Once a Witch por Carolyn MacCullogh - Versão HTML

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Once a Witch

Série Witch

Carolyn MacCullough

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Prólogo

Eu nasci na noite de Samhain1, quando a barreira entre os mundos é um fino

sussurro, e quando a magia, velha magia, canta sua doce e inebriante música para quem

quiser ouvi-la. Durante toda a noite minha mãe lutou, e quando finalmente me trouxe

para este mundo, minha avó pairava sobre mim, torcendo seus dedos em formas

misteriosas, murmurando uma linguagem que só ela sabia.

– O que é isso?

Minha mãe arqueou, virando seu rosto contra o travesseiro com cheiro de

lavanda.

– O que há de errado?

Finalmente, minha avó respondeu, sua voz cheia e triunfante.

– Sua filha vai ser uma das mais poderosas que nós já vimos nesta família. Ela vai

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ser um farol para nós.

Eu sempre imaginei como minha irmã mais velha, Rowena, que havia sido levada

1 Samhain (pronuncia-se Sou-ein), festejado em 31 de outubro no hemisfério Norte e em 1º de maio no

hemisfério Sul, é o Ano-Novo dos Bruxos. Esse dia sagrado é conhecido por inúmeros nomes. Para muitos,

talvez, o mais conhecido seja Halloween. Para nós, Bruxos, é a festa na qual honramos nossos ancestrais e

aqueles que já tenham partido para o País de Verão. http://www.casadobruxo.com.br/textos/samhain.htm

2 No sentido de algo que dá a luz, que guia.

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para o quarto, reagiu a essa frase. Ninguém pensou em checar essa parte da história, mas

eu realmente teria aproveitado o momento em que eu, e não Rowena era o sol e a lua e as

estrelas combinadas.

Eles dizem que eu não chorei ao nascer, não fiz um som, mas abri meus olhos

imediatamente e saudei a todos eles com um quieto e calmo olhar.

– Como se ela já tivesse visto muito.

Minha mãe sussurrou, tocando meus dedos e depois meu rosto.

Bem, se eu vi algo, eu já esqueci há muito tempo o que foi, e sobre o que minha

avó prometeu, isso também foi esquecido. Ou não esquecido, mas definitivamente

detonado. Mesmo agora, dezessete anos depois, eu ainda pego o olhar de minha mãe em

mim e eu sei que ela está ponderando como conseguiu perder a criança que a ela tinha

sido prometida, e ganhar a mim no lugar. Eu também me pergunto se minha avó alguma

vez já se deu conta do eco de suas palavras: uma das mais poderosas... um farol.

Duvidoso. A história foi contada tantas vezes em ansiosa antecipação até meu

aniversário de oito anos. Então toda a família se reuniu e cantou enquanto minha mãe

acendeu as oito velas douradas para representar os quatro elementos e as quatro direções.

Então eles me observaram, alguns abertamente, outros furtivamente.

E o que eu fiz? Nada. Na-da. Nada do que eu deveria fazer, de qualquer forma.

Depois de um tempo, eu fiquei cansada de todos me olhando e então, sem pensar duas

vezes, eu caminhei em volta apagando todas as velas, encontrando conforto na escuridão

enquanto eu comia dois grandes pedaços do meu doce bolo de aniversário.

Eventualmente, todos foram para casa.

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Eu venho de uma família de bruxas. Todo e cada membro da minha família, até

meu primo mais novo manifestaram seu talento particular sem falhar um pouco antes, ou

no mais tardar, aos oito anos de idade. Exceto por mim. Nove anos se passaram desde

aquele aniversário e eu não tenho nada pra mostrar.

Nem uma gota, nem metade de uma gota, nem um quarto da metade de uma gota

de magia correm em minhas aparentes empedradas veias. E sobre o que minha avó disse

sobre mim... Uma das mais poderosas... Um farol, etc., etc., etc. -- tudo isso vem pra

mostrar que, contrária à crença popular, mesmo a mais velha e poderosa das bruxas pode

estar muito errada.

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Um

– Mais vinte minutos, Hector – Eu disse – e eu estarei livre desta cratera

infernal. Hector, de quem os olhos amarelo-acastanhados se arregalaram quando eu falei,

agora somente mostrava seus dentes finos como agulhas para mim, quando bocejava.

Ele piscou uma vez, então se enrolou novamente para dormir, sua cauda cobrindo

as patas dianteiras. Cratera infernal não é uma descrição justa, eu admito enquanto olho

em volta, para a livraria da minha avó, para ter certeza de que nada está fora de ordem.

Mas cratera infernal se tornou minha expressão favorita ultimamente. Eu tenho que ir

para a cratera infernal, eu gosto de dizer à minha colega de quarto, Agatha, sempre que

sou chamada de volta pra casa nas férias ou nos fins de semana. Agatha sempre me dá um

olhar em branco como resposta.

– Eu acho que deve ter sido tão maravilhoso crescer em uma comunidade, ela se

arriscou uma vez.

Eu não me incomodei em explicar como não é realmente uma comunidade. Eu

meio que posso ver como pode soar como uma pelas descrições editadas que eu dei a ela.

Uma grande casa de fazenda em Nova York, com uma variedade de primos, tias, tios e o

celeiro adjacente, os campos e jardins que abasteciam o negócio da família –

Suplementos Herbais Greene. Todos presididos por minha mãe e avó em seu tempo, suas

saias e xales coloridos e colares de conta.

– Eu quero dizer, eu cresci em Pine Park, Illinois, Tamsin. Venha pra casa comigo

e você vai ver a verdadeira cratera infernal. E, a propósito, isso nem é uma expressão

verdadeira.

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– Eu ia amar, Eu respondi ansiosamente. E eu quis realmente dizer aquilo. Eu

amaria ver como é ser parte de uma casa americana comum. Onde sua mãe e sua avó não

estão lendo folhas de chá, e vísceras o tempo todo. Ou fazendo poções com o cheiro forte

do jardim de ervas para dezenas de garotas e mulheres da aldeia.

Elas vêm após o anoitecer, batendo timidamente na porta de trás, implorando por

alguma coisa para colocar no café ou cerveja de algum homem quando ele não estiver

olhando. Os olhos das mulheres de enchem de lágrimas agradecidas, aqueles mesmos

olhos que vão fugir de encontrar os seus, se vocês se cruzarem na cidade durante o dia.

Numa casa realmente normal as pessoas celebram Ação de Graças, Natal ou

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Hanukkah . Halloween é para que as crianças se vistam com fantasias. Não é um feriado

em que toda a sua família se reúne na profunda floresta atrás de sua casa e constrói uma

fogueira e queima ervas doces no altar construído para os quatro elementos. Não um

feriado em que toda a sua família dança até o primeiro arranhar do alvorecer e você

finalmente pode tropeçar até em casa, com as pernas nuas machucadas e arranhadas,

mãos e pés congelando, cheia do vinho feito na casa do Tio Chester.

– Cratera infernal, eu disse novamente, agora com sentimento, enquanto lençóis

de chuva ondulavam contra as enormes janelas. Ao menos havia mais uma semana até

que eu pudesse pegar o trem de volta à Grand Central. Eu bocejei, estiquei meus dedos

para o teto de estanho polido. O sino sobre a porta soou três notas suavemente e eu soltei

meus braços meio esticados, assustada. Eu não fui à única. Hector pulou do balcão com

um miado irritado e desapareceu entre duas pilhas de livros de poesia que acabo de

lembrar que deveria reavaliar o preço e arquivar na sessão 50% de desconto.

Porém, ao invés disso, eu olhei para o homem que tinha acabado de entrar. Ele é

alto, e como eu sou alta, isso diz alguma coisa. Alto e magro e abafado por um casaco

escuro que parece se sobrepor a sua estrutura.

3 Hanukkah é uma festa judaica da Consagração ou das Luzes, celebrada no fim de dezembro e comemora a

reconsagração do Templo de Jerusalém após a vitória de Judas, o Macabeu sobre Antíoco Epífano.

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Ele educadamente dobrou seu guarda-chuva e o colocou sobre o plantador de

cobre que servia como suporte para a porta. Seus olhos encontraram os meus do outro

lado da sala.

– Desculpe – ele disse, e sua voz era um sussurro nervoso quase levado pelo

vento.

A porta se fechou, nos selando lá dentro.

– Pelo que? – eu perguntei suavemente.

– Você nem me conhece ainda. – Na minha mente, eu podia ouvir Agatha

suspirar. Ela se exaspera comigo e minhas frases de uma linha. Ele indicou a área em

volta de seus pés. Poças espalhavam-se por todo o chão de madeira, escorrendo da bainha

molhada de sua capa de chuva e de suas luvas.

– Oh. – Eu disse. Então toda minha sagacidade me deixou.

– Eu... tenho um esfregão – eu terminei, brilhantemente.

Ele assentiu, balançou seu casaco um pouco, então pareceu envergonhado

enquanto mais água caía no chão.

– Vocês já estão fechando? – Seu sotaque era fraco, porém familiar, e eu tentei

desvendá-lo.

– Não – eu menti corajosamente, porque depois de tudo ele é um cliente e eu

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havia feito algo em torno de vinte e dois dólares em vendas hoje.

Eu passei por trás da caixa registradora e comecei a arrumar uma pilha de livros,

fingindo não ver o homem enquanto ele passa pela estante de ficção. Quando ele se

moveu um pouco mais próximo à oculta e misteriosa seção, eu senti a familiar picada de

resignação. Então ele é um desses. Um de fora da cidade que acha que mágica pode ser

encontrada em um livro. Eu suspirei. Acredite em mim, eu queria gritar com ele, se

mágica pudesse ser achada em um livro, eu já teria achado há muito tempo.

Eu perdi o tempo com a fita da caixa registradora, então olhei novamente,

esperando ver o homem completamente imerso no último livro de Starling Ravenwood,

Feitiços para Viver Uma Vida de Boa Fortuna, nosso atual Bestseller. Mas ele não está

em lugar algum onde eu possa ver. Eu ergui meu pescoço, ficando em um só pé. De

repente, ele se materializou de entre as estantes de poesia, e veio até mim segurando um

livro fino com a capa bronze.

Inexplicavelmente, eu me vi dando um passo para trás. Meu cotovelo roçou a

máquina de café que eu insistira para minha avó comprar, se eu ia trabalhar na loja

durante todo o verão. O recipiente deu um chiado, seu conteúdo oleoso derramou um

pouco quando lanço meu braço para frente.

– Ouch...

O homem não pareceu notar. De perto, eu vejo o reflexo da barba dourada por

fazer em seu queixo, o cabelo ensopado de chuva era louro escuro. Seus estilosos óculos

de armação preta refletiam a luz de volta para mim, mas não me permitiam ver a cor de

seus olhos. Eu pensei que ele devia ter algo em torno de trinta anos. Ele não era

convencionalmente bonito, mas havia algo nele, algo que me fazia desviar o olhar, depois

olhar novamente para ele.

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– Você tem mais algum como esse? Ele perguntou, e a origem de seu sotaque me

fez pensar novamente. As sílabas ‘grampeadas’4, a enunciação perfeita. Inglês, eu decidi.

Isso definitivamente adiciona um fator atrativo. Agatha, pelo menos, é louca por

sotaques. Eu abri a capa, folheando as páginas.

– Eu não li esse – eu disse surpresa porque já havia lido quase tudo na loja. Ao

menos tudo que valia a pena ler.

O livro parecia ser uma foto montagem das origens de minha cidade. Esboços a

lápis e desenhos a tinta de antigas mansões davam lugar às belas fotos de folhagens de

outono, a praça da cidade, as cachoeiras, e o cemitério. Sob cada foto havia um parágrafo

ou dois explicando a história.

– Interessante – eu disse com um sorriso evasivo, entregando o livro de volta a

ele.

Ele ajustou os óculos no topo de seu nariz e disse:

– Interessante é uma das palavras mais banais da língua inglesa. O que isso

significa realmente?

Meu sorriso congelou no lugar.

– Isso significa que eu não tenho nada melhor pra dizer, então interessante me

vem à mente.

4 No sentido de sílabas muito juntas, o contrário de falar pausadamente

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Ele sacudiu a cabeça uma vez.

– De alguma forma eu não acho que você seja o tipo de pessoa que se encontraria

numa situação em que não tivesse nada melhor para dizer.

A cafeteira chiou outra vez, e eu casualmente esfreguei a mão no meu pescoço

para evitar que um arrepio se espalhasse. Vindo do nada, Hector saltou sobre o balcão

novamente, arqueando suas costas e batendo sua cabeça violentamente contra o livro que

o homem segurava. O homem pareceu assustado por um instante, e então, de repente

linhas se curvaram em torno de sua boca, criando aquelas pequenas covinhas.

– Hector vê todos os livros como rivais pela atenção das pessoas.

– Lugar ruim pra ele viver, então. – O homem comentou.

– Ele se vinga de uma forma sutil. Isso é tudo? – Eu perguntei, apontando para o

livro. Num flash, Hector bateu na pulseira de prata no meu pulso e enganchou uma pata

em minha pele.

– Ow! Eu disse, puxando minha mão de volta.

– Vê o que eu disse sobre vingança? – Eu resmungo, olhando para as três esferas

de sangue que brotam em minha pele pálida.

– Me permita, o homem diz, e rapidamente, tão rapidamente que eu não tive

tempo de reagir, ele puxou um lenço azul de dentro do bolso de seu casaco de chuva e

pressionou-o contra meu pulso. Sua língua tocou no canto de sua boca. Eu puxei minha

mão de volta, um sorriso oscilando em meu rosto.

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– Quem tem um lenço hoje em dia? – Minha voz soou incerta, oprimida até.

Eu examinei o canto do tecido, que estava bordado com as letras AEK. Ele

encolheu os ombros e pareceu envergonhado, e o lenço desapareceu novamente dentro do

bolso de seu casaco.

– Sim, não é um hábito muito americano, eu estou colecionando.

– Então você é inglês, – eu concluo. Ele parece brevemente pesaroso.

– Escocês, – ele diz.

– Desculpe, – eu sussurrei zombeteiramente.

– Péssimo engano. Inimigos mortais, certo?

Eu levei meu pulso à minha boca, pressionando meus lábios na pele cortada. Ele

me olhou e eu deixei cair minha mão, envergonhada.

– De férias por aqui? – Eu perguntei, preenchendo a lacuna de silêncio.

– Não. Eu estou na NYU5.

5 NYU = New York University, ou Universidade de Nova York, em português

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– Você é um estudante lá? – Eu perguntei.

Uma adorável mancha de cor vermelha cobriu suas bochechas.

– Eu sou um professor lá.

– Você é? – Eu disse, notando muito tarde o quão grosseiro isso soava.

– Digo... você é. – Eu assenti.

– É claro. Desculpe, é só que você parece tão novo.

Agora quem estava corando era eu. Eu posso senti-lo por minhas bochechas e

minha testa. Até meu nariz estava quente.

– O que você ensina?– eu perguntei.

– História da arte. Você é uma aluna universitária?

– Ainda não, – eu disse.

– Eu freqüento a New Hyde Prep. – Ele me deu um olhar em branco.

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– É um colégio interno na cidade. No Upper East Side. Eu só fico em casa, em

Hedgerow, pra passar o verão.

Eu empurrei uma pilha de marcadores para perto da registradora, os alinhando

perfeitamente.

– NYU é uma das minhas primeiras escolhas. Então se eu entrar, talvez eu acabe

em uma das suas aulas ano que vem.

– Eu adoraria, – ele disse.

Então ele me olhou e sorriu brevemente, quase maldosamente, para mim.

– Desde que você prometa não usar a palavra ‘amável’ em nenhuma das

discussões.

– Eu não ousaria, eu disse.

Eu considerei deixar minhas pestanas se fecharem lentamente. Eu tenho estado

entediada por todo o verão e preciso de um pouco de flerte.

A pequena cidade de Hedgerow, embora tenha um grande charme rústico, não

tem muito no quesito ‘diversão masculina’. Mesmo se eu não fosse um membro de uma

das famílias, mais infames da cidade, as opções são limitadas.

Mas o momento passou, então apenas peguei o livro dele uma vez mais e chequei

as abas, procurando o preço que minha avó tinha escrito em sua letra garranchosa.

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– Sete dólares – eu disse, pegando os vinte de seus dedos estendidos.

Ele aceitou o troco que pus em sua mão, nem ao menos checando antes de

devolver o dinheiro à sua carteira. Todo esse tempo ele tinha um olhar fracamente

desconfortável. Ele tirou seus óculos, massageou o topo de seu nariz e olhou para mim, e

decidi que seus olhos eram algo entre azul e cinza.

– Tem algo mais que eu estou procurando, – ele deixou escapar, de repente.

– Não um livro, de qualquer forma. – Ele lançou um olhar para á porta, como que

mudando de idéia e decidindo escapar para a chuva.

Eu troquei meu pé de apoio, pressionando as orelhas de Hector suavemente contra

sua cabeça, como ele gostava.

– E o que seria isso? – De alguma forma não me surpreendeu que tivesse chegado

a isso. As maiorias dos forasteiros chegavam a essa parte.

– Uma antiga relíquia de família. Um relógio. Esteve na minha família por

gerações e então nós... o perdemos. – Ele colocou os óculos novamente no rosto.

– Perderam?

Ele sacudiu a mão, na luz batendo na pulseira de aço de seu relógio. Os olhos de

Hector se abriram, e eu pus uma mão restringente no pescoço do gato até que ele

adormecesse outra vez.

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– Num jogo de cartas ou uma aposta, ou algo nesse sentido, no fim do século

XVIII em Nova York. Apostadores na família temo.

– E como eu posso ajudar? – Eu perguntei, e esperei que seus olhos encontrassem

os meus, o que fizeram com certa relutância. Azul glacial, eu finalmente decidi.

– É só que... bem... eu escutei que esse... esse lugar...

– Esse lugar...? – Eu repeti. Enquanto eu deslizava o livro para dentro de uma

sacola, eu percorria o símbolo da Greene’s Achados e Perdidos, Livros Novos e Usados.

Eu não posso deixar de me sentir um pouco como Hector, com um rato preso entre suas

patas.

Ele ruborizou-se novamente.

– Eu ouvi dizer que este lugar se especializa nesse tipo de coisa. Encontrar coisas.

Isso é, coisas perdidas.

– Muito raramente algo é perdido para sempre, eu disse enigmaticamente, porque

é isso que minha avó diz para clientes em potencial.

Mas então eu me cansei desse jogo e me cansei de mim mesma. O pobre homem

viajou da cidade de Nova York, numa noite chuvosa, para achar alguma coisa que

provavelmente tinha algum valor sentimental, e a última coisa que ele precisa é ser

manipulado por uma garota de dezessete anos com o peso do talento especial de sua

família em seus ombros.

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Desde que Agatha pegou Introdução à Psicologia no ano passado, eu tenho sido

incitada a ser mais autoconsciente.

– Ok, olhe... você veio ao lugar certo, professor, mas...

– Callum, – ele interrompeu – Alistair Callum. E você é Srta. Greene, certo?

– Sim. T... – mas as palavras pareciam estar tropeçando para fora dele agora.

– Francamente, eu estava com um pouco de dúvida que um lugar como... como

esse existisse. Eu quero dizer, que fascinante. Eu quero... eu só quero dizer... que coisa

brilhante essa que você faz Srta. Greene.

Eu não sou a pessoa que você quer. Eu sei que tenho que falar isso a ele. Mas é

tão raro que alguém olhe pra mim como Alistair está olhando agora. Com admiração e

reverência. Eu sinto ao mesmo tempo um brilho e um escurecimento em minha cabeça,

como se alguém tivesse ligado um interruptor e depois, com a mesma rapidez, o

desligado novamente.

De repente eu quis estar de volta à minha cama do dormitório, passando

levemente as páginas de um livro aberto, sustentado em meu peito antes de desistir do

meu dever de casa, e descer lentamente até o lounge dos estudantes para assistir TV com

qualquer um que por acaso esteja lá.

Pessoas normais. Pessoas que não tem ideia dos talentos da minha família.

Pessoas que não me olham de lado com admiração ou preocupação ou medo ou uma

combinação dos três. E ainda assim, Alistair está olhando para mim esperançosamente

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suas mãos apertando o balcão enquanto ele se inclina em minha direção.

Eu me imaginei dizendo a coisa certa, a coisa que eu deveria dizer caso um

cliente pedisse ajuda para achar algo além dos últimos mistérios de Pat Griffith. Minha

avó é a pessoa com quem você tem que falar. Ela vai estar aqui amanhã. Eu só estou

olhando a loja e eu não sou a pessoa certa. Não a que você precisa. Ao invés disso, eu

escutei a mim mesma dizendo.

– Eu posso te ajudar. E então eu pausei.

Concerte isso, concerte isso agora, uma vozinha gritou pra mim.

– Esta é a loja da minha avó. – Isso está certo, está certo, marcha ré. Eu respirei, a

voz como um furacão, quebrando o silêncio.

– Mas eu faço esse tipo de trabalho com ela todo o tempo. Minhas palavras

estavam surpreendentemente estáveis e seguras. Hector parou de ronronar e abriu seus

olhos, me dando um longo olhar amarelo.

– Eu escutei sobre sua família num antiquário...

– Isso responde minha próxima pergunta. Quem foi que...

– Vá ver a Sra. Greene, eles me disseram. Ou sua neta Rowena. Rowena Greene é

a pessoa que você quer. – E então sorriu novamente, mas agora era um casual meio

sorriso, e ele adicionou suavemente.

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As palavras que eu esperei tanto pra ouvir. Rowena Greene. Minha garganta

estava seca, do tipo vagando-pelo-deserto-por-uma-semana-sem-água. Nós temos um

monte de nomes estranhos na nossa família. Mesmo assim, eu odeio o meu

especificamente. Tamsin. Ele soa tão... Severo e não-musical.

Ao contrário de Rowena, que ondula pra fora da língua, Tamsin caí com um

baque. Eu perguntei à minha avó repetidamente quando eu era criança porque ela havia

me selado com um nome como este, mas ela somente sorriu e disse que essa era uma

história melhor guardada para outra hora. Eu engoli seco e tentei dizer:

– Hmm, na verdade meu...

– E quando eu entrei por aquela porta hoje à noite, eu tive este sentimento de que

você é aquela com quem eu deveria falar. – Ele colocou a sacola em um bolso no interior

do casaco.

– Você provavelmente vai pensar que estou louco. Eu provavelmente estou louco.

Ele apertou rapidamente o topo de seu nariz com dois dedos.

– Eu não acho que você está louco, – eu disse depois de um momento, quando

pareceu que ele havia terminado de falar. Pareceu ser meu novo emprego ressegurar a ele.

Eu já havia visto minha avó colocar clientes nervosos, totalmente tranqüilos, em um

segundo.

– Eu estou lisonjeada, de verdade, – eu disse, sinceramente, e me impedi de

adicionar, você não faz idéia do quão lisonjeada. Ninguém tinha nunca, nunca me

confundiu com minha extremamente talentosa irmã mais velha antes.

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Ele se inclinou em direção ao balcão, agarrou minha mão e a sacudiu algumas

vezes. Hector soltou um miado ofendido e se distanciou de nosso aperto, agitando as

mãos, mas Alistair não pareceu notar.

– Eu estou encantado por ouvir isso. Eu tenho este sentimento de que você

realmente vai poder me ajudar. – eu engoli seco, me privando de dizer que ele estava

pressionando meu pulso ferido.

– Escute, Dr. Callum...

– Alistair, – ele insistiu.

– Alistair, – eu repeti depois dele.

– Eu preciso te dizer...

– Sim? – ele perguntou, e quando eu não respondi logo, seus ombros se

contraíram um pouco e sua mão, de repente ficou flácida, e caiu da minha. Eu não pude

suportar seu desapontamento.

– Hmm... Eu queria dizer que eu não posso prometer nada. Na verdade, eu posso

dizer a você que eu provavelmente não vou poder realizar o trabalho. – Talvez eu devesse

frasear isso do mesmo modo que minha avó fazia quando confrontada com um cliente

particularmente agressivo ou um caso excepcionalmente difícil. O que quer ser achado

vem à luz. Eu não vou descansar até que essa luz ilumine cada canto e expulse cada

sombra.

Não que ela tenha dito muito de alguma coisa ultimamente. Neste verão quando

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em vim do colégio, eu a encontrei passando boa parte de seu tempo sentada quietamente

no jardim ou em seu quarto, uma névoa de sonhos espalhando-se sobre ela e acalmando

suas mãos. Mas ninguém mais admitia isso. Ao menos não abertamente. Ao invés disso,

minha mãe me disse que eu deveria trabalhar na loja na maior parte do verão, enquanto

Rowena ficaria em casa e ajudaria com todo o resto. ‘Todo o resto’ é o negócio da vida

das bruxas em um mundo que não sabe realmente que elas existem.

– Não, não. Claro, claro – Alistair ia dizendo, e eu me foquei nele novamente. –

Eu entendo completamente. O que quer que você possa fazer.

Ele foi até a porta e procurou por seu guarda-chuva sem tirar seus olhos de mim,

como se estivesse com medo de que eu fosse começar a cortar asas de morcegos e

resmungar encantamentos.

– Espere. Você não quer me dizer mais sobre isso? O que é que eu deveria estar

procurando?

Ele parou e fechou os olhos brevemente, e os cantos de sua boca se abriram em

um pequeno sorriso.

– Sim, claro. Mas... Ele olhou para seu relógio.

– Eu tenho que pegar um trem em alguns minutos. Nós podemos marcar um

encontro em meu escritório quando o semestre começar?

– Claro – eu disse, lutando para esconder o alívio em minha voz.

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Eu sei como é com essas pessoas. Uma vez que estivesse de volta ao escritório e a

escola recomeçasse, esta noite iria começar a parecer mais e mais irreal, como se as

partes disso escapulissem. Cedo o suficiente ele começará a pensar se realmente teve esta

conversa com uma garota em uma escura tarde chuvosa. Talvez se torne uma história que

vai contar a alguém algum dia, que ele uma vez tentou contratar os serviços de uma

bruxa para achar algo que estava destinado a ficar perdido de qualquer forma.

– Eu vou procurá-lo. NYU, certo?

Ele remexeu o bolso de seu casaco por um minuto, uma expressão de alarme

cruzando seu rosto.

– Eu tinha um cartão aqui em algum lugar. Tinha acabado de fazê-los. – Ele dava

palmadas em seus bolsos com cada vez mais força.

– Não se preocupe com isso, – eu disse finalmente, com um sorriso aberto. – Eu

vou achá-lo. Quero dizer, se eu não puder, você não ia querer mesmo me contratar para o

serviço de qualquer forma, certo?

Ele pareceu assustado por um momento e então sorriu, deixando aparecer suas

quase-mas-não-exatamente-covinhas novamente.

– Verdade. E... bem, o que quer que você queira, qual é seu preço normalmente?

– Normalmente? – Como minha avó lida com essa parte? Ela é tão natural com

tudo.

– Hmm... bem, nós discutiremos isso quando eu tiver uma ideia melhor do

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trabalho, – eu disse em meu tom mais oficial. Isso pareceu satisfazê-lo, porque ele

assentiu e finalmente desapareceu na garoa.

Eu virei o sinal de ‘fechado’ na porta, girei a chave no cadeado, e me dirigi

novamente à caixa registradora. Eu me senti como se houvesse algo que eu estava me

esquecendo de fazer, então olhei ao redor da loja, meus olhos parando sobre as pilhas de

livros de poesia que eu ainda tinha que reavaliar. Repentinamente, o restante de prazer

que senti com a suposição de Alistair, sua confiança em mim, acabasse me deixando

insípida. Eu desejei poder contar essa história à Agatha, mas de alguma forma eu não

acho que isso sobreviveria à pesada edição pelas quais ela teria que passar.

O telefone tocou agudamente. Eu dou ao aparelho um olhar malevolente enquanto

ele toca estridentemente, toca e toca. Eu não preciso de nenhum dos talentos de minha

família pra saber quem é. Eu finalmente o atendo.

– Greene’s Livros Achados e Perdidos, Novos e Usados, posso ajudá-lo? – eu

cantarolei para o receptor.

– Tam, – Rowena disse, e sua voz é só negócios. – Nós precisamos que você

pegue três litros de sorvete de baunilha na McSweeny’s. A batedeira de sorvetes quebrou.

Eu revirei meus olhos.

– O tio Chester não pode concertar isso? – Tio Chester pode arrumar tudo que

estiver quebrado. Eletrodomésticos, espelhos, porcelana, ossos.

– Ele tentou. Agora parte do instrumento está colada ao quadril da tia Minna. –

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Houve um suspiro curto e exasperado.

– Ele está bêbado, – Rowena adiciona desnecessariamente.

– Já?

– Só feche mais cedo e pegue o sorvete, pode ser?

– Talvez eu tenha clientes, – eu disse orgulhosamente. Eu faço um movimento

com meus braços em direção à loja vazia.

– Você não tem clientes. – Mesmo talentosa como ela é, minha irmã pode ver

apenas o que está na frente dela, então eu posso mentir facilmente.

– Na verdade, eu tenho.

– Quem? – ela pergunta.

– Além do que, não pode ser ninguém importante. Pelo menos ninguém que você

possa ajudar, – ela adiciona.

Eu fico em silêncio. Eu toco a extremidade do meu dedo no nariz do Hector. Ele

abre seus olhos e nós olhamos um para o outro.

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– Eu vou levar o sorvete, – eu digo grosseiramente. Assim que eu fechar aqui.

– Sim, claro Tam, – minha irmã diz, e como se fosse possível ela soar ainda mais

aborrecida do que antes. – Eu não quis dizer...

– Você disse, – eu digo, minha voz alegre novamente. – Algo mais?

– Lembre-se de que tia Lydia e Gabriel vão estar aqui hoje a noite.

Eu fiz um movimento circular com um dedo no ar.

– Ótimo. – Mas interiormente eu sufoco uma pontada. Gabriel.

– Você não está empolgada? – Ela pergunta.

– Eu quero dizer, nós não os vemos há anos.

Tia Lydia não é nem mesmo nossa tia, mas ela é parte da rede perdida que se

formou ao redor da minha família ao longo dos anos, e desde que nós chamamos uma

mulher mais velha de ‘tia’, e um homem mais velho de ‘tio’, eles acabam por fazer parte

da grande família feliz. Ou algo assim. Gabriel é o filho dela. E também costumava ser

meu melhor amigo quando éramos crianças.

Então ele desenvolveu seu talento de poder localizar qualquer coisa: chaves,

carteiras, livros, jóias, qualquer coisa que seja colocada num lugar e acabe perdida quase

instantaneamente. Pessoas também. Nesse ponto, Rowena e nossa prima Gwyneth

decretaram que ele não poderia mais brincar de pique-esconde conosco. Em protestei, eu

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parei de brincar também.

Eles se mudaram quando ele tinha dez anos e eu estava para fazer oito. Tia Lydia

tinha concordado em se mudar para o outro lado do país para a Califórnia, provavelmente

para salvar seu casamento com aquele cara sem talento, Tio Phil. Isso causou alguns

sérios problemas com minha mãe e minha avó porque elas queriam que todos na nossa

família, até nossa ‘família estendida’, ficasse em um só lugar. Aparentemente, a mudança

não funcionou. E hoje à noite tia Lydia e Gabriel deverão aparecer, aonde eles vão

presumivelmente ser bem-vindos de volta na ‘dobra proverbial’.

– Ótimo. – Eu repeti.

Eu massageei a cabeça de Hector e ele fechou os olhos, arqueando-se um pouco

em minha mão aberta. Do outro lado da linha eu escutei alguém começar a cantar. Soava

como tio Chester, sua voz de barítono6 se quebrando e oscilando em alguns lugares.

– Eu tenho que ir, – Rowena disse firmemente como se eu estivesse falando sem

parar. Não se esqueça do sorvete.

– O que? – Eu disse, mas ela já tinha desligado o telefone, e por isso minha

última frase foi desperdiçada com ela.

6 Barítono, voz masculina que se encontra entre as extensões vocais de um baixo e um tenor. Trata-se de uma voz

mais grave e aveludada que a dos tenores.

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Dois

Grandes pingos de chuva caíram em meus braços e pernas durante todo o

caminho através da cidade, de bicicleta até em casa. Meus pés giraram os pedais,

capturando a luz da rua e saltando fora dos seus refletores.

Uma ou duas vezes um carro passou por mim, com barulho de vozes das músicas.

– Circo de Horrores, – alguém grita de uma janela, golpeando a palavra na minha

cara. Eu engoli, pedalei mais rápido, até chegar ao último trecho de estrada de terra que

leva a casa.

Então, de repente a cortina de chuva é levada para longe e trás o zumbido das

cigarras para a vida. Reviro os olhos. Rowena não poderia ter um pouco de chuva para

estragar sua festa de noivado.

Meu pai teria dado a ela uma doce expressão formulando em três segundos

exatamente e chamaria um céu limpo e perfumado as brisas que sussurram às margens de

nossa propriedade. Eu bati e me sacudi sobre a calçada, fazendo o meu melhor para evitar

os buracos numerosos que parecem se multiplicar cada vez que eu vou para casa. Luzes

brilham de todas as janelas da casa, pontos luminosos estreitos contra a escuridão

cobrindo o gramado. O tormento doce e forte de fumaça da fogueira flutua através do ar.

Parece que a festa já começou.

Eu imagino a minha avó sentada na cadeira grande, uma rainha em seu trono.

Diga a ela, não diga a ela, diga a ela, não diga a ela. Diga a ela que você mentiu. Ainda

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que Alistair Callum alguma vez volte à loja, eu poderia sempre dizer a minha família que

eu esqueci o seu pedido. Porque isso seria muito verdadeiro.

A roda da frente da minha bicicleta mergulha em um buraco grande que eu juro

que não estava lá esta manhã e meus dentes batem juntos. Eu desvio descontroladamente,

tentei frear, e então – Smash! Eu colidi com algo muito sólido. Um humano. No minuto

seguinte eu estou caindo e então nós dois estamos esparramado no chão, apenas a tempo

de quem quer que seja, jogue um braço e impede que a bicicleta caísse em cima de nós.

– Oh! – Eu começo, apenas para uma voz masculina interromper seriamente

aborrecida comigo.

– Talvez você possa ver onde você está indo?

Palavras injustas, e antes que eu possa me parar eu digo.

– Talvez você pudesse ver, onde você está?

Tardiamente, tomo consciência que eu ainda estou deitada em cima dessa pessoa

e me levanto rápido ficando de pé. Está tão escuro que não posso ver o dano total, mas eu

posso sentir o revestimento de lama no meu braço direito e há um formigamento doloroso

no meu joelho esquerdo. Eu tiro fora um pedaço de cascalho que entrou em minha pele.

Ótimo. Eu posso só imaginar o aspecto que eu vou aparecer na festa de Rowena. Minha

roda dianteira ainda está girando e eu procuro a minha bicicleta.

– Aqui, o cara diz.

– Me deixe...

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– Não, eu faço isso...

Nossos ombros se colidem enquanto empurramos um ao outro para pegar a

bicicleta, e eu bato com o guidão no seu quadril. Ao meu lado, ele solta uma expiração e

uma súbita da respiração. Pelo menos espero que tenha sido seu quadril.

– Então, – ele diz brilhantemente, em uma espécie de voz com dentes cerrados, e

eu estou de repente feliz com a escuridão que está escondendo o meu rosto.

– Eu estou mantendo poucos metros entre nós. Talvez cerca de seis.

– Desculpa, – eu sussurro, enquanto caminhamos em direção a casa. Minha

bicicleta está fazendo pequenos ruídos que não podem ser saudáveis. E só então me

ocorre que me esqueci de pegar o sorvete. Eu tento não suspirar muito alto. Meu único

consolo é que Rowena tenha esquecido. O que seria muita sorte minha.

Quando chegamos à varanda, eu inclino a minha bicicleta contra a grade, me

volto para ele, e abri a boca para dizer algo como: desculpe-me novamente, mas as

palavras evaporaram da minha garganta. O cara de pé ao meu lado é inegavelmente

bonito. Ele tem o cabelo escuro, na altura dos ombros, olhos escuros e um rosto magro.

Sua longa e suave boca abriu em um sorriso, e ele diz.

– Quem diria que você ia ser tão grosseira, Tamsin?

Eu passo as mãos, inutilmente nas crostas de lama ao longo do meu antebraço,

enquanto olho para a lua azul tatuada no lado direito do seu pescoço.

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Quem diria que você fosse ficar tão gato? Eu engulo e apenas digo. – Oi, Gabriel.

Assim que entramos na casa, a tia Beatrice desce sobre nós. – Eu perdi, ela geme

e agarra o punho de Gabriel. Ela examina suas mãos por um momento e, em seguida,

olha para ele.

– Eu conheço você, ela sussurra.

– Este é Gabriel, tia Beatrice – digo em voz alta. Além de sua memória, que tem

sido imprevisível à cerca de dez anos agora, tia Beatrice também parece estar perdendo

sua audição. Por outro lado, ela tem 101, e é o membro mais velho da família. E ela

realmente é a família, ela é a irmã da minha avó. Eu nunca soube sobre o seu marido, Tio

Roberto. Ele morreu pouco antes de eu nascer, e de acordo com minha mãe foi quando a

tia Beatrice realmente perdeu sua estabilidade.

– Eu sei quem ele é, – ela responde, tremendo o nariz comprido, como se

realmente torcesse o nariz para mim antes dela acrescentar:

– E eu sei quem é você. Eu aceno.

– Sabe. Para mim passou três anos. – Não importa que eu tenha visto ela cada dia

da minha vida, com exceção do ano passado, quando eu estive ausente na escola.

– Oh, ela choraminga e libera a mão de Gabriel.

– Eu realmente perdi.

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– Perdeu o quê? Gabriel pergunta com paciência.

– Não está em seu pulso, tia Beatrice? – Eu sugeri, e quando ela me dá um olhar

distraído, eu movimento o seu pulso e a pulseira de diamantes pendurada nele. Às vezes

ela se engana pensando que encontrou o que ela acha que está perdido. Então fica feliz

por um momento, antes de seu rosto voltar e ela começar a torcer suas mãos. Ela examina

a pulseira com olhos brilhantes por um momento, então sacode a cabeça tristemente.

– Não, querida, – ela estremece.

– Eu perdi. – Ela sorri para mim, um sorriso doce, que puxa os milhões de rugas

em seu rosto. Então, ela dá um beijo distraído cheirando a talco e xerez7 na minha

bochecha, e eu a abraço com muito carinho.

Eu sinto alguma simpatia pela tia Beatrice. Aparentemente, ela costumava ser

uma bruxa poderosa que poderia parar pessoas se movimentando com apenas o toque de

seu dedo. Algo aconteceu, no entanto, muito antes de eu nascer, antes mesmo de minha

mãe nascer, mas ninguém fala sobre isso. Agora ela passa a maior parte de seu tempo

vagando por seu próprio mundo privado buscando o que ela perdeu.

– Aí está, – diz Silda, minha prima, chegando e ficando próxima a nós. Ela gira

brevemente os olhos antes de dizer em voz clara.

– Olha o que eu trouxe para você, tia Beatrice. Seu doce favorito. – Na taça em

sua mão ela possuía uma pequena torta de frutas. Tia Beatriz fez um pequeno bufo de

raiva.

7 Um vinho fortificado espanhol, desde o muito seco ao doce e de âmbar a marrom

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– Eu gosto de chocolate, ela diz. – Silda pisca, fecha sua mão, e a abre

novamente para exibir um cookie grande, cheio de gotas de chocolate.

– Seu doce favorito, – diz ela novamente, com um adular leve em sua voz.

– E há mais de onde veio esse.

– Perdi... v Tia Beatrice murmura debilmente, mas permite ser levada. Eu

balanço a cabeça.

– Você não pode. – Eu começo a perguntar.

– Ela não perdeu nada que eu possa encontrar, – respondeu Gabriel, levantando os

ombros.

– Eu tentei antes. Era algo sobre um relógio de bolso. Mas quando eu encontrei

um Relógio de bolso em uma gaveta, não era o que ela queria.

Eu esfrego meu braço. Redemoinhos de flocos de lama caíram sobre o tapete

puído. Com o canto do olho, vejo a minha mãe no final da sala. Sua cabeça gira na minha

direção e de repente estou muito consciente dos buracos nos joelhos dos meus jeans

desbotados e minha pequena camiseta de pônei, meu acumulo de pontos favorito da loja

na Primavera passada.

– Eu devo ir me trocar, – eu digo. – E você deve ir se misturar. Provavelmente

não é uma boa idéia para você ficar, muito tempo conversando com o desajuste familiar,

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acrescento levemente.

Gabriel levanta as sobrancelhas para mim.

– Desajuste familiar?

Eu dou de ombros.

– Você sabe sobre isso – eu digo – porque eu tenho certeza que todos lhe

disseram até agora.

– Não. E agora você me deixou curioso. – Ele dá um passo, para mais perto de

mim. O nível de conversa na sala continua alto, mas subitamente sinto que estamos em

exibição.

– Vamos, Gabriel. Você foi para fora o que, há quarenta minutos? Você deve ter

chegado a saber sobre tudo o que aconteceu desde que você se foi.

Ele olha pensativo por um minuto e eu estou esperando ele dizer alguma coisa de

pseudo - consolo. Mas ao invés disso, ele diz:

– Talvez eu soubesse se você me contasse ao longo dos anos.

– O quê? V Eu digo, meu rosto amassando em linhas confusas. Mas eu sei que

ele entende.

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Aparentemente, Gabriel acha que eu também, porque ele ecoa.

– Você sabe o que eu quero dizer. Porque nunca me escreveu de volta? O que

aconteceu com o silêncio de rádio de vocês8?

Seus olhos estreitam nos meus como se eu ousasse desviar o olhar. E eu desvio.

Quando a tia Lídia anunciou que estava indo para Califórnia, Gabriel e eu tentamos tudo

o que podíamos para convencê-la a deixá-lo para trás. Argumentos racionais, ataque de

gritos, greves de fome (O meu durou todas às cinco horas antes de eu desabar), e

tratamentos de silêncio. Nada funcionou.

No dia em que ele nos deixou, eu extraí a promessa silenciosa, Gabriel e eu com a

cara pálida dissemos que iríamos escrever um para o outro a cada semana. Em seguida,

eles foram embora, o rosto de Gabriel se desviou da casa, e todos nós reunidos no

gramado. Em vez disso, ele olhava fixamente parte de trás da cabeça de sua mãe no

banco do passageiro, como se esperasse perfurar um buraco através de seu crânio. Que

bom para ela que esse não era o seu talento.

Dois meses depois, ele me enviou um mapa desenhado à mão da sua nova cidade,

cheia de caveiras e ossos cruzados em todos os lugares onde ele jurou que havia um

tesouro enterrado, éramos loucos por histórias de tesouros enterrados. Mas então chegou

e se foi meu vergonhoso aniversário de oito anos e eu fiquei em estado de choque

prolongado. Poucas semanas depois do mapa, ele me enviou uma longa carta sobre tudo

na sua nova escola e como não era nada parecida com a nossa antiga escola. Então ele me

enviou uma nota perguntando apenas: Por que você não escreveu de volta??? Com as

marcas de três pontos de interrogação todas em vermelho. Em seguida nada.

8 estado em que ninguém manda noticias

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Eu ainda tinha todas as cartas. Mas agora eu dou os ombros9.

– Olha, Gabriel, nós éramos apenas crianças. Vai. Se misture.

Eu dou um passo para trás, tentando ignorar o olhar que ele está me dando, o

velho e conhecido o que você está olhando, que parece não ter mudado nada. Eu derreto

na multidão.

– Tamsin, – minha mãe diz, se materializando na minha frente.

– Você já felicitou a sua irmã e James?

– Eu acabei de chegar, – eu a lembrei, embora saiba que ela sabe disso

perfeitamente.

– Como foi na loja? Ocupada?

De repente, o rosto sério de Alistair vem flutuando de volta para mim. Eu tinha

esquecido tudo sobre ele, que com a corrida, Gabriel acabou com minha bicicleta. Eu

balanço a cabeça um pouco para me livrar da imagem. Ele vai superar isso depois de

algumas semanas, eu lembro a mim mesma.

– Não em verdade.

9 quando uma pessoa não liga pra um determinado assunto, não ta nem ai

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Ela respira, e põe a mão no meu braço.

– Será que você pode tentar ser gentil com sua irmã hoje à noite?

– Eu sempre tento ser legal com ela. – Minha mãe sacode a cabeça. Um cacho

prateado cai livre do penteado que ela impôs no seu cabelo normalmente selvagem.

– Tente mais, – ela diz, com as suas sobrancelhas se aprofundando.

– Sim, mamãe, – eu suspiro, sabendo que soa como um caso clássico de angustia

adolescente. Se ao menos...

– Mais alguma coisa? – Eu estava prestes a ir me trocar, acrescento. Minha mãe

parece aliviada.

– Ah, bom, – diz ela esperançosa, e eu resisti à vontade de rir.

Ela sorri enquanto me afasto, mas posso sentir o seu olhar em mim. A poucos

metros de distância, o tio Morris aparece e desaparece piscando os olhos para a diversão

de um bebê, que grita e ri nos braços da mãe. Ela continua puxando, um pouco do tufo de

um cavanhaque cinza do Tio Morris, e ele a deixa ficar tão perto antes de desaparecer

outra vez. Eu não posso deixar de sorrir. Eu me lembro dele jogando o mesmo jogo com

Rowena e eu quando éramos pequenas.

Eu ando com dificuldade passando por pilhas de outras tias, tios, primos e amigos

da família. Todo mundo sorri ou acena, e eu sorrio ou aceno de volta, mas não paro. Eu

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sei dos olhares que devem estar ficando nas minhas costas, levantando as sobrancelhas,

com o excedente e expressivo gesto de encolher os ombros, os sussurros de simpatia.

Pobre Camilla – sua filha, um desperdício, tão inacreditável. Não aconteceu na família

desde quem pode lembrar. E ela deveria ser, supostamente, deveria ser. . .

– Mexa-se, – digo, indicando um menino para da escada, quando eu começo a

subir a maciça escada de carvalho. Ele vai para perto da parede e me olha furioso com

estreitos olhos avelã. Eu não consigo lembrar o nome dele, mas me lembro que ele é o

filho de uma das minhas primas, particularmente irritante de segundo ou terceiro grau,

Gwyneth, que pode fazer crescer uma geada de gelo em qualquer coisa com um estalar de

dedo.

Um urso de pelúcia está flutuando perto do meu quadril, seus olhos vidrados o

movimenta rapidamente em volta da cabeça de uma criança pequena, desesperada para

consegui-lo. Seus dedos apenas tocam de leve a pata do urso preguiçoso antes de ficar

fora do alcance. Eu olho o menino novamente com ódio.

– Assim como sua mãe, seu moleque. – Eu rosno, jogando o animal para fora do

ar e batendo sobre a cabeça do menino.

– Ai, – ele lamenta-se, chegando a esfregar a testa.

– Isso não doeu, – eu respondo seca.

– Nós estávamos jogando um jogo, resmunga. Isto costumava ser uma das linhas

de defesa favoritas de Gwyneth sempre que os adultos encontravam qualquer uma de nós

coberta de gelo, ou com nossos lábios azuis da geada.

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– Você estava jogando, – eu pisquei os olhos.

– Ela não estava, – eu mostro o urso para a criança coberta de lágrimas, que me

olha duvidosa com grandes olhos castanhos.

– Você está com inveja, – resmunga. – Porque você não pode fazer nada.

Antes que eu possa me parar, eu chicoteio o brinquedo de volta dos dedos

hesitantes da criança e amasso sobre a cabeça do menino mais um pouco.

– Ow! – Ele grita novamente.

– Eu estava apenas brincando, – eu digo claramente antes de devolver o urso para

a menina novamente. Desta vez, ela o agarra e corre para longe de mim.

– De nada, eu digo e volto para o resto da escada. A visão da cidade de Nova

York no verão, sacos de lixo empilhado nas calçadas rachadas, resplandecendo córregos

de tráfego, e hordas de pessoas juntamente com sacolas do shopping Century 21 - desliza

pela minha cabeça. Um breve, oásis encantador. Eu tenho que voltar para a escola.

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Três

No santuário provisório do meu quarto, eu parei um minuto em frente do pequeno

espelho com a borda dourada em cima da minha cômoda, dei um sorriso instantâneo ao

ver Agatha em uma blusa rosa com babados. As palavras – EU SINTO SUA

FALTA. CHICAGO SUCKS! – escritas em Sharpie10 preta na parte inferior da foto.

Corro minhas mãos através do meu cabelo escuro enrolado, faço uma breve

procura pela minha escova, desisto, em seu lugar coloco um par de presilhas

brilhantes. Eu passo o dedo na bainha da minha camiseta do My Little Pony, faço uma

careta, e procuro o meu pacote de emergência de cigarros que eu coloquei na

abertura entre a minha mesa de cabeceira e a parede. Puxando para cima a vidraça da

janela, eu sopro anéis de fumaça através dos furos da tela esfarrapada.

– Ah, que estúpida Tam, – a voz legal da minha irmã vem atrás de mim. Meu

último anel de fumaça sai torto, rasgando-se em tufos irregulares antes de eu virar.

– Você não sabe que é prejudicial a sua saúde?

Eu abro meus olhos.

– Sério? Gostaria que imprimissem avisos ou qualquer coisa no pacote. Que

irresponsabilidade a deles.

10 Sharpie – uma caneta com tinta indelével que irá escrever sobre qualquer superfície um

instrumento de escrita com um ponto a partir do qual a tinta flui marca registrada

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Minha irmã balança a cabeça, de alguma forma ela consegue manter cada único

fio de seu brilhante cabelo loiro ancorado no seu coque elegante. Ela está vestindo um

vestido preto ate os joelhos, sem mangas, saltos pretos, uma seqüência de pérolas, e

nenhuma maquiagem além de um brilhante gloss rosa nos lábios. Espanta-me, como

Rowena, entre todos os restos de pratos lascados, azulejos rachados, o descascamento do

papel de parede, e tábuas irregulares, consegue um olhar tão revigorante todos os

dias. Ela tem todas as superfícies polidas e tremeluzentes reflexões, alguém que não

precisa de maquiagem e provavelmente nunca precisará. Além de todos os seus talentos

extraordinários, ela também é bonita de parar o coração. Eu me sinto suja apenas olhando

para ela.

Agora, seus grandes olhos verdes, cheios de cílios grossos apenas uma sombra

mais escura que o cabelo dela, se estreitam para mim.

– É isso o que você vai vestir?

Eu olho para baixo, encolhendo os ombros.

– Sim, eu mudei. Gostou? Eu inspirei e soltei, ignorando quando minha irmã

apontou a pequena tosse.

– Você não deveria estar lá embaixo recebendo parabéns e tudo mais?

– Eu vim até aqui para ver se você estava voltando para baixo. Era apenas o mais

fraco levantar de sua voz, e quase não pego. Mas aprendi a seguir cada entonação da voz

da minha irmã. Rowena é extremamente talentosa na arte do discurso. Sua voz é como

mel puro misturado com canela e vinho. Ela pode hipnotizar quando fala, sua voz dá

volta e torce a cabeça das pessoas até que andem direto para os penhascos no mar, se ela

pedir. Como se isso não bastasse, também pode dar o poder da fala a objetos

inanimados. Quando éramos mais jovens, ela usava para me alegrar durante horas,

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fazendo as estátuas no jardim falarem, suas vozes cheias de pedra e poeira. Então,

quando fiz oito e tudo não aconteceu do jeito que era suposto acontecer, nós crescemos, e

a usual fenda entre irmãs cresceu para um abismo do tamanho do Canyon. Depois disso,

todo tempo ela tentava usar seu poder comigo, ela mesma me dava aquele olhar

penetrante que eu mal podia suportar isso acelerou a distância.

– O que você achou do Gabriel. – Ela perguntou. Eu sabia que se eu hesitasse,

passasse blush ou fizesse qualquer outra coisa além de responder imediatamente, Rowena

iria se trancar por dentro, então eu digo o mais normalmente possível.

– Ele está bem, eu acho. Parece o velho Gabriel.

– Sério? – Rowena me olha como se eu fosse algum tipo de inseto estranho que

ela nunca viu antes.

– Acho que ele está totalmente mudado. Tão bonito agora. Eu quero dizer. – Ela

acena uma mão através do ar. Se você gosta desse estilo. Eu não posso te ajudar.

– Que estilo? – Eu sorrio.

– Você sabe. O estilo músico desalinhado.

– Ele é um músico?

– Você não sabia? Ele vai para Juilliard11 este semestre. Então agora você vai ter

11 A Juilliard School (popularmente identificada como Juilliard) é uma escola de música e artes cênicas localizada

em Nova Iorque, nos Estados Unidos, reconhecida por seus alunos graduados em música. Atualmente sediada no

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companhia na cidade. Ela ajusta seu colar, os dedos deslizando sobre as pérolas polidas.

– Você sabia, – ela diz pensativa. Tio Chester e Tia Rennie vão para longe depois

do outono. Você poderia viver na casa deles em vez do dormitório.

O jeito que ela diz dormitório faz soar mais como colônia de leprosos.

– Eu tenho que viver nos dormitórios. É uma regra. – O momento mais feliz da

minha vida foi quando eu recebi a carta de aceitação de New Hyde Prep12. O segundo

momento mais feliz foi quando eu li, através de um dos vários lisos e brilhantes panfletos

da escola que todos os alunos têm de viver nos dormitórios.

– E eu gosto dos dormitórios. – Um arrepio atravessa o delicado rosto da minha

irmã.

– Por quê? – Diz ela, com desprezo. – Por que você iria querer morar lá entre...

– Entre o quê? Entre quem? – Pergunto com calma. O cigarro queima meus

dedos, e eu o deixo cair em um copo de água na minha mesa de cabeceira, fico vendo ele

se apagar instantaneamente.

Lincoln Center, a Juilliard gradua alunos nas áreas de dança, música e dramaturgia. A instituição é considerada

um dos principais conservatórios e escolas de dramaturgia do mundo.

12 A Escola Hyde tem uma abordagem baseada em caracteres, a educação universitária de preparação tem sido

desenvolvido desde 1966 no campus de embarque Hyde em Bath, Maine, e Woodstock, Connecticut, e através de

iniciativas da escola pública em New Haven, Connecticut, Washington, DC, e Bronx, em Nova York. A

organização, sediada em Bath, inclui oficinas de parentalidade e experiências nacionais desertos.

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– Entre as pessoas que não sabem o que somos. – Minha irmã escolhe suas

palavras com cuidado, as soltando como pedras entre nós. Eu fico encarando ela.

– Rowena. Na escola, eu não sou uma aberração. Eu me misturo. Você não

pode imaginar como é maravilhoso se misturar.

– Eu não ia querer, – minha irmã diz secamente, se endireitando. Eu olho para o

cigarro boiando no copo de água.

– Claro que não. Você não precisa, – eu digo baixinho.

Uma das condições de me deixarem ir para a escola em New York City era que

eu iria viver com o tio Chester e tia Rennie na casa centenária em Washington

Square Park. Mas quando eu informei minha mãe que não poderia viver lá por causa

da regra da escola, detonou a pior discussão que já tivemos. Ok, a segunda pior

discussão. A pior foi a que tivemos sobre a minha ida para a escola em primeiro lugar.

Nós duas gritamos até que o céu virou uma cor de ameixa podre, e uma estranha

combinação de chuva e granizo começou a cair no solo. Poucos minutos depois, um

vento forte se levantou e sacudiu as vidraças e portas, como se determinado a encontrar

um caminho para dentro finalmente, meu pai entrou na cozinha e explicou com uma voz

serena, que o tempo continuaria a piorar, até que parássemos de discutir. Ainda assim,

minha mãe parecia disposta a continuar, até que a minha avó entrou na cozinha e

simplesmente disse: Basta! Deixe-a ir.

Eu me lembro de me sentir ao mesmo tempo agradecida e triste. Grata que minha

mãe agora teria que me deixar ir, e triste que a minha avó obviamente não parecia se

importar muito com tudo o que sempre fui. De novo, tudo em torno de mim

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provavelmente lembrando constantemente que ela tinha errado uma vez.

– Só porque você não tem nenhum talento não significa que você é um deles –

minha irmã diz, e de repente estou exausta.