Odisseia por Homero - Versão HTML

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HOMERO

ODISSÉIA

Em Verso Português

por

MANOEL ODORICO MENDES

eBooksBrasil

Odisséia

Homero

Tradução de

Manoel Odorico Mendes (1799-1864)

Prefácio de

Prof. Silveira Bueno

Fonte digital

Digitalização da 3ª edição

Biblioteca Clássica

sob a direção de

G. D. Leoni

e

Paulo R. Teixeira

Atena Editora

São Paulo

Imagem da Capa

Ulisse e le sirene. Mosaico pavimentale romano al Museo del Bardo a Tunisi. II secolo

d.C.

Foto: Giorces

Fonte: Wikipedia

Versão para eBook

eBooksBrasil

© 2009 Homero

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

ÍNDICE

eBooksBrasil:

Nota Editorial

Prof. Silveira Bueno:

Prefácio

Homero traduzido por Odorico Mendes:

ODISSÉIA

Livro I

Livro II

Livro III

Livro IV

Livro V

Livro VI

Livro VII

Livro VIII

Livro IX

Livro X

Livro XI

Livro XII

Livro XIII

Livro XIV

Livro XV

Livro XVI

Livro XVII

Livro XVIII

Livro XIX

Livro XX

Livro XXI

Livro XXII

Livro XXIII

Livro XXIV

Nota Editorial

Começo compartilhando com o eventual leitor uma curiosidade que

sempre tive: como na Odisséia o herói é Ulisses e não Odisseu? É bem certo que

Odorico Mendes utiliza para os deuses e heróis os equivalentes latinos, o que já

foi observado por mais de um.

No caso, é interessante notar como Odisseu (’Οδυσσευ´σ) se tornou

Ulisses. Como nos informa a Wikipedia no verbete Odysseus: “O nome tem

diversas variantes: Olysseus (’Ολυσσευ´σ), Oulixeus (Ου´λιξευ´σ), Oulixes

(Ου’λιξησ) e foi conhecido como Ulisses em Latim ou Ulixes na mitologia

Romana”. — Refere-se ainda ao verbo como odussomai (οδυ'σσοµαι), com o

significado que lhe empresta a nota ao Livro XIX da fonte digital.

Agora, às notas desta edição, referentes às modificações feitas em

relação ao livro digitalizado e o que foi mantido quando alguns poderiam

recomendar que atualizações fossem feitas. Prefiro indicar o que foi feito,

deixando ao leitor concordar ou não com elas. De antemão alerto que a maioria

refere-se ao uso do diacrítico, tão útil, mas cada vez mais desprezado a cada

reforma ortográfica. Dia chegará em que, para esclarecer um texto, só mesmo

indo às fontes antigas. Uma pena!

Agamemnon, Agamêmnon, Agamémnon ou Agamenon? Em grego,

Αγαµε´µνων, o que, transliterado, seria Agamémnon. Na fonte digitalizada

aparece como Agamenon. Mantendo consistência com a edição feita da Ilíada no

eBooksBrasil, substituído por Agamemnon. Fica aqui a ressalva. O mesmo

ocorreu com Clitemnestra, Clitenestra na fonte digitalizada.

Substituído embubescida por enrubescida (I,343). Conservado dextra

em vez de destra. Conservado o diacrítico em pêlo. Diacrítico mantido em

“Bons espetos sustêm qüinqüedentados” (II,361). No Livro IV, 103: “Em

maravilhas celebre” — Odorico usou o original latino celebre em vez de grafar

célebre, talvez pelo ritmo poético. Talvez seja apenas erro tipográfico. Na

dúvida, mantive celebre, como na fonte digitalizada, com a presente ressalva.

Conservado o diacrítico em vôlto. Por exemplo, no Livro V,20, deixa

claro que fala dirigindo a Mercúrio e não que retorna a Mercúrio. No Livro

VIII,191, sem ligeiros foi substituído por sim ligeiros pelo sentido do que se

segue. No Livro VIII,264: tresdôbro (conservado o diacrítico), pois pode ser

que Odorico queria se referir não a três vezes o dobro, mas sim à parte

tresdobrada da coberta. No Livro VIII,320: libe à Jove, conservada a crase, de

acordo com a fonte digital, mas libe a Jove pareceria mais exato, uma vez que

libar significa beber em homenagem a alguém e Jove é masculino. Livro IX,188:

fôrmas, conservado o diacrítico para deixar mais que claro que coloca em

fôrmas e não em formas diversas. Conservada a forma dous, em vez de dois. No

Livro IX:429: a aqueles bravos substitui por e aqueles bravos. Poderia, como se

fez em outras edições, simplesmente eliminar o a e dizer à parte, mas

significaria que, além da parte que lhe coube na partilha, recebera Ulisses mais a

ovelha em que fugira. Deixando como está na fonte digital, a parte pode

significar que entre as ovelhas recebidas na partilha coube-lhe como parte a

ovelha em que fugira. Nas Notas ao livro IX: Cicones, mantido, mas Cícones em

outros lugares. No Livro X,19, contêm, mantido, em vez de contém. No Livro

X,215: escondrijo, substituído por escond’rijo. A elisão fica assim explicitada e

a métrica preservada. No Livro XV,406: “Vôlto ao filho de Clito”, mantido o

diacrítico em vôlto, deixando explícito que fala voltando-se em direção ao filho

de Clito e não que retorna ao filho de Clito. Vôlto foi preservado em outros

lugares. No XVI,162: apôsto mancebo, conservado o diacrítico. No Livro

XVIII,73: Calculando se exâmine o prosterne, substituído por Calculando se

exânime, evidente erro tipográfico. No Livro XVIII,235: sêca lenha, conservado

o diacrítico. No Livro XVIII,301: “Que alvorôto lamentável!”, conservado o

diacrítico. No Livro XIX,13: Na fonte digital “Eia, as mulheres/Retêm, ama, lá

dentro” Preservar ou não Retêm? Muda totalmente o sentido. Mudado para

Retém, mas poderia ser Retêm no sentido de Retenham. No Livro XIX,426:

Iminente é dos príncipes e perda, evidente erro tipográfico. Mudei para

Iminente é dos príncipes a perda. No Livro XX,93: Anuncio é para alguém,

mudado para Anúncio é para alguém. No Livro XX,226: anôjo, preservado o

diacrítico de anojo do verbo anojar. No Livro XX,301: E um monteja a

Telêmaco. Substituído por moteja. No Livro XXI,103: Exprimentai, foi

explicitada a elisão: Exp’rimentai. No Livro XXI,175: vaquerio na fonte digital.

Substituído por vaqueiro, embora a forma vaquerio, como consta na fonte

digitalizada também pudesse ser apropriada. No Livro XXI,240: fôra,

conservado o diacrítico. No Livro XXII,210: “o peio vara” substituído por “o

peito vara”. No Livro XXIII,183: “do colo do sonsorte” substituído por

consorte. No Livro XXIII,220: “a cama afôfa e mórbida estendiam” mantido o

diacrítico. Em Nota ao Livro XXIII, substituído José por Josué, por ser evidente

o erro tipográfico na fonte digitalizada. No Livro XXIV,214: “capaz doze”

substituído por capas doze.

É isso. Boa leitura!

Teotonio Simões

eBooksBrasil

PREFÁCIO

A crítica de todas as épocas reteve sempre que entre a Ilíada e a

Odisséia mediou largo tempo, atribuindo a primeira, inegavelmente, superior à

segunda, aos anos de maior energia criadora de Homero. A Odisséia, produto

dos últimos tempos do Poeta, embora de tão grande valor que outra nenhuma se

lhe poderia comparar em toda a literatura clássica, se diferenciava, em muitos

pontos, da obra-prima do grande e incomparável cantor da Grécia. Era a Ilíada

um poema militar, guerreiro, tendo por escopo principal a narração do que fora

essa guerra que terminara com o extermínio de todo um povo, de toda uma

cidade, a famosa Ílion. Como devia ser, traz o poema movimentação

extraordinária, descrições que nos conservaram as emoções das grandes batalhas

travadas entre heróis, tão grandes e tão fora dos moldes humanos que os

próprios deuses, como se fossem homens, nelas tomaram parte ativa e decisiva.

Tudo na Ilíada respira militarismo, feitos bélicos, devotamentos e sacrifícios

heróicos como nunca mais voltaria a raça humana a apresentá-los na face do

mundo. O céu e a terra, os homens e os deuses se confundem ou se aproximam

grandemente: o Olimpo não é uma região abstrata, colocada simplesmente no

alto, no céu, mas uma real montanha da Tessália, posta entre a terra e o céu,

porque os deuses deviam estar próximos dos homens e estes daqueles, de tal

modo que as qualidades e até os defeitos se comunicassem de uns para os

outros. Muito ao contrário, é a Odisséia um poema de paz, uma criação dos

tempos posteriores à tremenda ação guerreira de Ílion, quando todo o povo

heleno se refazia da grande empresa e vivia para si exclusivamente, voltado para

objetivos puramente sociais e domésticos. Os heróis, como navegantes que

retornam de suas longas viagens, reúnem-se nas largas salas dos palácios, das

casas ricas, dos chefes de valor inconteste, e aí, num ambiente de tranqüilidade,

rememoram as vencidas tempestades, os obstáculos superados, e narram, cheios

de emoções, as novidades que encontraram, os costumes diferentes que puderam

ver, contrastando-os sempre com os modelos da pátria e da gente helena,

protótipos e exemplares da perfeição humana. Desaparece aquela tonalidade

bélica e a imaginação do Poeta adorna de tons românticos as cenas que poderiam

reavivar passadas angústias. Cessa aquela ação guerreira dos próprios deuses: o

Olimpo deixa de ser aquela montanha material, geograficamente conhecida, para

tomar aspectos de abstração, de espiritualidade, transformando-se apenas no

Céu, nessa região imprecisa e impalpável, acima da terra, que até hoje vive em

nossos conceitos modernos. Não descem os deuses, transformados em homens,

a combater pela sua gente, mas lá do alto, dirigem, com o pensamento e com a

vontade, os destinos dos gregos. O ambiente geográfico é muito mais vasto na

Odisséia do que na Ilíada: para esta a região era apenas aquela em que se

travava a guerra; para aquela, poema de viagem, poema de aventuras marítimas,

estendia-se o mundo para além do Egito, entrava pelo Mediterrâneo além da

Sicília. O conceito social amplia-se também, com novas interpretações do

direito, da posse da terra, das leis que já regulam de outro modo as relações dos

cidadãos. O homem já não é aquele super-homem da Ilíada, o guerreiro

amparado pelos deuses ou transformado em verdadeiro deus: humanizou-se,

vive para a família, para o campo, sabe apreciar os momentos deliciosos do trato

social, dos instantes em que os narradores reúnem toda a família para ouvir as

suas façanhas.

A antiguidade clássica, mormente, a alexandrina e ainda mais

especialmente a romana, toda feita de belicosidade, de expedições guerreiras,

tendo por mais alto ideal a guerra, o militarismo, não poderia ter deixado de dar

maior apreço à Ilíada do que à Odisséia. Por isto vemos que desde Pisístrato,

que desde os famosos filólogos de Alexandria, de Pérgamo até Virgílio, em

pleno século de Augusto, todos tomaram em primeira plana, com interesse sem

limites, a Ilíada e não a Odisséia. Reflete-se esta preferência até na maneira pela

qual os sábios de Alexandria dividiram e classificaram os dois poemas imortais:

deram a ambos o mesmo número de “livros”, numerando-os com as letras do

alfabeto, letras que valiam também por números. Mas aos vinte e quatro livros

da Ilíada, apuseram as letras maiúsculas do alfabeto grego; aos vinte e quatro

livros da Odisséia apuseram as letras minúsculas. Virgílio, quando quis escrever

a Eneida, não tomou por modelo a Odisséia, mas a Ilíada: ele devia narrar,

fantasticamente, os feitos militares da gente romana, as suas conquistas, a força

da sua espada, a coragem dos seus heróis: não poderia procurar, para tamanho

quadro bélico, outro modelo que não fosse o da Ilíada. A Odisséia representava

uma época posterior à das guerras, das convulsões, da conquista do mundo:

ficaria para modelo dos que, mais tarde, quisessem narrar os feitos de

civilização romana quando o mundo conhecido fosse apenas o “mundo romano”,

dirigido e governado pelas leis de Roma, falando até a mesma língua latina.

Para nós, gente que o cristianismo civilizou e domou, que temos horror à

espada e só aspiramos às batalhas do espírito, a Odisséia é o poema preferível,

que mais dentro se encontra do nosso ideal, descontados os séculos e levados em

conta os modos diferentes da interpretação social. Por isto, desapareceu, pouco

a pouco, o interesse que a antiguidade devotou à Ilíada e foi sempre crescendo o

valor da Odisséia. O poema de Virgílio, embora calcado no poema de Homero,

por tal maneira o eclipsou em toda a Idade-Média, que ninguém mais se deu ao

trabalho de o ler diretamente em grego, contentando-se com as referências

latinas dos famosos e formosos hexâmetros virgilianos. Nem mesmo o

Renascimento conseguiu restabelecer o prestígio da Ilíada porque o valor quase

mítico de Virgílio cresceu ainda mais nessa época em que todas as inteligências

se voltavam a Atenas e a Roma.

A Odisséia, com as suas narrativas fabulosas, com os dados de

conhecimento geográfico e social da antiguidade, passou a ocupar a primeira

plana no interesse europeu. Basta lembrar as inesquecíveis aventuras de

Telêmaco, ainda mais depois que foram postas em francês pela pena admirável

de Fénelon: fizeram as delícias dos príncipes e dos plebeus, foram a leitura

essencial de todas as escolas da Europa, chegando até nós no Brasil.

Odorico Mendes, certamente, um caso raro nas letras nacionais, o maior

humanista que já tivemos em nossa pátria, quase fabuloso por ter conhecido tão

perfeitamente a literatura e a língua grega, ao ponto de verter para o nosso

idioma os dois poemas que embalsamaram para a eternidade a Grécia, não

conseguiu fugir aos preconceitos do seu tempo, e melhor ainda, à formação

intelectual da sua personalidade. Traduziu primeiro a Ilíada e somente nos seus

últimos tempos, a Odisséia. Como aconteceu ao próprio Homero, a sua primeira

tradução, obra dos seus dias mais jovens, foi mais esmerada que a segunda,

quando já o seu valor físico declinava. Nem por isto a Odisséia desmerece da

Ilíada, na pena de Odorico Mendes. Traduziu-a em versos portugueses,

escolhendo, como era da praxe literária, o decassílabo heróico. Traduziu-a em

versos e por que não o fez em prosa, como têm preferido os tradutores mais

modernos? Era ainda a um preceito literário do tempo a que obedecia o

humanista brasileiro: não se concebia um poema e da fama da Odisséia, em

prosa, veste menos digna das grandes criações do gênio épico. E daqui

procedem todos os obstáculos encontrados pelo tradutor: como encerrar, na

exiguidade do decassílabo português, a majestosa extensão do hexâmetro grego,

do metro homérico? Tinha o poeta maranhense de comprimir, em dez sílabas, as

quatorze, as dezesseis do verso clássico. Para tanto, teve de sacrificar muitas

palavras, de recorrer a expressões mais sintéticas, para que o limite imposto pela

exigência do decassílabo português não fosse transgredido. Nesse trabalho,

encontrou ainda Odorico Mendes outro óbice não menos difícil de vencer: o

vocabulário, as expressões técnicas, os modismos gregos de que tanto se valeu

Homero para tornar-se universalmente famoso. Neste ponto, houve-se o tradutor

maranhense com a mesma habilidade com que se houveram os italianos, os

franceses: não só traduziu, mas, especialmente, colaborou, num grande esforço

de adaptação vocabular. Como já havia feito Camões, passou diretamente do

grego para o português palavras e palavras, sem a menor adequação fonética.

Outras vezes, compôs, com elementos gregos, vocábulos que correspondessem

ao termo intraduzível por não encontrar correspondente nos dicionários da língua

portuguesa. Nunca o fez, porém, irrefletidamente: procurou sempre apoiar-se

nos clássicos do nosso idioma e quando estes falharam, nos tradutores que o

haviam precedido, principalmente, no italiano Ippolito Pindemonte. Basta ler as

notas apostas a cada um dos cantos para que se veja com que cuidado procurou

explicar e defender a introdução dos termos que teve de forjar. Como antes de

traduzir Homero já havia traduzido Virgílio, serviu-se Odorico Mendes, nas

suas dificuldades vocabulares, do tesouro latino que a Eneida lhe oferecia e

também do grande exemplo que lhe deixara Camões. Assim, aproveitou-se

largamente dos latinismos camonianos, ou digamos mais corretamente, dos

latinismos do Renascimento, comuns ao épico português e aos demais autores

europeus. Logo no primeiro canto enumeramos: equóreo ponto, claro

Hiperiônio, prole, sevo, cava gruta, deidades,, ilha circúnflua, nemorosa,

salso abismo, holocaustos, celícolas, olhicerúlea, ínsula, fexípides bois,

ovelhas pingues, érea afiada ponta, metuenda, crateras (taças), deiforme,

dedáleo, cítara ebúrnea, negropélago vaso (navio), ilha circunfusa, áugur,

numes, arcano, carmes, ledos, inultos, prosápia, etc. Sempre cingido aos

ditames da escola clássica, usa o tradutor de expressão elevada e poética, de

ordem inversa e tono altivo, como se fosse ele próprio o declamador dos versos.

O verso branco, destituído de rima, não porém o verso livre, duas espécies que

muitos freqüentemente confundem, dá ao poeta maior liberdade, mantendo-se

apenas o ritmo que é a essência mesma da poesia. Para os nossos ouvidos

modernos, haverá, na Odisséia de Odorico Mendes, encontros de consoantes,

seqüências de vogais menos harmoniosas: devemos, entretanto, ler esta obra

dentro do tempo em que foi feita. Somente Gonçalves Dias e muito mais tarde

Fagundes Varela, e mais tarde ainda Vicente de Carvalho levam superioridade

sobre o maranhense no manejo deste verso branco. Difícil é, contudo, a sua

linguagem, dirão outros, difícil pelo vocabulário especial de que usa, difícil pelas

inversões da frase: é verdade e disto dou um testemunho de meus anos já bem

idos: quando estudante de grego, traduzindo exatamente a Ilíada, tinha por

professor o maior helenista que já conheci, o Cônego Macário Sars, da ordem

premonstratense, homem que sabia Homero de cor e meditava em grego, muitas

vezes, para entender a tradução de Odorico Mendes, recorríamos ao texto

original. Para o meu professor, talvez porque fosse holandês, era mais fácil

entender Homero em grego do que Homero no português de Odorico Mendes.

A causa já ficou acima explicada: o vocabulário renascentista que empregou, as

criações neologísticas de que teve necessidade de usar. Claro está que obra

como esta não se põe em mãos de principiantes, nem sob os olhos dos que ainda

se deleitam com histórias em quadrinhos ou com romances policiais. Homero

será sempre, seja lá a língua em que for vertido, um manjar de exigências finas,

leitura de poucos eleitos, daqueles que já se alçaram além da craveira comum e

podem, do alto, retroceder a vista para os tempos gloriosos da cultura clássica.

A reedição de obra de tal valia, o reaparecimento desta Odisséia onde

palpita o sopro de um talento que o Brasil vivificou, vem comprovar, com

grande alegria para todos nós que envelhecemos sobre as páginas da civilização

antiga, que a nossa juventude brasileira já se vai incorporando a esses escolhidos

de Jedeão, cujos joelhos não se curvam perante as facilidades improvisadas e

efêmeras das produções literárias de somenos, mas galhardamente enfrentam, de

pé, as dificuldades oferecidas pelas obras-primas do gênero humano. Não

malbaratam os jovens o seu precioso tempo nessas frivolidades que bem marcam

a decadência intelectual do mundo, nesses romances, nessas poesias que duram

tanto quanto podem durar os sons das palavras ocas, mas todos se voltam aos

monumentos da genialidade antiga, aos pilares da arte clássica, pilares eternos,

sempre firmes e inabaláveis embora as águas tumultuosas dos séculos tentem

corroer-lhes as bases. Por que hei de ler fulano e beltrano, gente de hoje, que

comigo cresceu, que não sabe mais do que aquilo que também eu pude aprender,

que não produziu nada que também eu não pudesse produzir, quando ainda não li

Camões, Cervantes, Dante, Shakespeare, Milton; quando ainda não conheço

Virgílio e lá, no fundo das idades, esse divino Homero? Eis o raciocínio que já

fazem os nossos jovens estudantes e, acertadamente, pensam que sem o

conhecimento desses pináculos da criação literária, jamais poderão, também

eles, aspirar a alturas que se avizinhem desses píncaros da genialidade humana.

Mas como ler Homero se não o temos ao alcance dos nossos olhos? Já muitos

podem lê-lo diretamente em grego, auxiliados pelos comentários literários e

filológicos, e agora todos o poderão ter, nesta Odisséia de Odorico Mendes, em

sua língua materna, em português.

Este é um dos sintomas felizes desse verdadeiro Renascimento por que

vai passando o Brasil, mercê da criação das Universidades, e, especialmente, das

Faculdades de Letras. Criada que foi a primeira dentre todas, primeira pela

cronologia, primeira pelos trabalhos de valor já publicados, a nossa de São

Paulo, imediatamente começou a operar-se o milagre da renovação cultural. Até

então, eram as livrarias de obras usadas os repositórios dos melhores livros de

literatura: na umidade dos porões, na esterilidade da poeira das estantes, jaziam,

esperando pelo seu vale de Josafá, as melhores criações européias e nacionais.

Quem desejava um bom livro, um autor clássico, ia procurá-los nesses

cemitérios da inteligência ou nesse purgatório dos grandes escritores, salvando

hoje esta alma, salvando amanhã aquela, trazendo à luz da vida um Camões, um

Horácio, um Virgílio que lá dormitavam há séculos. Percorra-se hoje uma

dessas livrarias: não se encontrará nada de valor para adquirir. Mais ainda: já não

existem tais livrarias de livro usado: na falta da mercadoria, tiveram de

transformar-se, comprando e vendendo livros novos. Ao lado destas

transformações, criaram-se outras puramente científicas, especializadas, onde só

se vendem obras de valor, as coleções dos clássicos, os grandes poemas das

literaturas mais antigas. Quem possui um bom autor, um livro de valor, não o

vende, não se desfaz dele: guarda-o como um tesouro. Eis a grande

conseqüência das Faculdades de Letras. Saber latim, saber grego, já deixou de

ser mistério dos cursos de seminário. Há já um grande número de rapazes, de

meninas, que pode competir com os reverendos padres no conhecimento de

Cícero, de Virgílio, de Homero ou de Demóstenes. Esgotam-se as remessas de

livros didáticos, de gramáticas e de manuais, como se esgotam as coleções dos

clássicos, levando todos em mira o ter o melhor texto, as melhores edições,

conhecendo muito bem o valor deste e daquele comentador. Que prazer não é

para nós entrarmos numa classe de letras e vermos aí essas frontes jovens,

curvadas, atentas, pesquisando uma passagem de Tácito, discutindo a métrica

dos versos arquílocos, procurando saber se a cesura pode cair ou não no quarto

pé de um troqueu, como fez Homero na Odisséia, ou se o decassílabo

camoniano, com a cesura na quinta sílaba está errado ou se pertence a outra

versificação, a lemusina, diferente da renascentista italiana. Para completar este

prazer, eis que aparece esta nova edição do grande poema homérico, na

tradução de Odorico Mendes. Podem agora os eruditos, os estudiosos das

nossas Faculdades de Letras, comparar o trabalho do grande maranhense com o

texto original, vendo e apreciando as dificuldades vencidas pelo tradutor e

também as deficiências do seu trabalho feito numa época em que os problemas

da filologia clássica ainda não haviam chegado ao Brasil. Tenho a esperança de

ver, dentro de pouco tempo, edições de Homero, não com um prefácio modesto

qual este meu, mas com introduções filológicas, onde se discutam os grandes

problemas da existência real e pessoal do divino Poeta, da unidade arquitetural

da Ilíada, da Odisséia, da comprovação histórica de tais poemas pelos

descobrimentos arqueológicos mais modernos, pelo estudo acurado da língua de

Homero, da metrificação por ele usada, dos versos meramente supranumerários

e dos verdadeiros interpolados, aparato científico e necessário para edições

realmente filológicas. Já estamos em condições de executar tal trabalho de alta

filologia clássica? Perfeitamente: dispomos de materiais mais do que

necessários, conhecendo as grandes edições como a de Victor Bérard, de

Ernesto Drerup, de Laurand, de André Lang, Leaf, Monro, Blass, Bréal, para

citar apenas alguns dos mais importantes estudiosos da questão homérica. Se

ainda há alguns retardatários que repetem as defuntas idéias de Wolf e as já

falecidas teorias de Croiset, a juventude que está saindo da nossa Faculdade de

Letras já pode repetir com Bérard:

“J’ai connu le temps où le dernier du ridicule, pour un homérisant, était

de croire à l’existence d’un auteur dont on lisait les ouvrages. On est aujourd’hui

le dernier des ignorants si l’on ose mettre en doute que 1’Iliade et 1’Odyssée, de

leur premier vers au dernier, ont été rédigées par le Poéte aveugle et par lui

seul”. (L’Odyssée d’Homère-Préface — pg. 10).

Com os meus parabéns aos editores desta reedição da Odisséia de

Odorico Mendes ficam estas minhas esperanças dessa edição crítica e anotada

que eles poderão fazer e que a mocidade estudiosa do Brasil espera em seu

renascido gosto a estas obras imortais do espírito humano, do trovador grego tão

grande e tão extraordinário que foi chamado por todos os séculos mais gloriosos

da Grécia e de Roma, simplesmente o Poeta,com p maiúsculo,

acrescentando-lhe depois a cultura humana o epíteto de Divino, — HOMERO.

Junho de 1954, quarto centenário de São Paulo.

PROF. SILVEIRA BUENO

HOMERO

ODISSÉIA

Em Verso Português

por

MANOEL ODORICO MENDES

* * *

LIVRO I

Canta, ó Musa, o varão que astucioso,

Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,

Viu de muitas nações costumes vários.

Mil transes padeceu no equóreo ponto,

5

Por segurar a vida e aos seus a volta;

Baldo afã! pereceram, tendo insanos

Ao claro Hiperiônio os bois comido,

Que não quis para a pátria alumiá-los.

Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.

10

Da guerra e do mar sevo recolhidos

Os que eram salvos, um por seu consorte

Calipso, ninfa augusta, apetecendo,

Separava-o da esposa em cava gruta.

O céu, porém, traçou, volvendo-se anos,

15

De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo,

Onde novos trabalhos o aguardavam:

De Ulisses condoíam-se as deidades;

Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno,

Este era entre os Etíopes longínquos,

20

Do oriente e ocidente últimos homens,

Num de touros e ovelhas sacrifício

A deleitar-se; e estavam já no alcáçar

Do Olimpo os habitantes em concílio.

O soberano, a recordar Egisto

25

Do Agamenônio Orestes imolado,

Principia: “Os mortais ah! nos imputam,

Os males seus, que ao fado e à própria incúria

Devem somente. Contra o fado mesmo,

Do porvir não cuidoso, há pouco Egisto,

30

Em seu regresso o Atrida assassinando,

Esposou-lhe a mulher, bem que enviado

O Argicida sutil o dissuadisse:

— De o matar foge e poluir seu leito;

Senão, tem de vingá-lo, adolescente

35

Sendo investido no seu reino Orestes. —

Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto,

Os delitos por junto expia agora”.

A quem Minerva: “Sumo pai Satúrnio,

Jaz com razão punido esse perverso;

40

Todo que o imitar, com ele acabe!

Mas a aflição de Ulisses me compunge,

Que, há tanto longe dos amenos lares,

Em ilha está circúnflua e nemorosa,

Lá no embigo do mar; onde é retido

45

Pela filha de Atlante onisciente,

Que o salso abismo sonda, o peso atura

Das colunas que a terra e o céu demarcam.

A deusa com blandícias o acarinha;

De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo

50

Ver deseja e morrer. Não te comoves?

Irritou-te faltando, em sua amada

E em Tróia, com ofertas e holocaustos?”

E o Junta-nuvens: “Que proferes, filha,

Do encerro dessa boca? eu deslembrar-me

55

Do mortal mais sisudo, o mais devoto,

Aos celícolas pio e dadivoso!

Da terra o abarcador é quem o avexa,

Por ter do olho privado a Polifemo,

O mor Ciclope, que, num antro unida

60

A Netuno, pariu Toosa, estirpe

De Fórcis deus do pego insemeável.

O Enosigeu d’então lhe poupa a vida,

Mas de Ítaca o arreda. Provejamos

Na vinda sua; aplaque-se Netuno:

65

Só contra todos contender não pode”.

A Olhicerúlea: “Ó padre, ó rei supremo,

Se vos praz que à família torne Ulisses,

Da ínsula Ogígia à ninfa emadeixada

Mercúrio o intime, o herói prudente parta.

70

A Ítaca baixo a confortar o filho:

Os comantes Argeus convoque ousado;

Suste aos vorazes procos a carnagem

De flexípedes bois e ovelhas pingues.

Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,

75

Do amado genitor se informe e indague,

E entre humanos obtenha ilustre fama”.

Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,

Que a propelem como aura pelas ondas

Ou pelo amplo terreno; a lança empunha

80

De érea afiada ponta e desmedida,

Com que turmas de heróis desfaz metuenda,

Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;

Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses

Tem-se, e de hasta na destra, parecia

85

O hóspede Mentes campeão dos Táfios.

Ao pórtico acha intrusos pretendentes

Sobre coiros de bois que morto haviam,

Os dados a jogar. Servos e arautos

Misturam nas crateras água e vinho,

90

Ou com povosa esponja as mesas pulem,

E partem nelas abundantes carnes.

Distante a vê Telêmaco deiforme:

No meio, taciturno e consternado

No genitor pensava, que expulsá-los

95

E reger venha o leme do governo.

Entrementes a avista, e não sofrendo

Por mais tempo de fora um peregrino,

Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:

“Hóspede amigo, salve; o que precisas,

100

Depois do teu repasto o saberemos”.

Ei-lo encaminha a déia, e já na sala

Ante celsa coluna encosta a lança

À nítida hastaria, onde em fileira

As de Ulisses valente em pé dormiam.

105

Num trono a põe dedáleo de alcatifa

E de escabelo aos pés, senta-se perto

Em variegada sela; à parte ficam,

Para que, à bulha e ao trato com soberbos,

O hóspede o apetite não perdesse,

110

E do pai ele a folgo o interrogasse.

De gomil de ouro às mãos verte uma serva

Água em bacia argêntea, a mesa lustra,

Que enche a modesta afável despenseira

De pães e das presentes iguarias;

115

Escudelas de várias novas carnes

O trinchante apresenta e copos de ouro,

Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.

Suspenso o jogo, os feros pretendentes

Ocupam já cadeiras e camilhas;

120

Dão água às mãos arautos, pão comulam

Servas em canistréis; atiram-se eles

Aos regalados pratos, e as crateras

Lhes coroam mancebos. Farta a sede,

Farta a fome, em prazer os embriagam

125

Música, dança, adornos de banquetes:

Cítara ebúrnea entrega um dos arautos

A Fêmio, que forçado ali tangia

E o cântico ajustava ao som das cordas.

Inclinou-se Telêmaco a Minerva,

130

Dizendo à puridade: “Hóspede caro,

Vou talvez enfadar-te? Eles só curam

De cantigas e danças, porque impunes

Comem do alheio, os bens do herói consumem.

Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,

135

Ou rola entre maretas; ah! se o vissem

Cá reaparecer, mais que ouro e galas,

Planta leve amariam. Fado acerbo

Urge-o porém, e embora algum terrestre

A volta sua afirme, as esperanças

140

Murchas estão, nem luzirá tal dia.

Ora, quem és? de que família e pátria?

Com que gente vieste e em que navio?

Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,

Hóspede me és recente ou já paterno?

145

A muitos nosso teto agasalhava,

E meu pai atraía os forasteiros”.

A de azuis claros olhos: “Não duvides,

Mentes sou, de ser nado me glorio

De Anquíale belaz, e os Táfios mando

150

Náuticos hábeis. Vim, com meus remeiros

Sulcando o negro pélago, a Temeses

De estranha língua permutar meu ferro

Pelo seu cobre: o vaso tenho surto

No Retro porto, fora da cidade,

155

Junto ao Neio frondoso. Antigo hospício

Me une a teu pai, e o diga o bom Laertes;

Herói que, é fama, a corte mesto esquiva

Em campo solitário, onde ama idosa

Lhe apresta a mesa, ao vir cansado e lasso

160

De amanhar fertilíssimos vinhedos.

Cuidei, corria voz, tornado Ulisses;

Mas os deuses o impedem, que inda vive

Em ilha de mar vasto circunfusa,

Por bárbaros detido e involuntário.

165

O que o Céu sugeriu-me, eu to assevero,

Se bem áugur não seja ou grã-profeta:

Não tardará; que, embora o tenham ferros,

Ardis cogita. Sê sincero; os olhos

E a cabeça tens dele, és tu seu filho?

170

Como agora freqüentes conversávamos;

Desde que para Tróia, entre os mais cabos,

Se embarcou, nunca mais nos avistamos”.

E o príncipe modesto: “Hóspede, é certo

Que minha mãe de Ulisses me diz prole;

175

Por si mesmo ninguém seu pai descobre.

Oh! gerado fosse eu de um mais ditoso,

Que em suas possessões envelhecesse!

A porvir de um herói, já que o perguntas,

Esse é desgraçadíssimo dos homens”.

180

E Palas: “Deu-te o Céu preclaro berço,

És da casta Penélope nascido.

Mas, dize, que festim, que turba é esta?

Para que a tens? são núpcias? é banquete?

Por escote o não fazem. Que insolência!

185

Qualquer homem de siso há de irritar-se

De os ver assim”. — Telêmaco prudente:

“Hóspede, honesta e rica era esta casa,

Quando aquele varão conosco estava;

Mas obscuro ocultá-lo aprouve aos deuses.

190

Menos dor fora se acabasse em Ílion,

Ou no meio de amigos triunfante:

Erigindo-lhe a Grécia um monumento,

Ao filho seu legara imensa glória.

As Harpias cruéis mo arrebataram;

195

Sem brilho algum morreu, só lutos, herdo.

Outros prantos o fado nos suscita:

Os chefes de Dulíquio ambiciosos,

De Ítaca rude e Samos e Zacinto

Pretendem minha mãe, que os não repulsa,

200

Bem que fiel tais himeneus deteste;

Famélicos o haver me dilapidam,

E malvados a morte me aparelham”.

Palas com dó: “Precisas de que Ulisses

A mão carregue sobre audácia tanta.

205

Oh! de seu paço à entrada aparecesse

De elmo, adarga e hastas duas, qual chegando

O vi de Éfira e de Ilo Mermérida,

Aonde fora numa nau veleira

Comprar veneno para ervar as setas;

210

Mas, como Ilo o negou temendo os numes,

Lho deu meu pai, que amigo em nossa casa

O regalou de saborosos vinhos:

Surdisse, e a boda amargaria aos procos.

Se cá deva o Laércio ou não vingar-se,

215

Arcano é divinal; tu considera

De enxotá-los o modo, eu to aconselho:

Em assembléia aos teus amanhã fala,

Atesta o Céu, despede esses intrusos;

A desejar Penélope outro esposo,

220

Torne a seu pai, que as núpcias lá celebre,

E um dote para a filha haja condigno.

Se outro cordato aviso adotar queres,

Navegues, a indagar de Ulisses novas,

Em ótimo baixel de vinte remos:

225

Talvez alguém te informe, ou soe o brado

Com que Jove aos mortais gradua a fama.

Interroga a Nestor primeiro em Pilos,

Na Esparta ao louro Atrida, que o postremo

Dos lorigados reis entrou na Grécia.

230

Vivo Ulisses, paciente um ano esperes;

Morto, regressa, um monumento exalça

E consagra-lhe exéquias dignas dele;

De ti novo marido a mãe receba.

Isto acabado, às claras ou por fraude,

235

Sério dos procos desfazer-te busca:

De brincos pueris não é mais tempo.

Ouves de Orestes o renome honroso,

Por ter vingado o pai no infame Egisto?

Sê no valor qual és no garbo e talhe;

240

Gabem-te, filho, as gerações futuras.

Vou-me à inquieta nau por minha ausência:

Tudo observes, amigo, e nada esqueças”.

E o moço: “Hóspede, os sábios teus conselhos

Preceitos são de pai, que eu n’alma guardo.

245

Mas demora-te ainda, a fim que um banho

O coração te alegre, e prenda exímia

Aceites hospital, que tu conserves,

Doce memória da amizade nossa”.

“Não me estorves, replica, ansioso parto.

250

A tua oferta para a volta aceito;

A Tafo hei de levá-la, e dignamente

Retribuir”. Eis voa a gázea deusa,

Águia Anopéia, infunde-lhe coragem,

Na alma avivando o pai. Crendo-a celeste,

255

O deiforme assombrado aos mais se agrega.

Mudos a Fêmio atendem, que o de Tróia

Triste regresso dos Aqueus modula,

*Pom Minerva disposto. A nobre Icária

Penélope a divina cantilena

260

Do alto percebe, e desce pela escada.

Não só, com duas servas; ante os procos,

À porta, o véu de pejo ao rosto abaixa,

Entre as servas lágrima, ao vale fala:

Fêmio, outros carmes e trabalhos sabes

265

De homens e deuses, da poesia assunto;

Escolhe um que a beber te escutem ledos:

Suspende esse cantar, que amargo sempre

O coração me rala e mo entristece,

À lembrança do herói, cuja alta glória

270

Por toda Hélade e Argólida ressoa”.

“Reprovas, minha mãe, contesta o filho,

Que nos deleite a impulsos do seu gênio?

Os poetas não culpes, culpa a Jove

Que a prazer os inspira e o estro acende.

275

Não peca em celebrar de Aqueus os males,

E se é nova a canção, mais prende os homens:

Reforça o ânimo teu para sustê-la.

Se luz não teve para a volta Ulisses,

Em Tróia outros heróis também ficaram.

280

Mas dentro as servas atarefa, intende

Na roca e no tear: varões discorram,

E eu mormente que sou da casa o dono”.

Recolheu-se com pasmo, na prudência

Do filho meditando, pela escada,

285

Mais as fâmulas duas, vai carpindo

O amado ausente esposo, até que em sono

Boa Minerva as pálpebras lhe fecha.

De compartir seu leito ávidos eles,

Na escurecida sala tumultuam;

290

A quem Telêmaco: “O alarido cesse

De Penélope amantes ultrajosos:

Ora à mesa o cantor saboreemos,

Na harmonia parelho às divindades.

Amanhã sem rebouço, em parlamento,

295

Exporei meu desejo de expulsar-vos:

Mutuando os festins, comei do vosso.

A preferirdes consumir sem termo

Os bens de um só, recorro aos Sempiternos:

Júpiter o castigo vos fulmine,

300

E nestes paços expireis inultos”.

Aqui, mordendo os beiços, da ousadia

Pasmavam do mancebo; a Antino, garfo

De Eupiteu, rebentou: “Do Olimpo, certo,

A sublime linguagem te ensinaram;

305

Se és audaz, é que de Ítaca circúnflua

Oh! destinam-te o cetro hereditário”.

Mui ponderoso o príncipe: “O que ajunto

Não te exaspere, Antino: eu de vontade

Granjeara de Júpiter o cetro.

310

Mau reputas reinar? quem reina goza

Opulenta morada e as mores honras.

Na ilha há jovens e anciãos que aspiram,

Morto Ulisses, ao mando: quero apenas

O rei ser desta casa, e dos meus servos