Obras poéticas (nova edição) por Manuel Maria Barbosa du Bocage  - Versão HTML

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OBRAS POETICAS

DE

B O C A G E

NOVA EDIÇÃO

REDONDILHAS (ANACREONTICAS), CANÇONETAS,

GLOSAS, FABULAS, EPIGRAMMAS, ELOGIOS DRAMATICOS,

DRAMAS ALLEGORICOS, FRAGMENTOS,

VERSÕES LYRICAS, EPISODIOS TRADUZIDOS, FASTOS

V O L U M E I I

L I S B O A

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

Rua Augusta, 44 a 54

1910

ODES ANACREONTICAS

I

Veloz Borboleta,

Que leda girando

Penosas idéas

Me estás.avivando:

Insecto mimoso.

Aos olhos tão grato,

Da minha tyranna

Tu és o retrato:

A graça, que ostentas

Nas plumas brilhantes,

Tem ella nos olhos

Gentis, penetrantes:

Tu andas brincando

De flôr para, flor ;

Anardamaguêa

D' amor em amor.

2

Os teus prisioneiros,

Cupido, os que devem

Saber definir-te,

Que mal te descrevem !

És aspide (affirmam)

Cuberto de flôres,

Sedento d'estragos,

Amigo de horrores:

6 OBRAS DE BOCAGE

Sustentam carpindo

Que os féres, e enlêas

Com aureos virotes,

Com ferreas cadêas:

Enganam-se, oh nume!

Teus laços, teus tiros

São longas madeixas,

São ternos suspiros.

3

De liquido aljofar

As faces bordadas,

Ao vento dispersas

As tranças douradas:

«Vingança, meu filho

(Clamava Erycina)

Que a vil natureza

Se atreve á divina:

«Em damno de um impio

Mortal, que me affronta,

Venenos prepara,

Tormentos aprompta:

«Elmano em seus hymnos

Prefere-me Isbella;

Diz que é mais mimosa,

Mais loura, mais bella.

«Os teus males todos

Me vinguem, oh nume !. . . »

Amor a interrompe:

— Não basta o ciume

4

Formosa Marina.

Modêlo das Graças,

Que mil pensamentos

Accendes, e enlaças:

O D E S ANACREONTICAS

7

Áquelle, que animam

Teus dôces agrados,

Terror dos amantes,

Mimoso dos fados,

Se folgas de ouvil-o

Por ti suspirar,

Ao céo dos amores

Não deixes voar.

Dos homens ignoras

A indole errante ?

Quem é muito amado

Não é muito amante.

5

Do vasto abysmo

Do eterno horror

Surgiu a Angustia

De negra côr:

Logo apoz ella

Veiu o Queixume,

E o delirante

Feroz Ciume:

Determinavam

Em crua guerra

De pranto e sangue

Banhar a terra:

Eis que Amarilis

Idolo meu.

Entre mil graças

Lhe mereceu.

Oh milagroso

Dom-da belleza!

No mesmo instante

Riu-se e a Tristeza:

8

OBRAS DE BOCAGE

O agro Lamento

Mudo ficou;

Só o Ciúme

Desesperou.

6

Poupando votos

Á loura Isbella,

Se Amor fallasse

Nos olhos d'ella:

De almos prazeres

Me pousaria

Candido enxame

Na phantasia:

Outros, que as almas

Tambem tem presas,

Se regosijam

De ouvir finezas:

Eu antes quero

Muda expressão;

Os labios mentem,

Os olhos não.

7

(Imitada de Mr. Parny)

Se os deuses me conferissem

A suprema faculdade

D'espraiar a luz do dia,

E a nocturna escuridade:

Tarde no roxo horisonte,

Candida Aurora, assomaras;

Tarde as viçosas boninas

Com teu pranto rociaras.

ODES ANACREONTICAS 9

O deus, de que és percursora,

Só duas horas, não mais,

Vibrara n'este hemispherio

Seus raios a Amor fataes.

Mais longa seria a noute,

Mais felices os amantes;

E eu, a sabor dos prazeres,

Dividira os meus instantes:

A quarta parte do tempo

Ao g r a t o somno a daria;

Outra egual ás brandas Musas,

E ametade á' minha Armia.

8

(Imitada do mesmo)

Brando leito de verdura,

Linda alcatifa de flôres,

Formoso vergel, plantado

Pelas Graças, e os Amores:

Recebe estas frescas aguas,

Que te deve um grato amante,

C'roa-te de nova hervinha

Viceja, logar fragrante.

Quando lá no ethereo cume

Raios o sol dardejar,

Almos, benignos Favonics

Te venham desaffrontar.

As debruçadas alfênas,

Presas n'um confuso enleio,

Miudo pranto da Aurora

Destillem sobre teu seio.

Dobra-te ao suave pezo

Da minha Armia. engraçada;

Dobra-te, relva mimosa,

De boninas matizada.

10 OBRAS DE BOCAGE

Mas depois ergue-te á pressa,

Que se os brincos amorosos

Amarrotada indicares,

Não faltarão invejosos.

9

Em torno d'áurea colmêa

Amor adejava um dia :

E a mãosinha introduzindo

Humidos favos colhia :

Abelha, mais forte que eu,

Porque de Amor não tem medo,

Eis do guloso menino

Castiga o furto n'um dedo.

Chupando o tenro dedinho

Entra Cupido a chorar ;

E ao colo da mãe voando

Do insecto se vae queixar.

Venus carinhosa, e bella,

Diz, amimando-o no peito :

« Desculpa o que te fizeram,

Recordando o que tens feito.

«O tenue ferrão da abelha

Dóe menos que teus farpões ;

O que ella te fez no dedo

Fazes tu nos corações. »

10

(Traduzida de Argenson)

Vê se uma traça

Pódes achar

Para meus dam nos

Remediar.

ODES ANACREONTICAS

1 1

— Empenha afagos,

Roga humilhado...—

Afago, e rogo,

Tudo é baldado.

Lidia me abraza

Em chamma accêza ;

E as duras pedras

Vence em dureza.

— Pulsa o laûde,

Cantos lhe ajusta...

Laúde e cantos

Despreza a injusta.

— Pranto derrama,

Meigo te ostenta,

Que isto a Cupido

Tambem contenta. —

Brando me ostento,

Ais d'alma accêza,

Rios de pranto,

Tudo despreza.

— Punhados d'ouro

Sólta profuso...

De dões tão grandes

Só reis tem uso.

—- Dóme a distancia

Tão grande amor... —

Não póde o tempo,

Que elle é maior.

— Se nada pode

Findar-te a lida,

Aprompta um laço,

Põe n'elle a vida :

Porque te vejo

Triste hesitar ?

Só assim pode

Teu mal findar. —-

12 OBRAS DE BOCAGE

11