Os Sonhos na Casa Assombrada por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“Os Sonhos na Casa Assombrada” – H.P. Lovecraft

e os sonhos ocasionaram a febre ou se a febre ocasionou os sonhos, Walter Gilman não sabia.

Espreitava por trás de tudo o

S

envolvente, exasperante horror da velha cidade e do mofado,

ímpio sótão onde ele escrevia, estudava e se debatia com cifras e fórmulas, quando não estava largado na esquálida cama de feno. A acuidade de seus ouvidos estava adquirindo um grau intolerável e sobrenatural, e havia muito ele fizera parar o relógio barato da cornija da lareira cujo tiquetaquear ia se assemelhando a um estrondo de artilharia. À noite, o discreto alvoroço da cidade às escuras lá fora, a sinistra correria dos ratos nos tabiques carcomidos e o estralejar de vigas ocultas na casa secular bastavam para lhe dar uma sensação de estridente pandemônio. A escuridão sempre foi prenhe de ruídos inexplicáveis — mas ele, porém, às vezes se arrepiava de medo, temendo que os ruídos que escutava pudessem enfraquecer deixando-o ouvir outros ruídos mais fracos que ele suspeitava estarem à espreita por trás dos primeiros.

Ele estava na imutável cidade de Arkham das lendas assombrosas com sua profusão de telhados de águas furtadas debruçados sobre sótãos onde as bruxas se escondiam dos servidores do Rei no sinistro passado da Província. Nenhum outro local daquela cidade era mais prenhe de recordações macabras do que o sótão do telhado que o abrigava — pois fora esta casa e este quarto que haviam abrigado a velha Keziah Mason, cuja fuga da Cadeia de Salem ninguém soubera explicar. Isto havia sucedido em 1692 — o carcereiro enlouquecera e balbuciava a respeito de uma pequena coisa peluda de colmilhos brancos que saíra correndo da cela de Keziah, e nem mesmo Cotton Mather soube explicar as curvas e ângulos rabiscados nas paredes de pedra cinzenta com algum líquido pegajoso vermelho.

Talvez Gilman não devesse ter estudado tanto. O cálculo não-euclidiano e a física quântica bastam para esgotar qualquer cérebro, e quando alguém os mistura com folclore e tenta identificar um fundo estranho de realidade multidimensional por trás das sugestões demoníacas das narrativas góticas e das desvairadas histórias sussurradas ao pé do fogo, dificilmente poderia evitar alguma tensão mental. Gilman viera de Haverhill, mas só depois de ter entrado na universidade de Arkham foi que ele começou a relacionar suas pesquisas matemáticas com as lendas fantásticas de magia ancestral. Alguma coisa na atmosfera da venerável cidade agia obscuramente em sua imaginação.

Os professores da Miskatonic insistiram para que ele moderasse e deliberadamente reduziram seu curso em vários pontos. Mais ainda, impediram-no de consultar duvidosos livros antigos sobre segredos ocultos que eram guardados debaixo de chave no subsolo da biblioteca da universidade.

Todas essas precauções chegaram tarde, porém, de forma que Gilman obtivera algumas pistas terríveis do temível Necronomjcon de Abdul Alhazred, do fragmentário Livro de Eibon e do proibido Unaussprechlichen Kulten de von Junzt para relacionar com suas fórmulas abstratas sobre as propriedades do espaço e as associações entre dimensões conhecidas e desconhecidas.

Ele sabia que seu quarto ficava na velha Casa Assombrada— este havia sido, aliás, o motivo por que o escolhera. Havia muitas coisas nos registros do Condado de Essex sobre o julgamento de Keziah Mason e o que ela havia admitido, sob pressão, para o Tribunal de Oyer e Terminer, havia fascinado Gilman de uma maneira irracional. Ela havia contado ao Juiz Hathorne sobre linhas e curvas que poderiam ser levadas a apontar direções passando através das paredes do espaço para outros espaços ulteriores, e sugerira que essas linhas e curvas eram frequentemente usadas em certas reuniões realizadas à meia-noite no escuro vale da pedra branca além de Meadow Hill e na ilha desabitada do rio. Ela havia contado também sobre o Homem Negro, sobre seu juramento e seu novo nome secreto, Nahab. Depois ela havia desenhado aqueles esquemas nas paredes da cela e desaparecera.

Gilman acreditava coisas estranhas sobre Keziah e havia sentido uma curiosa emoção ao saber que sua habitação ainda estava de pé duzentos e trinta e cinco anos depois. Quando ouviu os silenciosos murmúrios de Arkham sobre a persistente presença de Keziah na casa velha e nas ruas 1

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estreitas, sobre as marcas irregulares de dentes humanos deixados em certas pessoas adormecidas naquela e em outras casas, sobre choros de crianças ouvidos às vésperas do 10 de Maio e do Dia de Todos os Santos, sobre o cheiro freqüentemente notado no sótão da velha casa logo depois dessas temíveis datas e sobre a coisinha peluda de presas agudas que assombrava a mofada construção e a cidade, aninhando-se curiosamente nas pessoas nas horas lúgubres antes do amanhecer, resolveu morar naquele local a qualquer custo. Arranjar um quarto foi fácil pois a casa era impopular, difícil de alugar, e havia muito se prestava para alojamentos baratos. Gilman não saberia dizer o que esperava encontrar ali, mas sabia que desejava estar no edifício onde alguma circunstância havia dado, mais ou menos repentinamente, a uma velha medíocre do século XVII, uma percepção de profundidades matemáticas, superior, talvez, às mais modernas pesquisas de Planck, Heisenberg, Einstein e de Sitter.

Gilman estudou as paredes de madeira e alvenaria atrás de indícios de desenhos crípticos em cada ponto acessível onde o papel houvesse descascado, e uma semana depois conseguiu ficar com o quarto oriental do sótão, onde Keziah teria praticado seus feitiços. Ele já estava vago desde o início pois ninguém queria permanecer ali por muito tempo —, mas o senhorio polonês evitava alugá-lo. Entretanto, nada aconteceu com Gilman até a época da febre. Nenhuma Keziah fantasmagórica esvoaçou pelos quartos e corredores sombrios, nenhuma coisinha peluda se esgueirou em seu tenebroso ninho para roçá-lo com seu focinho, e nenhum registro dos feitiços da bruxa premiou sua busca infatigável. Às vezes ele dava caminhadas pelo sombrio emaranhado de vielas sem calçamento cheirando a mofo onde antigas casas castanhas de idade indefinível se inclinavam, curvavam e espreitavam zombeteiramente por estreitas janelas envidraçadas. Ele sabia que ali haviam acontecido coisas estranhas um dia, e havia uma leve sugestão por trás da superfície de que tudo daquele passado monstruoso não poderia — pelo menos nas vielas mais escuras, mais estreitas e mais tortuosas —ter desaparecido completamente. Ele também remou por duas vezes até a mal-afamada ilha do meio do rio e fez um esboço dos ângulos singulares descritos pelas fileiras de pedras cinzentas cobertas de musgo de origem tão obscura e imemorial.

O quarto de Gilman era de bom tamanho, mas tinha um formato singularmente irregular; a parede norte inclinava-se visivelmente para dentro, a extremidade inferior para a superior, enquanto o teto baixo inclinava-se suavemente para baixo na mesma direção. Afora um evidente buraco de rato aberto e os sinais de outros deles obstruídos, não havia nenhum acesso —nem qualquer aparência de uma via de acesso antiga — para o espaço que devia existir entre a parede inclinada e a parede externa reta do lado norte da casa, embora uma visão do exterior mostrasse o ponto onde uma janela havia sido fechada com tábuas numa data muito remota. O desvão em cima do teto —

que devia ter tido um piso inclinado — era igualmente inacessível. Quando Gilman subiu por uma escada de mão até o desvão coberto de teias de aranha que encimava o resto do sótão, encontrou vestígios de uma antiga entrada fortemente vedada com tábuas fixadas no lugar com as resistentes cavilhas de madeira comuns na carpintaria colonial. Nenhum esforço de persuasão, porém, conseguiu induzir o estalido senhorio a deixá-lo investigar nenhum desses dois espaços fechados.

Com o passar do tempo, sua absorção na parede e no teto irregulares de seu quarto cresceram, pois começara a identificar nos curiosos ângulos um significado matemático que parecia oferecer vagas pistas relacionadas com o seu propósito. A velha Keziah, pensava ele, devia ter tido excelentes motivos para viver num quarto com ângulos peculiares, pois não havia sido mediante certos ângulos que ela alegava ter saído dos limites do mundo espacial que conhecemos? Seu interesse gradualmente se afastou dos espaços vazios insondáveis atrás das superfícies inclinadas, pois agora tinha a impressão de que a finalidade daquelas superfícies estava relacionada ao lado em que ele estava.

O surto de febre cerebral e os sonhos principiaram no começo de fevereiro. Durante algum tempo, aparentemente, os curiosos ângulos do quarto de Gilman exerciam um efeito estranho, quase hipnótico, sobre ele, e à medida que o gélido inverno avançava, ele se via examinando com intensidade crescente o canto onde o teto inclinado para baixo encontrava a parede inclinada para dentro. Nesse período, a incapacidade de se concentrar em seus estudos formais o preocupou muito e ele ficou extremamente apreensivo com a aproximação dos exames de meio de ano. Mas o 2

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aguçado sentido de audição não era menos preocupante. A vida havia se tornado uma insistente, quase insuportável, cacofonia, e persistia a constante, terrífica impressão de outros sons — vindos de regiões além da vida, talvez — vibrando nas fímbrias mesmo da audibilidade. No que toca aos ruídos concretos, os ratos nas velhas paredes divisórias eram responsáveis pelos piores. Seu arranhar às vezes parecia não só furtivo, mas deliberado. Quando chegava do outro lado da parede norte inclinada, vinha misturado com uma espécie de estrépito seco; e quando provinha do desvão secularmente fechado por cima do teto inclinado, Gilman sempre despertava como que a espera de algum horror que apenas ganhava tempo antes de descer para engolfá-lo completamente.

Os sonhos iam muito além do terreno da sanidade e Gilman sentia que eles deviam ser o resultado conjunto de seus estudos de matemática e de folclore. Ele andava pensando demais também nas vagas regiões que suas fórmulas lhe diziam existir além das três dimensões que conhecemos, e sobre a possibilidade de a velha Keziah Mason — guiada por alguma influência à prova de qualquer conjectura — ter efetivamente descoberto o portal para aquelas regiões. Os amarelados registros do condado contendo seu depoimento e o de seus acusadores eram diabolicamente sugestivos de coisas além da experiência humana — e as descrições do fugidio objeto peludo que lhe servia de criado eram dolorosamente realistas apesar de seus detalhes inacreditáveis.

Aquele objeto — não maior do que um rato de bom tamanho e singularmente chamado pela população de “Brown Jenkin” —parecia ter sido o fruto de um caso admirável de ilusão coletiva, pois, em 1692, não menos do que onze pessoas atestaram have-lô vislumbrado. Havia rumores recentes, também, com um grau de concordância desconcertante. As testemunhas afirmavam que ele tinha cabelos longos e a forma de um rato, mas que sua cara barbada com dentes agudos era diabolicamente humana, ao passo que suas patas pareciam minúsculas mãos humanas. Ele transmitia recados entre a velha Keziah e o diabo, e se nutria do sangue da bruxa, o qual sugava como um vampiro. Sua voz era uma espécie de repugnante riso escarninho e ele podia falar todas os idiomas. De todas as bizarras monstruosidades dos sonhos de Gilman, nada o enchia de maior pânico e náusea do que este ser híbrido ímpio e diminuto cuja imagem se esgueirava em sua visão numa forma mil vezes mais hedionda do que qualquer coisa que sua mente desperta havia deduzido dos antigos registros e dos modernos rumores.

Em grande parte, os sonhos de Gilman consistiam de mergulhos em abismos infinitos, em crepúsculos misteriosamente coloridos e sons muito desarmoniosos, abismos cujas propriedades materiais e gravitacionais, e cuja relação com sua própria entidade, ele não poderia sequer começar a explicar. Ele não andava nem subia, não voava nem nadava, não se arrastava nem serpeava, experimentando sempre um modo de locomoção parcialmente voluntário e parcialmente involuntário. Ele não conseguia avaliar direito sua própria condição pois a visão de seus braços, pernas e torso parecia estar sempre obstruída por uma estranha distorção da perspectiva, mas sentia que sua organização física e suas faculdades mentais estavam, de alguma forma, maravilhosamente transformadas e projetadas de viés —não sem uma certa relação grotesca, porém, com suas proporções e propriedades normais.

Os abismos não estavam absolutamente vazios, mas povoados por indescritíveis massas angulosas de uma substância exoticamente colorida, algumas delas parecendo orgânicas e outras inorgânicas. Alguns objetos orgânicos tendiam a despertar vagas lembranças no fundo de sua mente, embora ele não pudesse formar uma idéia consciente do que eles zombeteiramente lembravam ou sugeriam. Nos sonhos mais recentes, ele começara a distinguir categorias separadas em que os objetos orgânicos pareciam estar divididos, e que pareciam envolver, em cada caso, uma espécie radicalmente diferente de padrão de conduta e de motivação básica. Dessas categorias, uma lhe pareceu incluir objetos um pouco menos ilógicos e irrelevantes em seus movimentos do que os membros das outras categorias.

Todos os objetos — orgânicos e inorgânicos — eram absolutamente indescritíveis ou mesmo incompreensíveis. Gilman às vezes comparava a matéria inorgânica a prismas, labirintos, grupos de cubos e planos e construções ciclópicas, e as coisas inorgânicas sugeriam-lhe agrupamentos de bolhas, polvos, centopéias, ídolos hindus animados e intrincados arabescos excitados numa espécie 3

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de animação ofídica. Tudo que ele via era indescritivelmente ameaçador e horrível, e sempre que uma das entidades orgânicas parecia, por seus movimentos, havê-lo notado, ele sentia um pavor hediondo, absoluto, que geralmente o fazia despertar sobressaltado. Sobre a maneira como as entidades orgânicas se moviam, ele não podia dizer mais do que a maneira como ele próprio se movia. Com o tempo, observou um novo mistério — a tendência de certas entidades parecerem subitamente estar fora do espaço vazio, ou desaparecerem completamente com igual presteza. A estridente, trovejante confusão de sons que permeava os abismos estava fora do alcance de qualquer análise no que diz respeito à altura, timbre ou ritmo, mas parecia estar sincronizada com as vagas mudanças visuais em todos os imprecisos objetos, tanto orgânicos como inorgânicos. Gilman sentia um pavor constante de que ela pudesse alcançar um nível de intensidade insuportável durante uma de suas obscuras e inevitáveis flutuações.

Mas não era nesses võrtices de total alienação que ele via Brown Jenkin. Aquele repugnante pequeno horror estava reservado para certos sonhos mais leves, mais definidos, que o assediavam pouco antes dele mergulhar nas profundezas maiores do sono. Ele estaria deitado no escuro, lutando para se manter desperto, quando uma tênue luminosidade bruxuleante pareceria tremeluzir por todo o quarto secular, revelando, em meio a uma névoa violeta, a convergência de ângulos planos que haviam se apossado tão insidiosamente de seu cérebro. O horror pareceria emergir do buraco de rato do canto e sapatear em sua direção sobre o inclinado assoalho de tábuas largas com uma expressão de maligna expectativa em sua minúscula cara humana barbada; mas esse sonho felizmente se desfazia sempre antes do objeto chegar perto o suficiente para encostar nele. A coisa tinha caninos diabolicamente longos e agudos. Gilman tentava tapar o buraco todos os dias, mas a cada noite os moradores reais dos tabiques roíam a obstrução, fosse qual fosse. Certa vez ele conseguiu que o senhorio pregasse uma chapa de estanho em cima do buraco, mas, na noite seguinte, os ratos escavaram um buraco novo e, ao fazê-lo, empurraram ou arrastaram para dentro do quarto um curioso fragmento de osso.

Gilman não informou ao médico de sua febre, pois sabia que não passaria nos exames se fosse enviado à enfermaria da universidade, quando cada instante era necessário para os estudos. Nas circunstâncias, ele foi reprovado em Cálculo D e Psicologia Geral Avançada, embora não sem esperança de recuperar o terreno perdido antes do fim do semestre.

Era março quando o novo elemento entrou em seu sonho preliminar mais leve e a forma repelente de Brown Jenkin começou a aparecer acompanhada de uma mancha nebulosa que foi ficando cada vez mais parecida com uma velha mulher encurvada. Este acréscimo o perturbou mais do que ele poderia imaginar, mas finalmente decidiu que ela se parecia com uma velha encarquilhada a quem encontrara por duas vezes no escuro emaranhado de vielas perto do cais abandonado. Naquelas ocasiões, o olhar cruel, sardônico e aparentemente gratuito da megera havia-lhe causado calafrios

— especialmente da primeira vez, quando um rato enorme disparando pela entrada escura de um beco próximo o fez irracionalmente pensar em Brown Jenkin. Agora, refletia, aqueles temores de origem nervosa estavam se refletindo em seus sonhos desvairados.

Que a influência da velha casa era maligna, ele não poderia negar, mas traços de seu primitivo e mórbido interesse ainda o mantinham ali. Ele argumentava que a febre era a única responsável por suas fantasias noturnas e, quando o acesso diminuísse, ficaria livre das visões monstruosas. Aquelas visões, porém, tinham uma evidência e vivacidade envolventes, e, ao acordar, ele conservava sempre a vaga sensação de ter experimentado muito mais do que podia se lembrar. Estava muito seguro de que nos sonhos não lembrados ele conversava com Brown Jenkin e a velha, e que estes insistiam para que ele os acompanhasse a algum lugar onde encontraria uma terceira criatura ainda mais poderosa.

Lá para o fim de março, ele começou a se recuperar em matemática, embora os outros estudos o absorvessem cada vez mais. Estava adquirindo uma bossa intuitiva para resolver equações de Riemann, e deixou perplexo o professor Upham com o seu entendimento de problemas quadridimensionais e outros que haviam desconcertado o resto de sua classe. Certa tarde, houve uma discussão sobre possíveis estruturas estranhas no espaço e sobre pontos teóricos de aproximação, ou mesmo de contato, entre nossa parte do cosmos e diversas outras regiões tão 4

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distantes quanto as estrelas mais longínquas ou os próprios abismos transgaláticos — ou mesmo, tão fabulosamente distantes quanto as unidades cósmicas concebíveis por especulação, além de todo o contínuo espaço-tempo eisteiniano. O modo como Gilman tratou desse tema encheu todos de admiração, apesar de algumas de suas ilustrações hipotéticas provocarem um reforço nos sempre abundantes rumores sobre suas excentricidades, nervosismo e solidão, O que deixou os alunos reticentes foi a sua sensata teoria de que o homem poderia — com um conhecimento matemático superior a tudo que o homem conseguira adquirir — sair deliberadamente da Terra para qualquer outro corpo celeste existente em um dos pontos de uma infinidade de pontos específicos da configuração cósmica.

Este passo, a seu ver, exigiria apenas dois estágios: o primeiro seria a saída da esfera tridimensional que conhecemos, e o segundo, a passagem de volta para a esfera tridimensional num outro ponto, infinitamente distante, inclusive. Que isto poderia ser realizado sem a perda da vida era, em muitos casos, concebível. Qualquer ser de qualquer parte do espaço tridimensional provavelmente conseguiria sobreviver na quarta dimensão, e a sua sobrevivência no segundo estágio dependeria da parte extraterrestre do espaço tridimensional que ele escolhesse para sua reentrada. Os habitantes de alguns planetas poderiam viver em outros — mesmo em planetas pertencentes a outras galáxias, ou a fases dimensionais similares de outro contínuo espaço-tempo —

, embora certamente devessem existir quantidades enormes de corpos celestes ou zonas espaciais mutuamente inabitáveis, apesar de matematicamente justapostos.

Era possível também que os habitantes de um determinado domínio dimensional pudessem sobreviver à entrada em muitos domínios desconhecidos e incompreensíveis de dimensões adicionais ou infinitamente multiplicadas — estivessem eles dentro ou fora do contínuo espaço-tempo dado — e que o inverso provavelmente seria verdadeiro. Isto foi motivo de muitas especulações, mas ninguém parecia estar plenamente seguro de que o tipo de mutação envolvido na passagem de algum plano dimensional para o plano superior seguinte pudesse preservar a integridade biológica tal como a compreendemos. Gilman não poderia ser muito claro sobre suas razões para esta última suposição, mas sua obscuridade neste ponto foi mais do que compensada por sua clareza em outros pontos complexos. O professor Upham apreciou especialmente sua demonstração da filiação da matemática superior a certas fases da sabedoria mágica transmitida ao longo das eras desde uma inefável antigüidade —humana ou pré-humana — cujos conhecimentos do cosmos e de suas leis eram superiores aos nossos.

Perto do primeiro dia de abril, Gilman começou a ficar muito preocupado com a persistência de sua febre. Incomodava-o também o que alguns dos outros locatários diziam sobre o seu sonambulismo. Ao que parecia, ele saía freqüentemente de seu leito, e aquele estalar do assoalho de seu quarto, em certas horas da noite, era percebido pelo homem do quarto de baixo. Este indivíduo dizia ouvir também passos de pés calçados durante a noite, mas Gilman estava certo de que ele se enganava a este respeito, pois seus sapatos e suas roupas estavam sempre em seu preciso lugar pela manhã. Podia-se desenvolver toda sorte de ilusões auditivas naquela mórbida casa velha, O próprio Gilman, mesmo à luz do dia, não tinha a certeza da existência de outros ruídos além do arranhar dos ratos vindos dos escuros desvãos além da parede inclinada e acima do teto inclinado? Seus ouvidos patologicamente sensíveis tentavam captar passos macios no desvão imemorialmente fechado ao alto, e às vezes a ilusão dessas coisas era dolorosamente realista.

Entretanto, ele sabia que havia se tornado mesmo um sonâmbulo, pois, por duas vezes, seu quarto fora encontrado vazio durante a noite, embora todas as suas roupas estivessem no lugar. Isto lhe fora assegurado por Frank Elwood, o colega que a pobreza obrigara a se alojar nesta casa decrépita e impopular. Elwood estivera estudando de madrugada e fora procurá-lo atrás de ajuda numa equação diferencial, descobrindo que Gilman estava ausente. Havia sido um grande atrevimento de sua parte abrir uma porta destrancada depois de bater e não receber resposta, mas ele precisava muito da ajuda e achou que o ocupante não se importaria de ser despertado, se o fizesse com jeito. Em nenhuma dessas ocasiões, porém, Gilman estava lá, e quando ouviu falar do assunto, ficou cismando sobre onde poderia ter estado perambulando vestido apenas com as roupas de dormir. Ele decidiu investigar o assunto se os relatos de seu sonambulismo continuassem, e pensou 5

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em aspergir o chão do corredor com farinha para ver aonde seus passos o levariam. A porta era o único meio de acesso concebível, pois não havia apoio viável para os pés do lado de fora da estreita janela.

Á medida que abril avançava, os ouvidos de Gilman, aguçados pela febre, eram perturbados pelas orações lamurientas de um ajustador de teares chamado Joe Mazurewicz cujo quarto ficava no térreo. Mazurewicz havia contado longas histórias incoerentes sobre o fantasma da velha Keziah e a coisa peluda de colmilhos agudos, e havia dito que às vezes ficava tão apavorado que só seu crucifixo de prata — que lhe fora dado para este fim pelo Padre Iwanicki, da Igreja de St. Stanislaus

— conseguia tranqüilizá-lo. Agora ele estava rezando por conta da aproximação do dia do Sabá das Bruxas. A véspera do 10 de Maio era a Noite de Walpurgis, quando os mais tenebrosos horrores do inferno rondavam a Terra e todos os servos de Satã se congregavam para ritos e atos inomináveis.

Era sempre uma época muito ruim em Arkham, apesar da boa gente da Avenida Miskatonic e das ruas High e Saltonstall fingir nada saber a esse respeito. Haveria coisas ruins e uma ou duas crianças provavelmente desapareceriam. Joe sabia dessas coisas, pois sua avó, do velho interior, ouvira histórias contadas pela avó dela. Era conveniente orar e rezar o terço nesse período. Durante três meses, Keziah e Brown Jenkin não se aproximaram do quarto de Joe, nem do quarto de Paul Choynski, nem de qualquer outro — e não era nada bom quando eles sumiam assim. Deviam estar aprontando alguma.

Gilman passou pelo consultório do médico no dia dezesseis daquele mês e ficou surpreso ao descobrir que sua temperatura não estava tão alta quanto temia. O médico examinou-o cuidadosamente e aconselhou-o a ver um especialista em nervos. Pensando bem, ele ficou contente de não ter consultado o médico ainda mais curioso da universidade, O velho Waldron, aquele que havia reduzido suas atividades anteriormente, o obrigaria a tirar uma licença — coisa impossível, agora que estava tão perto de obter grandes resultados com suas equações. Estava seguramente perto da fronteira entre o universo conhecido e a quarta dimensão, e quem saberia até onde poderia chegar?

Mas mesmo quando esses pensamentos lhe ocorreram, ele ficava cismando na origem de sua estranha confiança. Será que toda aquela perigosa sensação de iminência vinha das fórmulas nas folhas de papel que ele enchia dia após dia? Os imaginários passos suaves e furtivos no desvão fechado ao alto eram enervantes. E agora havia também um crescente sentimento de que alguém o estava constantemente persuadindo a fazer algo terrível que ele não deveria fazer. E quanto ao seu sonambulismo? Para onde ele iria, às vezes, durante a noite? E o que seria aquela tênue sugestão de som que, de vez em quando, parecia se esgueirar por entre a confusão de sons identificáveis mesmo à plena luz do dia e estando inteiramente desperto? Seu ritmo não correspondia a nenhuma coisa da Terra, exceto, talvez, à cadência de um ou dois indizíveis cantos sabáticos, e, às vezes, ele temia que o ritmo correspondesse a certas características do vago guinchar ou rugir naqueles abismos totalmente alienígenas do sonho.

Entrementes, os sonhos estavam se tomando atrozes. Na fase preliminar mais leve do sono, a pérfida velha adquirira agora uma nitidez demoníaca e Gilman sabia que se tratava da mesma velha que o havia aterrorizado ao andar pelo subúrbio. Suas costas encurvadas, nariz comprido e queixo enrugado eram inconfundíveis, e as disformes roupas pardacentas eram iguais às de sua lembrança.

Ela exibia no rosto uma expressão de odiosa malevolência e exultação, e, ao acordar, ele conseguia lembrar uma voz grasnante que persuadia e ameaçava. Ele devia encontrar o Homem Negro e ir com eles todos até o trono de Azathoth, no centro do caos definitivo. Era o que ela dizia. Ele devia assinar o livro de Azathoth com seu próprio sangue e adotar um novo nome secreto agora que suas investigações independentes o haviam levado tão longe. O que o impedia de ir com ela, Brown Jenkin e o outro até o trono do Caos onde as finas flautas sopravam descuidadamente era o fato de ter visto o nome “Azathoth” no Necronomicon e saber que se referia a um demônio primitivo, pavoroso demais para ser descrito.

A velha surgia sempre do ar rarefeito perto no canto onde a inclinação para baixo encontrava a inclinação para dentro. Ela parecia cristalizar-se num ponto mais próximo do teto do que do assoalho, e a cada noite parecia um pouco mais perto e mais nítida antes do sonho se desfazer.