Os dragões do Éden por Carl Sagan - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

OS DRAGÕES DO ÉDEN

CARL SAGAN

INTRODUÇÃO

Na boa oratória, não é necessário que a mente do orador conheça bem o assunto sobre o qual

ele vai discorrer?

PLATÃO Fredo

Não sei onde encontrar na literatura, antiga ou moderna, uma descrição adequada da natureza

com o qual estou acostumado. A mitologia é o que mais se aproxima.

HENRY DAVID THOREAU The Journal

Jacob Bronowski foi um dos integrantes de um pequeno grupo de homens e

mulheres que em todas as épocas consideraram todo o conhecimento humano – as artes

e ciências, a filosofia e a psicologia – interessante e acessível. Ele não se limitou a uma

única disciplina, mas abrangeu todo o panorama do aprendizado humano. O livro e a

série na televisão, A escalada do Homem, representam excelente material didático e

magnífica exposição; constituem de certa forma um relato de como os seres humanos e

o cérebro humano evoluíram juntos.

Seu último capítulo/episódio, chamado “A Longa Infância” , descreve o

extenso período de tempo – mas longo em relação à duração de nossas vidas do que

qualquer outra espécie – no qual os seres humanos mais jovens dependem dos adultos e

exibem imensa plasticidade, ou seja, a capacidade de adquirir conhecimento a partir do

seu ambiente e de sua cultura. A maior parte dos organismos terrestres depende de sua

informação genética que é “preestabelecida” no sistema nervoso em intensidade muito

maior do que a informação extragenética, que é adquirida durante toda a vida. No caso

dos seres humanos, e na verdade no caso de todos os mamíferos, ocorre exatamente o

oposto. Embora nosso comportamento seja ainda bastante controlado pela herança

genética, temos, através de nosso cérebro, uma oportunidade muito mais de trilhar

novos caminhos comportamentais e culturais em pequena escala de tempo. Fizemos

uma espécie de barganha com a natureza: nossos filhos serão difíceis de criar, mas em

compensação, sua capacidade de adquirir novo aprendizado aumentará sobremaneira as

probabilidades de sobrevivência da espécie humana. Além disso, os seres humanos

descobriram nos últimos milênios de nossa existência não apenas o conhecimento

extragenético, mas também o extra-somático: informação armazenada fora de nossos

corpos, da qual a escrita é o exemplo mais notável.

A escala de tempo para a transformação evolutiva ou genética é muito longa.

O período característico para a emergência de uma espécie adiantada a partir de outra

talvez seja de 100 mil anos, e freqüentemente as diferenças de comportamento entre

espécies estreitamente relacionadas – digamos, leões e tigres – não parecem muito

grandes. Um exemplo da recente evolução dos sistemas orgânicos do homem é o dos

nossos dedos dos pés. O dedo grande desempenha importante função no equilíbrio da

marcha; os outros dedos têm utilidade muito menos evidente. Naturalmente que

evoluíram a partir de apêndices digitiformes próprios para a preensão e o balanço, como

ocorreu com os antropóides e macacos. Essa evolução constitui uma reespecialização –

a adaptação de um sistema orgânico, que evoluiu originalmente para desempenhar uma

função, a outra função inteiramente diversa – que precisou de mais ou menos 10

milhões de anos para surgir. (Os pés do gorila das montanhas sofreram evolução

semelhante, porém bastante independente).

Mas hoje não temos de esperar 10 milhões de anos para o próximo progresso.

Vivemos numa época em que nosso mundo se transforma em velocidade sem

precedentes. Embora essas transformações sejam feitas em grande parte por nós

mesmos, não podemos ignorá-las. Temos de adaptar, ajustar e controlar, caso contrário

pereceremos.

Somente um sistema de aprendizado extragenético poderia, talvez, fazer frente

às circunstâncias em rápida mutação com as quais nossa espécie se defronta. Por

conseguinte, a rápida e recente evolução da inteligência humana não é apenas a causa,

mas também a única solução concebível para os problemas mais sérios que nos afligem.

Uma melhor compreensão da natureza e da evolução da inteligência humana pode

possivelmente ajudar-nos a encarar de forma inteligente nosso futuro desconhecido e

perigoso.

Estou interessado na evolução da inteligência também por outro motivo.

Temos agora sob nosso comando, pela primeira vez na história, uma poderosa arma – o

grande radiotelescópio – capaz de estabelecer comunicação através de imensas

distâncias interestelares. Estamos apenas começando a utilizá-lo, ainda de forma

hesitante e incipiente, mas em ritmo cada vez mais acelerado para determinar se outras

civilizações em mundos incrivelmente distantes e exóticos estão nos enviando

mensagens de rádio. Tanto a existência dessas outras civilizações quanto a natureza das

mensagens que podem estar enviando dependem da universalidade do processo de

evolução da inteligência que ocorrer na Terra. Possivelmente, algumas pistas ou

enfoques úteis na indagação a respeito da inteligência extraterrestre possam derivar de

uma investigação da evolução da inteligência terrestre.

Fiquei satisfeito e honrado em levar a primeira Conferência sobre Filosofia

Natural de Jacob Bronowski, em novembro de 1975, à Universidade de Toronto. Ao

escrever este livro, expandiu-se substancialmente o âmbito daquela conferência e recebi

em troca uma estimulante oportunidade de conhecer algo acerca de assuntos aos quais

nunca me dediquei em profundidade. Achei irresistível a tentação de sintetizar algo do

que aprendi em um quadro coerente e apresentar algumas hipóteses sobre a natureza e a

evolução da inteligência humana que podem ser inéditas ou que, pelo menos, ainda não

foram amplamente discutidas.

O assunto é difícil. Embora eu possua uma formação experimental em

biologia, e tenha trabalhado durante muitos anos com a origem e a evolução inicial da

vida, obtive pouca formação, em, por exemplo, anatomia e fisiologia cerebral. Em vista

disso, apresento os conceitos que se seguem com razoável grau de apreensão; sei muito

bem que muitos deles são especulativos e que só podem e que só podem ser aceitos ou

rejeitados à luz da experiência. Na pior das hipóteses, esta pesquisa me proporcionou a

oportunidade de penetrar em um assunto palpitante; talvez minhas observações

estimulem outros a aprofundaram-se ainda mais.

O grande princípio da biologia – aquele que, até onde sabemos, distingue as

ciências biológicas das ciências físicas – é a evolução da seleção natural, a brilhante

descoberta de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace em meados do século XIX.

Graças à seleção natural, a sobrevivência preferencial e à replicação de organismos que

por acaso se adaptam melhor ao ambiente é que surgiram a elegância e a beleza de

formas de vida contemporâneas. O desenvolvimento de um sistema orgânico tão

complexo quanto o cérebro deve ligar-se intrinsecamente aos primórdios da história da

vida, seus surtos, crises e becos sem saída, a tortuosa adaptação de organismos a

condições em permanente transformação, expondo novamente uma forma de vida,

outrora sumamente adaptada, ao risco de extinção. A evolução é fortuita e não-

planejada. Somente graças à morte de um imenso número de organismos ligeiramente

mal-adaptados é que, com cérebro e tudo, estamos aqui hoje.

A biologia assemelha-se mais à história do que à física; os acidentes, os erros e

circunstâncias felizes do passado determinam poderosamente o presente. Ao abordamos

problemas biológicos tão difíceis, quais sejam a natureza e a evolução da inteligência

humana, parece-me pelo menos prudente conferir razoável peso aos argumentos

derivados da evolução do cérebro.

Minha premissa fundamental acerca do cérebro é que suas atividades – aquilo

que às vezes chamamos de “mente” – representam uma conseqüência de sua anatomia e

de sua fisiologia e nada mais. A “mente” pode ser uma conseqüência de ação dos

componentes do cérebro de forma individual ou coletiva. Alguns processos podem

constituir uma função do cérebro como um todo. Alguns estudiosos do assunto parecem

ter concluído que, em virtude de não conseguirem isolar e localizar todas as funções

cerebrais superiores, nenhuma geração futura de neuranatomistas será capaz de alcançar

esse objetivo. Mas a ausência de provas não prova a ausência. Toda a história recente da

biologia mostra que somos, até certo ponto, resultado das interações com arranjo

extremamente complexo de moléculas; o aspecto da biologia outrora considerado seu

segredo mais recôndito, a natureza do material genético, agora foi fundamentalmente

compreendido em termos de química dos seus ácidos nucléicos constituintes, ADN e

ARN, e seus agentes operacionais, as proteínas. Existem muitos exemplos na ciência, e

particularmente na biologia, onde aqueles indivíduos mais próximos da complexidade

do assunto possuem um sentido mais desenvolvido (e, em última análise, errôneo) da

incapacidade de abordá-lo do que aqueles mais afastados. Por outro lado, aqueles muito

distantes podem, estou bem convicto, confundir ignorância com perspectiva. De

qualquer forma, tanto pela clara tendência para apóiá-la, não sustentarei nestas páginas

quaisquer hipóteses sobre aquilo que costumavam chamar de dualismo mente-corpo, a

idéia de que, habitando a matéria orgânica, existe algo de natureza um tanto diversa

denominado mente.

Parte do deleite proporcionado por este assunto vem de seu contato com todas

as áreas do interesse humano, particularmente com a possível interação entre os

panoramas obtidos a partir da fisiologia cerebral e a introspecção humana. Há,

felizmente, uma longa história dessa ultima, e nos tempos primordiais, as mais ricas,

intricadas e profundas eram chamadas mitos. “Mitos”, declarou Salustius no século IV,

“são coisas que nunca aconteceram mas que sempre existiram”. Nos diálogos de Platão

e em A República, toda vez que Sócrates faz alusão a um mito – a parábola da caverna,

para citar o exemplo mais famoso – sabemos que chegamos a algo central.

Não estou empregando aqui a palavra “mito” com seu significado popular de

algo amplamente aceito e contrário à realidade, mas em seu sentido anterior, como uma

metáfora de alguma sutiliza sobre um assunto difícil de descrever de outra maneira. Em

vista disso, entremeei na exposição de páginas seguintes eventuais excursões aos mitos

antigos e modernos. O próprio título do livro decorre da inesperada confluência de

vários mitos diferentes, tradicionais e contemporâneos.

Muito embora eu deseje que algumas de minhas conclusões tenha interesse

para aqueles que se dedicam profissionalmente ao estudo da inteligência humana,

escrevi esse livro para os leigos interessados. O Capítulo II apresenta argumentos de

dificuldade um tanto maior que o restante desta pesquisa, mas mesmo assim, espero, é

acessível, bastando um pequeno esforço. Daí por diante a leitura do livro corre fácil.

Termos técnicos ocasionais geralmente são definidos quando usados pela primeira vez e

encontram-se reunidos no glossário. As ilustrações e o glossário constituem reforços

adicionais para ajudar aqueles que não possuem formação cientifica prévia, embora

compreender meus argumentos e concordar com eles não sejam, suponho, a mesma

coisa.

Em 1754, Jean Jacques Rousseau, no parágrafo inicial de sua Dissertação

Sobre a Origem e a Base da Desigualdade da Espécie Humana escreveu:

Importante quanto seja, a fim de formar juízo adequado do estado natural do homem,

considera-lo a partir de sua origem... não percorrerei sua organização através de desenvolvimento

sucessivos... Neste terreno eu não poderia formar senão conjecturas vagas e quase imaginárias. A

anatomia comparada ainda fez muito poucas descobertas e as observações dos naturalistas são por demais

incertas para constituírem base adequada para qualquer raciocínio sólido.

As precauções de Rousseau de mais de dois séculos atrás ainda são válidas.

Tem havido, porém, notável progresso na investigação tanto da anatomia comparada do

cérebro quando do comportamento animal e humano, o que ele, corretamente,

considerava fundamental para o problema. É possível que não seja prematuro hoje

tentar uma síntese preliminar.

CAPÍTULO 1

CALÉNDÁRIO CÓSMICO

O que foi que viste no sombrio passado e no abismo do tempo?

WILLIAM SHAKESPEARE A Tempestade

O mundo é muito velho e os seres humanos, muito recentes. Os

acontecimentos importantes em nossas vidas pessoais são medidos em anos ou em

unidades ainda menores; nossa vida, em décadas; nossa genealogia familiar, em séculos

e toda a história registrada, em milênios. Contudo, fomos precedidos por uma

apavorante perspectiva do tempo, estendendo-se a partir de períodos incrivelmente

longos do passado, a respeito dos quais pouco sabemos – tanto por não existirem

registros quanto pela real dificuldade de concebermos a imensidade dos intervalos

compreendidos.

Mesmo assim, somos capazes de localizar no tempo os acontecimentos do

passado remoto. A estratificação geológica e a marcação radiativa proporcionam

informação quanto aos eventos arqueológicos, paleontológicos e geológicos; a teoria

astrofísica fornece dados a respeito das idades das superfícies planetárias, das estrelas e

da galáxia da Via Láctea, assim como uma estimativa do tempo transcorrido desde a

Grande Explosão ( Big Bang) que envolveu toda a matéria e a energia do universo atual.

Essa explosão pode representar o início do universo ou pode constituir uma

descontinuidade na qual a informação da história primitiva do universo foi destruída.

Esse é certamente o acontecimento mais remoto do qual temos qualquer registro.

O modo mais didático que conheço para expressar essa cronologia cósmica é

imaginar a vida de 15 bilhões de anos do universo (ou pelo menos sua forma atual desde

a Grande Explosão) condensada em um ano. Em vista disso, cada bilhão de anos da

história da Terra corresponderia a mais ou menos 24 dias de nosso ano cósmico, e um

segundo daquele ano a 475 revoluções reais da Terra ao redor do Sol. Nas páginas

seguintes, apresento a cronologia cósmica em três formas: uma lista de alguns períodos

representativos anteriores a dezembro, um calendário do mês de dezembro e uma visão

mais pormenorizada do final da noite da véspera do Ano Novo. Nessa escala, os

acontecimentos de nossos livros de história – mesmo aqueles que fazem razoável

esforço para desprovincializar o presente – são tão comprimidos que se toma necessário

fazer uma recontagem, segundo a segundo, dos últimos segundos do ano cósmico.

Mesmo então, encontramos exemplos classificados como contemporâneos que

aprendemos a considerar como amplamente separados no tempo. Na história da vida,

uma tapeçaria igualmente rica deve ter sido tecida em outros períodos – por exemplo,

entre 10h 02min e 10h 03min na manhã do dia 6 de abril ou 16 de setembro ou qualquer

outro dia. Contudo, só dispomos de registros pormenorizados dos últimos momentos do

ano cósmico.

A cronologia corresponde aos melhores indícios atualmente disponíveis. No

entanto, esta é bastante duvidosa. Ninguém se espantaria se, por exemplo, fosse

descoberto que as plantas colonizaram a terra Período Ordovociano em vez de fazê-lo

no Período Siluriano; ou que os vermes segmentados apareceram mais cedo no Período

Pré-Cambriano do que é indicado. Além disso, na cronologia dos 10 últimos segundos

do ano cósmico, foi-me evidentemente impossível incluir todos os acontecimentos

importantes: espero ser perdoado por não ter mencionado explicitamente os progressos

na arte, na música e na literatura, ou as revoluções americana, francesa, russa e chinesa,

importantes do ponto de vista histórico.