Padre Cícero – Poder fé e Guerra No Sertão por Lira Neto - Versão HTML

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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível.

PADRE CÍCERO

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PADRE CÍCERO

PODER,

FÉ E GUERRA

NO SERTÃO

LIRA NETO

Para Renato Casimiro, meu generoso cicerone

pelas histórias, pelejas e caminhos do Cariri.

Há muito acredito que o realismo é fantástico

Gay Talese

SUMÁRIO

PRÓLOGO

Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito

2001-2006

Livro Primeiro

A Cruz

1. É preciso dar um basta à anarquia: padres vivem amancebados, lobisomem corre solto no

sertão

1844-1870

2. Visão da Última Ceia muda rumo da história: Belzebu não samba mais no Juazeiro

1871-1889

3. Mistérios no povoado perdido:hóstia vira sangue, beata fala com Jesus

1889

4. Beata sangra as chagas de CristoUns dizem que é graça de Deus; outros, ardileza de Satanás

1890-1891

5. Bispo decreta investigação:Deus sairia da Europa para fazer milagres no agreste?

1891

6. Comissários do bispo diante da dúvida:esse povo enlouqueceu ou se abriram mesmo as

portas do Céu?

1891

7. Bispo contesta inquérito: Deus não é saltimbanco, santa não mostra língua a ninguém

1891

8. Diocese confisca os paninhos manchados de sangue:“Mandaremos pelos ares esse

Juazeiro”

1892

9. Padre anuncia o fim do mundo: o sertão vai repetir a maldição de Sodoma e Gomorra?

1892-1893

10. A Inquisição profere veredito. Qual alucinado ousará discordar do Vaticano?

1893-1895

11. Cinco cabras armados tentam matar o padre rebelde. Devotos clamam pelo Anjo da

Vingança

1895-1897

12. Autoridades em polvorosa: o herege do Juazeiro está mancomunado com o lunático de

Canudos?

1897-1898

13. Inquisidores interrogam padre ameaçado de excomunhão. Mas ele quer confabular é com o

papa

1898-1899

Livro Segundo

A Espada

1. Sacerdotes juntam os cobres: com quantos contos de réis se compra um bispado?

1900-1908

2. Padre endiabrado convoca povo para a guerra: “Rifle, mais rifle e muito rifle!”

1908-1910

3. Aldeia proclama independência. Paninhos manchados de sangue viram objeto de barganha

1910-1911

4. “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou não mate mais”

1911-1913

5. Mil homens armados iniciam o assalto ao Juazeiro: “É hora de tocar fogo neste covil!”

1913

6. Moedas de bronze são derretidas para fabricar a arma mortal: é o canhão da Besta-Fera

1913-1914

7. Uma guerra santa tinge de sangue o chão sertanejo:“Por meu Padim, vou inté pro Inferno”

1914

8. Cangaceiro tempera cachaça com os beiços do inimigo morto. O que falta para o fim do

mundo?

1914-1916

9. Devotos não entendem aquele novo estrupício: o Padim mandou acabarem as romarias

1916-1920

10. Em nome do progresso, um boi sagrado é condenado à morte em praça pública

1920-1926

11. O dia em que Lampião foi convocado para fazer guerra à Coluna Prestes

1926

12. O velho padre está quase cego. Mas encontra forças para advertir: Getúlio Vargas é

mensageiro de Satanás

1927-1932

13. Cego, atormentado pelas dores, o padre agoniza

1933-1934

EPÍLOGO

Uma nova guerra santa é declarada no sertão: “O padre Cícero é antivírus contra evangélicos”

2009

CRONOLOGIA

AGRADECIMENTOS

BIBLIOGRAFIA

PRÓLOGO

Nos bastidores do Vaticano,

o futuro papa Bento XVI planeja

redimir um padre maldito

2001-2006

São nove horas da manhã. Como faz todos os dias, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, 74

anos, atravessa a pé a praça de São Pedro, no coração da Santa Sé. De batina preta, boina de

feltro escuro sobre os cabelos muito brancos, o proeminente teólogo ainda não atende pelo

nome de Bento XVI. Mas já é reconhecido como o mais poderoso interlocutor de Sua

Santidade, o papa João Paulo II. Ratzinger percorre com passos firmes o caminho de

paralelepípedos e, diante do portão de ferro do palácio do Santo Ofício, recebe a habitual

continência dos dois soldados da guarda suíça. Reverentes, estes lhe abrem passagem, com os

característicos uniformes coloridos em azul, vermelho e amarelo. Aqui, visitantes ocasionais

não são bem-vindos. Transposto o pórtico principal, chega-se às dependências da

Congregação para a Doutrina da Fé — como desde 1967 passou a ser denominado o Santo

Ofício, mais anteriormente conhecido pelo nome original, que fazia tremer a alma dos

acusados de heresia: Inquisição Romana. No interior daquelas paredes de pedra, em pleno

século XXI, ainda existe um tribunal religioso encarregado de julgar os que professam opiniões

divergentes das consideradas oficiais pela Igreja.

Na condição de prefeito da Congregação, o equivalente contemporâneo ao cargo de

inquisidor-geral, cabe a Joseph Ratzinger o papel de guardião da ortodoxia católica. Por isso,

alguns dos segredos mais caros ao Vaticano são conduzidos na velha valise de couro negro

que ele sempre leva à mão direita. Ali vão a agenda de despachos e os documentos para o

expediente do dia. No escritório, em cima da vasta mesa de trabalho, a pilha de papéis

oficiais com o timbre da Santa Sé divide espaço com um crucifixo de ouro, uma luminária, um

porta-lápis e um pequeno calendário. Neste último, vê-se a indicação: é a primavera de 2001.

O cardeal, sentado em sua cadeira estofada de espaldar alto, prepara à mão o esboço de uma

carta que será enviada em caráter reservado à Nunciatura Apostólica do Brasil. A

correspondência diz respeito a um delicado tema: a pertinência de uma possível reabilitação

canônica de um sacerdote brasileiro falecido em 1934, aos noventa anos de idade. Alguém

que levou para o túmulo o estigma de ter sido um proscrito da Igreja. Um clérigo julgado e

condenado como insubmisso, contra o qual os inquisidores da época decretaram a pena de

excomunhão. Um reverendo maldito, que a despeito disso continua a arrebanhar milhões de

peregrinos e devotos, incansáveis perpetuadores de sua memória: o padre Cícero Romão

Batista.

O diligente Joseph Ratzinger, é claro, tem notícia dos cerca de 2,5 milhões de fiéis que

acorrem todos os anos a Juazeiro do Norte, cidade localizada a 520 quilômetros de Fortaleza,

no interior do Ceará. O número de peregrinos que chegam ao local onde viveu padre Cícero,

de fato, impressiona. É como se metade da população de uma metrópole como Roma se

deslocasse em massa, anualmente, para reverenciar um sacerdote banido das hostes da Igreja.

Em Juazeiro, a multidão compacta paga promessas, acende velas, renova a fé, faz novos

pedidos e invoca a proteção de seu guia espiritual. No topo da serra que avizinha a cidade, foi

erguida uma imagem gigantesca de padre Cícero, com 27 metros de altura, uma das dez

maiores estátuas cristãs de concreto das Américas. Próximo à capela onde está enterrado o

corpo do reverendo, na chamada Casa dos Milagres, o testemunho das centenas de milhares de

graças alcançadas arrebatam o olhar de quem chega à porta. São os chamados ex-votos:

fotografias e esculturas de madeira, cera ou barro, que reproduzem partes do corpo humano.

Pernas, braços, mãos, cabeças. Muitas cabeças. Foram deixados ali por doentes terminais que

juram ter recuperado a saúde, aleijados que afirmam ter voltado a andar, cegos que dizem

enxergar de novo, loucos que asseguram ter recuperado o juízo. Para toda essa gente, padre

Cícero é o santo milagreiro, devidamente canonizado pela devoção popular, embora proibido

de entrar nos altares oficiais.

Difícil encontrar uma casa no sertão nordestino na qual não exista uma imagem de padre

Cícero. Retratado sempre com o cajado, o chapéu e a batina, ele parece onipresente entre os

sertanejos. Em Juazeiro, mais ainda. Ele está na fachada das lojas, dos supermercados, dos

cartórios, das bodegas, dos comitês eleitorais. Estátuas de Cícero de gesso — e em tamanho

natural — adornam até mesmo as agências das grandes redes bancárias instaladas na cidade.

Ele só não está nas igrejas.

Para o Vaticano, tal veneração tem se tornado ainda mais eloquente diante da constatação

de que a cada ano o catolicismo perde milhares de adeptos no Brasil. Segundo cálculos

insuspeitos da própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a sangria de fiéis é

considerada alarmante. O país, na verdade, ainda continua sendo “a maior nação católica do

mundo”. Mas a última década assistiu à queda vertiginosa no percentual de católicos

brasileiros, enquanto o contingente de evangélicos se multiplicou em idêntica proporção. Em

última análise, deixar que o culto a padre Cícero permaneça à margem da liturgia significa

negar o acolhimento pastoral a toda uma preciosa legião de devotos. Ratzinger sabe disso.

Vigilante como sempre no desempenho de sua função, ele tem plena ciência da força do mito

em torno do chamado Patriarca do Juazeiro.

É óbvio que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não desconhece também as

graves acusações históricas que recaem sobre o homem Cícero Romão Batista. Elas não são

poucas. Quando reunidas, constituem notórios obstáculos à ideia de anistiar, post mortem, as

penas que foram impostas ao padre, em vida, pelo Tribunal do Santo Ofício. A primeira

incriminação que incide sobre Cícero é a de ter sido ele um mistificador, um aproveitador das

crenças do povo mais simples, um semeador de fanatismos. Homem de ideias religiosas pouco

ortodoxas, leitor de autores místicos, dado a ver almas do outro mundo e defensor de milagres

não endossados pelo Vaticano, Cícero estaria mais próximo da superstição do que da fé,

disseram dele os muitos adversários que colecionou no meio do próprio clero. Decorre daí

outra incriminação, ainda mais incisiva: a de que nas vezes em que fora repreendido por seus

superiores eclesiásticos agira como um rebelde e caíra em desobediência. Na rígida

hierarquia clerical, desobedecer a um superior constitui pecado gravíssimo. Almas indóceis à

autoridade de bispos e cardeais não vão para o Céu, assim determina a lei da Igreja.

A discutida relação de Cícero Romão Batista com jagunços e cangaceiros tem sido outro

entrave à possível anistia cogitada por Ratzinger. Como absolver das penas do Tribunal do

Santo Ofício um padre sobre cujas costas os detratores jogam a responsabilidade pela

concessão da patente de capitão ao mais feroz de todos os bandoleiros nordestinos, Virgulino

Ferreira da Silva, vulgo Lampião, em troca do compromisso para que o “Rei dos

Cangaceiros” enfrentasse, em 1926, a célebre Coluna Prestes em sua passagem pelo sertão?

Como indultar um clérigo que mesmo antes disso, em 1914, teria benzido rifles, punhais e

bacamartes, aparato bélico entregue à jagunçada para promover uma revolução armada, uma

sedição que envolveu saques violentos a várias cidades interioranas, provocou a morte de

centenas de inocentes e resultou na derrubada de um governo legal? Como redimir as

penalidades de um sacerdote que se transformou em líder político, fez-se o primeiro prefeito

de Juazeiro do Norte, elegeu-se deputado federal, tornou-

-se vice-presidente (cargo então equivalente ao de vice-governador) do Ceará e arquitetou um

pacto histórico entre os poderosos coronéis do sertão? Como perdoar um padre que acumulou

vasto patrimônio à custa das esmolas e das doações de fiéis? Para os algozes de Cícero, não

faltariam argumentos contrários à suposta reabilitação canônica.

Entretanto, do mesmo modo, não são poucos os que definem a eterna tempestade de

acusações contra Cícero como frutos de inverdades históricas, interpretações distorcidas e

preconceitos elitistas que foram se acumulando, ao longo do tempo, em torno de tão

controvertida figura. A carta que o cardeal Joseph Ratzinger escreve nesta manhã de

primavera europeia tem exatamente o objetivo de retomar — com a chancela do brasão da

Santa Sé — uma questão sobre a qual se debatem, por décadas a fio, apologistas e

difamadores de Cícero Romão Batista. Quem foi esse homem misterioso que, mesmo tendo um

decreto de excomunhão assinado contra si, arrebatou o coração das massas e passou à

memória coletiva e ao panteão popular como o santo Padim Ciço? Era um apóstolo visionário

que soube entender a língua do povo, converteu multidões com sua singela pastoral sertaneja,

mas ainda assim foi injustiçado por um clero intransigente, etnocêntrico, refratário às

diferenças? Ou foi um sujeito astuto que usou a batina em seu próprio benefício, amealhou

fortunas em terras, imóveis e gado, alimentando a sede de poder com a miséria e a ignorância

de seus devotos?

Não parece ter sido coincidência. Poucos meses depois de a carta de Joseph Ratzinger ter

alcançado o devido destino na sede da CNBB, em Brasília, um novo bispo diocesano

desembarca no pequeno terminal de passageiros do aeroporto Orlando Bezerra de Menezes,

em Juazeiro do Norte. O homem nomeado por João Paulo II para administrar dali por diante a

diocese do Crato, à qual está subordinada a forania de Juazeiro, é um italiano sorridente e de

fala serena. Quando perguntado se vem com alguma missão específica — e se tal missão tem

relação direta com a possível reabilitação de padre Cícero —, ele silencia. Em alguns casos,

dependendo do interlocutor, vai além: esboça um de seus enigmáticos sorrisos.

O recém-chegado, dom Fernando Panico, nascido em 1946 na cidade de Tricase, sul da

Itália, exibe um currículo exemplar. Além de sobrinho de um cardeal com respeitáveis

serviços prestados à Santa Sé — dom Giovanni Panico, ex-núncio em Portugal —, traz na

bagagem os diplomas de bacharel em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e em

teologia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, ambos em Roma. Mestre em teologia litúrgica

e doutor em liturgia, Panico está desde 1974 no Brasil. Aqui, sempre trabalhou em dioceses

nordestinas. Primeiro no Maranhão, onde foi reitor de seminário; depois no Piauí, como bispo

de Oeiras e Floriano. Conhece bem, portanto, o universo e os matizes da religiosidade popular

dos sertões. Está familiarizado com as singularidades das manifestações de fé do catolicismo

caboclo, que tem em padre Cícero uma de suas maiores referências.

Tão logo toma posse no comando da diocese, em junho de 2001, dom Fernando Panico

demonstra, sem meias palavras, claramente a que veio. Do alto do púlpito, durante a homilia

que faz na primeira missa como novo bispo do Crato, anuncia o propósito de encorajar e

apoiar novos estudos críticos sobre a trajetória de Cícero Romão Batista. Em uma carta

pastoral aos fiéis, datada de 20 de outubro, reafirma o mesmo propósito, dessa vez em letra de

forma: “Ele merece nosso carinho, apesar de tudo o que contra ele aconteceu e se tem

escrito”, observa o bispo, a propósito do ambíguo sacerdote. Tais afirmações causam

profundo mal-estar nos membros mais tradicionais do clero do Crato, que têm Cícero na conta

de um embusteiro histórico. “Padre Cícero chegou ao Juazeiro missionário, tornou-se

visionário e acabou milionário”, costumava dizer dom Newton Holanda Gurgel, o antecessor

de dom Fernando, que se viu compelido a renunciar ao cargo ao completar 75 anos de idade e

passar a mitra ao sucessor.

Contudo, não há dúvidas de que os ventos da Igreja pretendem soprar em outra direção. O

que está em cena não é uma mera questão paroquial, uma nova frente de batalha na eterna

rivalidade entre cratenses e juazeirenses. Nesse mesmo mês de outubro de 2001, dom

Fernando embarca para Roma, acompanhado dos demais bispos do Ceará e do Piauí, por

ocasião da visita ad limina ao Vaticano — uma obrigação imposta pela Igreja a seus prelados

a cada cinco anos, que devem ajoelhar-se diante dos túmulos dos apóstolos são Pedro e são

Paulo; nessa ocasião, são recebidos pelo papa para reportar o estado pastoral de suas

respectivas dioceses. Dom Fernando aproveita a viagem à Cidade Eterna e logo obtém uma

audiência com o cardeal Joseph Ratzinger, no Palácio do Santo Ofício. Na pauta do encontro

com o prestigioso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o assunto é um só: padre

Cícero.

Dom Fernando escuta de Ratzinger as palavras que provavelmente já esperava ouvir. O

cardeal não só o estimula a levar adiante os novos estudos sobre a polêmica trajetória de

Cícero, como também dá instruções detalhadas a respeito da forma de conduzir o processo, de

acordo com os rituais e procedimentos da Congregação. Como conselho adicional, Ratzinger

sugere que as concorridas romarias a Juazeiro do Norte devam ser abertamente incentivadas e

acolhidas, ao contrário do que fazia o bispo anterior, dom Newton. A recomendação do

cardeal será obedecida à risca. Algum tempo após a volta ao Brasil, dom Fernando faz

publicar uma segunda carta pastoral aos fiéis, sintomaticamente intitulada “Romarias e

reconciliação”. O sinal de distensão entre a Igreja e os romeiros, principal herança deixada

pelo sacerdote proscrito, está evidente: “Mais do que nunca é necessário reconhecer as

romarias de Juazeiro do Norte como uma profunda experiência de Deus e legítima experiência

de fé”, diz a carta do bispo aos diocesanos.

Para seguir os desígnios ditados por Roma, dom Fernando organiza uma comissão

multidisciplinar de estudos, à qual caberá mergulhar nos arquivos oficiais da diocese, mas

também em acervos particulares e de instituições públicas, para avaliar a possível

reabilitação de Cícero Romão Batista. Pelos trâmites da Santa Sé, reabilitar o padre

significaria o primeiro passo a caminho de uma presumível canonização. Após ele ser

devidamente perdoado pela Congregação da Doutrina da Fé, o segundo passo seria a abertura

do processo de beatificação, depois do qual Cícero passaria ser declarado um “bem-

aventurado”, o degrau imediatamente inferior ao seu reconhecimento como santo, quando

enfim poderia ser elevado à honra dos altares.

A comissão organizada por dom Fernando, obedecendo às diretrizes de Ratzinger, é

composta de especialistas, mestres e doutores em diversas áreas do conhecimento:

antropologia, filosofia, história, psicologia, sociologia e teologia. Pressionada pela oposição

do clero do Crato, os membros se reúnem também em São Paulo, onde recebem a visita de

dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal emérito da diocese paulista, que na ocasião se revela

simpático à causa da reabilitação canônica de padre Cícero. Durante cerca de cinco anos, a

comissão de notáveis trabalha estrategicamente em silêncio, reunindo informações, acessando

papéis até então intocáveis, trazendo à luz novos elementos para um julgamento póstumo de

Cícero Romão Batista.

Uma circunstância inaudita, porém, apanha a comissão no meio do caminho. Às 21 horas

e 37 minutos de um sábado, 2 de abril de 2005, o papa João Paulo II, que nos últimos dias

vinha se alimentando por meio de uma sonda inserida no nariz e respirando por um tubo que

bombeava o ar diretamente na traqueia, exala o último suspiro. Os médicos, após assistirem

durante semanas à via-crúcis de tremores e febres do ilustre paciente, informam que o

organismo de Sua Santidade parou de manifestar os sinais vitais. João Paulo II, governante da

Igreja por mais de um quarto de século, está morto.

Dezessete dias depois, o conclave de cardeais reunido no Vaticano autoriza que a fumaça

branca seja lançada pela chaminé da Basílica de São Pedro. Habemus papam, logo entendem

os milhões de católicos espalhados pelo planeta, que testemunham a tudo com os olhos

grudados na televisão. Há um novo papa no poder. O cardeal decano Joseph Ratzinger,

prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, é eleito o 264o sucessor de Pedro e coroado

como Bento XVI. O homem que iniciou o processo de reabilitação de padre Cícero é agora o

chefe supremo da Igreja Católica Apostólica Romana.

Em 30 de maio de 2006, pouco mais de um ano após Bento XVI iniciar seu pontificado,

uma comitiva brasileira liderada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, chega ao

Vaticano. Leva consigo onze grossos volumes encadernados em capa vermelha e identificados

com letras gravadas em dourado. São cópias de documentos religiosos e seculares, incluindo

a vasta correspondência trocada entre os protagonistas da história tumultuosa de Cícero

Romão Batista. Também estão ali os relatórios e os pareceres da comissão de especialistas

encarregada dos novos estudos em torno do caso. Um volume à parte traz cerca de 150 mil

assinaturas de populares em prol da reabilitação, às quais se soma um abaixo-assinado no

qual se lê o nome de nada menos que 253 bispos brasileiros favoráveis à causa.

Uma carta de dom Fernando ao papa completa a papelada. “Venho com toda esperança e

humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero

Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas”,

escreve o bispo. “Posso testemunhar, Santidade, que as nossas romarias são um baluarte da fé

dos pobres, filhos queridos da Igreja Católica, cuja devoção contém e freia, por assim dizer, o

avanço das seitas evangélicas na nossa região”, explicita. Na carta, dom Fernando faz questão

ainda de recordar que o mesmo Bento xvi, então cardeal, é quem lhe sugerira reabrir os

estudos históricos sobre Cícero. “A comissão de estudiosos, ao realizar as novas pesquisas,

manteve-se numa discrição objetiva das fontes. À Congregação para a Doutrina da Fé compete

a análise de nosso trabalho. E à Vossa Santidade a palavra conclusiva.”

Nas prateleiras empoeiradas do antigo Tribunal do Santo Ofício, por determinação de

Bento XVI, os documentos secretos que resultaram na expulsão de Cícero das fileiras da Igreja

começam a acordar de um sono de quase cem anos.

LIVRO

PRIMEIRO

A CRUZ

1

É preciso dar um basta à anarquia:

padres vivem amancebados,

lobisomem corre solto no sertão

1844-1870

Mais de 1800 anos após ter sido pregado numa cruz pelos soldados romanos no monte

Gólgota, em Jerusalém, Jesus Cristo, o homem em cuja memória se fundou a Igreja que

congrega mais de 2 bilhões de fiéis espalhados por todo o mundo, voltou à Terra. Nasceu de

novo, na cidade do Crato, interior do Ceará. Cristo retornou na forma de um bebê sertanejo,

com traços nitidamente caboclos, mas de cachinhos dourados e olhos azuis. O Menino Jesus

redivivo chegou dos céus em meio a uma explosão de luz, com a força de mil sóis, no meio do

sertão. Foi trazido por um anjo de asas cintilantes, que na mesma hora levou embora a filhinha

recém-nascida de uma católica fervorosa, a cearense Joaquina Vicência Romana, mais

conhecida como dona Quinô. De tão intenso, o clarão deixou a mulher temporariamente cega,

bem na hora do parto, o que a impediu de perceber a troca das duas crianças. Como sinal de

que era um iluminado, o menino santo acabava de regressar ao mundo em um 24 de março,

véspera da data em que se celebra a Anunciação de Nossa Senhora, exatos nove meses antes

do Natal.

Para muitos dos milhões de peregrinos que chegam hoje a Juazeiro do Norte, essa é a

verdadeira história do nascimento do padre Cícero. Ele seria a reencarnação do próprio

Cristo. A imaginação coletiva, disseminada de boca em boca e de geração em geração,

encarregou-se de atribuir uma origem sagrada, não carnal, ao protetor dos romeiros. Com

pequenas variações — às vezes é a própria Virgem, e não um anjo de luz, quem traz nos

braços o Cristo menino de volta à Terra — a crença na linhagem divina de Cícero foi

igualmente reforçada por uma das mais autênticas expressões da tradição nordestina: os

folhetos de cordel. Para os devotos mais enlevados, não há como pôr em dúvida aquilo que

dizia o poeta João Mendes de Oliveira, contemporâneo de Cícero e autointitulado “historiador

brasileiro e negociante”, um dos primeiros a enaltecer o sacerdote em rimas e versos:

Perante a lei da verdade

não vou dizer nada à toa

Padrinho Cícero é uma pessoa

da Santíssima Trindade.

De acordo com o que está disposto nos livros de batismos da Cúria do Crato, o menino

Cícero Romão Batista nasceu naquela cidade cearense no dia 24 de março de 1844. A

documentação dos cartórios e das sacristias pode ser mais objetiva do que a narrativa mítica.

Mas não é menos sugestiva de significados nem deixa de ser alvo de controvérsias. Há quem

aponte, mesmo aí, na letra firme do escrivão, a sombra de uma armadilha histórica: Cícero

teria nascido no dia anterior, 23, e posteriormente alterado o próprio batistério para vincular

sua origem à data litúrgica da Anunciação. Não há provas, contudo, que corroborem essa

acusação específica de mitomania. O que se sabe ao certo é que o filho de dona Quinô e do

pequeno comerciante Joaquim Romão Batista nasceu um caboclinho de longas orelhas de

abano e, de fato, cabelos aloirados e um surpreendente par de olhos azuis — características

que ajudaram a associar sua imagem ao Cristo caucasiano das gravuras de origem medieval,

mas que na verdade foram herdadas dos antepassados portugueses da família, tanto do lado

materno quanto do paterno.

O pai, Joaquim Romão, era o primogênito de um oficial da cavalaria que lutara ao lado

das tropas brasileiras nas guerras dos tempos da Independência. A mãe, dona Quinô, trazia

por sua vez a história de batalhas familiares marcadas por suplícios quase bíblicos. Suas seis

irmãs, as tias de Cícero — Totonha, Donana, Azia, Teresinha, Tudinha e Vicência —, todas

teriam sido defloradas pelo mesmo homem, o coronel José Francisco Pereira Maia, o Mainha,

juiz de paz, delegado de polícia e deputado provincial pelo Crato. Só ela, Quinô, teria

resistido aos assédios sistemáticos do coronel, um garanhão que se gabava de ter colocado no

mundo 82 rebentos, polígamo assumido desde que fora traído pela primeira esposa, uma

mulher com fama de adúltera e nome de santa: Clara Angélica do Espírito Santo.

Por trás do balcão da lojinha da família, o pai de Cícero tirava o sustento da casa com a

venda de artigos os mais variados, que iam de fechaduras de latão a chapéus para senhoras, de

parafusos de ferro a gravatas de seda. Com o dinheiro que pingava no caixa, Joaquim Romão

sempre cuidou de proporcionar boa educação ao único varão que o destino lhe concedeu,

Cícero, o filho do meio entre as irmãs Maria Angélica, dois anos mais velha, e a caçula

Angélica Vicência, cinco anos mais nova.

A tradição oral dá conta de um menino Cícero que construía casinhas de barro para as

brincadeiras das irmãs, evitava as típicas estripulias da infância e não se juntava aos demais

moleques da rua. Mas que gostava de subir em árvores e de pegar passarinhos, especialmente

canários e patativas. Afora isso, vivia enfurnado em uma tenda que armava no quintal de casa,

onde ficava sozinho durante horas, silencioso e ensimesmado, como se estivesse a rezar e a

conversar com os anjos da guarda. A história da infância de Cícero, tema de inúmeros folhetos

de cordel espalhados pelas feiras do sertão, foi sendo construída assim, por meio de relatos

posteriores que buscavam abonar o mito e adivinhar indícios de uma hipotética predestinação.

Em um velho folheto cuja autoria se perdeu nos desvãos do tempo, A vida e os antigos

sermões do padre Cícero Romão Batista, o garoto é idealizado em um desses instantes de

devoção prematura:

Ele tinha cinco anos

era bem pequenininho,

à noite a mãe procurou,

não o achou no bercinho,

achou-o nos pés duma imagem

dormindo ajoelhadinho.

Décadas mais tarde, em Juazeiro do Norte, os futuros romeiros disputariam avidamente

uma singela fotografia de Cícero aos quatro anos de idade. Milhares de cópias daquela

imagem que se tornou célebre seriam espalhadas no sertão, apregoadas pelos vendedores de

santinhos como uma relíquia sagrada. Nela, vê-se uma criança bochechuda que se equilibra

em pé numa cadeira de palhinha, o cabelo partido ao meio, sapatinhos de verniz, roupa

enfeitada com pregas e babados. Seria essa a primeira imagem de Cícero de que se tem

notícia, por isso apreciada com afeição especial pelos devotos. A foto, porém, é

flagrantemente falsa.

Quando Cícero completou quatro anos de idade, em 1848, a máquina fotográfica havia

sido apresentada ao mundo apenas onze anos antes, na Europa, pelo inventor francês Louis-

Jacques-Mandé Daguerre. No Ceará, ainda não existia quem houvesse visto um desses

maravilhosos “daguerreótipos”, que faziam retratos como em um passe de mágica. Mesmo no

Rio de Janeiro, então a capital do país, a fotografia ainda era uma espantosa novidade restrita

aos membros da corte de d. Pedro II. O menino da foto não podia ser Cícero. Na verdade, era

o pequeno Antônio Fernandes de Melo Costa, filho do poderoso coronel Manoel Fernandes da

Costa, que viria a ser um dos grandes amigos do padre Cícero em Juazeiro do Norte. O

instantâneo foi feito já no século XX. Quando, em 1945, homem-feito e residente em Maceió,

Antônio Fernandes viajou ao Ceará para visitar o túmulo do pai em Juazeiro, surpreendeu-se

ao ver sua foto de criança nas mãos dos romeiros, transformada em objeto de culto.

Cícero começou a soletrar as primeiras sílabas aos seis anos, sob as vistas e a palmatória

do bigodudo professor Rufino de Alcântara Montezuma, respeitado mestre-escola da cidade.

Um pouco mais crescido, aos doze anos, o rapazote passou a estudar na escola régia de um

parente próximo da família, João Marrocos Teles, um padre amancebado e pai de família, em

cujo sobrado aprendeu a decifrar os segredos do latim.

As prédicas do padre e latinista João Marrocos, assim como as rezas de dona Quinô,

deixaram marcas profundas na formação do menino. Também exerceram grande influência

sobre ele as pregações de José Antônio Pereira Ibiapina, um ex-advogado criminalista de

cenho grave que largara a toga e passara a envergar a batina bem tarde, aos 47 anos de idade.

Após descobrir a vocação sacerdotal, Ibiapina se desfez dos livros jurídicos, trocou o

sobrenome Pereira pelo de Maria e conseguiu ser ordenado no Seminário de Olinda. A partir

de então, padre José Antônio de Maria Ibiapina cruzaria os sertões nordestinos a pé, de ponta

a ponta, erigindo capelas, erguendo escolas, construindo açudes, abrindo hospitais para os

pobres, sempre em regime de mutirão. Suas chamadas casas de caridade — instituições

sociais dedicadas a educar e doutrinar meninas órfãs, ensinando-as a ler, a adorar a Deus e a

desenvolver ofícios manuais — espalharam-se por toda a região.

Sempre baseado no binômio oração e trabalho, o padre e educador de pele queimada

pelo sol do sertão serviu de modelo para a futura prática pastoral de Cícero. Como este

repetiria mais tarde, Ibiapina recrutou homens e mulheres das camadas mais despossuídas da

população e, com eles, fundou uma nova ordem religiosa, a dos beatos e beatas, que se

proliferou Nordeste afora e seria mantida à margem da Igreja oficial. Mesmo sem a devida

autorização, o missionário fornecia a leigos o hábito característico que nunca mais largariam

— uma túnica escura e comprida até o chão, com a qual pediam esmolas para ajudar os

necessitados, pregavam o Evangelho e cuidavam dos serviços sagrados, como a celebração de

novenas e terços. Foi em fevereiro de 1865, na inauguração da casa de caridade de Missão

Velha, vila próxima ao Crato, que o jovem Cícero Romão conheceu pessoalmente o padre

Ibiapina. Ficou fascinado pelo verbo eloquente e pelo carisma daquele reformador de

costumes.

Mas, segundo o próprio Cícero dizia, a vocação religiosa revelara-se para ele bem antes.

Um livro que lhe caíra nas mãos aos doze anos de idade teria mudado, desde então, os rumos

de sua vida. Foi o momento de sua hierofania, o instante em que o sagrado se manifestou a ele

pela primeira vez: “Pela leitura que nesse tempo fiz da vida imaculada de são Francisco de

Sales, conservei a minha virgindade e castidade”. Cícero se referia ao livro Filoteia ou

Introdução à vida devota, a obra mais popular do bispo-príncipe de Genebra que, no século

XVI, logo após a Reforma Protestante, se notabilizou por reconverter ao catolicismo milhares

de calvinistas. A obra, um manual de iniciação cristã destinado à educação dos jovens,

pregava a necessidade da castidade do corpo e da alma. “Os corpos humanos são semelhantes

aos vidros que não podem se tocar sem o risco de se quebrarem, e com as frutas maduras que

ficam manchadas quando se põem umas sobre as outras”, advertia são Francisco de Sales.

Após quatro anos recebendo as lições do padre João Marrocos, Cícero acabou sendo

enviado ao colégio de outro sacerdote, o padre Inácio de Sousa Rolim, um poliglota que

recusou a honra de ministrar uma cadeira no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, para montar

sua própria escola em pleno sertão, às margens do rio do Peixe, em torno da qual foi

crescendo a cidade paraibana de Cajazeiras, a dezenove léguas — cerca de 120 quilômetros

— do Crato. Cícero permaneceu como aluno interno, sob os cuidados do padre Rolim, por

dois anos. Mas, tão logo completou dezoito anos de idade, uma notícia funesta obrigou-o a

retornar ao Crato: o velho Joaquim Romão havia morrido. O pai de Cícero foi uma das 1100

vidas que uma terrível epidemia de cólera-morbo ceifou no Crato, naquele ano da desgraça de

1862.

Com fome insaciável, o cólera arrebanhou, ao todo, 11 mil almas pela capital e sertões

do Ceará. O pânico se estabeleceu entre os sobreviventes, que creditavam a tragédia a um

severo castigo dos céus. Havia relatos de doentes sepultados vivos em valas comuns depois

de abandonados pela família e mandados antes da hora para o cemitério, por medo de um

possível contágio. Com a falta de coveiros em número suficiente para dar conta de tamanha

tarefa, o serviço de enterramento era feito por condenados pela Justiça, em troca de goles de

cachaça e do perdão de suas penas. No Crato, a exemplo de outras cidades do interior

cearense, o horror diante da moléstia incentivava numerosas procissões de penitência. Noite e

dia, viam-se multidões de fiéis entoando litanias desesperadas pela rua. Uns seguiam com

volumosas pedras sobre a cabeça; outros se flagelavam, açoitando as próprias costas com

chicotes de couro cru, na ponta dos quais eram amarradas as “disciplinas”, lâminas de ferro

afiadas e dentadas. Foi nesse cenário aterrador que o rapaz Cícero Romão, agora órfão de pai,

teve de voltar para casa.

No retorno ao lar, encontrou a mãe às voltas com a tarefa de sustentar as duas outras

bocas da família: Maria Angélica, então com vinte anos, e a menina Angélica Vicência, com

treze. O falecido Joaquim Romão deixara poucos bens de herança — um boi, quatro vacas,

duas novilhas, dez bezerros, duas escravas, uma casa de tijolos, a escritura de alguns palmos

de chão. E muitas, muitas dívidas na praça. Devia mais de um conto de réis aos fornecedores

de bugigangas e mercadorias. Não era pouco. Representava um valor equivalente a todo o

orçamento calculado pelo governo da província do Ceará para a necessária reforma do

cemitério de Fortaleza, tornado pequeno diante do número de mortos deixados pelo cólera.

Feito o inventário, constatou-se a cruel aritmética dos livros-caixa: Joaquim Romão morrera

falido, completamente quebrado.

Com a morte do marido, a viúva Quinô não tinha como manter o filho estudando em

Cajazeiras, longe do Crato. Tudo levava a crer que a aspiração do jovem Cícero em

prosseguir nos estudos viria a ser sepultada na mesma cova em que descansariam, para

sempre, os ossos do pai. Foi o padrinho de crisma, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno,

quem socorreu o moço naquele instante de incerteza e aflição. Homem poderoso do lugar, rico

comerciante, o coronel Alves Pequeno se compadeceu da míngua em que vivia a família do

falecido compadre Romão. E, em especial, ficou bastante impressionado com uma história

singular, narrada de viva voz pelo afilhado.

Cícero contou ao padrinho que naqueles dias, bem tarde da noite, estava deitado no fundo

da rede estendida de uma parede a outra da sala quando ouviu o som de leves passos dentro

de casa. Erguera-se e, entre o sono e a vigília, com aqueles mesmos olhos que um dia a terra

haveria de comer, disse ter visto a imagem do finado Joaquim Romão, ali na sua frente,

bruxuleando à luz da lamparina. Da eterna mansão dos mortos, o velho teria lhe trazido um

pedido e, ao mesmo tempo, um consolo em forma de profecia: o filho não deveria desistir, um

só minuto que fosse, do bom caminho dos livros.

“Deus haverá de dar um jeito”, teria lhe garantido a visão.

O coronel Alves Pequeno ficou admirado diante do relato fantasmagórico. Para ele,

bastava retirar alguns cobres da algibeira e concretizar o desejo do compadre morto.

Dinheiro, tratando-se do coronel, nunca fora problema. E quando andam juntas, diz-se no

sertão, a fé e a boa vontade fazem o longe ficar perto. Foi assim que, devidamente financiado

pelo padrinho, graças à suposta visão, Cícero arrumou as trouxas, pegou a estrada de terra e

tomou de volta o rumo de Cajazeiras, onde concluiu os estudos elementares no colégio do

padre Rolim.

O coronel Pequeno arrebanhava homens tanto para a cruz quanto para a espada. Em 1865,

financiou a ida de vinte jovens cratenses, recrutados no laço, para lutar na sangrenta Guerra do

Paraguai. Naquele mesmo ano, ainda sob as asas protetoras do padrinho, o nome de Cícero

Romão Batista figurou no livro de matrículas da turma inaugural do Seminário da Prainha, a

primeira escola de nível superior do Ceará. Um casarão de dois pavimentos e solenes

janelões voltados para o mar esverdeado de Fortaleza. Ali, o rapaz de 21 anos, acostumado à

religiosidade popular dos beatos do andarilho Ibiapina, logo entraria em choque com a rigidez

de seus novos professores.

Quando avistou do mar o porto de Fortaleza, em setembro de 1861, dom Luiz Antônio dos

Santos trazia, além da mitra branca sobre a cabeça e do dourado cajado episcopal nas mãos,

um respeitável diploma dentro da mala: ele era, aos 44 anos, um dos três únicos religiosos

brasileiros a portar o título de doutor em direito canônico por Roma. Com 25 anos dedicados

ao sacerdócio, dom Luiz deixara a reitoria do Seminário de Mariana, em Minas Gerais, para

assumir o cargo de primeiro bispo do Ceará. Era um dia histórico para a província. Até 1854,

a Igreja cearense estivera subordinada à diocese de Olinda, em Pernambuco. À frente do novo

cargo e do novo bispado, a missão de dom Luiz não era pequena.

As longas distâncias entre a antiga sede episcopal e os milhares de cristãos desgarrados

pelo sertão provocaram um vazio nas relações entre fiéis e clero. Raros eram os momentos em

que os chamados padres visitadores se dispunham a sair do refrigério dos centros urbanos,

enfrentando os perigos e as extensões sertanejas, para se embrenharem no interior da caatinga,

onde reinava a lei do punhal e do bacamarte. Naqueles confins dominados por latifundiários e

cangaceiros, quase nunca se rezavam missas ou se ministravam outros sacramentos além do

batismo, pela simples ausência de um número suficiente de párocos para fazê-lo. Em todo o

Ceará, só havia 33 padres para cobrir as quase 5 mil léguas quadradas que compreendiam o

território da província.

Tal vácuo deu origem a uma religiosidade espontânea no meio do povo, um misticismo

rico em manifestações, mas pouco afeito ao controle e aos rituais da Igreja oficial. O menino

Cícero nascera e crescera exatamente naquele mundo, em que práticas medievais como a

autoflagelação dos corpos se faziam acompanhar das previsões apocalípticas atribuídas a são

Malaquias a respeito do fim dos tempos. Antigas crenças indígenas, uma vez mescladas à

tradição lusitana do culto aos santos protetores, geravam uma devoção permeada de livres

reinterpretações da fé católica, baseadas em elementos mágicos e sobrenaturais. As

penitências e o sentimento de expiação dialogavam, sem cerimônias, com as celebrações

coloridas e dançantes nas festas anuais dos padroeiros.

No universo mental dos sertões, havia lugar tanto para a crença em caiporas e lobisomens

quanto em anjos da guarda. Existia espaço para propaladas aparições tanto de almas penadas

quanto de pavorosas mulas sem cabeça. Benzedeiras desfaziam quebrantos com a ajuda de

rosários, como também de patuás e folhas de pinhão-roxo. Davam-se notícias de curas

extraordinárias, de palestras com mortos e de intervenções miraculosas do Além. A

recorrência das secas e pestes inclementes ajudava a fazer de cada manifestação da natureza

um recado de Deus — ou uma artimanha do diabo — contra o mundo imperfeito dos homens.

Ao mesmo tempo, além de poucos, os padres não eram nenhum exemplo de cega

obediência às leis da Igreja que representavam. Muitos deles, particularmente aqueles

ordenados pelo velho e politizado Seminário de Olinda, haviam dedicado mais tempo a

organizar revoltas do que às obrigações do altar. Inspirados pelos ecos da Revolução

Francesa, escondiam livros clandestinos por baixo da batina, tramavam insurreições

republicanas, organizavam-se em sociedades secretas como a maçonaria. E, em especial,

faziam vistas grossas ao compromisso do celibato.

Ao visitar o Ceará em 1839, o então bispo de Olinda, dom João da Purificação Marques

Perdigão, ficou preocupado com a quantidade de padres concubinados com que deparou no

interior da província. “Chamei o padre José da Costa Barros para imediatamente lançar fora

de casa uma mulher, que conservava em sua companhia há muitos anos, irmã do vigário de

Quixeramobim, e da qual tem um filho”, escreveu o bispo em seu relatório à época. “Chamei

também o vigário da freguesia do Cascavel e lhe estranhei a comunicação ilícita e pública que

tinha com uma mulher, e depois de uma larga exortação, prometeu-me fazê-la residir na

distância de cinco léguas”, anotou o mesmo dom João da Purificação.

Para o recém-chegado dom Luiz, tratava-se de uma situação inadmissível. Ele fora alçado

ao comando da nova diocese com algumas incumbências capitais. A primeira era justamente

moralizar o clero local. Em bom português, isso significava, por um lado, dar um basta no

catolicismo popular reinante nos sertões, considerado uma imperdoável heresia, e substituí-lo

por práticas religiosas mais condizentes com a doutrina e o rito da Igreja. Por outro lado,

significava formar novos sacerdotes e exigir deles o modelo de retidão moral compatível com

o ofício, principalmente quanto ao cumprimento do celibato e dos sagrados votos de

castidade.

A missão de dom Luiz — que incluía a fundação de um seminário na nova diocese —

fazia parte do esforço da cúpula da Igreja brasileira para disciplinar seu rebanho. Pelo que

ficara determinado desde o Concílio de Trento — a grande reunião de bispos convocada pelo

papa Paulo III, ainda no século XVI, como resposta à Reforma Protestante —, os católicos

deveriam manter total obediência às ordens e orientações emanadas de Roma. A Igreja do

mundo inteiro deveria seguir à risca o que determinava um único centro de decisão, situado

por trás dos Alpes europeus — de onde se adotou o nome do movimento, ultramontanismo, do

latim ultramontanus, “para além das montanhas”.

Como consequência, instituíra-se um só ritual para todos os templos ao redor do planeta,

abolindo as variações locais: a chamada missa tridentina — referência ao nome da cidade de

Trento, sede do grande concílio. Fosse na Itália, na Patagônia ou nos cafundós do Brasil, a

missa passara, desde então, a ser celebrada em latim, com os sacerdotes voltados de frente

para o sacrário, de costas para os fiéis. Determinara-se, por decreto, a existência do

Purgatório e adotara-se como única versão legítima da Bíblia a tradução latina das antigas

Escrituras feita em meados do século IV por são Jerônimo. Entre outras centenas de penas

previstas aos maus cristãos, o Concílio sentenciara: “Se alguém disser que na Igreja Católica

não há hierarquia eclesiástica estabelecida por ordem de Deus — seja excomungado”.

Com a posse de Pio IX em 1846, o cerco da hierarquia ultramontana contra os heréticos se

fecharia mais ainda. Um ano antes de Cícero Romão Batista haver palmilhado a longa estrada

que o levou do Crato ao Seminário de Fortaleza, o sumo pontífice publicou a encíclica

Quanta cura e promulgou o Syllabus errorum, documentos nos quais condenava, de forma

contundente, a liberdade de culto, a maçonaria e os “avanços funestos da modernidade”,

considerados “manifestações monstruosas do espírito de Satanás”. Pela nova encíclica papal,

a liberdade de pensamento equivalia, textualmente, à “liberdade de perdição”.

Sob o papado de Pio IX, porém, a religião católica viria a sofrer um revés histórico: o

processo de unificação da nação italiana, entre 1860 e 1870, faria que a Igreja perdesse

gradativamente a posse das regiões que desde o século VIII constituíam os chamados Estados

Pontifícios, um aglomerado de territórios localizados no centro da península Itálica,

considerados “patrimônio de são Pedro”. Quando as tropas militares enfim tomassem Roma

como capital da nova nação que surgia — a Itália —, a soberania do papa seria reduzida à

cidade do Vaticano. A Igreja perderia propriedades, mas procuraria compensar tal vicissitude

com um rigor ideológico cada vez maior. Do outro lado do oceano, na distante diocese do

Ceará, caberia a dom Luiz o papel de guardião da Igreja contra as muitas astúcias do demo. E

a Cícero, o jovem seminarista, competia dobrar os joelhos. Mas não foi exatamente o que ele

fez.

Cícero logo percebeu que a rotina do seminário seria marcada pela vigilância e pela

disciplina. O dia começava cedo, antes do nascer do sol. Às 5h15, deveria estar de pé, com a

cama devidamente arrumada, já cumprida a obrigação das orações e meditações matinais. Os

dormitórios permaneciam trancados o resto do dia, só sendo permitida a presença ali em

casos extraordinários e, ainda assim, com a devida autorização e supervisão da direção da

casa. Às cinco e meia da manhã, Cícero e os demais colegas seminaristas assistiam à missa,

de onde saíam direto para a sala de estudos ou, se fosse dia marcado para tal, para a sala de

banhos, aberta por curtos períodos, sendo rigorosamente fechada depois do horário

determinado. Só então, às sete e meia, iam para o café — isso nos dias em que o jejum não era

obrigatório. O resto da manhã de Cícero era dividido entre aulas e momentos de estudo

individual, nos quais, ordenava o regulamento, deveria ser observado o mais profundo e

respeitoso silêncio.

Cícero almoçava ao meio-dia, rezava o terço e voltava à sala de aula, onde, ao lado de

matérias como filosofia, retórica, teologia dogmática, humanística e direito canônico, recebia

lições de liturgia e de canto gregoriano. Em seguida, permanecia em estudos intensivos e

obrigatórios até as seis da tarde, quando os seminaristas celebravam a hora do Ângelus — o

instante da anunciação feita pelo arcanjo Gabriel a Maria. No início da noite, seguiam-se

outras duas exaustivas horas de estudos e leituras espirituais compulsórias. Revistas, jornais e

livros não religiosos eram expressamente proibidos. Cartas enviadas por parentes eram lidas

com olhos de lince pelo reitor, antes de serem entregues aos respectivos destinatários.

Nas horas vagas, Cícero e os outros alunos podiam folhear livremente apenas a Bíblia, o

Breviarium Romanum e alguns outros poucos títulos como O caminho do Céu —

Considerações sobre as máximas eternas e sobre os segredos e mistérios da Paixão de

Cristo Nosso Senhor para cada dia do mês. O regulamento previa ainda que o jantar devesse

ser servido às vinte horas, após o qual era obrigatória a oração noturna. Às 21h15,

pontualmente, todos deviam estar recolhidos ao silêncio e à escuridão do dormitório, com

exceção daqueles que obtivessem autorização para estudar à luz de vela por mais 45 minutos.

Para Cícero e para qualquer outro colega, a privacidade e os minutos de solidão eram

vetados. Possíveis conversas nos quartos ou sob as arcadas dos longos corredores do

seminário eram reprimidas com austeridade. “Nos recreios evitarão os gritos desentoados,

jogos e brinquedos ofensivos ou grosseiros”, determinava o regulamento. Muito riso era sinal

de pouco siso, dizia-se. Saídas não autorizadas eram punidas de modo exemplar, com

imediata expulsão. De modo estratégico, o imenso casarão assobradado, um dos poucos

prédios de dois pavimentos de toda a capital cearense, ficava situado distante do então centro

da cidade. O isolamento físico do prédio garantia total imersão nas obrigações religiosas.

Uma possível familiaridade com os criados que serviam no seminário — faxineiros,

lavadeiras e cozinheiros, por exemplo — era repreendida. Havia um intermediário nomeado

especificamente pela direção da casa para receber encomendas vindas de fora, inclusive a

roupa limpa, nos sábados à tarde. Uma das raras ocasiões de contato de Cícero com o mundo

exterior se dava nas missas domingueiras realizadas na capela, frequentada por pescadores e

peixeiros que viviam na praia ali perto.

Internamente, os alunos do curso preparatório eram separados dos mais adiantados, que

frequentavam o curso teológico e estavam mais próximos da ordenação. Como medida

adicional de controle, o primeiro artigo das regras internas proibia, de forma explícita, que

fossem “cultivadas amizades particulares” entre colegas de seminário. Não se estava ali para

fazer amigos e camaradas, mas para aprender a servir a Deus.

Uma consulta detalhada ao Livro de notas do Seminário da Prainha evidencia que

Cícero foi, à época, um aluno apenas mediano. Ao longo do curso, nas diversas disciplinas

que frequentou, recebeu dezesseis vezes o burocrático conceito “Bom”, com apenas quatro

únicas incidências de “Ótimo”. Por onze vezes amargou o conceito “Medíocre” no boletim,

especialmente nas aulas de canto gregoriano e eloquência. Nunca seria, de fato, um grande

orador, apesar do decantado carisma pessoal que lhe faria a fama anos depois. Também

chegaria a receber a mesma avaliação de “Medíocre” em disciplinas fundamentais, como

liturgia, história eclesiástica e teologia dogmática. Crescido em meio ao catolicismo popular

dos sertões, era difícil enquadrá-lo na rigidez e na ortodoxia ultramontanas do seminário

dirigido pelo reitor Pierre-Auguste Chevalier.

O padre Chevalier, que chegara ao Brasil havia oito anos, ostentava o conceito de homem

inflexível. Costumava-se dizer que, de tão asceta, nascera desprovido do sentido do paladar:

comia apenas para se manter vivo, sem a menor possibilidade de vir a ser seduzido por

tentações mundanas, até mesmo pelos mais frugais prazeres da mesa. Nascido na vila histórica

de Saint-Riquier, no norte da França, desembarcara no país em 1857 e, sete anos depois de

trabalhar em missões religiosas da Bahia, fora convocado pelo bispo do Ceará, dom Luiz

Antônio dos Santos, para dirigir o Seminário da Prainha. A escolha de seu nome não se dera à

toa.

Dom Luiz, formado pelos padres lazaristas do Seminário de Mariana, um dos principais

centros da implantação do ultramontanismo no Brasil, encontrou em Chevalier, igualmente

lazarista e rigoroso, alguém com o perfil adequado para formar os novos membros da Igreja

no Ceará. Com efeito, no Seminário da Prainha, Chevalier parecia nunca baixar a guarda.

Cícero sabia que o reitor era sempre o primeiro a acordar, por volta das quatro horas da

manhã, e o último a deitar, após constatar que todos já haviam se recolhido a seus respectivos

catres. Era Chevalier também que, pessoalmente, com a estrepitosa sineta, convocava padres e

seminaristas para as horas de oração. Substituía professores ausentes, confessava alunos,

rezava missas, fiscalizava correspondências, vigiava corredores, esquadrinhava dormitórios,

perscrutava salas de banho e de estudo. Como reitor do seminário, presidia o Conselho de

Ordenação, que ajuizava o desempenho individual e a disciplina dos jovens seminaristas

como Cícero, estabelecendo quais entre eles estavam suficientemente aptos a receber as

devidas ordens eclesiásticas e, assim, a se tornarem futuros párocos. Em 8 de setembro de

1867, após quase três anos como aluno, o nome de Cícero Romão Batista apareceu, pela

primeira vez, no livro de registros e ocorrências do Conselho.

Aos 23 anos, aluno do curso teológico, Cícero desempenhava a função de monitor de

seminaristas mais jovens. Apesar disso, sua avaliação não foi muito positiva. Ao contrário,

Chevalier reservou-

-lhe severa reprimenda por escrito: “Foi dito que ele não receberá a ordenação, porque desde

muito tempo ele não se confessa na comunidade”, constou, em francês, com letra garranchosa e

quase indecifrável, na ata do Conselho. “Ele tem muitas ideias confusas; tem muita confiança

em sua própria razão; a primeira é tanto mais grave, uma vez que ele exerce cargo no

Seminário”, dizia a mesma anotação, que arrematava: “Por isto foi dito a ele que, se continuar

assim, não poderá ocupar-se mais desse ofício”.

Era apenas uma advertência, ainda que já estivesse claro o tom de severa ameaça. Alguns

colegas de Cícero não tiveram idêntica sorte. Muitos foram os companheiros de turma que,

por um ou outro motivo, viram seus nomes na lista de alunos desligados em definitivo da

instituição. No ano anterior àquela anotação do Conselho sobre Cícero Romão Batista, em

julho de 1866, um jovem seminarista havia sido expulso sob a justificativa pouco lisonjeira de

“preguiça e vadiação”. Padre Chevalier não podia saber, mas naquele dia defenestrou dos

seletos quadros do seminário da Prainha o futuro historiador Capistrano de Abreu.

O jovem José Marrocos — dois anos mais velho que Cícero e filho de seu antigo

professor de latim, padre João Marrocos — seria outro a ter a matrícula cancelada. No caso, a

acusação foi ainda mais grave. Seu nome seria simplesmente apagado, quase por completo,

dos registros da casa. A direção da escola decidiu que, por ser filho de padre, Marrocos

trouxera uma mancha moral e indelével desde o nascimento, o que aos olhos e ao conceito

ultramontano o tornava um indivíduo inadequado ao exercício do sacerdócio. Marrocos ainda

chegou a escrever duas cartas diretamente a dom Luiz, implorando para que o bispo

intercedesse a seu favor e o mantivesse no quadro de alunos da casa. “Vossa Excelência, que

se aproxima cada vez mais da Divindade, se digne por um rasgo de misericórdia atender

benignamente a súplica de quem na sinceridade da contrição promete uma conduta em tudo

oposta àquela que poderia arredá-lo do seminário”, rogou. Em vão. Mesmo com aquele

pungente apelo à instância superior, a decisão de Chevalier foi respeitada e mantida.

Marrocos estava expulso.

O reitor, é bem verdade, apenas cumpria o papel de zelar pela formação de uma nova

geração de sacerdotes moral e intelectualmente capazes, rigorosos defensores da doutrina

católica. Mas a formação europeia de Chevalier, com sua fidelidade irrestrita às diretrizes de

Roma, só podia entender como tola superstição as manifestações da fé sertaneja expressas

pelo jovem Cícero. Do seu lado, o rapaz resistia. Palmatória quebra dedo, mas não quebra

opinião.

Um ano depois da primeira censura partida do Conselho de Ordenação, as

desinteligências entre Cícero e o reitor apenas se agravaram. “Ele não frequenta os

sacramentos, é opinioso e pouco regular, apesar do emprego de confiança que ele tem”,

constou Chevalier na ata do Conselho datada de 12 de maio de 1868, com a letra tortuosa de

sempre. Seis meses depois, em 9 de novembro, o mesmo Conselho tentou selar a sorte de

Cícero Romão Batista: “Não se falou do senhor Cícero, cujo estado era o mesmo e, em razão

disto, foi dito que entender-se-iam com o Sr. bispo para rogar que o retirasse do Seminário”.

Parecia ser o fim da história.

Em que pese a resolução de Chevalier, dom Luiz decidiu pela ordenação do seminarista.

Há quem diga que isso se deveu, mais uma vez, à ação direta do padrinho de crisma de

Cícero, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, que teria ido a galope do Crato a Fortaleza

para advogar por seu afilhado. Como moeda de troca, diz-se que o coronel teria oferecido

polpudos donativos à diocese. Não existe nenhuma comprovação documental a esse respeito.

Mas não há dúvidas de que Alves Pequeno e dom Luiz mantinham estreita relação de amizade.

Muito provavelmente por causa disso, Cícero sempre tivera o bispo como confessor, desde os

primeiros dias de seminário. Assim, mesmo com a incumbência oficial de aprimorar o clero

sob sua tutela, dom Luiz resolveu dar um voto de confiança ao seminarista que jamais caíra

nas graças do respeitável reitor Chevalier.

Em 30 de novembro de 1870, por decisão direta de dom Luiz, Cícero Romão Batista foi

ordenado sacerdote, aos 26 anos, na antiga Igreja da Sé, em Fortaleza. Pouco depois de

receber as ordens, selou um cavalo e seguiu para o Crato, onde deveria rezar a primeira

missa. Uma curiosa — ou premeditada? — coincidência marcaria a volta à terra natal. Cícero,

já padre, chegou justamente na primeira hora, do primeiro dia, do primeiro mês, do primeiro

ano de uma década que se iniciava. Era 1 hora de 1/1/1871. Para quem, como ele, acreditava

em forças misteriosas e mensagens do outro mundo, nada poderia soar como mais cabalístico

e premonitório dos muitos prodígios que ainda estavam por vir.

2

Visão da Última Ceia

muda rumo da história:

Belzebu não samba mais no Juazeiro

1871-1889

Treze homens de barbas e cabelos compridos, pés em alpercatas, entraram no quartinho

da escola onde o recém-ordenado Cícero Romão Batista dormia. Vinham vestidos com longas

túnicas brancas e se postaram em volta de uma mesa. Um deles, ao centro do grupo, abriu os

braços e centralizou a atenção dos demais. A cena, para Cícero, era inconfundível. Ali

estavam, diante dele, os doze apóstolos e o próprio Jesus Cristo, tal e qual haviam sido

retratados em uma das pinturas mais célebres de todo o mundo: a Última Ceia, de Leonardo

da Vinci. A diferença é que Cristo, ao contrário do simples manto azul sobre a túnica

vermelha com que aparecia no famoso mural do pintor renascentista, trazia o peito em chamas,

a exemplo das gravuras populares do Sagrado Coração. Quando Jesus começou a falar aos

discípulos reunidos em torno de si, uma multidão de sertanejos apontou na porta. Homens e

mulheres carregavam trouxas miseráveis nos ombros e, sobre o corpo esquelético, trajavam

apenas farrapos. Os muitos meninos que traziam pela mão estavam sujos, remelentos e

completamente nus. Jesus Cristo dirigiu-lhes a palavra e prometeu que faria um último esforço