Os Cinco e a Torre do Sábio por Enid Blyton - Versão HTML

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Enid Blyton

Os Cinco e a Torre do Sábio

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Colecção JUVENIL - 21

Editorial Notícias

Este livro foi digitalizado para

ser lido por Deficientes Visuais

Enid Blyton

Os Cinco e a Torre do Sábio

Título Original FIVE ARE TOGETHER AGAIN

Tradução de Maria da Graça Moctezuma

Editorial Notícias

EMPRESA NACIONAL DE PUBLICIDADE

Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da E. N. P.

(Secção Anuário Comercial de Portugal)

Índice

Capítulo I – Começam as férias

Capítulo II – Planos para os Cinco

Capítulo III - O Buzina e o Diabrete

Capítulo IV - A Catarina tem uma bela ideia

Capítulo V - O Circo ambulante

Capítulo VI - Preparativos para acampar

Capítulo VII - No terreno do Circo

Capítulo VIII - O chimpanzé Carlinhos dá uma boa ajuda

Capítulo IX - Umas horas muito agradáveis

Capítulo X - À volta da fogueira

Capítulo XI - Durante a noite escura

Capítulo XII - Um grande choque para o Buzina

Capítulo XIII - Uma porção de projectos

Capítulo XIV - À procura de uma escada

Capítulo XV - Um dia bem passado e o Júlio tem uma surpresa

Capítulo XVI - Durante a noite na Ilha de Kirrin

Capítulo XVII – Finalmente descobre-se o mistério

1

1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.

Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

Capítulo I

Começam as férias

- Zé, não consegues estar quieta pelo menos um minuto? - repreendeu

Júlio. - Já bastam os solavancos que o comboio dá, quanto mais passares sobre

os meus pés de minuto a minuto para ires à janela.

- Estamos quase a chegar a Kirrin, estamos quase em casa! - exclamou a

Zé. - Não consigo deixar de me sentir excitada. Neste período tive tantas

saudades do Tim! Estou morta por o ver outra vez. Basta olhar pela janela para

verificar que já estamos muito perto de Kirrin. Acham que o Tim estará na

estação à nossa espera a ladrar de contente?

- Não sejas palerma! - disse David. - Ele é um cão muito inteligente mas

não o bastante que saiba consultar os horários dos comboios.

- Também não precisa - respondeu Zé. - Ele sabe sempre quando é que eu

chego.

- Concordo contigo - disse a Ana muito séria. - A tua mãe tem contado que

ele está excitado no dia em que chegas do colégio, para férias. Não consegue

estar quieto e vai dezenas de vezes ao portão olhar para a estrada.

- Meu querido Tim! - exclamou a Zé voltando a pisar o Júlio, para ir mais

uma vez à janela. - Já estamos muito perto. Reparem! Reparem!

Os três primos da Zé olharam para ela muito divertidos. Ela era sempre

assim, quando voltava para casa, no princípio das férias. Só tinha no

pensamento o seu cão Tim!

O Júlio ao olhar para a prima pensou como ela realmente parecia um

rapazinho com o seu cabelo curto e encaracolado e a sua expressão viva e

decidida. A Zé sempre desejara ser um rapaz mas como o não era, esforçava-se

por parecê-lo, falando e portando-se como tal e nunca respondendo quando a

tratavam por Maria José, o seu verdadeiro nome.

- Estamos a chegar à ilha Kirrin! - gritou a Zé quase caindo da janela. - Já

vejo o homem das bagagens! Olá! Pedro! Cá estamos de volta? AQUI

ESTAMOS!

O comboio parou na estação de Kirrin e o Pedro, o bagageiro, saudou-os

sorrindo. Conhecia a Zé desde pequenina. Ela abriu aporta do compartimento e

saltou para o chão.

- Outra vez em Kirrin! Que bom! Espero que o Tim tenha vindo à estação!

Mas não se via o Tim em parte alguma.

- Naturalmente esqueceu-se de que tu vinhas hoje - disse David, rindo,

mas a Zé deu-lhe logo uma descompostura. O Pedro aproximou-se, todo

sorridente, dando-lhe as boas-vindas. Toda a gente da Vila Kirrin conhecia os

Cinco, ou seja, os quatro pequenos e seu cão Tim.

Pedro em breve juntava a bagagem das crianças e levava-a no seu

carrinho, pela gare.

- Eu mando-a entregar no Casal Kirrin - disse ele. - Tiveram boas notas?

- Bastante boas - disse David. - Mas este período parecia nunca mais ter

fim porque este ano a Páscoa veio muito tarde. Reparem como estão lindas as

maravilhas dos canteiros da estação.

Mas a Zé não podia reparar em nada, naquele momento, pois continuava à

procura do Tim. Onde estaria? PORQUE não fora à estação para a receber? Veio

da última vez e também da penúltima! A Zé voltou-se para o David, muito

preocupada.

- Achas que estará doente? - perguntou. - Ou ter-se-á esquecido de mim?

Ou...

- Não sejas parva, Zé - disse David. - Naturalmente está em casa e não

conseguiu sair. Toma cuidado, o carro das bagagens quase te ia atropelando!

A Zé desviou-se, sempre a olhar para toda a parte. Onde estaria o Tim?

Tinha a certeza de que adoecera ou tivera um desastre ou estava preso, no canil.

Talvez a Joana, a cozinheira, se tivesse esquecido de soltá-lo.

- Vou de táxi para casa, se o meu dinheiro chegar - disse ela, procurando o

porta-moedas. - Vocês podem seguir a pé. Preciso de saber o que aconteceu ao

Tim. Nunca até hoje se esqueceu de nos vir esperar.

- O passeio até ao casal Kirrin é tão bonito, Zé! - disse a Ana. - Bem sabes

como gostas de ver a tua ilha, a nossa querida ilha Kirrin, enquanto

caminhamos para casa. E a baía com as ondas batendo nos rochedos!

- Vou de táxi - disse a Zé, teimosa, contando o seu dinheiro. - Se quiserem

podem vir comigo. Neste momento só me interessa ver o Tim e não penso em

ilhas, nem rochedos, nem nada disso. Estou convencida de que ele está doente

ou teve algum desastre.

- Está bem, Zé, faz como quiseres - disse Júlio. - Espero que encontres o

Tim de perfeita saúde e que apenas se tenha esquecido da hora do comboio! Até

já!

Os dois rapazes e a sua irmã Ana partiam juntos, a pé, pois apetecia-lhes

imenso darem um passeio até ao Casal Kirrin. Como era agradável voltarem a

ver a Baía Kirrin e a ilha da Zé!

- Ela tem imensa sorte de possuir uma ilha! - disse a Ana. - É engraçado

que tenha pertencido a sua família durante imensos anos e um dia a mãe a

tenha oferecido à Zé! Até aposto que ela se fartou de a pedir à tia Clara, até que

a pobre senhora não teve outro remédio senão oferecer-lha! Espero que o Tim

esteja bem. Nem poderíamos gozar as nossas férias se alguma coisa tivesse

acontecido ao Tim!

- Se adoecesse, naturalmente a Zé iria viver com ele para o canil - disse o

David, rindo. - Ora reparem! Já se vê o mar da Baía Kirrin e a pequenina ilha,

tão bonita como sempre!

- E as gaivotas esvoaçando em redor, gritando como gatinhos a miar -

acrescentou o Júlio. - E no meio da ilha o castelo em ruínas. Curioso, não caiu

nem mais uma pedra!

- É impossível veres isso a esta distância - disse Ana, apurando a vista. -

Vocês não acham que o primeiro dia de férias é um autêntico sonho? Parece que

temos imenso tempo de descanso à nossa frente.

- Pois é, mas ao fim de alguns dias, as férias parecem fugir - disse Júlio. -

Naturalmente a esta hora, a Zé já chegou a casa.

- O táxi passou por nós a grande velocidade - disse o David. - Até aposto

que a Zé foi todo o tempo a gritar ao motorista para seguir mais depressa!

- Olhem, ali está o Casal Kirrin. Já vejo as chaminés - disse David. - Está a

sair fumo por uma delas.

- Que esquisito, porque sairá fumo só por uma? - notou o Júlio. A esta hora

costuma estar aceso o fogão da cozinha e a lareira do escritório do tio Alberto.

Bem sabem como ele se sente gelado enquanto trabalha naqueles intermináveis

números das suas invenções.

- Talvez o tio Alberto não esteja em casa - lembrou a Ana, sorrindo-lhe a

ideia. Sempre tivera um certo medo do génio intempestivo do pai da Zé. - Acho

que fazia bem ao tio Alberto, ter umas fèriazitas de vez em quando. Passa os

dias mergulhado em colunas de números.

- Esperemos não o incomodar muito - disse Júlio. - A tia Clara tem uma

vida difícil quando ele desata aos gritos constantemente.

Vamos passar a maior parte do tempo fora de casa.

Estavam agora já bastante perto do Casal Kirrin. Quando chegaram ao

portão do jardim, viram a Zé correndo para eles. Os três pequenos sentiram-se

horrorizados ao perceber que ela soluçava, num pranto.

- Ai meu Deus, alguma coisa deve ter acontecido ao Tim - disse o Júlio

assustado. - A Zé nunca chora! Que terá acontecido?

Começaram a correr em direcção à prima e a Ana gritou:

- Zé! Zé! Que se passa? Aconteceu alguma coisa ao Tim?

- Não podemos ficar em casa - disse a Zé, soluçando. - Temos que ir para

qualquer outro sítio. Aconteceu uma coisa horrível.

- O que foi? Conta-nos depressa! - pediu o David, assustado. - O Tim fugiu

ou coisa assim?

- Não, não é nada que diga respeito ao Tim - disse a Zé, limpando os olhos

com a mão, pois, como de costume, esquecera-se do lenço. - É a Joana, a nossa

querida cozinheira.

- Que lhe aconteceu? - perguntou Júlio, pensando em toda a espécie de

coisas horríveis.

- A Joana está com escarlatina - disse a Zé, chorando. - Por isso não

podemos ficar no Casal Kirrin.

- Mas por que motivo? - perguntou David. - A Joana terá que ir para um

hospital de doenças infecciosas e por isso nós podemos ficar todos no Casal

Kirrin a ajudar a tua mãe. Pobre Joana! Mas anima-te, Zé. Hoje em dia a

escarlatina já não é uma doença muito perigosa. Vamos entrar para

consolarmos um pouco a tua mãe. Pobre tia Clara, deve andar ocupadíssima,

mais a mais com todos nós chegando para férias. Mas não tem importância, nós

podemos...

- Cala-te, David! - interrompeu a Zé, desesperada. - Nós não podemos

ficar no Casal Kirrin. A mãe nem me deixou entrar em casa. Mandou-me

esperar no jardim pois o médico estava a chegar.

Alguém chamou os pequenos, duma janela do Casal Kirrin.

- Meninos, estão todos aí? Júlio, aproxima-te, por favor.

Entraram todos no jardim e viram a tia Clara, a mãe da Zé, debruçada da

janela de um dos quartos de dormir do primeiro andar.

- Oiçam, meus queridos - disse ela. - A Joana está com escarlatina e

estamos à espera de uma ambulância para a levar para o hospital, e...

- Tia Clara não se preocupe. Todos nós a podemos ajudar - disse o Júlio

animando a tia.

- Querido Júlio, não estás a perceber - disse a tia Clara. - Nem o teu tio

Alberto nem eu tivemos a escarlatina, por isso estamos de quarentena e

ninguém deve ficarem contacto connosco, não vá a Joana ter-nos pegado e por

nossa vez pegarmos às outras pessoas. Até lhes podemos pegar a vocês quatro.

- O Tim também pode apanhar escarlatina? - perguntou a Zé, continuando

a chorar.

- Não, claro que não. Não sejas pateta, Zé - respondeu a mãe. - Alguma

vez ouviste dizer que um cão apanhasse sarampo ou tosse convulsa ou

qualquer outra das nossas doenÇas? O Tim não está de quarentena. Podem ir

buscá-lo ao canil.

A cara da Zé ficou logo mais desanuviada e ela correu para as traseiras da

casa chamando pelo Tim. Ouviram-se logo uma quantidade de latidos!

- Tia Clara, que vamos nós fazer agora? - perguntou Júlio. - Não podemos

ir para casa dos meus pais, pois como sabe eles ainda estão na Alemanha. Acha

que devemos ir para um hotel?

- Não, meu filho. É preciso pensar noutro sítio melhor - disse a tia Clara. -

Santo Deus, o Tim está a fazer imenso barulho! Pobre Joana, tem uma horrível

dor de cabeça.

- Lá vem a ambulância - disse a Ana, na altura em que uma ambulância do

hospital parava em frente do portão. A tia Clara saiu da janela para ir prevenir a

Joana. O homem da ambulância entrou pela porta da frente, seguido pelo

ajudante que levava uma maca. As quatro crianças observavam a cena com

atenção.

- Vão buscar a Joana - disse Júlio. E na verdade em breve aparecia a maca

com a Joana toda embrulhada em cobertores.

Ela acenou aos pequenos, enquanto os homens a transportavam para a

ambulância.

- Hei-de voltar depressa - disse ela numa voz bastante fraca. - Ajudem a

senhora. Tenho muita pena que isto tenha acontecido.

- Pobre Joana! Coitada! - disse a Ana com lágrimas nos olhos. - Volta

depressa, Joana! Vamos sentir muito a tua falta.

A porta da ambulância fechou-se e o carro afastou-se, devagar.

- Que vamos fazer agora? - disse David, voltando-se para o Júlio. - Não

podemos ir para casa. Não podemos aqui ficar! Oh, lá vem o Tim! Olá Tim,

como estás, amigo? Ainda bem que não podes apanhar escarlatina! Não vale

atirares-me ao chão! Já para baixo! Santo Deus, dás umas lambedelas temíveis!

O Tim era o único dos Cinco que se conservava satisfeito. Os outros

estavam na verdade bastante aborrecidos. Que deveriam fazer? Para onde

poderiam ir? Que horrível princípio de férias! Para baixo Tim, para BAIXO!

Quieto! Até parecia que nunca ouvira falar em escarlatina. Quieto, Tim!

Capítulo II

Planos para os Cinco

A Zé continuava muito preocupada. Afinal ao seu receio que o Tim

estivesse doente ou ferido seguira-se o desgosto de ver a Joana ser levada na

ambulância.

- Não chores mais, Zé - disse Ana. - Temos que arranjar uma maneira

sensata de resolver o problema.

- Vou procurar a mãe - disse a Zé. - Não me interessa que ela esteja de

quarentena ou não.

- Não consinto - disse Júlio, agarrando-a com firmeza por um braço. -

Sabes muito bem o que significa “quarentena”. Quando tiveste tosse convulsa,

não deixaram que nenhum de nós te visitasse para não nos pegares a tosse.

Tinhas uma doença infecciosa e por isso não pudeste estar em contacto com

ninguém, pelo menos durante algumas semanas. Parece-me que para a

escarlatina são apenas quinze dias, por isso anima-te.

A Zé continuava a chorar tentando pôr-se fora do alcance da mão do Júlio.

Este piscou o olho ao David e depois disse uma coisa que fez logo com que a Zé

se dominasse.

- Parece impossível, Maria José! - exclamou ele. - Estás a portar-te como

uma menina chorona. Pobre Maria José. Coitadinha da Maria José!

A Zé parou logo de chorar e olhou furiosa para o Júlio. A coisa que mais

detestava era que alguém lhe dissesse que estava a portar-se como uma menina.

E também era horrível ser tratada pelo seu nome, Maria José! Deu ao Júlio um

valente soco e este riu-se, defendendo-se.

- Assim é melhor - disse ele. - Anima-te! Repara como o Tim olha para ti

tão admirado. Parece-me que é a primeira vez que te vê chorar!

- Eu NÃO estou a chorar! - gritou a Zé. - Eu estou só... bem, estou

preocupada por causa da Joana. E é horrível não termos nenhum sítio para

onde ir.

- Estou a ouvir a tia Clara telefonar - disse a Ana que tinha muito bom

ouvido. Depois fez uma festa na cabeça do Tim que lhe lambeu a mão. Recebera

os pequenos cheio de alegria, ladrando muito contente e distribuindo

lambedelas a torto e a direito. Ficara doido de alegria ao voltar a ver a Zé e

tivera uma surpresa ao perceber que ela estava triste. Querido Tim, na verdade

ele pertencia ao grupo dos Famosos Cinco!

- Vamos sentar-nos à espera de notícias da tia Clara - propôs Júlio,

sentando-se na relva. - Parecemos uns palermas aqui parados, em frente do

Casal Kirrin. A tia Clara não tardará em aparecer à janela. Certamente arranjou

uma boa solução para o nosso caso. TIM, quieto! Não posso ficar aqui sentado

se continuas a lamber-me o pescoço dessa maneira!

Daqui a pouco, mando-te buscar uma toalha para me limpares.

A frase espirituosa do Júlio fez com que todos se sentissem mais

animados. Sentaram-se na relva e o Tim ia brincando com cada um. Ali estava a

sua “família” de volta e isso era a coisa melhor que lhe podia acontecer. Acabou

por se sentar com a cabeça sobre o colo da Zé. Esta fazia-lhe festas com a mão.

- A tia Clara desligou agora o telefone - disse a Ana. - Não tardará em

aparecer à janela.

- Tens melhor ouvido do que um cão, pelo menos ouves o mesmo que o

Tim - disse David. - Não ouvi nada!

- Ali está a mãe! - exclamou a Zé, pondo-se de pé dum salto logo que a tia

Clara se debruçou da janela.

- Já está tudo arranjado - disse ela. - Estive a telefonar àquele cientista com

quem o teu pai tem trabalhado, o professor Hayling. Tencionava vir aqui passar

um ou dois dias e quando lhe expliquei que não era possível por estarmos de

quarentena, ele disse logo que vocês podiam ir todos para sua casa e que o

Buzina, o seu filho, vocês lembram-se dele, não é verdade?, ficaria encantado

com a vossa companhia.

- O Buzina? Sim, lembro-me muito bem. É impossível esquecê-lo, ao

Buzina e ao seu macaco - disse Júlio. - É o pequeno a quem pertence aquele farol

nos Rochedos do Demónio, não é verdade? Nós fomos ali passar uns dias com

ele e tivemos uma bela aventura.

- Mas desta vez não vão para o farol - disse a tia Clara. - Parece que uma

tempestade lhe causou grandes estragos e agora é perigoso viver lá.

Os Cinco soltaram exclamações de aborrecimento, um tanto desiludidos e

o Tim fez coro com eles como de costume.

- Então para onde vamos? Para casa do Buzina? - perguntou David.

- Isso mesmo. Podem apanhar a camioneta que passa por Ravina Grande,

onde vive o Professor Hayling - disse a tia Clara. - Devem ir ainda hoje. Sinto

muito tudo o que se passa, meus filhos, mas são coisas que devemos encarar

com calma. Estou convencida que se divertirão com o Buzina e o seu macaco.

Como se chama o macaco?

- Diabrete! - responderam todos ao mesmo tempo, e a Ana sorriu ao

lembrar-se daquele endiabrado animalzinho.

- A camioneta deve passar daqui a dez minutos - disse a tia. - Júlio, se

vocês não conseguem levar a vossa bagagem toda até à camioneta, pede ao

jardineiro que vos ajude. E divirtam-se, meus queridos. Mandem-me um ou

dois postais. Eu também lhes darei notícias nossas. Espero que nem eu nem

vosso tio apanharemos escarlatina, por isso não se preocupem. Também lhes

vou mandar algum dinheiro. Agora é melhor irem depressa apanhar a

camioneta.

- Está bem, tia Clara e muito obrigado! - disse Júlio. - Tomarei conta de

todos e não os deixarei fazer asneiras, especialmente a Zé! Não fique

preocupada. E espero que a tia e o tio Alberto não tenham escarlatina. Adeus!

Dirigiram-se todos para o portão, onde ficara a bagagem.

- Ana, vai já para a estrada e faz sinal à camioneta quando a vires -

ordenou o Júlio. - Depois o David e eu subiremos com as malas. Vamos a ver o

que se passará com o Buzina, lá em casa do Professor. Tenho um

pressentimento que vai ser bem divertido.

- Não me parece - disse a Zé, aborrecida. - Eu gosto do Buzina; ele é

engraçado e o macaquinho então é um amor. Tão endiabrado! Mas por outro

lado, vocês não se lembram do inferno que foi quando o pai do Buzina passou

uns dias em nossa casa? Foi horrível! Nunca se lembrava de aparecer à hora das

refeições e andava sempre a perder o casaco, o lenço ou o porta-moedas e

também perdia a calma com grande facilidade! Fiquei farta dele!

- E naturalmente ele também ficou farto de nós! - disse Júlio. - Não devia

achar nada divertido ter quatro diabos à sua volta, sobretudo quando se

encontrava a trabalhar. E não falando no Tim, este cão, que gosta de distribuir

lambedelas por toda a gente.

- O Tim nunca lhe deu nenhuma lambedela - disse logo a Zé, ficando

zangada. - Não gosto nada do pai do Buzina.

- Bem, mas não te ponhas com essa cara de tempestade - disse o Júlio. -

Estou convencido que ele também não gosta de nenhum de nós, mas foi muito

amável em nos ter convidado para a sua casa na Ravina Grande e por isso nós

devemos portar-nos bem. Não mostres essa cara amuada, Zé, mesmo que ele se

atreva a reprovar qualquer coisa que o Tim faça.

- É melhor que não se atreva - disse a Zé. - Na verdade estou bastante

disposta a não ir. Acho que fico com o Tim, na estufa ao fundo do jardim.

- Era só o que faltava! - exclamou Júlio, agarrando a prima com firmeza

por um braço. - Tens que ser simpática. Vem connosco e porta-te bem! Oiçam, lá

vem a camioneta. Vamos acenar ao motorista e esperemos que haja lugares.

A Ana mandou parar a camioneta e correu para a porta de trás, pedindo

ao condutor se os podia ajudar a subir as malas. Ele conhecia-os muito bem e

desceu logo.

- Desta vez voltam para o colégio muito cedo - disse ele. - Julgava que

tinham começado as férias!

- Pois não se enganou - disse Júlio. - Mas nós vamos passar uns dias à

Ravina Grande. A camioneta passa por lá, não é verdade?

- Sim, passamos mesmo pelo meio da vila - disse o condutor, pegando em

três malas ao mesmo tempo, causando inveja ao Júlio. - Onde se vão hospedar?

- Em casa do Professor Hayling - respondeu Júlio. - Parece-me que

também se chama Ravina Grande, tal como a vila.

- Ah, passamos lá mesmo em frente - disse o condutor. - Mandarei parar a

camioneta à porta, e assim poderei ajudá-los a tirar as malas. Os meninos têm

que andar na “linha” enquanto ali estiverem, pois como sabem o Professor

Hayling é muito estranho. Ferve em pouca água. Uma vez um cavalo entrou no

seu jardim e podem crer que ele perseguiu o cavalo por mais de dois

quilómetros, gritando-lhe durante todo o caminho. E vejam lá que ao voltar

para casa, completamente estafado, encontrou o cavalo a comer outra vez a erva

do seu jardim! O cavalo era muito espertalhão e cortara por um atalho! Por isso

bem vêem que é preciso terem cuidado com a maneira como se vão portar na

Ravina Grande. O Professor pode zangar-se, metê-los dentro de uma das suas

esquisitas máquinas e fazê-los em picado para pastéis... - concluiu gracejando.

Os quatro riram-se.

- O Professor é boa pessoa - disse Júlio. - Um tanto distraído como a

maioria dos cientistas que só se preocupam com um trabalho intelectual. O meu

cérebro trabalha muito devagar, mas o do meu tio Alberto, por exemplo

trabalha a 100 à hora. E até aposto que o do Professor tem a mesma velocidade.

Mas nós havemos de nos entender.

A camioneta foi seguindo pela estrada entre Kirrin e a Ravina Pequena e

depois até à Ravina Grande. As quatro crianças contemplavam a paisagem, pela

janela, no percurso à beira da costa. O mar brilhava tão azul como miosótis e

mais uma vez viram a ilha Kirrin, no meio da grande baía.

- Quem me dera lá ir - disse a Zé. - Um destes dias temos que ali fazer um

divertido piquenique. Gostava que o Buzina visitasse a minha ilha. Ele pode

possuir um farol mas ser dona de uma ilha ainda é muito melhor.

- Também concordo - disse Júlio. - O farol do Buzina é realmente muito

bonito, e tem uma vista maravilhosa, mas a ilha Kirrin, tem qualquer coisa de

inexplicável que adoro! As ilhas são diferentes de tudo o mais.

- Sim, tens razão - disse Ana. - Também gostava de ter uma, muito

pequenina, para que a pudesse ver toda só com um olhar, e com um

subterrâneozinho para dormir, onde só eu coubesse.

- Depressa te sentirias muito só - disse David, dando à irmã uma palmada

amigável. - Tu gostas de ter outras pessoas à tua volta com quem possas

conversar.

- E o Tim também - disse Júlio, e o Tim saiu do seu lugar, junto da Zé e foi

farejar a maleta que um velhote segurava; este fez-lhe logo uma festa e deu-lhe

um biscoito que tirou dum cartucho.

- O Tim não se importa de estar no meio de muita gente desde que haja

uma ou duas pessoas dispostas a darem-lhe um biscoito ou um osso, não é

verdade, Tim? - disse a Ana.

- Vem cá, Tim - disse a Zé. - Não deves andar a pedir de comer, como se

andasses esfomeado! Estou convencida de que te alimentas melhor do que

qualquer outro cão de Kirrin! Quem está sempre disposto a comer o jantar do

gato? Vá, responde!

O Tim deu à Zé uma grande lambedela e sentou-se a seu lado, com a

cabeça sobre os pés da dona. Levantava-se cheio de delicadeza, cada vez que

alguém entrava ou saía da camioneta. O condutor estava encantado.

- Gostava que todos os cães que entram nesta camioneta se portassem tão

bem como este - disse ele à Zé'.

- Agora é melhor prepararem-se para descer. A nossa próxima paragem

costuma ser um pouco acima da Ravina Grande mas eu vou pedir ao motorista

que pare um momento mesmo em frente da casa do Professor, para vocês

descerem.

- Muitíssimo obrigado - disse Júlio, agradecido; e quando a camioneta

parou, passado uns momentos, com um grande solavanco, os Cinco estavam

prontos a descer.

A camioneta seguiu, deixando-os em frente duma grande cancela de

madeira. Atrás via-se uma boa casa, meio escondida por árvores grandiosas.

- Ravina Grande! - exclamou o Júlio. - Finalmente chegámos. É um lugar

estranho, um tanto misterioso e sombrio.

Agora vamos procurar o Buzina. Estou convencido que vai gostar de nos

ver, especialmente o Tim! Ajuda-me a levar as malas, David.

Capítulo III

O Buzina e o Diabrete

Os quatro e o cão entraram, empurrando a cancela que rangeu

furiosamente. O Tim ficou muito admirado ao ouvir aquele barulho e desatou a

ladrar.

- Chiu! - ralhou a Zé. - Vais ter um sarilho com o Professor se continuares a

fazer tal barulheira. Julgo que teremos de falar sempre em sussurro, para não o

incomodar. Por isso vê lá se também consegues ladrar em sussurro.

O Tim soltou um pequeno ganido. Era-lhe impossível sussurrar. Foi

andando ao lado da Zé enquanto todos avançavam pela ladeira íngreme que

seguia até à casa. Esta era bastante original, com pouquíssimas janelas.

- Acho que o Professor Hayling tem medo que alguém venha espreitar o

seu trabalho - disse a Ana. - É muitíssimo secreto, não é verdade?

- Sei que trabalha com milhares e milhares de números! - disse David. - O

Buzina contou-me um dia que o seu macaco Diabrete uma vez, quando era

pequenino, engoliu uma folha cheia de números, e o Professor Hayling

perseguiu-o durante mais de uma hora, na esperança de o apanhar e reaver

pelo menos um pedacinho de papel que ainda estivesse na sua boca, para assim

conseguir salvar alguns dos seus números, mas o Diabrete fugiu para uma toca

de coelho e não voltou a aparecer durante dois dias.

Todos se riram ao pensar no pobre Diabrete escondido numa toca de

coelho.

- Tu não conseguias fazer o mesmo - disse o Júlio para o Tim. - Por isso

tem cuidado com qualquer papel que resolvas engolir.

- O Tim nunca faria tal parvoíce - disse logo a Zé. - Sabe muito bem o que

pode comer ou não.

- Ai sim? - disse a Ana. - Então sempre gostava de saber que espécie de

comida pensou ele que era um dos meus chinelos para que o tivesse roído todo

nas últimas férias!...

- Não inventes histórias a seu respeito - disse a Zé. - Só o roeu porque

ficou fechado no teu quarto e não tinha mais nada que fazer.

- Uuuuf! - fez o Tim, concordando. Deu uma lambedela na mão da Ana,

como se quisesse dizer: - Desculpa, Ana, mas eu estava tão aborrecido!

- Querido Tim, eu desculpar-te-ia mesmo que tivesses roído todos os meus

chinelos - disse Ana. - Mas seria melhor se tivesses escolhido outros mais

velhos.

O Tim de repente parou, olhando para os arbustos. Soltou uma rosnadela.

A Zé segurou-o logo pela coleira, pois na Primavera sempre temia que

aparecesse uma cobra.

- Pode ser uma víbora - disse ela. - O cão da minha vizinha pisou uma, no

ano passado, segundo me contaram, e ficou com uma perna inchadíssima e

cheio de dores.

Vamo-nos embora, Tim, é uma víbora, com dentes cheios de veneno.

Mas o Tim continuava a rosnar e de repente pôs-se muito quieto,

farejando. Soltou um latido de satisfação e conseguiu afastar-se da Zé, saltando

para os arbustos. Logo em seguida apareceu não uma víbora mas sim o

Diabrete, o macaquinho do Buzina!

O macaco deu um salto para cima do cão, agarrando-se com os dedos à

coleira do bom amigo, guinchando muito contente. O Tim ia quase torcendo o

pescoço para virar a cabeça e lamber o macaco.

- Diabrete! - exclamaram todos, encantados. - Vieste receber-nos!

O macaquinho dizia qualquer coisa na sua linguagem de macaco, e saltou

primeiro para o ombro da Zé, depois para o do Júlio. Puxou o cabelo do Júlio e

torceu-lhe uma orelha, depois saltou para o David e dali para o ombro da Ana.

Agarrou-se ao pescoço da pequena e com os seus olhos castanhos muito

brilhantes, parecia feliz.

- Olhem como ele ficou satisfeito por nos tornar a ver! - exclamou a Ana

encantada. - Diabrete, onde está o Buzina?

O Diabrete saltou do ombro da Ana e começou a seguir em frente como se

tivesse percebido o que a Ana dissera. As crianças correram atrás dele e nessa

altura ouviu-se uma voz de trovão, vinda do lado esquerdo.

- Que fazem aqui? Já embora! Esta propriedade é particular. Vou chamar a

polícia! Já embora!

Os Cinco pararam, assustados e então o Júlio viu o Professor Hayling! O

pequeno dirigiu-se-lhe logo, cumprimentando-o.

- Boa-tarde, sr. Professor - disse ele - espero que não o tenhamos

incomodado, mas como sabe convidou-nos por intermédio da minha tia Clara

para aqui passarmos uns dias.

- Vossa tia? Quem è a vossa tia? Não conheço nenhuma tia! - gritou o

Professor. - Vocês são turistas, tenho a certeza. Vão meter o nariz no meu

trabalho só porque leram alguma estúpida notícia a esse respeito em qualquer

jornal. Hoje já é o terceiro grupo a incomodar-me. Já embora e levem o cão!

- Mas, Sr. Professor, realmente já não se lembra de nós? - perguntou o Júlio

pasmado. - Ainda há pouco esteve hospedado em casa dos meus tios e...

- Que grande intrujice! Já não vou para fora há imensos anos - gritou o

Professor.

O Diabrete, o macaco, estava tão assustado que foi esconder-se nos

arbustos, parecendo chorar.

- Espero que o Diabrete vá buscar o Buzina - disse o Júlio em voz baixa ao

David. - O Professor esqueceu-se de quem somos e porque estamos aqui. É

melhor afastarmo-nos.

Mas na altura em que iam voltar para trás, seguidos pelo Professor,

zangado, alguém os chamou em voz alta e apareceu o Buzina a correr com o

Diabrete ao ombro, agarrado ao seu cabelo. O macaquinho fora realmente

chamá-lo. - Que esperto! - pensou o Júlio, aliviado.

- Pai! Não esteja a gritar com os nossos amigos - pediu o Buzina, aos pulos

em frente do seu pai. - Foi o pai que os convidou!

- Que ideia, não convidei ninguém! - declarou o Professor. - Quem são

estes miúdos?

- Aquela menina ali, a Zé, é filha do seu amigo, o Sr. Dr. Alberto, e os

outros são sobrinhos. E aquele é o cão deles, o Tim. O pai disse que viessem

todos cá para casa porque o Sr. Doutor e a Sra. Clara estão em quarentena por

causa da escarlatina - gritou o Buzina sempre aos pulos diante do pai.

- Fica um momento quieto - disse o professor, zangado. - Não me lembro

de os ter convidado. Se assim fosse teria prevenido a nossa criada Catarina.

- Mas o pai disse-lhe! - garantiu o Buzina pondo-se outra vez aos pulos no

que foi logo imitado pelo macaco. - Ela já está a fazer as camas. Êu estive a

ajudá-la. E ela manda-lhe perguntar se não gostou do seu pequeno almoço

porque nem o provou e já são quase horas do almoço. A Catarina levou-o para a

cozinha.

- Ah! Agora já percebo porque tenho tanta fome! - disse o Professor

Hayling e começou a rir-se. As suas gargalhadas eram tão francas e

comunicativas que as crianças também se puseram a rir. Que senhor tão

original! Tão inteligente, um cientista tão famoso, com montanhas de sabedoria

dentro da cabeça e no entanto sem a mais pequena memória para coisas

vulgares, tais como um pequeno almoço, umas visitas ou uma chamada

telefónica.

- Foi apenas um mal-entendido, Sr. Professor - disse o Júlio delicadamente.

- O Sr. Professor foi muitíssimo amável por nos ter convidado a passar aqui uns

dias enquanto não podemos estar em casa por causa do contágio da escarlatina.

Faremos os possíveis para não o incomodar e se o pudermos ajudar em

qualquer coisa, é favor dizer-nos. Verá que faremos o menos barulho possível.

- Estás a ouvir, Buzina? - perguntou o Professor Hayling, virando-se de

repente para o filho. - Porque não segues este exemplo, fazendo pouco barulho

e não me aborrecendo? Bem sabes que ando ocupadíssimo com um invento da

maior importância.

Depois o Professor virou-se para o Júlio e continuou:

- Terei muito prazer em recebê-los se conseguirem que o Buzina não me

incomode. E NINGUÉM, absolutamente NINGUÉM, deve entrar na torre.

Compreendido?

Todos olharam para onde o Professor estava a apontar e viram uma torre

muito alta e esguia elevando-se acima das árvores. No cimo tinha umas hastes

viradas para todos os lados, que mais pareciam uns tentáculos, baloiçando

ligeiramente ao vento.

- E não façam perguntas sobre a torre - prosseguiu o Professor, olhando

com ar severo para a Zé. - O teu pai é a única pessoa, sem ser eu, que sabe em

que estou a trabalhar e esse é de inteira confiança.

- Pode estar descansado, Sr. Professor, que nenhum de nós teria sequer a

ideia de ir espreitar - garantiu o Júlio. - Creia que considero uma grande

amabilidade ter-nos convidado para a sua casa e se consentir até poderemos

ajudá-lo no que for preciso.

- Pareces um bom rapazinho - disse o Professor que agora estava mais

calmo. - Por agora despeço-me para ir tomar o pequeno almoço. Espero que

haja ovos com presunto. Estou com muito apetite.

- Pai, a Catarina já levou o pequeno almoço para a cozinha. Disse-lhe isso

agora mesmo - repetiu o Buzina, desesperado. - Agora são mas é horas do

almoço!

- Ah, está bem, está bem - disse o Professor. - Vou imediatamente. Acho

que a Catarina escusava de levantar a mesa antes de eu comer o pequeno

almoço.

E o Professor dizendo isto foi para dentro de casa, seguido pelas cinco

crianças, o Tim e o Diabrete, todos com um ar um tanto aborrecido. Na verdade

era impossível! Qual seria a próxima distracção do Professor?

A Catarina preparara um belíssimo almoço para todos. Havia um guisado

saboroso de carne com batatas, cenouras, cebolinhas e ervilhas, tudo com muito

molho. Todos se serviram com apetite e o Diabrete, que adorava ervilhas, de

vez em quando conseguia chegar ao prato do Buzina com a sua mão pequenina,

e tirava do molho uma ervilha.

As pequenas ajudaram a Catarina a servir a sobremesa, um grande pudim

de pão cheio de passas. O Diabrete desatou aos pulos, muito contente pois

também adorava passas. Saltou para cima da mesa, recebendo uma palmada do

Professor Hayling que por pouca sorte acertou ao mesmo tempo no prato do

pudim fazendo com que este desse um salto no ar.

- Oh, pai, íamos ficando sem pudim! - exclamou o Buzina. - E logo o

pudim meu favorito. Por favor não nos dê umas fatias tão pequeninas. Diabrete,

sai de cima da mesa. Não metas a mão no molho.

O Diabrete resolveu desaparecer por baixo da mesa, onde recebeu uma

quantidade de passas oferecidas por várias mãos, às escondidas do Professor. O

Tim sentia-se um tanto deslocado. Também estava por baixo da mesa, pois

tinha um certo medo da voz zangada do Professor mas como não apreciava

passas não tinha tanta sorte como o Diabrete.

- Bela refeição - disse o Professor, acabando o seu pudim. - Não há nada

como um bom pequeno almoço.

- Estamos a almoçar, pai! - disse o Buzina. - Nunca se come pudim ao

pequeno almoço.

- Sim, tens razão, meu filho, afinal era pudim - disse o pai, rindo. - Podem

fazer o que lhes apetecer, desde que não entrem no meu escritório, nem na

minha sala de trabalho, nem na torre. E NÃO SE INTROMETAM NO MEU

TRABALHO! Diabrete, tira a mão do jarro da água. Não sabes ensinar esse teu

macaco a portar-se como deve ser, Buzina?

E dizendo isto saiu da sala, desaparecendo num corredor misterioso que ia

ter ao seu escritório ou sala de experiências. As crianças soltaram um suspiro de

alívio.

- Vamos levantar a mesa e depois quero mostrar-lhes os nossos quartos -

disse o Buzina. - Espero que não se aborreçam muito aqui.

Aborrecerem-se! Nem penses nisso, Buzina! Uma grande aventura vos

espera, Buzina! Um pouco de paciência e verás!

Capítulo IV

A Catarina tem uma bela ideia

O Buzina correu à cozinha para ir buscar um ou dois tabuleiros. Enquanto

avançava fazia um barulho muito esquisito e por um momento o Tim ficou

surpreendido.

- Santo Deus! Não me digam que o Buzina continua com a mania de fingir

que é um automóvel - comentou Júlio. - Como é que o pai suporta tal coisa?

Neste momento que tentará imitar? Talvez uma motocicleta.

De repente ouviu-se um estrondo e um grito. Os Cinco correram para a

cozinha, para saberem o que se passava.

- Um desastre! - exclamou o Buzina, levantando-se do chão. - Dei a curva

com demasiada velocidade, a roda da frente derrapou e fui de encontro à

parede. Amolguei o guarda-lamas.

- Buzina, não me digas que continuas com a palermice de fingires que és

um carro, uma mota ou um camião! - disse Júlio. - Quando estiveste em casa

dos meus tios, ias dando connosco em malucos, a correr pela casa toda a fazer o

barulho dum motor. Não consegues curar-te dessa mania?

- Não - respondeu o Buzina, esfregando um cotovelo. - É superior às

minhas forças. Vocês haviam de me ouvir quando eu resolvi ser um grande

camião carregado de automóveis novos! O meu pai convenceu-se de que era

um camião a valer e correu lá para fora, tencionando mandá-lo embora. Mas era

eu. Também sei buzinar. Ora oiçam!

E lá começou o pequeno a fingir que era uma buzina, fazendo tanto

barulho que o Júlio o empurrou para dentro da cozinha e fechou a porta.

- Não sei como o teu pai ainda não enlouqueceu! - exclamou Júlio. - Agora

cala-te! Não consegues deixar de ser um garoto malcriado?

- Não - respondeu o Buzina, muito a sério. - Não quero ser uma pessoa

crescida. Não quero tornar-me como o meu pai para me esquecer das refeições e

sair com uma meia calçada e outra por calçar. Detesto esquecer-me das

refeições; seria horrível. Passaria todo o tempo cheio de fome!

O Júlio acabou por se rir. - Pega num tabuleiro e ajuda a levantar a mesa -

disse-lhe. - E se realmente não consegues deixar de ser um carro, vai lá para

fora. Aqui dentro de casa não quero esse barulho incomodativo. Tens jeito para

imitares motores, mas isso é na rua!

- Achas? - disse o Buzina, satisfeito. - Então talvez gostasses de me ouvir a

imitar um avião dos modernos; desses que costumam passar por aqui de vez

em quando.

- NÃO! POR FAVOR! - disse o Júlio com firmeza. - Vai mas é buscar o

tabuleiro, Buzina. E diz ao Diabrete que saia de cima do meu pé direito. Este

tipo julga que o pé é uma cadeira.

Mas o macaco agarrou-se ao tornozelo do Júlio, recusando-se a sair dali.

- Está bem, está bem - disse o pequeno. - O melhor é conformar-me em

andar contigo todo o dia sentado no sapato.

- Se começares a bater com os pés no chão ele sai logo - disse o Buzina.

- Já me podias ter avisado - disse o Júlio dando uns passos a bater os pés

com toda a força. O Diabrete saltou logo para o chão e foi sentar-se em cima da

mesa, guinchando muito zangado.

- Ele senta-se em cima do pé do meu pai durante imenso tempo, mesmo

quando ele anda de um lado para o outro - contou o Buzina. - Mas o pai nem

repara. Uma vez sentou-se em cima da cabeça do pai e ele convenceu-se de que

estava com o chapéu dentro de casa e resolveu tirá-lo.

Esta história fez com que todos se rissem.

- Agora vamos ao trabalho - disse o Júlio, severo. - Temos que levantar a

mesa. Nós três, os rapazes, levamos a loiça suja para a cozinha e vocês duas,

meninas, podem lavá-la. E NÃO deixem o Diabrete pegar no bule ou no jarro

da água.

A Catarina ficou encantada com a ajuda das crianças. Ela era baixa e

gorda, mas muito desembaraçada.

- Logo que acabarmos de arrumar a cozinha vou mostrar aos meninos os

quartos onde ficam - disse ela. - Mas o pior é' que os colchões que mandámos

consertar ainda não chegaram, Já disse mais de uma dúzia de vezes ao seu pai

que telefonasse ao colchoeiro mas certamente esqueceu-se.

- Ó CATARINA! - exclamou o Buzina, aflito, - Quer dizer que não se pode

dormir nas duas camas do quarto de hóspedes! Que vamos fazer agora?

- Espero que o seu pai ainda hoje telefone ao colchoeiro - disse a Catarina.

- Talvez ainda hoje os entregue.

O Buzina logo se tornou numa furgoneta para entrega de encomendas e

desatou a correr pelo corredor até à sala de jantar. O macaco Diabrete seguiu-o,

radiante. As crianças não puderam deixar de rir.

O Professor apareceu de repente, vindo do escritório, com as mãos nos

ouvidos. - BUZINA! VEM CÁ!

- Não, muito obrigado - respondeu o Buzina, fazendo-se distraído. -

Desculpe, pai. Eu sou a furgoneta que traz os colchões que o pai se esqueceu de

mandar vir hoje para as camas dos hóspedes.

Mas o Professor parecia nem ouvir. Avançou para o Buzina e este correu

pelas escadas acima, seguido pelo Diabrete. O Professor Hayling voltou-se para

a Catarina.

- Se não consegue manter as crianças sossegadas, para que lhe pago o

ordenado?

- Para limpar a casa, cozinhar e lavar a roupa, Sr. Professor - respondeu a

Catarina, aborrecida.

- Mas não para tomar conta do menino. E devo acrescentar que o seu filho

podia ter uma dúzia de criadas só para ele, que continuaria a incomodá-lo

enquanto está em casa. Porque não consente que ele arme a sua barraca de

campanha lá fora e vá acampar com os amigos? O tempo está quente e os

colchões novos ainda não chegaram. Eu posso cozinhar para todos e levar as

refeições aos meninos; ou eles podem vir buscá-las.

O Professor ficou com uma cara tão satisfeita que até parecia que ia dar

um abraço à Catarina. As crianças esperavam com impaciência a sua resposta.

Acampar lá fora, seria bem divertido naquele tempo, porque na verdade, viver

na mesma casa com o Professor, não era nada agradável. O Tim soltou um

ganido, como se quisesse dizer: “Boa ideia! Vamo-nos já embora!”

- Bela ideia, Catarina, belíssima ideia! - exclamou o Professor Hayling. -

Mas o macaco também irá acampar com as crianças. Assim talvez não volte a

saltar pela janela da sala de experiências, começando a mexer nos modelos!

Dizendo isto o Professor fez meia volta e dirigiu-se ao seu escritório,

batendo com a porta com tanta força que toda a casa estremeceu. O Tim ficou

assustado e desatou a ladrar. O Diabrete correu pelas escadas, guinchando,

amedrontado. O Buzina desatou a dançar, cheio de alegria. Entretanto a

Catarina agarrou-o com firmeza e levou-o para a cozinha. Muito entusiasmado,

o Buzina disse:

- Espera Catarina, lembrei-me de uma coisa - gritou o Buzina. - Apenas

tenho uma barraca e é muito pequena. Preciso de pedir ao pai que me deixe

comprar mais duas.

E antes que alguém o pudesse deter, o Buzina batia à porta do escritório,

abria-a, gritando lá para dentro:

- PRECISO DE MAIS DUAS BARRACAS, PAI! POSSO IR COMPRÁ-LAS?

- Pelo amor de Deus, Buzina, vai-te embora e deixa-me em paz - gritou por

sua vez o Professor. - Compra meia dúzia de barracas se quiseres mas VAI-TE

EMBORA!

- Obrigado, pai - disse o Buzina e já ia fechar a porta quando o pai voltou a

gritar-lhe. - Mas para que queres tu as barracas?

O Buzina fechou a porta e voltou-se para os outros, rindo. - O melhor é

comprar uma “memória” fresca para o meu pai. Acaba de consentir que vamos

acampar e bem sabe que só temos a minha barraca pequenina.

- Ainda bem que não ficamos aqui em casa - disse a Ana. - Sei

perfeitamente como o tio Alberto se aborrece quando estamos todos lá em casa,

fazendo barulho. É melhor não incomodarmos o Professor.

- Voltaremos a acampar! - exclamou a Zé, muito satisfeita. - Vamos

apanhar a camioneta que vai até Kirrin, para irmos buscar as nossas barracas.

Estão todas guardadas na arrecadação do jardim. Podemos pedir ao recoveiro

para as trazer.

- Ainda hoje aqui virá o Jim, o recoveiro. Se os meninos quiserem posso

dar-lhe o vosso recado - disse a Catarina. - Quanto mais depressa tiverem as

barracas, melhor. O meu patrão foi muito amável em tê-los convidado cá para

casa, mas eu bem sabia que não daria resultado. Ficarão muito melhor

acampados no terreno que dá para as traseiras desta casa. O Professor não

ouvirá nada, nem que gritem todos ao mesmo tempo. Por isso vão buscar as

vossas barracas e armem-nas enquanto eu vejo quantos cobertores e mantas

posso arranjar.

- Não se preocupe, Catarina - disse Júlio. '- Nós temos todas essas coisas. Já

acampámos muitas vezes.

- Espero que não apareçam vacas naquele campo - disse a Ana. - Da última

vez que acampámos, uma vaca meteu a cabeça na abertura da minha barraca e

mugiu. Acordei em sobressalto e fiquei paralisada de medo.

- Acho que ali não aparecem vacas - disse a Catarina, rindo. - Agora

continuemos a lavar a loiça e agradecia-lhes que acabassem de levantar a mesa.

Não deixem o macaco pegar em nada que se parta. Na semana passada tentou

equilibrar o bule do chá na cabeça e foi uma vez um bule!...

Em breve todos trabalhavam cheios de boa vontade.

- Apetece-me imenso ir acampar - disse a Ana. - Tinha um certo receio de

continuar aqui em casa. O Professor Hayling parece-se com o tio Alberto; muito

esquecido, gostando de gritar e fervendo em pouca água.

- Oh! não vale a pena ter medo dele - disse a Catarina, entregando um

prato à Ana para esta limpar. - Tem muito bom coração embora se irrite com

facilidade. Quando a minha mãe esteve doente, deu dinheiro para que ela fosse

para uma boa casa de saúde e talvez não acreditem que até me dava dinheiro

para lhe comprar guloseimas e flores!

- Eh! isso fez-me lembrar uma coisa. Acho que devemos mandar umas

flores à nossa cozinheira Joana - disse a Zé. - Como sabe, ela está com

escarlatina. É por isso que viemos para aqui.

- Então os meninos podem ir telefonar ao florista - disse a Catarina. - Eu

acabo de arrumar a cozinha.

Mas a Zé receava que o Professor Hayling saísse de repente do escritório

para ver quem estaria a telefonar.

- Também podemos comprar flores em Kirrin e mandá-las directamente

da loja - disse ela. - De qualquer modo teremos que lá ir para separar as coisas

que o recoveiro há-de trazer e nessa altura encomendarei as flores. E acho

melhor voltarmos nas nossas bicicletas pois aqui podem fazer-nos falta.

- Então devem partir já - disse a Catarina. - Para não chegarem atrasados

para o lanche, pois o Professor ficaria aborrecido.

- Eu posso trazer a bicicleta da Ana - disse o Júlio. - Posso muito bem

trazê-la ao lado da minha, guiando só com uma mão.

E lá partiram a Zé, o Júlio e o David, deixando a Ana e o Buzina a ajudar a

Catarina. Mas em breve a Catarina mandou o Buzina embora, pois tinha medo

que ele quebrasse alguma coisa.

- Vá para o jardim e seja um lindo Rolls Royce daqueles que quase não

fazem barulho - disse ela. - E quando já tiver andado por volta de trinta

quilómetros, volte aqui para meter gasolina.

- Gasolina não, limonada! - exclamou o Buzina, rindo. - Está combinado. Já

não sou Rolls Royce há tanto tempo. Se eu andar no fundo do jardim, o pai nem

me ouvirá.

E lá foi o Buzina, enquanto a Catarina e a Ana acabavam de arrumar a

cozinha. O Diabrete atrapalhava tudo e de vez em quando roubava umas

colheres de chá. Saltava para cima do armário da loiça e deixava-as cair no

chão.

De repente o Buzina apareceu à janela.

- Anda comigo até ao terreno onde vamos armar as barracas - disse ele à

Ana. - Escolheremos um sítio abrigado. Despacha-te. Com certeza já acabaste de

limpar a loiça. Eu já estou farto de ser um Rolls Royce.

E lá foram as duas crianças pelo jardim, saindo para o terreno por uma

cancela que havia no fundo.

- Santo Deus! - exclamou o Buzina. - Olha para todos aqueles carros que

estão a entrar pelo portão do outro lado deste terreno! Vou já mandá-los

embora. Este campo pertence ao meu pai.

E sem dizer mais nada o Buzina dirigiu-se ao portão do outro extremo.

- Vem cá, Buzina! - gritou a Ana. - Não vás meter-te onde não és chamado.

Ainda arranjas alguma complicação!

Mas o Buzina não fez caso, continuando a caminhar de cabeça bem

erguida! Queria dizer àquela gente que o terreno lhe pertencia!

Capítulo V

O Circo ambulante

A Ana ficou observando o Buzina com uma certa apreensão. Este seguia

pelo campo, sem parar. Viam-se agora quatro carros entrando pelo portão

tendo atrelados uma espécie de enormes roulottes com letras muito grandes

pintadas, dizendo:

CIRCO AMBULANTE TAPPER.

- Oh! vou dizer umas verdades ao Sr. Tapper, por ele ter vindo para o meu

terreno - disse o Buzina para consigo.

Levava o Diabrete no ombro, baloiçando-se para baixo e para cima,

enquanto o Buzina caminhava, resmungando.

Quatro ou cinco crianças das roulottes observaram-no com curiosidade,

quando o pequeno passou. Um rapazito foi ter com ele, gritando, encantado, ao

ver o macaco.

- Olha um macaco! Olha um macaco! E muito mais pequeno do que o

nosso chimpanzé'. Como se chama?

- Não tens nada com isso! - respondeu o Buzina. - Onde está o Sr. Tapper?

- O Sr. Tapper? O nosso avô? - perguntou o rapazinho. - Está ali, ao lado

daquele carro maior. É melhor não ir falar agora com ele pois está muito

ocupado.

O Buzina foi andando até ao carro e dirigiu-se à pessoa que o miúdo lhe

indicara. Tinha um aspecto um tanto aterrador, com uma espessa barba,

enormes sobrancelhas que quase lhe tapavam os olhos, um nariz adunco e só

uma orelha. Olhou para o Buzina com ar interrogador e estendeu uma mão

para o Diabrete.

- Olhe que o meu macaco pode mordê-lo - avisou logo o Buzina. - Ele não

gosta de pessoas desconhecidas.

- Eu não sou um desconhecido para nenhum macaco - disse o homem,

com voz grossa. - Não existe nenhum macaco no mundo nem nenhum

chimpanzé que não venha ter comigo se eu o chamar. Nem um gorila, percebe?

- Pois fique sabendo que o meu macaco não vai ter consigo - disse o

Buzina, zangado. - Eu só lhe venho dizer que...

Antes de ter acabado a frase, o homem fez um barulho esquisito com a

garganta, parecido com o que o Diabrete fazia quando estava contente. O

Diabrete olhou para o homem com ar surpreendido e depois deu um salto do

ombro do Buzina para o do homem, agarrando-se ao seu pescoço e soltando

pequenos guinchos de satisfação. O Buzina ficou tão admirado que nem disse

palavra.

- Está a ver? - disse o homem. - Já se tornou meu amigo. Não fique tão

espantado, rapazinho, toda a minha vida amestrei macacos. Empreste-me este