Os Reinos Divididos por Mussy - Versão HTML

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    OS REINOS DIVIDIDOS

Prólogo

        Uma princesa foi sequestrada.

                A princesa tinha menos de um ano. Alice, a irmã da Rainha, estava com o bebê em seu colo, fugindo desesperadamente para não ser pega. Com o seu poder, de velocidade, era muito mais fácil fugir das pessoas e não ser vista, mas tinha um bebê em seu colo, que não aguentaria toda a velocidade, com o oxigênio entrando em seus pulmões tão pequenos. Então corria e fazia pequenas pausas durante o seu percurso.

                Alice fugiu até o conseguir sair da cidade, e chegar ao muro. O grande muro, que dividia a Brítanda da Calínia.

                Havia marcado de encontrar o seu amor ás três da manhã. Naquela hora todo o reino estava dormindo, e até mesmo os bares já estavam fechados. Brítanda era um lugar calmo, até mesmo para um reino em guerra.

                Ás três da manhã em ponto, era possível ver a sombra de um homem alto, quanto mais ele ia se aproximando era possível notar que era moreno, e tinha uma barba rala, e os olhos cor de mel. Vestia um capuz negro que cobria seu corpo inteiro.

                 Se Alice não soubesse quem ele era, com certeza acharia que era um ladrão ou coisa pior.

                - Oi Amor. - falou o homem.

                - Oi, Honeifield. - eles se beijaram.

                Honeifield era o rei da Calínia. O reino inimigo da Brítanda e irmão do rei de lá.

                - Conseguiu pegar a menina?

                - Sim. E agora, o que faremos? - ela perguntou.

                - Tem um quarto preparado para ela no castelo.

                - Tem certeza que isso é certo? - disse hesitando.

                No momento que Honeifield havia contado para ela qual era o plano dele, de sequestrar a filha do seu irmão, por causa da guerra que havia acontecendo entre os dois reinos, ela havia aceitado. Não por causa de vingança, ou por ódio, mas por amor, ela amava Honeifield, mas agora, já não sabia se era certo. O que ele iria fazer com ela, qual era o intuito disso? - Ela se perguntava.

                - Alice, - Honeifield a acariciava, ele sabia onde eram os lugares exatos para tocá-la que a fizesse aceitar qualquer coisa, até mesmo sequestrar sua sobrinha. - te expulsaram do seu reino e ainda destruíram todo o meu reino, isso é muito pouco para todo o mal que fizeram para tanta gente.

                - Tá. - Alice disse apreensiva. Ainda não tinha certeza do que era certo, mas confiava em Honeifield, era isso que importava. - Para onde vamos?

                - Vamos para casa.

                - O castelo? Você finalmente irá me assumir como sua esposa?

                - Sim, Alice.

                Alice não podia estar mais feliz, ela já queria isso fazia cinco anos.

                Alice vivia numa casa grande que Honeifield havia mandado construir para ela fazia uns cinco anos. Lá ela vivia com o seu filho, com Honeifield, Mattheous. Honeifield nunca assumia nenhum dos dois como sua família, ele dizia que era por segurança, que Arthur, seu irmão, quando descobrisse que ela estava grávida iria prejudicar muito os Cálados - povo da Calínia -, Arthur iria mandar mais tropas para o reino do Honeifield, e depois da última invasão, há cinco anos, foi muito pouco o que sobrou, o reino ainda estava se reconstruindo.

                 Eles então foram para o castelo. Assim que chegaram, Mattheous foi correndo na direção deles. Ele deu um pulo no colo do pai.

                - Papai! - ele abraçou. Honeifield no começo hesitou, mas depois abraçou o filho. Alice sempre explicava para Mattheous o motivo disso: "Seu pai não teve muitos amigos, não é acostumado com carinho igual a você" e Mattheous sempre entendia.

                - Pronto, filho - se afastou do abraço, mas o menino não o largava. - Pronto, filho! - gritou. O menino assustado desgrudou do pai. Era possível ver uma lágrima se formando nos olhos do filho. Alice tentou consolá-lo, mas Honeifield foi mais rápido. - Está tarde, papai está cansado. Amanhã conversamos, vá para cama.

                Alice acariciou o cabelo do filho:

                - Mamãe já vai te dar um beijo de boa noite, mas agora, vá dormir.

                O menino não tinha percebido a bebê nos braços da mãe até ela abaixar para acariciá-lo.

                - Quem é? - Mattheous perguntou.

                - Ninguém da sua conta. Agora vá dormir. - Honeifield falou tentando ser educado, mas a sua raiva era possível ser notada.

                Aos poucos que o menino ia se afastando, Alice ia criticando ele.

                - Por que o trata assim? Ele é seu filho!

                E como sempre, Honeifield se desculpava, demonstrando arrependimento. E Alice o perdoava.

                - Desculpe, amor. Apenas estou apreensivo com tudo isso, com ela.

                - O que pretende fazer com ela?

                - Vou mante-la em cativeiro.

                Alice fez uma pausa, e olhou para o bebê.

                - Até quando?

                - Até completar dezessete anos, e eu assumir o trono no lugar dela.

                - Você não irá maltratá-la, né?

                - Não, Alice, ela é um bebê, você acha que sou algum tipo de monstro? - ele se aproximou dela.

                - Não, amor. Desculpe, também estou apreensiva. Onde é o quarto dela?

                Honeifield sorriu. Deu o famoso sorriso cativador-apaixonante dele. O qual fez Alice se apaixonar.

                - Eu levo. Vá dormir, já sabe onde fica meu quarto, né?

                - Nosso. - Ela corrigiu.

                - Nosso. - Ele sorriu.

                Honeifield carregou a bebê, e foi andando em linha reta pelo castelo. Alice se virou de costas para poder ir para o quarto.

                Estava subindo as escadas, quando viu que tinha esquecido a chupeta da bebê no bolso do seu casaco.

                Desceu as escadas correndo, para poder alcançar eles.

                Ela pode acordar e querer a chupeta. - Alice pensou.

                Ela conseguiu ver uma sombra descer as escadas no canto do corredor, que tinha pouca iluminação.

                Então foi até lá.

                Assim que foi se aproximando, conseguiu ouvir vozes.

                - Minha sobrinha, linda. Princesinha Brítida, você mal pode esperar qual é o seu futuro. - Honeifield dizia. - Eu vou me vingar do seu pai. Me vingar de todo o mal que ele me fez, fez a mim e ao meu reino. Ele vai pagar, a dor de te perder, será maior que feri-lo. Arrancar aos pouquinhos doi mais que acabar de uma vez só. E espero que ele sofra, muito. Muito.

                Alice não podia acreditar no que ouvia. Esse não era o Honeifield.

                Não pode ser, não pode ser. Esse não é o Honeifield, não o meu Honei, o meu amor, meu eterno namorado, ele não é um monstro, não posso acreditar nisso, deve ser outra pessoa - ela dizia para si mesma. - É outra pessoa.

                Desceu as escadas e se deparou com um lugar escuro e úmido, e não havia mais ninguém, só Honeifield e a menina.

                Não, não pode ser. - Alice sentia as lágrimas empurrarem seus olhos com força. Ela não conseguiu resistir, seu rosto ficou inchado.

                De repente Alice fez algo irresponsável. Correu até eles e roubou a menina dos braços o Honeifield e saiu correndo, sem saber para onde ir, apenas correu. Pensou em voltar para Britanda, e devolver a menina, mas seria presa e talvez até morresse, ela não podia tentar descobrir o que seria feito, apenas fugiu, e saiu dos portões dos reinos e foi para o mundo dos Humanos.

                Viu um vilarejo, simples, e havia uma pousada, Alice na fuga esqueceu de pegar o dinheiro e qualquer coisa necessária, apenas fugiu. Entrou na pousada e pediu um quarto para ficar, depois arranjava dinheiro.

                Conseguiu alugar um quarto modesto, uma cama de casal, uma televisão velha e um banheiro que precisava de reformas, mas ela não podia se dar ao luxo de exigir algo.

                A menina ainda estava dormindo, e passou a noite inteira calma, não acordou nenhum momento.

                Alice deitou na cama ao lado dela, mas não conseguiu fechar os olhos, passou a noite em claro. Ela não conseguia se concentrar em mais nada. Acariciou o rostinho minúsculo da menina e então lembrou: Mattheous!

                Alice entrou em desespero. Qual tipo de mãe ela era? Esquecer seu próprio filho, o que Honeifield faria com ele? À princípio pensou que não ia fazer nenhum mal à ele, era seu filho, mas se lembrou do que ele disse em relação à sua sobrinha, Mattheous corria perigo, e Alice não sabia o que fazer. Não podia deixar a menina jogada na cama e sair correndo. Diversas vezes pensou em fazer isso, mas relevou. Ela é uma criança, não pode ficar sozinha. - Concluía.

                Passaram-se três dias e Alice não tinha notícia de Honeifield, ele ainda não havia mandado um batalhão para ir procurá-la. Alice ainda estava hospedada na pousada e sobrevivia furtando as pessoas. Não que Alice se orgulhasse disso, mas no momento era o que ela podia fazer.

                Certo dia Alice estava fazendo compras em um mercadinho no vilarejo, a menina estava na pousada. Ela havia pedido para que a dona da pousada tomasse conta da menina, ela não achava seguro levar a menina na rua. Ainda não. Mas assim que saiu do mercado, viu encostado no muro de uma casa um homem alto, moreno e de casacão. - Honeifield.

                - O que faz aqui? - ela foi até ele e perguntou.

                - Onde está a menina?

                 - Não é da sua conta.

                - Onde ela está?

                - Não vou falar, Honeifield, agora eu quero saber onde está meu filho.

                - Nosso. - ele riu secamente.

                - Meu filho. Você não tem direito de chamá-lo de filho, nem o trata como tal.

                - Continua sendo meu filho, ele está bem cuidado, está perguntando sobre você.

                - Devolva meu filho, Honeifield.

                - Me devolva a princesa.

                - Não posso fazer isso, você irá maltratá-la.

                - O que irei fazer não me importa, o que me importa é tê-la.

                - Não irei entregá-la.

                - Então façamos um trato. - Alice não olhava nos olhos dele. Sabia qual era o poder dele, e qualquer olhar, ele podia descobrir onde a menina estava. - Me devolva a princesa que eu devolvo seu filho.

                Alice ficou sem palavras, ficou sem chão. Não sabia o que aceitar.

                - Te dou até hoje à noite, ás duas da manhã. Decida quem é mais importante, sua sobrinha ou seu filho.

                Honeifield se virou e foi embora.

                Alice correu e chegou até um beco vazio. Ali não aguentou, encostou na parede e caiu no chão chorando. Não sabia o que escolher, não sabia o que fazer. Andou pela cidade desorientada. Qual escolher? Ela não sabia.

                Chegou na pousada só de noite.

                A dona da pousada entregou a bebê perguntando para ela o que tinha acontecido, mas Alice não ouvia as perguntas e nada saía de sua boca.

                Passou o resto da noite em silêncio, não falava absolutamente nada, apenas de vez em quando que ela soluçava, porque não aguentava prender seu choro consigo, era muita coisa para suportar em silêncio, e não havia ninguém para desabafar ou orientá-la.

                Ela era a irmã mais nova. E nessa situação ela conversaria com sua irmã mais velha, mas agora não tinha ninguém. Era ela sozinha para enfrentar o mundo.

                Assim que deu ás uma e cinquenta da manhã deixou a menina na cama. Sabia que ela iria dormir muito bem, como em todas as noites.

                Saiu e foi ao encontro de Honeifield.

                No mesmo lugar aonde havia visto ele de manhã ele estava usando as mesmas roupas, mas não estava sozinho, Mattheous estava com ele.

                Assim que viu a mãe, Mattheous tentou correr para ir até o encontro dela, mas cada vez que tentava, Honeifield o segurava forte. A criança se debatia, mas Honeifield nunca perdia o controle.

                Alice foi correndo até eles, pegou Mattheous no colo e o abraçou bem forte,.

                - Perdoe-me amor, perdoe-me.

                - Volte mamãe, volte. - a criança implorava e agarrava a mãe.

                Mattheous agarrava a mãe bem forte, mas Alice nem ligava, ela preferia sentir o filho machucando ela a não senti-lo, isso seria bem pior, ter o filho de qualquer maneira era melhor que nada.

                - Pelo visto fez sua escolha, cadê a menina? - Honeifield falava com tom superior.

                - Honeifield... - pela primeira vez olhou nos olhos dele. - Ele é meu filho.

                - Cadê a menina? - ele perguntou impacientemente.

                - Nosso filho, Honei, por favor, se você me ama deixe eu ficar com ele.

                Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

                - Cadê a menina?

                - Honei... - ela começou a chorar.

                Alice percebeu que ele não cederia, então decidiu correr, mas Honeifield segurou ela pelo braço.

                - Você pode ter o poder da velocidade, Alice, mas eu sou mais forte que você. Onde está a menina?

                - Honei... Não posso fazer isso, você, - ela fez uma pausa - você irá matá-la.

                - Não se esqueça que você fez sua escolha, não diga que eu não fui misericordioso. - Honeifield arrancou a criança dos braços dela.

                Alice usou todas as forças que podia para pegar a criança, e a criança fazia o mesmo para poder ir para o colo da mãe.

                Alice batia em Honeifield mas ele continuava imóvel.

                - Honei por favor. - ela chorava desesperadamente. - Por favor, Honei.

                Ele saiu andando. Ela ajoelhou no chão.

                - Honei! - gritou, e ele olhou para trás. - Honei! Eu te imploro! Meu filho! Me dê meu filho, Honei. Eu estou me humilhando, Honei, devolva meu filho!

                Ele saiu andando.

                - Honei! - ela berrava e os vizinhos começaram a acender as luzes. - Honei - sussurrava chorando e soluçando.

                Quando ela viu a sombra de alguém atrás da cortina correu de volta para a pousada, enxugou as lágrimas e viu que a bebê estava dormindo.

                Deitou do lado da linda princesa:

                - Seu nome a partir de hoje é Anna. E você será minha filha.

                Capítulo 1

                Não sei por que cheguei a esse ponto, eu sempre fui normal, sempre tive uma vida normal, minha vida era quase perfeita. Aliás, a vida de todo mundo é assim. Mas eu me sentia como se eu estivesse caindo e caindo, e quando eu estivesse chegando no final do poço, eu flutuasse, mas continuasse no mesmo lugar, era como se o lugar onde eu estivesse fosse péssimo, mas eu me sentia bem por estar viva, o que faz com que eu me sinta morta. Do que adianta que nós possamos viver se a vida não te satisfizer? É como eu ouvi no filme "Hitch, conselheiro amoroso": A vida não são os momentos que você respira, mas sim o que te tiram o ar.”

                Prazer sou Anna. Tenho dezesseis anos, sou alta, pele clara e cabelo escuro, olhos castanhos e pernas longas, nem finas nem grossas, no tamanho certo, tenho uma boca pequena. Tenho um carro, na verdade é um Chevrolet Lumina Branco, ano mil novecentos e noventa, por ai, custou uns mil dólares, mas valeu a pena, está completo, ou quase, só falta algumas coisas que são caprichos meus, como banco de couro. Tiro ótimas notas, sou a melhor na classe, na verdade sou uma garota bem estudiosa. Moro com minha mãe numa casa bem afastada da cidade, são uns sete quilômetros do centro, não muita coisa para quem mora na cidade grande, mas a minha cidade é pequena. Meus pais são divorciados isso faz uns dezesseis anos, isso mesmo, meus pais se separaram quando eu era bebê, sou filha única, na verdade meu pai tem outra filha, mas é do segundo casamento dele, ou como eu chamo: prévia do inferno, porque a mulher e a filha dele são muito infernais. Pra ser sincera quem começou essa rixa foram elas! Meu pai se divorciou da minha mãe por culpa dela! Apaixonou-se tão intensamente que nos largou para casar com ela, ele acha que me comprando vai poder tirar a dor que é crescer sabendo que seu pai te largou por causa de uma "mulherzinha" vulgar. Tenho uma melhor amiga incrível, ela é morena baixinha tem quadril largo e seios enormes. Ela é o tipo de amigona que sempre te defende, sabe? E que não leva desaforo para casa. Ela sempre me faz sentir bem num mar de infelicidade. Eu era feliz, na verdade eu era normal.

                Primeiro dia de aula no terceiro ano do ensino médio. O ano em que eu iria me livrar de pessoas mesquinhas e hipócritas que só se importam com a  popularidade e nada mais do que isso. Vida patética essa.                            

                A chata da filha do meu pai - eu ás vezes não consigo chamá-lo assim, pai. Ele não tem esse direito de me achar sua filha, não depois de tudo - tinha feito o favor de colocar na minha mochila um absorvente usado e deixou minha mochila aberta para que todos pudessem ver, eu sou mais de ficar na minha não sou muito de retrucar, mas ela merecia, no mesmo dia, Lívia e eu planejamos uma vingança para Marie Ferrer, a garota mais oferecida do colégio, passamos a aula toda planejando uma vingança doce e fria para ela.

                - Como vão as duas coisas mais feias da escola? – Era a Marie, a garota mais nojenta  da escola!

                - Marie sabe que eu descobri? Que o bordel está sentindo sua falta. Parou trabalhar lá para poder ir para as ruas? Olha que é perigoso, hein! – retrucou a Lívia.

                - Nossa, se você não fosse tão feia como você é eu até levaria isso a sério.

                - O que você quer aqui hein? Os urubus não te querem mais lá? – disse já cansada de ouvir aquela vadia.

                - Só queria saber como minha irmã está, meu pai disse para cuidar bem de você – Disse com uma vozinha fingida e irritante que só ela sabe fazer.

                - Não sei se você sabe disso, mas você não sabe o significado da palavra cuidar né? Ah, não me chame de irmãzinha porque podemos ter o mesmo pai, mas não o mesmo sangue podre que você puxou da sua mãe.

                - Minha mãe tem sangue podre? Pelo menos a minha mãe não é uma pobretona solteirona igual a sua!

                - Pelo menos minha mãe não fica dando em cima de homens casados! Agora já sei de onde você aprendeu a ser tão oferecida assim!

                E foi a partir daí que eu vi comida sendo lançada no meio de Coca-cola e de dor de cabeça, porque a Marie estava puxando o meu cabelo e Lívia estava lá me ajudando puxando o cabelo da melhor amiga da Marie.

                De repente me vi no chão com ela por baixo de mim, e vi um sapato preto, de freira, uma mulher com a perna que tinha sido raspada já faz um tempo, com uma roupa roxa e uma gravata branca, com verruga perto da boca e com nariz e orelha enormes, só o que tinha de bonito no rosto eram os olhos,  verdes, com um cabelo loiro grisalho e na roupa uma plaquinha escrito : “Coord. Severa “, e batia os pés com uma força!

                - Levante-se já! Mas que bagunça é essa?! Eu quero saber quem são os responsáveis por isso! E alguma coisa me diz que são vocês duas!

                - Coordenadora a senhora viu, ela estava em cima de mim, do nada ela venho me bater depois de eu tentar ser solidária com ela, eu perguntei se precisava de alguma coisa, já que eu sou a presidente do grêmio, - claro que ela tinha ganhado as eleições, grande parte da escola é feita por garotos, a plataforma eleitoral dela era " Vote Marie para presidente e tenha uma noite de prazer ", pelo menos era isso que ela dizia para os garotos, como se grande parte deles já não haviam visto ela nua -  ela veio me xingando, xingando a minha mãe, só porque tem raiva que o pai dela se separou da mãe dela pra se casar com a minha mãe.

                - Não acredito! Senhorita Granger, no primeiro dia de aula já arrumando confusão? Acompanhe-me  por favor.

                Segui-la, mas não sei se estava com mais medo da diretora ou da verruga da coordenadora, que fiquei admirando, tentando não parecer que eu estava abismada com o tamanho que uma verruga pode chegar.

                Porém o que mais me irritou nesse dia nesse dia não foi o fato que eu poderia levar uma bronca, mas ver atrás de mim, a Marie sorrindo, e muito!

                Deparei-me de cara com a diretora Suzana, mulher com uns sessenta anos, cabelo tingido, e a pele enrugada, uma cara de mulher má e perversa.

                - Primeiro dia e já na direção? Isso não é um bom sinal! – Ela era uma mulher doce e simpática.

                Tentei explicar para ela o que aconteceu de fato, e que sou uma vítima das armações de Marie, mas acho que ela não acreditou.

                - Muitas garotas vêm aqui reclamando de Marie, mas quando vou tirar à prova as testemunhas sempre dizem a favor dela, o que posso fazer, não estava lá pra saber o que aconteceu.

                - Diretora, eu juro que estou falando a verdade, e se minha mãe souber disso me mata, eu juro que é a primeira e ultima vez.

                - Ok. Por ser sua primeira vez, te deixo livre, mas na próxima é suspensão, e pegue na secretaria sua advertência... - ela falou apontando para a porta.

                - Obrigada - sai da sala de cabeça baixa.

                Quando sai da sala, vi a Lívia discutindo com a Coordenadora Severa, pedindo para entrar e me poder me defender e dizer umas verdades sobre a Marie ou como ela chama “Barbie Oxigenada” .

                Lívia realmente era uma amigona, não que eu não tivesse outras amigas, mas Lívia era a minha melhor amiga, a predileta, a mais querida, com quem eu sempre podia contar. Só me lembro de ter brigado com ela uma vez quando tínhamos onze anos, ela fugiu da casa dela para a minha e eu contei para a minha mãe que contei para a mãe dela. Ficamos dois dias sem nos falar, e aquilo estava me matando, até que quando a professora nos colocou juntas para fazermos um trabalho tudo voltou ao normal.

                - Vamos pra aula Lívia, assunto terminado, eu só ganhei uma advertência... minha mãe vai me matar... - disse já pensando na bronca que levaria quando eu chegasse em casa.

                - Só uma advertência? Era para aquela Barbie oxigenada receber essa advertência não você!

                Lívia conseguia me fazer sentir feliz e animada quando ninguém mais conseguia. Quando pensava em chorar ela me fazia abrir um sorriso.

                - Deixa pra lá, nós teremos nossa vingança né? - pisquei o olho.

                - Com certeza! - ela piscou o olho de volta.

                Cheguei atrasada para aula de história, era um professor quarentão, de boa aparência, alto, pela lisa, é claro, que pela idade, algumas rugas, mas grande parte da pele era lisa, barba feita e olhos castanhos e usava óculos, vestia uma calça jeans com cinto, e uma camisa social e sapato.

                - Está atrasada. - ele falou tirando os óculos.

                - Eu sei, desculpa professor, estava na secretaria e perdida. - confessei.

                - Está tudo bem, sente-se do lado do Matt, e fique quieta. A propósito, professor Honei. - ele se apresentou.

                - Ui, a feiosa e o solitário juntos! Que casal fofo! – A sala toda riu depois disso e morri de vergonha, só não sei se foi porque ela achou que eu teria algo com o Matt, ou se foi porque ela me chamou de feiosa.

                - Quieta senhorita Ferrer. - O professor apontou o dedo na direção dela.

                Matt era solitário sim, dava para ver nos seus olhos, eu não consegui o encarar bastante, mas o suficiente. Ele parecia ser alto, ter um metro e oitenta, era musculoso, forte, e parecia seguro de si mesmo, tinha cabelo loiros e tinha cheiro de grama molhada, os olhos eram cinza claro, tinha lábios grossos. Estava encantada pela aparência, mas não demonstraria.

                - Oi sou Anna – disse com um sorriso que achei que seria o suficiente pra ele responder sutilmente com um oi.

                Ele simplesmente sorriu, um sorriso daqueles que você quando lembra alguém que você gosta, um sorriso sedutor que mata qualquer um.

                 - É..., o professor pediu para a gente fazer um resumo de uma revolta e de uma revolução que você a gente mais gosta. Eu prefiro a Revolução Francesa e você?

                - Você nunca para de falar não? – Disse ele com um tom de voz feliz porém sendo bem mal- educado.

                - Você é sempre tão sem educação assim? – Retruquei.

                Nós viramos um para o outro nos encarando próximos.

                 - Você é sempre tão educada assim? – Disse ele se aproximando

                - Você é sempre tão chato assim? - Também me aproximei. Não sabia aonde isso iria me levar, mas não iria parar facilmente.

                 - Você é sempre tão linda assim? – disse ele sorrindo se aproximando mais. Quando percebi estávamos separados por apenas dois centímetros.

                Quando ele disse isso eu me calei, não tinha resposta para aquilo não sabia o que fazer, me virei e me afastei, comecei a fazer um resumo sobre a Revolução Francesa, pelo menos era o que minhas mãos achavam já a minha mente voava só sobre pensar pelo fato que ele me achou linda.

                Ele pegou caderno da minha mão e enfim disse algo:

                - Ele me achou linda – disse ele com voz irônica – eu acho que isso não é Revolução Francesa.

                Foi nessa hora que eu despertei. E percebi que ele leu o que eu tinha escrito, peguei o caderno e o agarrei junto ao peito.

                - Você quer escrever sobre o que? – Perguntei. Bem nessa hora o sinal tocou

                 - Entreguem o trabalho daqui a dois dias pessoal! – Disse o professor.

                - E agora? – Virei para perguntar para ele e não vi ninguém. Será que ele tinha saído?

                Fui atrás da Lívia. Procurei no refeitório, no banheiro, não tinha visto ela em lugar nenhum! Até que meu celular vibrou e vi uma mensagem: Miga, fui embora mais cedo, to morrendo de cólica, amanhã a gente coloca o nosso plano em prática.

                Fiquei decepcionada. Perdi duas pessoas em um dia só. Matt e Lívia. As duas foram embora. Fiquei conversando com algumas garotas do segundo ano, mas não é a mesma coisa.

                Assim que acabou a aula fui para o estacionamento, do lado do meu carro tinha uma moto e um cara encostado nela, fiquei com medo, mas devia ser racional, ia passar direto, sem falar com ninguém e a qualquer barulho sairia correndo, simples assim. Coloquei o fone e fui direto. Entrei no carro, e alguém bateu na minha janela, levei um susto comecei a gritar, até que vi que aquele rosto era familiar, era o Matt, abri a janela.

                - Você me deu um susto! – Disse ofegante, com a mão no coração sentindo meus batimentos cardíacos desacelerarem.

                - Percebi, você não parava de gritar! - ele riu.

                - O que você quer?! – disse com raiva.

                 - Nossa, depois eu sou o grosso! - falou sarcástico.

                - Fala logo - disse com a mão ainda no coração.

                - Temos que fazer o trabalho, amanhã as duas na sua casa. - ele disse decidido.

                - O que? Ah? Está louco? Claro que não!  - me virei para frente e levantei as mãos gesticulando minhas falas - Antes eu tenho que falar com a minha mãe, ver se eu tenho outros planos... 

                E só ouvi um ronco de motor de moto e o pneu esfregando, pois é, ele me deixou ali falando sozinha, e ele pensa que vai à minha casa! Só para começar, ele nem sabe onde fica! Se ele realmente acha que vai à minha casa está muito enganado.

                Quando pisei no acelerador o carro parecia querer morrer, mas eu o ressuscitei. É incrível que quando a gente mais precisa, tudo faz questão de falhar. Eu estava dentro do carro, ali, sozinha, pelo menos era o que eu achava, porque quando você está em um lugar que em volta só tem pessoas que você não conhece, e que você não gosta, você se sente sozinha.

                Eu tinha amigos. Sim, tinha. Conversava com várias pessoas, mas me sentia solitária do mesmo jeito. Só tinha a Lívia.

                Sabe, nem tudo na nossa vida é a quantidade, mas a qualidade.

                Passei pela a Avenida Central, num transito daqueles bem estressante, e cheguei em casa depois de umas duas horas, sentada, com o pé no freio e outro no acelerador, com a mão gelada. E fazia questão de chover, o que era impressionante já que estávamos no outono.

                Cheguei em casa em torno de seis e dez, minha mãe só chega as sete, sai cedo, as sete horas da manhã, moramos sozinhas, e é mulher e divorciada, é difícil pagar as contas, as pessoas acham que por eu ter um pai ligeiramente rico, eu sou rica também, meu pai é um dos diretores da grande empresa de roupas em que ele conheceu a atual esposa dele, ela é gerente de uma das lojas e era assim que eles tinham seus encontros secretos. Minha mãe pegou ele no flagra na mesa da sala dele, é, foi sim uma cena terrível, e bem nojento, quando você vê seu marido seminu e uma mulher sem sutiã só de calcinha em cima dele, você só pode ter três reações, primeira, bater nela ou a segunda, bater nele ou a terceira, vomitar. Mas ela foi além, teve as três reações, na mesma sequência, bateu nela, nele e depois vomitou, infelizmente não foi em cima dele ... Ele merecia, e muito.

                Subi, a casa era de três andares, na verdade, tinha dois, e um porão, meu esconderijo, ali continha meus segredos, mas atualmente só tinha móveis velhos, um sofá-cama, e meu diário em uma gaveta. Fotos espalhadas por todo quartinho e mais nada. Fui para meu quarto, o maior cômodo da casa, depois, que meus pais se separam ela não tinha motivos para ficar no quarto onde era o ninho de amor dela, onde ela viveu os melhores momentos do seu casamento. Meu quarto era simples, um armário, algumas prateleiras, estantes, um banheiro, e um espelho enorme, uma cama de casal, uma cabeceira e uma luzinha perto da cama para leitura. Coloquei uma calça velha, e um moletom. Ouvi o barulho de um carro, era minha mãe.

                - Oi, como foi o primeiro dia de aula? - minha mãe disse fechando a porta da entrada parecendo animada.

                - Oi, é, sobre isso, digamos que não foi muito bom. - disse tentando encobrir o máximo possível de informações, mas também sabia que não podia esconder as coisas da minha mãe, era só nós duas, eu sempre contava as coisas pra ela.

                - O que aconteceu? Vamos, diga logo e não minta. - o tom de voz dela baixou de animado para nervoso.

                - A Marie e eu , brigamos no refeitório, rolou comida, puxadas de cabelo e advertência, para mim. Ela mentiu e se livrou.

                - O que? Anna, já conversamos sobre isso, não quero você metida nessa histórias, como quer ir para Havard assim? Com esse comportamentos, eles nunca  aceitar e você não vai realizar seu sonho! – na verdade esse era o sonho da minha mãe, e não queria ir para Havard, queria ir para qualquer faculdade, desde de que ficasse bem longe de tudo e de todos, mas fingia que era isso o que queria, para não criar confusões.

                - Sim mãe, desculpa, ela me tirou do sério, ela te chamou de pobretona, e solteirona, e eu não podia deixar! – disse quase gritando.

                - Minha filha – disse minha mãe indo me abraçar jogando sua bolsa no sofá – vamos comer, ver um filme e acabar com essa história, ok?

                - Por mim... - disse abraçando ela.

                - Só isso mais nada?

                - É... – Preferi não dizer nada sobre o Matt, não iria irritar a minha mãe com um garoto grosseiro, irritante e que não liga pra nada - Não.

                 Jantamos macarrão, ficamos no sofá chorando vendo Titanic, é incrível ver que nem tudo é questão de dinheiro, de quanto você tem, e sim o que se sente, ver como o amor pode fazer sacrifícios para salvar aquele que se ama. Morreria pela minha mãe, só por ela, ou pelo menos era o que eu achava.

                Fui deitar as dez horas e pouquinho, mas a verdade é que eu passei a noite acordada pensando no Matt, e como aquele corpo, cabelo e tudo, poderiam ficar tão excluídos de uma escola cheia de garotas oferecidas e que com certeza já não são virgens já faz um bom tempo...

                Aquele corpo escultural, parecido que foi esculpido por Michelangelo, cabelos loiros e curtos, vestia camisa preta com marca de loja na frente e de manga até os cotovelos, e uma calça jeans preta e um tênis escuro.

Capítulo 2

                 Sonhava com ele me do meu lado, deitado na minha cama do outro lado, abraçados, ele beijando a minha testa, e...

                Acordei com o barulho do despertador, era cinco e meia da manhã. Quando menos notei já estava dormindo sonhando com um ogro, ele merecia a Marie, o Sherek e a Fionna, o casal perfeito. Coloquei uma calça jeans, um sapato oxford e uma blusa de manga com um casaco de leve por cima. Desci, minha mãe estava fazendo ovos.

                - Querida, quer que eu te leve para a escola?

                - Não mãe, vou com meu carro. É mais fácil -  e eu também não queria ser zoada por não poder ir para a escola sozinha.

                - Estou indo, já são seis e quinze – disse.

                - Já? Tenho que ir, estou atrasada, Beijos filha, tchau! – disse ela correndo pegando a bolsa e indo em direção da garagem.

                Fui para a escola, peguei o caminho mais longo, coloquei no rádio Photograph de Nickelback, queria ver o tempo passar, e não pensar em mais nada. Pelo menos até chegar, no inferno que era A Escola Secundária de Anne Frank ou o reino da Princesa Fionna Marie.

                Na porta da escola, vi o Matt e a Lívia juntos, conversando, quando vi aquela cena era como se meu coração subisse a boca, e eu não sei por que, já que eu não gosto dele e ela é só minha amiga, não tem que me dar nenhuma satisfação. Assim que me aproximei ele se afastou, eu só não sei bem para onde e por quê.

                - Está tudo bem? Vi que você estava conversando com o Matt, é, vocês são amigos, namorados? – Disse cuspindo as palavras e tentando ser sutil, porém não deu muito certo.

                - Calminha, nós só estávamos conversando, e sobre você pra falar a verdade, e não precisa ficar com ciúmes... - ela disse levantando as mãos e se recuando.

                - Eu? Ciúmes, nada a ver, e o que ele queria saber sobre mim? – Falei meio que ansiosa.

                - Ele só queria saber por que você estava brigando ontem... - Ela falou demonstrando inocência.

                - Ah, é mesmo, por quê? – Ele está interessando em mim, com certeza. Pena que eu não posso corresponder às expectativas dele. Uma pessoa tão rude quanto ele não me interessava. Bom, pelo menos era isso que eu tentava me convencer.

                - Ele não tinha entendido porque uma garota tão certinha quanto você, ia se meter em uma briga. - Lívia jogava as palavras como se tudo fosse normal, sem desconfiar de nada.

                - Vamos? Já estou atrasada. - Estava tentando mudar de assunto.

                A verdade era que eu não queria nem pensar na hipótese de ele não se interessar nem um pouco por mim, e eu já estava contando as horas para vê-lo. Era isso que meu subconsciente queria, mas por fora, só demonstrava que queria estudar logo, e não dar de cara com aquele brutamonte e com a víbora da Marie.

                Entrei na sala de biologia e sentei no canto da sala, mas Lívia me convidou para sentar do lado dela, que a propósito era na frente da sala, eu tentei dizer que não, mas quem é que a impede? E fui, quando sentei entra a Marie e a Ângela, ou como eu chamo Marizete um, olhei para o lado e fiz cara de nojo.

                Matt entrou depois dela, sentou no canto onde eu estava e olhou para o chão e se surpreendeu e sorriu, depois ele levantou o olhar, ele e Marie trocaram olhares ela foi na direção dele. Ela ficou conversando com um sorriso de piriguete que ela fazia para seduzir um garoto e ele respondia com um sorrisinho falso, mas bonito, e não demorou uns cinco minutinhos e ela saiu com uma cara de que a conversa não foi boa. Prendi o riso. Ele olhou na minha direção e sorriu e piscou o olho, e apareceu com a minha pulseira na mão, eu fiquei surpresa, mas na hora que eu ia protestar o professor chegou.

                Fiquei pensando aquilo pode acontecer, a pulseira estava no meu pulso, não estava? Nem prestei atenção na aula, só fiquei pensando como aquilo podia ter acontecido, podia ter caído, mas como ele sabia que era minha? Não tinha assinatura e ele não tinha me visto sentada ali, será que Marie contou? Mas ela me odeia, porque faria isso?

                - Senhorita Grand? – Foi nessa hora que a Lívia me deu uma cutucada que doeu para ser sincera.

                - Ah? Desculpa, eu estava distraída – respondi confusa. Esse era o Sr. Stewart, um homem velho, pançudo, que era bondoso, mas impaciente.

                - O que você gostaria de aprender em biologia e por quê?

                - Biologia Marinha, porque há uma diversidade maior nos animais aquáticos.

                - Eu gostaria de aprender a parte que fala sobre a reprodução dos seres humanos, mais conhecida como sexo – era a Marie e assim que terminou deu uma piscadela.

                - Eu gostaria de aprender essa área também, imagine, você chega no primeiro dia de aula e conhece a garota mais linda da escola? É para isso que a reprodução humana serve, né? – era o Matt, sorriu e olhou para a mim.

                - Percebo que essa garota é bem especial – falou o professor.

                Na hora que ele iria responder o sinal tocou. Ele veio na minha direção achei que iria devolver a minha pulseira, mas ele desviou. Ele se enfiou no meio da multidão e desapareceu assim, no meio do nada. Procurei em todos lugares, dei a volta pela a escola, procurei por ele frustrantemente e voltei para o mesmo lugar, a sala, estava ali a Lívia colocando cola na cadeira da Marie.

                A princípio me surpreendi e olhei para ela com um olhar que dizia: "O que está fazendo?”.

                - Que é? Faz parte da nossa vingança. - ela levantou as sobrancelhas.

                - Ok, ok, mas tenho que ir, amanhã nos falamos.

                Procurei-o de novo, e não o vi, aquela pulseira tinha um valor sentimental era da minha mãe quando ela fez dezessete anos, e ela me deu assim que nasci. Desisti, abaixei a cabeça indo em direção ao meu carro. Abri a porta, sentei no banco do motorista. "Tudo bem" - pensei. E fui embora.

                Hoje era o dia que Matt disse que iria lá para casa, eu não queria que ele fosse, na verdade queria ele bem longe de mim. Mas cada minuto que passava eu me convencia menos disso. Eu almocei, fiz o dever e fiquei vendo televisão, talvez esperando que algo acontecesse, dando uma hora e quarenta, subi, tomei um banho quente, queria vestir algo que me deixasse sensual ao mesmo tempo certinha, queria algo bem justo e curto, mas nada que parecesse que eu sou uma oferecida, coloquei uma saia, uma camisa de manga comprida, sapatilha e um casaco. Não passei muita maquiagem, só um gloss, rímel e lápis de olho.

                Fiquei encarando o relógio, e não sei por que quando deu uma e cinquenta e nove, fui para a janela, mas não vi ninguém, virei de costas e deu duas horas, fui subindo a escada, frustrada e sem esperanças, me achando uma boba, quando cheguei no terceiro degrau ouvi a campainha tocar, de repente um sorriso enorme abriu em meu rosto e fui abrir a porta.

                Ele estava de cabeça baixa, e dava para perceber um sorriso em seu rosto, mas fiz o possível para desfazer o meu:

                - Senhorita Grand? Percebi que esqueceu sua pulseira do lado da minha cadeira. - ele falava olhando para o chão e com ar de deboche.

                - É, deixei cair, agora me devolva! – disse bem nervosa.

                - Calminha... - ele levantou o olhar - eu vim aqui fazer o trabalho, e depois eu te devolvo a pulseira.

                - Ah não! Eu quero essa pulseira agora! Não era nem para estar aqui! - Falava histericamente.

                 - Vamos fazer o seguinte, eu entro faço o trabalho devolvo sua pulseira e vou embora, isso não vai durar nem duas horas. - ele falou sério.

                 - Ok, entra, mas depois de duas horas me devolve a pulseira e vai embora!

                - Acordo feito. - ele disse com um sorriso debochado.

                - Entra! – disse ordenando.

                - Casa bonita, saia bonita, você é bonita. - ele sorriu.

                - Você sempre trata as garotas assim? - disse me virando pra ele.

                - Você sempre faz perguntas assim? - ele perguntou se aproximando de mim.

                - Você não vai responder as minha perguntas não? - Cruzei os braços batendo o pé.

                - O que eu ganho com isso? – disse ele com uma voz que demonstrava suas segundas intenções.

                - O fato de não ser um chato de galocha irritante! - quase gritei.

                - Ah, isso é novo, gostei, a partir de hoje sou seu único e favorito chato de galocha.

                - Você é muito irritante! Por que não simplesmente me devolve a pulseira? Ela tem um valor especial para mim.

                - Para mim também - ele respondeu -, ela me fez ter uma desculpa para poder entrar na sua casa.

                - Se você queria entrar tanto assim na minha casa, por que não invade? Sinceramente não acredito que algo possa te impedir.

                - Realmente, nada me impede, mas você teria uma má impressão sobre mim, não queremos isso. - ele piscou.

                - Tarde demais. - falei.

                Ficou um silêncio constrangedor.

                - Droga, eu realmente não queria que você estivesse aqui.

                - Se não queria, então por que se arrumou?

                Ele me olhou de baixo para cima.

                - Isso? É uma roupinha qualquer que eu uso para ficar em casa. - menti.

                Ele se aproximou e sorriu.

                - Você é uma péssima mentirosa.

                - E você, é um ótimo mentiroso. - Me virei - Fique ai que eu vou subir para pegar as folhas.

                Subi, com medo dele mexer em alguma coisa, não confio nele, então deixei ele ali sozinho na minha sala. Abri meu armário e procurei as folhas, e acabei achando algo bem estranho no fundo do armário, um bilhete escrito : “Você é inesquecível”, mas deixei ali nem me preocupei com quem poderia ter deixado ali, só fiquei pensando que o Matt estava na minha sala, sozinho.

                Quando desci ele estava procurando algo, só não sabia o que era, ele ficou ali olhando de um lado para o outro...Ele era um ladrão, sabia, algo naquele olhar irresistível me dizia isso. Com voz potente e forte mas com medo enfim disse :

                - O que você está procurando? - falei em tom de histeria.

                - O banheiro.

                - Ah, tá, - por uma fração de segundo me senti culpada por imaginar algo de ruim sobre ele, mas eu continuava desconfiando dele -  segunda direita, vai lá que eu vou ficar aqui adiantando o trabalho.

                 Fiquei de pé, debruçada na mesa, com uma mecha presa e outra solta e sem perceber estava numa posição meio sensual, ouvi passos se aproximando mas fiquei no meu lugar, até que senti um hálito fresco na minha nunca :

                - Sabia que você está sexy assim? – disse ele com um tom de voz bem forte.

                - Sabia que você tem que fazer trabalho? – disse bem argilosa.

                - Ok, gosto da Revolução Francesa também, vamos começar...

                 Sentei, e ele também, eu na ponta e ele na cabeceira, ele puxou minha cadeira para perto dele eu me fiz de indiferente. E comecei a ler : “ A Revolução Francesa começou no século...” e ele repetia tudo que eu dizia, só que no pé da minha orelha, me afastei:

                - Não gostou do meu texto? – disse ele num tom de superioridade.

                - Nosso texto, você quis dizer né? - Retruquei.

                - É, dá no mesmo. Sabia que eu adorei que quando o professor me colocou com você? - Ele falou parecendo sincero.

                - Por mim dá no mesmo, qualquer um servia. - Ótima resposta, agora não tem como ele retrucar.

                - Não minta para mim, eu sei que não. – ele olhou no fundo dos meus olhos.

                Desviei o olhar. Não dava para competir, não dava para encarar. Meus raciocínios se perdiam em minha mente toda vez que ele me olhava como se eu fosse transparente.

                - Pois bem, já são três e meia e trabalho acabado agora devolva a minha pulseira e saia!  - Eu não aguentava ficar mais um minuto com ele, ali, sozinha, não conseguiria me controlar.

                - Você disse depois de duas horas, ainda tenho trinta minutos para ficar com você aqui, sozinhos, sem sua mãe nem ninguém. - ele falou com uma voz sedutora. O timbre grave e rouco da voz dele acabava comigo.

                - Não! Você vai embora, trabalho acabado agora sai! – disse empurrando ele até a porta. O que foi em vão, já que ele é bem mais forte do que eu.

                 - Ok, eu vou, mas só porque estou sentindo que alguém está para chegar...toma aqui a sua pulseira e te vejo amanhã sentadinha do meu lado. Beijos, sonha comigo – ele devolveu minha pulseira, colocou em mim para falar a verdade, pegou sua chave abriu a porta e ouvi um ronco de motor de carro. Pelo visto ele realmente foi embora.

                Assim que o barulho de moto foi diminuindo, o barulho de carro aumentava...era minha mãe, tinha chegado mais cedo.

                - Quem era que acabou de sair daqui? – perguntou ela apressada.

                - Ninguém, bateu na porta errada. – tentei disfarçar.

                Minha mãe subiu, e pelo visto tinha acontecido algo de ruim, e muito, porque nem jantou, nem nada.

                Olhei ela subindo e a única palavra que invadia minha mente era: "UFA!". Se minha mãe tivesse me visto com Matt ali sozinha eu com certeza estava encrencada, e ele também. Dessa vez dei sorte.

                 Subi, depois de a novela acabar fui dormir, escovei os dentes troquei de roupa, e fui procurar o bilhete que tinha achado no armário, ele não estava mais ali, deve ter caído no meio da minha bagunça, amanhã procuro, mas quem será que o deixou lá? Matt? Ele não saiu do meu lado, minha mãe? Ela teria me contado. Quem mais poderia ser? Lívia? Acho que não? E agora? Mas isso não é relevante. Tenho que me preocupar mais com o Matt, ele é minha dupla – infelizmente, eu acho – e sou obrigada a ver ele três dias na semana. Isso é horrível, ele é detestável, chato, implicante, idiota, alto, moreno, musculoso....Ai, porque eu não paro de pensar nas qualidades dele? Quer dizer ele é repulsivo, repulsivamente lindo, mas continua repulsivo.

                Fui tentar dormir, mas não parava de pensar em quem poderia ter deixado aquele bilhete e aonde ele foi parar. Não conseguia dormir, enfim levantei , acendi o abajur, não queria acordar a minha mãe, ela trabalha muito. Comecei a procurar na parte de meio do armário, levantei bolsas, brincos e alguma trochas de roupa e nada, procurei em cima, nada, procurei nas gavetas e não achei nada, procurei nas estantes e tirando livro após livro, não encontrei o bilhete, procurei atrás do armário, arrastei o móvel, esperando que nenhum bicho nojento e asqueroso aparecesse dali. Nada . É, literalmente sumiu. Voltei a tentar dormir, e consegui. Acordei com o alarme tocando, parecia que tinha dormido por apenas trinta minutos, de tão cansada que eu me sentia. Mesmo assim me obriguei a levantar da cama e me caminha até o chuveiro. Hoje o dia amanheceu frio, tomei banho e pude despertar melhor, coloquei um calça jeans e uma camisa de manga, o tecido era grosso e esquentava bem.

                - Bom dia filha, dormiu bem? – é incrível como parece que sua mãe sabe de tudo sobre você, mesmo sem saber de nada ela conseguiu adivinhar que minha noite foi horrível.

                - Bem, obrigada, mãe e..., será que depois da escola eu poderia sair com a Lívia? – Não tinha muito o que falar mas eu não queria ficar em casa, e sozinha pensando bobagens...

                - Pode sim, mas volta antes das oito horas.

                - Pode deixar, te amo, estou indo.