Oliver Twist por Charles Dickens- - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
Oliver Twist

C A R L O S D I C K E N S

Oliver Twist

Tradução

Machado de Assis

Ricardo Lísias

São Paulo 2002

Copyright © Hedra, 2002

Capa

Camila Mesquita

Projeto gráfico

Antonio Carlos da Cunha

Fabiana Pinheiro

Produção gráfica

Fabiana Pinheiro

Revisão

Rita Sam

Iuri Pereira

Nota editorial: os textos reproduzidos na orelha e na quarta capa foram extraídos dos seguintes livros: Carpeaux, Otto Maria.

Ensaios reunidos, 1942-1978. Rio de Janeiro, Topbooks/UniverCidade, 1999; Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda & Rónai, Paulo. Mar de histórias vol. 3. 4a. ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dickens, Charles, 1812-1870

Oliver Twist / Charles Dickens; tradução de Machado de Assis e Ricardo Lísias

— 1a. edição — São Paulo: Hedra, 2002.

Título original: Oliver Twist.

ISBN 85-87328-26-3

1. Romance inglês I. Assis, Machado de, 1839-1908. II. Lísias, Ricardo. III. Título.

00-0299 CDD-823

Índices para catálogo sistemático:

1. Romances: Literatura inglesa 823

[2002]

EDITORA HEDRA

rua fradique coutinho, 1139 - 2o andar

05416-011 São Paulo - SP - Brasil

telefone/fax: (011) 3097 8304

editora@hedra.com.br

www.hedra.com.br

Foi feito o depósito legal.

CHARLES JOHN HUFFMAN DICKENS NASCEU EM LANDPORT, arredores de Portsmouth, em 7 de fevereiro de 1812. Considerado o escritor mais típico da Inglaterra, trabalhou como operário até os quinze anos e viu seu pai ser encarcerado por não conseguir pagar suas dívidas. Em 1827

empregou-se como escrevente de cartório, emprego no qual pôde aprender a estenografia que o levaria mais tarde a conseguir um lugar como repórter-estenógrafo do Morning Herald.

Em 1833 publicou uma série de crônicas da vida londrina, reunidas em 1836 sob o título Sketches by Boz ( Esboços de Boz). Publicou em seguida em folhetins o romance Pickwick papers ( Documentos de Pickwick). Em 1836 casou-se com Catherine Hogarth, com quem teria dez filhos. Dois anos depois publicou Oliver Twist, romance de enorme sucesso em que Dickens, inspirado em sua infância e na Londres da época, denuncia a desumanidade das casas de trabalho que acolhiam as pessoas pobres. O tema desse e de outros romances —

Nicholas Nickelby (1838-39) , Old curiosity shop ( Loja de antigüidades, 1840), Barnaby Rudge (1841), por exemplo — leva Dickens a assumir um papel de reformador social. Nessa época vai aos EUA, de onde voltaria decepcionado com o materialismo presente na democracia americana. Em 1843 publicou Christmas Carol ( Contos de Natal) livro que bem expressa o paternalismo essencialista de Dickens. Quando já gozava de uma celebridade que ultrapassava os limites da Inglaterra, procurou sintetizar em uma narrativa suas idéias morais no romance que muitos considerariam sua obra-prima, David Copperfield (1849-50). A infância rude de Dickens, além de outros aspectos da vida na Inglaterra de seu tempo, estão aí retratados de modo ora dramático ora ameno. Publicou ainda Bleak house ( Casa desolada, 1852), Hard times ( Tempos difíceis, 1854) e Little Dorrit ( A pequena Dorrit, 1857), todos imbuídos de um profundo pessimismo e desencanto com os homens e as instituições de sua época. Em 1857 abandonou a esposa para unir-se a uma jovem atriz, Ellen Ternan. Charles Dickens morreria em 9 de junho de 1870, em Gadshill, Rochester, deixando inacabado um romance policial The mistery of Edwin Drood ( O mistério de Edwin Drood, 1869-70).

JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1839. De família humilde, foi criado pela madrasta. Antes de trabalhar para a imprensa, atividade que exerceu durante praticamente toda a vida, empregou-se como tipógrafo. Praticou a poesia, o teatro, a prosa, o ensaio e a crônica, tendo-se destacado como notável contista e romancista. Como tradutor, além de Charles Dickens e Vítor Hugo, trouxe para o português Alphonse de Lamartine, William Shakespeare, Alfred de Musset e Edgar Allan Poe, entre outros. A partir da publicação das Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), passou da posição de bom escritor para a de prosador mais notável das letras brasileiras. Às Memórias seguiram-se Quincas Borba (1892) e Dom Casmurro (1900), entre algumas coletâneas de contos. Apesar de ter ficado conhecido como personalidade tímida e reservada, manteve contato com os principais intelectuais de sua época e fundou a Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 1908.

RICARDO LÍSIAS tem vinte e seis anos, nasceu e sempre viveu em São Paulo. Mestre em Literatura Brasileira, doutorando na mesma área, publicou em 1999 o romance Cobertor de estrelas, que agora está sendo traduzido para o espanhol e o galego. Atualmente, divide com o ilustrador Newton Foot a autoria da série “Turma dos Direitos”, uma coleção de livros destinada ao público infantil cujo principal tema é a Convenção pelos Direitos da Criança; o primeiro livro, Sai da frente, vaca brava!! foi publicado em 2001 e o segundo, Greve contra a Guerra, está no prelo. Além disso, traduziu para o português o livro Flor do deserto, de Waris Dirie, para colaborar na luta contra a mutilação genital feminina. Enquanto prepara seu segundo romance, publicou a novela Capuz na forma de uma plaquete não comercial.

Índice

Apresentação

Capítulo XXVII



Capítulo I



Capítulo XXVIII



Capítulo II



Capítulo XXIX



Capítulo III



Capítulo XXX



Capítulo IV



Capítulo XXXI



Capítulo V



Capítulo XXXII



Capítulo VI



Capítulo XXXIII



Capítulo VII



Capítulo XXXIV



Capítulo VII



Capítulo XXXV



Capítulo IX



Capítulo XXXVI



Capítulo X



Capítulo XXXVII



Capítulo XI



Capítulo XXXVIII



Capítulo XII



Capítulo XXXIX



Capítulo XII



Capítulo XL



Capítulo XIV



Capítulo XLI



Capítulo XV



Capítulo XLII



Capítulo XVI



Capítulo XLIII



Capítulo XVII



Capítulo XLIV



Capítulo XVIII



Capítulo XLV



Capítulo XIX



Capítulo XLVI



Capítulo XX



Capítulo XLVII



Capítulo XXI



Capítulo XLVIII



Capítulo XXII



Capítulo XLIX



Capítulo XXIII



Capítulo L



Capítulo XXIV



Capítulo LI



Capítulo XXV



Capítulo LII



Capítulo XXVI



Capítulo LIII



Apresentação

O leitor não tem em mãos, de maneira nenhuma, uma tradução convencional. No começo de 1870, respondendo a um convite dos proprietá-

rios do recém fundado Jornal da Tarde , Machado de Assis aceitou a tarefa de verter para o português o badalado romance Oliver Twist . O

tradutor não tinha uma ponta sequer do prestígio que lhe trariam os romances publicados a partir de 1881; ainda assim conquistara certo respeito no meio literário por conta de seu trabalho na imprensa como crítico e comentarista político. Tal fama, acrescida das necessidades particulares do gênero folhetinesco, permitiu que Machado ousasse enormes liberdades na iniciativa de trazer Charles Dickens para o público brasileiro. O resultado final, ainda que seja um trabalho incompleto, é extremamente curioso e permite, além do interesse mais propriamente histórico e literário do assunto, alguns instantes de reflexão acerca do ofício de traduzir.

Antes de mergulhar, contudo, no trabalho de Machado, vale destacar que a edição seriada caracterizou quase que a totalidade da primeira publicação dos textos de Charles Dickens. É certo que o enorme sucesso que atingira em vida, raro para um escritor de sua época, deve-se em parte à circulação dos jornais em que colaborava. Aliás, a recepção de seus escritos garantiu-lhe, além da fama, certo conforto financeiro também incomum para um autor daquele período.

Segundo Grahame Smith, a serialização é uma das principais marcas literárias do romance dickensiano1. Não é erro creditar certa queda pelo mistério e também um uso freqüente do elemento descritivo — questões que às vistas de alguns críticos diminuiriam o valor de parte dos textos —

às necessidades próprias do gênero folhetinesco de suspense, por um lado, e de volume, por outro.

1 “The crucial point to make about Dickens in this regard is that he wrote serially for serial publication. In other words, as has already been pointed out, his novels were written discontinuosly in separate segments, usually as a result of two weeks’ writing a month, and then published in this form with a minimum of revision”. Grahame Smith, Charles Dickens – A literary life, New York, St. Martin’s Press, 1996, p. 21. [Uma tradução aproximada do trecho seria:

“sobre Dickens, o ponto crucial é o fato de que ele escrevia de maneira seriada para publicações seriadas. Conforme já foi apontado, suas novelas eram escritas de forma descontínua e em fragmentos, costumeiramente realizando o trabalho de um mês em duas semanas, e então publicando-o com um mínimo de revisão”.]

O L I V E R T W I S T

Oliver Twist surgiu para o público, pela primeira vez, em 1837 nas páginas do Bentley’s Miscellany . A publicação continuou com grande sucesso até 1839. Um ano antes, segundo informa Smith2, o romance foi publicado, ainda antes da conclusão do folhetim, por Richard Bentley.

Não é difícil identificar, aqui e ali, as marcas de folhetim em Oliver Twist .

Além da sucessão quase contínua de aventuras, às vezes anunciadas para criar efeito de suspense, e outras lançadas com surpresa para aguçar a curiosidade do leitor, a própria construção da trama, tecida por meio de personagens que, se não são complexas, ao menos representam fielmente o principal traço que Dickens lhes confere, parece favorecer a publicação seriada.

Dessa forma, o pequeno Oliver, cujo destino é o motor do romance, vê-se o tempo inteiro confrontado com fatos que lhe aconteceram em um passado próximo e que terão importância fundamental para o seu futuro. O misté-

rio, que sempre deixa o leitor ávido pelo próximo capítulo, está justamente no desvendamento das origens de Oliver. Como tal revelação é crucial para seu destino, está engatilhado o desenrolar da trama: o tempo presente serve para esclarecer o passado que será determinante para o futuro. Não há como deixar passar um capítulo, portanto.

Não vou, claro, adiantar o enredo do livro. Mesmo assim, pode ser interessante destacar dois momentos que ilustram às maravilhas os procedimentos de folhetim manipulados por Dickens. O primeiro, apontado por Kathleen Tillotson3, está no desenvolvimento do caráter da personagem Nancy, central para a solução da trama. Segundo Tillotson, nada até o ca-pítulo XVI indica que Nancy tornar-se-ia protetora de Oliver frente ao grupo de bandidos e, ainda mais, chegaria a traí-los apenas para garantir ao menino o futuro que lhe era justo. Ao que parece, Dickens transformou a personagem, já que o romance gestava-se enquanto era publicado, para adequá-la à trama.

Outro ponto digno de nota, ligado ao anterior, é o brutal assassinato de Nancy. A dramaticidade de sua morte garante fôlego suficiente para que o folhetim continue renovado: ao mistério que envolve a vida da personagem principal soma-se o desespero do assassino, perseguido pela própria crueldade, e a caçada que a cidade de Londres, no fim quase inteira, impõe-lhe.

Para marcar a força da cena, basta registrar que Dickens costumava lê-la em excursões e sempre causava perplexidade, quando não horror, nos teatros em que se apresentava.

2 Op. cit., p. 17.

3 Apud Grahame Smith, p. 35.



C HAR L ES D I C K E N S

Não resta dúvida que, se o folhetim tiver sido mesmo “a fusão admirável do útil com o fútil, o parto curioso e singular do sério consorciado com o frívolo, como classificou-o Machado de Assis”4, Dickens conseguiu forjar muito bem tal união.

O folhetim, moda na Europa, não passou evidentemente ao largo da aten-

ção de Machado de Assis. Desde cedo, o bruxo empregou-se em redações de jornal, conseguindo sustentar-se ou por meio de crônicas e críticas, ou através da publicação seriada de seus romances e, como no caso de Oliver Twist , da realização de traduções. Ainda em 1859, Machado reconhece a importância do jornal para a circulação do pensamento:

O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções5.

Ao entendê-lo como um lugar de manifestação plural, o jornal torna-se um espaço de convivência intelectual acessível a todos:

Uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela inteligência6.

Consigo, o jornal traz o folhetim:

O folhetim é originário de França, onde nasceu e onde vive a seu gosto, como em cama de inverno. De lá espalhou-se pelo mundo, ou pelo menos por onde maiores proporções tomava o grande veículo do espírito moderno: falo do jor-nal7.

Como homem de jornal que foi durante quase toda a vida, Machado não poderia ter deixado de praticar, com certo sucesso, o folhetim.

4 Obras completas, vol. 3, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, s/d, p. 959.

5 Op. cit., p. 945.

6 Op. cit., p. 947.

7 Op. cit., p. 959.



O L I V E R T W I S T

Quincas Borba , um de seus romances mais importantes, foi publicado entre 15 de junho de 1886 e 15 de setembro de 1891 pelo quinzenário A Estação 8. A revista dirigia-se ao grande público e trazia nas suas páginas textos para a família, recortes de costura e notícias de costume. Evidentemente, Machado precisou adequar-se, não sem dificuldade para a receita que vinha adotando desde as Memórias póstumas de Brás Cubas , ao público da revista. Eugênio Gomes escreve que o célebre romance teve “a sua primeira divulgação delimitada a um círculo de leitores, porventura muito aquém das sutilezas de suas intenções”9. Quincas Borba sai em livro ainda em 1891, mesmo ano da conclusão do folhetim, muito modificado, com algumas passagens suprimidas e outras acrescentadas. Machado, portanto, trabalhava na publicação do volume enquanto concluía a colaboração para a revista, adequando o texto, acertando passagens e eliminando as marcas próprias do folhetim, o que demonstra clara compreensão da diferença entre os gêneros10.

A consciência do gênero, aliás, é bem anterior à redação dos romances de maturidade de Machado de Assis. Já em 1874, ao publicar A mão e a luva , o bruxo ressalta em nota as particularidades do texto escrito para ser um folhetim:

Esta novela, sujeita às urgências da publicação diária, saiu das mãos do autor capítulo a capítulo, sendo natural que a narração e o estilo padecessem com esse método de composição, um pouco fora dos hábitos do autor. Se a escrevera em outras condições, dera-lhe desenvolvimento maior, e algum colorido mais aos caracteres, que aí ficam esboçados11.

A mão e a luva foi escrito pouco depois de Machado abandonar a tradu-

ção de Oliver Twist . A crítica ainda não chegou a perceber, a despeito das grandes diferenças, certas semelhanças entre os enredos dos dois folhetins ou, se se quiser, romances.

O romance de Dickens desenvolve-se a partir do cruzamento de duas linhas que, a certo momento, confundir-se-ão: por um lado, a luta de uma 8 A informação está na edição de Quincas Borba publicada pela Comissão Machado de Assis em 1969.

9 A observação foi publicada na mesma edição da Comissão Machado de Assis.

10 John Gledson, no entanto, afirma que, ao contrário do que acontecera com o Brás Cubas, em que Machado foi feliz ao adequar o folhetim ao formato do livro, no caso de Quincas Borba o esforço não foi inteiramente bem sucedido.

Cf. John Gledson, Machado de Assis – Ficção e história, São Paulo, Paz e Terra, 1986, p. 66.

11 Machado de Assis, A mão e a luva, São Paulo, Ática, 1998. Ao contrário do que estranhamente afirma, Machado tinha sim o hábito de praticar o folhetim.



C HAR L ES D I C K E N S

criança miserável, Oliver Twist, por manter-se afastada da companhia de ladrões e, depois, descobrir o seu passado; por outro, o desenrolar de um amor que não pode se concretizar devido à origem, misteriosa e plebéia, da moça Rosa, objeto de proteção da senhora Maylie, e alvo do amor de seu filho Harry. A própria senhora Maylie, sempre excessivamente carinhosa e compreensiva para com Rosa, desaconselha a união, o que pesa muito nas decisões da moça.

A mão e a luva também traz a história de uma jovem, Guiomar, deixada aos cuidados de uma senhora. Do mesmo jeito, a menina é muito bem tratada pela protetora. Eliane Zagury nota que “a madrinha de Guiomar é o esboço de uma matriarca suavizada pelo amor”12. Guiomar, no entanto, não tem a mesma inocência de Rosa Maylie: ainda que palidamente, adianta já um pouco do frio calculismo que caracterizaria a mulher machadiana. Todavia, tanto no folhetim de Dickens quanto no de Machado, não é apenas a estrutura familiar (uma senhora que toma conta de uma jovem em idade de casamento) que coincide: as duas moças vêem-se na obrigação de confrontar, o que fazem de maneiras distintas, a rígida estrutura social com a manutenção de seus sentimentos ou interesses.

Roberto Schwarz chega a afirmar que, em A mão e a luva , “o que está em jogo é a concepção do favor. A moça deve obediência irrefletida à sua benfeitora, ou terá o direito de levar em conta os seus próprios desejos, de procurar um compromisso entre o seu interesse e os deveres da gratidão”13.

Se há, como quer o crítico, a presença da brasileiríssima prática do favor no enredo de A mão e a luva , persiste nele também eco da leitura que Machado vinha fazendo dos autores europeus. João Ribeiro diz que “lendo o Oliver Twist ou David Copperfield , tenho a impressão de que estou a ler um livro, ou um conto ou um romance de Machado de Assis”14.

Não interessa aqui, evidentemente, discutir se a literatura de Machado

— ou melhor, qualquer literatura — reflete a sociedade em que se instala ou se é releitura particular da tradição que a antecede e determina15; muito embora, se precisar optar, o presente ensaio alie-se à segunda hipótese. Para o caso, vale notar que o trabalho de tradutor de Machado de Assis ultrapassa o mero papel de coadjuvante e chega até mesmo a servir, como Oliver Twist , de pista para o esclarecimento de suas afinidades não apenas genéri-12 Op. cit., p. 6.

13 Roberto Schwarz, Ao vencedor, as batatas, São Paulo, Duas Cidades, 1977, p. 75.

14 Apud Eugênio Gomes, Machado de Assis – Influências inglesas, Rio Grande do Sul, INL, 1976.

15 Releitura que acaba moldando a visão histórica que inventamos para cada período.



O L I V E R T W I S T

cas, mas, mais amplamente, literárias. Entre parênteses, cabe destacar que Jean Michel Massa, falando das preferências estrangeiras de Machado, adverte para a necessidade de um estudo que contemple tais afinidades16.

Como tradutor, Machado parece ter tido especial predileção pela poe-sia17. Em prosa, certamente os trabalhos mais relevantes são dois: sua versão para o português de Os trabalhadores do mar , de Vítor Hugo, e, justamente, o folhetim Oliver Twist18. Naturalmente, Machado de Assis não foi um tradutor convencional: a tradução que estamos apresentando é um óti-mo exemplo disso. Conforme notou Jean Michel Massa, o bruxo não apresentou Oliver Twist aos leitores brasileiros em uma tradução a partir da redação em inglês, mas sim segundo uma edição francesa19, idioma que conhecia, já à época, perfeitamente.

Ainda que considere a questão relevante, e atualíssima para os estudos literários e de teoria da tradução, não vou tentar aqui localizar qual seria, para Machado, o texto original. Cabe destacar que se a tradução de Gerardin já apresentava algumas liberdades com relação ao texto inglês, o trabalho de Machado aumentou-as ainda mais.

Em alguns momentos, certamente para obedecer à lógica do gênero folhetinesco, o bruxo acrescentou algumas expressões para aguçar o espíri-to do leitor20. No final do capítulo II, depois de apresentar o local onde teria 16 Massa, inclusive, orienta o trabalho: “Une étude sur les Orientations étrangères dans le ouvre de Machado de Assis devrait au moins comprendre l’inventaire des sources, en prenant ce mot dans son sens le plus large: lectures, références, allusions, réminiscenses”. (O grifo é do autor.) Cf. Jean Michel Massa, Machado de Assis Traducteur, Mimeo., p. 4.

[“Um estudo acerca das orientações estrangeiras na obra de Machado de Assis deverá ao menos compreender o inventário de suas fontes, dando-se a essa palavra seu sentido mais amplo: leitura, referências, alusões, reminiscências.”]

É o lugar de agradecer a gentileza com que o crítico John Gledson me enviou a citada monografia.

17 Sobre isso, excelente exemplo é a edição organizada por John Gledson, Machado de Assis & Confrades de Versos, São Paulo, Maiden, 1998.

18 Na carta em que Machado de Assis comunica aos diretores do Jornal da Tarde que não continuaria o trabalho, não há qualquer justificativa a sua desistência: “Era resolução minha, de acordo com o recado que de V. Ex. recebi, por intermédio de nosso comum amigo, o doutor França, esperar a chegada do sr. Oliveira para nos entendermos todos três a respeito do trabalho que faço para o Jornal da Tarde como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu à consideração devida para com os dignos proprietários do Jornal da Tarde. – Sobreveio porém uma circunstância que me obriga a modificar aquela resolução, e a dizer a V. Ex., que não posso continuar a traduzir o folhetim, como até agora fazia.

Não querendo pôr embaraços ao Jornal da Tarde, continuarei a tradução até sábado, 18. Não me demorarei em dizer a V. Ex. com que pesar sou obrigado a interromper este trabalho que eu fazia com maior vontade que aptidão; temo que se possa confundir um sentimento verdadeiro com uma fórmula de ocasião. – Qualquer que seja porém este meu pesar, não pode influir nas circunstâncias que me determinam.” Cf. Galante de Sousa, Bibliografia de Machado de Assis, Rio de Janeiro, MEC/INL, 1955, p. 452.

19 Cf. Jean Michel Massa, Dispersos de Machado de Assis, Rio de Janeiro, INL, 1965. Machado utilizou a tradução de A . Gerardin, publicada pela Librairie de L. Hachette et Cie em Paris em 1864.

20 Todos os exemplos citados aqui estão anotados na edição de dispersos organizada por J. M. Massa. O texto da tradução de Machado foi retirado do mesmo livro. Cabe apenas acrescentar que a presente edição completa o trabalho de Massa reconstituindo o texto do capítulo VIII, recolhido apenas em parte por ele.



C HAR L ES D I C K E N S

crescido o pequeno Oliver, o tradutor aguça um pouco a curiosidade do leitor, e faz uma matreira advertência, que não aparece nem no texto em in-glês, nem na tradução francesa que consultamos: “caminhemos devagar”.

Da mesma forma, no final do capítulo XII, depois de causar certa bulha no centro da cidade, os dois ladrões que tinham em seu poder o menino, retornam para o esconderijo e o leitor é advertido: “Oliver não vinha com eles”. Não é difícil perceber o esforço de Machado para conferir ao texto certa graça e ligeireza próprias ao jornal. Assim, cabe notar que desde 1870, as tradicionais intervenções dirigidas ao leitor já se ensaiavam, muito provavelmente em razão da busca a uma adequação ao gênero folhetinesco, cuja importância, sublinhe-se, ainda permanece ao largo da crítica machadiana; o que é ainda mais espantoso se notarmos que seus principais romances, se foram depois retrabalhados para publicação em livro, saíram também sob a forma de folhetim.

Os cortes realizados por Machado também são notáveis: às vezes, uma frase ou um parágrafo traduz toda uma página de Charles Dickens. Não é difícil, tal a freqüência com que os cortes ou condensações ocorreram, encontrar exemplos. Já no capítulo III, quando alguns homens discutem o destino de Oliver, o tradutor resume quatro parágrafos de Dickens a meras cinco linhas. Vejamos, a princípio, o original dickensiano: Mr. Gamfield having lingered behind, to give the donkey another blow on the head, and another wrench of the jaw as a caution not to run away in his absence, followed the gentleman with the white waistcoat into the room where Oliver had first seen him.

It’s a nasty trade — said Mr. Limbkins, when Gamfield had again stated his wish.

— Young boys have been smothered in chimneys before now — said another gentleman.

— That’s acause they damped the straw afore they lit it in the chimbley to make ‘em come down agin’, said Gamfield; ‘that’s all smoke, and no blaze; vereas smoke ain’t o’ no use at all in makin’ a boy come down, for it only sinds him to sleep, and that’s wot he likes. Boys is wery obstinite, and were lazy, gen’lmen, and there’s nothink like a good hot blaze to make ‘em come down vith a run. It’s humane, too, gen’lmen, acause, even if they’ve stuck in the chimbley, roasting their feet makes’ em struggle to hextricate theirselves21.

21 O trecho é retirado da página 16 da edição de Oliver Twist publicada em Londres pela Wordsworth Classics em 1992.



O L I V E R T W I S T

Antônio Ruas, autor de uma tradução “comportada” do romance, tomou a seguinte opção:

Depois de o Sr. Gamfield ter voltado atrás, para ferrar ao burro outra pancada na cabeça e outro puxão na queixada, como advertência para que ele não escapasse na ausência do dono, seguiu o cavalheiro do colete branco até a sala onde Oliver o vira pela primeira vez.

— É um ofício sujo — observou o Sr. Limbkins, depois de Gamfield haver repetido o seu desejo.

— É freqüente os rapazes ficarem sufocados nas chaminés — ponderou o outro cavalheiro.

— É porque umedecem a palha antes de a acender na chaminé a fim de descerem — explicou o Sr. Gamfield. É tudo fumo e nenhuma chama; ao passo que o fumo de nada serve para fazer descer um rapaz, porque apenas o faz dormir e é isso do que ele gosta. Os rapazes são muito teimosos e muito preguiçosos, cavalheiros, e não há nada como uma boa chama quente para os fazer vir abaixo, muito depressa. É também humano, cavalheiros, porque se eles ficam colados à chaminé, queimam os pés, o que os faz lutar para se des-vencilharem22.

Machado, por sua vez, é extremamente sumário:

Quando o Sr. Gamfield expôs ao conselho o que queria, disse o Sr. Limbkins, presidente:

— O ofício de limpador de chaminé é bem porco.

— Tem-se visto morrerem as crianças nas chaminés — disse outro sujeito23.

Massa nota que Machado evita passagens muito cruéis e reduz, muitas vezes, a violência do texto de Dickens, às vezes cortando alguns trechos, outras suavizando-os. O crítico interpreta as modificações realizadas por Machado partindo do encontro de dois anseios: o de corresponder ao gosto do público, por um lado; e, por outro, o de abrigar as convicções do tradutor que é, ao mesmo tempo, um escritor crítico e arguto.

Muito embora os cortes e outras alterações sigam certa regra, como bem interpretou Massa, é fácil perceber que em alguns momentos Machado, algo apressado pela urgência do jornal e um pouco também por descuido, 22 Tal passagem está na página 22 da tradução lançada pela Melhoramentos de Oliver Twist (São Paulo, s.d.).

23 O trecho está na página 276 da citada edição de Massa.



C HAR L ES D I C K E N S

evidencia certa rapidez na redação. Exemplo disso podem ser os seguintes trechos: “O Sr. Grimwig interveio dizendo que desde o princípio os avisara dizendo quem era o menino”, e também, “É provável que, se houvesse percebido o sinal, não houvesse nada bom”.

Outras vezes, contudo, Machado parece — como aliás sempre lhe foi característico — preciosista com a linguagem e cunha expressões verdadeiramente brilhantes como o irônico “empresário de enterros”, descoberto para traduzir “undertaker”. Antônio Ruas preferiu o correto “agente funerário”, perdendo assim certa matriz cômica que a expressão poderia carregar.

A leitura atenta também permite o resgate de algumas frases verdadeiramente saborosas que, infelizmente, caíram em desuso. Entre as tantas, pode-se citar a curiosa “o mostarda ia subindo ao nariz”, utilizada duas vezes por Machado (e outra por mim). Segundo Antenor Nascentes, a expressão significa algo como “irritar-se” ou “perder a paciência”, a partir do engano de levar ao nariz mostarda e não rapé24.

Cabe por fim destacar a necessidade de atenção para algumas faces ainda pouco refletidas no trabalho de Machado de Assis. É certo que a atividade de tradutor ajudará a esclarecer as afinidades propriamente literárias de sua obra25 e o trabalho de folhetinista — que Machado realizou quase que durante toda a vida! — talvez revele aspectos formais surpreendentes.

A tradução de Oliver Twist , ainda que incompleta, pode ser um bom ponto de partida para tal reflexão, já que justamente reúne o Machado tradutor ao folhetinista.

Se esta breve introdução for concluída no prazo combinado, terão se passado dois anos a partir do momento em que recebi o convite para terminar 24 Cf. Antenor Nascentes, Tesouro da fraseologia brasileira, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. Cabe aqui agradecer ao escritor Evandro Affonso Ferreira a atenção com que, a partir de seu invejável conhecimento lexicográfico, esclareceu diversas questões. No campo da gratidão ainda, é preciso registrar as oportunas sugestões que Fábio Furtado fez na minha parte da tradução. Já no terreno dos clichês, é óbvio que os deslizes são todos de minha inteira responsabilidade.

25 Massa acredita que o Machado tradutor recebe pouca atenção da crítica brasileira por causa de uma espécie de medo de que isso “manche” sua originalidade. A afirmação é interessante (e o presente ensaio concorda com ela) e vale ser transcrita: “Il semble que la critique brésilienne ait, presque inconsciemment, refusé d’aborder de front le débat, comme si elle craignait de découvrir une dépendance de Machado de Assis qui porterait ombrage à son originalité”. Cf. Machado de Assis Traducteur, p. 4. [Parece que a crítica brasileira, mesmo inconscientemente, recusa tratar a questão de forma efetiva com medo de que a descoberta de um diálogo de Machado de Assis pudesse manchar sua originalidade.]



O L I V E R T W I S T

o trabalho de Machado de Assis e, um pouco movido pelo espírito de aventura intelectual, ciente dos riscos que ele impunha, decidi aceitá-lo. O trabalho pareceu-me atraente pois, além do convívio íntimo com a obra de um estilista notável, permitir-me-ia largas doses de criatividade.

Em um livro traduzido por duas penas distintas será inevitável inconveniente a diferença entre as partes. Aqui, aproveito para deixar claro que, ao aceitar concluir o trabalho de Machado 26 , nunca tive a intenção de “imitar” seu estilo. O que houve foi um trabalho de esclarecimento e aproveita-mento dos procedimentos utilizados pelo tradutor da primeira metade do livro. Assim, os cortes e as modificações na estrutura do texto que às vezes Machado ousou realizar permitiram-me — à minha maneira — opera-

ções semelhantes em certos trechos.

Como exemplo, destaco a versão que realizei para o final do livro. Procurando evitar passagens excessivamente sentimentais, como já o fizera Machado, reduzi os três parágrafos finais do texto original a apenas um que, economicamente, condensasse a questão principal: a felicidade de Oliver e daqueles que o auxiliaram.

Do mesmo jeito que já fizera Rosa Freire d’Aguiar que, ao trazer para o português o romance Viagem ao fim da noite , de Louis-Ferdinand Cèline, procurou utilizar expressões contemporâneas à redação do livro (no caso, para achar equivalentes em português a tradutora percorreu a obra de An-tônio Alcântara Machado, que como a do escritor francês é rica em gírias e termos orais 27 ), realizei certa apropriação do vocabulário machadiano e de sua maneira gramatical (em outras palavras, tentei seguir-lhe a colocação pronominal particular, as regências diversas e, entre outros procedimentos, o largo uso do infinitivo). Para tanto, além do estudo da tradução de Machado, procurei utilizar aqui e ali expressões encontradas em seus livros publicados ao redor do ano de 1870, data de seu trabalho com o Oliver Twist.

Foi-me muito útil também o estudo de suas crônicas redigidas entre 1859 e o momento da tradução de Oliver Twist. Se certos leitores talvez conside-rem o possível sabor envelhecido do texto um diletantismo duvidoso, outros acharão nele justamente o seu mérito.

26 O capítulo 26 foi concluído por mim a partir do 7o parágrafo da página 193. Depois, minha tradução se inicia a partir do meio do capítulo 28 (8o parágrafo da página 211) e vai até o fim do livro. Diferentemente do que fizera Machado, traduzi Oliver Twist a partir do original inglês, utilizando a edição da Wordsworth Classics publicada em 1992.

Recorri muitas vezes também à edição francesa, Les aventures d’Olivier Twist, cuja tradução de Francis Ledoux foi publicada pela Gallimard em 1991. Aqui e ali, ainda, avaliei as soluções encontradas por Antônio Ruas para a tradução brasileira de Oliver Twist publicada pela Melhoramentos.

27 A informação está no “Caderno 2” do jornal O Estado de São Paulo do dia 2 de dezembro de 2001.



C HAR L ES D I C K E N S

Entendo a reconstrução do texto, trabalho do tradutor, como uma atividade reflexiva: é desenhada por opções, impõe restrições e é necessariamente contingente. Assim, não foi apenas o objetivo de trazer a público um trabalho importante e desconhecido do nosso maior escritor que deu fôlego para as largas doses de estudo que o desafio exigia; quer-se aqui situar o tradutor não como coadjuvante, mas sim como titular de um papel criativo e, sobretudo, crítico.

Escrito nas primeiras décadas do século dezenove, portanto há pouco menos de duzentos anos, Oliver Twist denunciava, através da habilidade romanesca de Charles Dickens, o miserável cotidiano das camadas mais pobres da Inglaterra. A enorme distância que separa a primeira edição do livro desta nova tradução, no entanto, não é suficiente para tornar estranho o ambiente dickensiano. Se na Londres de 1830, crianças eram exploradas por bandidos, mendigos se amontoavam nas ruas e o abismo social era enorme, os mesmos problemas se repetem em qualquer grande cidade brasileira, com o triste agravante de que hoje parece que já não há mais escritores preocupados com tal realidade.

Pois se o trabalho do tradutor necessariamente impõe a prática da reflexão sobre o objeto, cabe então ultrapassar o tom de manifesto que essa apresentação vinha tomando para encerrá-la sob a forma, limitada mas veemente, de um protesto.

Ricardo Lísias, janeiro de 2000 – fevereiro de 2002.



Capítulo I

Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstâncias que ocorreram nessa ocasião.

Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.

Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.

Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.

Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.

A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente.

Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.

O L I V E R T W I S T

O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paró-

quia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.

No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:

— Quero ver meu filho antes de morrer!

O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:

— Oh! Não fale de morrer!

— Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.

É provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.

O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.

Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.

— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.

— Ah! Pobre moça, é verdade — disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.

— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. — É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.

O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:



C HAR L ES D I C K E N S

— Era bonita! De onde veio ela?

— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.

O médico inclinou-se para o corpo e, levantando a mão esquerda da defunta, disse abanando a cabeça:

— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!

O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.

Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist! Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presu-mido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém.

Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berras-se mais alto.



Capítulo II

Como Oliver Twist cresceu e foi educado.

Durante os oito ou dez meses que se seguiram, Oliver Twist foi vítima de um sistema contínuo de trapaças e decepções.

Foi criado com mamadeira.

As autoridades da paróquia perguntaram com dignidade às autoridades do asilo se não havia alguma mulher, residente no estabelecimento, que pudesse dar a Oliver Twist a consolação e o alimento de que ele carecia. As autoridades do asilo responderam humildemente que não havia; à vista do quê, as autoridades da paróquia tiveram a humanidade e a magnanimidade de ordenar que Oliver fosse mandado para uma casa dependente do asilo, situada a três milhas de distância, onde uns vinte ou trinta infratores da lei dos pobres passavam o dia a rolar pelo chão sem medo de comer muito nem andar agasalhados demais. Tratava deles uma velha que recebia os delinqüentes à razão de três tostões por semana e por cabeça.

Três tostões fazem uma boa soma para sustentar um pequeno; pode comprar-se muita coisa com três tostões; quanto baste para abarrotar o estômago de uma criança e alterar-lhe a saúde.

A velha era prudente; sabia o que convinha aos pequenos e o que lhe convinha a ela; em conseqüência disto, gastava consigo a maior parte do auxílio hebdomadário e reduziu a pequena geração da paróquia a um regime mais escasso do que aquele que se dava na casa onde Oliver nasceu. A boa senhora esticava cada vez mais os limites conhecidos da econo-mia e mostrava ter consumada filosofia na prática da vida.

Todos conhecem a história daquele outro filósofo experimental, que imaginara uma bela teoria para fazer com que um cavalo vivesse sem comer e que a aplicou tão bem que chegou a dar ao cavalo a ração de fio de palha. Indubitavelmente, ficaria aquele animal ágil e ligeiro, se não O L I V E R T W I S T

tivesse morrido vinte e quatro horas antes de receber pela primeira vez uma forte ração de ar puro.

No que respeita à velha, a cujo cuidado Oliver foi confiado, esse resultado era quase sempre a conseqüência natural do seu sistema. Justamente na ocasião em que uma criança conseguia existir com uma escassíssima porção de alimento, acontecia, oito vezes em dez casos, que a infame crian-

ça tinha a maldade de cair doente de frio e de fome ou deixar-se cair no fogo por descuido; então partia a desgraçada criaturinha para o outro mundo, onde ia encontrar os pais que não conhecera neste.

Fazia-se às vezes uma devassa do caso mais interessante que de costume, a respeito de uma criança abafada debaixo de um colchão ou achada numa bacia de água a ferver em dia de varela, posto que este último acidente fosse raro, porque na casa da velha quase nunca se lavava roupa. Nessas ocasiões o júri fazia algumas perguntas de atrapalhar, ou então os habitantes da paróquia tinham a audácia de assinar uma reclamação; mas estas impertinências eram logo reprimidas pelo relató-

rio do médico ou pelo testemunho do bedel. O médico declarava que abrira o corpo e nada achara dentro, o que era muito provável; e o bedel jurava sempre no sentido das autoridades da paróquia — o que revelava admirável dedicação.

Demais, a comissão administrativa fazia excursões periódicas a esses estabelecimentos secundários, tendo o cuidado de mandar o bedel adiante para anunciar a visita; as crianças estavam lavadas e assediadas quando esses senhores chegavam.

Tal sistema de educação não daria às crianças muita força nem grossas banhas. No dia em que completou nove anos, Oliver Twist era um pirralho, amarelo como um defunto e singularmente magro.

Oliver devia à natureza ou a seus pais um espírito vivo e reto, que não teve dificuldade em se desenvolver, apesar das privações do estabelecimento, e foi talvez a isso que ele deveu ter chegado ao seu nono aniversá-

rio natalício.

Fosse como fosse, completava ele nove anos e estava nesse dia no depó-

sito de carvão com dois companheiros, que receberam com ele uma dose de bofetões e foram metidos no dito depósito, por terem tido a audácia de dizer que estavam com fome. De repente a Sra. Mann, a excelente dire-tora da casa, foi surpreendida com a aparição imprevista do bedel, o Sr.

Bumble, que procurava abrir a porta do jardim.



C HAR L ES D I C K E N S

— Santo Deus! É o Sr. Bumble — disse a Sra. Mann, pondo a cabeça na janela e simulando uma grande alegria. — Suzana, mande cá para cima Oliver e os outros dois peraltas e lave-os depressa. Que prazer, que prazer tenho eu em vê-lo, Sr. Bumble.

O Sr. Bumble era gordo e irritadiço; em vez de responder polidamente a este cumprimento afetuoso, entrou a sacudir com toda a força a porta, dando-lhe depois um pontapé, mas um verdadeiro pontapé de bedel.

— Será possível? — disse a Sra. Mann correndo a abrir a porta, enquanto se punham as crianças em liberdade. Esquecia-me que a porta estava fechada! Aqueles queridos pequenos fazem-me esquecer tudo. —

Queira entrar, Sr. Bumble, queira entrar.

Posto que este convite fosse feito com uma cortesia que abrandaria o coração mais duro, não comoveu o Sr. Bumble.

— Acha decoroso, Sra. Mann — perguntou ele agitando a bengala —, acha bonito fazer esperar os funcionários da paróquia à porta de seu jardim, quando eles vêm desempenhar as suas funções paroquiais e visitar as crianças da paróquia? Esquece acaso que a senhora é delegada da paró-

quia e estipendida por ela?

— Oh! Não, Sr. Bumble — respondeu a Sra. Mann humildemente. —

Mas eu ia dizer a um ou dois destes queridinhos meninos que gostam tanto do senhor a honra que iam ter com a sua visita, Sr. Bumble.

Sr. Bumble tinha uma alta idéia do seu talento oratório e de sua importância; tinha-os ostentado e defendido; acalmou-se.

— Está bom, está bom — respondeu ele. — É possível; entremos, Sra.

Mann; venho tratar de negócios.

A Sra. Mann introduziu o bedel em uma pequena sala, cujo chão era de tijolos, apresentou-lhe uma cadeira e apressou-se em tirar-lhe das mãos a bengala e o chapéu de três bicos, colocando-os sobre a mesa. O

Sr. Bumble enxugou a testa coberta de suor, lançou um olhar

complacente ao chapéu de três bicos e sorriu. É verdade, sorriu.

— Não se zangue com o que lhe vou dizer — observou a Sra. Mann com sedutora meiguice. — O senhor vem cansado; se não fosse isso não lhe falaria em semelhante coisa; quer tomar uma gota de alguma coisa?

— Nada, absolutamente nada — disse o Sr. Bumble recusando com dignidade, mas com brandura.

— Não me há de recusar — disse a Sra. Mann, que observara o tom do bedel —, não me há de recusar uma pingazinha, com água e açúcar.



O L I V E R T W I S T

O Sr. Bumble tossiu.

— Um quase nada — disse a Sra. Mann.

— Que me quer a senhora oferecer? — perguntou o Sr. Bumble.