Orgulho e Preconceito por Jane Austen - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.jpg

1

index-2_1.jpg

2

Abas:

Jane Austen

Jane Austen nasceu em Steventon, Inglaterra, a 16 de dezembro de 1775, e

morreu em Winchester, a 18 de julho de 1817. Oriunda de família

provinciana e profundamente religiosa (seu pai, George Austen, foi pároco

de aldeia), cresceu em meio a numerosos irmãos. Após a morte do

reverendo, no início de 1805, Jane Austen passou a viver quase que

exclusivamente em função da família e, juntamente com sua irmã Cassandra,

dedicou-se à educação dos irmãos menores e dos sobrinhos. Foi a

necessidade de inventar histórias para distrair as crianças que a levou à

literatura. Os primeiros escritos de Jane Austen datam da época de seus

dezessete anos. Em 1792 deu início a uma série de pequenas histórias

burlescas, Kitty or the Tower, aproveitando situações que criava para divertir

seus familiares. Três anos depois completaria uma novela sob o estilo

epistolar, muito em voga na época.

Elinor and Marianne, obra que lhe serviria de base para a criação de Sense and

Sensibility (Razão e Sensibilidade), seu primeiro romance, publicado em 1811.

Entre 1796 e 1797 Jane escreveu First Impressions, que apareceria após

profunda revisão sob o título de Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito),

considerado por muitos a sua obra-prima. Quando de sua primeira

apresentação à editora de Thomas Cadell, o manuscrito foi sumariamente

rejeitado, somente conseguindo vencer os receios editoriais em 1813. Em

1798 terminou um novo romance, Northanger Abbey (A Abadia de Northanger),

encontrando as mesmas dificuldades para conseguir editá-lo. Desestimulada,

parou de escrever durante alguns anos. Mas a aceitação de Orgulho e Preconceito

animou-a a escrever mais dois romances: Mansfield Park (1814) e Emma

(1815), publicados em 1816. Morreu muito jovem ainda, em conseqüência

de uma tuberculose. Autora de um sem-número de manuscritos inacabados,

Jane Austen foi uma escritora romântica digna de sua geração. Tão fiéis

foram os seus relatos dos costumes e mentalidade da época, que a geração

posterior não encontrou neles a menor identificação. Contudo, para essa

autora, a quem "... três ou quatro famílias vivendo numa aldeia do campo

constituem material suficiente para se fazer um romance...", não poderá ser

negado o justo valor de quem tão bem retratou o século XVIII inglês.

3

Digitalização e Revisão: Vick

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte

Câmara Brasileira do Livro, SP

Austen, Jane, 1775-1817.

A95o

Orgulho e preconceito / Jane Austen ; tradução de

Lúcio Cardoso. — São Paulo : Abril Cultural, 1982.

(Grandes sucessos)

1. Romance inglês I. Cardoso, Lúcio, 1913-1968.

II. Título.

81-0853

CDD-823

Índice para catálogo sistemático:

1. Romances : Literatura inglesa 823

4

index-5_1.jpg

5

Capa:

As Irmãs Elizabeth e Mary Linley (1772).

Quadro de Thomas Gainsborough. Dulwich Gallery.

Título original:

Pride and Prejudice

© Copyright desta edição, Abril S.A. Cultural e Industrial,

São Paulo, 1982.

Publicado sob licença de CEDIBRA —

Editora Brasileira Ltda., Rio de Janeiro.

6

Introdução

Lúcio Cardoso

Jane Austen, como tantas outras famosas romancistas inglesas, teve

uma vida obscura e difícil, quase despida de repercussões exteriores.

Vivendo num meio acanhado, numa época de extremo puritanismo,

destituída de grandes atrativos femininos, estaria destinada a perecer nessa

sufocante atmosfera de mediocridade, se não fosse o seu incontestável

talento. A essa mulher cabe a glória de ter sido um dos primeiros elementos

criadores do grande romance inglês, que vem de Daniel Defoe e Samuel

Richardson, até os grandes romancistas do nosso tempo. Tudo o que pela

primeira vez surge no autor do Diário da peste em Londres e de Moll

Flanders, bem como no Richardson de Clarissa Harlowe ou de Pamella, e

que constitui propriamente esse caráter particular do romance inglês,

evidenciável posteriormente com tão soberba nitidez nos romances de

costumes de Fielding, Dickens, Charlotte Bronte, George Eliot, Thomas

Hardy ou George Meredith, já se encontra nos livros de Jane Austen. O seu

primeiro romance publicado foi Sense and sensibility, no ano de 1811. Antes,

porém, com o título de First impressions, ela tinha oferecido aos editores a

versão inicial de Orgulho e preconceito. É claro que o original foi

imediatamente recusado. Voltando ao silêncio do seu retiro primitivo, di-

vidindo-se entre os seus piedosos exercícios de cristã convicta e as pequenas

obrigações da existência burguesa a que se submetia, Jane Austen continua a

trabalhar no romance recusado. No ano de 1813 aparece finalmente Orgulho

e preconceito, onde é minuciosamente estudada a sociedade daquele tempo, a

mediocridade dos seus tipos, o ridículo dos seus hábitos, a vaidade e a tolice

de burgueses e nobres que o preconceito separava.

Rigorosamente construída, antes de mais nada essa obra era a

prodigiosa revelação do temperamento de uma romancista. Nada escapa ao

seu lúcido olhar, nenhuma fraqueza, nenhum ridículo dessa gente que ela

conhecia tão bem. Em 1814 aparece Mansfield Park, em 1815 Emma, e

afinal, como obras póstumas, Northanger Abbey e Persuasion, em 1818. Jane

7

Austen tinha desaparecido em plena glória, no ano de 1817. O seu admirável

talento fora reconhecido no país inteiro e as figuras mais eminentes do seu

tempo louvaram nela um dos grandes espíritos da época. Orgulho e

preconceito é sua obra-prima.

Depois disto os críticos levantaram muitas objeções contra os seus

livros, lembrando a inexperiência dessa moça obscura que ousara retratar

com tão feroz realidade a sociedade e os hábitos da velha Inglaterra. A sua

vida foi avidamente investigada e alguém chegou a lembrar que ela não

poderia descrever paixões, pois nunca as tinha conhecido. Novas vozes

ajuntaram que os tipos de homem dos seus livros eram completamente

falsos, destituídos de qualquer consistência.

O Mr. Darcy de Orgulho e preconceito, o mais bem realizado dos seus

heróis masculinos, segundo eles não passava de um simples boneco. Mas a

verdade é que apesar de tudo, os livros de Jane Austen atravessam os anos,

dotados de uma assombrosa vitalidade. É preciso acrescentar que não o

fazem como geladas relíquias de uma época desaparecida, como o desejam

tantos — mas ao contrário, pelo sabor de sua indestrutível atualidade.

8

Capítulo I

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro,

possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.

Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam

conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal

modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo

considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas.

— Caro Mr. Bennet — disse-lhe um dia a sua esposa —, já ouviu

dizer que Netherfield Park foi alugado afinal?

Mr. Bennet respondeu que não sabia.

— Pois foi — assegurou ela. — Mrs. Long acabou de sair daqui e me

contou tudo.

Mr. Bennet não respondeu.

— Afinal não deseja saber quem é o locatário? — gritou a mulher,

impacientemente.

— Você é quem está querendo me dizer e eu não faço nenhuma

objeção a isto.

Este convite foi suficiente.

— Pois, meu caro, você deve saber que Mrs. Long disse que

Netherfield foi alugado por um rapaz de grande fortuna, oriundo da

Inglaterra. E que além disso ele chegou segunda-feira numa elegante caleça a

fim de visitar a propriedade. Ficou tão encantado que entrou imediatamente

em negócio com Mr. Morris; Mrs. Long falou também que ele entrará na

posse do prédio antes do dia de São Miguel. Alguns dos seus criados devem

chegar já na próxima semana.

— Como se chama ele?

— Bingley.

— É casado ou solteiro?

— Oh, solteiro, naturalmente, meu caro. Solteiro e muito rico! Quatro

ou cinco mil libras por ano. Que boa coisa para as nossas meninas, hem?

— Como assim? De que modo pode isso afetá-las?

— Meu caro Mr. Bennet — replicou a esposa —, como você, às

vezes, é enfadonho! Deve saber que ando pensando em casar uma delas...

— Será este o projeto do homem ao se instalar aqui?

9

— Projeto? Tolice... Como é que você pode dizer uma coisa destas? É

até muito provável que ele se apaixone por uma delas. Portanto, assim que

chegue, você deve ir visitá-lo.

— Não vejo motivo para isto. Você pode ir com as meninas, ou pode

até mandá-las sozinhas, o que talvez ainda seja melhor, pois como você é tão

bela quanto qualquer uma delas Mr. Bingley pode preferi-la.

— Você está me lisonjeando. Decerto já tive o meu quinhão de beleza,

mas não ambiciono ser nada de extraordinário agora. Quando uma mulher

tem cinco filhas crescidas, deve deixar de pensar em vaidades.

— Em casos como esses, em geral, uma mulher não tem muito que

pensar em beleza.

— Mas meu caro, você deve realmente ir ver Mr. Bingley, quando ele

chegar.

— Não quero assumir esse compromisso.

— Mas lembre-se das suas filhas. Pense que partido seria para uma

delas! Sir William e Lady Lucas estão decididos a ir. É exclusivamente por

motivo idêntico, pois você sabe que em geral eles não visitam recém-

chegados. Deve ir, pois a nós, mulheres, será impossível fazê-lo, se antes

você não o fizer.

— Creio que isto é excesso de escrúpulos da sua parte. Tenho certeza

de que Mr. Bingley terá muito prazer em vê-la. Além disso eu lhe enviarei

algumas linhas por seu intermédio, assegurando-lhe que darei o meu

consentimento para que ele se case com qualquer das meninas que escolher,

embora devesse acrescentar um elogio para a minha pequena Lizzy.

— Desejo que não faça tal coisa. Lizzy não é melhor do que as outras.

Estou convencida de que não tem metade da beleza de Jane. E nem sequer

metade do bom humor de Lydia. Mas você não cessa de manifestar a sua

preferência por ela.

— Nenhuma delas tem muito o que se lhes recomende — respondeu

Mr. Bennet. — São tolas e ignorantes como as outras moças. Mas Lizzy é

realmente um pouco mais viva do que as irmãs.

— Como é que pode falar mal assim dos próprios filhos,

Mr. Bennet? Você se compraz em aborrecer-me; não tem nenhuma

pena dos meus pobres nervos.

— Está enganada, minha cara. Tenho muito respeito pelos seus

nervos. São meus velhos amigos. Venho escutando você falar a respeito

10

deles com grande consideração, pelo menos durante esses últimos vinte

anos.

— Ah, você não sabe o que eu sofro!

— Espero que você se restabeleça e viva bastante tempo para ver

muitos rapazes com quatro mil libras anuais de rendimentos se instalarem na

vizinhança.

— Pouco nos adiantará que venham vinte deles se você se recusar a

visitá-los.

— Pode ficar certa, minha querida, de que quando chegarem os vinte

eu os visitarei a todos.

Mr. Bennet era um misto tão curioso de vivacidade, humor sarcástico,

reserva e capricho, que a experiência de vinte e três anos juntos tinha sido

insuficiente para que a sua esposa lhe conhecesse o caráter. O espírito de sua

mulher era menos difícil de compreender; tratava-se de uma senhora dotada

de inteligência medíocre, pouca cultura e gênio instável. Quando se aborrecia

imaginava que estava nervosa. A única preocupação da sua vida era casar as

filhas. Seu consolo, fazer visitas e saber novidades.

11

Capítulo II

Mr. Bennet foi uma das primeiras pessoas que visitaram Mr. Bingley.

Sempre fora esta a sua intenção, embora continuasse a assegurar até o fim à

sua esposa que não iria de forma alguma; nada lhe disse até a noite do dia em

que fez a visita. Só aí ele o revelou, da seguinte maneira: vendo a sua

segunda filha ocupada em reformar um chapéu, dirigiu-lhe de súbito estas

palavras:

— Espero que Mr. Bingley goste do chapéu, Lizzy.

— Não temos nenhum modo de saber as preferências de Mr. Bingley,

já que não podemos visitá-lo — interveio a mãe, ressentida.

— Mas você se esquece, mamãe — disse Elizabeth —, de que nós o

encontraremos em reuniões e que Mrs. Long prometeu nos apresentar a ele.

— Não creio que Mrs. Long faça tal coisa. Ela tem duas sobrinhas e é

uma mulher egoísta e hipócrita. A minha opinião sobre ela não é boa.

— Nem a minha tampouco — disse Mr. Bennet. — Alegra-me saber

que você não depende dos serviços dela.

Mrs. Bennet não se dignou responder. Incapaz de dominar-se por

mais tempo, entretanto, pôs-se a ralhar com uma das filhas:

— Não tussa desse modo, pelo amor de Deus, Kitty. Tenha um pouco

de piedade dos meus nervos... Você os está dilacerando!

— Kitty não sabe tossir discretamente — disse o pai. — Não tem

noção do momento oportuno.

— Não tusso para distrair-me — respondeu Kitty, irritada. —

Quando será o nosso próximo baile, Lizzy?

— De amanhã a quinze dias.

— É verdade — gritou a mãe. — E Mrs. Long só voltará na véspera

desse dia. Logo, ser-lhe-á impossível fazer a apresentação do estranho, pois

ela tampouco o terá conhecido.

— Portanto, minha cara, você poderá adiantar-se à sua amiga e

apresentar Mr. Bingley a ela.

— Impossível, Mr. Bennet, impossível! Se eu não tenho relações com

ele! Como pode ser tão provocador?

— Respeito a sua discrição. Quinze dias de conhecimento decerto não

é suficiente. Não se pode conhecer realmente um homem em tão curto

12

espaço de tempo. Mas, se não arriscarmos, outra pessoa o fará. E afinal de

contas Mrs. Long e as sobrinhas devem ter também a sua oportunidade. E,

como lhe será fácil pensar que é um ato de caridade da sua parte recusar tal

incumbência, eu assumirei a responsabilidade.

As meninas olharam fixamente para o pai. Mrs. Bennet disse apenas:

— Tolice, tolice.

— Qual é o significado dessa exclamação enfática? — perguntou o

pai. — Considera tolice as formas de apresentação e a importância que lhes

emprestamos? Neste ponto não posso concordar com você. Que é que acha,

Mary? Sei que é uma moça de juízo; lê grandes livros e faz resumos de tudo

o que lê.

Mary quis fazer uma observação sensata mas não pôde.

— Enquanto Mary ajusta as suas idéias — continuou Mr. Bennet —,

voltemos a Mr. Bingley.

— Estou enjoada de Mr. Bingley — exclamou Mrs. Bennet.

— Causa-me pena saber isto. Por que não me disse antes? Teria

evitado que eu me desse ao trabalho de visitá-lo. Foi pouca sorte. Mas como

tudo está feito, não podemos agora evitar relações.

O ar estupefato das senhoras era exatamente o que ele desejava causar.

O de Mrs. Bennet talvez sobrepujasse os outros. Entretanto, ao desvanecer-

se o primeiro tumulto de alegria, ela começou declarando que era aquilo

mesmo o que esperava.

— Que bondade da sua parte, caro Mr. Bennet! Tinha certeza de que

acabaria por convencê-lo, pois estava certa do seu amor pelas suas filhas.

Sabia portanto que não iria desprezar assim uma tão grande oportunidade.

Nem sabe a alegria que sinto... E com que espírito você nos enganou até o

último momento!

— Agora, Kitty, pode tossir à vontade — disse Mr. Bennet, ao deixar

o quarto, enfastiado pelas demonstrações exageradas da esposa.

— Que excelente pai vocês têm, meninas — continuou ela, logo que a

porta se fechou. — Não sei como poderão jamais compensar tamanha

bondade. Nem eu tampouco, aliás. Posso assegurar-lhes que na nossa idade

não é tão agradável assim travar novas relações todos os dias... Entretanto,

por vocês, faríamos todos os sacrifícios. Lydia, meu bem, embora seja você a

mais moça, ouso profetizar que Mr. Bingley dançará com você no próximo

baile.

13

— Oh — exclamou Lydia, orgulhosa —, não tenho medo. Embora

seja a mais moça, sou também a mais alta.

Passaram o resto da noite conjeturando sobre qual seria o dia provável

em que o estranho viria retribuir a visita de Mr. Bennet e procurando

determinar aquele em que o convidariam para jantar.

14

Capítulo III

Entretanto, todas as perguntas que Mrs. Bennet, com auxílio das suas

cinco filhas, fez sobre o assunto foram insuficientes para extrair do marido

uma descrição satisfatória de Mr. Bingley. Atacaram-no de vários modos,

com perguntas diretas, engenhosas suposições e hipóteses distantes. Ele

desafiou a habilidade de todas elas. Afinal foram obrigadas a aceitar as in-

formações de segunda mão da sua vizinha Lady Lucas. O relatório desta

última foi altamente favorável. Sir William tinha ficado encantado com ele.

Era jovem, elegantíssimo, extremamente agradável. E, para coroar tudo,

tencionava ir ao próximo baile em companhia de grande número de

conhecidos. Nada poderia ser mais delicioso. Gostar de dança era o primeiro

passo para se apaixonar. E vivas esperanças de conquistar o coração de Mr.

Bingley foram bafejadas.

— Se eu pudesse ver uma das minhas filhas instalada em Netherfield,

alegre e feliz — disse Mrs. Bennet ao marido —, e todas as demais

igualmente bem-casadas, nada mais teria a desejar.

Daí a poucos dias Mr. Bingley veio retribuir a visita de Mr. Bennet.

Conversaram na biblioteca durante dez minutos. Mr. Bingley tinha

alimentado a esperança de ver uma das moças, sobre cuja beleza tanto ouvira

falar. Mas viu apenas o pai. As senhoras tiveram mais sorte: olhando por

detrás de uma janela do sobrado, conseguiram saber que ele usava casaco

azul e montava um cavalo preto.

Pouco depois, um convite para jantar foi-lhe enviado. Mrs. Bennet já

tinha planejado os pratos à altura da fama da sua cozinha, quando chegou

uma resposta adiando tudo. Mr. Bingley se via obrigado a partir para a

cidade no dia seguinte e portanto não podia aceitar a honra daquele convite,

etc. Mrs. Bennet ficou desolada. Não sabia que negócio poderia tê-lo atraído

à cidade, tão pouco tempo depois da sua chegada ao Hertfordshire.

Começou a temer que Mr. Bingley estivesse sempre em trânsito de um lugar

para outro, e que nunca se demorasse em Netherfield, como devia. Lady

Lucas acalmou um pouco os seus receios, sugerindo a idéia de que Mr.

Bingley tivesse partido para Londres apenas para buscar conhecidos que o

acompanhassem ao baile. As meninas lamentaram a vinda de tão grande nú-

15

mero de senhoras. Mas, na véspera do baile, consolaram-se ao saber que, em

vez de doze, Mr. Bingley tinha trazido apenas seis senhoras de Londres,

cinco irmãs e uma prima. E, quando o grupo entrou no salão, consistia

apenas em cinco pessoas: Mr. Bingley, suas duas irmãs, o marido da mais

velha e outro rapaz.

Mr. Bingley era simpático e fino de maneiras. A sua aparência era

agradável, os gestos sem afetação. Quanto às irmãs, era visível que se tratava

de pessoas distintas. Vestiam-se segundo a última moda. O cunhado, Mr.

Hurst, era o que se pode chamar de um gentleman, sem outras características.

Mas o amigo, Mr. Darcy, atraiu desde logo a atenção da sala, pela sua

estatura, elegância, traços regulares e atitude nobre, e também pela notícia

que circulou, cinco minutos depois da sua entrada, de que possuía um

rendimento de dez mil libras por ano. Os cavalheiros declararam que ele era

uma bela figura de homem, as senhoras foram de opinião que era muito

mais elegante do que Mr. Bingley. Todos o olharam com grande admiração

durante metade do baile, até que finalmente a sua atitude provocou um certo

desapontamento que alterou a sua maré de popularidade pois descobriram

que era orgulhoso, permanecia afastado do seu grupo e parecia impossível

de contentar. E nem mesmo toda a sua grande propriedade, no Derbyshire,

pôde salvá-lo da opinião que começava a se formar a seu respeito, de que ele

tinha modos antipáticos e desagradáveis e de que era indigno de ser

comparado ao amigo. E Mr. Bingley em pouco tempo travou relações com

as principais pessoas da sala. Era animado e franco, dançava todas as vezes e

mostrou-se aborrecido por ter o baile terminado tão cedo. Chegou mesmo a

falar em dar outro em Netherfield. Qualidades tão amáveis falam por si

mesmas. Que contraste entre ele e o amigo! Mr. Darcy dançou apenas uma

vez com Mrs. Hurst e outra com Miss Bingley. Recusou-se a ser apresentado

a qualquer outra moça e passou o resto da noite andando pelo salão,

conversando ocasionalmente com uma ou outra pessoa do seu próprio

grupo. Seu caráter estava fixado. Era o homem mais orgulhoso, mais

desagradável do mundo. E todos pediram a Deus que ele nunca mais

voltasse.

Entre as pessoas que estavam contra ele, a mais violenta era Mrs.

Bennet, a cuja antipatia pela sua conduta se somava o despeito de ver uma

das suas filhas desprezada por ele.

Devido à falta de pares, Elizabeth Bennet fora obrigada a ficar sentada

durante duas danças; e parte desse tempo ela o passou suficientemente

16

próxima a Mr. Darcy para ouvir uma conversa entre ele e Mr. Bingley. Este

último, que acabara de dançar, vinha animar o amigo a imitá-lo.

— Venha, Darcy — disse ele —, você precisa dançar. Incomoda-me

vê-lo aí sozinho, de um modo tão estúpido. Seria muito melhor que você

dançasse.

— Por coisa alguma deste mundo; bem sabe como eu detesto dançar,

a não ser conhecendo intimamente o meu par. Numa festa como esta seria

insuportável. Suas irmãs estão ocupadas e não existe outra mulher na sala

com quem eu dançaria sem sacrifício.

— Jamais eu seria tão exigente — exclamou Bingley; — palavra de

honra, eu nunca encontrei tantas moças interessantes na minha vida... E

você está vendo que algumas são excepcionalmente belas!

— Você está dançando com a única moça realmente bonita que existe

nesta sala — disse Mr. Darcy, olhando para a mais velha das irmãs Bennet.

— Oh, ela é a mais bela moça que já vi na minha vida, mas bem atrás

de você está uma das suas irmãs, que é muito bonita e agradável. Deixe-me

pedir ao meu par que o apresente a ela?

— Qual? -— perguntou ele, voltando-se e detendo um momento a

vista em Elizabeth até que, encontrando-lhe os olhos, desviou os seus e

disse, friamente:

— É tolerável, mas não tem beleza suficiente para tentar-me. Não

estou disposto agora a dar atenção a moças que são desprezadas pelos

outros homens. É melhor você voltar ao seu par e se deliciar com os sorrisos

dela, pois está perdendo tempo comigo.

Mr. Bingley seguiu o conselho. Mr. Darcy se afastou e os sentimentos

de Elizabeth para com ele não permaneceram muito cordiais. No entanto,

ela contou a história com muita graça às suas amigas, pois era de espírito

alegre e brincalhão e se deleitava com tudo o que era ridículo.

De um modo geral a noite decorreu agradavelmente para toda a

família. Mrs. Bennet vira a filha mais velha ser muito admirada pelo grupo de

Netherfield. Mr. Bingley tinha dançado duas vezes com ela. E as irmãs dele a

tinham tratado com muita amabilidade. Jane ficou tão contente quanto a

mãe, embora manifestasse os seus sentimentos de maneira mais discreta.

Elizabeth se alegrou com o prazer de Jane. Mary ouvira o seu nome

mencionado por Miss Bingley como sendo o da moça mais dotada da

reunião. Katherine e Lydia tinham tido a sorte de nunca ficar sem par, a

única coisa que elas consideravam importante num baile. Todas voltaram

17

pois de bom humor para Longbourn, aldeia onde residiam e da qual eram os

principais habitantes. Encontraram Mr. Bennet ainda acordado. Com um

livro na mão ele perdia a noção do tempo. Naquele momento manifestou

grande curiosidade em saber a causa de tanta alegria. Antes de sua mulher

sair para o baile, julgara que as suas esperanças seriam destruídas, mas

verificou logo que a história era muito diferente.

— Meu caro Mr. Bennet — disse ela, entrando na sala —, tivemos

uma noite deliciosa, um baile excelente! Pena que você não estivesse lá. Jane

foi tão admirada! Nada podia ter acontecido melhor... Todos disseram que

ela estava muito bonita. Mr. Bingley achou-a linda e dançou duas vezes com

ela. Imagine, meu caro! Dançou com ela duas vezes! Foi a única moça na

sala com quem ele repetiu uma dança. Primeiro dançou com Miss Lucas.

Fiquei desapontada, mas ele não pareceu muito entusiasmado com ela. Aliás

ninguém pode mesmo... Mr. Bingley parecia muito impressionado com Jane,

ao vê-la dançar com outro rapaz. Foi aí que perguntou quem era ela, pediu

para ser apresentado e solicitou as duas próximas danças. Depois dançou

com Miss King as duas terceiras, com Maria Lucas as duas quartas, as duas

quintas com Jane novamente, as duas sextas afinal com Lizzy e a Boulanger.

— Se ele tivesse tido qualquer espécie de compaixão por mim —

exclamou o marido, impaciente —, não teria dançado nem sequer a metade!

Pelo amor de Deus, não continue a lista dos pares de Mr. Bingley. Antes ele

tivesse torcido o pé na primeira dança.

— Oh, meu caro — continuou Mrs. Bennet —, fiquei encantada com

ele. É um lindo rapaz e as suas irmãs são encantadoras. Nunca na minha

vida vi nada tão elegante quanto os vestidos que elas usavam. A renda do

vestido de Mrs. Hurst...

Aí ela foi novamente interrompida. Mr. Bennet protestou contra

qualquer descrição de toaletes. Mrs. Bennet foi então obrigada a procurar

outro aspecto do assunto e relatou com muita acrimônia e algum exagero as

chocantes má-criações de Mr. Darcy.

— Mas eu lhe asseguro — acrescentou ela — que Lizzy não perde

muito por não corresponder às preferências deste homem, pois ele é

desagradável, horrível; pouco adianta cativá-lo. Tão orgulhoso e tão

convencido que é impossível aturá-lo. Andava de um lado para outro,

pensando na sua própria importância. Não é suficientemente simpático para

que se tenha prazer em dançar com ele. Queria que você estivesse lá e lhe

desse uma das suas respostas. Detesto aquele homem.

18

Capítulo IV

Quando Jane e Elizabeth ficaram sozinhas, a primeira, que

anteriormente fora mais discreta nos elogios a Mr. Bingley, confessou à irmã

quanto o admirava.

— Ele é exatamente o que um rapaz deve ser — acrescentou. —

Ajuizado, alegre, animado. Nunca vi maneiras tão distintas, tanta

espontaneidade e tão boa educação.

— Também é bonito — replicou Elizabeth —, qualidade que um

rapaz deve possuir, se possível. Assim a sua personalidade se torna completa.

— Fiquei muito lisonjeada por ele me ter tirado para dançar uma

segunda vez. Não esperava tal galanteio.

— Não? Pois eu o esperava por você. Mas esta é uma das grandes

diferenças entre nós. Os galanteios sempre a surpreendem. A mim, nunca.

Nada mais natural do que ele solicitá-la para outra dança. Não podia deixar

de reconhecer que você era cinco vezes mais bonita do que qualquer outra

moça na sala. Não lhe fique grata por isso. Na verdade, ele é muito

agradável, e eu lhe dou licença de gostar dele. Você já gostou de muitas

pessoas mais estúpidas.

— Minha cara Lizzy!

— Você bem sabe que tem uma inclinação para gostar das pessoas em

geral. Nunca encontra defeito em ninguém. A seus olhos todos são bons e

agradáveis. Nunca a ouvi falar mal de quem quer que seja em toda a minha

vida. — Não desejaria censurar ninguém irrefletidamente. Mas sempre digo

o que penso.

— Eu sei, e é isso o que me espanta. Sensata como você é, deixar-se

enganar tão simploriamente pela loucura e pelo absurdo dos outros! A

candura afetada é bastante comum; encontra-se por toda a parte, mas, ser

cândida sem ostentação ou artifício, ver o lado bom do caráter de todo o

mundo, torná-lo ainda melhor, ignorar o lado mau, são coisas que lhe

pertencem exclusivamente. E você gostou também das irmãs daquele ho-

mem, não é? As maneiras delas não são tão agradáveis quanto as de Mr.

Bingley...

19

— Decerto que não. A princípio... Mas são moças muito agradáveis

quando se conversa com elas. Miss Bingley vai morar com o irmão e dirigir a

casa; se não me engano, encontraremos nela uma excelente vizinha.

Elizabeth nada respondeu, mas não ficou convencida. O

comportamento daquelas moças durante o baile não fora calculado para

agradar a todo o mundo. Dotada de maior rapidez de observação do que a

irmã e de menos docilidade de gênio e possuindo, além disso, uma faculdade

de julgamento que nenhuma complacência consigo mesma obscurecia,

Elizabeth se sentia pouco disposta a aceitar aquelas pessoas. Eram de fato

moças distintas; não lhes faltava bom humor quando estavam contentes,

nem o poder de agradar quando o desejavam; porém eram orgulhosas e

convencidas. Além disso eram bastante bonitas e tinham sido educadas num

dos principais colégios particulares de Londres. Possuíam uma fortuna de

vinte mil libras, costumavam gastar mais do que deviam e associar-se com

pessoas de classe; tinham portanto as aptidões necessárias para pensar bem

de si mesmas e mediocremente dos outros. Provinham de uma família

respeitável do norte da Inglaterra, coisa que guardavam mais profundamente

impressa em sua memória do que o fato de sua fortuna, bem como a do

irmão, ter sido adquirida no comércio.

Mr. Bingley herdara do pai uma fortuna calculada em cem mil libras.

Este tencionara comprar uma propriedade, mas morrera antes de realizar o

projeto. Mr. Bingley alimentava a mesma idéia e às vezes escolhia o seu

condado; mas, como dispunha agora de uma boa propriedade e da liberdade

de uma casa senhorial, muitos daqueles que lhe conheciam o gênio

acomodatício desconfiavam de que acabasse o resto dos seus dias em

Netherfield, incumbindo da compra a próxima geração.

Suas irmãs estavam ansiosas para que ele possuísse um domínio

particular; no entanto, embora Mr. Bingley estivesse agora estabelecido

apenas como locatário, Miss Bingley de modo algum se recusava a presidir a

sua mesa; e Mrs. Hurst, que se tinha casado mais pela importância social do

que pela fortuna do marido, não se encontrava menos disposta a considerar

a casa do irmão como a sua própria, desde que a mesma lhe conviesse. Fazia

apenas dois anos que Mr. Bingley havia atingido a maioridade, quando,

devido a uma recomendação ocasional. se sentira tentado a visitar

Netherfield House. E de fato a visitou durante meia hora, ficando satisfeito

com a situação e os quartos principais; ouviu os elogios da proprietária e

alugou-a imediatamente. Entre ele e Darcy havia uma amizade muito firme,

20

apesar de os seus caracteres serem opostos. Bingley era caro a Darcy pela

doçura, franqueza e maleabilidade do seu gênio, embora essas qualidades

contrastassem de modo absoluto com as suas e Darcy não parecesse nada

descontente com as que lhe tinham cabido por sorte. Bingley confiava

cegamente na força dos sentimentos de Darcy, e tinha a mais alta opinião

acerca de suas idéias. Em inteligência Darcy era superior. Bingley não era de

modo nenhum deficiente em força mental, mas Darcy era mais vivo. Era ao

mesmo tempo altivo, reservado, desdenhoso, e suas maneiras, apesar de

bem-educado, eram pouco convidativas. A esse respeito, o amigo levava

grande vantagem: Bingley tinha a certeza de agradar, onde quer que apa-

recesse. Darcy estava sempre ofendendo os outros.

A maneira pela qual se referiram ao baile de Meryton era bastante

característica. Bingley dizia que nunca encontrara gente mais agradável, nem

moças mais bonitas em toda a sua vida. Todos tinham sido amáveis e

atenciosos com ele; não tinha havido formalidade nem friezas e ele se sentira

logo à vontade com todos na sala; quanto a Miss Bennet, não podia

conceber que um anjo fosse mais belo. Darcy, ao contrário, afirmava que

havia assistido a uma reunião em que não havia beleza nem elegância; não

sentira o menor interesse por nenhuma pessoa e tampouco recebera a

atenção de alguém. Reconhecia que Miss Bennet era bonita, embora sorrisse

demais. Mrs. Hurst e a irmã concordaram com isto. Mas ainda assim

admiravam Miss Bennet e declararam que ela era uma moça encantadora e

que não se oporiam a entrar em relações mais estreitas com ela. Ficou

estabelecido portanto que Miss Bennet era uma moça encantadora e Bingley

se sentiu autorizado, com esses elogios, a pensar nela da forma que

desejasse.

21

Capítulo V

A pouca distância de Longbourn, vivia uma família com que os

Bennet mantinham relações particularmente íntimas. Sir William Lucas fora

outrora comerciante em Meryton, onde acumulara uma fortuna regular e

onde, também, fora agraciado pelo rei com um título de cavaleiro, enquanto

exercia as funções de prefeito. A honra fora talvez demasiadamente

apreciada. Inspirara-lhe uma repulsa pelo seu negócio e pela pequena cidade

comercial em que habitava. Abandonando as duas coisas, mudou-se com a

família para uma casa situada a mais ou menos uma milha de Meryton, lugar

que depois ficou sendo chamado de Lucas Lodge, onde podia pensar com

prazer na sua própria importância e, livre dos negócios, dedicar-se

inteiramente à sociedade. Embora orgulhoso da sua posição, esta não o

tornou desdenhoso; ao contrário, Sir William era todo atenção para com os

outros. Por natureza inofensivo, amável e prestativo, a sua apresentação em

St. James o tornara polido e cortês.

Lady Lucas era uma mulher de bons sentimentos, cuja inteligência não

era demasiadamente brilhante para impedir que fosse uma vizinha preciosa

para Mrs. Bennet. Tinha vários filhos. A mais velha, uma moça ajuizada e

inteligente, de vinte e sete anos aproximadamente, era a amiga mais íntima

de Elizabeth.

Era absolutamente necessário que Mrs. Lucas e Mrs. Bennet se

encontrassem para discutir um baile a que tivessem assistido. E, na manhã

seguinte, Mrs. Lucas e a filha se dirigiram para Longbourn, a fim de trocar

impressões.

— Você começou bem a noite, Charlotte — disse Mrs. Bennet para

Miss Lucas. — Foi a primeira que Mr. Bingley escolheu para dançar.

— Sim, mas ele pareceu gostar mais do segundo par.

— Oh, você se refere a Jane, suponho eu, porque Mr. Bingley dançou

com ela duas vezes? Isto decerto leva a crer que ele a achou interessante.

Aliás estou certa de que este foi o caso. Ouvi falar a respeito disso, mas não

me lembro exatamente do que foi — qualquer coisa sobre Mr. Robinson.

— Talvez a senhora se refira ao que eu ouvi numa conversa entre ele e

Mr. Robinson: já não lhe contei isto? Mr. Robinson perguntou o que ele

achava do baile de Meryton, se não achava que havia grande número de

22

mulheres bonitas na sala. E perguntou também qual era a que ele achava

mais bonita. Mr. Bingley respondeu imediatamente: "Oh, a mais velha das

senhoritas Bennet, sem dúvida. Não deve haver duas opiniões a este

respeito".

— Palavra de honra — bem, a resposta foi de fato muito pronta —-,

parece até que... No entanto tudo pode dar em nada, você sabe.

— Você é que não ouviu conversas tão agradáveis, Eliza — disse

Charlotte. — As palavras de Mr. Darcy não foram tão amáveis quanto as de

seu amigo, não é? Pobre Eliza! Ser julgada apenas "tolerável"...

—- Peço-lhe que não incite Liza a ficar ressentida com a grosseria de

Mr. Darcy, pois é um homem tão desagradável que seria uma infelicidade ser

cortejada por ele. Mrs. Long me disse ontem que ele ficou sentado ao seu

lado durante meia hora sem abrir a boca uma só vez.

— A senhora tem certeza? Não haverá aí um pequeno engano? —

indagou Jane. — Estou certa de que vi Mr. Darcy falando com ela.

— Sim, porque ela perguntou afinal se ele gostava de Netherfield e ele

não teve outro remédio senão responder.

— Mas, segundo Mrs. Long, ele pareceu ficar muito aborrecido por

obrigarem-no a falar.

— Miss Bingley me disse — falou Jane — que ele é muito calado, a

não ser com as pessoas mais íntimas. Com estas se mostra notavelmente

agradável.

— Não acredito numa só palavra. Se fosse assim tão agradável, teria

conversado com Mrs. Long. Mas eu compreendo tudo; todo mundo diz que

ele é terrivelmente orgulhoso, e com certeza ouviu dizer que Mrs. Long não

tem carruagem e que teve de ir ao baile num carro alugado.

— Pouco me importa que ele não tenha conversado com Mrs. Long

— disse Miss Lucas —, mas eu queria que ele tivesse dançado com Eliza.

— Se eu fosse você, Lizzy — disse a mãe —, na próxima vez me

recusaria a dançar com ele.

— Creio que posso lhe prometer com segurança que nunca mais

dançarei com ele.

— O orgulho dele não me ofende tanto — disse Miss Lucas — como

o orgulho em geral, porque existe um motivo. Não é de admirar que um

rapaz tão distinto, com família, fortuna, tudo a seu favor, tenha de si mesmo

uma alta opinião. Se posso exprimir-me assim, ele tem o direito de ser

orgulhoso.

23

— Isto é bem verdade — replicou Elizabeth —, e eu perdoaria

facilmente o seu orgulho se ele não tivesse mortificado o meu.

— O orgulho — observou Mary, que se gabava da solidez das suas

reflexões — é um defeito muito comum, creio eu. Por tudo o que tenho

lido, estou mesmo convencida de que é muito comum, que a natureza

humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são

pouquíssimos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma

qualidade real ou imaginária! A vaidade e o orgulho são coisas diferentes,

embora as palavras sejam freqüentemente usadas como sinônimos. Uma

pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com

a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos

que os outros pensassem de nós.

— Se eu fosse tão rico quanto Mr. Darcy — gritou um jovem Lucas,

que tinha vindo com as irmãs —, não me importaria de ser orgulhoso, teria

uma matilha de perdigueiros e beberia uma garrafa de vinho todos os dias.

— Nesse caso você beberia muito mais do que deveria — disse Mrs.

Bennet. — E se eu o visse ocupado desse modo, arrebatar-lhe-ia a garrafa

imediatamente.

O menino contestou que ela fizesse tal coisa. Ela continuou a declarar