Orações para antes da excomunhão por Ricardo Manuel Ferreira de Almeida - Versão HTML

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Orações para antes

da excomunhão

Ricardo Ferreira de Almeida

1 | P á g i n a

2 | P á g i n a

Nunc et semper

3 | P á g i n a

4 | P á g i n a

PORTUGAL

Portugal, se tu não fosses apenas aquela mulher que nos trai para se esconder na soleira do vício, eu poderia amar-te como quem ama os cães dos vizinhos.

Tu preenches-me a vida com o faro andrajoso que desce os bosques despidos de mágoas, mas revoltas-me com o pretensioso aspecto de rei, submisso à vontade das décadas.

Quem dera tivesses sido o perfume ausente, o sono festivo roçando a ânsia com doçura, o laço dos abraços retalhando o novo tecido de pele, o único manto em que aquecesse a alma errante, mas enclausuraste-te no soluço comiserado e colocaste de parte os gritos ao mundo que julgas amarelecido. Quem dera tivesses sido a matriz perfeita da conta, a crónica de Pigafeta tornada nossa, para que pudéssemos dizer que demos primeiro a volta ao mundo e regressamos cheios de vento.

Portugal, se tu não fosses aquilo que és, um jovem cheio de brancas de sorriso fácil e guitarra nas unhas para aclamar as festas com canções, eu não gostaria de ti, mas de um outro mundo possível onde nos derramaríamos como esperma quente e grossa nos lábios triunfantes da cultura. Está na hora de olhares para as horas e ver que te resta pouco tempo para te afirmares Portugal.

5 | P á g i n a

RESPIRAR, TRANSPIRAR

E se por acaso eu me soltar no teu ventre e o que rebentar no teu corpo for um mar de pulmões aterrados de veias e duras têmporas de giz, eu juro que te guardo nua num frasco de vida preenchido de madrugadas com o hálito humilde das folhas de Outono.

Um ás de ouros, uma dama de espadas, um valete, um terno, jogam a dura ameaça das horas, queimam nos lábios, os seios brandos como saliva de caracol no lupanar fresco dos caminhos de terra.

Se eu me solto no teu ventre, com a docilidade surpreendida das cerejas, eu juro que te largo uma semente de arroz para com ela fazermos o nosso bolo de carne que ilustra a vida e apanha o tempo numa explicação ponderada da razão.

6 | P á g i n a

EL-UMINADO

Despi-me e despedi-me. Arredei um semáforo, passei os pés pela cola da lesma, percebi o brilho incandescente daquela baba, soube lambe-la no teu grelo.

Masquei-te a língua, cuspi-te nas maçãs do rosto que trinquei obscenamente, revi o que fizeste na fruteira do tempo. Agora, ouço o vento uivar como um cão que rasga as esquinas com aquele grito ocular e cândido, polposo como a marmelada das mães, e sinto a enormidade da solidão neste Inverno sem retorno.

7 | P á g i n a

CÁ EM BAIXO

Cá em baixo ainda não se acenderam as luzes nem mesmo quando caímos à procura de uma escuridão macia se apega à alma à chuva. Cá em baixo ainda despertamos para a colectiva raiva, nomeadamente raiva, honra que se faz ao gástrico paladar das injustiças, quando picados pela filha da mãe da vida lhe despejamos o vómito no colo das ruas, essas veias assassinas e cheias de vison rapado. Cá em baixo, senhores do panteão que se honra mas não nos honram com a vossa humilde presença, continuamos a labuta de ser homem, de decifrar a última palavra da primeira tertúlia, a primeira tertúlia da última palavra, a última tertúlia da primeira palavra.

8 | P á g i n a

ÍNTIMO

Meu Deus, deixai que eu me delicie com o tacto onírico das palavras e nesse ambiente orgânico possa bendizer-te como a flor orgásmica que nos desce até à ponta dos dedos dos pés. Eu antes de conhecer a sensação de ser homem era apenas um volúvel organismo que palpava a realidade numa cópia insana do tempo. Hoje, sabedor da textura dos seios do meu amor, prefiro-os à dourada grelhada na brasa e aos ponteiros que avisam a labuta.

Meu Deus, em vossa misericordiosa bondade dai-me a luz, plantai-a na minha vida, para que germine com a força bruta das monções e das trovoadas, ribombando com a pele retesada das cabras a balir melopeias canibais e nossas.

9 | P á g i n a

SE ME TOCAS NAS PÁLPEBRAS

Troco a insondável armadilha pelo armistício cruel e troco também a inviável pulsação de um músculo cardíaco que se derrama no liquefeito sorriso dos pássaros pelos teus intensos dedos, aprendizes da luz da nossa Lisboa.

Se me tocas nas pálpebras, me fechas os olhos antes do fim da tarde e corres as cortinas para que possamos dormir antes do jantar, apinhados de nós próprios nessas camas que fazemos entre as árvores, eu prometo adormecer contigo até que as multidões acordem chamando-me para a vida.

10 | P á g i n a

ONTEM

Ontem quando ia rua abaixo, baixei-me para apanhar os latidos libertos pelos cães carregadores de línguas fumegantes. Ó que bom ser ferrado por aquelas taramelas, que vocabulário acetinado e carnal, que justaposta realidade nada mercantil! Que bom é também rastejar e dar à cauda, perseguir gatos e escavar os quintais para esconder os ossos que nos hão-de matar a fome no futuro. Que bom é ser cão, meu amor, que bom é lamber-te essas mãos como se fossem ossos rosados e quase anciãos, fotografados pela burguesia que nos oferece o peixe e o sal para o salgar.

Ontem, quando ia rua abaixo, reparei em ti e no teu decote. Baixaste-te para me fazer uma festa no focinho mas eu, carregado de álcool e jornais, deixei que Lisboa me escapasse entre as patas nesse teu gesto pacificador, e esqueci que foste mordida por mim debaixo da chuva, que misturamos as lágrimas amargas da dor com as folhas dos ciprestes do Castelo de São Jorge. E hoje a minha vida é ganida, roendo a corrente atlântica e os volumes encadernados duma história que devia ser outra.

11 | P á g i n a

ENGRAVIDA-ME

Com as tuas mãos de pelúcia, com as tuas tetas monstruosamente sedutoras e rubescentes, com os sorrisos depositados no alfabeto carnificado, engravida-me. Deita-me o estio aos ombros, faz com que o pó do meu sexo assente no teu coração e se ausente na depressão oleada que afeiçoas entre as pernas, para que eu possa saber-me teu na tua língua que me sabe a ti.

Prende-me licoroso nas tuas axilas, nas tuas virilhas, deixa que me escorra nessa junção jactante das palavras. Quero saber-te minha, benigna e casta, capaz de lidar com os indomáveis cães da vida na varanda fulva da tua vulva.

Quero tomar-te limpa, para te sujar com lençóis e com o sangue fértil das crianças quando nascem. Engravidas-me?

12 | P á g i n a

NADA?

Organizem-se senhores, vejam o que têm a ganhar com este motivo pastoral que vos oferece mais que chá, mais que massa atómica, mais que uma promessa de galáxias. É o Verão que chega senhores, é o Verão!

Não vos dói a nuca, como a mim? Não há nada que vos faça percorrer as ruas como um tolo, feliz por herdar apenas um casaco do pai que faleceu entre a turba da numismática global?

Organizem-se, tragam um astrolábio para que possamos descobrir os segredos da lua, navegando pelas vagas amarelas da cerveja.

Tragam toda a física, toda a pedagogia humanizante, apetece-me duvidar de mim e da minha gente que parou no tempo e apenas se ilude ao contemplar o vazio ignorante do verbo. Nada? Dizem-me que não é nada? Que dois mais dois é uma conta de somar e não um projecto com potência carnal?

13 | P á g i n a

GENTE

Bem antes de me crescer a barba e de sentir com a planta do pé os lençóis frescos de uma cama aberta quando se chega de um banho nocturno, eu já te trazia no braço direito.

Trazia-te como uma trapezista, que esgota edições de senhas para consumo e bilhetes para a sessão nocturna do grande circo dos sonhos, lânguida e serena, a verter-me línguas sensuais pela pele até ao cotovelo, prestes a armar uma escandalosa gargalhada.

Mas eu era ainda uma jovem criança, e o que fui quando senti o teu ósculo penetrante entrando-me pela boca dentro, foi apenas o surpreso menino que nunca tinha sentido outra saliva senão a própria. E a trapezista tatuou-se na minha carne, no topo do meu braço direito, no centro do meu coração, olhando-me com a capilar certeza das amestradas colmeias, fazendo-me crer na topografia do seu corpo.

Agora, deitado na minha cama, revejo a literatura e concluo que as teorias literárias não explicam a analítica versão das horas, não me apoquentam mais nem se resumem no intacto organismo das flores, a obscenidade maior das palavras.

E se a degradação significar morrer a olhar para os teus olhos, escolho a pena mais pesada para que possa sentir as tuas lágrimas na minha cara.

14 | P á g i n a

RESISTÊNCIA

Eu não resisto ao teu riso

ao teu resiliente sentido ao teu ambiente, ao estandarte que empunhas nos dedos para me acordares dos vagos sonhos que vagueiam nas inesperadas planícies, à forma concreta como te tornas uma abstracção alegórica do sentido que o mundo tem. Não resisto ao ver-te nua e tenebrosa como um exército feroz, com tanta carne e tanta pele agasalhada para os meus bramidos ensandecidos pelos teus.

E olho-te com os olhos de milhafre queimado pelas inspirações sazonais e dispo-me para que me afagues as penas e torço as mãos para que as cures e enterro o meu pénis bem no centro de ti e apenas me desprendo quando insistes que estamos à porta da ópera.

15 | P á g i n a

ABRIL, MANHÃ DE ABRIL

Nutria um especial fascínio pelas flores, pela raiva que os cães soltam quando despedaçam as gotas oscilantes de orvalho nas folhas, pelas jarras presas a mesas em desabrida tentação vegetal.

Nutria também um apreço pela saliva colada a uma pele que desenhava apenas com os olhos, sempre que me abrias o teu coração para a longarina inquietante das cores.

E devo dizer que aquilo que escrevia resolvia-me todos os problemas, evitava que me perdesse por entre os olmos que rebuscavam as estradas, cutículas bordejadas de luz a pedirem amparo mais fiel.

E agora, nesta luminosa manhã de Abril, após ter saciado os dilectos mamíferos com a água branda de um áspero regador, eu sinto que me encontrei depois de trinta anos de desvario.

Tenho-te presa a mim, coroando-me as noites de orgânicos sentidos.

16 | P á g i n a

VÁ-SE FODER

Vã locução, o “vá-se foder!”.

Já concordei, num afoito linguajar transmontano que nos requebra todos os ensinamentos ante o lúbrico emparcelamento da carne, que esta expressão evocativa é também e nomeadamente uma afronta demasiado doce para quem tem areia entre os dedos, a coça para o chão e para o interior das meias. Pois é.

Eu ia a pé ter contigo, caminhando sobre as vagas transformadas em cinzentas pedras que me chocavam nos dentes, mas mesmo assim ia ter contigo, e tu dizias-me com toda a elevação metafórica de uma mulher equipada com um casaco de peles, “vai-te foder” . A minha cabeça cheia de cerveja apenas compreendia o verbo, e eu ia. Mas não fodia, ficava fodido e ia para casa, depois de passar por mais uma cervejaria.

E a partir daí, transformei a minha vida numa inscrição caridosa brilhando nas tardes de Primavera, e retrocedi duas voltas nela, circunscrevendo as pequenas aldeias, as pequenas ilhas, os pequenos rios, as pequenas casas que avistava quando acordava dos sonhos rente ao chão, de borco. E alguém me dizia “vá-se foder! ” e eu dizia, bem fodia mas era se fosse a tua tia.

17 | P á g i n a

ISTMO

Falta um pouco mais para que o meu exército te submeta. Basta atravessar o istmo e tomar-te, minha. Encontro-me preparado, aturdido pela forma como os teus seios descaem para os lados, os teus mamilos se tornam tão vermelhos e húmidos quando os chupo como um favo de mel, e como a pele que te cobre o coração permite que te veja assim tão deliciosamente assassina da minha calma. Reúno todas as forças, trouxe literatura para recebermos no peito, queijo e marmelada, o pão que a tua mãe me enviou num saco de pano branco, figos secos e mel, sinceros algoritmos e pardais de corda, pois quero vê-los a girar na tua barriga nua. Lavei-me, sabias? Contudo, cheiro a homem, limpo de placenta e leite juvenil, limpo de dúvidas e de certezas, para que possamos hoje reiniciar os ponteiros do relógio. Serei o teu esposo, trouxe o meu exército para me ajudar a romper-te o ventre, lamber-te todo o sangue que entornares no meu pénis e rezar Padre Nossos e Avé Marias, pedindo para que o nosso filho nasça com o teu brilho nos olhos.

18 | P á g i n a

DANTES

A minha mãe trazia-me frango assado que comia às escuras, quase anulado, para que não notassem que alimentava um filho preso ao cordel irresistível da fome. Como um cão solitário que vozeado corre de orelhas murchas, eu fui o canino que se limpava às batatas fritas e ficava a olhar uma lua imaginária no tecto do quarto da pensão, enquanto na rua os homens conversavam perfumados pelo cheiro do bagaço e mais sólidos, com os pés mais quentes.

Como é difícil estar escondido, viver sozinho a solidão que nos aponta um dedo em riste

dizendo para não lamentarmos demais a existência sem consciência, nem clamar pelos direitos constitucionais naqueles artigos estimulados para não se comprimirem em resoluções canónicas.

Irrisório, aquele frango assado, comparado com isto que sinto agora, um cidadão adverso à coisa pública, ao civilizado matrimónio, ao laudativo cuidado dos filhos.

19 | P á g i n a

AVÉ MÃE DA MARIA

Se eu tivesse mais que uma lúbrica barba que me favorece a face e que dizem me torna simpático,

dava-te a cara a beijar. Mas eu resido na presbitéria modernidade e conservo incólume a ideia socializada que o casamento é indissolúvel, irresistivelmente indissolúvel. E casto. Também branco, às listas cor de vinho.

E assim, ajoelho-me aos teus pés e rezo, pedindo-te o perdão brilhante que me desce até aos ombros e me faz dançar na chuva, como se fosse um cão solto da opressiva trela que o dono nos aponta. Benzo-me, abrindo os braços como um Cristo que te deseja levar para o céu, depois de te apertar e abraçar, de ter brindado com vinho moscatel a mágica quantidade dos anos em que estivemos abraçados na silenciosa multidão composta pelos segundos e quilómetros, pelas milhas aéreas e marítimas, pelas convenções térmicas e linguísticas.

Avé Mãe da Maria, cheia de graça, quem é que esteve convosco enquanto eu me encontrava perdido e cego? Sois bendita entre as mulheres, bem vista, pois carregastes Maria dentro de vós, esse fruto pequeno que cresce todas as noites durante o meu sono, me atravessa os sonhos como um tufão domado por um pente e uma camisola rosa a dizer “smile”. Avé, Mãe da Maria, sóis cheia de graça.

20 | P á g i n a

REALMENTE

Realmente, há cada coisa. O construtor nacional Lourenço Peixe conhecido no mundo naval como Lawrence Fisher, matou uma aranha porque julgou que, com a fidúcia dos antepassados, lhe traria a pobreza.

Apertou-lhe a jugular e as patas cederam num ápice, como se a comoção etílica que adivinhava o coice cardíaco se mostrasse num esplendor ruborizado.

Sim, a morte faz corar de vergonha um cidadão da terra que constrói navios, principalmente quando mata a aranha que por ter mais patas que ele mesmo

pode sentir com maior aquiescência a terra que sujou.

Lourenço Peixe de cognome o Rei do Estibordo criou o mito que perdura há mais que muitos séculos, dizem. Vale mais andar apressado à popa que ver o capital passar à proa.

21 | P á g i n a

TREMES

Tremes quando a minha língua se junta ao teu pequeno pomo irradiante, cercando-o numa rudimentar prova de afecto castigador. Vejo nele uma janela para ti, um gosto geracional de capa e espada, um rápido acesso ao teu espaço naval, minha sereia onanista. E sabes que também me fazes tremer, me apoquentas as garras e as memórias, e por isso me castigas com as mãos sobre ele, pois gostas que tas morda, não é?

Também tremes, tombas até no meu corpo, vaginando-me ósculos no penetrante entretanto que descubro para ti.

22 | P á g i n a

ELIODORA, MEU AMOR

Vesti-me assim que te vi, entesando as cordas ocres do tempo até me parecerem duas tripas intestinais e gomadas pela jubilada monção das cinco da tarde. Eliodora, meu amor,

hedionda meretriz cobiçada nas noites ruinosas do álcool, virgem húmida fenecida e casta, monumento ao impossível que se fortalece junto às lógicas fortuitas da dança, temos tempo, Eliodora, temos tempo para nos trincarmos nos dedos?

Temos tempo para nos comermos como duas hienas que observam mutuamente a decrepitude semelhante e esquecida, o aquecido aquecimento e a água do h2o, e até mesmo, se quiseres, a química faiscante das ampulhetas?

Não tenho sinais, nem sinónimos, penso que estou a mais, que calcinei as imagens televisionadas com a lúbrica feromona dos meus testículos. Penso que esta vontade de permanecer nu, é uma oração para antes da excomunhão, Eliodora, e ínclito padeço ante as naus cabotinas de todas as mãos que me acusam de usar em demasia os verbos.

Eliodora, meu amor, doida pastagem do meu pénis, está na hora de engolires tudo e de correres a maratona, minha luminescente matrona.

23 | P á g i n a

ERGUE-TE

Ergue-te homem para transformar o mundo, está na hora de o fazeres.

Verás que o sol não é assim tão necessário quando a pastagem do estio nos leva até ao nudismo parcial,

verás que esses momentos são a glorificação do teu passado incómodo para a maioria que procura apagar a memória.

Está na hora de te soergueres entre a alvorada gutural da física, está na hora de jogares fora os jugos e restituir o fardo às avenidas que alguém construiu. Está também na hora de arcar com os arcaboiços libidinosos do trabalho, de constituir o punho, de o restituir aos pais, o vestíbulo sonhado pela complicada artéria gaseificada.

24 | P á g i n a

VAGINA

Uma vagina que cheira a alecrim, uma garrafa cordial onde me despejo lutando contra a cultural matriz da responsabilidade, cheira bem, cheira a Lisboa.

Quando entro em ti, sinto-me com a força de mil rinocerontes, suturando fundo a tua alma com saliva e sémen, com silvos e fustigantes jogos de sisuda honradez, na juvenil montaria da espécie.

A tua vagina, buraco dominante das horas, nuvem de bolinhos de arroz, polímero útil da governação das almas, destaca-se entre todas as vaginas do mundo porque é tua, cheira a ti, é enigmática e oculta, vistosa, quente, sóbria e sedentária, uma cova onde o meu arfar de lobo deposita a casa que traz agarrada aos ombros.

A tua vagina cheira bem, cheira a Lisboa.

Cheira aos recantos perdidos, à luz e às camélias de Alfama, ao vento que sopra do miradouro da Graça quando pasmados observamos a cidade, molhada pelo orvalho das noites de Santo António.

25 | P á g i n a

EU FUI

Eu fui “o homem que acredita”, o herói do romance lúbrico que fenecia entre as portas entreabertas das castigadas mansões.

Depois soube que a poesia não era um exercício intelectual e passei a olhar para a vida como um repositório de verdades que se acham debaixo do musgo, da caspa e dos espermatozóides

colados ao escroto palavroso das marcas de cera. O “homem que acredita”

agride hoje as paredes fechadas, os quadros e os missais ideológicos da estabilidade.

26 | P á g i n a

RAIOS VOS PARTAM

Raios vos partam, últimos segregados da fé.

Os gumes alienados,

a música de quem espera com a humildade das cabras prontas para o sacrifício pascal,

o cicioso ornamento cardíaco dos sedutores estivais, a ofuscante guloseima do álcool,

e depois a vertiginosa queda rumo ao chão, aguardam pela esperma.

Raios partam esta fuligem a que chamam tempo, que me embranquece o cabelo qual serpente tumefacta e adstringente, mutante de pele entre os ramos dos ulmeiros, e corre com toda a velocidade rumo ao fim sem finalidade. Está na hora, ou não está? É necessário esburacar as violas, todos os instrumentos do mundo, violar as amigas e os espelhos onde se penteiam desveladas e ímpias, como se preparassem um casamento com a igualdade de oportunidades. Raios vos partam, assassinos do tempo, eu quero que me olhem de frente para que saibam aquilo com que têm de contar. Eu não tenho medo, pois já perdi tudo. Apenas me resta sublinhar a lápis de cor as horas hormonais, as funestas harmonias, o longo júbilo das fechaduras, o manifesto cloreto de sódio que me rega as pálpebras.

27 | P á g i n a

NÃO ME LAMENTO

Não me lamento da vida e das peças breves que operei em cima dos armários, nem da forma como limpei os tornozelos com a areia da praia após acordar seco como um giz lançado ao pó das horas.

Não me lamento tão pouco de não ter oferecido duas caras para que me pudessem amar pelo aparentemente óbvio e não pela integridade esclarecida das minhas opiniões de nativo de Leão. E juro que não me lamento de ter mijado nos teus seios numa noite sem memória e que agora se desmorona como estuque rasgado pelas marés mais adversas dos trópicos. Sou um homem, essencialmente um homem, e nada me faz afastar do caminho impune da humanidade, mesmo que adverso o tempo me surja obscurecido de mil cores, óbvias e lustrosas, ensinando-me que as piores tempestades que ainda estão para vir irão fortalecer-me as raízes.

Não me lamento de ter ferido os nós dos próprios dedos, de te ter dado beijos nas palmas das mãos e secretamente te ter adorado os cabelos que ondulavam ao sabor da brisa de Lisboa. E não lamento sobretudo todas as lágrimas que chorei auto-proclamando-me o sortudo mais infeliz da Ajuda quando soube que me espetaste uma faca no peito e desde então as moedas que usava para te telefonar do posto esquecido ao fundo do “Central”

passaram a cobrar-me o desespero que engolia noite fora, lamentando as minhas mãos, o meu cabelo, a minha boca e a minha língua, o meu sorriso e o palpitar sonoro do meu coração, que lamentavelmente bateu descompassadamente por ti.

28 | P á g i n a

A MARCHA DA PAPUÁSIA, NOVA GINÁSIA

Mote: Papuásia, Nova Ginásia, país impoluto de gorduras celulíticas, cheio de micóticas mentes paralíticas, dando ao pedal lubrificadas críticas.

A obsoleta senhorinha

pedala na bicicleta, esqueleticazinha.

Estica as peles depenadas e

de duas estocadas

bafeja palavras suadas, coitadinha.

Refrão: Traga a toalha Dona Gervásia, esperam por nós na Papuásia!

A telenovélicas femimínima

move as ancas acetinadas, certinhazinha.

Motivos atraentes da subsistência,

modela-as com insistência, pataratazinha!

Refrão: Traga o sabão Dona Gervásia, esperam por nós na Papuásia!

De plástica emplástrica remove os excessos, cirurgicamente. Vaporizando o peitaço com desabafos ocos e gestos insossos, o real mente.

Refrão: Traga a escova Dona Gervásia, eis que chegamos à Papuásia!

Em jeito de fim: e enquanto sem percalços ela se torna mais gira / eu vou bater umas bolas no vaginásio da Elvira.

29 | P á g i n a

SOL

Uma armadilha ao sol, um número tapado de rostos brancos.

Uma mão doente, um aquário de escamas núbeis. Alongo-me na espreguiçada tarde, ao sabor estiolado das palavras e da sua pólvora. Caminho cabisbaixo, em Lisboa, nesta inflamada metrópole que me serviu nos pés e agora teima em me pisar com as suas memórias,

com um nó no peito observando a estátua do Marquês que em tempos nos apontou o trilho e nós, numa jesuítica teimosia, não atendemos.

E sentindo este vento que desce estes jardins, relembro o teu cabelo e a minha ansiedade, a forma como o colocavas por trás da orelha e como eu reagia sem temperança a um coice cardíaco que batia cada vez mais forte mas calava, abnegado e, sei-o agora, torpe.

Uma armadilha, o sol, uma mão doente que nos pousa na testa, uma espingarda carregada de chumbo e tijolos, uma palavra que seca nos lábios.

Passado todo este tempo, reconheço que nessa tarde devia ter-te dito que te amava, precisava tê-lo berrado nesta avenida, com liberdade, ter-te puxado para mim e beijado à frente dos bebedores de chá, ainda que ficassem embevecidos ou transtornados, eu sei lá, precisava de ter feito isso para que entendesses que este amor sempre foi o tecido que me aqueceu a alma e nunca nada o fez de igual modo.

É preciso que saibas que estou aqui, te amo hoje mais que nesse dia.

30 | P á g i n a

CADA VEZ

Um de cada vez, uma década de cada vez.

Negoceia-se petróleo, fazem-se contas nos joelhos e limpa-se o suor inscrito e visitado. Um de cada vez, uma década de cada vez, decais nessa moribundez substantiva e feminina, sem óculos, sem palmeiras, com as mais que mãos rotas e universais, sem a lanterna cozida de gansos e inundada de volitivas ajuramentações para inibir a casa dos teus pais.

Derrotas os cada vez mais traços de seriedade, limpas o nominativo calão das pedras musgosas que se encontram frente à tua casa, e deixas que a selvagem vida te coloque a sela em cima de um dorso fechado de agonias e sempre pronto para atear o fósforo. Um de cada vez, uma década de cada vez.

31 | P á g i n a

ESTOCADA

Consome-me de preferência antes do Inverno, a geada tolhe-me os músculos e as máscaras do Entrudo assustam-me vagamente. Vamos ao fim da rua, dar a estocada final, combinar com os amigos a celebração mais apologética que alguma vez imaginamos, nós, os dormentes dançarinos do tempo que pretendem unir-se em cerimónia pública.

Eu bebo cerveja, tu chá de tília. Depois trocamos, e posso até beber do teu mijo, porque te pertence e traz fragmentada a tua alma que deposito no estômago, digiro e defiro. Sou totalmente teu, e estou pronto a dar a estocada, a servir-me de ti, ò celtibera, ò armário quente de cortiça, ò meu amor incandescente e límpido.

32 | P á g i n a

RASGUEI-TE

Rasguei-te meu amor, rasguei-te.

Senti o sangue no pénis, cheirou-me a algo ferruginoso, contemplei os vidros nas tuas mãos. Vigiei-te os hematomas, vi que ficavas quieta como uma égua a quem a mão acalma o dorso

quando to bebi do meio das pernas e te beijei depois, jorrando amor na minha língua.

Rasguei-te meu amor, e naquela noite a lua tatuou-nos a cara, enquanto tu choravas agarrada a mim e eu te limpava as lágrimas com um sorriso de quem pede desculpa por ter magoado com a intensidade acesa de um macho núbil. Ficamos íntimos, escrevemos num papel de tecido capilar a hora precisa em que o teu sexo me despedaçou a glande e a minha glande te perfurou a carne quente. Ficamos os dois rasgados e ali, respirando a humidade da madrugada e

de mãos dadas sobre os teus seios,

criamos a água que desagua hoje em nós e nos nutre as palavras.

33 | P á g i n a

ODE A QUEM FODE

Só de ti, sim só de ti, recebo a encantada mancha de lava, a potencial marca justificada das costas, a maior sombra para me sinalizar o sol.

Só de ti, sim só de ti, recebo esse buraco suspirado e amplo, onde aos poucos me enfio para caber todo dentro do teu corpo, meu amor.

Só de ti recebo lições de sexo pela madrugada, só me sabem bem os teus dedos cheios de mel esfregados nas minhas gengivas e o teu cuspo no meu mastro

onde penduras o velame do teu corpo inquieto pela velhice que nos apanha os flancos. Só de ti me sabe bem beber o leite dos teus seios cheios, aspergindo-me a boca numa bênção de semi-deusa louca, ò desordeira, ò maciça, ò rebelde, ò implicante e totalmente minha se atolada no meu músculo cardíaco.

Só de ti, meu amor, só de ti recebo os beijos e as palavras certas porque és só e apenas minha, meu amor, só e apenas minha.

34 | P á g i n a

NINHO

Um ninho entre as tuas pernas, uma sensível jugular, uma mão cheia de ti.

Palpitante e ensopada, como-te às colheres, com as mãos e os dedos, com os olhos e a língua.

Sorvo deliciado esse caracol elipsoidal e julgo-me entre as ervas benéficas dos campos lilases de Agosto, cheirando-te e dando-me a provar. Sorvo-te entre as tíbias, mordo-te os pés e os joelhos, guincho por entre as paredes insonsas da temperança, chego a tocar-te a alma para depois a mascar e amordaçar.

Enlaço esse ninho tépido com o membro, repiso-o fundo e vagarosamente, entornando-me todo numa domesticada gula de marido, saciado e pronto para festejar as nossas alianças lambidas nos dedos.

35 | P á g i n a

O ÚLTIMO AFAGO DA COBRA

O último afago da cobra foi humilde. Abraçou a presa honradamente, acariciando-lhe a veia cava, numa versão altiva das gomadas terçãs lavradas em epístolas. A cobra caiu, despiu a pele. Joga agora na área contrária, contradita e contrariada. O seu último abraço fendeu as línguas, deu-nos uma praia e um charuto cheio de sol.

36 | P á g i n a

SEIOS

Os seios morenos do meu amor são um sol cálido repleto de brilho alaranjado.

São o 0 e o 1, o código binário da vida, a água que me lava por baixo das unhas e discretamente me faz todas as festas natalícias. Os seios do meu amor, cada um deles, encantam-me o céu-da-boca, observam-me com a boca doce, são a parte erótica máxima do sangue. Tomo-os nas mãos, abro-os como figos, sorvo a polpa arregimentada dessa brigada do amor que me tomou a alma e a transformou em pedaços de ouro que lhe pertencem, apenas a ela.

37 | P á g i n a

SEGREDO-TE

Segredo-te o inefável pranto tautológico, o último cremoso hino ao capturado, a insensível gota de zinco na colher melíflua. Segredo-te nas costas, com a bílis empapada de fluviais ultrapassagens canoras, digo-te que esse cabelo não te pertence, que é meu desde as madrugadas anónimas sem as larvas anónimas da calvície. Eu segredo-te nas curvas de um coração assaltado por todas as dúvidas do amanhã, e prendo-te os tornozelos no Portugal dos Pequenitos, para que não cresças doente e cheia de ódio ao talco em pó que te verteram no sulco das lágrimas e assim enganaste quem não querias, ante o riso crepuscular das garrafas de gás. Eu segredo-te enfim, entre o sovaco e as costelas, mostrando-te os dentes e as estrelas, dardejando o chão com a molécula física da permanente aflição, para que não te escondas mais no eucalipto viçoso da peregrinação ao sono.

38 | P á g i n a

ONDE ESTÁS, HAMLET?

Hamlet dói como dois cilindros ligados em série, deslocados no ornamentado rolamento da vida.

Divirjo claramente, sei de antemão que a água não é para mim, que tão pouco mereço o pinheiro de Natal e que as cantigas de amigo são apenas e somente cantigas, nada amigáveis. Onde estás, Hamlet? Foste tu quem proferiu a sábia frase do “ser ou não ser é a questão” ou isso não passou de um sonho devaneado por outro e que me confunde ainda agora, perto das três da madrugada? Se calhar a fórmula mágica de Einstein explica melhor a vida que um pássaro a refugiar-se da chuva. Se calhar o brilho e a dor que o meu amor tinha nos olhos quando se despediu de mim é a mais ingénua e subtil prova filosófica da existência, da compreensão da dor.

E tu Hamlet, que dizes disto? Ainda bebes a água que te desagua no caramanchão? Ou não? Eu cá continuo um homem cheio de manchas e olheiras, que coça o cabelo com os dedos e vigia o cabelo branco, esperando ter mais tempo para escrever o que realmente é essencial.

39 | P á g i n a

FILHO

Filho, estou a um passo de te enviar uma carta para que saibas que te espero.

Já lavei as mãos com alecrim, tomilho e hortelã, já te posso puxar pelos ombros e pela cabeça quando a tua mãe te der ao mundo. Estarei aqui a amparar-te, com uma camisola amarela que rasgarei em pedaços para te limpar os pés, as mãos, a cabeça. Depois, dou-te beijos nos olhos, faço-te festas e restituo-te o sopro vital, com um beijo na boca e o caminho para as tetas dela. Requisitei um cavalo para nós, uma horta, duas enxadas, um saco de batatas e adubo. É hora de aprender contigo.

40 | P á g i n a

INVASÃO

Inadvertidamente, a invasão. Cheguei agora, bebi cerveja e fui invadido pela tua presença nos livros adversos e pelas peças breves da imagética secular, o alfa e o ómega do carácter das coisas. Invadido, num Inverno táctil que afugenta as paredes falsas das meias verdades, alertado para o momento final das lontras bafientas que são os dias sem ti,

sem a tua invasão matinal, sem as vozes diletantes na rádio, sem os teus seios para chupar, sem o valimento das palavrosas estátuas estacionadas na alameda verde onde te ia buscar, para que por uns momentos fosses minha e solta no corcel alado das minhas línguas. Inadvertidamente, a tua imagem secular e séria, o riso que ronda a amargura, a mão que aperta convicta da beleza do instante, as coxas que me enlaçam como dois relógios que apontam o tempo que vivemos e que ainda temos para viver.

41 | P á g i n a

LOTA

Este amor peixe-espada que perfura e deixa às postas o fígado e o coração a marinar profundamente nas profundezas do gesto, vai-me extinguindo aos poucos os anzóis que ainda tinha para agarrar a vida na torrente espumosa dos anos, o crime dilecto.

Este nosso amor peixe-espada

volteado na grelha e escamado contra as pedras da perseverança deixa-me iníquo a morrer aos poucos de guelras secas e fugazes na praia do meu desespero na areia do meu contentamento na lota

maré de olhares que furtam trocados nos bolsos alheios e os enchem de rigor o único conceito que nos desperta o sarcasmo sem junções etílicas.

42 | P á g i n a

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Demasiado humano, demasiado. Regimentado, humilde e cavo, bate as palmas com o desvelo dos manequins, imitando Lorca nos seus melhores momentos.

Ele é o patrão dos párias, demasiado humano, e desce a Fontes Pereira de Melo após a habitual escuridão engolida com a cerveja.

Quem o vê passar julga, trémulo no covil da paragem de autocarro, que não toma banho, não se penteia nem barbeia, uma árvore triangular vigiada pela terebintina, um túmulo de soutiens rasgados pela felicidade daninha das pescas. E a juventude passa ao lado, no passeio adverso ao seu, até que o sol o cega e ele, vociferando contra o inferno das gargantas que o acusam, cai prostrado no chão acusado pela humanidade de ser excessivamente humano.

43 | P á g i n a

O PRÓPRIO CORPO

Estendido na cama mede o corpo por extenso, aproximadamente.

As mãos medem uma mão, as pernas cinco mãos bem medidas mais dois dedos e metade de uma falangeta. A cabeça, sensivelmente dois palmos.

Inclui-se desta forma nas coisas concretas e com sentido, com peso e número de registo, com tempo, cronometrado.

Exclui-se das exageradas formas de abstracção que reiteram que o corpo é o prolongamento da alma, auto-recusando o serviço sereno que lhe propicia uma noite inesquecivelmente só.

44 | P á g i n a

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