Os Filhos de Duna por Frank Herbert - Versão HTML

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— Você me observou muito bem naqueles dias, Stil.

— Como um dia se esforçou para me ensinar, Minha Senhora, a gente observa os

sobreviventes e aprende com eles.

Alia deu um passo à frente e Stilgar se colocou de lado, enquanto Jessica confrontava sua filha.

Sabendo que não havia modo de esconder o que descobrira, Jessica nem mesmo tentou

disfarçar. Alia podia ler minúcias quando era preciso, como qualquer adepta da Irmandade. Ela já saberia, pelo comportamento de Jessica, o que fora visto e interpretado. Elas eram inimigas para as quais o termo mortal seria apenas superficial. «

Alia preferiu a raiva como reação mais fácil e adequada.

— Como se atreve a planejar uma ação como essa sem me consultar? — quis saber, levando o

rosto para perto do de Jessica.

Jessica falou com brandura:

— Como acaba de ouvir, Gurney nem ao menos me participou o plano todo. Era como se. ..

— E você, Stilgar? — disse Alia, voltando-se para ele. — A quem você dedica sua lealdade?

— Meu juramento é para com os filhos do Muad'Dib — respondeu Stilgar rapidamente. —

Ainda não eliminamos a ameaça que paira sobre eles.

— E por que a ação não a encheu de alegria. . . filha?

Alia piscou os olhos, olhou para a mãe, contendo a tempestade interior, e até mesmo conseguiu

abrir um sorriso direto.

— Eu estou cheia de alegria. . . mãe.

Para sua própria surpresa, Alia descobriu-se feliz, experimentando um terrível prazer que se

derramava, afinal, entre ela e sua mãe. O momento temido se passara e a balança do poder não se alterara.

— Discutiremos isso com maiores detalhes em ocasião mais conveniente — acrescentou Alia,

falando para a mãe e para Stilgar.

— Mas é claro — respondeu Jessica, voltando-se para Irulan com um movimento que indicava

o encerramento da entrevista.

Durante umas breves batidas do coração, Jessica e a Princesa ficaram em silêncio, uma diante da outra — duas Bene Gesserit que haviam rompido com a Irmandade pela mesma razão: o amor.. .

Ambas pelo amor de homens que agora estavam mortos. A Princesa amara Paul em vão, tornando-se

sua esposa, mas não sua mulher. E agora vivia unicamente para as crianças que Paul ganhara de sua concubina Fremen, Chani.

Jessica foi a primeira a falar:

— Onde estão meus netos?

— No Sietch Tabr.

— É muito perigoso para eles aqui. Eu compreendo.

Irulan permitiu-se um fraco aceno com a cabeça. Observara o diálogo entre Jessica e Alia, mas

o interpretara da maneira pela qual Alia a havia preparado:* “Jessica retornou à Irmandade e ambas sabemos que elas têm planos para os filhos de Paul.” Irulan nunca fora a adepta mais dedicada da Bene Gesserit, sendo mais valiosa pelo fato de ser filha de Shaddam IV do que por qualquer outra razão.

Frequentemente orgulhosa demais para se esforçar, aperfeiçoando suas capacidades, agora tomava

partido com uma rapidez que lhe desmerecia o treinamento.

— Realmente, Jessica — disse Irulan. — O Conselho Real devia ter sido consultado. Foi

errado de sua parte trabalhar somente através de. . .

— Devo acreditar que nenhuma de vocês confia em Stilgar? — indagou Jessica.

Irulan tinha suficiente sagacidade para saber que não podia haver resposta a essa pergunta.

Ficou feliz quando os delegados do clero, incapazes de conter sua impaciência, abriram caminho, aproximando-se. Trocou um breve olhar com Alia, pensando: “Jessica continua arrogante e confiante como sempre.” Entretanto, um axioma Bene Gesserit brotou em sua mente: “Os que são arrogantes

erguem muralhas atrás das quais tentam ocultar seus medos e suas dúvidas.” Seria esse o caso de Jessica? Certamente que não. Então, devia ser pose. Mas com que propósito? Essa questão perturbava Irulan.

Os sacerdotes foram ruidosos ao tomarem conta da mãe do Muad'Dib. Alguns limitaram-se a

lhe tocar os braços, outros curvaram-se e lhe dirigiram saudações. Afinal, os líderes da delegação tiveram sua vez com a Mais Sagrada Reverenda Madre, aceitando os papéis preestabelecidos — “Os

últimos serão os primeiros” — com sorrisos ensaiados e dizendo-lhe que a cerimónia oficial de

Purificação a aguardava no Castelo, a velha fortaleza de Paul.

Jessica observou o par, achando-o repelente. Um deles chamava-se Javid, jovem de feições

carrancudas e face arredondada, com olhos sombrios que não ocultavam as suspeitas que habitavam suas profundezas. O outro era Zebataleph, o segundo filho de um Naib que ela conhecera durante seus dias como Fremen, como ele não demorou a lhe lembrar. Este era fácil de classificar: a jovialidade unida à crueldade, rosto magro com barba loura e um ar de secreta excitação e profundo conhecimento.

Considerou Javid o mais perigoso dos dois, um conselheiro particular, simultaneamente magnético e —

não conseguia encontrar palavra melhor — repelente. Achou seu sotaque estranho, cheio de velhas pronúncias Fremen, como se originário de algum bolsão isolado.

— Diga-me, Javid — perguntou. — De onde você vem?

— Não sou mais que um simples Fremen do deserto — respondeu, cada sílaba desmentindo

sua declaração.

Zebataleph introduziu-se na conversa com uma deferência agressiva, quase zombeteira.

— Temos muito a discutir sobre os velhos dias, Minha Senhora. Fui um dos primeiros, como

sabe, a reconhecerem a sagrada natureza da missão de seu filho.

— Mas você não era um dos Fedaykin — disse ela.

— Não, Minha Senhora. Eu tinha uma inclinação mais filosófica, de modo que estudei para o

sacerdócio.

“E assim assegurou a preservação de sua pele”, pensou ela. Javid lembrou:

— Eles esperam por nós no Castelo, Minha Senhora. Novamente ela considerou o estranho

sotaque como questão

em aberto, a exigir resposta.

— Quem aguarda por nós? — indagou.

— A Assembleia da Fé. Todos aqueles que mantêm brilhantes o nome e os feitos de seu

sagrado filho — respondeu Javid.

Jessica olhou à sua volta, viu Alia sorrindo para Javid e perguntou:

— Esse homem é um dos que você nomeou, filha? Alia assentiu com a cabeça.

— Um homem destinado a grandes feitos.

Mas Jessica notou que Javid não sentia prazer por receber essa atenção, e marcou-o para um

estudo especial a ser feito por Gurney. E lá vinha Gurney, com cinco homens de confiança, assinalando que tinham vadios suspeitos sob interrogatório. Caminhava com o passo gingado de um homem

poderoso, o olhar relampejando à esquerda e à direita, cada músculo fluindo na tranquila vigilância que ela lhe ensinara a partir do manual prana-bindu das Bene Gesserit. Gurney era uma feia montanha de reflexos treinados, um matador aterrorizante para alguns, mas Jessica o amava e valorizava acima de qualquer outro homem vivo. A cicatriz de um chicote inkvine ondulava em sua mandíbula, dando-lhe uma aparência sinistra, mas um sorriso suavizou-lhe a face quando ele viu Stilgar.

— Muito bem feito, Stil — disse. E seguraram os braços um do outro à maneira Fremen.

— A Purificação — disse Javid, tocando o braço de Jessica. Jessica recuou, escolhendo as

palavras cuidadosamente através

do poder controlador da Voz, o tom e a pronúncia calculados para obter um preciso efeito

emocional sobre Javid e Zebataleph.

— Eu voltei a Duna para ver meus netos. Devemos perder tempo com essa tolice sacerdotal?

Zebataleph reagiu com um choque, o queixo caído, os olhos arregalados olhando para ver quem

tinha pronunciado essas palavras. E marcando cada uma delas. “Tolice sacerdotal!” Que efeito isso teria, vindo da mãe do messias?

Javid, contudo, confirmou a avaliação de Jessica. Sua boca assumiu uma expressão cruel, e ele

sorriu. Os olhos não corresponderam ao sorriso nem se desviaram para marcar os outros ouvintes.

Javid conhecia cada membro desse grupo. Tinha um mapa mental assinalando todos aqueles que, de

agora em diante, deviam ser vigiados com cuidado especial. Somente segundos depois Javid parou de sorrir com uma brusquidão que já revelava ter percebido que se traíra. Ele não falhara no trabalho de casa: conhecia os poderes de observação de Lady Jessica. Com um breve aceno da cabeça, reconheceu-os.

Num lampejo de avaliação, Jessica pesou as necessidades. Bastaria um sutil sinal com a mão

para Gurney, e Javid seria morto. Isso poderia ser feito ali mesmo, para causar impacto, ou mais tarde, de modo a parecer um acidente.

Pensou: “Quando tentamos ocultar nossos impulsos mais internos, todo o ser grita, revelando-

nos.” Seu treinamento Bene Gesserit voltou-se para essa revelação, que elevava as adeptas acima dessa fraqueza e lhes ensinava a ler a carne aberta dos outros. Ela via a inteligência de Javid como valiosa, um peso temporário na balança. Se ele pudesse ser conquistado, seria o elo de que necessitava, a brecha dentro do clero de Arrakeen. E era um dos homens de Alia.

Então, Jessica disse:

— Minha delegação oficial deve permanecer pequena. No entanto, temos espaço para mais

um. Javid, você se unirá a nós. Sinto muito, Zebataleph. E Javid... eu comparecerei a essa... cerimónia, se assim insistir.

Javid tomou fôlego e disse em voz baixa:

— Se a mãe do Muad'Dib assim ordena. — Olhou para Alia, para Zebataleph e de volta para

Jessica. — É doloroso para mim atrasar seu encontro com seus netos, mas existem, ahh, razões de Estado...

Jessica pensou: “Bom. Ele é, acima de tudo, um homem de negócios. Uma vez determinado o

seu preço, poderemos comprá-lo.”

Encontrou-se apreciando o fato de ele insistir em sua preciosa cerimónia. Essa pequena vitória

lhe daria poder entre os companheiros, e ambos sabiam disso. Aceitar sua Purificação podia ser um preço baixo a pagar por serviços posteriores.

— Presumo que já tenha providenciado o transporte — disse ela.

Eu lhes dou o camaleão do deserto, cuja habilidade em se confundir com o terreno lhes revela tudo que precisam saber a respeito das raízes da ecologia e dos alicerces de uma identidade pessoal.

— Livro de Diatribes, das Crónicas de Hayt

Leto estava sentado, tocando um pequeno baliset que lhe fora enviado, em seu quinto

aniversário, por um artista consumado naquele instrumento: Gurney Halleck. Em quatro anos de

prática, Leto conseguira certa fluência, embora as duas cordas graves laterais ainda lhe causassem problema. Ele achava o baliset tranquilizador, contudo, quando seus sentimentos o perturbavam, fato que não passara despercebido a Ghanima. Ele estava sentado, à luz do poente, numa saliência rochosa situada na extremidade sul de um afloramento de rochas escarpadas que protegiam dos ventos o Sietch Tabr. Suavemente, dedilhava o baliset.

Ghanima encontrava-se atrás dele, sua pequena figura irradiando protesto. Ela não quisera ir até ali, um espaço aberto, depois de saber, através de Stilgar, que a avó se atrasara em Arrakeen. Em particular, fazia objeções ao fato de ir àquele lugar perto do cair da noite. Tentando apressar o irmão, indagou.

— Bem, como é?

Como resposta, ele começou outra melodia.

Pela primeira vez, desde que aceitara o presente, Leto, sentia-se intensamente cônscio do fato

de que esse baliset era obra de um mestre artesão de Caladan. Leto tinha memórias herdadas capazes de afligi-lo com uma profunda nostalgia pelo lindo planeta onde governara a Casa Atreides. Bastava relaxar suas barreiras interiores na presença dessa música para ouvir as memórias daqueles tempos, quando Gurney empregara o baliset para divertir seu amigo e aluno Paul Atreides. Com o baliset soando em suas mãos, Leto sentia-se uma vez mais dominado pela presença psíquica do pai. Ainda assim,

continuou tocando, relaxando cada vez mais ao som do instrumento, a cada segundo que passava.

Sentia a absoluta e idealizada união dentro de seu ser, que sabia como tocar esse baliset, embora seus músculos de nove anos de idade ainda não estivessem condicionados a essa consciência interior.

Ghanima bateu o pé, impaciente, sem perceber que acompanhava o ritmo da música tocada

pelo irmão.

Fazendo uma careta de concentração, Leto interrompeu a música conhecida e tentou uma

canção mais antiga que qualquer outra jamais tocada por Gurney. Uma canção que já era velha quando os Fremen emigraram para seu quinto planeta. As palavras ecoavam um tema Zensunni, e ele as ouvia em sua memória, enquanto seus dedos produziam uma vacilante versão da melodia.

A bela forma da Natureza

Contém uma essência adorável

Chamada por alguns de... decomposição.

Por essa adorável presença

A nova vida encontra seu caminho.

Lágrimas derramadas silenciosamente

São apenas água para a alma:

Elas trazem nova vida.

Para a dor dos seres...

Uma separação daquela cena

Que a morte torna completa.

Ghanima falou por trás dele, enquanto ele tocava a nota final.

— Eis uma música velha e sórdida. Por que logo essa?

— Porque é adequada.

— Vai tocá-la para o Gurney?

— Talvez.

— Ele vai chamá-la de tolice melancólica.

— Eu sei.

Leto olhou para Ghanima por sobre o ombro. Não lhe surpreendia que ela conhecesse a canção

e a letra, mas sentiu súbita admiração pela singularidade de suas vidas gémeas. Um deles podia morrer e no entanto permanecer vivo na consciência do outro, cada memória compartilhada permanecendo

intacta, tão próximos estavam um do outro. Sentiu-se assustado pela teia atemporal daquela

proximidade, e afastou o olhar da irmã. A teia continha fendas, disso ele sabia, e seu medo surgia das fendas mais recentes. Sentia suas vidas começando a se separar e se admirava: “Como posso contar-lhe a respeito dessa coisa que aconteceu somente comigo?”

Olhou para longe no deserto, vendo as sombras profundas atrás das barachans: aquelas dunas

móveis, altas, em forma de crescente, que ondulavam ao redor de Arrakis. Era o Kedem, o deserto interior, e suas dunas raramente eram marcadas, nesses dias, pelas irregularidades provocadas com o avanço de um verme gigante. O poente desenhou traços sangrentos sobre as dunas, emprestando uma luz belicosa às bordas de sombra. Mergulhando do céu carmesim, um falcão capturou sua consciência, assim como um perdiz-das-rochas em pleno voo.

Diretamente abaixo dele, no leito do deserto, plantas cresciam numa profusão de verdes,

irrigadas por um qanat que fluía parcialmente a céu aberto, parcialmente em túneis por sob o solo. A água provinha de gigantescas armadilhas de vento situadas atrás dele, .no ponto mais elevado das rochas. A bandeira verde dos Atreides ondulava abertamente ali.

“Agua e verde.”

Os novos símbolos de Arrakis: a água e o verde.

Um oásis de dunas plantadas na forma de um diamante estendia-se abaixo de seu elevado posto

de observação, fazendo-o focalizar sua atenção na aguda consciência dos Fremen. O som de sino de um pássaro noturno ressoou no penhasco abaixo, ampliando a sensação de estar vivendo momentos de um passado selvagem.

“Nous avons changé tout cela”, pensou, usando com facilidade um dos antigos idiomas que ele e Ghanima empregavam em particular. “Nós alteramos tudo isto.” Suspirou. “Oublier je ne puis.” “Não posso esquecer.”

Por trás do oásis, podia ver, sob a luz que diminuía, aquela terra que os Fremen chamavam “O

Vazio”. A terra onde nada cresce, a terra que nunca foi fértil. A água e o grande plano ecológico estavam mudando isso. Agora havia lugares em Arrakis onde se podia enxergar o verde tapete de

pelúcia das colinas cobertas de florestas. Florestas em Arrakis! Alguns, dentre os membros da nova geração, achavam difícil imaginar que houvesse dunas debaixo daquelas verdes colinas ondulantes. Para esses olhos jovens, não havia choque algum em ver a folhagem plana das árvores de climas chuvosos.

Mas Leto se encontrava agora pensando à velha maneira dos Fremen, cauteloso com as mudanças,

temeroso ante a presença do novo.

Ele disse:

— As crianças me contaram que raramente encontram a truta da areia aqui, próximo à

superfície.

— Que se supõe que isso indique? — perguntou Ghanima com petulância em sua voz.

— As coisas estão começando a mudar muito rapidamente — respondeu ele.

Novamente, o pássaro cantou nos penhascos e a noite caiu sobre o deserto, tal como o falcão

caíra sobre a perdiz. A noite frequentemente o submetia a um assalto de memórias. Todas aquelas vidas interiores clamando por seu próprio momento. Ghanima não fazia objeção a esse fenómeno do modo

como ele fazia. Sabia de sua inquietação, e ele sentiu sua mão sobre o ombro num gesto de simpatia.

Fez soar uma corda raivosa cio baliset.

Como lhe poderia contar o que lhe estava acontecendo?

Dentro de sua cabeça havia guerras e vidas incontáveis parcelando memórias ancestrais:

acidentes violentos, langores de amor, as cores de muitos lugares» e de muitos rostos... as mágoas enterradas e a saltitante alegria das multidões. Ele ouviu elegias à primavera em planetas que não mais existiam, danças ao verde e à luz de fogueiras, gritos, saudações e uma quantidade inumerável de conversas.

Esse ataque era mais duro de suportar ao cair da noite, ao ar livre.

— Não devíamos entrar? — perguntou ela.

Ele sacudiu a cabeça e ela sentiu o movimento, percebendo, afinal, que seus problemas eram

mais profundos do que havia suspeitado.

“Por que é tão frequente que eu assista ao cair da noite aqui fora?”, indagou a si próprio. Não sentira Ghanima retirar a mão.

— Você sabe por que se atormenta desse modo — ela disse.

Ele ouviu a leve repreensão na voz da irmã. Sim, sabia. A resposta estava lá, óbvia em sua

consciência: “Porque aquele grande conhecido-desconhecido dentro de mim me movimenta como uma

onda.” Sentia o ondular de seu passado como se cavalgasse uma prancha de surfe. Tinha as memórias da presciência de seu pai espalhando-se através do tempo, sobrepostas sobre tudo mais, e ainda assim queria todos aqueles passados. Ele os queria! E eles eram tão perigosos. Agora tinha total consciência disso, com essa nova coisa que teria que contar a Ghanima.

O deserto começava a brilhar sob a luz da Primeira Lua que surgia. Ele observou a falsa

imobilidade das dobras de areia, a se estenderem para o infinito. À sua esquerda, a curta distância, encontrava-se o Criado, um afloramento de rocha que o impacto dos ventos carregados de areia

reduzira a uma forma baixa e sinuosa, como um verme negro golpeando através das dunas. Algum dia, a rocha embaixo dele estaria aplainada de forma semelhante e o Sietch Tabr não mais existiria, exceto nas memórias de alguém como ele. Não duvidava de que nessa época haveria alguém como ele.

— Por que está olhando para o Criado? — perguntou Ghanima.

Ele deu de ombros. Em desafio às ordens de seus guardiães, ele e Ghanima iam com frequência

até o Criado. Haviam descoberto ali um esconderijo secreto, e Leto agora sabia por que o lugar os atraía.

Embaixo dele, a uma distância reduzida pela escuridão, a extensão aberta de um qanat brilhava

ao luar; sua superfície ondulava com os movimentos dos peixes predadores, que os Fremen sempre

colocavam em suas reservas de água para evitar a truta da areia.

— Eu me coloco entre o peixe e o verme — murmurou ele.

— O quê?

Ele repetiu mais alto.

Ghanima levou a mão à boca, começando a suspeitar daquilo que o impulsionava. Seu pai havia

agido assim; ela só tinha que consultar sua memória e comparar.

Leto estremeceu. Memórias que o prendiam a lugares que sua carne nunca conhecera

apresentavam-lhe respostas a perguntas que nunca fizera. Via relacionamentos e acontecimentos

desdobrando-se numa gigantesca tela interior. O verme da areia de Duna não atravessaria a água, um veneno para ele. E no entanto a água existira ali em tempos pré-históricos. Depressões de gipsita natural atestavam a existência de mares e lagos que haviam desaparecido. Poços, perfurados

profundamente, encontravam água, mas eram logo selados pela truta da areia. Tão claramente como se houvesse testemunhado os acontecimentos, ele viu o que acontecera a esse planeta, e isso o encheu de um terrível presságio com relação às mudanças cataclísmicas que a intervenção humana estava

trazendo.

Com a voz quase transformada num sussurro, ele disse:

— Eu sei o que aconteceu, Ghanima. Ela inclinou-se para junto dele.

— Sim?

— A truta da areia...

Ele ficou em silêncio e ela se perguntou por que Leto continuava se referindo à fase

embrionária do gigantesco verme da areia desse planeta, mas não se atreveu a perguntar.

— A truta da areia — repetiu ele. — Foi introduzida aqui a partir de algum outro lugar. Este

era um planeta úmido, então. Elas proliferaram além da capacidade dos ecossistemas existentes.

Enquistaram toda a água livre disponível, transformando este planeta num deserto. . . e fizeram isso para sobreviver. Num planeta suficientemente seco, elas poderiam passar à fase de vermes da areia.

— As trutas da areia? — Ghanima sacudiu a cabeça, não porque duvidasse dele, mas porque

não desejava sondar as profundezas onde ele colhera tais informações. E pensou: “Trutas da areia?”

Muitas vezes, na encarnação atual ou nas outras, ela participara daquele jogo infantil de espetar paus em busca da truta da areia, estimulando-as a entrar numa fina membrana de luva antes de levá-las ao alambique da morte, para tirar-lhes a água.

Era difícil pensar nessas pequenas criaturas irracionais como agentes de importantes eventos.

Leto assentiu para si mesmo. Os Fremen sempre haviam tido o conhecimento da necessidade

de colocar peixes predadores em suas cisternas. A truta resistia ativamente às grandes acumulações de água junto à superfície do planeta. Peixes predadores nadavam naquele qanat lá embaixo. Os vetores do verme da areia podiam encarregar-se de pequenas quantidades de água, como aquela existente nas

células da carne humana, por exemplo. Confrontadas com grandes corpos de água, porém, suas fábricas químicas enlouqueciam, explodindo na transformação mortal que produzia a perigosa melange

concentrada, a droga final para a ampliação da consciência, empregada em frações diluídas durante as orgias dos sietch. O concentrado puro que levara Paul Muad'Dib através das muralhas do Tempo,

rumo às profundezas do poço de dissolução em que nenhum outro ser humano do sexo masculino se

atrevera a mergulhar.

Ghanima sentiu o irmão tremendo no lugar onde se sentava, diante dela.

— O que você fez? — ela quis saber.

Mas ele não estava disposto a abandonar sua própria cadeia de revelações.

— Poucas trutas da areia, a transformação ecológica do planeta. ..

— Elas resistem a isso, é claro — disse Ghanima, agora começando a entender o medo na voz

dele, atraída para aquela coisa contra a própria vontade.

— Quando as trutas da areia acabarem, com elas acabarão todos os vermes — ele concluiu. —

As tribos precisam ser advertidas.

— Não haverá mais especiaria — disse ela.

As palavras meramente tocavam os pontos mais elevados de um perigo sistémico que ambos

viam suspenso acima da intrusão humana nas antigas cadeias de relacionamento de Duna.

— É isso que Alia sabe — ele disse. — É por isso que ela se regozija.

— Como pode ter certeza disso?

— Eu tenho.

Agora ela sabia com certeza o que o perturbava, e sentia que esse conhecimento a deixava

arrepiada.

— As tribos não acreditarão em nós se ela nos desmentir — ele disse.

Essa declaração tocava no problema principal de suas existências: que Fremen esperaria

sabedoria da parte de uma criança de nove anos? E Alia, adquirindo cada vez mais experiência a partir de sua própria quota de memórias, jogava com isso.

— Devemos convencer Stilgar — disse Ghanima.

Como se fossem apenas uma, suas cabeças se voltaram e ambos fitaram o deserto iluminado

pelo luar. Era um lugar diferente agora, transmutado por aqueles poucos instantes de compreensão. A interferência humana sobre o ambiente nunca lhes fora mais evidente. Sentiam-se partes integrantes de um sistema dinâmico, mantido numa ordem delicadamente equilibrada. A nova perspectiva envolvia

uma mudança real de consciência que lhes inundava de observações. Como Liet-Kynes dissera, o

universo era o local de conversação constante entre populações animais. E a truta da areia falara a eles, como animais humanos.

— As tribos entenderiam uma ameaça à água — observou Leto.

— Mas é uma ameaça a mais do que a água. É uma... — e ela ficou em silêncio,

compreendendo a profunda significação de suas palavras.

A água era o derradeiro símbolo do poder em Arrakis. Em suas raízes, os Fremen permaneciam

como animais extremamente aplicados, sobreviventes do deserto, especialistas em manter o controle em condições de tensão. E ha medida em que a água se tornava abundante, uma estranha transferência simbólica lhes ocorria, mesmo ao perceberem as antigas necessidades.

— Quer dizer uma ameaça ao poder — ela corrigiu.

— É claro.

— Mas será que vão acreditar em nós?

— Se o virem acontecendo, compreenderão o desequilíbrio.

— Equilíbrio — disse Ghanima, repetindo as palavras do pai, muito tempo atrás. — É isso

que distingue um povo de uma turba.

Essas palavras fizeram com que as memórias do pai fluíssem sobre ele.

— Fatores económicos versus beleza, uma história mais velha do que a Rainha de Sabá. —

Suspirou, olhando para ela por sobre o ombro. — Estou começando a ter sonhos prescientes, Ghani.

Um soluço de espanto escapou da boca da irmã. Ele acrescentou:

— Quando Stilgar nos disse que nossa avó se atrasaria, eu já sabia disso. Agora, meus outros

sonhos são duvidosos.

— Leto. . . — ela sacudiu a cabeça, os olhos úmidos. — Para nosso pai, eles vieram bem mais

tarde. Não acha que pode ser. . .

— Em sonho me vi usando uma armadura e correndo através das dunas. E já estive em

Jacurutu.

— Jacu. . . — ela limpou a garganta. — Aquele velho mito!

— Um lugar real, Ghani! Devo encontrar esse homem que chamam o Pregador. Devo

encontrá-lo e interrogá-lo.

— Acha que ele é.. nosso pai?

— Faça a si mesma essa pergunta.

— Seria bem típico dele — concordou ela. — Mas...

— Não gosto das coisas que sei que terei de fazer. Pela primeira vez em minha vida, eu

entendo meu pai.

Ela se sentiu excluída de seus pensamentos, e disse:

— O Pregador é, mais provavelmente, apenas um velho místico.

— Rezo para que seja — sussurrou ele. — Oh, como rezo por isso! — Inclinou o corpo para a

frente e se levantou, o baliset soando em sua mão enquanto se movimentava. — Será que ele era apenas um Gabriel sem a trombeta? — Olhou em silêncio para o deserto iluminado pelo luar.

Ela voltou-se para olhar na mesma direção e viu o brilho fluorescente da vegetação que

apodrecia na extremidade das plantações do sietch. Depois, a suave transição para as linhas das dunas.

Lá estava um lugar cheio de vida. Mesmo enquanto o deserto dormia, alguma coisa nele permanecia desperta. Ela podia sentir isso, ouvindo animais bebendo no qanat abaixo. A revelação de Leto havia transformado a noite: esse era um momento vivo, um tempo para descobrir regularidades na perpétua mudança, um instante para sentir aquele longo movimento de seu passado terrânico, todo ele

embrulhado em suas memórias.

— Por que Jacurutu? — ela indagou, e a uniformidade de seu tom de voz perturbou aquela

atmosfera.

— Por quê?.. . Não sei. Da primeira vez que Stilgar nos contou como eles mataram as pessoas

que havia por lá e tornaram o lugar tabu, eu pensei... o mesmo que você. Mas agora o perigo vem de lá..

. E do Pregador.

Ghanima não replicou nem exigiu que ele compartilhasse mais de seus sonhos prescientes.

Sabia o quanto isso revelava a ele o terror que ela sentia. Aquele caminho levava à Abominação, ambos sabiam. A palavra pairou impronunciada entre eles, enquanto ele se virava e liderava a caminhada de volta, sobre as rochas da entrada do sietch. “Abominação.”

O Universo pertence a Deus. Ê uma coisa só, um todo sobre o qual todas as divisões podem ser identificadas. A vida transitória, mesmo aquela vida racional e autoconsciente a que chamamos sensitiva, mantém apenas frágil domínio sobre qualquer porção do todo.

— Comentários da CET (Comissão de Tradutores Ecuménicos)

Halleck usava sinais manuais para transmitir a verdadeira mensagem enquanto falava sobre

outros assuntos. Não gostara da pequena ante-sala que os sacerdotes haviam destinado para seu

relatório, sabendo que devia estar pululando de aparelhos de espionagem. Deixem que eles tentem decifrar o código dos pequenos sinais manuais, pensou. Os Atreides usavam esse meio de comunicação há séculos sem que ninguém conseguisse ser mais esperto.

A noite caíra lá fora, mas a sala não tinha janelas. Sua iluminação ficava a cargo de globos

luminosos situados nos cantos.

— Muitos daqueles que pegamos eram gente de Alia — sinalizou Halleck, observando o rosto

de Jessica enquanto falava alto, dizendo-lhe que os interrogatórios ainda continuavam.

— Foi como previu — respondeu Jessica com movimentos de seus dedos. Ela acenou com a

cabeça e respondeu verbalmente: — Aguardarei um relatório completo assim que estiver satisfeito, Gurney.

— É claro, Minha Senhora — ele disse, e seus dedos acrescentaram: — Há outra coisa muito

perturbadora. Sob a ação de drogas profundas, alguns de nossos prisioneiros falaram em Jacurutu e, ao pronunciarem esse nome, morreram.

— Paralisação cardíaca condicionada? — indagaram os dedos de Jessica. E ela disse: — Já

libertou algum dos cativos?

— Uns poucos, Minha Senhora. Os simplórios mais óbvios. — E seus dedos relampejaram.

— Suspeitamos de compulsão cardíaca, mas ainda não temos certeza. As autópsias não foram

concluídas. Mas, como devia saber sobre essa coisa de Jacurutu, vim imediatamente.

— Meu Duque e eu sempre pensamos em Jacurutu como uma lenda interessante,

provavelmente baseada num fato real — disseram os dedos de Jessica, e ela ignorou a mágoa que

normalmente a acometia quando falava de seu amor há muito falecido.

— Tem alguma ordem? — perguntou Halleck em voz alta. Jessica respondeu do mesmo

modo, dizendo-lhe que retornasse

ao campo de pouso e relatasse qualquer informação positiva que surgisse. Mas com os dedos ela

transmitiu outra mensagem:

— Restabeleça contato com nossos amigos entre os contrabandistas. Se Jacurutu existe, eles

terão que se manter à custa da venda de especiaria. E não haverá outro mercado para eles, exceto os contrabandistas.

Halleck inclinou a cabeça levemente e disse com os dedos:

— Já coloquei em movimento esse curso de ação, Minha Senhora. — E como não pudesse

ignorar o treinamento de uma vida inteira, acrescentou: — Tenha muito cuidado neste lugar. Alia é sua inimiga e a maior parte do clero está com ela.

— Javid não está — responderam os dedos de Jessica. — Ele odeia os Atreides. Duvido que

outra pessoa que não uma adepta pudesse detectar isso, mas sou positiva a esse respeito. Ele conspira e Alia não sabe.

— Estou colocando guardas extras para protegê-la — disse Halleck, falando novamente e

evitando a centelha de desprazer nos olhos de Jessica. — Há riscos, disso estou certo. Vai passar a noite aqui?

— Mais tarde iremos para o Sietch Tabr — disse ela, e hesitou, a ponto de lhe dizer que não

mandasse mais guardas, mas manteve o silêncio. Os instintos de Gurney mereciam confiança. Mais de um Atreides aprendera isso, para seu prazer ou mágoa. — Tenho mais uma reunião. . . com o Mestre dos Noviços, desta vez — ela disse. — Esse é o último encontro e eu partirei deste lugar com alegria.

E eu vi outra besta saindo das areias; e ela tinha dois chifres, como um carneiro, mas sua boca era cheia de presas e quente como a de um dragão; e seu corpo tremulava e queimava com grande calor enquanto ela silvava como uma serpente.

Bíblia Católica Laranja Revisada

Ele chamava a si mesmo “o Pregador” e provocava grande temor entre muitos em Arrakis de

que pudesse ser o Muad'Dib voltando do deserto, vivo, afinal. O Muad'Dib ainda podia estar vivo, já que ninguém vira seu corpo, levado pelo deserto. Ainda assim, seria o Muad'Dib? Era possível

estabelecer pontos de comparação, embora ninguém que tivesse vivido nos velhos tempos se

apresentasse para dizer:

— Sim, percebo que esse é o Muad'Dib. Eu o conheço.

E no entanto. . . tal como o Muad'Dib, o Pregador era cego, suas órbitas negras e marcadas

com cicatrizes de um modo que só poderia ter sido provocado por um queima-pedra. E sua voz

transmitia aquele caráter elétrico, penetrante, a mesma força compulsiva que exigia uma resposta de algum lugar profundo dentro de você. Muitos notaram isso. Era magro, esse Pregador, a face coriácea cheia de vincos, os cabelos grisalhos. Mas o deserto profundo fazia isso a muitas pessoas. Você só tinha que olhar para si próprio e ver a comprovação disso. E havia outro fator de controvérsia. O Pregador era conduzido por um jovem Fremen, um rapaz cujo sietch não se conhecia, e que dizia, quando lhe indagavam, que trabalhava sob pagamento. Argumentava-se então que o Muad'Dib, conhecendo o

futuro, não necessitara de guias, exceto perto do fim, quando a dor o dominara. Mas então ele precisara de um guia, todos sabiam disso.

O Pregador aparecera nas ruas de Arrakeen durante uma manhã de inverno, com a mão

bronzeada e marcada de veias sobre o ombro de seu jovem guia. O rapaz, que dizia chamar-se Assan Tariq, caminhou através da poeira cheirando a pedra da manhã turbulenta, levando seu protegido com a agilidade prática dos que nasceram num sietch e nunca perderam o contato.

Observou-se que o cego usava um manto bourka tradicional sobre um traje-destilador que

trazia a marca daqueles que haviam sido confeccionados, um dia, nas cavernas dos sietches do deserto mais profundo. Não era como os trajes ordinários, feitos atualmente. O tubo do nariz, que capturava a umidade da respiração para as camadas recicladoras embaixo do bourka, estava amarrado com fio

trançado, feito da trepadeira negra, tão raramente vista hoje em dia. A máscara do traje, sobre a metade inferior do rosto, tinha manchas esverdeadas produzidas pela areia soprada com o vento. Em tudo e por tudo, esse Pregador era uma figura saída do passado de Duna.

Muitos entre as multidões madrugadoras daquele dia de inverno notaram sua passagem. Afinal,

um Fremen cego permanecia uma raridade. A Lei Fremen ainda remetia os cegos para o Shai-Hulud.

As palavras da Lei, embora menos respeitadas nesses tempos modernos, amortecidos pela água,

permaneciam imutáveis desde os primeiros dias. Os cegos eram uma dádiva para o Shai-Hulud. Eram expostos ao bled aberto para que os grandes vermes os devorassem. Quando isso ocorria — e havia histórias conhecidas nas cidades —, sempre era feito no lugar em que dominavam os vermes maiores, chamados os Velhos do Deserto. Um Fremen cego, portanto, era uma curiosidade, e as pessoas

paravam para ver a passagem desse par estranho.

O garoto aparentava 14 anos-padrão, um membro da nova geração que usava trajes-destiladores

modificados, deixando o rosto exposto ao ar que roubava a umidade. Tinha feições esguias, os olhos totalmente tingidos de azul pela especiaria, nariz protuberante e aquela aparência de inocência inócua que tão frequentemente mascara, entre os jovens, um conhecimento cínico. Em contraste com ele, o cego era uma lembrança de tempos quase esquecidos. Com as passadas longas e aquela magreza rija que falava de muitos anos sobre a areia, tendo apenas os pés ou um verme capturado para carregá-lo.

Mantinha a cabeça erguida naquela rigidez de pescoço que alguns cegos não podem evitar, movendo-a apenas ao inclinar o ouvido na direção de algum som interessante.

O estranho par atravessou as multidões que se reuniam no início do dia, chegando afinal aos

degraus que levavam para cima, por hectares de terraços, até a escarpa que constituía o Templo de Alia, companhia adequada ao Castelo de Paul. O Pregador subiu os degraus até que seu jovem guia chegou à terceira plataforma, onde os peregrinos do Hajj esperavam pela abertura matinal das gigantescas portas acima deles. Eram portas suficientemente grandes para deixarem passar toda uma catedral de uma das antigas religiões. Passar através delas, costumava-se dizer, reduzia a alma do peregrino a uma partícula suficientemente pequena de modo a poder penetrar através do fundo de uma agulha e assim entrar no céu.

Na extremidade da terceira plataforma, o Pregador se voltou e foi como se olhasse à sua volta,

vendo, com as órbitas vazias, os afetados residentes da cidade, alguns deles Fremen com roupas que simulavam trajes-destiladores, mas não passavam de tecidos decorativos, ao lado dos ávidos peregrinos, recém-desembarcados dos transportes espaciais da Corporação, esperando pelo primeiro passo na

devoção que lhes asseguraria um lugar no paraíso.

A plataforma era um lugar barulhento: havia os Cultores do Espírito do Mahdi, vestindo

mantos verdes e carregando falcões vivos treinados para gritarem o “chamado do céu”. Vendedores apregoavam sua comida. Muitas coisas eram postas à venda, com vozes gritando em competitiva

estridência. Ali estava um taro de Duna, com seus folhetos de comentários impressos em shigawire.

Um vendedor tinha pedaços de roupa exótica, que ele “garantia terem sido tocados pelo próprio

Muad'Dib!”. Outro trazia frascos de água com o “certificado de terem vindo do Sietch Tabr, onde viveu o Muad'Dib”. E, através de tudo isso, conversas em mais de 100 dialetos de Galach

entremeavam-se com sons guturais e guinchos de linguagens estranhas reunidas sob o “Sagrado

Império”. Dançarinos Faciais e gente pequena, oriundos dos suspeitos planetas de artesãos dos

Tleilaxu, saltavam e giravam através da multidão em trajes berrantes. Havia rostos magros e rostos gordos, ricos em água. Um sussurro de passadas nervosas chegava do plasteel áspero que formava os amplos degraus. E ocasionalmente uma voz aguda se elevaria da cacofonia de preces: “— Muaa-a-a-ad'Dib! Mua-a-a-ad'Dib! Receba as súplicas de minha alma! Tu, que és o ungido de Deus, receba minha alma! Mua-a-a-ad'Dib!”

Próximos, entre os peregrinos, atores mascarados recitavam, em troca de algumas moedas, os

versos da atualmente popular Controvérsia entre Armistead e Leandgraph.

O Pregador inclinou a cabeça para ouvir.

Os atores eram homens da cidade, de meia-idade, com vozes entediadas. Sob o comando de

uma palavra, o guia os descreveu para o Pregador. Estavam vestidos com mantos folgados, nem

mesmo se dignando a simular trajes-destiladores para seus corpos ricos em água. Assan Tariq achou isso divertido, mas o Pregador o repreendeu.

O ator que fazia o papel de Leandgraph estava terminando uma fala:

— Bah! O Universo só pode ser apreendido pela mão de um ser sensível. Essa mão é que move

seu precioso cérebro, e que impulsiona tudo mais que dele deriva. Você vê aquilo que criou, tornando-se consciente, só depois que a mão fez o seu trabalho!

Aplausos saudaram o desempenho.

O Pregador cheirou, inalando os ricos odores desse lugar: ésteres escapando de trajes-

destiladores mal-ajustados, almíscares de origens diversas, a onipresente poeira de pedra, hálitos de incontáveis dietas exóticas, e os aromas de raros incenses que já começavam a ser queimados dentro do Templo de Alia e agora flutuavam sobre os degraus, numa corrente de ar habilmente dirigida. Os

pensamentos do Pregador refletiam-se em seu rosto enquanto ele terminava de perceber tudo à sua volta: “Nós chegamos a isto, nós, os Fremen!”

Uma súbita distração ondulou pela multidão na plataforma. Dançarinos da Areia tinham

chegado à praça ao pé dos degraus, meia centena deles, amarrados uns aos outros por cordas de elacca.

Obviamente, haviam dançado assim durante dias, buscando um estado de êxtase. Suas bocas

espumavam enquanto eles se moviam em espasmos, batendo os pés em sua música secreta. Um terço

deles pendia das cordas, inconsciente, puxado para a frente e para trás pelos outros, como marionetes em arames. Um desses bonecos despertara, entretanto, e a multidão aparentemente sabia o que esperar.

— Eu viii! — gritou o dançarino recém-desperto. — Eu viii! — Ele resistiu aos puxões dos outros dançarinos, seu olhar esgazeado lançando-se para a direita e a esquerda. — Onde se ergue esta cidade, restará apenas areia! Eu viii!

Uma grande gargalhada elevou-se da plateia. Até mesmo os novos peregrinos uniram-se a ela.

Isso era demais para o Pregador. Ele ergueu ambos os braços e rugiu numa voz que certamente

comandara cavalgadas sobre grandes vermes:

— Silêncio! — E toda a multidão na praça ficou imóvel ante aquele grito de batalha.

O Pregador apontou a mão magra em direção aos dançarinos, e a ilusão de que realmente os via

era sinistra.

— Não estão ouvindo aquele homem? Idólatras e blasfemos! Todos vocês! A religião do

Muad'Dib não é o Muad'Dib. Ele a rejeitou, tal como rejeitou a vocês! A areia vai cobrir este lugar. A areia vai cobrir vocês!

Dizendo isso, abaixou os braços, colocou a mão sobre o ombro de seu guia e ordenou:

— Leve-me para longe deste lugar.

Talvez houvesse sido a escolha das palavras pelo Pregador. “Ele a rejeitou, tal como rejeitou a vocês!” Talvez fosse o tom de sua voz, certamente algo mais que humano, uma vocalização treinada, com certeza, nas artes da Voz das Bene Gesserit, que comandavam por meras nuanças de sutil inflexão.

Ou talvez tivesse sido apenas o misticismo inerente a esse lugar, onde o Muad'Dib vivera, caminhara e governara. Alguém gritou do alto da plataforma, chamando pelo Pregador com uma voz que tremia de assombro religioso:

— É o Muad'Dib que volta para nós?

O Pregador parou, enfiou a mão na sacola embaixo de seu bourka e retirou um objeto que só

os que estavam mais próximos reconheceram. Era uma mão humana mumificada pelo deserto, uma das

ironias do planeta em relação à mortalidade que apareciam por vezes na areia e eram consideradas universalmente como mensagens do Shai-Hulud.

A mão fora dissecada até se converter num punho fechado que terminava em ossos brancos,

marcados por rajadas de areia levadas pelo vento.

— Eu trago a Mão de Deus, e isso é tudo que eu trago! — gritou o Pregador. — Eu falo pela

Mão de Deus. Eu sou o Pregador.

Alguns entenderam com isso que aquela mão era do Muad'Dib, mas outros se fixaram naquela

presença de líder e em sua voz terrível — e foi assim que Arrakis veio a conhecer o seu nome. Mas não foi a última vez que ouviram sua voz.

Relata-se comumente, meu caro Georad, que existe uma grande e natural virtude na experiência da melange.

Talvez isso seja verdade. Contudo, permanecem dentro de mim dúvidas quanto ao fato de o uso da melange trazer consigo a virtude. Parece-me que certas pessoas corromperam o uso da melange em desafio a Deus. Nas palavras do Ecúmeno, elas desfiguraram a alma. Elas roçam a superfície da melange e acreditam com isso terem obtido a graça. Elas ridicularizam seus companheiros, fazem grande mal à religiosidade e distorcem maliciosamente o significado dessa dádiva abundante, o que é decerto uma mutilação que ultrapassa a capacidade humana de restauração. Para estar em verdadeira sintonia com a virtude da especiaria, sem ser corrompido de modo algum, para ser cheio de honra divina, o homem deve permitir que suas palavras correspondam a suas ações. E quando suas ações representam um sistema de consequências malignas, você deve ser julgado por essas consequências, não por suas explicações. É desse modo que devemos julgar o Muad'Dib.

— A Heresia Formalista

Era uma sala pequena, marcada pelo odor de ozônio, reduzida a uma iluminação crepuscular,

acinzentada, pelos globos luminosos enfraquecidos e pela luz azul-metálica de um único monitor

transolho. A tela tinha aproximadamente um metro de largura e apenas dois terços disso de altura.

Revelava com detalhes o panorama de um vale rochoso e inóspito onde dois tigres Laza se

alimentavam com os restos sangrentos de uma presa recentemente abatida. No penhasco acima dos

tigres, podia-se ver um homem magro, usando um uniforme Sardaukar de trabalho, com a insígnia de Levenbrech no colarinho. Usava um quadro de servo-controle preso ao peito.

Uma cadeira suspensora veriforme fora colocada de frente para a tela, sendo ocupada por uma

mulher de cabelos louros e idade indeterminada. Ela tinha a face em forma de coração e mãos delgadas que agarravam os braços da cadeira enquanto observava. Seu manto branco debruado de dourado

ocultava-lhe a figura. Um passo à sua direita encontrava-se um homem corpulento, vestido com o

uniforme cor de ouro e bronze de um auxiliar Bashar dos antigos Sardaukar imperiais. Seu cabelo grisalho fora aparado sobre feições quadrangulares e destituídas de emoção.

A mulher tossiu e disse:

— Foi como havia previsto, Tyekanik.

— Certamente, Princesa — respondeu o Auxiliar Bashar com sua voz rouca.

Ela sorriu ante a tensão em sua voz e indagou:

— Diga-me, Tyekanik, como meu filho irá receber o som do título de Imperador Farad'n I?

— O título lhe é bem adequado, Princesa.

— Não foi isso que perguntei.

— Ele pode não aprovar algumas das coisas feitas para lhe conceder esse, ah, título.

— Então, novamente... — Ela voltou-se, olhando através da sombra em direção a ele. — Você

serviu bem ao meu pai. Não foi sua a culpa de ele perder o trono para os Atreides. Mas por certo a picada daquela perda deve ter sido sentida tão agudamente por você quanto por qualquer...

— Será que a Princesa Wensicia tem alguma tarefa especial para mim? — indagou Tyekanik.

Sua voz permanecia rouca, mas agora havia uma tonalidade aguda.

— Você tem o mau hábito de me interromper — ela disse. Agora ele sorria, exibindo dentes

espessos que brilhavam à luz

emanada da tela.

— Às vezes me lembra seu pai — disse ele. — Sempre esses circunlóquios antes da solicitação

de alguma delicada... ah, missão.

Ela virou o rosto para lhe ocultar sua fúria e indagou:

— Acredita realmente que aqueles tigres Laza colocarão meu filho no trono?

— É uma verdadeira possibilidade, Princesa. Deve admitir que os filhos bastardos de Paul

Atreides não serão mais do que bocados suculentos para aqueles dois. E uma vez eliminados os gêmeos.. . — Encolheu os ombros.

— O neto de Shaddam IV torna-se o sucessor lógico — disse ela. — Isso se pudermos

eliminar as objeções dos Fremen, da Landsraad e da CHOAM, para não mencionar qualquer Atreides

sobrevivente que. . .

— Javid me assegurou que sua gente pode se encarregar de Alia com facilidade. Não conto

Lady Jessica como Atreides. Portanto, quem mais permanece?

— A Landsraad e a CHOAM ficarão onde estiver o lucro — respondeu ela. — Mas e quanto

aos Fremen?

— Nós os afogaremos em sua religião do Muad'Dib.

— Mais fácil dizer do que fazer, meu querido Tyekanik.

— Vejo que voltamos à velha discussão.

— A Casa Corrino fez coisas piores para obter o poder — disse ela.

— Mas aderir a essa.. religião do Mahdi!

— Meu filho o respeita.

— Princesa, eu anseio pelo dia em que Casa de Corrino retornará ao trono que lhe é de direito.

Assim pensa cada Sardaukar remanescente aqui em Salusa. Mas se...

— Tyekanik! Este é o planeta Salusa Secundus. Não caia nas maneiras indulgentes que se espalham pelo nosso Império. Nome completo, título completo, atenção a cada detalhe. Esses atributos mandarão o sangue dos Atreides para as areias de Arrakis. Todos os detalhes, Tyekanik!

Ele sabia a razão desse ataque. Era parte dos truques astutos que ela aprendera com sua irmã,

Irulan. Mas ele se sentia perdendo terreno.

— Você me ouviu, Tyekanik?

— Eu a ouço, Princesa.

— Quero que você se converta à religião do Muad'Dib.

— Princesa, eu caminharia no fogo pela senhora, mas isso..

— Essa é uma ordem, Tyekanik!

Ele engoliu em seco e olhou para a tela. Os tigres Laza haviam acabado de se alimentar e agora

estavam deitados na areia, terminando de se limpar, as línguas compridas movendo-se sobre as patas dianteiras.

— Uma ordem, Tyekanik. Você me entende?

— Eu ouço e obedeço, Princesa. — Sua voz não mudara de tom.

Ela suspirou.

— Oh, se meu pai ao menos estivesse vivo..

— Sim, Princesa.

— Não zombe de mim, Tyekanik. Sei como isso é desagradável para você. Mas se der um

exemplo a ser seguido.. .

— Ele pode não seguir, Princesa.

— Ele seguirá. — Apontou para a tela. — Mas me ocorre que aquele Levenbrech pode ser um

problema.

— Um problema? Como?

— Quantas pessoas sabem desse negócio dos tigres?

— Aquele Levenbrech, que foi o treinador. . um piloto de transporte, a senhora e, é claro...

— Ele bateu no próprio peito.

— E quanto aos fornecedores?

— Eles não sabem de nada. O que teme, Princesa?

— Meu filho é, bem, muito sensível.

— Os Sardaukar não revelam seus segredos — disse ele.

— Nem os mortos o fazem. — Ela se inclinou para a frente e acionou um botão vermelho

embaixo da tela iluminada.

Imediatamente os tigres Laza ergueram as cabeças. Levantaram-se, olhando colina acima para o

«Levenbrech. Movendo-se como se fossem apenas um, voltaram-se e começaram a subir o penhasco.

Aparentando calma a princípio, o Levenbrech apertou a chave em seu console. Seus

movimentos eram seguros, mas, como os felinos continuassem a avançar sobre ele, o homem tornou-se mais agitado, apertando a chave seguidas vezes e com mais firmeza. Uma expressão de surpresa surgiu em suas feições, sua mão moveu-se num movimento brusco em direção à faca de trabalho sobre a

cintura. Mas esse movimento chegou muito tarde. Uma garra atingiu-lhe o peito e o atirou para trás.

Quando ele caía, o outro tigre o pegou pelo pescoço de uma única bocada e o sacudiu. A coluna

vertebral partiu-se.

— Atenção aos detalhes — repetiu a Princesa. Ela se voltou e ficou rija quando Tyekanik

sacou de sua faca. Mas ele a ofereceu a ela, com a lâmina voltada para si mesmo.

— Talvez queira usar a minha faca para cuidar do outro detalhe

— disse ele.

— Coloque essa faca de volta na bainha e não aja como um tolo! — disse ela, furiosa. —

Algumas vezes, Tyekanik, você me tenta a...

— Aquele era um bom homem, Princesa. Um dos meus melhores.

— Um dos meus melhores — ela corrigiu.

Ele inspirou profundamente, trémulo, e embainhou a faca.

— E quanto ao meu piloto de transporte?

— Será considerado um acidente — respondeu ela. — Você irá instruí-lo para que tenha o

maior cuidado quando trouxer aqueles tigres de volta para nós. E, é claro, depois que ele houver entregue nossos bichanos ao pessoal de Javid no transporte. ..

— ela olhou para a faca.

— Isso é uma ordem, Princesa?

— Ê.

— Devo então cair sobre minha faca na ocasião, ou também vai cuidar desse, ahhh, detalhe?