Os Filhos de Duna por Frank Herbert - Versão HTML

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OS FILHOS DE DUNA

Frank Herbert

Tradução de Jorge Luiz Calife

O©® BR

Para Bev:

Pelo maravilhoso compromisso de nosso amor e para compartilhar sua beleza e sabedoria, pois ela verdadeiramente inspirou este livro.

Sobre o Autor e a Obra:

O planeta começa a transformar-se em um oásis de vegetação luxuriante. Os gêmeos, que têm nove anos quando a história se desenvolve e são dotados dos mesmos poderes excepcionais de seu pai, estão sendo criados como Messias. Mas há aqueles que pensam que o império não precisa de messias. Nasce daí uma trama emocionante, tanto pela indagação filosófica representada pela confrontação com a inteligência suprema do universo, como pelas intrigas palacianas e perseguições no cenário espetacular do deserto.

Frank Herbert nasceu em 1920 em Tacoma, nos E.U.A. Foi fotógrafo, fotógrafo de tevê, pescador de ostras e jornalista antes de se dedicar a literatura. A série Duna, publicada desde 1965 recebeu os maiores prêmios do gênero: O Hugo e o Nebula.

Sobre a Digitalização desta Obra:

Se os livros tivessem preços acessíveis, todos poderiam comprá-los. A digitalização desta obra é um protesto contra a exclusão cultural e, por conseqüência, social, causadas pelos preços abusivos dos livros publicados e editados no Brasil. Assim, é totalmente condenável a venda deste e-livro em qualquer circunstância.

Distribua-o livremente!

“Para aqueles que ousam trilhar caminhos diferentes...”

Os ensinamentos do Muad'Dib tornaram-se terreno para os pedantes, os supersticiosos e os corruptos. Ele ensinou um modo de vida equilibrado, uma filosofia com a qual os seres humanos poderiam enfrentar os problemas que surgissem de um universo em constante mutação. Ele disse que a humanidade ainda se encontrava evoluindo, num processo que não terá fim. E disse que a evolução se processa através de princípios mutáveis, conhecidos apenas pela eternidade.

Como pode um raciocínio corrompido funcionar com essa essência?

— palavras do Mentat Duncan Idaho

Um oval de luz surgiu sobre o espesso tapete que cobria a rocha nua do piso da caverna. A luz

brilhava sem uma fonte aparente, tendo existência apenas sobre a superfície de tecido vermelho, trançada com fibra de especiaria. Um círculo indagador, com aproximadamente dois centímetros de diâmetro, movia-se aleatoriamente — ora mais alongado, ora oval. Encontrando o lado de uma cama, ele saltou para o alto e se dobrou através da superfície do leito.

Debaixo do cobertor verde havia uma criança de cabelos ruivos, o rosto ainda gordinho de

bebé, a boca generosa — uma figura que carecia dos traços esguios, da magreza tradicional dos Fremen, mas que não era tão gorda de água como um estrangeiro. Quando a luz passou sobre as pálpebras

cerradas, o pequeno estremeceu. A luz apagou-se.

Agora havia apenas o som regular da respiração, e mais fraco, atrás dele, o gotejar tranquilizador da água sendo coletada numa bacia de recolhimento a partir da armadilha de vento, bem acima da

caverna.

Novamente a luz apareceu no aposento — um pouquinho maior, alguns lúmens mais brilhante.

Dessa vez, trazia uma sugestão de fonte e movimento: uma figura coberta por um manto preenchia o portal abobadado na extremidade da câmara e de lá se originava a luz. Uma vez mais ela fluiu através do aposento, sondando, testando. Tinha uma aparência ameaçadora, uma inquieta insatisfação. Evitou a criança que dormia, parou sobre a grade do renovador de ar, no canto superior, investigou uma

saliência nas cortinas verdes e douradas, que suavizavam a rocha ao redor.

Daí a pouco, a luz se apagou. A figura encapuçada moveu-se com um rumor revelador,

produzido pelo agitar de seus mantos, e assumiu posição a um dos lados do portal. Qualquer pessoa consciente da rotina no Sietch Tabr teria deduzido imediatamente que se tratava de Stilgar, Naib do Sietch, guardião dos gêmeos órfãos que um dia receberiam o manto de seu pai, Paul Muad'Dib. Stilgar frequentemente realizava tais inspeções noturnas nos aposentos dos gêmeos, sempre dirigindo-se em primeiro lugar à câmara onde Ghanima dormia e terminando aqui, no quarto adjacente, onde se podia assegurar de que Leto não sofria ameaças.

“Sou um velho tolo”, pensou Stilgar.

Alisou a fria superfície do projetor de luz antes de recolocá-lo na argola do cinturão. O projetor o irritava, embora dependesse dele. Essa coisa era um sutil instrumento do Império, um engenho

destinado a detectar a presença de grandes corpos vivos. Revelara apenas as crianças dormindo nos aposentos reais.

Stilgar sabia que seus pensamentos e emoções eram como a luz. Não conseguia imobilizar uma

inquieta projeção interior. Algum poder maior controlava esse movimento, projetando-o nesse

momento em que sentia o perigo acumulado. Aqui estava o magneto para os sonhos de grandeza

através do universo conhecido. Aqui estavam as riquezas transitórias, a autoridade profana e o mais poderoso de todos os talismãs místicos: a autenticidade divina do legado religioso do Muad'Dib. Nesses gêmeos, em Leto e sua irmã Ghanima, focalizava-se um poder espantoso. Enquanto eles vivessem, o Muad'Dib, embora morto, viveria neles.

Não eram apenas duas crianças de nove anos de idade; eram forças naturais, objetos de

veneração e temor. Eram os filhos de Paul Atreides, que se tornara Muad'Dib, o Mahdi de todos os Fremen. O Muad'Dib acendera uma explosão da humanidade; os Fremen se haviam espalhado num

jihad, a partir de seu planeta, levando consigo seu fervor através do universo humano, numa onda de governos religiosos cuja amplitude e autoridade onipresente haviam deixado sua marca em cada planeta.

“E no entanto estas crianças são de carne e osso”, pensou Stilgar. “Com dois únicos golpes de

minha faca, eu imobilizaria seus corações. E a água deles retornaria à tribo.”

Sua mente agitou-se com tal pensamento.

“Matar os filhos do Muad'Dib!”

Entretanto, os anos o haviam tornado introspectivamente sábio. Stilgar conhecia a origem desse

pensamento terrível. Ele vinha da mão esquerda dos amaldiçoados, não da mão direita dos abençoados.

O ayat e o burhan da Vida guardavam poucos mistérios para ele. Em certa época, sentira-se orgulhoso por se julgar um Fremen, por pensar no deserto como um amigo e chamar seu planeta de Duna, e não Arrakis como estava escrito em todos os mapas imperiais.

“Como as coisas são simples quando nossos messias não passam de sonhos”, pensou. “Ao

encontrar nosso Mahdi, soltamos sobre o universo incontáveis sonhos messiânicos. E cada pessoa

subjugada pelo jihad sonha agora com um líder que um dia virá.”

Stilgar olhou para a escuridão dos aposentos.

“Se minha faca libertasse todas essas pessoas, será que elas fariam de mim um messias?”

Leto podia ser ouvido, agitando-se em sua cama.

Stilgar suspirou. Jamais conhecera o avô Atreides, cujo nome essa criança tomara. Mas muitos

afirmavam que a força moral do Muad'Dib nele se originara. Iria aquela tremenda capacidade para a justiça saltar uma geração agora? Stilgar sentiu-se incapaz de responder tal pergunta.

E pensou: “O Sietch Tabr é meu. Eu governo este lugar. Sou um Naib dos Fremen. Sem mim,

não teria havido Muad'Dib. Estes gêmeos agora. . através de Chani, mãe deles e minha pa-renta, meu sangue pulsa em suas veias. Eu estava lá. Com o Muad'Dib, com Chani e todos os outros. Que foi que fizemos ao nosso universo?”

Stilgar era incapaz de explicar por que tais pensamentos vinham a seu encontro, no meio da

noite, e por que faziam com que se sentisse tão culpado. Agachou-se dentro de seu manto. A realidade não era nem um pouco como o sonho. O Deserto Amistoso, que um dia se estendera de um pólo a

outro, estava reduzido à metade de seu tamanho. O paraíso mítico das extensões verdes que se

ampliavam o enchia de angústia. Não era como o sonho. Enquanto seu planeta mudava, ele também

mudava. Tornara-se uma pessoa mais sutil do que o chefe de sietch que um dia fora. Agora estava consciente de muitas coisas — dos negócios de Estado e das profundas consequências das menores

decisões. E no entanto sentia todo esse conhecimento e sutileza como uma fina camada recobrindo um núcleo férreo de consciência mais simples e determinística. E esse núcleo mais antigo o chamava, suplicando para que retornasse aos valores mais puros.

Os sons do amanhecer no sietch começaram a interferir com seus pensamentos. Pessoas

movimentavam-se na caverna. Sentiu a brisa em sua face: elas estavam saindo pelos selos das aberturas, ao encontro da escuridão que precede a aurora. A brisa revelava descuido do mesmo modo como

indicava o tempo. Os moradores não mais obedeciam à rígida disciplina da água dos velhos dias. Por que deveriam, quando já se registrará chuva no planeta, quando já se viam nuvens, quando oito Fremen haviam sido cobertos de água e mortos por uma súbita enxurrada num wadi? Até então a palavra afogado não existira na linguagem de Duna. Mas este não era mais Duna, este era Arrakis... e esta era a manhã de um dia importante.

Ele pensou: “Jessica, a mãe do Muad'Dib e avó destes gêmeos reais, retorna hoje ao nosso

planeta. Por que ela termina seu exílio auto-imposto justamente nesta ocasião? Por que deixa a

suavidade e a segurança de Caladan em troca dos perigos de Arrakis?”

E existiam outras preocupações: sentiria ela as dúvidas de Stilgar? Ela era uma bruxa Bene

Gesserit, graduada nos profundos conhecimentos da Irmandade, e uma Reverenda Madre por seus

próprios méritos. Tais mulheres eram perspicazes e muito perigosas.

Iria ela ordenar-lhe que caísse sobre a própria faca, como fora ordenado ao Umma protetor de

Liet-Kynes?

“Devo obedecer a ela?”, perguntou-se.

Sentiu-se incapaz de responder a pergunta, mas começou a pensar em Liet-Kynes, o

planetólogo que fora o primeiro a sonhar com a transformação do deserto planetário de Duna no

planeta verde, propício à vida humana, que agora se tornava. Liet-Kynes fora o pai de Chani. Sem ele não teria havido o sonho, não teria havido Chani nem os gêmeos reais. As consequências dessa frágil corrente assombravam Stilgar.

“Como nos encontramos neste lugar?”, ele se perguntava. “Como nos combinamos? Para que

propósito? Será meu dever terminar com tudo isto? Desarmar esta grande combinação?”

Stilgar reconhecia esse terrível desejo agindo agora sobre si. Ele podia fazer uma escolha,

negando o amor e a família para realizar o que se esperava de um Naib nessa ocasião: tomar uma

decisão mortífera pelo bem da tribo. Por um lado, tal assassinato representava o máximo em traição e atrocidade. “Matar simples crianças!” E no entanto elas não eram simples crianças. Haviam consumido a melange, compartilhado da orgia no sietch, vasculhado o deserto em busca da truta da areia e

participado de outros jogos das crianças Fremen... E se haviam sentado ante o Conselho Real. Crianças tão novas e no entanto suficientemente sábias para participarem do Conselho. Podiam ser crianças fisicamente, mas eram ancestrais em suas experiências, nascidas com a totalidade da memória genética, a terrível consciência que os separava, junto com sua tia Alia, de todos os outros seres humanos vivos.

Muitas vezes, em muitas noites, Stilgar encontrara sua mente circulando em torno da diferença compartilhada pelos gêmeos e sua tia; muitas vezes despertara em razão desses tormentos, vindo até o quarto dos gêmeos com seus sonhos interrompidos. Agora suas dúvidas focalizavam-se. A ausência de decisão já era em si uma decisão. Ele sabia disso. Esses gêmeos, assim como sua tia, haviam despertado no ventre materno, adquirindo todas as memórias legadas por seus ancestrais. O vício da especiaria fizera isso, o vício de suas mães: Lady Jessica e Chani. Lady Jessica tivera um filho, o Muad'Dib, antes de se viciar. Alia viera depois do vício. Isso era claro, em retrospecto. As incontáveis gerações da procriação seletiva dirigida pelas Bene Gesserit tinham resultado no Muad'Dib, mas em parte alguma nos planos da Irmandade elas haviam considerado a melange. Oh, elas conheciam essa possibilidade, mas a temiam, chamando-a de Abominação. Esse era o detalhe mais angustiante. Abominação. Elas deviam ter motivos para tal julgamento. E se diziam que Alia era uma Abominação, então isso devia aplicar-se igualmente aos gêmeos, já que Chani também fora viciada, seu corpo saturado de especiaria, e seus genes de algum modo haviam complementado os do Muad'Dib.

Os pensamentos de Stilgar agitavam-se. Não havia dúvida de que esses gêmeos tinham ido além

de seu pai. Mas em que direção? O menino falava na habilidade de poder ser o pai — e o provara. Ainda muito pequeno, Leto revelara possuir memórias que só poderiam pertencer ao Muad'Dib. Haveria

outros ancestrais aguardando nesse vasto espectro de memórias — ancestrais cujas crenças e hábitos criavam perigos terríveis para os seres humanos?

Abominações, diziam as sagradas bruxas da Bene Gesserit. E no entanto a Irmandade

ambicionava a genofase dessas crianças. As bruxas queriam o esperma e o óvulo sem a perturbadora carne que os carregava. Seria esse o motivo por trás do retorno de Lady Jessica? Ela havia rompido com a Irmandade para apoiar o Duque, seu marido, mas havia rumores de que retornara aos hábitos das Bene Gesserit.

“Eu poderia terminar com todos esses sonhos”, pensava Stilgar. “Como seria simples.”

E no entanto novamente se admirava de que pudesse contemplar tal escolha. Seriam os gêmeos

do Muad'Dib os responsáveis por uma realidade que destruía os sonhos dos outros? Não, eles eram meramente a lente através da qual a luz fluía para revelar as novas formas do universo.

Atormentada, sua mente refugiava-se nas velhas crenças Fremen, pensando: “A ordem de Deus

vem; assim, procure não apressá-la. Deus mostra o caminho e alguns se desviam dele.”

Era a religião do Muad'Dib que mais perturbava Stilgar. Por que haviam transformado o

Muad'Dib num deus? Por que endeusar um homem que se sabia ter sido de carne e osso? O Elixir

Dourado da Vida, do Muad'Dib, criara um monstro burocrático que cavalgava todos os negócios

humanos. Com o Governo unido à religião, qualquer infração da lei tornava-se pecado. Um cheiro de blasfémia erguia-se como fumaça ante qualquer questionamento dos decretos governamentais. A

acusação de rebelião invocava o fogo do inferno e os julgamentos farisaicos.

E no entanto eram os homens que criavam esses decretos.

Stilgar sacudiu a cabeça, amargurado, sem dar atenção aos criados que haviam penetrado na

antecâmara real para os afazeres matinais.

Tocou a faca cristalina no cinturão, pensando no passado que ela simbolizava, lembrando como

mais de uma vez simpatizara com os rebeldes cujos levantes haviam sido esmagados por suas próprias ordens. A confusão propagava-se em sua mente e ele desejava ter meios de controlá-la, retornando à vida simples representada pela faca. Mas o universo nunca volta atrás. Era uma grande máquina

projetando-se sobre o vácuo cinzento da não-existência. Sua faca, caso provocasse a morte dos gêmeos, apenas reverberaria contra esse vazio, tecendo novas complexidades que ecoariam pela história

humana, criando novas ondas de caos, desafiando a humanidade a tentar novas formas de ordem e

desordem.

Stilgar suspirou, percebendo os movimentos a seu redor. Sim, esses criados representavam um

tipo de ordem construída ao redor dos gêmeos do Muad'Dib. Eles se moviam sem cessar, cuidando do que fosse necessário. “É melhor acompanhá-los”, pensou Stilgar. “É melhor enfrentar o que vem por aí quando chegar a hora.”

“Também sou um criado”, disse para si mesmo. “E meu senhor é Deus, o Piedoso, o

Clemente.” E lembrou-se de uma frase: “Certamente, Nós colocamos grilhões sobre seus pescoços,

cobrindo-os até o queixo, de modo que suas cabeças se erguessem. E Nós colocamos uma barreira

diante deles, e outra atrás. E Nós os cobrimos para que não pudessem ver.”

Assim estava escrito na velha religião Fremen.

Assentiu para si mesmo.

A capacidade de ver, de antecipar o momento seguinte, como o Muad'Dib fizera em suas

espantosas visões do futuro, acrescentava um contrapeso às atividades humanas. Criava novos lugares para decisão. Estar livre dos grilhões poderia muito bem ser o resultado de uma vontade divina. Essa era outra complexidade além da percepção humana normal.

Stilgar afastou a mão da faca, os dedos comichando com a lembrança. Mas a lâmina que uma

vez brilhara na boca escancarada de um verme da areia continuava na bainha. Sabia que não puxaria a faca nesse momento para matar os gêmeos. Chegara a uma decisão. Era melhor manter aquela velha

virtude que ainda nutria: a lealdade. É preferível a complexidade do que se pensa conhecer do que aquela que desafia a compreensão. Melhor o agora do que o sonho futuro. Um gosto amargo na boca dizia a Stilgar o quanto podem ser vazios e revoltantes certos sonhos.

“Não! Chega de sonhos!”

DESAFIO: “Viste o Pregador?” RESPOSTA: “Vi um verme da areia.” DESAFIO: “Que me dizes desse verme?” RESPOSTA: “Ele nos dá o ar que respiramos.” DESAFIO: “Então por que destruímos sua terra?” RESPOSTA:

“Porque o Shai-Hulud [Verme da areia endeusado] assim ordena.”

Enigmas de Arrakis por Harq al-Ada

Como era costume dos Fremen, os gêmeos Atreides levantavam-se uma hora antes do nascer

do sol. Em suas câmaras adjacentes, eles bocejaram e se espreguiçaram em secreta harmonia, sentindo a atividade na caverna-alojamento ao redor. Podiam ouvir os criados, na antecâmara, preparando o

desjejum. Uma sopa simples com tâmaras e nozes misturadas num líquido obtido a partir da especiaria parcialmente fermentada. Havia globos luminosos na antecâmara e uma suave luz amarelada penetrava através das arcadas. Os gêmeos vestiram-se rapidamente a essa luz suave, um ouvindo o outro nas imediações. Como tinham combinado, ambos envergaram trajes-destiladores para se protegerem dos

ventos quentes do deserto.

Dentro em pouco, o par real encontrou-se na antecâmara, notando a súbita imobilidade dos

criados. Leto, como se observou, usava uma capa cor de bronze, de bordo negro, sobre o cinza lustroso do traje-destilador. Sua irmã usava uma capa verde. A gola de cada uma das capas era presa por uma fivela com a forma do falcão dos Atreides — dourado com jóias vermelhas formando os olhos.

Vendo todo esse requinte, Harah, uma das esposas de Stilgar, comentou:

— Vejo que se vestiram em honra de sua avó.

Leto apanhou sua terrina com o desjejum antes de olhar para o rosto de Harah, escuro e

vincado pelo vento. Sacudiu a cabeça e perguntou:

— Como sabe que não é a nós mesmos que honramos? Harah enfrentou seu olhar atrevido

sem estremecer e disse:

— Meus olhos são tão azuis quanto os seus.

Ghanima riu alto. Harah sempre fora uma adepta do jogo de desafio dos Fremen. Em uma

única frase ela dissera: “Não brinque comigo, garoto. Você pode ser da realeza, mas ambos trazemos o estigma do vício da melange — olhos sem partes brancas. Que Fremen necessita de mais elegância ou maior honra do que essa?”

Leto sorriu sacudindo a cabeça, arrependido.

— Harah, meu amor, se você fosse mais jovem e não pertencesse a Stilgar, eu a tomaria como

esposa.

Harah aceitou essa pequena vitória com tranquilidade, acenando para que os outros criados

continuassem a preparar os aposentos para as importantes atividades do dia.

— Comam seu desjejum — disse. — Vão precisar de energia hoje.

— Então concorda em que não estamos suficientemente arrumados para encontrar nossa avó?

-— perguntou Ghanima, falando com a boca cheia.

— Não tenha medo dela, Ghani — respondeu Harah.

Leto engoliu uma porção de sopa e enviou um olhar indagador para Harah. A mulher era

infernalmente sábia, percebendo o jogo da elegância com tanta rapidez.

— Será que ela pensa que a tememos? — perguntou ele.

— Provavelmente não — disse Harah. — Lembre-se de que ela era nossa Reverenda Madre.

Conheço seus hábitos.

— Como foi que Alia se vestiu? — perguntou Ghanima.

— Ainda não a vi — respondeu Harah de modo seco, afastando-se.

Leto e Ghanima trocaram um olhar de compreensão e se curvaram sobre sua refeição. Daí a

pouco saíam para a grande passagem central.

Ghanima falou então, usando um dos antigos idiomas que ambos compartilhavam através da

memória genética.

— Então, hoje temos uma avó.

— Isso deixa Alia muito incomodada — disse Leto.

— Quem gosta de conceder tal autoridade? — perguntou Ghanima.

Leto riu baixinho, um som adulto saindo curiosamente de uma carne tão jovem.

— É mais do que isso.

— Será que os olhos da mãe dela observarão o que já observamos?

— E por que não?

— Sim. . . deve ser disso que Alia tem medo.

— Quem conhece a Abominação melhor do que uma Abominação? — indagou Leto.

— Nós podemos estar errados, você sabe — comentou Ghanima.

— Mas não estamos. — E citou o Livro de Azhar das Bene Gesserit: “É com razão e terrível

experiência que nós chamamos de Abominação aos pré-nascidos. Pois quem sabe que esquecida e amaldiçoada personalidade de nosso passado mais maligno poderia se apoderar da carne viva?”

— Conheço a história — disse Ghanima. — Mas se isso fosse verdade, por que então não

sofremos esse assalto interior?

— Talvez porque nossos pais montem guarda dentro de nós — respondeu Leto.

— Então, por que Alia não teve guardiães?

— Não sei. Pode ser pelo fato de um dos pais ainda permanecer entre os vivos. Ou

simplesmente porque ainda somos jovens e fortes. Talvez quando formos mais velhos e cínicos.

— Devemos ter muito cuidado com essa avó — disse Ghanima.

— E não discutir esse Pregador que anda pelo planeta propagando a heresia?

— Não acredita realmente que ele seja o nosso pai!

— Eu não faço julgamentos a respeito, mas Alia o teme.

Ghanima sacudiu a cabeça bruscamente:

— Eu não acredito nessa besteira de Abominação!

— Você tem tantas memórias quanto eu. Pode acreditar no que desejar.

— Você acha que é porque ainda não nos atrevemos a experimentar o transe da especiaria,

enquanto Alia já o fez.

— É exatamente o que penso.

Ficaram em silêncio ao penetrarem no fluxo de pessoas que usavam a passagem central. Fazia

frio no Sietch Tabr, mas os trajes-destiladores estavam quentes e os gêmeos mantiveram os capuzes condensadores por sobre os cabelos ruivos. Seus rostos denunciavam a marca dos genes

compartilhados: a boca ampla e os olhos bem separados, na tonalidade inteiramente azul dos viciados na especiaria.

Leto foi o primeiro a notar a aproximação de sua tia Alia.

— Aí vem ela — disse ele, usando a linguagem de batalha dos Atreides como advertência.

Ghanima acenou com a cabeça para a tia, quando esta parou diante deles, e disse:

Uma presa de guerra saúda sua parenta ilustre.

Usando a mesma linguagem Chakobsa, Ghanima enfatizou o significado de seu próprio nome

Presa de Guerra.

— Como vê, adorada tia — disse Leto —, nos preparamos para nosso encontro com sua mãe.

Alia, a única pessoa no apinhado lar real que não nutria a menor surpresa ante o

comportamento adulto dessas crianças, olhou furiosa de uma para a outra. E disse:

— Cuidado com a língua, vocês dois!

O cabelo cor de bronze de Alia estava preso atrás com dois anéis de água dourados. Seu rosto

oval apresentava-se carrancudo e a boca ampla, com seu traço de auto-indulgência, comprimia-se em linha reta. Vincos de preocupação expandiam-se nos cantos dos olhos de cor azul sobre azul.

— Já lhes avisei para que se comportassem hoje — disse ela. — Conhecem as razões tão bem

quanto eu.

— Nós conhecemos as suas razões, mas talvez a senhora não conheça as nossas — disse

Ghanima.

— Ghani! — censurou Alia.

Leto olhou para a tia com raiva e disse:

— Hoje, dentre todos os dias, não fingiremos ser crianças idiotas!

— Ninguém quer que finjam — respondeu Alia. — Mas acreditamos que não seja prudente

provocar pensamentos perigosos em minha mãe. Irulan também concorda comigo. Quem sabe que

papel Lady Jessica escolherá desempenhar? Apesar de tudo, ela é uma Bene Gesserit.

Leto sacudiu a cabeça, imaginando: “Por que Alia não nota o que nós suspeitamos? Será que

está ficando velha?” Observou a sutileza dos traços genéticos no rosto de Alia que traíam seu avô materno. O Barão Vladimir Harkonnen não fora uma pessoa agradável. Ante essa observação, Leto

sentiu sua própria inquietação, pensando: “Ele é meu ancestral também.”

Lady Jessica foi treinada para governar — disse ele. Ghanima assentiu com a cabeça.

— Por que ela escolheu esta ocasião para retornar? Alia franziu a testa e respondeu:

— É possível que apenas deseje ver os netos?

Ghanima pensou: “É isso que a senhora espera, querida tia. Mas sabe que não é provável.”

— Ela não pode governar este lugar — explicou Alia. — Ela tem Caladan. Isso devia ser

suficiente.

Ghanima falou de modo conciliador:

— Quando nosso pai partiu para morrer no deserto, ele deixou a senhora como Regente. Ele.. .

— Tem alguma queixa? — perguntou Alia.

— Foi uma escolha justa — disse Leto, aproveitando a deixa de sua irmã. — Era a única

pessoa que sabia como é nascer do modo como nascemos.

— Há rumores de que minha mãe retornou à Irmandade — disse Alia. — E vocês dois sabem

o que as Bene Gesserit pensam a respeito de...

— Abominações — disse Leto.

— Sim!

— Uma vez bruxa, sempre bruxa.. . assim dizem — completou Ghanima.

“Mana, você joga um jogo perigoso”, pensou Leto. Ainda assim, acompanhou a irmã, dizendo:

— Nossa avó era uma mulher muito simples, mais simples que as outras de seu género. A

senhora compartilha das memórias dela, tia Alia. Certamente devia saber o que esperar.

— Simples! — disse Alia, sacudindo a cabeça. Olhou para a passagem cheia de gente antes de

voltar sua atenção para os gêmeos. — Se minha mãe fosse menos complexa, nenhum de vocês estaria aqui. Nem eu. Eu teria sido sua primogénita e nada disto. . . — Ela estremeceu, dando de ombros. —

Eu os aviso para que sejam muito cuidadosos com o que disserem hoje. — Alia olhou para cima. — Aí vem a minha guarda.

— Ainda não considera seguro que a acompanhemos até o espaçoporto? — indagou Leto.

— Esperem aqui — respondeu Alia. — Eu a trarei. Leto trocou olhares com a irmã e disse:

— Já nos disse muitas vezes que as memórias que guardamos daqueles que viveram antes de

nós carecem de certa utilidade até que tenhamos experimentado o suficiente, em nossa própria carne, para lhes emprestar a realidade. Minha irmã e eu acreditamos nisso. E previmos mudanças perigosas com a chegada de nossa avó.

— Não deixem de acreditar nisso — disse Alia, e se virou, sendo envolvida por sua guarda e

caminhando rapidamente para a entrada, onde os ornitópteros os aguardavam.

Ghanima enxugou uma lágrima do olho direito.

— Água para os mortos? — sussurrou Leto, tomando-lhe o braço.

Ghanima suspirou fundo, pensando em como observara sua tia usando os modos que conhecia

a partir de sua própria acumulação de experiências ancestrais.

— O transe da especiaria causou isto? — indagou, sabendo de antemão o que Leto lhe diria.

— Tem alguma sugestão melhor?

— Só para argumentar, por que o nosso pai. . . ou mesmo a nossa avó não sucumbiu a isso?

Ele a observou por um momento. Então acrescentou:

— Sabe a resposta tão bem quanto eu. Eles tinham personalidades formadas quando vieram

para Arrakis. O transe da especiaria. .. Bem — e deu de ombros. — Eles não nasceram neste mundo já possuídos por seus ancestrais. Já Alia. . .

— Por que ela não acreditou nos avisos das Bene Gesserit? — Ghanima mordeu o lábio

inferior. — Alia tinha a mesma informação que nós para tomar por base.

— Elas já a estavam chamando de Abominação — disse Leto. — Não acharia tentador tentar

descobrir se você é mais forte que todos aqueles. . .

— Não, eu não!

Ghanima fugiu ao olhar questionador de seu irmão, estremecendo. Era só consultar suas

memórias genéticas e os avisos da Irmandade tomavam forma nítida. Os pré-nascidos possuem uma

tendência observável a se tornarem adultos de hábitos perversos. E a causa provável. . . Novamente estremeceu.

— É uma pena que não tivéssemos alguns pré-nascidos em nossa ancestralidade — disse Leto.

— Talvez tenhamos.

— Mas nós. .. Ah, sim, a velha pergunta sem resposta: teremos realmente acesso aberto ao

arquivo total de experiências de cada um de nossos ancestrais?

A partir de sua própria inquietação interior, Leto sabia como essa conversa devia ser

perturbadora para a irmã. Eles já haviam discutido muitas vezes essa questão, sem nunca chegar a conclusão alguma. Ele acrescentou:

— Devemos retardar e retardar sempre, cada vez que ela nos pressionar para o transe da

especiaria. Devemos ter um cuidado extremo com superdoses de especiaria. Esse é o nosso melhor

curso de ação.

— Uma superdose teria que ser muito grande — comentou Ghanima.

— Nossa tolerância é provavelmente muito alta — concordou Leto. — Veja de quanto Alia

precisa.

— Tenho pena dela — disse Ghanima. — A atração deve ter sido sutil e insidiosa, rastejando

em seu subconsciente até que. . .

— Ela é uma vítima, sim — disse Leto. — Abominação.

— Nós podemos estar errados.

— Certo. (

— Eu sempre me pergunto — meditou Ghanima — se a próxima memória ancestral que

buscarmos não será aquela que. . .

— O passado não se encontra mais distante do que seu travesseiro -— disse Leto.

— Devemos buscar uma oportunidade para discutir isso com nossa avó.

— Assim me incita a memória dentro de mim. Ghanima olhou para ele.

— O conhecimento demasiado não torna fáceis as decisões.

O sietch era na orla do deserto

Era de Liet, era de Kynes,

Era de Stilgar, era do Muad'Dib

E, uma vez mais, era de Stilgar.

Os Naibs, um por um, dormem na areia.

Mas o sietch continua.

— de uma canção Fremen

Alia sentia o coração batendo forte enquanto caminhava para longe dos gêmeos. Durante

alguns segundos pulsantes, sentira-se compulsivamente próxima de ceder ao desejo de ficar com eles e pedir-lhes ajuda. Que tola fraqueza. A memória transmitiu uma calma advertência através de seu corpo.

Será que os gêmeos se atreveriam a praticar a presciência? O caminho que lhes engolfara o pai devia atraí-los — o transe da especiaria, com suas visões ondulantes do futuro, como gaze soprada por um vento inconstante.

“Por que não posso ver o futuro?”, perguntou-se Alia. “Por mais que eu tente, por que ele me

escapa?”

Os gêmeos devem ser levados a tentar, disse ela a si mesma. Eles podem ser atraídos para isso.

Afinal, possuem a curiosidade das crianças aliada a memórias que abrangem milénios.

“Exatamente como eu”, pensou Alia.

Sua guarda abriu os selos de umidade da Entrada Oficial do sietch e formou de lado, enquanto

ela emergia para a plataforma de pouso onde os ornitópteros aguardavam. Havia um vento do deserto soprando poeira através do céu; entretanto, o dia era radioso. Emergir da luminosidade dos brilho-globos do sietch para a luz do dia lançou adiante seus pensamentos.

Por que Lady Jessica retornava nesse momento? Alguém teria contado histórias em Caladan, histórias sobre como a Regência era..

— Devemos apressar-nos, minha senhora — disse um dos guardas, erguendo sua voz acima

dos sons do vento.

Alia deixou que a ajudassem a subir no ornitóptero e prendeu o arreio de segurança, mas seus

pensamentos continuavam saltando adiante.

“Por que logo agora?”

Enquanto as asas do ornitóptero batiam e a aeronave deslizava no ar, Alia sentiu a pompa e o

poder de sua posição como se fossem coisas físicas. .. Mas eram tão frágeis, oh, como eram frágeis!

Por que logo agora, quando seus planos ainda não estavam concluídos?

As névoas poeirentas se ergueram, levadas pelo vento, e ela pôde ver a luz do sol brilhando

sobre a nova paisagem do planeta: amplas extensões de vegetação verde onde um dia predominara a terra ressequida.

“Sem uma visão do futuro, eu posso falhar. Oh, que mágica eu poderia realizar se ao menos

pudesse ver como Paul via! Não é amargura o que me trazem as visões prescientes.”

Uma fome atroz estremeceu através dela e Alia desejou poder abdicar de tal poder. Oh, ser

como os outros eram, cegos na mais segura de todas as cegueiras, vivendo apenas a hipnótica meia vida na qual o choque do nascimento precipita a maioria dos humanos. Mas não! Nascera uma Atreides,

vítima de uma consciência com a profundidade de eras que lhe fora imposta pelo vício de sua mãe.

“Por que minha mãe está de volta hoje?”

Gurney Halleck estaria com ela — sempre o servo dedicado, o assassino de aluguel de modos

feios, leal e direto, um músico que executava um assassinato ou alegrava o ambiente com igual

tranquilidade, tocando sua baliset de nove cordas. Alguns diziam que ele se tornara o amante de sua mãe. Isso era algo que devia descobrir. Podia revelar-se uma informação valiosa.

O desejo de ser como os outros a abandonou.

“Leto deve ser levado ao transe da especiaria.”

Lembrava-se de ter perguntado ao garoto como ele se portaria com relação a Gurney Halleck. E

Leto, sentindo os significados subjacentes à pergunta, dissera que Halleck era leal, mas “com uma falha”. E acrescentara:

— Ele adorava... meu pai.

Notara a pequena hesitação. Leto quase dissera “me adorava” em vez de “adorava meu pai”...

Sim, às vezes era difícil distinguir a memória genética da pessoa. E Gurney Halleck só tornaria essa distinção mais difícil para Leto.

Um sorriso cruel tocou os lábios de Alia.

Gurney preferira retornar a Caladan com Lady Jessica após a morte de Paul. Sua volta deixaria muitas coisas emaranhadas. Voltando a Arrakis, ele adicionaria suas próprias complexidades às linhas já existentes. Ele servira ao pai de Paul, e desse modo prosseguia na sucessão: de Leto I para Paul, de Paul para Leto II. E, saindo do programa de procriação Bene Gesserit, de Jessica para Alia, de Alia para Ghanima — uma ramificação. Gurney, aumentando a confusão de identidades, poderia revelar-se

valioso.

“Que faria ele se descobrisse que carregamos o sangue dos Harkonnen que ele odeia tanto?”

O sorriso nos lábios de Alia tornou-se introspectivo. Os gêmeos eram, apesar de tudo, crianças.

Eram como crianças com incontáveis ancestrais, cujas memórias pertenciam a outros e a elas próprias.

Iriam ficar de pé, na saliência da entrada do Sietch Tabr, e observar o rastro deixado pela nave de sua avó ao pousar na Bacia de Arrakeen. Aquela marca flamejante da passagem da nave, bem visível no céu.

. . isso tornaria a chegada de Jessica mais real para seus netos?

“Minha mãe vai me indagar quanto ao treinamento deles”, pensou Alia. “Terei misturado as

disciplinas prana bindu com a ponderação adequada? E eu lhe direi que eles treinam a si mesmos, exatamente como eu fiz. E lhe citarei as palavras de seu próprio neto: 'Entre as responsabilidades do comando está a necessidade de punir. . . mas somente quando a vítima assim o exige.'“

Alia concluiu então que, se ao menos conseguisse manter a atenção de Lady Jessica

suficientemente voltada para os gêmeos, outros poderiam escapar de sua inspeção minuciosa.

Tal coisa poderia ser feita. Leto era muito parecido com Paul. E por que não seria? Ele poderia ser Paul quando quisesse. Até mesmo Ghanima possuía essa perturbadora habilidade.

“Exatamente como eu posso ser minha mãe, ou qualquer uma das outras que partilharam suas

vidas conosco.”

Desviou-se desse pensamento e olhou para a paisagem da Muralha Escudo, que passava. E

então: “Como terá sido deixar a morna segurança de Caladan, com sua riqueza de água, e retornar a Arrakis, este planeta desértico onde seu Duque foi assassinado e seu filho morreu como um mártir?”

Por que Lady Jessica estaria voltando agora?

Alia não encontrou resposta — nenhuma resposta certa. Ela podia compartilhar a consciência

do ego de outras, mas, onde as experiências seguiam seus diferentes caminhos, seus motivos igualmente divergiam. A matéria-prima para as decisões jazia em ações particulares executadas por indivíduos. Para os pré-nascidos, para os muito-nascidos Atreides, esta permanecia como uma realidade suprema. Em si mesma, outro tipo de nascimento: fora a separação absoluta da carne que vivia e respirava ao deixar o ventre materno que a afligira com a consciência múltipla.

Alia não achava estranho que ao mesmo tempo amasse e odiasse sua mãe. Era uma necessidade,

um equilíbrio necessário que não deixava espaço para culpa ou remorso. Onde poderia acabar o amor ou o ódio? Seria possível culpar as Bene Gesserit por terem colocado Lady Jessica em determinado caminho? A culpa torna-se difusa quando a memória abrange, milénios. A Irmandade buscara apenas gerar um Kwisatz Haderach: o equivalente masculino de uma Reverenda Madre plenamente

desenvolvida.. e mais — um ser humano de sensibilidade e consciência superiores, o Kwisatz

Haderach, que poderia estar em muitos lugares simultaneamente. Lady Jessica fora meramente um peão nesse programa de procriação e tivera o mau gosto de se apaixonar pelo parceiro a que fora destinada.

Respondendo aos desejos de seu Duque, ela gerara um filho em vez da filha que a Irmandade desejava como primogénita.

“Deixando-me para nascer somente depois que já se viciara na especiaria. E agora elas não me

querem. Agora elas me temem! Com boas razões.. ”

Elas conseguiram Paul, seu Kwisatz Haderach, uma geração mais cedo — um pequeno erro de

cálculo num plano muito amplo. E agora tinham outro problema: a Abominação, que carregava

consigo os preciosos genes que elas buscaram por tantas gerações.

Alia sentiu uma sombra passar sobre si e olhou para o alto. Sua escolta estava assumindo uma

posição de guarda mais elevada, preparatória para o pouso. Sacudiu a cabeça, admirada com o modo como seus pensamentos tinham vagueado. Qual era a vantagem de recuperar a memória de antigas

vidas só para misturar seus erros? Essa era uma vida nova.

Duncan Idaho voltara sua consciência mentat sobre a questão do motivo pelo qual Lady Jessica escolhera essa ocasião para retornar. Avaliara o problema no estilo de computador humano que era sua habilidade £ dissera que ela voltava para entregar os gêmeos à Irmandade. Os gêmeos também tinham os preciosos genes, e Duncan podia estar certo. Isso poderia ser o suficiente para ter retirado Lady Jessica de sua auto-imposta reclusão em Caladan. Se a Irmandade ordenasse.. . Bem, por que mais ela voltaria ao cenário de tanta coisa que lhe devia ser tão dolorosa?

— Veremos — murmurou Alia.

Sentiu o ornitóptero tocar o teto de seu Castelo, uma pontuação positiva e incisiva que a enchia de sombrias expectativas.

“melange (mé-lange também ma,lanj) origem incerta (embora se acredite que derive do antigo franzh terrano): a. composto de especiarias; b. especiaria de Arrakis (Duna) com propriedades geriátricas percebidas pela primeira vez por Yanshuph Ashkoko, químico real do reino de Shakkad, o Sábio; melange de Arrakeen, encontrada apenas nas areias mais profundas do deserto de Arrakis, ligada às visões proféticas de Paul Muad' Dib (Atreides), primeiro Mahdi dos Fremen; também empregada pelos Navegadores da Corporação Espacial e pelas Bene Gesserit.”

Dicionário Real quinta edição

Os dois grandes felinos aproximaram-se do penhasco à primeira luz da aurora, andando com

facilidade. Ainda não se encontravam em plena caçada, apenas patrulhavam seu território. Eram

conhecidos como tigres Laza, uma raça especial trazida para o planeta Salusa Secundus quase 8 mil anos atrás. A manipulação genética da antiga espécie terrana apagara algumas características desses tigres, ao mesmo tempo em que aperfeiçoara outros elementos. As presas permaneciam longas. As faces eram

largas, com olhos alertas e inteligentes. As patas haviam sido aumentadas para lhes dar suporte em terreno acidentado, e suas unhas embainhadas podiam estender-se por mais de 10 centímetros, as

pontas afiadas como navalhas pela compressão abrasiva das bainhas. A pelagem era de uma tonalidade bronze uniforme para torná-los quase invisíveis sobre o terreno arenoso.

Ainda de outro modo diferiam de seus ancestrais: servo-estimuladores haviam sido implantados

em seus cérebros enquanto eram filhotes. Esses estimuladores os transformavam em marionetes de

qualquer um que possuísse um transmissor.

Estava frio e quando os felinos pararam, examinando o terreno, sua respiração condensou-se

em vapor sobre o ar. Em torno deles se estendia uma árida e estorricada região de Salusa Secundus, lugar que abrigava umas poucas trutas da areia contrabandeadas de Arrakis e mantidas precariamente vivas no sonho de que um dia o monopólio da melange pudesse ser quebrado. No lugar onde os felinos se encontravam, a paisagem era marcada por rochas cor de cobre e alguns arbustos esparsos, de um verde prateado às longas sombras do sol nascente.

Com o mais leve dos movimentos, os grandes gatos ficaram subitamente alertas. Seus olhos

voltaram-se lentamente para a esquerda e então suas cabeças se viraram. Lá embaixo, no terreno

desolado, duas crianças subiam de mãos dadas por um leito seco de aluvião. Pareciam ter uma idade em torno de nove ou 10 anos-padrão. Ambas tinham cabelos ruivos e usavam trajes-destiladores

parcialmente cobertos por ricos mantos bourka de cor branca, que exibiam em torno da bainha e no capuz a crista do falcão da Casa Atreides, delineada com fio de gema flamejante. Enquanto

caminhavam, as crianças conversavam alegremente e suas vozes eram levadas com clareza até os

felinos. Os tigres Laza conheciam esse jogo; já o haviam jogado antes, mas permaneciam imóveis, aguardando o disparo do sinal de perseguição em seus servo-estimu-ladores.

Agora, um homem surgiu no topo do penhasco, acima dos felinos. Ele parou e observou a

cena: tigres, crianças. Usava o uniforme de trabalho dos Sardaukar, cinza e negro, com a insígnia de um Levenbrech, ajudante de um Bashar. Um arreio passado por trás do pescoço e sob os braços prendia a seu peito o servo-transmissor, uma embalagem de pouca espessura em que as chaves de controle

podiam ser alcançadas facilmente com ambas as mãos.

Os felinos não se voltaram com sua aproximação. Conheciam esse homem pelo cheiro e pelo

som. Ele desceu até se colocar a dois passos dos tigres e limpou o suor da testa. O ar estava frio, mas o trabalho era quente. Novamente seus olhos pálidos esquadrinharam a cena: tigres, crianças. Endireitou um fio de cabelo úmido e louro sob o negro capacete de trabalho e tocou o microfone implantado em sua garganta.

— Os gatos já os avistaram.

A resposta chegou através de receptores implantados atrás de cada orelha.

— Podemos vê-los.

— Agora? — indagou o Levenbrech.

— Será que eles o farão sem o comando de perseguição? — retrucou a voz.

— Eles estão prontos — disse o Levenbrech.

— Muito bem, vejamos se quatro sessões de condicionamento já são suficientes.

— Diga-me quando estiver pronto.

— Quando quiser.

— Agora, então — disse o Levenbrech.

Tocou o botão vermelho do lado direito de seu servo-transmissor, primeiro soltando a barra

que protegia a chave. Agora, os felinos encontravam-se livres de qualquer impulso inibidor transmitido.

Manteve a mão sobre um botão preto, abaixo do vermelho, pronto a deter os animais, caso se

voltassem contra ele. Mas eles nem o notaram, agachando-se e começando a descer a encosta em

direção às crianças. Suas grandes patas resvalavam em movimentos suaves.

O Levenbrech agachou-se para observar, sabendo que em algum lugar perto dele um transolho

oculto transmitia toda a cena para um monitor secreto dentro do castelo onde vivia o Príncipe.

Dentro em pouco os felinos começaram a trotar e depois a correr.

As crianças, sua atenção voltada para a subida através do terreno rochoso, ainda não haviam

percebido o perigo. Uma delas riu, um som alto e agudo no ar límpido. A outra tropeçou e, ao

recuperar o equilíbrio, viu os tigres. Apontou, dizendo:

— Olhe!

Ambas pararam, olhando para essa interessante intrusão em suas vidas. E ainda estavam de pé,

imóveis, quando os tigres as atingiram, um sobre cada criança. As crianças morreram abruptamente, com os pescoços quebrados. Então, os felinos começaram a devorá-las.

— Devo chamá-los de volta? — indagou o Levenbrech.

— Deixe que terminem. Eles agiram bem. Sabia que o fariam. Esse par é soberbo.

— Os melhores que já vi — concordou o Levenbrech.

— Então está bem. Já estamos enviando o transporte para buscá-lo. Desligando agora.

O Levenbrech levantou-se e se espreguiçou. Conteve o impulso de olhar diretamente para a

elevação à sua esquerda, onde uma cintilação reveladora indicaria a localização do transolho que transmitira essa esplêndida performance ao seu Bashar, lá longe, nas terras verdejantes do Capitólio. O

Levenbrech sorriu. Esse dia de trabalho ia valer-lhe uma promoção. Já podia sentir a insígnia de Bator em seu colarinho e um dia. .. Burseg. . . Talvez mesmo Bashar. As pessoas que serviam bem no exército de Farad'n, neto do falecido Shaddam IV, recebiam belas promoções. E um dia, quando o Príncipe

estivesse sentado no trono que lhe pertencia por direito, haveria promoções ainda maiores. O posto de Bashar não seria o ponto final. Ainda havia baronatos e condados para serem exercidos nos muitos mundos desse reino.. . quando os gêmeos Atreides tivessem sido eliminados.

Os Fremen devem retornar à sua fé original, ao seu génio em formar comunidades humanas. Eles devem retornar ao passado, onde sua lição de sobrevivência foi aprendida na luta contra Arrakis. O único negócio dos Fremen devia ser a tarefa de abrir sua alma aos ensinamentos interiores. Os mundos do Império, a Landsraad e a Confederação CHOAM não lhes trazem nenhuma mensagem. Apenas roubam suas almas.

— O Pregador de Arrakeen

Por todas as direções à volta de Lady Jessica, estendendo-se pela monótona uniformidade da planície de pouso, sobre a qual seu transporte repousava, chiando e estalando após o mergulho desde o espaço, se erguia um oceano de humanidade. Ela estimava que meio milhão de pessoas ali se

encontrassem e apenas um terço delas fosse de peregrinos. Mantinham-se em espantoso silêncio, a atenção fixa na plataforma de descarga do transporte, onde as sombras da comporta escondiam Jessica e seu séquito.

Faltavam duas horas para o meio-dia, mas o ar acima da multidão já refletia uma ondulação

poeirenta, prenunciando o calor que viria.

Jessica levou a mão aos cabelos cor de cobre, riscados de prata no ponto em que emolduravam

seu rosto oval, abaixo do capuz aba de Reverenda Madre. Sabia não estar com sua melhor aparência após uma viagem tão longa, e o negro do manto não era sua cor favorita. Entretanto, já havia usado esse traje antes e a significação do manto aba não seria despercebida pelos Fremen. Suspirou. As viagens espaciais não eram coisa que se harmonizasse com ela, e havia ainda a carga extra de suas memórias — aquela outra viagem de Caladan para Arrakis, quando seu Duque fora forçado a aceitar esse feudo contra sua vontade.

Lentamente, sondando com suas habilidades de Bene Gesserit para detectar minúcias

significativas, ela esquadrinhou o mar de gente. Havia capuzes de trajes-destiladores cinzentos, vestimentas dos Fremen do deserto profundo, havia peregrinos em mantos brancos, com as marcas da penitência sobre seus ombros, e bolsões dispersos de ricos mercadores, com roupas leves e sem os capuzes para exibirem seu desdém pela perda da umidade no ar ressequido de Arrakeen... e lá estava a delegação da Sociedade dos Fiéis, com mantos verdes e cabeças cobertas por capuzes pesados,

destacados na santidade de seu próprio grupo.

Somente quando ela erguia o olhar acima da multidão é que a cena adquiria alguma similaridade

com aquela que a recebera em sua chegada, junto de seu amado Duque. Há quanto tempo isso

ocorrera? “Mais de 20 anos.” Não gostava de pensar no tempo transcorrido entre essas duas ocasiões.

O tempo era como um peso morto dentro dela, como se os anos longe desse planeta nunca houvessem existido.

“Uma vez mais na boca do dragão”, pensou.

Aqui, sobre essa mesma planície, seu filho havia arrebatado o Império das mãos do falecido

Shaddam IV. Uma convulsão na história que imprimira esse lugar nas mentes e nas crenças dos

homens.

Ouviu os movimentos inquietos de seu séquito lá atrás, e novamente suspirou. Eles deviam

esperar por Alia, que se atrasara. O grupo de Alia já podia ser visto aproximando-se pela extremidade mais distante da multidão, criando uma onda humana enquanto a cunha de Guardas Reais abria

passagem.

Jessica esquadrinhou a paisagem mais uma vez. Muitas diferenças submetiam-se a seu olhar

inquiridor. Uma sacada para preces fora acrescentada à torre de controle do campo. E bem distante, à esquerda, do outro lado da planície, erguia-se a assombrosa pilha de plasteel que Paul construíra como sua fortaleza — seu “sietch acima da areia”. Era a maior construção integrada individual que já se erguera pela mão do homem. Cidades inteiras poderiam ter sido alojadas entre suas paredes, e ainda teria sobrado espaço.

Agora, abrigava a mais poderosa força de governo em todo o Império, a “Sociedade dos Fiéis”

de Alia, que esta erguera sobre o corpo do irmão.

“Esse lugar deve desaparecer”, pensou Jessica.

A delegação de Alia alcançara o pé da rampa de desembarque e lá permanecia na expectativa.

Jessica reconheceu as feições vincadas de Stilgar. E Deus nos livre! Lá estava a Princesa Irulan, escondendo sua selvageria naquele corpo sedutor, com sua touca de cabelos dourados revelando-se ao capricho de uma brisa. Irulan parecia não ter envelhecido um dia sequer. Isso era uma afronta. E lá, na ponta da cunha, encontrava-se Alia, com as feições imprudentemente juvenis, os olhos voltados para cima, na direção das sombras da comporta. A boca de Jessica comprimiu-se numa linha reta enquanto ela observava o rosto da filha. Uma sensação desagradável pulsou através de seu corpo e ela ouviu o bater de ondas de sua própria vida soando em seus ouvidos. Os rumores eram verdadeiros. Horrível!

Horrível! Alia mergulhara no caminho proibido. A evidência lá estava para que qualquer iniciada pudesse ler. Abominação!

Nos poucos momentos que levou para se recobrar, Jessica percebeu o quanto desejara concluir

que os rumores eram infundados.

“E quanto aos gêmeos?”, perguntou-se. “Estarão perdidos também?”

Lentamente, como convinha à mãe de um deus, Jessica caminhou para fora das sombras,

chegando à borda da rampa. Seu séquito permaneceu atrás, conforme as instruções recebidas. Os

momentos seguintes seriam cruciais. Jessica encontrava-se sozinha, plenamente visível pela multidão.

Ouviu Gurney Halleck tossir nervosamente lá atrás. Gurney fizera objeções:

— Não vai usar nem mesmo um escudo? Por deus, mulher! Está louca!

Entretanto, entre as características mais valiosas de Gurney estava um núcleo de obediência. Ele daria sua opinião, mas depois obedeceria. Como agora obedecia.

Quando Jessica surgiu, o mar humano emitiu um som semelhante ao assovio de um gigantesco

verme da areia. Ela ergueu os braços no gesto de bênção com que o clero condicionara o Império. Com perceptíveis bolsões de retardatários, mas ainda assim como um único e gigantesco organismo, as pessoas caíram de joelhos. Até mesmo o cortejo oficial acompanhou esse movimento.

Jessica marcara bem os grupos que se haviam atrasado na genuflexão e sabia que outros olhos

além dos seus, atrás dela e entre seus agentes disseminados na multidão, haviam memorizado um mapa temporário, marcando as posições dos retardatários.

E enquanto Jessica caminhava com os braços erguidos, Gurney e seus homens saíram. Eles se

moveram com rapidez, passando por ela rampa abaixo e ignorando os olhares de espanto do cortejo oficial. Uniram-se aos agentes, que se identificaram por meio de sinais manuais. Rapidamente,

dispersaram-se por entre o mar humano, saltando por sobre grupos de figuras ajoelhadas, correndo através de passagens estreitas entre os fiéis. Alguns de seus alvos perceberam o perigo e tentaram fugir.

Esses foram os mais fáceis: uma faca atirada ou o laço de um garrote e os fugitivos tombaram. Os outros foram levados para fora da aglomeração, mãos amarradas, pés acorrentados.

Enquanto tudo isso acontecia, Jessica permanecia com os braços estendidos, abençoando a

multidão com sua presença e mantendo-a submissa. Ela percebia o indício dos rumores se espalhando e sabia qual seria o boato predominante, pois este fora plantado: “A Reverenda Madre volta para estirpar os negligentes. Abençoada seja a mãe de nosso Senhor!”

Quando tudo terminou — alguns corpos sem vida estendidos na areia, prisioneiros conduzidos

para as celas debaixo da torre de controle —, Jessica abaixou os braços. Apenas três minutos haviam transcorrido. Sabia ser pouco provável que Gurney e seus homens houvessem atingido alguns dos

líderes da oposição, aqueles que representavam a ameaça maior. Estes seriam alertas e perspicazes. Mas os cativos poderiam revelar alguns peixes interessantes, ao lado da quota normal de inúteis e simplórios.

Jessica abaixou os braços e as pessoas avançaram, aclamando-a a seus pés.

Como se nada de extraordinário houvesse acontecido, ela desceu a rampa sozinha, evitando a

filha e concentrando sua atenção em Stilgar. A barba negra, que se espalhava sobre o colarinho do capuz do traje-destilador num turbulento delta, já mostrava algumas marcas cinzentas. Seus olhos, entretanto, mantinham aquela mesma intensidade com que se haviam apresentado em seu primeiro

encontro no deserto. Stilgar sabia o que acabara de acontecer, e o aprovara. Ali estava um verdadeiro Naib Fremen, um líder de homens capaz de tomar decisões sangrentas. Suas primeiras palavras foram inteiramente adequadas.

— Bem-vinda ao lar, Minha Senhora. É sempre um prazer testemunhar uma ação direta e

efetiva.

Jessica se permitiu um pequeno sorriso.

— Feche o porto, Stil. Ninguém sai até termos interrogado aqueles que apanhamos.

— Já está feito, Senhora. Planejei tudo isso com o homem de Gurney.

— Aqueles que ajudaram, então, eram seus homens.

— Alguns deles, Minha Senhora.

Ela notou a reserva oculta e assentiu com a cabeça.