Os sonhos, Nicolas. por Paulo Vitor Grossi - Versão HTML

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I

Este eu achei muito estranho, diferente... Veio à parte dos

outros. Até acho melhor procurar um especialista, alguém que

saiba diagnosticar ou pelo menos dizer o significado dessa coisa tão

bizarra.

Foi uma noite comum, anterior a um dia comum,

estupidamente comum, como se sabe, daí eu tive um sonho. Vou

descrevê-lo pro senhor, vovô. Desculpa a franqueza e o tom. Lá

vai:

Havia uma casa; não, na verdade um prédio, cheio de janelas,

como um hotel que parecia ter saído dum filme, com madeira

mofada, ambientes cinza e várias dessas janelas quadradas e

vermelhas, com arbustos ressecados por todo lado. Tudo muito

velho e com aspecto degradante. Nele, tinha um tesouro, e esse era

guardado por um segredo que duas mulheres lindas queriam minha

ajuda pra desvendar e ficarem ricas – mas sem mim, claro. É

sempre assim, o senhor sabe. Elas me pediam pra pegar utensílios

estranhos que ajudariam a encaixar-se no enigma desse tesouro

desconhecido; coisas em árvores, aparelhos eletrônicos nos cantos

de um quintal, papéis, um controle remoto e outras coisas sem

nexo de que eu não me recordo.

Pois bem, depois de um intervalo sem coesão, consegui

despistá-las enquanto conversavam sem me ver e as tranquei num

cômodo de uma casa perto do prédio onde, de repente, esses

utensílios estavam. Tirei-os de lá rápido e deixei-as desesperadas

no local – sem o que queriam e presas. Então, reapareci no

comecinho do sonho. E lá, no prédio, havia um labirinto onde fui

deixado. Nesse labirinto me deram outro controle remoto, desta

vez de um jogo de videogame onde fui largado – eu controlava um

ratinho de brinquedo feito de papelão e pano cinza – acho que era

feltro, tipo esses que se vendem no camelô –, com olhinhos de

feijão vermelho e antenas pra guiar, e eu tinha que encaixar

pecinhas e abrir portinhas para outro jogo que, acho eu, tinha

relação com o tesouro. Mas aí apareceu um gato horroroso, negro e

com orelhas de morcego que queria matar o rato e,

consequentemente, à mim. Parecia um demônio defeituoso, trash.

O ratinho – eu! – merda! – usava uma pistola que atirava uma

água ácida que derretia as grades de umas passagens onde eu

achava umas saídas, mas, infelizmente, o gato sempre me

encontrava; saía em câmera lenta de onde eu supunha estar a

verdadeira saída e me perseguia enquanto outra cena se

desenrolava: a de dois irmãos que se reencontram e percebem que

um ficou tanto tempo longe do outro que um buraco foi colocado

em seus sentimentos. Onde os irmãos estavam era um colégio para

recuperação do irmão mais novo, com problemas emocionais,

talvez pela ausência do outro. Eu não sei. Era tudo tão confuso e

rápido, cacete!

Eles tentavam se ajudar, enquanto outros buracos se abriam

na outra cena – do gato aparecendo de todos os lados e o rato, já

muito cansado, fugindo. Ainda assim, o rato matou o gato com

uma corda enroscada (tirada de não sei onde) em seu pescoço e o

girou pelo alto, tipo boiadeiro, e o espatifou na parede, onde o gato

ficou todo despedaçado como pasta, encharcado de sangue e em

pedaços de carne viva e brilhante, tão vermelho, vermelho

forte,forte... Mas ele logo voltou (não sei como ele se refez!), pior e

com a aparência de um demônio – mais! – deformado ainda, e

tentava mais e mais vezes detonar o pequenino rato. E eu,

assistindo a tudo em sonho e frenético na briga – me remexia

suando frio. Tudo muito nítido e bizarro; boa parte da noite. Era

algo embolado, repetitivo...

Ah, as mulheres ficaram a esperar naquele lugar onde as

deixei – que depois me foi mostrado ser um aquário gigante;

estavam atônitas por saberem que iriam morrer se eu morresse,

pois eu somente sabia onde estavam e sabia que elas também eram

ruins por tentarem roubar o tesouro que ninguém sabia o que era.

Alguma voz do alto desse aquário lhes dizia: “Nada é pior do

que a consciência humana; e eu sou a sua consciência, sei o que

vocês são e fizeram”. Acaba aí a cena.

É confuso, eu sei, mas então foi mostrado o começo: um

lugar... uma loja, onde eu havia encostado minha bicicleta e a dona

desse local não a queria por perto, pois me achava estranho àquele

lugar e eu não iria consumir nada de lá, por, visivelmente, não ter

dinheiro. Então, ela mandou me expulsarem, como a um rato – que

coincidência! –, mas uma mulher linda apareceu e me ajudou a

fugir – coincidência de novo!, caramba...

Eu queria retribuir a gentileza àquela mulher, então ela disse

que tinha uma coisa em que eu poderia lhe ajudar: um tesouro que

ninguém conhecia, melhor que milhões de "dinheiros humanos",

algo mágico e sem aparência definida.

Bom... eu acordei, só me resta deduzir o final. Minha nuca

estava suada e eu fedia. Ainda não sei que tipo de riqueza é essa. A

mulher, ela ainda deve estar lá com sua comparsa... Os irmãos

talvez voltaram pra casa juntos, reconciliados, e a eterna briga de

gato e rato ainda continua – ainda devem estar lá, cegos e

atravessando paredes que não existem e cuspindo sangue um no

outro, exatamente como no sonho. É idiota.

Que pesadelo maluco! O que achou disso tudo, vovô? Mostra

esta carta à vovó – talvez ela me ajude a achar sentido neste sonho

escabroso. Confio na sabedoria de vocês. Estou com saudades.

A propósito: só pode o tesouro ser algo como minha sanidade,

ou minha inocência se esvaindo... Hahaha... Brincadeira!

Olha, é chato pedir isso, mas... hum... podem me emprestar

um troco? Tô na merda. Viver só é ruim, mas tenho que aguentar,

né? Pendura na minha conta. Eu vou me erguer, cês vão ver. Amo

vocês. Obrigado.

Até a próxima,

Nicolas.