que por ti de amor Alfeu gemia;

Confunda-te a soberba tirania,

O ódio injusto, o violento desagrado,

Com que atrás de teu olhos arrastado

Teu ingrato rigor o conduzia.

E já que enfim tão mísero o fizeste,

Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,

Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.

Dirás, lisonjeando a dor em parte:

Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;

Triste remédio a quem não pode amar-te!

LXX

Breves horas, que em rápida porfia

Ides seguindo infausto movimento,

Oh como o vosso curso foi violento,

Quando soubestes, que eu vos possuía!

Já crédito vos dava; porque via

Avultar meu feliz contentamento:

Que é mui fácil num triste estar atento

Aos enganos, que pinta a fantasia.

Logrou-se o vosso fim; que foi levar-me

Da falsa glória, do fingido gosto A

o cume, donde venho a despenhar-me:

Assim a lei do fado tem disposto,

Que haja o instantâneo bem de lisonjear-me;

Por que o estrago, me diga, que é suposto.

LXXI

Eu cantei, não o nego, eu algum dia

Cantei do injusto amor o vencimento;

Sem saber, que o veneno mais violento

Nas doces expressões falso encobria.

Que amor era benigno, eu persuadia

A qualquer coração de amor isento;

Inda agora de amor cantara atento,

Se lhe não conhecera a aleivosia.

Ninguém de amor se fie: agora canto

Somente os seus enganos; porque sinto,

Que me tem destinado estrago tanto.

De seu favor hoje as quimeras pinto:

Amor de uma alma é pesaroso encanto;

Amor de um coração é labirinto.

LXXII

Já rompe, Nise, a matutina aurora

O negro manto, com que a noite escura,

Sufocando do Sol a face pura,

Tinha escondido a chama brilhadora.

Que alegre, que suave, que sonora,

Aquela fontezinha aqui murmura!

E nestes campos cheios de verdura

Que avultado o prazer tanto melhora!

Só minha alma em fatal melancolia,

Por te não poder ver, Nise adorada,

Não sabe inda, que coisa é alegria;

E a suavidade do prazer trocada,

Tanto mais aborrece a luz do dia,

Quanto a sombra da noite lhe agrada.

LXXIII

Quem se fia de Amor, quem se assegura

Na fantástica fé de uma beleza,

Mostra bem, que não sabe, o que é firmeza,

Que protesta de amante a formosura.

Anexa a qualidade de perjura

Ao brilhante esplendor da gentileza,

Mudável é por lei da natureza,

A que por lei de Amor é menos dura.

Deste, ó Fábio, que vês, desordenado,

Ingrato proceder se é que examinas

A razão, eu a tenho decifrado:

São as setas de Amor tão peregrinas,

Que esconde no gentil o golpe irado;

Para lograr pacífico as ruínas.

LXXIV

Sombrio bosque, sítio destinado

À habitação de um infeliz amante,

Onde chorando a mágoa penetrante

Possa desafogar o seu cuidado;

Tudo quieto está, tudo calado;

Não há fera, que grite; ave, que cante;

Se acaso saberás, que tens diante

Fido, aquele pastor desesperado!

Escuta o caso seu: mas não se atreve

A erguer a voz; aqui te deixa escrito

No tronco desta faia em cifra breve:

Mudou-se aquele bem; hoje é delito

Lembrar-me de Marfisa; era mui leve:

Não há mais, que atender; tudo está dito.

LXXV

Clara fonte, teu passo lisonjeiro

Pára, e ouve-me agora um breve instante;

Que em paga da piedade o peito amante

Te será no teu curso companheiro.

Eu o primeiro fui, fui o primeiro,

Que nos braços da ninfa mais constante

Pude ver da fortuna a face errante

Jazer por glória de um triunfo inteiro.

Dura mão, inflexível crueldade

Divide o laço, com que a glória, a dita

Atara o gosto ao carro da vaidade:

E para sempre a dor ter n'alma escrita,

De um breve bem nasce imortal saudade,

De um caduco prazer mágoa infinita.

LXXVI

Enfim te hei de deixar, doce corrente

Do claro, do suavíssimo Mondego;

Hei de deixar-te enfim; e um novo pego

Formará de meu pranto a cópia ardente.

De ti me apartarei; mas bem que ausente,

Desta lira serás eterno emprego;

E quanto influxo hoje a dever-te chego,

Pagará de meu peito a voz cadente.

Das ninfas, que na fresca, amena estância

Das tuas margens úmidas ouvia,

Eu terei sempre n'alma a consonância;

Desde o prazo funesto deste dia

Serão fiscais eternos da minha ânsia

As memórias da tua companhia.

LXXVII

Não há no mundo fé, não há lealdade;

Tudo é, ó Fábio, torpe hipocrisia;

Fingido trato, infame aleivosia

Rodeiam sempre a cândida amizade.

Veste o engano o aspecto da verdade;

Porque melhor o vício se avalia:

Porém do tempo a mísera porfia,

Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.

Se talvez descobrir-se se procura

Esta de amor fantástica aparência,

É como à luz do Sol a sombra escura:

Mas que muito, se mostra a experiência,

Que da amizade a torre mais segura

Tem a base maior na dependência!

LXXVIII

Campos, que ao respirar meu triste peito

Murcha, e seca tornais vossa verdura,

Não vos assuste a pálida figura,

Com que o meu rosto vedes tão desfeito.

Vós me vistes um dia o doce efeito

Cantar do Deus de Amor, e da ventura;

Isso já se acabou; nada já dura;

Que tudo à vil desgraça está sujeito.

Tudo se muda enfim: nada há, que seja

De tão nobre, tão firme segurança,

Que não encontre o fado, o tempo, a inveja.

Esta ordem natural a tudo alcança;

E se alguém um prodígio ver deseja,

Veja meu mal, que só não tem mudança.

LXXIX

Entre este álamo, o Lise, e essa corrente,

Que agora estão meus olhos contemplando,

Parece, que hoje o céu me vem pintando

A mágoa triste, que meu peito sente.

Firmeza a nenhum deles se consente

Ao doce respirar do vento brando;

O tronco a cada instante meneando,

A fonte nunca firme, ou permanente.

Na líquida porção, na vegetante

Cópia daquelas ramas se figura

Outro rosto, outra imagem semelhante:

Quem não sabe, que a tua formosura

Sempre móvel está, sempre inconstante,

Nunca fixa se viu, nunca segura?

LXXX

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

LXXXI

Junto desta corrente contemplando

Na triste falta estou de um bem que adoro;

Aqui entre estas lágrimas, que choro,

Vou a minha saudade alimentando.

Do fundo para ouvir-me vem chegando

Das claras hamadríades o coro;

E desta fonte ao murmurar sonoro,

Parece, que o meu mal estão chorando.

Mas que peito há de haver tão desabrido,

Que fuja à minha dor! que serra, ou monte

Deixará de abalar-se a meu gemido!

Igual caso não temo, que se conte;

Se até deste penhasco endurecido

O meu pranto brotar fez uma fonte.

LXXXII

Piedosos troncos, que a meu terno pranto

Comovidos estais, uma inimiga

E quem fere o meu peito, é quem me obriga

A tanto suspirar, a gemer tanto.

Amei a Lise; é Lise o doce encanto,

A bela ocasião desta fadiga;

Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga

Em um tormento, em um fatal quebranto?

Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora

Vós a vêdes talvez, dizei, que eu cego

Vos contei... mas calai, calai embora.

Se tanto a minha dor a elevar chego,

Em fé de um peito, que tão fino adora,

Ao meu silêncio o meu martírio entrego.

LXXXIII

Polir na guerra o bárbaro gentio,

Que as leis quase ignorou da natureza,

Romper de altos penhascos a rudeza,

Desentranhar o monte, abrir o rio;

Esta a virtude, a glória, o esforço, o brio

Do Russiano Herói, esta a grandeza,

Que igualou de Alexandre a fortaleza,

Que venceu as desgraças de Dario:

Mas se a lei do heroísmo se procura,

Se da virtude o espírito se atende,

Outra idéia, outra máxima o segura:

Lá vive, onde no ferro não se acende;

Vive na paz dos povos, na brandura:

Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende.

LXXXIV

Apre Giano il gran Tempio; orrido, e nero,

Tutto scomposto 'l crin, Marte s'adira;

Ecco l'armi, l'insegne; ecco s'aggira

Con torbidi ruggiti 'l Leon Ibero:

Lascia i freddi Trioni 'l Duce altero;

Viene sopra di noi la strage, e l'ira;

Altro, fuor che vendetta, non respira

Il Ebro audace, il Rhodano guerriero:

Par, che già d'Acheronte in sulle spume,

Del Dio feroce lampeggiando il volto,

Vaghe schiere d'Eroi varcano il fiume;

Oh Dei! tutto è in terrore il mondo accolto:

Ma che auspizio è mai questo! contro il Nume,

D'Andrada sol, d'Andrada il nome ascolto.

LXXXV

Sposi felici, per la vostra face

Splenda di Portugal provido il Nume;

Portando a noi la sospirata pace,

Della Madre d'Amor fra l'auree piume.

Fatte, che a pro di noi la Diva audace

L'empia ruota suspenda: entro il suo fiume

Spirar non vegga il vostro amor verace

Il Domator de le Tartaree spume.

Vivete in dolce nodo: altre favil e

Il ciel non fecondo cosi giocondo;

Amor, che l'inspiró, Amor nutrille.

Sorger vegg'io dal talamo fecondo

Fra mil e gioie, fra trionfi mille

E gloria a Portugal, e gloria al mondo.

LXXXVI

Di così degno Eroe la Regia fronte

Cinga d'eterno al or, chi virtù ama:

Che il ciel la gloria sua per altro chiama:

Sentier, che guida a più sicuro monte.

Non di Parnaso, non d'audace fonte

I fiori, ed i cristalli alla sua fama

Omaggio esser potran; ciascun, che brama

I suoi merti lodar, lodi à più pronte.

Voto faccia di voglia assai sincera,

Dell'anima tributo sia la fede;

Questa victima ei solo ama, ei la spera.

Non più l'Eróe, mortali, da voi chiede;

Il non sprezar la vostra fé sì vera,

È de tributi vostri ampia mercede.

LXXXVII

Sorpreso de così sonori accenti,

Non ho ragion, che basti, ó Vate degno,

A consecrare al tuo discreto ingegno

Questi voti, non so, se assai cadenti.

Udir credei a intempestivi eventi

Tutto il Pindo sonar, si che a tal segno

Forse non dubitai del crudo regno

Frenasse Orpheo gli spiriti inclementi.

Questa dal mondo poi giammai probata

Beltà da labri tuoi abbia l'ardore

D'en sì rozzo paese essere amata.

Ed io pur non avrò culto maggiore,

Che render vada al a tua Musa grata,

Fuor di quel del silenzio fido onore.

LXXXVIII

Non ho valor, che basti; io corro in vano

A ricoprirmi del pesante scudo;

Senza armi 'l sen, senza armi 'l cor ignudo

S'abbandona al tuo strale, Amor insano.

Idolo mio, che m'offre in volto umano

Beltà quasi divina, al petto rudo

Si soave gli porge il velen crudo,

Che orror non ho nel venerar la mano.

Reggi 'l colpo; la strage io non pavento;

Ti daranno, crudel, poca victoria

La mia ruina, il mio duol, il mio tormento.

Saremmo entrambi esempi a grata istoria,

Tu mostrando il tuo tardo pentimento,

Io nel martin trovando la mia gloria.

LXXXIX

Misera rimembranza, che mai tenti!

Perché venirmi tormentando ancora!

Non m'accordar, ti chiedo, la dolce ora

De'primi miei suavissimi contenti.

Furono brevi; e sono così lenti

I passi tuoi, che nella grata Aurora

Del mio piacer, io ritrovai tallora,

In sembianza di gioia i miei tormenti.

Ah non lasciasti mai la spiaggia aprica,

Per gime in grembo al procelloso flutto,

Allor, che si mostrò la sorte amica.

Non sarebbe il mio ben per lei distrutto;

Né avrei nel alma una crudel fatica,

Che tutto afflige, e che sconsola tutto.

XC

Esci d'ingano, o Nice; io non t'adoro;

Chi ti parla così, parla sincero;

Mi piace 'l volto tuo; mi piace, è vero;

Ma non mi punse Amor col'strale d'oro.

Piangon gl'amanti ovunque; i voti loro

Sono tributi d'immortal pensiero:

Or vedi; io son tranquil o, io sono altero,

Io non sento fatica, ed ho ristoro.

O non è amore, o pur, s'amor si chiama,

D'ogni d'amor martiro l'ordin muta,

Ch'in tanti cuori 'l suo trionfo acclama;

Ma che mai vanta l'alma d'asoluta!

Ricanterò: Questa alma altro non brama,

Che nel incendio tuo restar perduta.

XCI

Non parlarmi d'amor, ingrata Nice;

Ch'io non ho già per te questi pensieri:

Credulo a tanti affetti lusinghieri

T'adorai, non te 'l nego; ero infelice:

Il vecchio disinganno or odo; ei dice:

Fol e che sei! come adorar gl'alteri

Transporti puoi d'affanni così fieri?

Ei parla; ed i suoi detti ascoltar lice.

Saggio dunque 'l rimprovero del cuore

Nel più vivo lo stampo, ed il consiglio

Per seguitar, o Nice, ho gran valore:

Angel sarò, che fuor del cauto artiglio

Per fuggire a tuoi lacci andrò, Amore,

Portando in fronte il volto del periglio.

XCII

Dolci compagni miei, dolce mia cura,

Consolate 'l mio duol; se pur vi piace

Rendermi quel a sospirata pace,

Che mi toglie crudel la mia sventura.

Senza la vostra compagnia oscura

Parmi del Sol la scintillante face;

Sul'orme vostre 'l mio pensier seguace

Tutto ciò, ch'e diletto, odia, e scongiura.

Altro ciel, altre genti, astri infelici

Mi sforzano a veder: mi fu ribel e

La mia sorte; e son tutti miei nemici.

Ma se vedervi più negan le stelle,

Vi priego almen pe'suoi bei lumi, Amici,

Curate la mia Nice, e le sue agnelle.

XCIII

Dolci parole, or più non siete quelle:

Nice, a cui piacqui un giorno, or mi deride;

E le pupille sue, un tempo fide,

Or sono a danni miei barbare stelle.

Più costante, che incontro al e procelle

Scoglio, che urtano i venti, e le onde infide,

Quanto più col rigor crudel m'uccide,

Tanto ardo più per le sue luci belle.

Quel 'ira sua, cred'io, del 'amor mio

Alimento è tal volta, e dell'imparo,

Per strugermi a suoi rai, nov'arti anch'io.

Pur non veggo 'l Destin, con me si avaro,

Se del suo sdegno a stimol così rio

Sento l'incendio, Amor, esser più chiaro.

XCIV

Non lasciarmi, crudel; quella, ch'io rendo,

Victima volontaria dal mio cuore

È ben degna di te, se pur l'amore,

Se pur il premio tuo non ti contendo.

Io senza speme alla tua luce attendo,

Come Clicie tallor: se del maggiore

Pianeta ogn'un'adora lo splendore,

Senza ch'il raggio l'urte, 'l va sieguendo.

Ma tu fuggi, crudel! Ah! non son io

Inteso a divorarti, o mostro, o fiera;

Placcarti voglio con il pianto mio.

Se pur muoverti ancor l'alma non spera,

Questo, barbara (oimè!) questo desio

Pera, ma innanzi a tuoi bell'occhi pera.

XCV

Del tuo Fileno alla incerata avena

Ferma, Nice crudel, ferma le piante;

Mentre in tua lode 'l Pastorello amante

Dolce fa risonar la selva amena.

Vedi, come di gioia in questa arena

Tutto par ch'innamore 'l tuo sembiante,

Il feroce Leon, la Tigre errante,

Il mar, che freme, il ciel, che ne balena.

Di sopra questo sasso ah ben vegg'io

Giungersi intorno a me del tuo bel nome

Al eco amato di Protheo la gregge:

Tutto vien'ad udirmi; è pieno il rio

De gl'umidi abitanti; e (non so come)

Altra legge non han, che la tua legge.

XCVI

Erra d'intorno a me l'ombra onorata

Di quel a dolce, incantatrice Donna,

Che cinta or de più lucida corona

Splende fra gl'Astri alla mia fede ingrata.

Io la riveggo in torvo aspetto irata;

Or m'accusa, or mi siegue, or m'abbandona;

L'orribil voce mi spaventa, e sona,

Come fiamma di Giove in ciel vibrata.

Qual misero destin (o Dei!) qual forte

Amor mi dié! veggo la face mia,

Fuggo, tremo, m'aghiaccio, e non son forte:

M'accordo al or, che al fianco in ogni via

La seguitai: o quanto, Amor, la morte

Quanto fa, quanto mutta, quanto oblia!

XCVII

Questo, che la mia Musa oggi a te rende,

Indegno omaggio di beltà si rara,

Non lo sdegnar, ti chiedo, o Nice cara,

Nice, di ch'il bel volto il cor m'accende.

Di merti tuoi quel, ch'il mio canto prende,

Onorato argomento (o legge amara!)

D'umili voci alla cadenza avara

Non si concede, fugge, e se difende:

Desti nel alme poi la meraviglia

Dei nome tuo quel dissonante accento,

Che preziosi i miei voti mi consiglia:

A così dolce indulto andrò contento,

Se tu di Citheréa, di Giove figlia,

Non disapprovi, ó Nice, 'l mio concento.

XCVIII

Destes penhascos fez a natureza

O berço, em que nasci! oh quem cuidara,

Que entre penhas tão duras se criara

Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa

Tomou logo render-me; ele declara

Contra o meu coração guerra tão rara,

Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,

A que dava ocasião minha brandura,

Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,

Temei, penhas, temei; que Amor tirano,

Onde há mais resistência, mais se apura.

XCIX

Parece, ou eu me engano, que esta fonte

De repente o licor deixou turvado;

O céu, que estava limpo, e azulado,

Se vai escurecendo no horizonte:

Por que não haja horror, que não aponte

O agouro funestíssimo, e pesado,

Até de susto já não pasta o gado;

Nem uma voz se escuta em todo o monte.

Um raio de improviso na celeste

Região rebentou; um branco lírio

Da cor das violetas se reveste;

Será delírio! não, não é delírio.

Que é isto, pastor meu? que anúncio é este?

Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio.

C

Musas, canoras musas, este canto

Vós me inspirastes, vós meu tenro alento

Erguestes brandamente àquele assento

Que tanto, ó musas, prezo, adoro tanto.

Lágrimas tristes são, mágoas, e pranto,

Tudo o que entoa o músico instrumento;

Mas se o favor me dais, ao mundo atento

Em assunto maior farei espanto.

Se em campos não pisados algum dia

Entra a ninfa, o pastor, a ovelha, o touro,

Efeitos são da vossa melodia;

Que muito, ó musas, pois, que em fausto agouro

Cresçam do pátrio rio à margem fria

A imarcescível hera, o verde louro!

EPlCÉDIO I

À morte do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Gomes Freire de Andrada, Conde de Bobadela, Governador e Capitão General do Rio de janeiro e Minas, etc etc etc A ti me chego, ó Mausoléu sagrado,

De um alto Herói depósito adorado,

Permite que aos impulsos do gemido,

Das lágrimas, dos ais, corra advertido

A venerar as cinzas que sepultas.

Sei que ambicioso uma relíquia ocultas

Do mais raro Varão, que aponta a história

Nos eternos volumes da memória.

Daquele, que proposto como espelho

De uma inteira virtude, no conselho,

Na execução, mostrou que unir sabia

As leis da temperança e da valia,

Sustentando por modo estranho e raro

Do Monarca o amor, do povo o amparo.

Sei que guardas (eu digo) nas entranhas

O generoso braço, que às campanhas

Deu assombro e terror; sei (porque tudo

Explique de uma vez) que no horror mudo

Desse cofre soberbo a estranha dita

De um Andrada imortal se deposita;

Que no busto fatal a estampa grata

Do mais distinto Freire se retrata;

Que se guarda e se adora a imagem bela

Desse Conde feliz de Bobadela.

Ao romper o clamor das tristes vozes,

Ao soltar estas cláusulas velozes,

Oh! qual eco de dor, de pena, e pranto

Se vê corresponder a impulso tanto!

Em lágrimas se rompe o peito aflito:

De sombras veste o Céu; ao triste grito

Soluça o ar, os elementos gemem;

Todos da terra os fundamentos tremem;

E parece que a fúnebre saudade

Não encontra na vasta imensidade

De um mundo, que compreende, aquela esfera,

Que para o desafogo achar quisera.

Mas que muito, que ao lúgubre gemido

Se altere e cresça o universal ruído,

Se perde Portugal, se o mundo perde

Aquela sempre firme, sempre verde

Rama da heroicidade transtagana!

Se enfim de toda a glória lusitana

Um só Herói, que enchera o fasto inteiro,

Hoje vem a jazer por derradeiro

Deste calado horror no abrigo triste!

Aqui todo o valor de Marte assiste;

Aqui jaz todo o alento da piedade;

Aqui o desempenho da lealdade,

O magnífico, o sábio, o reto, o ativo,

O liberal, constante, discursivo,

Prudente, valeroso: ah! que a tal brado

Confunde-se a razão, pasma o cuidado!

Amplificar a esplêndida figura

De seus dotes quisera; abra a escultura

Dos pórticos a Fama; os olhos entrem;

Registem as estampas; reconcentrem

A longa admiração: desde a corrente

Do cristalino Tejo, oh! que valente

Neste quadro respira! Aqui, tingindo

Do sangue ibero as preciosas veias,

Roxas tornando as pálidas areias,

Une de Portugal ao cetro egrégio

Tantos novos troféus; o privilégio

De seu braço imortal quanto se aclama,

Quando em Campo Maior o cinge a rama,

Por triunfar co'as lusitanas Quinas!

Tu, soberba Castela, entre as ruínas

De teus muros o choras, o teu susto

Lá lhe soube tecer o louro augusto,

Com que apesar de tanto pranto e mágoas,

Enobreceu do Guadiana as águas.

Esse ferro, que agora dependura

Tinto de sangue a Fama, te assegura,

Aflito Portugal, as leis e o trono.

Da tua permanência o eterno abono

Deves àquela espada; ela se ensaia

Nos ilustres Avós: qual em Cambaia

O seu nome deixou! qual em Quiloa

Debuxa o seu brasão! Lá vive em Goa

A memória do sangue: honrado emblema

São de tanta virtude em nobre lema,

Entre as chamas dos bélicos alfanjes,

As ânsias do Indo, as lágrimas do Ganges.

Feliz, ó Portugal, feliz mil vezes

Tu, que para esplendor dos Portugueses

Deste ferro a memória tens guardado!

Se queres ser no mundo respeitado

Pela virtude, outro brasão não tomes,

Que ser Pátria dos Freires e dos Gomes.

Quem haverá que a competir se atreva,

Quando (porque imortal ouvir se deva)

Desde o teu berço este pregão respire!

Eu te prometo que por mais que gire

O Planeta da luz, outro portento,

Outra estirpe maior em todo o alento

Da fama se não logre: aqui se estende,

Aqui se alcança, aqui se compreende

Tudo quanto por glória, e por vaidade,

Engrandece o esplendor da heroicidade.

Mil séculos, e mil se tem passado,

Desde que o Céu com próvido cuidado

Vem lavrando a feliz genealogia

De Varões tão fiéis: a Monarquia

Os honra no solar de Bobadela

Em um Nuno, um Bermudes, um Fruela,

Um Rodrigo, um Forjaz, Peres, Fernandes,

Um Mendes, um Pauzona, e outros Grandes,

Que apontam com espíritos sublimes

A Desidério, Rei dos Longobardos.

Estes os imortais progenitores,

Que intimando no exemplo dos suores

A imitação de um Freire, em glória estranha

Enchem a Portugal, a Itália, e Espanha,

As Barras inculcando por divisa

No brasão, que o seu nome soleniza.

Mas como em um só quadro me detenho,

Admirando o valor, se o desempenho

De outras tantas virtudes tem chegado

A encher da Fama o generoso brado!

Fale a acorde harmonia, com que o vejo

Temperando o governo: aqui do Tejo

A Nau soberba se desata, aonde

O valeroso espírito se esconde,

Que ao antártico clima foi mandado

A governar todo o País dourado.

Este é das Minas, este o áureo hemisfério,

Nobre porção do lusitano Império:

Aqui, ó Rei, ao meu Herói confias

As rédeas do governo. De teus dias

A dilatar o esplêndido progresso

Terias outro abono! Eu não conheço

Vê qual desinteresse o acredita

Digno de teu favor: entre a esquisita

Cópia de tanto Ofir, a prata, o ouro,

O topázio, as safiras, o tesouro

Dos diamantes, que a terra desentranha,

Não sabem conceber a empresa estranha

De atrair-lhe a ambição; ao seu desprezo

Serve apenas de objeto o raio aceso

Do precioso metal; a alma se cria

Com tão nobre, louvável rebeldia,

Que nada menos a molesta e cansa

Que sustentar a sólida aliança

Que fez com a justiça: este progresso

Ganha em teu peito o luminoso apreço

De um vassalo fiel, nele guardando

De três governos repartido o mando

O Rio de Janeiro lhe obedece;

De São Paulo o empório reconhece

A alta moderação; e as Minas douro

Se esclarecem, tecendo o fausto agouro.

Mas oh! e com que inteiro movimento

A propagar do cetro o régio aumento,

Apesar do trabalho, a mão se aplica,

Quando o peso se dobra, ou se triplica!

Como a sagrada lei primeiro objeto

É da sua intenção, o alto projeto

De encher a obrigação do cargo ilustre

Quanto na execução lhe esforça o lustre!

De Nêmesis, parece que a balança

Nunca teve outro ponto; a segurança

Do fiel observou tão finamente,

Que se o digno se alegra, o delinqüente

Não acusa o castigo: a pena, o prêmio,

Achando na justiça igual o grêmio,

Saíam dentre as mãos tão bem pesados,

Que se viram talvez equivocados

O prazer e a dor: louva o aflito

A justa punição do seu delito;

E chora o benemérito, no susto

De não ser imortal Herói tão justo

Pronto o despacho, a súplica atendida,

Castigada a maldade, agradecida

A retidão, a idéia vigilante

Não conhece repouso um só instante:

Enfim o seu descanso, o seu sossego

É só a instância do zeloso emprego.

Oh! que estranha se inculca a nobre idéia

Deste saudoso Herói! Tanto de Astréia

O espírito igualou, que ao Rei, ao povo

Soube conciliar por modo novo.

O vasto empório das douradas Minas

Por mim o falará: quando mais finas

Se derramam as lágrimas no imposto

De uma capitação, clama o desgosto

De um País decadente; e ao seu gemido

Se enternece piedoso o esclarecido,

O generoso Herói: ao Soberano

Conduz a queixa, representa o dano.

Chega o remédio pela mão piedosa,

Ministra do favor; menos penosa

Já se modera a imposição: contente

Já ri o povo, já se alegra a gente.

Lisonjeiro o prazer cada um descobre,

Os pequenos, o grande, o rico, o pobre.

Ó alma grande! Ó alma esclarecida!

Digna de ser guardada, ser nutrida

Na pompa dos Elísios, entre os belos

Espíritos dos Élios, dos Metelos,

Dos Cipiões, Temístocles, Zopiros

E outros, que em felicíssimos retiros

Gozando estão as auras lisonjeiras,

Em prêmio desse amor, com que as primeiras

Fadigas de um solícito cuidado

Pelo Rei, pela Pátria hão consagrado.

Estes os frutos são dessa doutrina,

Que bebeste na cândida oficina

De uma ética inata: ali se alcança

Aquela inalterável confiança,

Que em ti sabes firmar, mostrando ao mundo,

Com desprezo da inveja, o mais profundo,

Positivo esplendor, que te reserva,

Superior à emulação proterva.

Que importa que de estrada dissonante,

Seguindo outros talvez o curso errante,

Assegurar pertendam sobre o trono

De um alto valimento o régio abono,

Se essa idéia injustíssima que os guia,

Estragando os desígnios, algum dia

Fará gemer com lástima importuna

O mal seguro alento da fortuna!

A idéia mais feliz de ser aceito

À vontade de um Rei é ter o peito

Sempre animado de um constante impulso

De amar o que for justo: este acredita

Ao servo, que obedece; felicita

Ao Rei, que manda; este assegura a fama;

Este extingue a calúnia, e apaga a chama,

De um ânimo perverso, que atropela

O precioso ardor de uma alma bela.

Pelos degraus desta feliz escada,

Subiste, ó Freire excelso: ao braço, à espada,

Ou na civil Minerva, ou na Castrense,

Há um Rei, que as fadigas te compense.

Triplica-te o governo; honra-te o cargo;

Teus méritos confessa; um campo largo

Aos prêmios abre; a General te chama;

Te fia os seus exércitos; te aclama

Na régia comissão seu substituto.

De tão alta virtude o egrégio fruto

Respira enfim no esplêndido apelido,

Título grande, sim; mas tão devido,

Que inda que teus serviços ornar venha,

Cuido que a régia mão não desempenha.

Não te faz grande o Rei: a ti te deves

A glória de ser grande; tu te atreves

Somente a te exceder; outro ao Monarca

Deva o título egrégio, que o demarca

Entre os Grandes por Grande; em ti louvado

Só pode ser o haver-te declarado.

Mas que muito, que a tanto Herói assista

Este influxo feliz, se ele conquista

Com seus braços o Céu! ele desata

Com a mão liberal a cópia grata

De tantos cabedais: é confiado

Menos o soldo, para o nobre estado,

Que para sustentar com régio empenho

Do coração devoto o desempenho.

A dispêndios do ardor, que a alma respira,

Ali aquele pórtico se admira,

Por onde se abre ao mundo a excelsa entrada

De uma casa, que a Deus é consagrada.

Têm de Teresa as religiosas filhas

Ali um santo abrigo: as maravilhas

De um zelo nunca visto ali se inculcam.

Buscas o Autor da nobre arquitetura?

Queres saber quem ergue essa estrutura,

O dórico, o coríntio frontispício?

Esse mármore o diga: mas o indício

Na pedra se não grava: oh! que a piedade

Lhe encurtou esse alento na vaidade!

Foi providência, não foi erro: ignora

Esse mármore egrégio a mão que o fora

Desentranhando desde a terra dura,

Que o erguera e polira. O Herói procura

Que se esconda o seu nome. Em glória tanta

O seu mesmo silêncio é quem o canta.

Vê que o dogma evangélico encomenda

Que a direita co'a esquerda não se entenda:

E esta máxima tanto a Freire agrada,

Que até com Deus a deixa praticada.

Deu a Deus só por Deus: ao padrão sobra

Saber que a Deus é consagrada a obra.

E quem (oh! Céus!), quem há que não presuma

Educado este espírito na suma,

Penitente fadiga dos desertos!

Quem há que estes estímulos despertos

Não julgue na Tebaida mais austera!

Mas oh! quanto a virtude mais se esmera,

Lá cultivada desde a tenra idade,

Entre a perversa, mísera vaidade

Da militar licença, onde se apura

Toda a relaxação, toda a soltura!

Outro talvez de escola, que é tão fera,

Razão de seus escândalos trouxera:

Só acha Gomes da virtude a chama

No mavórcio exercício; ali se inflama

Na alta meditação de um pensamento,

Que só em Deus contempla o fundamento

De toda a humana glória: na vigia,

Nos sítios, nos ataques, na porfia

Dos choques, dos assédios, lá protesta

Que a mão é só de Deus; nada lhe resta

Que esperar de si mesmo: neste estudo

Tudo se logra, se prospera tudo.

Não me suspenda deste templo o objeto;

Discorra a admiração: o ardente afeto,

Com que se entrega ao Céu, que bem se explica

Nessas casas de Deus! ele se aplica

A Protetor da caridade santa.

Com seu fervor congregações levanta,

Onde aos pobres assista. O Pão Sagrado

Se ministra aos enfermos; acha o aflito

No cárcere o favor, para o delito

Se deputa Advogado; ao morto acode

Com o supremo ofício a mão piedosa.

Tu, Vila Rica, tu, a mais saudosa,

Nessa casa de Deus, que hoje sustentas,

O choras, o suspiras, o lamentas.

Tu o choras, ó mundo: mas que digo!

O Céu o chora, o Céu: que o braço amigo

Não fez mais grato o mundo, que fizera

Agradecido o Céu: ele quisera

Este Herói imortal; a lei sagrada

Da Providência, a lei sempre adorada

É quem o rouba da ventura nossa,

Quem de nós o separa, sem que possa

Suspender-se a si mesma: é Providência;

Mas que digo! é decreto; é obediência.

E quem sabe se lá no eterno seio

Das idades futuras (não o creio),

Quem sabe se apesar da estranha inveja

Outra alma tornará, onde se veja,

Para consolação desta ânsia aguda,

A virtude exemplar, que aqui se estuda!

Em que tão largos séculos prepara

O Céu uma alma grande! O Tejo o diga

Se de Heróis lusitanos na fadiga

Deu à Fama, em idade dilatada,

Outro Freire, outro Gomes, outro Andrada.

Consolação pesada eu te proponho,

Ó Reino, em tal memória: sei que choras

Os breves dias, as ligeiras horas,

Que lhe cortou o próvido destino.

Ah! se o viras no susto intercadente

Do mortal desalento! o pranto infausto

Se convertera em júbilo. O holocausto

De uma alma pura ele feliz votava

Ao Criador eterno, e se abraçava

Com a celeste imagem de Teresa.

Dos amigos, dos servos a tristeza

Em melhor sorte converter queria.

O alento pouco e pouco se extinguia;

E seguro da empresa... ah! que emudeço!

Eu pasmo; eu tremo; eu choro; eu desfaleço.

Já roto, já quebrado o nobre escudo,

Guarda o Gênio o brasão: entre o horror mudo

O Templo de Teresa já demanda

Conduzido o cadáver; surda e branda

Se ouve a harmonia do tambor guerreiro;

Arrastam-se as bandeiras; pregoeiro

É o rouco metal; o pó sulfúreo

Em salvas se dispende: uma ânsia interna

A pompa funeral rege e governa.

Cingido dos Brandões, que a mágoa sofre,

Prossegue logo em um dourado cofre

O ilustre coração. Oh! quanto é digno

De respirar eterno o ardor benigno

Que o nutriu, que o gerou! penhor sagrado,

Do caráter de um Freire fiel traslado!

Deva ao bálsamo, deva o benefício

De triunfar do infausto precipício

Dos anos, nele achando a atividade,

Que não pôde encontrar na humanidade.

Não pode, excelso Herói, não pode esta ânsia

Permitir mais esforços à constância.

A registar de todo não me atrevo

O Templo, que busquei; a cifra escrevo,

porque o mundo jamais de ti se esqueça:

Aqui jaz... mas que digo! aqui começa

A nascer a virtude: não se apaga

Uma ilustre memória; não se estraga

Uma excelsa relíquia; antes mais templos

Se produzem da vida dos exemplos.

Oh! que enganadamente solicito

Achar letra que explique aquele invicto

Espírito, que choro: em vão se atenda

O risco, que lavrei. Tudo se emenda,

Tudo já se desfaz. Se o néscio intento

Eternizar procura o monumento,

Seja túmulo o mundo. A cobertura

Seja o Céu: honre a esplêndida figura

Das faixas toda a luz, a impulso tanto,

Suspiro o fogo, e oceano o pranto.

Seu potius

Pro tumulo ponas orbem, pro tegmine coelum.

Sidera pro facibus, pro lacrimis maria.

EPICÉDIO II

À morte de Salício

Espírito imortal, tu que rasgando

Essa esfera de luzes, vais pisando

Do fresco Elísio a região bendita,

Se nesses campos, onde a glória habita,

Centro do gosto, do prazer estância,

Entrada se permite à mortal ânsia