Os Mistérios Sombrios do Vaticano por H. Paul Jeffers - Versão HTML

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Sumário

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Cronologia da biblioteca do Vaticano

Cronologia dos arquivos do Vaticano

Os papas

O pergaminho de Chinon

O tratado de Latrão de 1929 (trechos)

Indicações de leitura

Índice

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Título original:

Dark Mysteries of the Vatican

Copyright © 2012 by H. Paul Jeffers

1ª edição — Maio de 2013

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009

Editor e Publisher

Luiz Fernando Emediato (LICENCIADO)

Diretora Editorial

Fernanda Emediato

Editor

Paulo Schmidt

Produtora Editorial e Gráfica

Erika Neves

Capa e Projeto Gráfico

Alan Maia

Preparação

Fati Gomes

Revisão

Carmen Garcez

Karina Gercke

Conversão para epub

Obliq Press

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Jeffers, H. Paul

Mistérios sombrios do Vaticano / H. Paul Jeffers ;

tradução Elvira Serapicos. -- São Paulo : Jardim dos Livros, 2013.

Título original: Dark mysteries of the Vatican.

ISBN 978-85-63420-18-3

1. Conspiração – Vaticano 2. Corrupção – Vaticano

3. Igreja Católica – História 4. Papado – História 5. Vaticano I. Título.

13-04064

CDD: 282

Índices para catálogo sistemático

1. Vaticano : Igreja Católica : História 282

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Praticamente desde o momento em que Jesus Cristo mudou o nome do

pescador Simão para Pedro e lhe deu as chaves do Reino dos Céus, a

religião construída em nome de Cristo começou a manter segredos por

conveniência. Considerados perigosos pelos imperadores romanos, os

cristãos foram para baixo da terra, literalmente, reunindo-se para orar nas

catacumbas e cavernas. Inventaram gestos, símbolos e outros códigos

secretos para se reconhecer, se comunicar, e evitarem ser descobertos e

perseguidos. Desde sua criação, o cristianismo foi uma religião de segredos.

Depois de três séculos de repressão, a condição de proscritos daqueles

que seguiam Cristo terminou quando o imperador Constantino se converteu à

religião depois de ter visto a luz, literalmente. Em 312 d.C., quando se

preparava para lutar contra seu mais poderoso rival, Maxêncio, junto ao rio

Tibre, “ele informou ter visto a cruz de Cristo diante do sol com as palavras In

hoc signo vinces (Com este sinal vencerás)”. Ordenou aos seus homens que

colocassem cruzes em seus escudos e venceu a batalha. “No ano seguinte, se

encontrou com o imperador Licínio, governante das províncias orientais do

Império Romano, para assinar o Édito de Milão, conferindo direitos iguais a

todos os grupos religiosos dentro do império. Devolveu propriedades

confiscadas dos cristãos, construiu muitas igrejas, doou terras”, enviou sua

mãe a Jerusalém para encontrar o lugar onde Cristo fora crucificado e

construir uma igreja no lugar, e ordenou aos bispos da religião que

convocassem o “primeiro Concílio de Niceia em 325 d.C. para lidar com os

falsos ensinamentos no interior da igreja”. Os resultados desse conclave

foram uma lista formal de crenças cristãs (o Credo Niceno) e a aprovação de

textos para inclusão na Bíblia Sagrada.

Nesse processo de “canonização”, que excluiu textos considerados

heréticos, os bispos que se reuniram em Niceia reclamaram a autoridade

absoluta para decidir o conhecimento que poderia ser disseminado e o que

deveria ser mantido em segredo — e que a Igreja Católica Romana mantém

até hoje. Quando Constantino construiu a basílica de São Pedro na colina do

Vaticano, coração de Roma, como trono dos sucessores de Pedro, ela se

tornou a Santa Sé.

A basílica de São Pedro atualmente está situada no local onde no

primeiro século ficava o Circo de Nero. Depois de reconhecer oficialmente a

cristandade, Constantino iniciou a construção (em 324) de uma grande basílica

no local em que segundo a tradição havia ocorrido a crucificação e enterro de

são Pedro. Em meados do século XV, decidiu-se reconstruir a antiga basílica.

O papa Nicolau V pediu ao arquiteto Bernardo Rosselino que fizesse

acréscimos à velha igreja. A construção do edifício atual começou com o papa

Júlio II, em 1596, e foi concluída em 1615, com o papa Paulo V. As estruturas

vizinhas, que formam a Cidade do Vaticano, incluem edifícios que abrigam o

Arquivo Secreto do Vaticano.

Como “defensor da fé” por mais de dezesseis séculos e depositário do

conhecimento omitido durante tantos outros, o Vaticano tornou-se o foco de

pessoas que tecem inúmeras lendas, mitos e histórias de feitos misteriosos;

segredos sinistros e conspirações criminosas tramadas no interior de suas

paredes. Contribuindo para as suspeitas que rondam o Vaticano, há uma aura

de mistério que envolveu a Igreja Católica Romana por séculos, incluindo o uso

do latim nas cerimônias, o segredo na escolha dos papas, vestes simbólicas e

adornos de cabeça, rituais de adoração, crença em milagres e aparição de

santos, e a afirmação histórica de que em questões de fé o papa era infalível.

Tudo isso deixou aqueles que não são católicos com a sensação de que a

Igreja estava arraigada em segredo.

Para aqueles que acreditam que o Vaticano esconde coisas, nada é mais

fascinante que o Arquivo Secreto do Vaticano. Desde os anos imediatamente

posteriores à crucificação de Cristo, os papas guardavam cuidadosamente os

manuscritos no Scrinium Sanctae Romanae Ecclesiae. Atualmente, os arquivos

dos 264 papas e da hierarquia do Vaticano ocupam quase cinquenta

quilômetros de estantes com documentos amarrados por uma fita vermelha[1].

Ocupando edifícios da Renascença não muito distantes da Capela Sistina, na

Cidade do Vaticano, coração de Roma, existem arquivos não apenas de toda

a história da cristandade, mas também da civilização ocidental. Ninguém,

inclusive o papa, pode afirmar com certeza quantos segredos e escândalos

estão guardados nos arquivos. “Os arquivos secretos do Vaticano são usados

basicamente pelo papa e sua cúria, isto é, a Santa Sé. Em 1881, sob o papa

Leão XIII, os arquivos foram abertos para consulta de eruditos, tornando-se o

mais importante centro de pesquisa histórica do mundo.”

Uma parte do material foi disponibilizada na internet. Mais de 600 fontes

de pesquisa ocupando mais de oitenta quilômetros de prateleiras, cobrindo

mais de 800 anos de história, podem agora ser visitadas no website do

Vaticano (www.vatican.va).

“O documento mais antigo é do século VII, e a partir de 1198 manteve-se

ininterruptamente a documentação… É possível ver a carta de Michelangelo

Buonarotti para o bispo de Cesena (janeiro de 1550), detalhes do julgamento

de Galileu (de 1616 a 1633)”, cartas a respeito de Henrique VIII e seu desejo

de anular o casamento com Catarina de Aragão para poder se casar com Ana

Bolena, e o pergaminho em que o papa Clemente V concedeu perdão aos

líderes dos cavaleiros templários (17 a 20 de agosto de 1308), depois de

terem morrido na fogueira.

A crença generalizada de que os arquivos do Vaticano estão repletos de

segredos obscuros surgiu em 2003 com a publicação do romance de Dan

Bown, O Código Da Vinci, e depois com o filme baseado no livro. A história

fictícia apresentava um elaborado complô montado pela Igreja desde a época

em que os cavaleiros templários conspiraram com ela para eliminar as provas

de que Jesus foi casado com Maria Madalena, que tiveram uma filha, que a

criança era o “Santo Graal” e fora levada para a França; e que seus

descendentes, descendentes de Cristo, estão vivendo entre nós. Embora

fatos do livro tenham sido apontados como falsos ou enganosos, o efeito

causado pelo romance e pelo filme foi o de reforçar a crença de que o

Vaticano faria qualquer coisa para evitar que seus segredos fossem

revelados.

Apesar de O Código Da Vinci ter apresentado uma conspiração

imaginária, a história do Vaticano está repleta de fatos reais que a Santa Sé

quer manter em segredo e de incidentes que curiosos querem transformar em

teorias fantásticas envolvendo assassinatos, papas envenenados, sexo ilícito,

conivência com nazistas, conspirações comunistas, ouro e tesouros artísticos

roubados, e outras histórias sórdidas que nada têm a ver com a verdade.

Organizado cronológica e tematicamente, este livro explora a saga

fascinante dos arquivos ocultos do Vaticano para separar os fatos das lendas

e esclarecer as mentiras contidas nos arquivos, desde escapadas sexuais de

papas e padres, assassinatos em ordens sagradas, escândalos financeiros e

intrigas internacionais a histórias de óvnis e profecias a respeito do fim do

mundo.

1. O termo original “red tape” também significa burocracia, excesso de regras ou conformidade

rígida a normas formais que são consideradas redundantes ou burocráticas, impedindo ou

evitando ações ou tomadas de decisão.↵

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Quando o diretor Ron Howard solicitou permissão em 2008 para filmar Anjos

e demônios, último thriller cinematográfico baseado na obra de Dan Brown, no

Vaticano e em igrejas de Roma, o arcebispo Velasio De Paolis, presidente da

Prefeitura dos Assuntos Econômicos do Vaticano na época, proibiu o uso de

qualquer propriedade da Igreja em Roma. Ele disse que o autor de O Código

Da Vinci havia “deturpado os evangelhos para envenenar a fé”.

Afirmando que a premissa do romance, segundo a qual Jesus e Maria

Madalena se casaram e tiveram uma filha, é “uma ofensa contra Deus”, De

Paolis declarou que “seria inaceitável transformar igrejas em set de filmagens

para que seus romances blasfemos se transformem em filmes comerciais”.

Ele acrescentou que o trabalho de Brown “fere os sentimentos religiosos

básicos”.

“O padre Marco Fibbi, porta-voz da diocese de Roma, disse:

‘Normalmente lemos o roteiro, mas desta vez não foi necessário. O nome Dan

Brown foi suficiente’.”

Quando a versão cinematográfica de O Código Da Vinci foi lançada, um

alto oficial do Vaticano instigou todos os católicos romanos a boicotarem o

filme. Dizendo que o livro era “gritantemente anticristão”, o cardeal Ângelo

Amato, assessor próximo do papa Bento XVI, disse que era “cheio de

calúnias, ofensas e erros históricos e teológicos em relação a Jesus, aos

evangelhos e à Igreja. (…) Se essas mentiras e erros tivessem sido dirigidas

contra o Corão ou o Holocausto, teriam provocado justíssima indignação

mundial (…) Em vez disso, foram dirigidas contra a Igreja Católica e os

cristãos, e ficaram impunes”.

Como segundo líder mais importante na hierarquia do Vaticano, Amato

insistiu para que se fizesse um boicote semelhante ao que foi feito em 1988

contra A última tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese. Quando O

Código Da Vinci foi publicado em 2003, as lideranças católicas se

manifestaram contra. Nas semanas que antecederam o lançamento do filme, a

Opus Dei, grupo católico leigo cujos membros são retratados como vilões na

história, patrocinou fóruns e outros eventos públicos para refutar a premissa

do livro e negar as insinuações de que o grupo é sombrio e hermético.

A proibição para Howard filmar Anjos e demônios em qualquer igreja de

Roma e no Vaticano, os protestos contra o livro de Brown, e sua versão

cinematográfica; são ecos de uma época em que o Vaticano exercia poder

inquestionável de controle sobre a disseminação do conhecimento por meio de

livros, o que se tornou possível graças ao processo de impressão com tipos

móveis. Inventada por Johannes Gutenberg em 1454, a prensa móvel

revolucionou o mundo da religião ao tornar a Bíblia amplamente acessível e

levar livros impressos ao mundo todo.

Essa disseminação de material publicado levou a um esforço do Vaticano

para determinar o que os católicos poderiam ler. Isso foi feito com a

publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índex de Livros Proibidos). “Em

vigor de 1559 a 1966, o Índex relacionava os livros que os católicos não

deveriam ter ou ler sob pena de excomunhão.”

“Durante a longa vida do Índex”, observou um artigo da America – The

National Catholic Weekly, “o púbico ficava a par do que fora banido, mas não

das razões. Atrás de portas fechadas, porém, funcionários do Vaticano

realizavam longas e às vezes acaloradas discussões a respeito dos livros do

dia”. Depois de mais de uma década estudando o Índex, o reverendo Hubert

Wolf, padre diocesano e professor de história da Universidade de Münster, na

Alemanha, declarou: “Em nenhum outro lugar do mundo, uma instituição tentou

controlar um meio de comunicação do mundo moderno, o livro, por mais de

400 anos”.

Os registros com as discussões realizadas pela Igreja em torno de

milhares de livros oferecem uma visão única do pensamento do Vaticano

sobre teologia, filosofia, história, política, ciência e literatura mundial ao longo

de séculos. Guardados em um porão do que já foi conhecido como Santo

Ofício e agora é chamado de Congregação para a Doutrina da Fé, os

arquivos ficaram fechados aos pesquisadores de fora durante séculos. A

formação dos arquivos começou de fato com a Inquisição, em 1542, para

combater a Reforma protestante iniciada quando Martinho Lutero desafiou a

autoridade papal. Depois de pregar suas “95 teses” na porta da igreja em

Wittenberg, Alemanha, em 1515, elas foram impressas em Leipzig,

Nuremberg e Basileia e distribuídas amplamente. O Santo Ofício logo ficou

sobrecarregado pela mistura de imprensa e autores protestantes prolíficos

que as usaram para desencadear uma explosão editorial tão influente na

época quanto a internet é hoje. O Vaticano criou outro ofício, a Congregação

do Índex, para lidar apenas com livros, em 1571.

“O primeiro Índex, (…) publicado em 1559, baniu todos os livros de

Lutero, João Calvino e outros reformadores protestantes. Como a tradução da

Bíblia Sagrada para a linguagem vernacular era uma especialidade

protestante, todas as bíblias foram banidas, exceto a Vulgata Latina da Igreja

Católica Romana. O Talmude e o Corão também foram proibidos.” O Índex

também relacionava “livros que deveriam ser purgados de passagens

conflitantes com os ensinamentos da Igreja. Escritores clássicos — incluindo

Platão, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Homero, Euclides, Hipócrates, Tucídides e

outros — foram colocados na lista de expurgatio porque refletiam crenças

pagãs. Os livros traduzidos por protestantes precisavam ser filtrados devido a

passagens ofensivas. Em alguns casos, bastava o fato de um livro ter sido

impresso em uma cidade ‘protestante’ para ganhar um lugar na lista de obras

censuráveis…”

A Congregação do Índex reunia-se três ou quatro vezes por ano em

Roma. Dois “consultores” eram nomeados para cada livro analisado. Suas

descobertas eram discutidas em um encontro de cardeais na congregação. As

decisões eram então levadas para a aprovação do papa. Isso produziu um

acúmulo de arquivos, escritos em latim ou italiano, divididos em Diarii, que

registravam as sessões da congregação, e Protocolli, com todos os tipos de

papéis. A congregação da Inquisição se reunia semanalmente, mas apreciava

apenas 2% ou 3% dos casos de censura, geralmente livros de teologia.

“Ao longo dos séculos, o Índex conseguiu condenar muitos escritos que

depois se tornariam clássicos da cultura europeia. Entre os livros de filosofia

estavam as obras de Descartes, Espinosa, Locke, Hume, Rousseau, Voltaire,

Pascal, Kant e Mill. Entre os romancistas relacionados estavam Balzac,

Flaubert, Hugo, Zola, D’Annunzio e Moravia. Livros dos romancistas Daniel

Defoe e Jonathan Swift entraram para uma lista negra. O zelo dos censores

variou com o correr dos anos e perdeu fôlego no século XX. Um dos últimos

alvos foi Jean-Paul Sartre, cujas obras foram banidas já em 1948.”

O cerceamento de “livros proibidos” começou com uma conferência sobre

o conteúdo da Bíblia Sagrada para cristãos em 393 d.C., quando os anciãos

da Igreja compilaram o Antigo Testamento e os evangelhos “aprovados” de

Marcos, Mateus, Lucas e João; o livro do Apocalipse; as cartas de Pedro e

Paulo; e os Atos dos Apóstolos. Com todos os outros textos banidos, a Igreja

deu início a dezesseis séculos de proibição da posse e leitura dos livros

reprovados e a formação no Vaticano de uma biblioteca com literatura

proibida para os católicos. “Desde que os novos convertidos de são Paulo

queimaram seus livros de magia em Éfeso, a Igreja tem travado uma guerra

contra os livros que possam prejudicar a fé ou a moral de seus comungantes.”

O Índex “relacionou os livros que os católicos não deviam ler. Entre eles

edições não católicas da Bíblia, livros que atacavam o dogma católico, os que

defendiam ‘heresia ou cisma’, e os que ‘discutem, descrevem ou ensinam

temas impuros ou obscenos’, como O amante de lady Chatterley”. No entanto,

“qualquer católico que tivesse ‘bons motivos’ para ler um livro banido poderia

obter permissão de seu bispo. Muitos bispos norte-americanos concediam

permissões temporárias para que estudantes lessem livros necessários aos

seus estudos”. Apesar de o Vaticano não publicar mais um Índex, a Igreja

continua a condenar livros, junto com filmes, que sejam contrários à doutrina

cristã, ofensivos à Igreja ou moralmente incorretos.

Essa postura militante muitas vezes levou alguns autores a desejarem que

seus livros fossem proibidos por acreditarem que a reprovação oficial da

Igreja Católica produziria um aumento das vendas entre os não católicos. A

condenação de O Código Da Vinci, e toda a publicidade decorrente da

controvérsia, contribuiu para o fenomenal sucesso comercial do romance.

Depois de séculos fazendo a triagem de livros de acordo com a ortodoxia

cristã e aceitabilidade moral, o Vaticano acumulou a maior coleção do mundo

de livros e manuscritos condenados por questões religiosas e morais. Mas a

Biblioteca do Vaticano é também repositório de volumes de ciência, história e

filosofia que remontam à Antiguidade. A biblioteca atual foi criada em 1451

pelo papa Nicolau V (1447–1455). Eugênio IV legou 340 manuscritos e Nicolau

V acrescentou sua própria coleção para formar a base da biblioteca. Um

século antes da invenção da imprensa, ele aumentou o acervo empregando

monges para copiar manuscritos que não poderiam ser comprados de seus

donos. Também reuniu material que havia pertencido à Biblioteca Imperial de

Constantinopla depois que a cidade caiu nas mãos dos bizantinos. Ao morrer,

Nicolau havia aumentado para 1,2 mil o total de manuscritos da biblioteca.

Quando o papa Sisto IV (1471–1484) decidiu abrigar a biblioteca no Palácio

do Vaticano, ela ficou conhecida como Biblioteca Palatina. Atualmente, a

Biblioteca do Vaticano é aberta a estudiosos e acadêmicos que apresentem

uma carta de acreditação de uma universidade ou instituto de pesquisa. Sua

coleção é formada por cerca de 1,6 milhão de volumes, incluindo cerca de 70

mil manuscritos e 8,3 mil incunábulos (livros impressos na segunda metade do

século XV).

“Estima-se que o Arquivo Secreto do Vaticano contenha oitenta

quilômetros de estantes, e só no catálogo selecionado existem 35 mil volumes.

‘A publicação do Índex, em parte ou no todo, é proibida’, de acordo com as

regulamentações de 2005.” De acordo com o website do Vaticano, os

documentos mais antigos datam do final do século XVIII. A movimentação do

material de um lugar para outro e convulsões políticas quase “causaram a

perda total de todo o material de arquivo anterior ao reinado do papa

Inocêncio III. A partir de 1198 existem arquivos mais completos, embora a

documentação seja escassa antes do século XIII”. Os documentos de maior

interesse para os historiadores são aqueles relativos à Inquisição.

“A Inquisição em si foi estabelecida pelo papa Gregório IX em 1233 como

tribunal especial para ajudar a conter a influência da heresia. Expandiu-se à

medida que funcionários da Igreja começaram a usar autoridades civis para

multar, prender e até torturar os hereges. Chegou ao auge no século XVI para

frear a expansão da Reforma protestante. Mais tarde, transformou-se no

Santo Ofício, que foi sucedido pela Congregação para a Doutrina da Fé, que

controla a ortodoxia dos ensinamentos católicos romanos. Seu antigo superior,

o cardeal Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, declarou a abertura

dos arquivos em uma conferência especial na qual lembrou como a decisão

surgiu a partir de uma carta escrita para o papa João Paulo II (…) por Carlo

Ginzburg, professor ateu de ascendência judaica, de Los Angeles. O papa

escreveu: ‘Estou certo de que a abertura de nossos arquivos atenderá não

apenas às aspirações legítimas de estudiosos, mas também à firme intenção

da Igreja de servir o homem ajudando-o a entender a si mesmo por meio da

leitura sem preconceito de sua própria história’.”

Indiscutivelmente, o julgamento mais infame da Inquisição foi o do

astrônomo Galileu Galilei. Nascido em 1564 em Pisa, Itália, Galileu decidiu

estudar medicina. Matriculou-se na Universidade de Pisa em 1581, mas logo

mudou seus interesses científicos e começou a estudar física e matemática.

Entre suas experiências, dizem (mas não há confirmação), estava a tomada

de seu pulso para cronometrar as oscilações de uma lâmpada pendurada no

teto da catedral de Pisa. Em suas experiências posteriores, descreveu a física

do pêndulo. Jogando bolas de pesos variados do alto da Torre de Pisa,

descobriu que caíam com a mesma velocidade e aceleração uniforme.

Obrigado por razões financeiras a abandonar a universidade sem obter

um diploma, voltou para Florença, mas acabou retornando à universidade

como professor e tornou-se figura atuante nas discussões e controvérsias do

campus. A rebeldia inerente a Galileu chamou a atenção da faculdade e dos

estudantes quando ele zombou do costume de se usarem túnicas acadêmicas,

declarando que seria melhor abandonarem as roupas completamente.

Após a morte do pai em 1591, tornou-se o responsável pelo sustento de

sua mãe e irmãos; por isso aceitou um posto na Universidade de Pádua, que

lhe garantia uma remuneração melhor.

Aí ficou por dezoito anos, enquanto ampliava seu interesse pela

astronomia, modificando um telescópio simples para poder estudar as

montanhas da Lua, as fases de Vênus, as luas de Júpiter, pontos na

superfície do Sol e as estrelas da Via Láctea. Ao publicar suas descobertas

em um livreto intitulado Mensageiro sideral ou Mensagem sideral (Sidereus

nuncius), sua reputação científica subiu como um foguete. Suas observações

retomaram o interesse pelas teorias propostas em 1543 por Nicolau

Copérnico, segundo as quais o Sol era o centro do universo e a Terra era um

planeta giratório que o circundava.

Ao abraçar as ideias de Copérnico, Galileu colocou-se em conflito com a

doutrina da Igreja sobre a Criação, baseada no relato do Gênesis. Conhecida

como geocentrismo, essa teoria colocava a Terra como centro do universo e o

Sol e as estrelas circulando ao seu redor. Tendo declarado em 1616 que a

visão de Copérnico era perigosa para a fé, a Igreja convocou Galileu a ir à

cidade de Roma onde recebeu “instruções” do cardeal Roberto Belarmino

para não “abraçar, ensinar e defender de maneira alguma, com palavras ou

em textos”, a doutrina de Copérnico. Foi uma advertência séria. Mas, quatro

anos depois, Galileu descobriu que o papa, Urbano VIII, havia declarado que

“a Sagrada Igreja não tinha condenado e não condenaria” a doutrina de

Copérnico como herética, mas apenas como “temerária, embora não

houvesse possibilidade de alguém demonstrar que era necessariamente

verdadeira”.

Interpretando essas palavras como permissão indireta para continuar

suas pesquisas sobre a visão de Copérnico, Galileu mergulhou nos estudos

por seis anos. O resultado foi uma defesa vigorosa de Copérnico em Diálogo

sobre os dois principais sistemas do mundo. Ao publicá-lo, Galileu teve que ir

novamente a Roma, acusado de desafiar as instruções do cardeal Belarmino.

O julgamento por um conselho de cardeais começou no outono de 1632.

Ao concluir o inquérito, um ano depois, a Igreja declarou Galileu “suspeito

de heresia” por ter sustentado e acreditado na “falsa doutrina” de que a Terra

não era o centro do universo. Os cardeais informaram a Galileu, nessa época

com setenta anos de idade, que o Santo Ofício estava disposto a absolvê-lo

desde que ele, “com coração sincero e fé não dissimulada, em nossa

presença abjure [repudie], amaldiçoe e despreze tais erros e heresias”.

Declarando proibido o Diálogo, o conselho de juízes o condenou à “prisão no

Santo Ofício ao nosso bel-prazer”. Mas reservaram “o poder de moderar,

comutar ou revogar” a sentença. O que eles fariam dependeria da disposição

de Galileu de se ajoelhar diante deles para abjurar.

Admitindo em 21 de junho de 1633 que havia desafiado o aviso de não

falar ou escrever em defesa de Copérnico, ele disse: “Abjuro com coração

sincero e fé não fingida esses erros e heresias, e os amaldiçoo e desprezo, e

juro no futuro não dizer nem afirmar verbalmente, ou por escrito, o que possa

lançar sobre mim suspeitas semelhantes”.

Depois de um período de confinamento, Galileu recebeu permissão para

voltar à sua casa, perto de Florença, onde viveu recluso, debilitado, e acabou

praticamente cego. Ele morreu em 8 de janeiro de 1642.

Os relatos de sua submissão à Igreja, publicados mais de um século

depois, contêm uma declaração que pode ser uma lenda. Ao erguer-se depois

de ter abjurado, ele teria dito Eppur si muove (E, no entanto, [a Terra] se

move).

Em novembro de 1992, em uma cerimônia em Roma, diante da Pontifícia

Academia de Ciências, o papa João Paulo II declarou oficialmente que Galileu

estava certo. A reabilitação formal baseou-se nas descobertas de um comitê

da academia formado pelo papa em 1979, logo após assumir o cargo. O

comitê decidiu que a Inquisição havia agido de boa-fé, mas estava errada.

Atualmente o Vaticano tem seu próprio observatório astronômico.

O Vaticano observou que os arquivos da Inquisição e o Índex não

sobreviveram bem aos séculos. Como a “Igreja tinha a tradição de queimar

muitos dos arquivos com heresias mais delicadas”, e o arquivo da Inquisição

havia sido quase inteiramente queimado quando o papa Paulo IV morreu, em

1559, muitos documentos se perderam. Alguns foram levados para Paris sob

o domínio de Napoleão em 1810 (…) e mais de 2 mil volumes foram

queimados. “Alguns caíram nos rios durante o transporte, outros foram

vendidos como papel ou se misturaram com outros arquivos.” O Vaticano

possui atualmente “cerca de 4,5 mil volumes, dos quais apenas uma pequena

parte se refere aos julgamentos de heresias. O resto trata de controvérsias

teológicas e questões espirituais”.

A origem das espécies, de Charles Darwin e base da teoria da evolução,

nunca foi banido pela Igreja. Ao contrário de algumas igrejas protestantes

fundamentalistas que acatam a Bíblia literalmente quanto ao tema de que

Deus criou a humanidade, a Terra e o universo em sete dias, o Vaticano

recentemente declarou que é possível que algumas espécies, com a ajuda de

um poder superior, tenham conseguido evoluir para as espécies existentes no

mundo atual.

Noticiando a abertura de uma exposição do acervo do arquivo do

Vaticano em 2008, a revista Newsweek observou que a mostra incluía

“documentos sobre as restrições da Igreja ao movimento dos judeus,

instruções para a perseguição dos protestantes. (…) Havia mapas do século

XVIII descrevendo os guetos de Roma, Ancona e Ferrara, mostrando onde os

judeus podiam viver, em rosa ou amarelo, e em azul onde tinham autorização

para manter seus negócios. Havia documentos com regras escritas à mão

descrevendo quando as mulheres judias poderiam estar fora das áreas

restritas e o que poderiam vestir. Havia desenhos das prisões, longas listas de

livros banidos e éditos. (…) Um de 1611 descrevia como os inquisidores

deveriam se comportar no trabalho e fora dele, e havia uma ilustração

mostrando o que as crianças deveriam usar para ir à escola e à praia. Os

investigadores eram informados até dos pijamas aceitáveis.

“Outros documentos visavam caçadores e pescadores, que estariam

invadindo o território do Vaticano. E há uma joia do século XIX, sobre um

homem que foi condenado à morte por afirmar que era santo. Os inquisidores

tinham autoridade em áreas que iam da iconografia à forma como as imagens

de santos e prelados podiam ser retratadas.

“Essa não foi a primeira vez que a Igreja tentou mostrar que os juízes da

Inquisição não eram tão brutais quanto se acreditava anteriormente. Em 2004,

o Vaticano publicou um relatório de 800 páginas declarando que daqueles

investigados como heréticos pela notória Inquisição espanhola, que era

independente de Roma no século XV, apenas 1,8% dos acusados foi

realmente executado. No entanto, o papa João Paulo II se referiu à campanha

de 700 anos da Igreja contra a heresia como uma ‘fase atormentada’ e o

‘maior erro da história da Igreja’.”

Um dos livros que escapou de ser banido foi um romance clássico do

século XIX, A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe. Enquanto

estava sendo examinado pelos inquisidores em Roma, que formaram um

departamento conhecido como Sagrada Congregação do Índex, um dos

leitores do Vaticano considerou a história da escravidão nos Estados Unidos

um apelo implícito para a revolução. Quando foi solicitada aos inquisidores

uma segunda opinião, eles não consideraram o livro prejudicial, e por isso

jamais decretaram sua proibição.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a “obra cheia de ódio de Adolf Hitler,

Minha luta (Mein Kampf), também nunca foi colocada no Índex. (…) Os

censores discutiram o que fazer com o ditador nazista, e a discussão se

estendeu por anos”. No final, a avaliação de Minha luta foi simplesmente

encerrada.

Mais recentemente, cartas enviadas pelo cardeal Joseph Ratzinger a uma

crítica literária alemã colocaram em discussão os livros de Harry Potter. “Em

março de 2003, um mês após a imprensa de língua inglesa em todo o mundo

ter proclamado falsamente que o papa João Paulo II aprovava Harry Potter, o

homem que se tornaria seu sucessor enviou uma carta a Gabriele Kuby

concordando com sua oposição à obra de J. K. Rowling” e sua opinião de que

era “leitura moralmente não saudável” para as crianças. “Em carta datada de

7 de março de 2003, o cardeal Ratzinger agradeceu a Kuby por seu ‘instrutivo’

livro (intitulado Harry Potter: Good or Evil?), em que Kuby afirma que os livros

de Harry Potter corrompem o coração dos jovens, impedindo que

desenvolvam uma noção adequada de bem e mal, o que prejudica sua relação

com Deus enquanto essa relação ainda está em estágio inicial. ‘É bom que

você esclareça as pessoas a respeito de Harry Potter, pois a sedução é sutil,

age sem ser percebida e por meio de uma profunda distorção do cristianismo

na alma, antes que possa se desenvolver adequadamente’, escreveu

Ratzinger.

“A carta também encorajava Kuby a enviar seu livro a um prelado que, ao

fazer uma brincadeira com Harry Potter, havia induzido a falsa ideia de apoio

do Vaticano. Em uma coletiva de imprensa para a apresentação de um estudo

a respeito da Nova Era no mesmo ano de 2003, (…) o padre Peter Fleetwood

fez um comentário positivo a respeito dos livros de Harry Potter ao responder

à pergunta de um repórter. Isso resultou em manchetes como O PAPA

APROVA POTTER (Toronto Star), O PAPA DEFENDE LIVROS DE POTTER

(BBC Newsround) e HARRY POTTER É APROVADO PELO PONTÍFICE

(Chicago Sun Times).”

Principalmente devido ao livro O Código Da Vinci, de Dan Brown,

apresentar a história da investigação sobre uma conspiração milenar por parte

da Igreja e dos cruzados, conhecidos como cavaleiros templários, para manter

um segredo envolvendo Jesus — que, se revelado, abalaria as bases da

cristandade —, para milhões de pessoas no mundo não há nada mais

fascinante em relação ao Arquivo Secreto do Vaticano do que descobrir o que

há nele sobre os notórios cavaleiros.

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Nenhum papa teve influência mais duradoura no curso da história mundial do

que Urbano II. O conflito atual entre as democracias cristãs do mundo

ocidental e os terroristas fundamentalistas islâmicos do Oriente Médio pode

ser atribuído ao seu apelo aos príncipes cristãos da Europa por uma cruzada

para resgatar a Terra Santa dos muçulmanos.

“No discurso feito no Concílio de Clermont, na França, em 27 de

novembro de 1095, ele combinou a ideia de peregrinação à Terra Santa com a

de guerra santa. (…) Ele declarou: ‘A nobre raça dos francos (franceses)

deve vir em auxílio de seus camaradas cristãos no Leste. Os turcos infiéis

estão avançando para o coração da cristandade oriental; os cristãos estão

sendo oprimidos e atacados; as igrejas e lugares santos estão sendo

conspurcados. Jerusalém está gemendo sob o jugo sarraceno (muçulmano). O

Sepulcro Sagrado [a igreja de Jerusalém que segundo as tradições cristãs

marca o local onde Cristo foi enterrado] está em mãos muçulmanas e foi

transformado em mesquita. Os peregrinos são perseguidos e até mesmo

impedidos de chegar à Terra Sagrada. O Ocidente deve marchar em defesa

do Oriente. Todos devem ir, ricos e pobres. Os francos devem pôr fim às

suas guerras e disputas internas. Devem ir contra os infiéis e lutar uma guerra

justa. Deus os guiará, pois estarão fazendo Seu trabalho. Haverá absolvição e

remissão dos pecados para todos os que morrerem a serviço de Cristo. Aqui

eles são pobres e miseráveis pecadores; lá serão ricos e felizes. Que ninguém

hesite; eles devem marchar no próximo verão. Deus assim o deseja!’”

Foram empreendidas sete cruzadas entre 1095 e 1250, mas após o

sucesso inicial da conquista de Jerusalém, os cruzados não conseguiram

manter o Santo Sepulcro. Desses quase 200 anos de expedições militares

realizadas por guerreiros medievais em nome de Deus, surgiram figuras

românticas como o rei Ricardo Coração de Leão e os cavaleiros fictícios da

távola redonda de Camelot, do rei Arthur, sempre em busca do Santo Graal.

Mas foi um romance do século XXI que tirou um grupo de cruzados dos livros

de história, trazendo-o para a cultura popular.

O arcebispo Guilherme de Tiro, testemunha ocular, escreveu em 1118 a

respeito dos cavaleiros templários que “certos homens nobres no posto de

cavaleiros, homens religiosos, devotos e tementes a Deus, colocaram-se a

serviço de Cristo” e prometeram viver “sem posses, sob os votos da

castidade e obediência”. Seus líderes eram Hugo de Payens, cavaleiro da

Borgonha, e Godefroid (Godofredo) de St. Omer, do sul da França. Sem “uma

igreja ou residência fixa” quando chegaram a Jerusalém, tiveram permissão

para “morar perto do Templo do Senhor” (as ruínas do templo judaico em

Jerusalém). Seu principal dever era “proteger as rotas e estradas contra o

ataque de bandidos e ladrões”. E fizeram isso, observou Guilherme de Tiro,

“especialmente para proteger os peregrinos”. Por nove anos após a fundação

da ordem, os cavaleiros templários usaram roupas seculares. Usavam “as

roupas que as pessoas, para a salvação de suas almas, lhes davam”.

Adotando o nome de “Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de

Salomão”, ficaram conhecidos como templários. Sancionados pela Igreja em

1128 no Concílio de Troyes, logo foram reconhecidos, e temidos, por sua

ferocidade nas batalhas. “Após a retomada de Jerusalém pelo Islã em 1239,

conquistaram a ilha de Chipre para quartel-general da ordem e usaram a vasta

riqueza acumulada com espólios de guerra para se firmarem como financistas

internacionais.” Inventando o sistema bancário, montaram um Templo em

Paris, tornando-se o equivalente medieval dos atuais Banco Mundial e

Organização Mundial do Comércio. Mais ricos do que qualquer governo do

continente, esses outrora “Pobres Cavaleiros de Cristo” passaram de nove

para algo entre 15 mil e 20 mil membros, com 9 mil mansões e castelos.

“Eles cresceram tanto, que há nessa ordem atualmente”, escreveu

Guilherme de Tiro em algum momento entre 1170 e 1174, “cerca de 300

cavaleiros que usam mantos brancos, além dos irmãos, muito numerosos.

Dizem que eles têm imensas posses tanto aqui como no exterior, de forma

que não há hoje uma única província no mundo cristão que não tenha

concedido aos tais irmãos uma parcela de seus bens. Dizem que sua riqueza

é tão grande quanto os tesouros dos reis.”

Os templários tornaram-se tão ricos e poderosos, observou Guilherme,

que “se tornaram extremamente problemáticos”.

Seu líder nessa época era Jacques de Molay. Nascido em 1244 em

Vitrey, França, entrou para os Cavaleiros Templários em 1265, com a idade

de vinte e um anos. Depois de subir rapidamente na hierarquia, passou muito

tempo na Grã-Bretanha. Por fim, apontado como visitante geral e grande

preceptor de toda a Inglaterra, tornou-se chefe da ordem após a morte de seu

vigésimo segundo grão-mestre. Então se mudou da Inglaterra para Chipre. Foi

aí, no outono de 1307, que se viu chamado de volta à França por ordem do rei

Filipe IV, conhecido como “o Belo”, e do papa Clemente V. Acredita-se que a

convocação foi resultado do medo real e papal e inveja do poder e riqueza dos

templários. Outra explicação é que Filipe, o Belo estava tão profundamente

endividado com os templários que decidiu que a única maneira de resolver o

problema era eliminando a ordem.

Na sexta-feira, 13 de outubro de 1307, funcionários da Corte de Justiça

do rei entraram no quartel-general dos templários em Paris e prenderam os

cavaleiros. Presos e torturados, foram obrigados a confessar heresias, entre

elas a adoração do demônio e perversões sexuais. Foi-lhes oferecida a

escolha entre a renúncia ou a morte. Apesar de ter confessado sob tortura,

De Molay rapidamente renegou a renúncia. Condenado com outro templário,

foi levado para uma ilha do rio Sena, à sombra da Catedral de Notre-Dame, e

queimado em 1312.

Existe uma lenda segundo a qual, enquanto as chamas cresciam ao seu

redor, ele profetizou que o rei e o papa morreriam em um ano. A profecia se

realizou. Mas antes de morrer, o papa dissolveu a ordem e avisou a todos os

que ousassem pensar em se juntar aos templários que seriam excomungados

e condenados como hereges. Apesar da decisão do rei Filipe e do papa

Clemente de erradicar os templários, alguns conseguiram escapar e, acredita-

se, estabeleceram a ordem na Escócia. Hoje a Ordem dos Cavaleiros

Templários sobrevive como afiliada da Maçonaria.

Embora os arquivos do Vaticano e os volumes de história europeia

contenham inúmeros relatos em que se cruzam os objetivos de reis e papas, e

até casos de conspiração, nada se compara ao acordo feito entre o papa

Clemente V e Filipe, o Belo para encobrir a avareza com o manto da religião.

O fato de Clemente reconhecer a ilegalidade das acusações de heresia contra

os cavaleiros templários foi registrado em um documento colocado nos

arquivos secretos do Vaticano, e lá permaneceu por sete séculos.

Para espanto dos historiadores, em 2007 o Vaticano anunciou que

publicaria 799 cópias com detalhes dos julgamentos dos templários,

Processus Contra Templarius, que pretendia vender por cerca de 8 mil dólares

norte-americanos. A compilação gigantesca viria em encadernação luxuosa de

couro, com reproduções detalhadas dos documentos originais em latim sobre

os julgamentos.

A coleção de documentos incluía o Pergaminho de Chinon — cidade

francesa onde foram realizados os julgamentos — que registrava por que o

papa Clemente V havia dissolvido a Ordem dos Cavaleiros Templários e

emitido mandados de prisão para todos os membros. O pergaminho havia

sido descoberto nos arquivos secretos do Vaticano em 2001 pela professora

Barbara Frale.

“Eu não conseguia acreditar quando o encontrei”, ela disse. “O papel foi

colocado em um arquivo errado no século XVII.”

“O documento (…) revela que os templários tinham uma cerimônia de

iniciação que envolvia ‘cuspir na cruz’, ‘negar Jesus’ e beijar a lombar, o

umbigo e a boca do homem que propusesse sua filiação. Os templários

explicaram ao papa Clemente que a iniciação imitava a humilhação que os

cavaleiros poderiam sofrer se caíssem nas mãos dos sarracenos, e a

cerimônia do beijo era um sinal de completa obediência. O papa concluiu que

o ritual não era realmente blasfemo, como alegava o rei Filipe ao prender os

cavaleiros. No entanto, foi forçado a dissolver a ordem para manter a paz com

a França e evitar um cisma na Igreja.

“Isso prova que os templários não eram hereges”, disse a professora

Frale.

“O documento contém a absolvição dada pelo papa Clemente V ao grão-

mestre do Templo, Jacques de Molay, e aos outros chefes da ordem, depois

que eles ‘se mostraram arrependidos’ e pediram para ser perdoados pela

Igreja. Após a abjuração formal, obrigatória para todos aqueles que fossem

simplesmente suspeitos de crimes ateístas, os principais líderes da Ordem

dos Templários são restabelecidos na comunhão católica e readmitidos para

receber os sacramentos. O documento trata da primeira fase do julgamento

dos templários, quando o papa Clemente V ainda estava convencido de que

talvez conseguisse garantir a sobrevivência da ordem militar-religiosa e

atender à necessidade apostólica de remover a vergonha da excomunhão dos

membros religiosos e guerreiros, causada por sua negação de Jesus Cristo

quando torturados pelo inquisidor francês.

“Como confirmam várias fontes contemporâneas, o papa havia apurado

que os templários estavam envolvidos em algumas formas graves de

imoralidade, e então planejava uma reforma radical da ordem para depois

fundi-la com outra ordem militar-religiosa. (…) O Ato de Chinon, requisito para

a realização da reforma, permaneceu, entretanto, letra morta. A monarquia

francesa reagiu iniciando um mecanismo de chantagem, que teria obrigado

Clemente V a tomar uma decisão final durante o Concílio de Viena (1312).

Incapaz de se opor à vontade do rei Filipe, o Belo, que ordenara a eliminação

dos templários, o papa ouviu a opinião dos padres conciliares e decidiu abolir

a ordem. (…) Clemente afirmou que essa decisão sofrida não equivalia a um

ato de condenação da heresia, que não poderia ser alcançada com base nos

vários inquéritos realizados nos anos anteriores ao concílio. (…)

“De acordo com o pontífice, o escândalo criado com as ‘vergonhosas

acusações’

contra

os

cavaleiros

templários

(heresia,

idolatria,

homossexualidade e comportamento obsceno) teria dissuadido qualquer um

de usar o hábito templário, e por outro lado, o atraso em uma decisão sobre

essas questões produziria o desperdício da grande riqueza que os cristãos da

Terra Sagrada haviam oferecido aos templários, encarregados de ajudar a

combater os inimigos da fé da Terra Sagrada. A consideração atenta desses

perigos, junto com a pressão dos franceses, convenceu o papa a abolir a

Ordem dos Cavaleiros do Templo.”

A absolvição do papa Clemente não teve valor terreno para De Molay.

Pelos pecados e crimes cometidos contra Deus e a Igreja, que ele confessou

sob tortura, foi condenado à fogueira. Outros templários também foram

executados, e seus tesouros foram confiscados pelo rei Filipe.

Após a publicação do documento de Chinon, o London Daily Telegraph

noticiou que “a Associação Ordem Soberana do Templo de Cristo havia

entrado com um processo na Espanha exigindo que o papa Bento

‘reconhecesse’ o confisco dos bens dos templários no valor de 100 bilhões de

euros. O grupo dos templários com sede na Espanha declarou: ‘Não estamos

tentando provocar o colapso econômico da Igreja Católica Romana, mas

demonstrar para a Corte a magnitude do complô contra a Ordem’”.

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Sobre as revelações do Pergaminho de Chinon, a revista Time observou

que “a ideia de que tanto dinheiro, poder e influência tenham desaparecido

com um golpe da pena papal parece ter sido demais para a mítica

sensibilidade ocidental, que gostaria de acreditar que os templários tinham, de

alguma maneira, sobrevivido, se adaptado ou se transformado em outro

grupo, ainda mais secreto e transnacional”.

Ao longo dos séculos, a ordem supostamente ainda existente tem sido

retratada como maligna, benigna, heroica e oculta. A Time observou que

“organizações de todo o mundo, sem ter nenhuma ligação direta, se

apropriaram do seu nome. (…) Essas homenagens não devem obscurecer o

fato de que, por maior que seja seu poder no reino da ficção e da fantasia,

quase certamente não se compara ao que já possuiu realmente — e que

perdeu abruptamente”.

Cinco séculos após o conluio entre o papa Clemente V e o rei Filipe, o

Belo ter aniquilado os templários, os arquivos do Vaticano receberam uma

declaração conhecida como “bula” (encíclica) papal emitida pelo papa Leão

XIII que proibia a adesão dos católicos à Maçonaria. Intitulada Humanum

Genus, promulgada no dia 20 de abril de 1884, declarava “Que nenhum

homem pense que pode por qualquer motivo filiar-se à seita maçônica se

valoriza seu nome católico e sua salvação eterna como deve valorizar”. O

Código da Lei Canônica, edição de 1917, no Cânone 2.335, declarou:

“Pessoas que aderem a associações da seita maçônica ou quaisquer outras

do mesmo tipo que tramam contra a Igreja, e as autoridades civis legítimas,

incorrem ipso facto à excomunhão reservada simplesmente à Sé Apostólica”.

No dia 18 de julho de 1974, o cardeal Franjo Seper, prefeito da Sagrada

Congregação da Doutrina da Fé, escreveu uma carta aos presidentes de

todas as conferências episcopais dizendo: “(1) A Santa Sé tem repetidamente

procurado

informações

dos

bispos

sobre

atividades

maçônicas

contemporâneas dirigidas contra a Igreja; (2) não haverá nova lei sobre essa

matéria enquanto se aguarda a revisão da Lei Canônica incluindo o Cânone

2.335; (3) todos os cânones penais devem ser interpretados estritamente; e

(4) a proibição expressa contra a filiação à Maçonaria de clérigos, religiosos e

membros de instituições seculares permanecerá em vigor”.

“Muitos sacerdotes bem-intencionados interpretaram essa carta (…)

como permissão para que católicos leigos se tornassem maçons caso o bispo

local considerasse que a loja em questão não estava conspirando ativamente

contra a Igreja Católica ou as autoridades civis. Como o Cânone 2.335 estava

em vigor na época, e assim permaneceu até 1983, deveriam ter compreendido

que nem mesmo o cardeal Seper tinha autoridade para permitir que os

católicos leigos se tornassem maçons. Em 17 de fevereiro de 1981, o cardeal

Seper tentou pôr um fim à confusão com uma declaração formal que dizia que

sua carta original não havia de maneira alguma alterado a força do Cânone

2.335, e que as penalidades canônicas declaradas não estavam de maneira

alguma revogadas. (…)

“Quando surgiu o novo Código, em 1983, o Cânone 1.374 declarou: ‘Uma

pessoa que se filia a uma associação que trama contra a Igreja será punida

com uma penalidade justa; quem promover ou ocupar um cargo em tal

associação será punido com uma interdição’. (…)

“O cardeal Joseph Ratzinger, então novo prefeito da Congregação para a

Doutrina da Fé e agora papa emérito Bento XVI promulgou sua Declaração

sobre as Associações Maçônicas (…) na qual afirma que ‘o julgamento

negativo da Igreja em relação às associações maçônicas permanece

inalterado, pois seus princípios sempre foram considerados irreconciliáveis

com a doutrina da Igreja, e por isso a filiação a elas continua proibida. Os fiéis

que se filiarem às associações maçônicas estarão cometendo pecado grave e

não poderão receber a Sagrada Comunhão’.”

“O Vaticano esperava que a maioria das cópias do pergaminho de Chinon

fosse adquirida por bibliotecas especializadas das principais universidades e

por importantes estudiosos da Idade Média. A Biblioteca Maçônica Livingston,

de Nova Iorque, talvez seja a única instituição de pesquisa maçônica a adquirir

um exemplar. (…) ‘Temos consciência de que essa compra despertará alguma

reprovação, tanto no interior como fora da fraternidade maçônica’, observou

Thomas M. Savini, diretor da Biblioteca Maçônica Livingston. ‘Mas a aquisição

dessa obra condiz com nossa missão de recolher, estudar e preservar a

herança maçônica, que inclui a pesquisa das raízes históricas da Maçonaria,

mas também o estudo de suas raízes inspiradoras, o que inclui os rosa-

cruzes, a filosofia do iluminismo europeu e os cavaleiros templários. Essa

reunião de documentos é importante não apenas para estudiosos da

Maçonaria, mas para especialistas em religião e Idade Média, e também

historiadores. É importante que alguém nos Estados Unidos disponibilize esses

documentos e o Conselho de Diretores da Biblioteca concordou, por

unanimidade, que seríamos nós.’”

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