Os cinco e os raptores por Enid Blyton - Versão HTML

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Enid Blyton

Os cinco e os raptores

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Série Os Cinco - 14

EDITORIAL NOTÍCIAS

Título original

FIVE HAVE PLENTY OF FUN

Tradução de

MARIA DA GRAÇA MOCTEZUMA

Editorial Notícias

Hodder and Stoughton, Ltd. - 1952

Reservados todos os direitos para Portugal

Pela EDITORIAL NOTÍCIAS

LISBOA

1

1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.

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Índice

Capítulo I - No Casal Kirrin

Capítulo II - Uma visita durante a noite

Capítulo III - Notícias desagradáveis

Capítulo IV - A Berta

Capítulo V - Na manhã seguinte

Capítulo VI - Uma série de contrariedades

Capítulo VII - Uma pequena conversa

Capítulo VIII - Uma transformação

Capítulo IX - Uma chamada telefónica

Capítulo X - Uma coisa estranha

Capítulo XI - Novamente na Ilha Kirrin

Capítulo XII - Muito suspeito

Capítulo XIII - Um horrível susto

Capítulo XIV - Onde está a Zé?

Capítulo XV - Algumas descobertas no bosque

Capítulo XVI - A João

Capítulo XVII - No acampamento do Gringo

Capítulo XVIII - O Tim torna-se muito útil

Capítulo XIX - Um plano divertido

Capítulo XX - Uma aventura perigosa

Capítulo XXI - Absolutamente inesperado

Capítulo XXII - Estes miúdos são formidáveis

Capítulo I

No Casal Kirrin

- Parece-me que já estamos em Kirrin há quase um mês - disse a Ana,

espreguiçando-se e enterrando os pés na areia. - E afinal acabámos de chegar!

- Tens razão. É curioso como nos habituamos depressa a Kirrin - observou

o David. - Ainda ontem chegámos e parece, concordo contigo, Ana, que já aqui

estamos há imenso tempo. Eu gosto muito de Kirrin.

- Oxalá os dias bonitos se mantenham durante as nossas férias - disse o

Júlio, afastando o Tim, que estava a desafiá-lo com as patas para a brincadeira. -

Sai daqui, Tim. Tu tens muita resistência. Nós tomámos banho, corremos e

jogámos a bola, o que é bastante para tão pouco tempo. Vai brincar com os

caranguejos!

- Uuuuf! - fez o Tim, desgostoso. Depois arrebitou as orelhas ao ouvir o

som duma campainha, no passeio junto à praia.

- Acho que o Tim ouviu o homem dos sorvetes - disse o David. - Algum de

vocês quer comprar?

Todos quiseram. A Ana recebeu o dinheiro de cada um dos pequenos e foi

buscar os sorvetes, seguida pelo Tim. Daí a pouco apareceu com cinco gelados e

o Tim saltando à sua volta.

- Não há nada melhor do que estar deitado na areia quente, ao sol,

comendo sorvetes e sabendo que se tem ainda três semanas de férias. E em

Kirrin! - acrescentou o David.

- Na verdade é maravilhoso! - concordou a Ana. - Que pena o teu pai ter

hoje visitas, Zé. Quem são? Temos que nos vestir para lhes aparecer?

- Acho que sim - respondeu a Zé. - Oh! Tim, comeste o teu sorvete duma

só vez. Que desperdício!

- Quando chegam essas visitas? - perguntou o David.

- Cerca do meio-dia e meia hora - respondeu a Zé. – Vêm almoçar. Mas

graças a Deus o meu pai disse que não quer ver, ao almoço, crianças a andarem

à volta dos seus hóspedes. Por isso a minha mãe disse-me para irmos, ao meio-

dia e meia hora, cumprimentar as visitas- e voltarmos a sair com um cesto cheio

de coisas para um piquenique.

- Devo acrescentar que o teu pai tem por vezes boas ideias - observou o

David. - as visitas são alguns cientistas amigos dele?

- São. O pai está a fazer um estudo muito importante em conjunto com

dois colegas - explicou a Zé. - Parece que um deles é um génio e fez uma

descoberta tão maravilhosa que nem se pode explicar.

- Que espécie de descoberta? - perguntou o Júlio: - Algum foguete para

viagens diárias à Lua, alguma bomba, ou...

- Não. Parece-me tratar-se de qualquer coisa que serve para haver energia

eléctrica quase de graça! - respondeu a Zé. - Ouvi o meu pai dizer

que é a maior descoberta feita até hoje. Ele anda entusiasmado. Chama-lhe

uma «dádiva à humanidade» e sente-se orgulhoso por tomar parte no seu

estudo.

- O tio Alberto é muito inteligente, não acham? - disse a Ana.

O pai da Zé era tio do Júlio, do David e da Ana, e estes eram portanto

primos da pequena. Zé era o diminutivo de Maria José.

Mais uma vez tinham ido todos passar a Kirrin o resto das suas férias, as

últimas três semanas.

O tio Alberto era na verdade muito inteligente.

Mas apesar disso a Zé por vezes gostaria que ele fosse um pai mais vulgar

e jogasse a bola e o ténis com as crianças sem se irritar tanto com os seus gritos, gargalhadas e brincadeiras.

Ele sempre discutia quando a mãe da Zé lhe participava que os sobrinhos

iam passar uma temporada em Kirrin.

- São umas crianças barulhentas, que andam sempre aos gritos - dizia ele. -

Tenho de me fechar à chave no escritório e não sair de lá.

- Pois sim, Alberto - respondia-lhe a esposa. - Mas tu bem sabes que eles

praticamente passam o dia fora. A Zé precisa de conviver com outros pequenos

de vez em quando e os nossos sobrinhos são muito bem-educados. A Zé gosta

muito de os ter aqui.

Os quatro primos tinham o maior cuidado em não incomodar o dono da

casa, pois ele possuía um temperamento irritável e gritava com toda a força

quando estava zangado. Mas, como disse o Júlio, ele não tinha culpa de ser um

génio, e os génios não são pessoas vulgares.

- Especialmente os grandes cientistas, que podem facilmente fazer

explodir o mundo num acesso de mau humor - concluiu o Júlio, muito sério.

- Bem, eu não gostaria que ele me fizesse explodir por eu bater com

alguma porta ou por o Tim se pôr a ladrar – observou a Zé.

- Pois eu achava uma certa graça ir pelos ares, para ver como era - gracejou

o David.

- Não sejas palerma - disse a Zé. - Algum de vocês quer tomar outro

banho?

- Eu não. Mas sou capaz de me ir deitar à beira da água deixando as ondas

molharem-me - disse o David. - Aqui neste sítio sinto-me meio torrado.

- Acho uma boa ideia - concordou a Ana. - Mas quanto mais calor tiveres

mais fria te parecerá a água.

- Vamos! - exclamou o David, levantando-se. - Daqui a pouco estou com a

língua de fora como o Tim.

Os pequenos foram até à beira da água onde rebentavam pequenas ondas.

- Está gelada! - gritou a Ana. - Eu já esperava. Não consigo deitar-me, só

posso estar sentada!

Contudo, daí a pouco estavam todos deitados dentro da água, à beira-mar,

deixando-se rebolar na areia, quando não havia ondas. Era tão agradável sentir

o fresco da água em todo o corpo!

De repente o Tim ladrou. Ele não estava ao pé dos pequenos mas sim na

areia, mesmo à beira-mar. Achava que era desnecessário molhar-se outra vez. A

Zé levantou a cabeça.

- Que aconteceu, Tim? - perguntou ela. - Não vem aí ninguém.

Mas o David tinha ouvido qualquer coisa e sentara-se apressadamente.

- Parece-me que estão a tocar uma campainha para nos chamarem. Deve

ser do Casal Kirrin!

- Mas ainda não chegou a hora do almoço! - exclamou a Ana,

desconsolada.

- Talvez - disse o Júlio, levantando-se. - É o que faz ter deixado o relógio

no bolso do casaco! Eu devia lembrar-me de que o tempo em Kirrin passa mais

depressa.

O pequeno foi a correr buscar o relógio de pulso à algibeira do casaco.

- É uma hora - gritou ele. - Já passa um minuto. Despachem-se, pois vamos

chegar atrasadíssimos!

- Que maçada! - exclamou a Zé. - A minha mãe não vai ficar nada satisfeita

connosco porque já devem ter chegado os dois cientistas!

Os pequenos pegaram nos casacos e desataram a correr. Felizmente o

Casal Kirrin não ficava longe, por isso depressa chegaram ao portão. Lá fora

via-se um carro enorme, um dos últimos modelos americanos. Mas não havia

tempo para o examinar!

Entraram, silenciosamente, pela porta do jardim. A mãe da Zé foi ter com

eles, muito zangada.

- Desculpe, tia Clara – disse o Júlio. - Desculpe-nos por favor. A culpa foi

toda minha. Era o único que levava relógio.

- Estamos muito atrasados? - perguntou a Ana. - Já começaram a almoçar?

Quer que nos vamos embora com o cesto do piquenique sem os interromper?

- Não - respondeu a tia Clara. - Felizmente o tio ainda está fechado no

escritório com os seus dois amigos. Já bati o gong uma vez, mas acho que não

ouviram! Toquei a campainha para vocês virem pois eles podem aparecer dum

momento para o outro e o tio ficaria zangado se não estivessem aqui para os

cumprimentar!

- Mas os amigos do pai geralmente não desejam ver-nos - observou a Zé,

surpreendida.

- Sim, mas um destes tem uma filha um pouco mais nova do que tu, Zé.

Acho que também é mais nova do que a Ana - explicou a mãe. - E pediu-me

para vos conhecer porque a pequena vai para o vosso colégio no próximo

período.

- O melhor é irmo-nos lavar depressa - disse o Júlio. Mas precisamente

naquela altura abriu-se a porta do escritório e apareceu o tio Alberto com os

dois amigos.

- Olá! Estes são os seus pequenos? - perguntou um deles, parando.

- Acabam de chegar da praia - disse logo a tia Clara. – Acho que não estão

muito bem arranjados. Eu...

- Ora! - exclamou o senhor. - Não peça desculpas por causa dumas

crianças assim. Formam um grupo bem simpático. São formidáveis!

O senhor falava com um sotaque americano e tinha uma cara muito

risonha. Os pequenos gostaram logo dele. O senhor voltou-se para o pai da Zé. -

São todos seus? - perguntou ele.

- Aposto que tem um grande orgulho neles! Como conseguiram esta cor?

Parecem uns peles-vermelhas! Quem me dera que a minha filha Berta tivesse

este aspecto!

- Não são todos meus filhos - respondeu o tio Alberto, horrorizado com tal

ideia. - Só tenho esta - continuou, pondo a mão no ombro da Zé. - Os outros são

meus sobrinhos.

- Deve concordar que tem um esplêndido rapaz - disse o americano

remexendo os cabelos encaracolados e curtos da Zé. Ela detestava que lhe

mexessem na cabeça mas como o senhor a confundira com um rapaz, riu-se

alegremente!

- A minha filha vai para a tua escola - disse ele à Ana. - Faz-lhe

companhia, sim? Ao princípio ela deve sentir-se acanhada.

- Claro que faço - respondeu a Ana. simpatizando com aquele americano

muito alto e de voz grossa. Nem parecia um cientista! O outro sim, parecia. Era

um homem espadaúdo, usava óculos com aros de tartaruga e, como o tio

Alberto tantas vezes fazia, olhava fixamente para longe como se não estivesse a

ouvir uma palavra do que diziam.

O tio Alberto achou que aquela tagarelice já tinha durado bastante e fez

um sinal aos pequenos para se retirarem.

- Venham almoçar - disse ele aos seus amigos. Um deles seguiu-o logo mas

o americano deixou-se ficar para trás.

Enfiou as mãos nas algibeiras e tirou uma nota de libra que deu à Ana.

- Comprem uns rebuçados - disse ele. - E sejam bons para a minha Berta,

sim?

Depois entrou na sala de jantar, fechando a porta com estrondo. - Meu

Deus, que dirá o pai a um barulho destes? - disse a Zé, rindo. - Eu simpatizei

com ele. E vocês? O automóvel que está lá fora deve pertencer-lhe. Não consigo

imaginar o outro a andar de bicicleta quanto mais ao volante dum carro!

- Tomem lá o cesto com o vosso almoço e desapareçam! - disse a tia Clara,

cheia de pressa. - Tenho de ir ver se está tudo em ordem!

Ela meteu o cesto nas mãos de Júlio e entrou na sala de jantar. O Júlio

sorriu satisfeito ao sentir o peso do cesto.

- Vamos embora - disse ele. - Mas que bom! Outra vez todos para a praia!

Capítulo II

Uma visita durante a noite

Daí a dois minutos os «Cinco» chegaram à praia e o Júlio abriu o cesto do

almoço. Estava cheio de sanduíches, bolachas e chocolates. Havia ainda um

pacote com ameixas e duas garrafas de limonada.

- Está bem fresca - disse o David tirando as garrafas para fora. - Que é isto?

Um bolo de frutas! Um estupendo bolo de frutas! Estamos cheios de sorte!

- Uuuuf! - fez o Tim cheirando o cesto com ar de aprovação.

Havia um embrulho em papel-pardo, contendo um osso e um frasco com

pasta de carne. A Zé abriu-o.

- Arranjei isto para ti, Tim - disse ela. - Anda, agradece!

O Tim deu-lhe umas lambedelas com tal satisfação que a pequena até

ficou aflita.

- Passa-me a toalha, Jú! - pediu ela. O Tim molhou-me a cara toda. Vai-te

embora, Tim. Já basta de agradecimentos! Vai-te embora, já te disse. Como

queres que eu ponha pasta de carne nas tuas bolachas se não tiras o focinho do

frasco?

- Tu estragas o Tim - observou a Ana. Pronto, pronto. Não precisas de

fazer essa cara tão zangada, Zé! Concordo que ele é merecedor. Sai daqui com

esse osso, Tim. Deita um cheiro horrível!

Os pequenos saborearam as sanduíches de sardinhas com tomates,

seguidas doutras com ovos cozidos e alface. Depois passaram ao bolo de frutas

e beberam limonada.

- Não posso compreender como há pessoas que preferem as refeições à

mesa, podendo fazer piqueniques - disse o David. - Vejam lá os tios e os seus

amigos como estão a comer um almoço quente, dentro de casa com um dia

destes. Livra!

- Gosto daquele americano alto - declarou a Zé.

- Ah! ah! Todos nós sabemos porquê - disse o David em ar de troça. - Ele

confundiu-te com um rapaz. Quando perderás essa mania, Zé?

- O Tim está a ver se apanha o bolo! - gritou a Ana. - Depressa, Zé! Agarra-

o!

Depois do almoço todos se deitaram na areia e o Júlio começou a contar

uma história muito longa sobre uma partida que ele e o David tinham feito ao

professor, no colégio. Mas ficou muito aborrecido porque ninguém se riu na

parte mais engraçada e então sentou-se para perceber o motivo.

- Estão todos a dormir - disse ele, decepcionado. Depois levantou-se e ao

mesmo tempo o Tim arrebitou as orelhas.

Ouvia-se ao longe um ruído forte.

- É o carro do americano, não achas Tim? - disse o Júlio.

Pouco depois viu o carro rolando pela estrada marginal.

O dia estava quente de mais para fazer qualquer coisa que não fosse

descansar. Os «Cinco» sentiam-se muito felizes por poderem estar ali deitados

preguiçosamente no primeiro dia de férias que passavam juntos. Em breve

começariam a pôr em prática vários planos, mas o primeiro dia em Kirrin era

destinado a relembrar as coisas passadas e a arreliar o Tim, voltando a

meterem-se naquele «ambiente», como dizia o David.

O Júlio e o David haviam estado no estrangeiro durante quatro semanas e

a Ana primeiro fora acampar e depois estivera em casa dos seus pais com uma

companheira de colégio. A Zé ficara sozinha em Kirrin, por isso achava

maravilhoso os «Cinco» encontrarem-se outra vez juntos para passarem três

semanas de Verão. E ali estavam em Kirrin, ao pé do mar, na sua esplêndida

praia, vendo os bonitos barcos e a curiosa ilha no meio da baía.

Como de costume o primeiro dia foi passado numa espécie de sonho e

depois os pequenos começaram a fazer os seus planos.

- Vamos novamente à Ilha Kirrin - propôs o David. - A última vez que ali

estivemos foi há muito tempo.

- Vamos pescar à Enseada das Lagostas - sugeriu o Júlio.

- Vamos explorar algumas das grutas dos penhascos - disse a Zé. - Eu já

tinha pensado em lá ir nestas férias mas sozinha não achava graça nenhuma.

No terceiro dia, precisamente quando estavam a acabar de fazer as camas,

tocou o telefone.

- Eu vou atender - gritou o Júlio para a tia Clara, dirigindo-se ao aparelho.

Do outro lado falou uma voz muito apressada.

- Quem fala? Ah! és tu, Júlio? És o sobrinho do dr. K..., não é verdade?

Escuta, diz ao teu tio que eu apareço aí esta noite. Vou tarde. Diz-lhe que espere

por mim. É muito importante.

- Mas o senhor não lhe quer falar perguntou o Júlio, surpreendido. - Eu

vou chamá-lo, se o senhor...

Mas a ligação fora interrompida. O Júlio ficou muito intrigado. A pessoa

que telefonara nem sequer tinha dito o nome, mas o Júlio reconhecera-lhe a voz.

Era aquele gigantesco e alegre americano que tinha ido visitar o seu tio dois

dias antes. Que teria acontecido? Porque estaria tão nervoso?

O pequeno foi procurar o tio mas ele não estava no escritório.

Por isso falou com a tia Clara.

- Tia Clara - disse ele. - Julgo que foi aquele americano enorme que

telefonou. O mesmo que veio cá almoçar no outro dia. Pediu-me que dissesse ao

tio Alberto que vem aqui esta noite. Vem tarde, disse ele. E é preciso o tio

esperá-lo pois é um assunto muito importante.

- Meu Deus! - exclamou a tia Clara assustada. - Então ele vem passar a

noite aqui? Não temos nenhum quarto de dormir disponível.

- Ele não disse isso, tia Clara - explicou o Júlio. – Tenho muita pena de não

lhe poder dar mais pormenores mas, precisamente quando eu lhe disse que ia

chamar o tio Alberto, ele desligou. Nem me deixou acabar a frase.

- Que estranho! - exclamou a tia Clara. E que aborrecimento! Como

poderei mandá-lo embora se ele quiser ficar? Tenho a impressão de que vai

aparecer depois da meia-noite, no seu grande carro. Oxalá não tenha surgido

qualquer contratempo com o trabalho que o teu tio está a fazer. Sei que é uma

coisa muitíssimo importante.

- Talvez o tio tenha o número do telefone do americano e possa falar com

ele para saber mais qualquer coisa - disse o Júlio, esforçando-se por ser

prestável. - Onde está o tio?

- Parece-me que foi ao correio - respondeu a tia Clara. - Quando voltar

digo-lhe o que se passou.

O Júlio contou aos outros o misterioso telefonema. O David ficou muito

satisfeito.

- No outro dia não tive tempo de examinar bem aquele enorme automóvel

- disse ele. - Tenciono ficar acordado até à chegada do americano e depois vou

lá abaixo para ver o carro. Tem uns guarda-lamas como eu nunca vi.

O tio Alberto ficou tão surpreendido com o telefonema como qualquer dos

pequenos e quase se zangou com o Júlio por não saber mais pormenores.

- Que quererá ele? - perguntou o tio, como se o Júlio fosse obrigado a

saber! - Ficou tudo combinado no outro dia. Tudo! Cada um de nós três tem a

sua parte no trabalho a fazer. Por acaso a minha é a menos importante e a dele é

a de maior responsabilidade. Ele levou todos os papéis e não é possível que se

tenha esquecido de algum. Aparecer assim a meio da noite! Que estranho!

Nenhum dos pequenos, a não ser o David, estava disposto a ficar

acordado, esperando pela chegada do americano. O David acendeu o candeeiro

da mesa de cabeceira e começou a ler um livro. Tinha a certeza de que

adormeceria e nenhum barulho seria capaz de o despertar se não arranjasse

qualquer coisa para se entreter.

Enquanto lia estava de ouvido alerta para dar pela chegada de qualquer

carro.

Bateram as onze e depois a meia-noite. O pequeno ouviu o relógio grande

da entrada dar as doze badaladas. Santo Deus! O tio Alberto não devia estar

nada satisfeito por ter que esperar até tão tarde!

Bocejou e voltou a página. Leu, leu e leu. Meia-noite e meia hora. Uma

hora. Então pareceu-lhe ouvir ruído lá em baixo e abriu a porta do quarto. Sim,

era o tio Alberto, no escritório. O David podia distinguir a sua voz.

- Pobre tia Clara, também deve estar levantada - pensou ele. - Eu oiço as

suas vozes. Daqui a pouco adormeço em cima do livro. Vou até ao jardim

apanhar um pouco de ar fresco. Depois ficarei bem acordado.

Vestiu o roupão e desceu, silenciosamente, a escada. Abriu a porta do

jardim e foi lá para fora. Deixou-se ficar à escuta durante algum tempo,

esperando distinguir a distância o ruído do carro do americano, no silêncio da

noite.

Mas tudo o que ouviu foi o som das rodas duma bicicleta rolando na

estrada. Uma bicicleta! Quem seria, a uma hora daquelas! Talvez fosse o polícia

da vila.

O David deixou-se ficar no escuro, escutando. Era um homem que

pedalava a bicicleta. O pequeno mal distinguia a sua silhueta, uma grande

sombra negra recortando-se na noite estrelada. Com grande surpresa ouviu o

homem desmontar e depois um ruído nas folhas da sebe, como se a bicicleta

tivesse aí ficado.

Depois alguém entrou no jardim, sem fazer barulho, dirigindo-se à janela

do escritório. O David ouviu bater nos vidros e a janela foi aberta com todo o

cuidado. Apareceu a cabeça do tio Alberto.

- Quem é? - perguntou ele em voz baixa. - É você, Elbur?

E de facto era! O David percebeu tratar-se do americano que visitara o seu

tio dois dias antes.

- Eu vou abrir-lhe a porta - disse a tia Clara. Mas o senhor já estava a saltar

pelo parapeito da janela!

O David foi para a cama, muito intrigado. Que estranho! Por que razão o

americano aparecia assim tão secretamente durante a noite? E por que motivo ia

de bicicleta e não no seu automóvel? O pequeno adormeceu pensando naquilo

tudo.

Não chegou a perceber se o americano se teria ido embora ou se a tia Clara

lhe arranjara uma cama no rés-do-chão. Na verdade, quando acordou na manhã

seguinte, chegou a pensar se não teria sido tudo um sonho.

- A pessoa que telefonou veio ontem à noite? - perguntou ele à tia Clara.

Ela fez um sinal afirmativo. - Veio, mas façam favor de não falar sobre o

caso. Não quero que se saiba. Já se foi embora.

- Era alguma coisa importante? - perguntou o David. - O Júlio ficou

convencido que era, quando atendeu o telefone.

- Realmente era uma coisa muito importante - respondeu a tia Clara. - Mas

não no sentido que vocês julgam. Não me perguntes nada por agora, David. E

não apareças à frente do tio. Ele está muito zangado esta manhã.

- Então qualquer coisa vai mal no trabalho que está a fazer - pensou o

David, indo avisar os outros.

- Parece uma coisa muito extraordinária - disse o Júlio. – Não faço ideia do

que seja.

Os pequenos mantiveram-se a distância do tio Alberto.

Ouviram-no resmungar com a tia Clara sobre qualquer coisa sem

importância, e bater com a tampa da secretária, como fazia sempre que estava

de mau génio, e por fim sentar-se para começar o seu trabalho da manhã.

A certa altura a Ana apareceu a correr, muito surpreendida.

- Ó Zé! Estive agora mesmo no nosso quarto e sabes o que vi? A tia Clara

armou uma cama de campanha a um canto, com cobertores e tudo! Fica tão mal

ao pé das outras camas, da tua e da minha!

- Então vem alguém cá para casa. Uma miúda ou uma senhora -- concluiu

o David. - Ah! ah! Espero que seja uma preceptora para ensinar a Ana e a Zé a

portarem-se como pequenas senhoras.

- Não sejas idiota - disse a Zé, surpreendida e zangada com a novidade. -

Vou perguntar à minha mãe o que se passa. Eu não quero ninguém no meu

quarto. Não quero!

Mas quando a pequena ia ter com a mãe, a porta do escritório abriu-se e o

seu pai gritou, chamando pela mulher.

- Clara! Diz aos pequenos que lhes quero falar. Diz-lhes que venham ao

meu escritório IMEDIATAMENTE!

- Meu Deus, parece zangado. Que teremos nós feito? – observou a Ana,

assustada.

Capítulo III

Notícias desagradáveis

Os quatro pequenos e o Tim desceram a escada de roldão. A mãe da Zé já

ia ter com eles para os chamar.

- Ah! estão aí - disse ela. - Com certeza ouviram o tio dizer para irem ao

escritório. Eu também vou. Mas não façam barulho. Bem me basta o que fez o

tio!

Aquilo era muito misterioso. Que teria a tia Clara que ver com o que se

passava? Entraram os cinco no escritório com o Tim e viram o tio Alberto em

pé, junto ao fogão, com um ar furioso, parecendo uma tempestade.

- Alberto, eu podia ter dito aos pequenos... - começou a tia Clara, calando-

se logo, ao ver o marido com uma cara tão carrancuda, tal qual a Zé em certas

ocasiões.

- Tenho uma coisa a dizer-lhes - começou ele. - Lembram-se daqueles dois

cientistas, meus amigos, que estão a fazer um trabalho comigo? Recordam-se do

americano?

- Muito bem responderam todos. - Deu-nos uma libra - disse a Ana.

O tio Alberto nem ouviu aquela observação. - Bem - continuou.

- Ele tem uma filha com um nome muito disparatado...

- Berta - disse a tia Clara.

- Não me interrompas! - exclamou o tio Alberto. - Sim, chama-se Berta.

Bem, o pai dela, o Elbur, foi avisado de que lhe vão raptar a filha.

- Porquê? - perguntou o Júlio, intrigado.

- Porque o pai dela conhece mais segredos acerca do nosso actual trabalho

do que qualquer outra pessoa - explicou o tio.

- E ele disse-me com toda a franqueza que se a pequena, a... não me

lembro do nome...

- Berta - disseram todos.

- Diz que se a Berta for raptada ele entregará todos os nossos cálculos para

reaver a filha - continuou o tio Alberto. - Ora! Que grande estupidez.! Quer

tornar-se um traidor! Como pode atrever-se a divulgar segredos tão

importantes só por causa duma miúda?

- Alberto, é a sua única filha e ele adora-a - observou a tia Clara. - Eu

sentiria o mesmo se fosse a Zé.

- As mulheres são sempre tolas e disparatadas - disse-lhe o marido com ar

desgostoso. - Ainda bem que não conheces nenhuns cálculos secretos senão

irias contá-los ao leiteiro!

Aquilo era tão ridículo que os pequenos começaram a rir. O tio Alberto

olhou para eles indignado.

- Este caso não é para rir. Para mim foi um grande choque ouvir um dos

cientistas mais eminentes do mundo dizer-me que revelaria todos os nossos

segredos ao inimigo se essa tal... essa tal...

- Berta - disseram todos ao mesmo tempo. - Se essa tal Berta fosse raptada

- continuou o tio Alberto. - Por isso pediu-me para ter aqui em casa durante três

semanas a... a Berta. Nessa altura, o nosso trabalho estará concluído e posto em

prática, e os nossos cálculos estarão em segurança.

Fez-se silêncio. Ninguém parecia satisfeito. A Zé estava com uma cara

furiosa. Por fim não pôde conter-se mais.

- Então a cama que está no nosso quarto é para ela! Oh, mãe, nós temos

que ficar, durante três semanas, apertadas no nosso quarto, sem nos podermos

mexer? É horrível!

- Desta vez concordo contigo, Zé - disse o tio Alberto. – Mas acho que tens

de te conformar. O Elbur ficou em tal estado por causa da ameaça de rapto, que

é impossível fazê-lo ver as coisas como elas são. É capaz de rasgar todos os

apontamentos e diagramas e queimá-los, caso não lhe façamos a vontade. E isso

significaria que não poderíamos continuar o nosso trabalho.

- Mas por que razão vem ela para aqui?- perguntou a Zé, firmemente. -

Por que a atira para cima de nós? Não tem parentes ou amigos que possam

tomar conta dela?

- Oh! Zé, não sejas tão egoísta - disse-lhe a mãe. – Parece que a Berta já não

tem mãe e acompanha o pai a toda a parte. Não têm parentes no nosso país nem

amigos de confiança. E o pai dela não a quer mandar para a América, pois foi

avisado pela polícia de que a podem seguir até lá, e ele não poderia

acompanhá-la nesta altura.

- Mas por que motivo nos escolheu ele a nós? - disse outra vez a Zé. - Ele

não sabe nada a nosso respeito!

- Bem - disse a tia Clara com um ligeiro sorriso. - Ele viu-os no outro dia e

gostou muito de vocês, especialmente de ti, Zé, ainda que eu não perceba a

razão. Prefere deixar a Berta com vocês quatro do que com qualquer outra

família.

A senhora depois calou-se, olhando para os quatro pequenos com uma

expressão cansada. O Júlio foi até junto da tia.

- Não se preocupe - disse ele. - Nós tomaremos conta da Berta! Não

pretendo fingir que estou contente por termos de passar as nossas últimas três

semanas de férias, tão preciosas, com uma miúda desconhecida. Mas

compreendo o que sente o pai dela. Está assustado por causa da filha e por

pensar que poderá desvendar os segredos se acontecer alguma coisa à pequena.

- Que maneira de proceder! - resmungou o tio Alberto. - Todo o trabalho

dos últimos dois anos! O homem deve estar maluco!

- Agora, Alberto, não penses mais nisso - disse a tia Clara. - Eu estou

satisfeita por receber a pequena. Também não gostava de que a Zé fosse raptada

e por isso compreendo-o perfeitamente. Tu nem darás pela presença da Berta.

Mais um não faz diferença.

- Isso dizes tu - resmungou o marido. - Seja como for, está resolvido.

- Quando vem ela? - perguntou o David. - Esta noite. De barco - informou

o tio Alberto. - Temos que pôr a Joana ao corrente do que se passa. Mas mais

ninguém. Compreendido, não é verdade?

- Sim - responderam os quatro pequenos ao mesmo tempo. Então o tio

Alberto sentou-se à sua secretária e os pequenos saíram, apressadamente, com a

tia Clara e o Tim.

- É uma maçada, e eu lamento muito - disse a tia Clara. – Mas acho que

não podemos fazer outra coisa.

- Aposto que o Tim a vai detestar - disse a Zé.

- Agora não comeces a tornar as coisas difíceis, Zé – observou o Júlio. - Já

todos concordámos em que não há outra coisa a fazer e por isso vamo-nos

esforçar por ver tudo pelo melhor lado.

- Eu não gosto de me esforçar por ver as coisas pelo melhor lado - disse a

Zé, obstinada.

- Bem - respondeu-lhe o David amigavelmente. - Eu, o Júlio e a Ana

podemos voltar para casa e levar a Berta connosco, se as coisas te desagradam

assim tanto. Não quero passar aqui três semanas se tencionas ficar amuada

durante todo o tempo.

- Está bem, não fico amuada - afirmou a Zé. - Estou só a descarregar o meu

mau génio. Tu bem sabes.

- É melhor não confiar em ti - disse o David rindo. - Olha, não estragues

este dia em que ainda estamos só os cinco.

Todos tentaram corajosamente divertir-se o mais possível e foram a remar

no barco da Zé até à Enseada das Lagostas. Resolveram não pescar, e tomaram

banho ao largo, na água verde-claro. O Tim não gostava de tomar banho ao

largo. Era muito fácil saltar do barco para a água, mas achava extremamente

difícil saltar para dentro dele outra vez!

A tia Clara arranjara-lhes mais um esplêndido almoço.

– Um almoço de primeira qualidade para compensar uma desilusão -

dissera ela, rindo. A Ana até lhe dera um abraço de agradecimento.

Haviam feito um grande alarido por terem de receber uma pessoa

desconhecida e só a tia Clara sentira verdadeira pena daquela miúda em perigo.

A comida era tanta que também chegou para o lanche e por isso os

pequenos só voltaram para casa no fim da tarde.

O mar estava tão calmo e azul que quase se via o fundo.

- Acham que a Berta já terá chegado? - perguntou a Zé, mencionando o

nome da pequena pela primeira vez, depois de terem saído pela manhã.

- Acho que não respondeu o Júlio. - O teu pai disse que ela chega esta

noite.

Deve vir de barco, durante a noite, para não ser vista.

- Ela naturalmente está muito assustada - disse a Ana. – Deve ser tão

desagradável obrigarem uma pessoa a refugiar-se junto de gente desconhecida,

num lugar também desconhecido. Eu detestava isso.

Chegaram à praia e puxaram o barco para a areia, ficando em lugar

seguro. Depois dirigiram-se ao Casal Kirrin. A tia Clara ao vê-los ficou muito

satisfeita.

- Vêm a boas horas para jantar - disse ela. - Se comeram tudo o que

levaram não devem ter muita vontade.

- Oh! eu estou cheio de apetite - respondeu o David, fingindo que farejava

o ar como o Tim tantas vezes fazia. - Tenho a impressão de que a tia Clara fez a

sua sopa de tomate!

- És bom adivinho - observou a tia Clara, rindo. - Eu queria fazer-vos uma

surpresa! Agora vão lavar-se, para jantarem.

- A Berta ainda não veio, pois não? - perguntou o Júlio.

- Ainda não - respondeu a tia. - Temos que descobrir outro nome para ela,

Júlio. Agora não devemos tratá-la por Berta.

O tio Alberto não apareceu para jantar.

- Ele janta no escritório - explicou a tia Clara.

Todos deram um suspiro de alívio. Ninguém tinha vontade de falar com o

tio Alberto naquela noite. Ele levava muito tempo a conformar-se com qualquer

contrariedade!

- Que queimados estão vocês! - disse a tia Clara olhando para os

pequenos. - Zé, a pele do teu nariz está a cair.

- É verdade - respondeu a Zé. - Não gosto nada. Meu Deus! Estou cheia de

sono!

- Vocês vão deitar-se assim que acabarem de comer - disse a tia.

- Isso queria eu. Mas então a Berta? - lembrou a Zé. - A que horas chega?

Parece mal estar deitada quando ela vier.

- Eu não sei a que horas chegará - disse-lhe a mãe. - Mas só eu espero por

ela. Não é preciso mais ninguém. A pequena deve chegar exausta e assustada.

Dou-lhe alguma coisa de comer, um prato de sopa de tomate, se vocês deixarem

alguma, e depois meto-a na cama. Tenho a impressão de que ela ficará mais

satisfeita se não encontrar nenhum de vocês esta noite.

- Está bem, eu vou deitar-me - resolveu o David. - Ontem vi chegar o

senhor Elbur, já era muito tarde, não era? Esta noite quase não posso abrir os

olhos.

- Então vamos todos para a cama - concluiu o Júlio. – Podemos ler se não

conseguirmos dormir. Boa noite, tia Clara. Obrigado mais uma vez pelo almoço

que nos preparou!

Os quatro pequenos foram para o primeiro andar, dando grandes bocejos.

O Tim seguiu-os, vagarosamente, satisfeito por a Zé se ir deitar tão cedo.

Daí a dez minutos estavam todos a dormir. Os rapazes dormiram

profundamente até à manhã seguinte. As pequenas também adormeceram

depressa mas daí a quatro horas a Zé acordou ao ouvir o Tim rosnar. Sentou-se

logo na cama.

- Que foi? - perguntou ela. - Ah! é a Berta que chega, Tim! Vamos ficar

quietos para ver como ela é.

Daí a um minuto o Tim rosnou outra vez. A Zé ouviu o ruído de passos na

escada. Depois a porta do quarto abriu-se suavemente e apareceram duas

pessoas iluminadas pela luz do patamar. Uma era a tia Clara. A outra, claro

está, era a Berta.

Capítulo IV

A Berta

A Zé, sentada na cama, olhou fixamente para a Berta. Esta tinha naquela

altura um aspecto muito estranho. Estava toda embrulhada em casacos e mais

abafos e chorava tanto que a sua cara estava cheia de lágrimas.

A Ana não acordara. O Tim ficou tão admirado que, como a Zé, limitou-se

a sentar, olhando também para a Berta com atenção.

- O Tim que não faça barulho - murmurou a mãe da Zé, receando que o

cão começasse a ladrar. A Zé pôs uma mão sobre a coleira do Tim.

A senhora empurrou suavemente a Berta para dentro do quarto.

- A pequena enjoou na viagem de barco - disse ela à Zé. – Está cheia de

medo e muito aflita. Quero que ela se deite o mais depressa possível.

A Berta continuava a soluçar mas foi acalmando à medida que se sentia

menos enjoada. A mãe da Zé era tão carinhosa que a pequena ficou logo mais

satisfeita.

- Tira essas coisas - disse a mãe da Zé à Berta. - Meu Deus, trazes tanta

roupa vestida! Mas foi bom vires assim agasalhada, se vieste num barco aberto.

- Como devo tratar a senhora? - perguntou Berta, com um último soluço.

- Acho melhor tratares-me por tia Clara, como os outros - respondeu a

mãe da Zé. - Sabes por que vieste passar uma temporada connosco, não é

verdade?

- Sei sim - respondeu a Berta. - Eu não queria vir. Queria ficar com o meu

pai. Não tenho medo de ser raptada. A Nina toma conta de mim.

- Quem é a Nina? - perguntou a tia Clara, despindo os casacos à pequena.

- É a minha cadelinha - respondeu a Berta. - Ficou lá em baixo, no cesto em

que a trouxe.

A Zé ficou alerta ao ouvir aquilo!

- Uma cadelinha! – exclamou ela. - Nós não podemos ter aqui uma cadela!

O meu cão não o permitiria. Não é verdade, Tim?

O Tim ganiu ligeiramente. Estava a seguir com o maior interesse aquela

visita nocturna. Quem seria? Apetecia-lhe saltar da cama e ir cheirar a Berta,

mas a Zé continuava a segurá-lo pela coleira.

- Bem, eu trouxe a minha cadelinha e ela agora tem de ficar aqui - disse a

Berta. - O barco já se foi embora. E além disso eu não viria para aqui sem a

Nina. Foi o meu pai que me deu autorização para a trazer.

- Oh! mãe, explique-lhe como o Tim é feroz e capaz de atacar outro cão

que venha para aqui - pediu a Zé. - Eu não quero ter em Kirrin mais um cão,

seja de quem for.

Com grande contrariedade da Zé, a sua mãe não deu a menor importância

ao que ela dissera. Continuou ajudando a Berta a despir os seus casacos,

camisolas, saias e sabe Deus que mais.

A Zé nem podia acreditar que alguém conseguisse vestir toda aquela

roupa numa noite de Verão.

Por fim a Berta ficou só com uma camisola e uma saia, era uma pequenita

airosa, com grandes olhos azuis e cabelo loiro e ondulado. A tia Clara puxou-

lhe o cabelo para trás e limpou-lhe as lágrimas com um lenço.

- Obrigada - disse a pequena. - Agora posso ir buscar a Nina, a minha

cadelinha?

- Esta noite não - respondeu a tia Clara. - Bem vês, tu vais dormir naquela

cama de campanha, ali ao canto, e eu não posso trazer a tua cadelinha sem a

apresentarmos primeiro ao Tim, com todo o cuidado, para ele não a morder.

Agora não são horas para nos preocuparmos com isso. Queres uma sopa de

tomate e bolachas?

- Sim, se faz favor. Estou com bastante apetite - disse a Berta. - Enjoei tanto

no barco que não devo ter nada no estômago.

- Então vai lavar-te à casa de banho e veste o teu pijama - disse a tia Clara.

- Depois deita-te na tua cama que eu vou buscar a sopa.

Mas ao ver o ar carrancudo da Zé, a senhora mudou de ideias. Era

preferível não deixar logo na primeira noite a pobre Berta sozinha com uma Zé

irritada.

- Acho melhor não ir eu buscar a sopa - disse ela. - ó Zé, vai tu buscá-la,

sim? Está a aquecer no fogão. Deixei em cima da mesa a tigela e as bolachas.

A Zé levantou-se, sem dizer palavra. Ao ver a Berta tirar uma camisa de

dormir de dentro da sua mala, cerrou os lábios com força.

- Nem sequer usa pijamas - pensou ela. - Que parva! E teve o

descaramento de trazer uma cadela! Onde estará? Vou espreitá-la.

Mas a mãe adivinhou-lhe o pensamento e saiu do quarto atrás dela.

- Zé! - chamou a senhora. - Não quero que abras o cesto da cadelinha. Não

desejo assistir esta noite a lutas entre cães. Antes de me deitar vou pô-la no canil do Tim.

A Zé desceu sem dizer nada. A sopa estava quase a ferver e a pequena

tirou-a logo do fogão. Depois deitou-a na tigela que pôs sobre um pires com

umas bolachas à volta. De repente voltou-se, ao ouvir uma espécie de choro.

Este vinha dum grande cesto que estava a um canto. A Zé sentiu um grande

desejo de ir abri-lo mas sabia perfeitamente que se a cadelinha fugisse e fosse

ter com a sua dona o Tim acordava toda a gente a ladrar! Não valia a pena

correr o risco.

Então levou a sopa para cima. A Berta já se havia deitado e parecia muito

mais animada. A Ana continuava calmamente a dormir sem dar por nada do

que se passava. O Tim saltara da cama da Zé e fora examinar de perto a recém-

chegada. Cheirou-a delicadamente e a Berta estendeu a mão fazendo-lhe festas

na cabeça.

- Que olhos tão bonitos ele tem - disse a Berta. - Mas não é um cão de raça.

- Não digas isso à Zé - avisou a tia Clara. - Ela gosta muito do Tim. Agora

sentes-te melhor? Espero que te dês bem connosco, Berta. Eu sei que tu não

querias vir, mas o teu pai estava tão preocupado! E é melhor conheceres a Ana e

a Maria José antes de ires para o colégio delas, no próximo período.

- A Maria José é a que tratam por Zé? - perguntou a Berta surpreendida.

Eu não tinha a certeza se era um rapaz ou não. O meu pai disse-me que havia

aqui três rapazes e uma rapariga, e a rapariga está a dormir naquela cama, não

está?

A pequena apontou para a Ana. A tia Clara fez um sinal afirmativo.

- Sim, aquela é a Ana. O teu pai julgou que a Zé era um rapaz e por isso te

disse que tinha visto uma única rapariga. Os dois rapazes estão no quarto aqui

ao lado.

- Eu não gosto muito da Zé - confessou a Berta. - Ela não me quer aqui,

nem a mim nem à minha cadelinha.

- Tu hás-de gostar muito da Zé, quando a conheceres melhor - afirmou a

tia Clara. - Aí vem ela com a sopa.

A Zé entrou no quarto e não ficou nada satisfeita ao ver o Tim junto da

cama de campanha e a Berta a fazer-lhe festas. Pousou a sopa com modos

bruscos e puxou pelo Tim.

- Obrigada - disse a Berta pegando avidamente na tigela. – Que sopa tão

boa!

A Zé meteu-se na cama, voltando-se para o outro lado. Sabia que não se

estava a portar bem mas achava insuportável a ideia de alguém trazer outro cão

para o Casal Kirrin.

O Tim saltou para a cama da Zé deitando-se sobre os pés da pequena. A

Berta fez um ar de aprovação.

- Amanhã a Nina ficará também em cima dos meus pés! – disse ela. - É

uma óptima ideia. O «pápi» - é o meu pai - deixa a Nina ficar sempre no meu

quarto, mas deita-se num cesto e não na minha cama. Amanhã à noite há-de

dormir aos meus pés, como o Tim faz com a Zé.

- Nem penses nisso - disse a Zé numa voz zangada. – Nenhum cão, a não

ser o Tim, dormirá no meu quarto.

- Agora calem-se - ordenou a tia Clara. - Poderemos combinar tudo

amanhã quando vocês não estiverem tão cansadas. Eu prometo esta noite tratar

da Nina. Deitem-se para baixo e durmam.

A Berta sentiu-se de repente cheia de sono e acomodou-se para dormir.

Tinha os olhos a fecharem-se mas fazia tudo para os manter abertos e olhar para

a mãe da Zé.

- Boa noite, tia Clara - disse ela. - É assim que devo tratá-la, não é?

Obrigada por ser tão amável comigo.

A pequena adormeceu mal acabou a frase.

A tia Clara pegou na tigela da sopa e dirigiu-se para a porta.

- Estás acordada, Zé? - perguntou ela.

A Zé nem se mexeu. Bem sabia que a mãe não estava nada satisfeita com o

seu procedimento. Por isso achou melhor fingir que dormia profundamente.

- Tenho a certeza de que estás acordada - disse-lhe a mãe. - Espero que

estejas envergonhada de ti própria. Vamos ver se amanhã de manhã procedes

doutra maneira. É uma pena que te portes como uma autêntica criancinha!

Depois saiu do quarto, fechando a porta suavemente. A Zé estendeu a

mão para o Tim. Estava realmente envergonhada, mas não sabia se no dia

seguinte de manhã se portaria melhor.

Aquela estúpida miúda! Tinha a certeza de que a cadelinha era tão

estúpida como a dona! E o Tim havia de detestar ter outro cão em casa! Com

certeza começaria a rosnar e a uivar de tal maneira que a Berta não teria outro

remédio senão mandar a sua cadela embora.

- E mais - murmurou a Zé enquanto o Tim lhe lambia os dedos, com

amizade. - Tu não queres cá em casa um outro cão nem outra miúda, pois não,

Tim? Especialmente uma menina como aquela!

A tia Clara foi buscar a cadelinha de Berta e pô-la no canil do Tim, lá fora.

O canil tinha uma pequena porta que se podia fechar e assim a cadelinha ficou

em segurança, sendo impossível fugir.

Depois a tia Clara voltou para casa, arrumou as coisas da Berta, que

tinham sido atiradas ao acaso pela sala, e fechou a luz.

Subiu as escadas e deitou-se. O tio Alberto dormia profundamente quando

a Berta chegara. Embora estivesse convencido de que acordaria para ir receber a

pequena com a tia Clara, nem sequer se mexeu.

A boa senhora ficara satisfeita. Era muito mais fácil tratar sozinha daquela

pequena enjoada e cheia de medo. Quando se deitou deu um grande suspiro.

- Meu Deus, nem quero pensar no que irá passar-se amanhã de manhã!

Que acontecerá com a Zé tão cheia de génio e os dois cães à solta? A Berta

parece ser boa pequena. Bem, talvez as coisas se resolvam melhor do que eu

espero.

Mas as coisas não se resolveriam com grande facilidade na manhã

seguinte. Isso era absolutamente certo!

Capítulo V

Na manhã seguinte

A Zé foi a primeira a acordar na manhã do dia seguinte.

Lembrou-se logo dos acontecimentos da noite anterior e olhou para a

Berta que estava deitada na cama de campanha. A pequena dormia

profundamente com os cabelos louros espalhados pelo travesseiro.

A Zé debruçou-se sobre a cama da Ana e abanou-a com força.

A Ana acordou, olhando ensonada para a prima.

- Que foi, Zé? São horas de nos levantarmos?

- Olha para ali - murmurou a Zé, fazendo um sinal com a cabeça na

direcção da cama da Berta. A Ana voltou-se e olhou. Ao contrário da Zé, ela

gostou do aspecto da Berta. A pequenita adormecida tinha uma expressão doce

e agradável.

- Ela tem bom ar - murmurou a Ana. A Zé franziu logo a testa.

- Soluçava como sei lá o quê quando chegou - disse a Zé. – É um autêntico

bebé. E trouxe uma cadela!

- Meu Deus, o Tim não vai gostar disso! disse a Ana, aterrada.

- Onde está ela?

- Está no canil do Tim - respondeu a Zé, ainda em voz baixa. - Não a vi.

Estava metida num cesto, mas eu não me atrevi a abri-lo, receando que fugisse

pelas escadas acima e brigasse com o Tim. Mas não deve ser muito grande.

Estou convencida de que é um horrível pequinês ou alguma estúpida cadela

mimada.

- Os pequineses não são horríveis - disse a Ana. – Serão pequenos e terão

uns narizes achatados muito ridículos, mas são bem valentes. Outro cão cá em

casa! Nem quero pensar no que fará o Tim!

- É uma pena que a Berta não seja do nosso género - disse a Zé. - Olha para

a cara dela, vê-se logo que nunca apanha sol. Parece uma planta de estufa, não

achas? Tenho a certeza de que não é capaz de trepar a uma árvore, ou remar, ou

de...

- Chiu! Ela está a acordar - avisou a Ana. A Berta bocejou e espreguiçou-se.

Depois abriu os olhos, olhando à sua volta. Ao princípio não fazia ideia de onde

se encontrava mas depois lembrou-se e sentou-se logo na cama.

- Olá! - disse a Ana sorrindo para ela. - Não estavas aqui ontem quando

me deitei. Fiquei admirada por te ver esta manhã.

A Berta simpatizou logo com a Ana.

- Tem um olhar agradável - pensou ela. - Não é como a outra. Desta gosto!

Sorriu também para a Ana.

- Eu cheguei a meio da noite – disse ela. - Vim num barco a motor e o mar

estava tão agitado que fiquei enjoada. O meu pai não veio mas um amigo dele

acompanhou-me e trouxe-me ao colo para o Casal Kirrin. Até as minhas pernas

se sentiam enjoadas!

- Pouca sorte! - disse a Ana. - Assim não gozaste a aventura!

- Pois não. Mas eu passo bem sem aventuras! - respondeu a Berta. - Não

me agradam nada. Especialmente quando o «pápi» fica todo nervoso e muito

preocupado por minha causa. Ele começa logo a andar à minha volta. Pobre

«pápi»! Nem quero pensar que estou longe dele.

A Zé prestava atenção à conversa. A pequena não apreciava aventuras!

Claro que uma miúda como a Berta não podia gostar de aventuras!

- Eu também não me entendo com aventuras - declarou a Ana. - Nós já

tivemos muitas. Por mim prefiro-as depois de terminadas!

A Zé explodiu.

- Oh! Ana! Como podes tu falar assim! Temos passado por algumas

aventuras fantásticas e em todas nos temos divertido. Dá-me vontade de não te

deixar entrar na próxima.

A Ana riu.

- Tu não consegues! As aventuras aparecem de repente, como as nuvens

no céu, e nós vemo-nos metidos nelas quer gostemos quer não. E tu bem sabes

que me agrada participar em tudo com vocês. Mudando de assunto, não são

horas de nos levantarmos?

- São - respondeu a Zé, olhando para o relógio que estava em cima do

fogão de parede. - A não ser que a Berta queira o pequeno almoço na cama.

Naturalmente em casa dela é assim que faz.

- Não, não é. Eu detesto tomar as refeições na cama - disse a Berta. - Vou-

me levantar.

A pequena saltou da cama e dirigiu-se à janela. Viu logo a grande baía,

brilhando ao sol da manhã, com um lindo tom de azul. O brilho da água do mar

reflectia-se no quarto das pequenas, que ficava por isso muito claro.

- Oh! eu não descobria por que razão o nosso quarto tinha tanta luz - disse

a Berta. - Agora percebo! Que vista maravilhosa! Está tão bonito o mar esta

manhã! Aquela ilhazita ao largo o que é? Parece tão bonita.

- É a ilha Kirrin - respondeu a Zé orgulhosamente. - É minha!

A Berta riu-se, pensando que a Zé estava a brincar.

- É tua!?... Aposto que gostavas! Ela é na verdade «formidábel»!

- «Formidábel» - disse a Zé, imitando-a. - Não és capaz de dizer

«formidável»? Tem um v em vez dum b, bem sabes!

- Pois sei. Em minha casa estão sempre a dizer-me essas coisas - respondeu

a Berta, continuando a olhar fixamente pela janela. - Tive uma preceptora

inglesa que passava o tempo a corrigir-me. Quem me dera que aquela ilha fosse

minha! Gostava de saber se o meu «pápi» a poderá comprar.

A Zé explodiu outra vez.

- Comprá-la! Eu não te disse já que ela é minha?

A Berta voltou-se, surpreendida.

- Mas tu não falavas a sério, pois não? - disse ela. - Tua? Mas como pode

ser tua?

- A ilha é realmente da Zé - explicou a Ana. – Sempre pertenceu à família

da mãe dela. É a ilha Kirrin. O pai da Zé deu-lha depois duma aventura que nós

ali tivemos.

A Berta olhou para a Zé cheia de respeito.

- Então é tua! Já é ter sorte! Levas-me a visitá-la?

- Veremos - disse a Zé bruscamente, sentindo-se feliz por ter

impressionado tanto aquela miúda americana. Naturalmente queria levar o seu

«pápi» para comprar a ilha!

Riu-se para consigo. Ouviram chamar do quarto ao lado. Era o Júlio.

- Eh, meninas! Já se levantaram? Estamos muito atrasados para tomar

banho antes do pequeno almoço. Eu e o David ainda agora acordámos.

- Está aqui a Berta! - respondeu a Ana. - Vamo-nos todos vestir e depois

nós apresentamo-vos a Berta.

- São teus irmãos? - perguntou a Berta, vestindo-se. - Eu sou filha única.

Vou ter medo deles.

- Tu não vais ter medo do Júlio e do David - afirmou a Ana. - Também

gostarias de ter irmãos como eles. Não achas, Zé?

- Acho - disse secamente a Zé, que se sentia muito aborrecida por ver que

o Tim estivera sempre ao pé da Berta, com a cauda a dar a dar. - Anda cá, Tim.

Não sejas maçador.

- Oh, ele não maça nada - disse a Berta fazendo-lhe festas na cabeça. - Eu

gosto dele. Comparado com a minha Nina acho-o ENORME. Mas tu vais gostar

da Nina, Zé, tenho a certeza. Todos a acham encantadora e eu ensinei-a muito

bem.

A Zé não ligou importância àquelas palavras. Vestiu uns calções e foi-se

lavar no quarto de banho. O Júlio e o David estavam lá dentro e ouve uma

grande gritaria quando a Zé tentou obrigá-los a apressarem-se e a saírem. A

Berta riu-se.

- Isto é tão agradável e tem um aspecto tão familiar - observou ela. - Vocês

não teriam este género de brincadeiras se não fossem mais do que um. Que

devo vestir aqui?

- Qualquer coisa muito simples - respondeu Ana olhando para a mala que

estava aberta, deixando ver a roupa da pequena. - Este vestido de algodão

serve.

Ficaram prontos precisamente quando tocou para o pequeno almoço.

Espalhava-se pela casa um delicioso cheiro a toucinho frito com tomates, que a

Berta aspirou deliciada.

- Eu gosto dos pequenos almoços ingleses - disse ela. – Na América ainda

não arranjámos um pequeno almoço característico. Este cheiro é de toucinho

com tomates, não é? A minha preceptora inglesa sempre me disse que toucinho

com ovos é o melhor almoço do mundo. E eu também tenho a impressão de que

este deve saber muito bem.

O tio Alberto estava à mesa quando os pequenos chegaram. Olhou muito

surpreendido para a Berta, sem se lembrar de nada.

- Quem é? - perguntou ele.

- Oh! Alberto, não finjas que não sabes! - exclamou a tia Clara. - É a filha

do Elbur, do teu amigo Elbur. Chegou a meio da noite mas eu não te acordei,

pois estavas a dormir profundamente.

- Ah!. é verdade! - disse o tio Alberto apertando a mão à assustada Berta. -

Tenho muito prazer em te ver aqui... Como te chamas?

- Berta - responderam todos em coro.

- É verdade, é verdade, Berta. Senta-te. Eu conheço o teu pai muito bem.

Está a fazer um trabalho esplêndido.

A cara de Berta alegrou-se logo.

- Ele está sempre a trabalhar! - disse ela. - Às vezes trabalha toda a noite.

- Sim? Que ideia! - exclamou o tio Alberto.

- É uma coisa que tu fazes muitas vezes, Alberto - disse a tia Clara,

servindo o café. - Mas naturalmente nem dás por isso.

O tio Alberto ficou muito admirado.

- Ah! sim? Meu Deus! Então há noites em que me não deito?

A Berta deu uma gargalhada.

- O senhor é como o meu «pápi»! Ás vezes nem mesmo sabe em que dia

da semana está! Contudo é considerado um dos homens mais inteligentes do

mundo.

Mas o tio Alberto já não lhe prestava atenção. Tinha visto de repente na

bandeja da correspondência uma carta marcada «importante» e pegara logo

nela.

- Ou me engano muito ou esta carta é do teu pai - disse ele à Berta. -

Vamos lá ver o que ele diz.

Abriu a carta e leu para si. Depois olhou para os pequenos. - É a respeito

da... da...

- Ela chama-se Berta - disse a tia Clara pacientemente.

- É a teu respeito, Berta - concluiu o tio Alberto - Mas devo dizer-te que o

teu pai tem umas ideias muito estranhas. Sim, muito estranhas.

- Que ideias são? - perguntou a tia Clara.

- Diz que ela deve disfarçar-se pois pode vir alguém persegui-la -

respondeu o tio Alberto. - Quer que mude de nome e, valha-nos Deus, que se

vista de rapaz e corte o cabelo!

Todos ficaram surpreendidos. A Berta gritou logo:

- Não quero. EU NÃO QUERO VESTIR-ME COMO UM RAPAZ! Eu não

quero cortar o cabelo. Nem pensem nisso! EU NÃO QUERO!

Capítulo VI

Uma série de contrariedades

A Berta parecia tão desolada que a tia Clara resolveu logo intervir com

firmeza.

- Não te preocupes agora com a carta, Alberto - disse ela. - Depois

decidimos o que devemos fazer. Vamos tomar o pequeno almoço em paz e

sossego,

- Eu não quero cortar o cabelo - repetiu a Berta. O tio Alberto franziu a

testa pois não estava habituado a ser contrariado assim tão abertamente. Depois

olhou para a tia Clara.

- Com certeza que não vais deixar que a... a... como se chama ela?

- Berta - responderam todos automaticamente.

- Eu já disse que não discutimos esse assunto senão depois do pequeno

almoço - declarou a tia Clara num tom de voz que não deixava dúvidas nem

sequer ao tio Alberto. Este, franzindo a testa, dobrou a carta e abriu a seguinte.

Os pequenos entreolharam-se.

A Berta transformada num- rapaz! Santo Deus! Ninguém se parecia menos

com um rapaz do que a Berta!

A Zé sentia-se muito contrariada. Gostava muito de se vestir como os

rapazes mas não lhe agradava nada que outras o fizessem! Olhou para a Berta,

que estava a comer com lágrimas nos olhos.

Um perfeito bebé! Nunca se pareceria com os rapazes ainda que se

vestisse como eles. Que cara de palerma tinha ela!

O Júlio começou a conversar com a sua tia acerca do jardim. A tia Clara

ficou-lhe agradecida por ter arranjado uma saída para a situação embaraçosa

causada pela carta. Gostava muito de Júlio.

- Posso ter sempre confiança nele - pensava ela enquanto ia conversando

alegremente acerca da fruta do jardim, discutindo quem apanharia os

medronhos para o almoço e se os lagartos comeriam todas as ameixas!

O David, a Ana e daí a pouco a Berta entraram também na conversa. Só a

Zé e o pai continuavam calados. Eram tão parecidos, com as suas expressões

muito carregadas, que o Júlio fez um sinal ao irmão.

O David riu.

- Tal pai, tal filha! - disse ele. - Alegra-te, Zé. Não gostas do pequeno

almoço?

A Zé ia dar-lhe uma resposta mal-humorada quando a Ana soltou uma

exclamação.

- Olhem para o tio Alberto! Está a pôr mostarda na torrada! Tia Clara,

agarre-lhe na mão! Ele vai comê-la!

Todos desataram às gargalhadas. A tia Clara conseguiu agarrar a mão do

tio Alberto precisamente na altura em que ele ia meter na boca a torrada com

mostarda, lendo uma carta ao mesmo tempo.

- Que foi? - perguntou ele admirado.

- Oh! Alberto, já é a segunda vez esta semana que tu pões nas torradas

mostarda em vez de compota - observou a tia Clara. - Presta um pouco de

atenção!

Depois disto ficaram todos muito bem dispostos. O tio Alberto riu-se de si

próprio e a Zé vendo o lado alegre do caso começou às gargalhadas. A Berta

também riu e o Tim desatou a ladrar. A tia Clara sentiu um grande alívio por o

seu marido ter feito uma coisa tão disparatada.

- Lembra-se daquela vez que o pai deitou leite-creme no peixe cozido? -

perguntou a Zé, falando pela primeira vez. E depois achou a melhor maionese

que tinha comido até então?

A conversa animou-se muito depois daquele episódio e a tia Clara sentiu-

se mais satisfeita. - Vocês três, meninas, tirem a loiça do pequeno almoço e

depois lavem-na, para ajudarem a Joana. Ou então fiquem duas aqui e outra

ajuda-me a fazer as camas.

- Que é feito da minha cadelinha? - perguntou a Berta de repente. - Eu

ainda não a vi porque acabei de me arranjar mesmo à hora do pequeno almoço.

Onde está ela?

- Podes ir buscá-la - disse a tia Clara. - Já temos tudo pronto. Tu vais

trabalhar, Alberto?

- Vou, sim - respondeu-lhe o marido. - Por isso não quero ouvir gritos nem

latidos ao pé do meu escritório.

Depois levantou-se e saiu da sala. Berta levantou-se também.

- Onde fica o canil? - perguntou ela.