Paixões, sentimentos morais e emoções. Uma história do poder emocional sobre o homem econômico por Daniel Pereira Andrade - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

Exemplar Original

PAIXÕES, SENTIMENTOS MORAIS E EMOÇÕES

Uma história do poder emocional sobre o homem econômico

Daniel Pereira Andrade

Tese apresentada ao Departamento de

Sociologia da Faculdade de Filosofia,

Letras

e

Ciências

Humanas

da

Universidade de São Paulo, para a

obtenção de título de Doutor em

Sociologia.

Orientador: Prof. Dr. José Carlos Bruni

v. 1

São Paulo

- 2011 -

Aos meus pais,

sempre.

Ao Eduardo,

porque toda nova vida traz consigo uma esperança para o mundo Ŕ que ela se realize!

Ao meu irmão, José Luis, e à minha amiga e cunhada, Sibela,

grandes companheiros.

2

AGRADECIMENTOS

Ao final desses anos de doutorado, há muitas pessoas a quem prestar

reconhecimento. De início, agradeço a confiança, o incentivo e a orientação de José

Carlos Bruni. Nesses dez anos em que trabalhamos juntos, Bruni foi para mim mais do

que um orientador, foi um exemplo de integridade intelectual e pessoal. Importante da

mesma forma para essa tese foi a co-orientação de Claudine Haroche, que me acolheu

na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, para a realização

de meu doutorado-sanduíche em 2009. Os encontros e discussões sempre instigantes

muito me inspiraram para os novos rumos que a pesquisa seguiu após o exame de

qualificação. Mas esses novos rumos tampouco teriam sido possíveis sem as questões e

sugestões fundamentais que os professores que participaram da banca de qualificação,

Sérgio Adorno e Ângelo Soares, propuseram na ocasião. Por isso, a ambos sou muito

grato, pois, sem sua contribuição, este trabalho não teria sido possível. Do mesmo

modo, agradeço as críticas e observações dos professores da banca de defesa, Sérgio

Adorno, Nadya Araújo Guimarães, Maria Claudia Pereira Coelho e Isleide Fontenelle. E

não poderia deixar de agradecer também aos meus professores da FFLCH/USP, que me

formaram ao longo desses 15 anos de vida universitária e a quem tenho muita

admiração.

Muitos amigos e colegas foram valiosos interlocutores em relação às ideias

dessa tese, contribuindo direta ou indiretamente para a sua realização. Meus amigos

Rosa Maria Vieira e Paulo Douglas Barsotti, Rafael Alcadipani, Isleide Fontenelle,

Osvaldo López-Ruiz, Antônio Gelis, Seiji Uchida, Roberto Heloani, Antonio Valverde,

Marco Antonio Teixeira, Ricardo Bresler, Fernando Nogueira e muitos outros que

acompanharam e participaram do processo nas inúmeras conversas que tivemos na

Fundação Getúlio Vargas. Sou agradecido também aos meus companheiros de

doutorado com os quais compartilhei discussões e alguns chopes: Silvia Viana

Rodrigues, José César, Marta Kanashiro, Arlene Ricoldi, Fábio Cardoso, Juliana, Flávio

Moura, Lilian e demais colegas. E ainda um reconhecimento especial aos meus amigos

do grupo de estudos Sintoma Social, cujas discussões frutíferas muito auxiliaram no

desenvolvimento das ideias deste trabalho: Leandro Siqueira, Luciano Pereira, Arthur

Bueno e Nilton Ota.

3

Na sequência dos agradecimentos, uma constatação. Se, por um lado, nossa

existência é inevitavelmente solitária, pois somente nós podemos vivenciar aquilo por

que passamos (e que ninguém mais pode passar por nós), por outro, essa mesma

existência é rica de companhias, pois carregamos em nós os efeitos dos nossos

encontros e desencontros. Há muita gente na gente, há sempre em nós muito dos outros,

das nossas relações, do que vivemos juntos, sofremos juntos, sofremos separados, de

pessoas com quem compartilhamos tristezas e alegrias, que nos ajudaram a voltar a

sorrir, pessoas com quem nos perdemos juntos e com quem renascemos juntos. Amo

todas essas pessoas, amo cada uma de um jeito diferente, e carrego todas elas em mim,

como a marca inapagável desses anos muito intensos e, por vezes, extremamente

difíceis que atravessei no doutorado. Meus agradecimentos na ordem de acontecimentos

a Tábata Sales de Miranda, Francine Guerra Corrêa, Camila Pado, Mariana Côrtes,

João, Guido Marcondes, Miqueli Michetti, Paulo da Costa, Ludmila Abílio, Luiza

Stankevicins, Alessandra Bortoni, Fábio Cardoso, Rafael Alcadipani, Roberta Roque e

Carolina Roque. A Carolina Roque não posso deixar de agradecer o companheirismo e a

ajuda nesses estressantes momentos finais. Várias dessas pessoas se tornaram amigos

recentes, especialmente na minha passagem pela França. Aos meus amigos

“parisienses” ainda acrescento Aline Miklos, Fábio Leão, Bernardo Buarque de

Hollanda, Jacques Fux, Amanda Dias, Sheyla Schuvartz Zandonai, Alexandre Siqueira

de Freitas, Patrícia Rodriges e Guénolé Labéy-Guimard. Saudades de nossos cafés na

biblioteca da Maison des Sciences de l‟Homme e na Maison du Brésil.

Algumas pessoas estão ao nosso lado há tanto tempo que parece que sempre

estiveram lá e que lá sempre estarão, ocupando seu lugar de direito nos nossos afetos

mais profundos. Mudando elas ou mudando eu, sumindo por algum tempo ou estando

sempre presentes, seguimos juntos no nosso caminho. Meu muito obrigado aos meus

pais, Luis e Lusitana, ao meu irmão, José Luis, e à minha cunhada e amiga Sibela

Vasconcelos, e também a Selma Vasconcelos, Augusto Queiroz, Ivan Lisboa,

Alexandre Gordinho, Walter Oda, Daniela Pereira, Rodrigo C. Campos, Daniel Ortega,

Camila e Patrícia Gimenes, Gustavo Henrique Piccoli, Renata Vilela Sampaio, Márcio

Macedo, Petrônio de Tílio Neto, Antônio Gracias, Ciça Bueno, Alex Vega, Joana Saruê,

Maíra Saruê, Guilherme Flynn, Milena Tosca, Muryatan Barbosa, Rodrigo Linhares,

José Dutra e a toda a minha família Ŕ que gostaria de citar nominalmente, mas não

posso, pois resultaria em outras tantas páginas. Espero não ter me esquecido de

4

ninguém, mas, se ocorreu, minhas desculpas antecipadas Ŕ a memória às vezes nos

prega peças...

Não poderia deixar de reconhecer também o trabalho das secretárias do

departamento de sociologia da FFLCH/USP, especialmente Ângela e Irani, que sempre

me apoiaram institucionalmente em tudo de que precisei. E presto meu reconhecimento

também a Maria Helena Amaral, pela revisão cuidadosa do texto.

Por fim, agradeço à CAPES e ao CNPq, que financiaram esta pesquisa, e

novamente à CAPES, que financiou o meu doutorado-sanduíche em Paris.

5

SUMÁRIO

RESUMO ......................................................................................................................... 9

ABSTRACT .................................................................................................................. 10

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 12

METODOLOGIA TEÓRICA .................................................................................... 24

História do presente ................................................................................................ 25

Genealogia .............................................................................................................. 26

Genealogia da ética ................................................................................................. 29

A construção social das emoções ........................................................................... 30

A governamentalidade e as concepções de vida “emocional” ............................... 33

PARTE I

PAIXÕES, SENTIMENTOS MORAIS E EMOÇÕES: A PROBLEMATIZAÇÃO

DA VIDA “EMOCIONAL” NA EMERGÊNCIA DO HOMO ŒCONOMICUS . 37

CAPÍTULO I – As paixões: motores naturais do homo œconomicus ...................... 41

A EMERGÊNCIA DO HOMO ŒCONOMICUS ...................................................... 41

AS PAIXÕES: MOTORES NATURAIS DO HOMO ŒCONOMICUS .................. 46

A transformação das paixões nos séculos XVII e XVIII........................................ 47

O corpo sensível como lócus das paixões .............................................................. 53

O cálculo e a razão enraizados nas paixões e no corpo sensível ............................ 57

A gestão das paixões: interesse e utilidade ............................................................. 61

A ordem espontânea dos interesses e o deslocamento da moral ............................ 68

CAPÍTULO II – Os sentimentos morais: reação conservadora e emergência do

homo socialis .................................................................................................................. 72

O CONSERVADORISMO COMO ARTE DE GOVERNO ..................................... 73

OS SENTIMENTOS MORAIS .................................................................................. 87

Senso moral ............................................................................................................ 88

Simpatia .................................................................................................................. 97

Sentimentos coletivos ou sociais .......................................................................... 107

Sentimentos ontológicos ....................................................................................... 119

CAPÍTULO III – As emoções: gestão psiquiátrica por meio dos instintos e

emergência do homo psychologicus ........................................................................... 124

A EMERGÊNCIA DAS EMOÇÕES EM MEIO À PSICOLOGIA FÍSICA .......... 124

A emergência do conceito de emoções nos textos de Thomas Brown ................. 124

A apropriação das emoções de Thomas Brown pela psicologia física ................. 127

O HOMO PSYCHOLOGICUS E A GESTÃO PSIQUIÁTRICA DAS EMOÇÕES 129

A relação entre transgressão da norma, instinto e emoções ................................. 130

A gestão das emoções por meio dos instintos na tecnologia eugênica ................. 135

A gestão psicanalítica das pulsões e a substituição das emoções pelos afetos ..... 141

CONCLUSÃO DA PARTE I: Paixões, sentimentos e emoções ............................. 144

6

PARTE II:

O HOMEM ECONÔMICO EMOCIONAL E A PROBLEMATIZAÇÃO DA

VIDA “EMOCIONAL” PELO MANAGEMENT NO NEOLIBERALISMO ..... 151

CAPÍTULO IV - A emergência das “emoções” no âmbito da administração ...... 161

A EMERGÊNCIA DO MANAGEMENT COM A MODERNA EMPRESA DE

NEGÓCIOS .............................................................................................................. 162

A EMERGÊNCIA DAS CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO E A

PROFISSIONALIZAÇÃO DO MANAGEMENT .................................................. 173

A ADMINISTRAÇÃO CIENTÍFICA, O HOMO ŒCONOMICUS E AS PAIXÕES

EGOÍSTAS ............................................................................................................... 176

O MARKETING COMO DISCIPLINARIZAÇÃO DA ECONOMIA DE

MERCADO E COMO DISCIPLINA ECONÔMICA ACADÊMICA .................... 187

A EMERGÊNCIA DA PSICOLOGIA NA ADMINISTRAÇÃO E A

CONSTRUÇÃO DO CONSUMIDOR COMO SER EMOCIONAL ...................... 200

A EMERGÊNCIA DA PSICOLOGIA INDUSTRIAL E A CONCEPÇÃO DO

TRABALHADOR COMO SER EMOCIONAL ...................................................... 212

AS EXPERIÊNCIAS DE HAWTHORNE E A EMERGÊNCIA DO

TRABALHADOR COMO SER SENTIMENTAL .................................................. 219

A ADMINISTRAÇÃO E A GESTÃO CONTRADITÓRIA DA VIDA

“EMOCIONAL” DE TRABALHADORES E CONSUMIDORES ........................ 230

CAPÍTULO V – As críticas do neoliberalismo e da contracultura ao fordismo

como condições de possibilidade do homem econômico emocional ...................... 236

O CAPITALISMO FORDISTA E SUA LÓGICA ADMINISTRATIVA ............... 237

A CONTESTAÇÃO AO FORDISMO: CONTRACULTURA E

NEOLIBERALISMO ............................................................................................... 243

A crítica da contracultura: a mobilização das emoções e dos sentimentos

ontológicos e coletivos contra a administração científica .................................... 243

Os resultados ambíguos da crítica da contracultura sobre a Administração ........ 268

A crítica do neoliberalismo: a renovação do homo œconomicus pela teoria do

capital humano ...................................................................................................... 280

A emergência do capital humano no discurso da Administração ......................... 286

As afinidades entre a contracultura e o neoliberalismo e a renovação do discurso da

Administração ....................................................................................................... 293

CAPÍTULO VI – A emergência do homo œconomicus emocional no discurso das

Ciências da Administração ........................................................................................ 299

CULTURA ORGANIZACIONAL: UMA NOVA ESTRATÉGIA DE CONTROLE

DO TRABALHO ...................................................................................................... 302

CONSUMO DE EXPERIÊNCIAS: NOVA ESTRATÉGIA DE CONTROLE DO

CONSUMO .............................................................................................................. 322

AS TRANSFORMAÇÕES DO TRABALHO: O TRABALHO IMATERIAL E SEU

SUBTIPO EMOCIONAL ........................................................................................ 335

DO TRABALHO IMATERIAL AO CAPITAL HUMANO ................................... 345

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL ............................................................................. 349

7

O CAPITAL EMOCIONAL .................................................................................... 367

O HOMEM ECONÔMICO EMOCIONAL E O PODER EMOCIONAL .............. 370

CONCLUSÃO ............................................................................................................. 378

BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 390

8

RESUMO

Esta tese faz uma genealogia da concepção de “homem econômico

emocional”, tal como ele aparece no discurso do management americano a partir dos

anos de 1990. Para tanto, fez-se uma história de longa duração com a finalidade de

compreender como esse sujeito de interesse que estava associado à temática das

paixões nos séculos XVII e XVIII pôde se vincular à temática das emoções, surgida

apenas no século XIX, advinda da psicologia física e da biologia evolucionista. Para

realizar essa história, a tese foi dividida em duas partes. Na primeira, foi abordada a

emergência do homo œconomicus clássico no âmbito da governamentalidade liberal

britânica dos séculos XVII e XVIII e foram diferenciadas as três formas de

problematização e governo da vida “emocional” do sujeito de interesse: as paixões,

no âmbito da vertente utilitarista-radical do liberalismo, os sentimentos morais, no

âmbito da reação do conservadorismo, e as emoções, no âmbito da psicologia física e

do evolucionismo. Cada uma dessas três temáticas surgiu ainda no discurso

antropológico do sujeito de interesse, mas se desenvolveu em sentidos diferentes: as

paixões resultaram no homo œconomicus, os sentimentos morais, no homo socialis e

as emoções, no homo psychologicus. Na segunda parte da tese, demonstra-se como

essas três temáticas adentraram as ciências da administração americanas no século

XX, caracterizando o controle emocional sobre o trabalho e o consumo. Ainda no

discurso do management , essas temáticas se transformaram, em virtude da reação às

contestações antidisciplinares da contracultura, dando origem a uma nova concepção

de emoções que reúne características das três temáticas anteriores. O discurso do

management e, posteriormente, o da teoria econômica neoliberal vinculou essa nova

temática das emoções à noção de homem econômico, caracterizado agora pela ideia

de capital humano. Constituiu-se, assim, o homem econômico emocional, formando

uma distinta concepção antropológica e uma inédita coerência dos dispositivos de

poder emocional.

Palavras-chave: homem econômico; poder emocional; paixões; sentimentos morais;

emoções.

9

ABSTRACT

Passions, moral sentiments and emotions.

A history of emotional power over the economic man.

This thesis makes a genealogy of the "emotional economic man", as it emerged in the

U.S. management discourse since the 1990s. To do that, it has been drawn a history

of how to understand this "subject of interest" associated to the theme of passions in

the XVII and XVIII centuries. Such theme has been linked to the theme of emotions

that was only originated in the XIX century related to the biological psychology and

evolutionary biology. To carry out this history, this thesis has been divided in two

parts. At the first part, the emergence of homo economicus in the classical liberal

governmentality of British seventeenth and eighteenth centuries was discussed, and

three forms of government and questioning of his "emotional" life were

distinguished: the passions, under the utilitarian aspect of the radical liberalism; the

moral sentiments, in the backlash of conservatism; and the emotions in the

psychological and biological evolutionism. Each of these three themes arose in the

anthropological discourse of the subject of interest, but were developed in different

directions: the passions resulted in the homo economicus, the moral sentiments in the

homo socialis, and the emotions in the homo psychologicus. In the second part of the

thesis, it is shown how these three themes were inserted into the American

administration science discourse in the twentieth century, characterizing emotional

control over workers and consumers. Still in the discourse of management, these

issues were transformed due to the reaction against antidisciplinaries countercultural

contestations, giving rise to a new conception of emotions that includes

characteristics of the three themes featured above. This new theme of emotions will

be bound by the discourse of management and subsequently by the discourse of

economic theory regarding the economic man, which is now characterized by the

idea of human capital. The emotional economic man is thereby constituted, forming

a new anthropological concept and a new device of emotional power.

Key-words: economic man; emotional power; passions; moral sentiments; emotions.

10

A crítica ontológica de nós mesmos [...] deve conceber-se

como uma atitude, um ethos, uma vida filosófica em que a

crítica ao que somos é simultaneamente uma análise

histórica dos limites que se nos impõem e um experimento

que torna possível ultrapassá-los.

Ŕ Michel Foucault ( O que é a Ilustração? )

11

INTRODUÇÃO

O homem econômico é um ser “emocional”. Ele pode ser movido por suas

paixões, sentir moralmente nas suas relações com os outros e consigo mesmo, escapar

ao controle pelo automatismo involuntário de suas emoções, e ainda, pode gerir suas

próprias competências emocionais e as alheias para valorizar seu capital humano. Essas

diferentes concepções emocionais do homem econômico, no entanto, costumam ser

ofuscadas e esquecidas pela ênfase dada à sua fria racionalidade. É sempre a lógica de

maximização das utilidades pessoais ou o cálculo de investimento que são colocados em

primeiro plano, dando muitas vezes a entender que se trataria de um ser movido pura e

exclusivamente pelo cálculo racional da busca de interesses.

Desde sua emergência nos séculos XVII e XVIII, porém, a vida “emocional” do

homo œconomicus foi problematizada de diferentes formas. Ao oferecer definições

distintas sobre o que é a “emoção” de modo geral, quais são as suas fontes causadoras,

como ela se relaciona com as demais faculdades da mente e com as diferentes

concepções sobre o corpo, como ela determina as condutas, as relações consigo mesmo

e com os outros e a vida em sociedade, as problematizações sobre a vida “emocional”

do homem econômico compõem os discursos antropológicos sobre ele e definem

estratégias para governá-lo. Os discursos sobre as “emoções” do homem econômico

são, pois, inseparáveis de estratégias de poder “emocional” que constroem

subjetividades e procuram moldar os seres humanos a ideais antropológicos e a

determinadas visões de ordem social.

Mais recentemente, ao menos desde meados da década de 1990, uma atenção

especial tem sido dedicada à participação das emoções nas condutas econômicas. Essa

figura particular do homem econômico emocional emergiu no discurso do management

americano e se difundiu pela teoria econômica neoliberal. Temáticas como as do capital

emocional, da inteligência emocional, do consumo de experiências, da cultura

organizacional, da liderança emocional, entre outras, têm ressaltado que a racionalidade

pura dos agentes econômicos, de trabalhadores e de consumidores é uma ficção, um

mito da filosofia e da cultura ocidentais que mais atrapalha do que ajuda na

compreensão dos fenômenos econômicos, na administração de pessoas nas organizações

e na gestão dos clientes no mercado. Juntamente com essas afirmações, discute-se

12

amplamente o que são as emoções e como elas podem ser administradas e/ou

autogeridas para se obterem desempenhos mais eficientes e se alavancarem os ganhos

econômicos. Constituiu-se, assim, essa figura antropológica do homem econômico

emocional com todo um conjunto de dispositivos de poder emocional para geri-lo e

construí-lo como tal.

O objetivo deste trabalho é fazer uma genealogia desse homem econômico

emocional que emergiu nas últimas duas ou três décadas no discurso do management

americano e da teoria econômica neoliberal. Tal objetivo acarreta fazer tanto uma

história do próprio homem econômico, como também das concepções gerais de vida

“emocional” ligadas a ele, as quais definiram diversos estilos de racionalidade de

governo “emocional” dos seres humanos, com diferentes dispositivos de poder.

A história do homo œconomicus tomada por modelo aqui é aquela proposta por

Michel Foucault em seu curso Naissance de la biopolitique (2004) e desenvolvida por

Christian Laval ( L’homme économique, 2007) e Christian Laval e Pierre Dardot ( La

nouvelle raison du monde, 2009) e Osvaldo López-Ruiz ( Os executivos das

transnacionais e o novo espírito do capitalismo, 2007). Essa história iniciou-se com a

emergência do chamado “sujeito de interesse” na filosofia britânica do final do século

XVII e no século XVIII, passou pela sua conversão em homo œconomicus pela teoria

econômica da segunda metade do século XIX e começo do século XX e se converteu

ainda na concepção de capital humano com os economistas neoliberais americanos da

segunda metade do século XX e início do XXI.

A questão central desta tese, no entanto, refere-se não tanto a uma história do

homem econômico em geral, mas a um objeto mais precisamente delimitado, que é a

história das concepções de vida “emocional” vinculadas a ele. É a problematização e o

governo “emocional” do homem econômico que constituem o objeto de uma história

genealógica aqui, embora evidentemente essas formas de problematização e governo

“emocionais” componham e sejam indistinguíveis da governamentalidade do próprio

homem econômico de modo geral. Por outro lado, essas problematizações “emocionais”

ultrapassam o homem econômico e se estendem para outras concepções antropológicas

como a do homo socialis e do homo psychologicus. Entretanto, o objeto da tese se refere

apenas à intersecção do homem econômico com essas diferentes concepções da vida

emocional, ou, se o ultrapassam, é somente quando as concepções de vida “emocional”

surgidas e desenvolvidas alhures convergem posteriormente para o homem econômico.

13

A história da problematização da vida “emocional” do homem econômico foi

acompanhada em duas fases e em dois conjuntos de discursos. Em primeiro lugar, na

filosofia britânica dos séculos XVII e XVIII, que constituiu a visão antropológica do

sujeito de interesse que fundamentou a teoria econômica clássica e neoclássica. Em

segundo lugar, no discurso do management americano dos séculos XX e XXI, já que ele

tanto incorporou a visão clássica do homo œconomicus, como a sua transformação pelos

economistas neoliberais da segunda metade do século XX. A atenção a esses discursos,

ao invés do foco na própria teoria econômica, se deve ao fato de que é por meio das

suas problematizações, e não da economia acadêmica, que as concepções “emocionais”

do homem econômico se constituíram e se vincularam a ele. Tanto a filosofia britânica

dos séculos XVII e XVIII, quanto as ciências da administração americanas do século

XX constituem discursos de governamentalidade, embora os primeiros tenham se dado

no âmbito estatal e os segundos no das grandes corporações. A governamentalidade, de

modo geral, é a racionalização discursiva das práticas de governo, ou seja, a reflexão

que determina seu domínio de atuação, seus diferentes objetos, suas regras gerais, seus

objetivos de conjunto, a fim de governar da melhor maneira possível (Foucault, 2004, p.

4).

Foucault concentrou suas análises nas formas de governamentalidade estatais,

mas é possível pensar que o discurso da Administração de Empresas cumpre nas

corporações o mesmo papel que o discurso da Administração Pública no âmbito do

Estado, embora atuando em outro nível, com um alcance menor e com finalidades

econômicas mais precisas. Pode-se falar também de uma governamentalidade

corporativa, especialmente no caso das grandes empresas. No âmbito do discurso do

management, o governo do homem econômico se desdobra no governo dos

trabalhadores e do mercado de consumidores e clientes. Esta tese, portanto, faz uma

história da governamentalidade “emocional” sobre o homem econômico.

Seria impossível, evidentemente, dar conta de tudo que os textos da filosofia

britânica e das ciências da administração americanas do período escreveram sobre as

“emoções”. Tampouco é essa a pretensão. O que se fez aqui foi apenas uma história,

dentre outras possíveis, da governamentalidade das “emoções”. Além disso, não se trata

de fazer uma história de emoções específicas, mas de concepções gerais sobre o que é a

vida “emocional”. Concepções que se constituem lentamente, cujas transformações só

podem ser observadas em uma história de longa duração. Como essas concepções gerais

são problematizadas em alguns textos teóricos centrais da filosofia e da ciência da

14

administração e perpassam o discurso sobre as emoções específicas, torna-se

desnecessária a leitura de um número excessivamente grande de textos. Mais

fundamental se torna a leitura dos textos-chave de formulação dessas concepções e

daqueles por meio dos quais as concepções são modificadas ou completamente

transformadas. Há também os textos de historiadores sobre essas concepções, que

servem tanto de fonte secundária como de seleção prévia das fontes primárias a serem

lidas.

Dentre os trabalhos desses historiadores, algumas aproximações e

distanciamentos marcam a questão aqui formulada. Em primeiro lugar, fazer uma

história da governamentalidade “emocional” do homem econômico contém algumas

armadilhas. A primeira delas é que o termo emoções, concepção que hoje em dia é a

predominante e abrangente para denominar essa classe de fenômenos, é ela mesma uma

parte dessa história, mais do que isso, o seu último capítulo, estando o seu conceito

vinculado a uma formação discursiva e a estratégias específicas de governo do homem

econômico. Fazer uma história das emoções seria, portanto, um anacronismo,

projetando uma determinada concepção de vida “emocional” no passado. Esse parece

ter sido o caso do livro de Robert Solomon, The passions: emotions and the meaning of

life (1993), no qual o autor traça a história de formação sob uma ótica negativa das

emoções por influência do ponto de vista racionalista predominante na filosofia e na

cultura ocidentais. Segundo essa perspectiva, as emoções e a razão seriam antagônicas,

e a última deveria se impor sobre o caráter inerentemente corporal, involuntário e

irracional das primeiras. No entanto, Solomon só pôde fazer essa generalização por não

diferenciar as emoções de outras concepções da vida “emocional” que a precedem e

prosseguem por vezes ao seu lado, como é o caso das paixões e dos sentimentos morais,

que envolvem em sua definição elementos cognitivos de cálculo e de julgamentos

morais.

Dessa forma, a história realizada neste estudo aproxima-se mais do modelo

proposto por outro historiador, Thomas Dixon. Em seu livro From passions to emotions

(2003), Dixon descreve uma história especificamente do termo emoção e do seu uso

teórico autônomo. Ele difere assim o conceito de emoções de outras concepções da vida

“emocional”, como as paixões, os sentimentos e os afetos, demonstrando que tal

categoria só emergiu nos anos de 1820 com os trabalhos de Thomas Brown e ganhou

um amplo uso com a apropriação do conceito na segunda metade do século XIX pela

psicologia física e pelo evolucionismo biológico.

15

Com essa significativa diferenciação em vista, dois cuidados foram adotados na

história aqui realizada. Em primeiro lugar, quando se afirma que se vai fazer uma

história da problematização e do governo das “emoções” ou da vida “emocional” do

homem econômico, colocou-se, prudentemente, o termo “emoções” e seus derivados

entre “aspas”. E essa estratégia, justamente, para evitar o anacronismo realizado por

Solomon e denunciado por Dixon. No entanto, como o termo “emoção” é o termo

genérico adotado hoje em dia para designar esse objeto comum às temáticas das

paixões, dos sentimentos morais e das emoções, e como estamos fazendo uma

genealogia dessa figura contemporânea do homem econômico emocional, conservamos

o termo como designação genérica dessas diferentes concepções. As aspas servem

especialmente para diferenciar quando estamos nos referindo de modo genérico ao

conjunto das diferentes concepções ou à vida “emocional” de forma geral e, na sua

ausência, quando estamos nos referindo ao uso histórico particular e delimitado do

termo emoções, que emergiu no século XIX e se tornou dominante ao longo e,

sobretudo, no final do século XX, quando foi transformado e assumiu outro sentido. De

certo modo, ao contar a história particular da concepção de emoção, acabou-se por

chegar a esta concepção de “emoções” dominante e abrangente na atualidade, presente

no conceito de homem econômico emocional e adotada, em alguma medida, por este

próprio trabalho.

Além do trabalho de Dixon, que enfatiza principalmente a história da concepção

de emoções, seguimos outros autores que têm o mesmo cuidado em relação à

singularidade do uso histórico do termo paixões. Os relevantes artigos de Erich

Auerbach, Passio als Leidenschaft, lido aqui em sua tradução francesa de 1998, e de

Pierre-François Moreau, Les passions: cotinuités et tournants, de 2003, e o livro de

Albert Hirschman, The passions and the interests, lido em sua tradução francesa de

1980, serviram de base para a compreensão dessa concepção na sua relação com o

homem econômico. Já em relação aos sentimentos morais [ moral sentiments], foi

preciso realizar por conta própria uma história do termo no chamado iluminismo

escocês ( Scottish Enlightenment) (Butler, 1996; Hume, 2001; Smith, 1999; Ferguson,

1995; Waszek, 1988 e 2003; Broadie, 2003 e outros) e seu posterior desenvolvimento

no âmbito do conservadorismo europeu (Nisbet, 1981 e 1987; Mannheim, 1982;

Durkheim, 1975, 1989, 1995, 2004 e 2008) e do romantismo alemão (Gusdorf, 1993).

As paixões, os sentimentos morais e as emoções são as três concepções que

foram mobilizadas para caracterizar a vida emocional do homem econômico ao longo

16

de sua história de quase quatro séculos. As paixões formaram a concepção inicial e

predominante de vida “emocional” do sujeito de interesse nos séculos XVII e XVIII, os

sentimentos morais se juntaram a ela ainda na primeira metade do século XVIII e as

emoções, apenas no século XIX. As emoções, no entanto, tornaram-se ao longo do

século XX o termo predominante e passaram por uma importante transformação a partir

do final da década de 1960 por meio da contracultura e, posteriormente, já na década de

1980, pela incorporação parcial da concepção da contracultura pelo discurso do

management, formando assim finalmente o homem econômico emocional.

Diferentemente dos historiadores que realizam antes de tudo uma história das

ideias, as concepções de paixões, sentimentos morais e emoções são colocadas em

relação ao governo especificamente do homem econômico, compondo não apenas seu

discurso antropológico, mas também a racionalização dos dispositivos de poder

“emocional” que incidem sobre ele. Ou seja, as concepções de vida “emocional” são

analisadas aqui como componentes de formas de governamentalidade. Dessa forma, as

“emoções”, os discursos e os poderes entram em relações recíprocas e a história

ultrapassa a história das ideias, adentrando uma discussão simultaneamente política,

sociológica, psicológica e econômica sobre a transformação das maneiras de sentir.

Outros sociólogos abordaram a questão da transformação das maneiras de sentir,

mas com base em outras questões teóricas. Stjepan Mestrovic, em seu Postemotional

society (1997), propõe o conceito de postemotionalism como substituto para o de pós-

modernidade. Dialogando com a tese de Jean Baudrillard sobre a morte do social,

Mestrovic afirma que, com a difusão dos meios de comunicação de massa, da televisão

em particular, os contatos humanos diretos teriam sido substituídos pelos contatos com

as imagens e representações. Porém, as imagens midiáticas absorvidas de modo privado

e mediadas por filtros cognitivos não seriam capazes de produzir a mesma efervescência

coletiva autêntica da espontaneidade dos grupos reunidos em assembleia. Daí resultaria

que humanos pós-emocionais tentassem desesperadamente recapturar a energia

emocional que era habitualmente realizada pela efervescência coletiva, ainda que

falhassem mais frequentemente do que obtivessem sucesso (Mestrovic, 1997, p. 102).

De acordo com Mestrovic, existe uma diferença fundamental entre os ritos

tradicionais que despertavam uma autêntica efervescência coletiva e as tentativas

mecânicas e rotineiras da sociedade pós-emocional de simulá-la sem sucesso. A

sociedade pós-emocional seria marcada, então, pela produção de emoções vicárias, pré-

embaladas para consumo, que seriam recicladas do passado ou extraídas de outros

17

contextos culturais. Ocorreria, assim, conforme o termo de George Ritzer, uma

“macdonalização” das experiências emocionais, ao lhes estender os valores da

mecanização, como a eficiência, a quantificação, o cálculo, a previsibilidade e o

controle. A disseminação dessas emoções ordenadas racionalmente e embaladas

artificialmente para consumo fracassam, segundo Mestrovic, em gerar efervescências

coletivas autênticas, promovendo assim não o fim da vida afetiva, mas uma

incapacidade de produzir e sustentar emoções coletivas e um consequente

empobrecimento da consciência coletiva. Com isso, haveria uma expressiva

fragmentação da solidariedade social e a cisão em grupos particulares de gênero, raça,

etnia, tribos urbanas e uma série de outras divisões que trazem conflito e não

solidariedade. Mestrovic chama de “balkanization” a essa fragmentação social em

pequenos grupos associada a emoções artificialmente produzidas.

Apenas muito parcialmente este trabalho se alinha com as afirmações de

Mestrovic. Em primeiro lugar, é muito complicada a ideia de que a efervescência

coletiva autêntica teria acabado e que teriam sobrado apenas emoções racionalmente

ordenadas e sem espontaneidade, produzidas por tentativas mecânicas e rotineiras de

retomar sem sucesso os rituais tradicionais. A contracultura, por exemplo, parece ter

produzido com bastante sucesso a experiência extática, não apenas por meio do uso de

drogas, mas também por meio de festas, reuniões coletivas e vínculos comunitários. É

bem verdade que os managers procuraram se apropriar dessa efervescência coletiva da

contracultura não somente na esfera do consumo, com a comercialização de

experiências emocionais, como também na esfera do trabalho, com a tentativa de

converter a empresa em uma comunidade com rituais, cerimônias, símbolos e missões,

conforme se observa na temática da cultura organizacional. Por um lado, isso realmente

quer dizer que há uma racionalização estratégica da produção das “emoções”, inclusive

das “emoções” coletivas, com uma tentativa de transformá-las em algo previsível,

controlado e até mesmo mensurável, segundo se pode ver nos surveys de clima

organizacional. Mas da produção deliberada e calculada do êxtase coletivo não se pode

deduzir uma “artificialidade” das emoções, que esses rituais sejam sempre falsificações

insuficientes e que as experiências sejam na verdade quase-emoções, sem a completude

extática das reuniões espontâneas. A própria espontaneidade dos ritos tradicionais pode

ser questionada, uma vez que eles poderiam ser deliberadamente produzidos, embora

não por empresas privadas visando ao lucro.

18

Além disso, as estratégias de ordenação racional das “emoções” por formas de

governo diversas não é uma novidade das últimas três décadas, nem mesmo a ordenação

das “emoções” para fins econômicos. É bem verdade que há, sim, uma transformação

nas estratégias de administração e controle da vida “emocional” a partir dos anos de

1980, o que não significa que não houvesse estratégias anteriores, apenas que elas

diferiam na sua concepção da vida “emocional” e no modo de governá-la. Já o

liberalismo clássico possuía uma problematização da vida “emocional” fundamentada

nas paixões, que deveriam ser controladas pelo cálculo de interesse, o qual não se

opunha às paixões, mas se derivava delas e era mobilizado como a melhor maneira de

realizá-las. A crítica de que o liberalismo promovia um frio racionalismo calculista,

crítica feita pelos conservadores, que mobilizavam o sentimentalismo romântico para se

opor ao utilitarismo e aos direitos naturais, era uma crítica injusta. O que estava em jogo

de fato era a contraposição de duas concepções da vida “emocional” e do modo de

governá-las: as paixões do liberalismo contra os sentimentos morais da crítica

conservadora. O moderno “sujeito de interesse” encontrava-se, pois, no centro dessa

contenda.

O mesmo pode ser dito com relação às estratégias de controle mobilizadas pelo

management. A ideia, defendida, por exemplo, por Nicole Aubert (1994), de que o

controle passaria por uma fase disciplinar taylorista, em que o poder visaria somente ao

corpo, depois por uma fase caracterizada pelo movimento das Relações Humanas, na

qual o poder se deslocaria do corpo para o registro “afetivo e do coração”, e, por fim,

para uma última fase, a atual, em que um novo “sistema managerial” ( système

managinaire) se voltaria para o registro psíquico de modo a “controlar e utilizar da

melhor forma possível a energia psíquica dos indivíduos se esforçando de início para

captar seu imaginário, depois, em seguida, de canalizá-lo para objetivos precisos de

produção e performance” não parece ser inteiramente correta (Aubert, 1994, p.119-120).

É bem verdade que há diferenças essenciais nas estratégias do taylorismo, das relações

humanas e do management contemporâneo na forma como problematizam e gerem as

“emoções”, mas todos tratam e se voltam para a vida “emocional” visando controlá-la.

O taylorismo, ao retomar o modelo disciplinar do utilitarismo liberal e sua visão

antropológica do sujeito de interesse, não se voltou apenas para o corpo, mas também

para as paixões egoístas do trabalhador; o movimento das Relações Humanas, ao

retomar o discurso conservador da sociologia de Durkheim e de Le Play (Mayo, 1945),

atuou sobre os sentimentos morais coletivos; e o management atual colocou as emoções

19

no centro de seus dispositivos de controle, uma concepção de emoções que se

transformou a partir dos anos de 1980 como resposta dos managers aos movimentos

antidisciplinares da contracultura. Desse modo, não obstante Nicole Aubert percebesse

o importante deslocamento das estratégias de gestão, ela se equivocou ao ignorar que

todas essas estratégias se voltaram, partindo de concepções e métodos diferentes, para o

controle da vida “emocional”.

Eva Illouz, em seu Cold intimacies. Emotions and late capitalism (citado aqui

em sua tradução francesa de 2006) parece ter mais clareza com respeito à relação

permanente entre as relações econômicas capitalistas e uma cultura das emoções ou

sentimentos [ feelings]. Cultura emocional que, a seu ver, seria extremamente

profissionalizada e formaria uma ordem emocional que daria sustentação ao modelo

econômico. A autora fala assim de um “capitalismo emocional” (Illouz, 2006, p. 18):

O capitalismo emocional é uma cultura na qual as práticas e os discursos emocionais e

econômicos se influenciam mutuamente, levando assim a um vasto movimento no qual os afetos

tornam-se um componente essencial do comportamento econômico e no qual a vida emocional Ŕ

em particular aquela dos membros das classes médias Ŕ obedece à lógica das relações e das

trocas econômicas. Inevitavelmente, os temas da „racionalização‟ e da transformação das

emoções em mercadorias são recorrentes [...] eu não pressuponho que a economia e as emoções

poderiam ser (ou deveriam ser) rigorosamente separadas. De fato, as atitudes culturais fundadas

sobre a existência do mercado influenciam as relações interpessoais e as relações emocionais, no

entanto as relações interpessoais estão no núcleo das relações econômicas. Mais exatamente,

uma mistura se opera entre as atitudes ligadas ao mercado e a linguagem da psicologia; juntos,

estas atitudes e esta linguagem propuseram novas técnicas e novos conteúdos para forjar novas

formas de sociabilidade.

Eva Illouz parece estar correta em sua observação. Todavia, ao longo de seu

texto, a autora parece sobrevalorizar o papel da psicologia e particularmente da

psicanálise freudiana nessa formação de uma cultura emocional, ainda que o uso feito

dessa psicologia apareça mesclado a outros discursos como os do management e do self

made man tipicamente norte-americano. A autora também reconhece expressamente

uma mudança no “estilo emocional” a partir dos anos de 1970, quando os primeiros

psicólogos industriais voltados para a disciplinarização do indivíduo, para as dimensões

irracionais das relações de trabalho e para os sentimentos dos grupos informais de

trabalhadores cederam lugar para uma ética comunicacional das empresas. Nessa

passagem, as técnicas terapêuticas aliadas ao management colocariam as emoções no

20

centro das relações de trabalho, constituindo microesferas públicas que proporcionariam

uma racionalização da expressão das emoções. Do lado do indivíduo, essa

racionalização se converteria em técnicas de gestão de si para a coordenação inter e

intraemocional. Illouz também parece exagerar o papel da psicanálise freudiana nesse

último caso, ao afirmar que seria uma mistura de suas técnicas terapêuticas com a

autoajuda derivada do self made man típico do liberalismo americano que acabaria

resultando em técnicas como a da inteligência emocional e nos conceitos de capital

emocional.

Embora o livro de Illouz tenha muitos méritos e dê conta de transformações

importantes, parece pecar por duas razões inseparáveis: a primeira é que, ao partir de

uma definição unificadora das emoções, a qual é característica da concepção

contemporânea do que são as emoções, e que historicamente se formou a partir dos anos

de 1980, ela projeta essa visão unificadora no passado e com tal postura tem

dificuldades de perceber como as distintas concepções de vida “emocional” levam a

diferentes estratégias de gestão da subjetividade. Ao tentar não só traçar essa história

unificada das emoções no capitalismo, mas também explicar as mudanças de estilo

“emocional”, Illouz acaba elegendo e sobrevalorizando uma única concepção de vida

“emocional”, a de emoções derivada da psicologia. Certamente esta, apesar de não ser a

única, é uma concepção significativa que, para sorte de Illouz, sofreu a transformação

decisiva ao longo do século XX, o que permite a maior penetrabilidade da sua pesquisa.

Entretanto, ao enfatizar somente a contribuição da concepção de emoções da psicologia,

Illouz deixa de dar conta ou apenas tangencia outros acontecimentos relevantes da

história dessa relação entre o homem econômico e as “emoções”.

Por fim, Claudine Haroche, em A condição sensível (2008), observa a longa

transformação das maneiras de sentir que se apoia em um duplo processo inter-

relacionado: o colapso das maneiras moderadoras e a intensificação e aceleração dos

fluxos sensoriais contemporâneos por meio das novas tecnologias informacionais e

comunicacionais que multiplicam as imagens e as encadeiam ininterruptamente. No

primeiro caso, seguindo uma trilha aberta por Alex de Tocqueville, Norbert Elias e

Marcel Mauss, Haroche relaciona as maneiras sociais e as posturas corporais

codificadas (atitudes de polidez, consideração, estima, honra, entre outras) com um

imperativo de moderação que cria um distanciamento entre as pessoas e uma fronteira

entre o homem interior e exterior, alternando exibição pública e recolhimento. Essa

moderação incide sobre o corpo e a subjetivação dos sujeitos, criando uma relação de si

21

para consigo que valoriza a estabilidade e que é condição de possibilidade da própria

interiorização, do pensamento reflexivo, da representação, da imaginação e do

sentimento de si, conformando a identidade pessoal e a noção de pessoa.

A desvalorização das maneiras, da moderação e do distanciamento interpessoal,

nas sociedades democráticas ocidentais do século XX, acarretou expressivas mudanças

nas maneiras de sentir e de sentir a si mesmo, constituindo alterações importantes no

individualismo contemporâneo. O apagamento das fronteiras entre o homem interior e o

exterior, entre os corpos institucionais e os corpos individuais, o aumento da

proximidade, da familiaridade e do informal constituiria um colapso espacial dos

contornos do indivíduo, culminando em uma indiferenciação, em uma fusão com a

exterioridade. O fim dos limites fez com que o indivíduo fosse afetado e se submetesse

ao que lhe afetava do exterior. Haroche se situa, nesse sentido, na tradição de Georg

Simmel, Walter Benjamin e outros da discussão sobre as “vivências de choque” que o

excesso de estímulos da vida moderna produz sobre as subjetividades.

Atualizando essa discussão, Haroche observa o seu agravamento, na medida em

que os fluxos sensoriais são intensificados, acelerados e produzidos de forma contínua

pelas novas tecnologias informacionais e comunicacionais inseridas na lógica das trocas

capitalistas. Sua ação sobre sujeitos que perderam os limites estabilizadores de si

mesmos, que eram constituídos pela moderação das maneiras, acarretaria, então,

mudanças antropológicas profundas. Os sujeitos seriam reduzidos progressivamente às

suas sensações físicas voláteis, a emoções instantâneas e a pensamentos instrumentais

imediatistas, desfazendo o sentimento de si mesmo (que presume a estabilidade), a

identidade pessoal, a noção de pessoa e a possibilidade de pensamento reflexivo

profundo, que envolve distanciamento, imaginação e representação do mundo, e, por

fim, minando a possibilidade dos próprios sentimentos entre as pessoas, já que os laços

sociais dependem também da estabilidade de relações de longa duração.

Algumas das questões mencionadas por Claudine Haroche são retomadas aqui,

mas pensadas do ponto de vista da governamentalidade “emocional”. A subjetivação e a

conformação da noção de pessoa são abordadas do ponto de vista de que tipo de sujeito

e mesmo de ser humano o discurso das diferentes formas de poder procuram promover

no que se refere a essa concepção antropológica do homem econômico. Com tal

discurso, simultaneamente científico e normativo sobre os seres humanos, ao afirmar

uma verdade que o sujeito deve reconhecer em si mesmo e que os outros devem

reconhecer nele, procuram-se moldar as emoções, a identidade, a relação consigo

22

mesmo e com os outros e a ordem social. Assim, as diferentes formas de governo das

“emoções” podem produzir tanto moderação quanto intensificação e aceleração do fluxo

emocional, e até produzir moderação em uma esfera (do trabalho, por exemplo) e

intensificação e aceleração em outras (como no consumo); podem induzir relações

emocionais consigo mesmo e com os outros de curta ou de longa duração, de maior ou

menor intensidade, relações que proporcionem uma expressão emocional espontânea ou

controlada, que selecionem o que deve e o que não deve ser sentido, o que deve ou não

deve e como deve ser manifestado, regulando a intensidade, a forma e a frequência das

emoções e da sua exposição. Enfim, as diferentes governamentalidades emocionais

produzem diferentes regras emocionais e de expressão, no sentido que Arlie Hochschild

dá aos termos.

Ainda assim, é possível concordar com Haroche com relação a que, desde a

contracultura e posteriormente com a incorporação de parte de seu discurso e de suas

práticas pelo management, há o estímulo a uma maior manifestação de determinadas

expressões emocionais (não de todas, pois a agressividade, por exemplo, é

completamente recusada) e existe, ainda, uma intensificação dos fluxos emocionais

provocada pelas novas estratégias de controle do trabalho e do consumo e pela nova

coerência criada entre elas por compartilharem uma mesma concepção de emoções

(ainda que nem sempre o fato de compartilharem uma mesma concepção “emocional”

garanta a coerência, pois o sentido do governo pode variar, podendo um governo

moderar e outro, intensificar as mesmas “emoções”, criando uma contradição, como se

verá no capítulo IV). No entanto, duas nuances precisam ser feitas: primeiro, que a

estratégia do management de intensificação do fluxo emocional dos consumidores (não

dos trabalhadores) existe desde o começo do século e, segundo, que há, ainda hoje em

dia, formas de relação de si para consigo que incitam a moderação de certas emoções,

ao mesmo tempo em que intensificam e aceleram o fluxo de outras.

As técnicas de Inteligência Emocional, introduzidas no âmbito do homem

econômico pensado como capital humano, instigam o sujeito a moderar por sua própria

conta as emoções “negativas” e “irracionais” de medo, ansiedade, desmotivação,

depressão, sofrimento, frustração, agressividade e outras que podem derivar da

precarização do trabalho, das reestruturações incessantes das empresas, da efemeridade

das relações nas redes e equipes de trabalho e da competição acirrada no mercado. Por

outro lado, porém, o sujeito econômico deve se submeter voluntariamente e, mais do

que isso, promover por sua própria conta as emoções requeridas pelos managers das

23

empresas para se valorizarem no mercado de trabalho. Ele deve, pois, se submeter

voluntariamente a uma gestão das suas emoções que intensifica e acelera o fluxo

emocional no âmbito do consumo, como se dá na chamada economia de experiências, e

também deve espontaneamente se sujeitar e mesmo assumir por conta própria a

produção das emoções demandadas para o trabalho, como é o caso da automotivação e

dos sentimentos morais, mesmo que as condições de possibilidade dessas “emoções”

tenham sido eliminadas pela “flexibilização” das empresas.

Em concordância com a discussão que esses três autores (Mestrovic, Illouz e

Haroche) apresentam sobre as maneiras de sentir, concorda-se que haja, nas últimas

décadas, ou mesmo nos últimos séculos, transformações fundamentais nas “emoções”.

O que há de específico nesta tese, porém, é como se faz essa história das transformações

das maneiras de sentir, já que se parte das governamentalidades “emocionais”, e de

como as suas diferentes concepções do que é a vida “emocional” acarretam estratégias

outras para geri-las, que interagem entre si, criam contra-efeitos, suscitam resistências e

se transformam para responder aos novos desafios, constituindo por fim, no momento

atual, uma nova e inédita coerência dos dispositivos de poder emocional, a qual não

deixa também de produzir contra-efeitos que se procura controlar, contornar ou

canalizar para seu próprio proveito.

Por conseguinte, a genealogia do homem econômico emocional contemporâneo

é a história das diferentes formas de governamentalidade “emocional” sobre o homem

econômico até chegar à sua versão atual, com sua concepção específica da vida

“emocional”, com a inédita coerência dos dispositivos de poder que ela organiza e com

os problemas “emocionais” que ela desperta.

METODOLOGIA TEÓRICA

Para a realização da análise histórica do homem econômico emocional, é

adotada aqui a genealogia de Michel Foucault vinculada aos princípios do

construcionismo social das emoções de Rom Harré. Deste modo, as “emoções” já são

pensadas a partir de uma determinada concepção atual do que elas são. De fato, não

parece ser possível proceder sem um pressuposto metodológico sobre elas. Ainda assim,

esse pressuposto deve informar somente o método da análise, e não os seus resultados.

Ou seja, o fato de partirmos de uma formação discursiva que possui uma concepção

unificada sobre as “emoções” (a ideia de que as emoções, embora corporais, são

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socialmente construídas por meio de discursos, práticas e relações), não deve nos levar a

ignorar que essa unidade de concepção é constituída apenas no presente, mas que no

passado houve múltiplas concepções, ligadas a diferentes discursos e estratégias de

controle da vida “emocional”. É justamente essa a história que se procura contar. Os

pressupostos teórico-metodológicos dessa história são apresentados a seguir.

História do presente

Tal como Foucault, propõe-se fazer aqui uma “história do presente” (Foucault,

1999d, p. 29). Segundo Robert Castel (1998, p. 23), isto significa um esforço de

reentender o surgimento do mais contemporâneo, reconstruindo o sistema das

transformações de que a situação atual é herdeira. Voltar-se para o passado com uma

questão que é a nossa questão hoje, e escrever o relato de seu advento e de suas

principais peripécias. Ainda segundo Castel (1998, p. 29 e 1997), se, de fato, é proibido

fazer-se um uso do passado que contrarie as exigências da metodologia histórica, no

entanto é legítimo interrogar o material histórico com questões que os historiadores não

lhe apresentaram necessariamente, e reorganizá-lo a partir de outras categorias. Não se

trata de reescrever nem de rever a história, mas de relê-la, isto é, produzir, com dados

pelos quais se é inteiramente devedor aos historiadores, outro texto que, ao mesmo

tempo, tenha sua própria coerência a partir de um esquema de leitura sociológica e seja

“com-possível” com o relato dos historiadores.

Nesta história do presente, não se trata de um anacronismo. Isto porque a

“história do pensamento” proposta por Foucault tem como objetivo “definir as

condições nas quais o ser humano problematiza o que ele é e o mundo no qual ele vive”

(Foucault, 1984a, p. 14). Desse modo, ele volta-se para a história visando questões que

o passado colocou a si mesmo, mas que, a pesar da singularidade como foram

colocadas, encontram-se no quadro de uma mesma problematização atual, ou seja, de

um feixe unificado de questões com características comuns (cf. Mariano, 2000, p. 73 e

Castel, 1998, p. 29). Este passado é apresentado em sua diferença histórica radical

devido às condições outras nas quais esta problematização foi realizada. Isto permite

que a própria diferença do passado ressurja no presente como uma virtualidade (e não

como um modelo a ser seguido), pelo simples fato de que nos faz perceber os limites, a

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finitude e a singularidade de nosso presente e a conseqüente possibilidade de transgredi-

lo e transformá-lo (Mariano, 2000, p. 68-69 e 73).

Foucault parte da questão kantiana, questão moderna por excelência, sobre o que é

precisamente este presente ao qual pertencemos, perguntando-se sobre que elemento

deste presente é preciso reconhecer, distinguir de todos os demais, porque faz sentido

atualmente para uma reflexão filosófica (Foucault, 1984b, pp. 103-104). Diante da

interrogação “quem somos nós neste momento preciso da história” (Foucault, 1995a, p.

239), o historiador-crítico questiona não só o sentido, valor e singularidade de sua

atualidade, mas sua própria pertinência a este presente do qual ele faz parte e em relação

ao qual ele precisa se situar (Foucault, 1984b, p. 104-105). Por isso o problema das

batalhas atuais, das relações de força e de poder, problema que é teórico, mas que

também faz parte de nossa experiência cotidiana, é central. Essa reflexão sobre o poder

é diretamente relacionada à nossa situação presente e implica relações estreitas entre a

teoria e a prática. A sugestão de Foucault é então “usar as formas de resistência contra

as diferentes formas de poder como um ponto de partida [...] usar esta resistência como

um catalisador químico de modo a esclarecer as relações de poder, localizar sua

posição, descobrir seu ponto de aplicação e os métodos utilizados. [...] analisar as

relações de poder através do antagonismo das estratégias” (Foucault, 1995a, p. 239).

Genealogia

A genealogia, como parte desta história do presente, realiza uma história das

correlações de força e das relações de poder, em sua multiplicidade, heterogeneidade,

dispersão, instabilidade, mobilidade, descrevendo suas estratégias e táticas, integrações

e contradições, cristalizações e transformações, resistências e contra-resistências. A

genealogia é “a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização desse saber

nas táticas atuais” (Foucault, 2000a, p. 13). Esse saber reúne um conhecimento erudito,

que reconstitui exatamente os combates, mas também a memória bruta daqueles que são

sujeitados. Ambos se contrapõem a um saber unitário e totalizante, que pretende filtrá-

los, hierarquizá-los e ordená-los em nome de um saber verdadeiro. A ciência possuída

por alguns poucos especialistas desqualifica e silencia os sujeitos de experiência,

sepultando sob sua coerência, sistematização e universalidade as demais perspectivas. A

genealogia se insurge contra os efeitos centralizadores de poder que são vinculados à

26

instituição e ao funcionamento de um discurso científico organizado em uma sociedade

como a nossa. Ela procura desassujeitar os saberes históricos e torná-los livres, isto é,

capazes de oposição e luta contra a coerção deste discurso teórico globalizante (cf.

Foucault, 2000a, pp. 8-14).

Com isto, a verdade converte-se em um campo de batalhas e os saberes em

blocos táticos no campo das correlações de força. Não cabe, portanto, questioná-los

sobre sua legitimidade, adequação ou fundamentação, mas interrogá-los em outros dois

níveis: “no de sua produtividade tática (que efeitos recíprocos de poder e saber

proporcionam) e no nível de sua integração estratégica (que conjuntura e que correlação

de forças torna necessária sua utilização em tal ou qual episódio dos diversos confrontos

produzidos)” (Foucault, 1999a, p. 97). A genealogia desnuda as intrincadas relações

entre saber e poder: o saber é produzido e apoiado por sistemas de poder, e, por outro

lado, como discurso verdadeiro, ele induz efeitos de poder que o reproduzem. Pode-se

dizer, de modo mais rigoroso, que a análise das formas de saber e dos discursos cabe à