Pálido Ponto Azul por Carl Sagan - Versão HTML

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CARL SAGAN

PÁLIDO PONTO AZUL

UMA VISÃO DO FUTURO DA HUMANIDADE NO ESPAÇO

OS ERRANTES: UMA INTRODUÇÃO

Fomos errantes desde o início. Conhecíamos a posição de todas as árvores

num raio de duzentos quilômetros. Quando os frutos ou as castanhas amadureciam, lá

estávamos nós. Seguíamos os rebanhos em suas migrações anuais. Deleitávamos-nos

com a carne fresca. Por ações furtivas, estratagemas, emboscadas e ataques de força

bruta, alguns de nós realizávamos em conjunto o que muito de nós, sozinhos, não

podíamos conseguir. Dependíamos uns dos outros. Viver por conta própria era uma

idéia tão absurda quanto fixar residência.

Trabalhando juntos, protegíamos os filhos dos leões e das hienas.

Ensinávamos a eles as habilidades de que iriam precisar. E as ferramentas. Naquela

época, como agora, a tecnologia era a chave de nossa sobrevivência.

Quando a seca era prolongada, ou quando o frio se demorava no ar do verão,

nosso grupo partia – às vezes para terras desconhecidas. Procurávamos um lugar

melhor. E, quando não nos dávamos bem com os outros em nosso pequeno bando

nômade, partíamos à procura de um grupo mais amigável em algum outro lugar. Sempre

podíamos começar de novo.

Durante 99,99% do tempo, desde o aparecimento de nossa espécie, fomos

caçadores e saqueadores, errantes nas savanas e nas estepes. Não havia guardas de

fronteiras então, nem funcionários da alfândega. A fronteira estava por toda parte.

Éramos limitados apenas pela Terra, pelo oceano e pelo céu – e mais alguns eventuais

vizinhos rabugentos.

No entanto, quando o clima era adequado, quando os alimentos eram

abundantes, tínhamos vontade de ficar no mesmo lugar. Sem aventuras. Engordando.

Sem cuidados. Nos últimos 10 mil anos – um instante em nossa longa história –

abandonamos a vida nômade. Domesticamos as plantas e os animais. Por que correr

atrás do alimento quando se pode fazer com que ele venha até nós?

Apesar de todas as suas vantagens materiais, a vida sedentária nos deixou

irritáveis, insatisfeitos. Mesmo depois de quatrocentas gerações em vilas e cidades, não

esquecemos. A estrada aberta ainda nos chama suavemente, quase uma canção

esquecida da infância. Atribuirmos um certo romance aos lugares remotos. A minha

suspeita é de que o apelo tem sido meticulosamente elaborado pela seleção natural,

como um elemento essencial de nossa sobrevivência. Longos verões, invernos amenos,

ricas colheitas, caça abundante – nada disso dura pra sempre. Esta além dos nossos

poderes predizer o futuro. As catástrofes têm um modo de nos atacar sorrateiramente,

nos pegando desprevenidos. Talvez você deva sua vida, a de seu bando ou, até mesmo,

a de sua espécie a uns poucos inquietos - levados, por um desejo que mal podem

expressar ou compreender, a terras desconhecidas e a novos mundos.

Herman Melville, em Moby Dick, falou pelos errantes de todas às épocas e

meridianos: “Sou atormentado por um desejo constante pelo que é remoto. Gosto de

navegar mares proibidos...”.

Para os antigos gregos e romanos, o mundo conhecido compreendia a Europa

e reduzidas Ásia e África, tudo circundado por um intransponível Oceano do Mundo.

Os viajantes poderiam encontrar seres inferiores, chamados bárbaros, ou seres

superiores, chamados deuses. Toda árvore tinha a sua dríade, toda região o seu herói

lendário. Mas não havia assim tantos deuses, ao menos no inicio, talvez apenas uns

doze. Viviam nas montanhas, sob a Terra, no mar ou lá em cima do céu. Mandavam

mensagens às pessoas, intervinham nos assuntos humanos e cruzavam conosco.

À medida que passava o tempo e que a capacidade exploratória dos homens

acertava o seu passo, ocorriam surpresas: os bárbaros podiam ser tão inteligentes quanto

os gregos e os romanos. A África e a Ásia eram maiores do que se tinha pensado. O

Oceano do Mundo não era intransponível. Havia antípodas. Existiam três novos

continentes, ocupados pelos asiáticos em eras passadas, sem que a notícia jamais tivesse

chegado à Europa. E, decepcionantemente, não era fácil encontrar os deuses.

A primeira grande migração humana do Velho Mundo para o Novo Mundo

aconteceu durante a última era glacial, cerca de 11 mil e 500 anos atrás, quando as

calotas polares aumentaram, deixando rasos os oceanos e permitindo caminhar sobre

terra seca da Sibéria para o Alasca. Mil anos mais tarde, estávamos na Terra do Fogo, a

extremidade meridional da América do Sul. Muito antes de Colombo, argonautas

indonésios em canoas de embono exploraram o Pacífico ocidental; habitantes de Bornéu

povoaram Madagascar; egípcios e líbios circunavegaram a África; e uma grande frota

de juncos adaptados para navegação marítima, partindo da China da dinastia Ming,

ziguezagueou pelo oceano Índico, estabeleceu uma base em Zanzibar, dobrou o cabo da

Boa Esperança e entrou no oceano Atlântico. Do século XV ao século XVII, as naus

européias descobriram novos continentes (novos para os europeus, pelos menos) e

circunavegaram o planeta. Nos séculos XVIII e XIX, exploradores, mercadores e

colonizadores norte-americanos e russos precipitaram-se para oeste e para lese

atravessando dois imensos continentes até chegarem ao Pacifico. Esse gosto de

investigar e explorar, por mais temerários que tenham sido seus agentes, tem um claro

valor e sobrevivência. Ele não é restrito a uma única nação ou grupo étnico. É um dom

natural comum a todos os membros da espécie humana.

Desde o nosso aparecimento, há alguns milhões de anos, na África Oriental,

seguimos nosso caminho cheio de meandros ao redor do planeta. Agora existem pessoas

em todos os continentes e nas ilhas mais remotas, de pólo a pólo, do monte Everest ao

mar Morto, no fundo dos oceanos e até, ocasionalmente, residindo trezentos

quilômetros acima da Terra – humanos, como os deuses de outrora, vivendo no céu.

Nos dias de hoje não parece haver mais nenhum lugar para explorar, ao menos

na área terrestre do planeta. Vitimas de seu próprio sucesso, os exploradores agora

ficam bastante tempo em casa.

As grandes migrações de povos – algumas voluntárias, a maioria involuntária

– têm moldado a condição humana. Hoje fugimos da guerra, da opressão e da fome

mais do que qualquer outra época na historia humana. Quando o clima na Terra mudar,

nas próximas décadas, provavelmente aumentarão os refugiados ambientais. Lugares

melhores sempre nos atrairão. As marés de povos vão continuar o seu fluxo e refluxo

por todo o planeta. Mas as terras para onde agora corremos já foram povoadas. Outras

pessoas, que muitas vezes não compreendem nossa situação, já ali se encontram antes

de nós.

No final do século XIX, Leib Gruber crescia na Europa Central, em uma

cidade obscura do imenso, poliglota e antigo Império Austro-Húngaro. Seu pai vendia

peixe sempre que possível. Mas os tempos eram freqüentemente difíceis. Jovem, o

único emprego honesto que Leib conseguiu arrumar foi o de carregar as pessoas que

queriam atravessar o rio Bug ali perto. O cliente, homem ou mulher, montava nas costas

de Leib; com suas botas valiosas, a sua ferramenta de trabalho, ele vadeava um trecho

raso do rio e depositava o passageiro na margem oposta. Às vezes, a água chegava até a

sua cintura. Não havia pontes naquele ponto, nem barcas. Os cavalos poderiam ter

servido para esse fim, mas tinham outras tarefas a cumprir. Só restavam Leib a alguns

outros jovens como ele. Eles é que não tinham outra serventia. Não havia outro

trabalho. Ficavam perambulando pelas margens do rio, gritando os seus preços,

vangloriando-se da superioridade de seu carreto para clientes em potencial. Alugavam-

se como animais de quatro patas. Meu avô era uma besta de carga.

Não acho que, em toda a sua juventude, Leib tenha se aventurado mais que uns

cem quilômetros além de sua cidadezinha natal, Sassow. Mas de repente, em 1904, ele

fugiu para o Novo Mundo – para evitar uma condenação por assassinato, segundo uma

lenda familiar. Partiu sem a sua jovem mulher. Como as grandes cidades portuárias

alemãs devem ter lhe parecido imenso a seus olhos e como deve ter estranhado os altos

arranha-céus e o alarido incessante de sua nova terra! Nada sabemos de sua travessia,

mas encontramos o formulário do navio para a viagem empreendida mais tarde pela

mulher Chaiya – que se reuniu a Leib depois que este poupou o suficiente para mandar

busca-la. Ela viajou na classe mais barata do Batavia, uma embarcação com registro de

Hamburgo. O documento tem uma concisão comovente: Sabe ler ou escrever? Não.

Sabe falar inglês? Não. Quando dinheiro tem? Posso imaginar sua vulnerabilidade e

vergonha ao responder: “Um dólar”.

Ela desembarcou em Nova York, reuniu-se a Leib e ainda viveu o suficiente

para dar à luz a minha mãe e sua irmã, morrendo mais tarde de complicações de parto.

Nesses poucos anos na América, seu nome fora, às vezes, anglicizado para Clara. Um

quarto de século mais tarde, o nome que minha mãe deu a seu filho primogênito era

uma homenagem à mãe que nunca conheceu.

Nossos antepassados distantes, observando as estrelas, notaram cinco que

faziam mais que levanta-se e pôr-se numa marcha impassível, como era o caso das

assim chamadas estrelas “fixas”. Essas cinco tinham um movimento curioso e

complexo. Ao longo dos meses, pareciam errar lentamente entre as estrelas. Às vezes,

andavam em círculo. Hoje nós as chamamos de planetas, a palavra grega para errantes.

Era, assim imagino, uma peculiaridade que nossos antepassados compreendiam.

Sabemos agora que os planetas não são estrelas, mas outros mundos,

impelidos gravitacionalmente para o sol. Exatamente quando a exploração da Terra

estava sendo completada, começamos a reconhecê-la como um mundo na multidão

inumerável de outros mundos que circulam ao redor do Sol ou giram em torno de outras

estrelas que formam a galáxia da Via Láctea. Nosso planeta e nosso sistema solar são

circundados por um novo oceano do mundo – os abismos do espaço. Não é mais

intransponível que o anterior.

Talvez seja um pouco cedo. Talvez ainda não tenha chegado a hora. Mas esses

outros mundos – promissores oportunidades ilimitadas – acenam, chamando-nos.

Nas ultimas décadas, os Estados Unidos e a antiga União Soviética realizaram

algo assombroso e histórico – o exame minucioso de todos esses pontos de luz, de

Mercúrio a Saturno, que levaram nossos antepassados à admiração e à ciência. Desde o

advento do vôo interplanetário bem-sucedido em 1962, nossas máquinas têm voado por

mais de setenta novos mundos, descrevendo órbitas ao redor ou pousando em sua

superfície. Temos errado entre os errantes. Descobrimos imensas elevações vulcânicas

que eclipsam a montanha mais alta da Terra; vales de rios antigos em dois planetas,

enigmaticamente, um demasiado frio e o outro quente em demasia para ter água

corrente; um planeta gigantesco com um interior de hidrogênio metálico liquido em que

caberiam mil Terras; luas inteiras que se fundiram; um lugar coberto de nuvens com

uma atmosfera de ácidos corrosivos, onde até os platôs elevados têm uma temperatura

acima do ponto de fusão do chumbo; superfícies antigas em que se acha gravado um

registro fiel da formação violenta do Sistema Solar; mundos glaciais refugiados dos

abismos transplutônicos; sistemas de anéis com padrões refinados, marcando as

harmonias sutis da gravidade; e um mundo rodeado por nuvens de moléculas orgânicas

complexas com as que, na história primeva do nosso planeta, deram origem à vida.

Silenciosamente, eles giram em torno do Sol, esperando.

Descobrimos maravilhas jamais sonhadas pelos nossos antepassados que

especulavam pela primeira vez sobre a natureza dessas luzes errantes no céu noturno.

Investigamos as origens de nosso planeta e de nós mesmos. Descobrindo outras

possibilidades, confrontando-nos com os destinos alternativos de mundos mais ou

menos parecidos com o nosso, temos começado a compreender melhor a Terra. Cada

um desses mundos é encantador e instrutivo. Mas, que se saiba, são também desertos e

áridos. No espaço, não existem “lugares melhores”. Até agora, pelo menos.

Durante a missão robótica Viking, que teve início em julho de 1976, em certo

sentido passei um ano em Marte. Examinei os penedos e as dunas de areia, o céu,

vermelho até o auge do dia, os vales de rios antigos, as montanhas vulcânicas elevadas,

a feroz erosão eólica, o terreno polar laminado, as duas luas escuras em forma de batata.

Mas não havia vida – nem um grilo ou uma folha de grama, nem mesmo, tanto quanto

podemos afirmar com certeza, um micróbio. Esses mundos não foram agraciados, como

o nosso, com a vida. A vida é relativamente uma raridade. Podem-se examinar dúzias de

mundos e descobrir que só em um deles a vida nasce, evolui e persiste.

Não tendo cruzado, até aquele momento, em suas vidas, nada mais largo que

um rio, Leib e Chaya foram promovidos à travessia de oceanos. Tinham um grande

vantagem: do outro lado das águas, haveria – revestidos de costumes estranhos, é

verdade – outros seres humanos que falavam a sua língua e partilhavam ao menos

alguns de seus valores, e mesmo pessoas com quem tinham relações próximas.

Em nossa época cruzamos o Sistema Solar e enviamos quatro naves às

estrelas. Netuno se acha um milhão de vezes mais distante da Terra que a cidade de

Nova York das margens do Bug. Mas não há parentes remotos, nem seres humanos,

nem qualquer vida aparente esperando por nós nesses outros mundos. Nenhuma carta

trazida por emigrantes recentes nos ajuda a compreender a nova terra – apenas dados

digitais transmitidos, à velocidade da luz, por emissários-robôs precisos, insensíveis.

Eles nos dizem que esses novos mundos não são como a nossa casa. Continuamos, no

entanto, a procurar os habitantes. Não podemos evitar. Vida procura vida.

Ninguém na Terra, nem mesmo o mais rico dentre nós, tem recursos para

empreender a viagem; assim, não podemos fazer as malas e partir rumo a Marte ou Titã

ao sabor de um capricho, por estarmos entediados, desempregados, oprimidos, porque

fomos recrutados pelo exército ou porque, justa ou injustamente, nos acusaram de um

crime. Não parece haver lucro suficiente, a curto prazo, para motivar a indústria

privada. Se nós, humanos, algum dia partirmos rumo a esses mundos, será porque uma

nação ou um consórcio de nações acredita que o empreendimento lhe trará benefícios

sendo pressionados por um grande numero de questões que disputam o dinheiro

necessário para enviar pessoas a outros mundos.

Este é o tema desse livro: outros mundos, o que nos espera neles, o que eles

nos dizem sobre nós mesmos e – dados os problemas urgentes que nossa espécie

enfrenta no momento – se faz sentido partir. Deveríamos resolver esses problemas

primeiro? Ou serão eles um razão a mais para partir?

Sob muitos aspectos, este livro é otimista a respeito do futuro humano. À

primeira vista, os capítulos iniciais podem dar a impressão de troçar de nossas

imperfeições. Eles estabelecem, porém, um fundamento espiritual e lógico essencial

para o desenvolvimento de minha argumentação.

Tentei apresentar mais de uma faceta das questões. Haverá momentos em que

pareço estar discutindo comigo mesmo. Estou. Percebendo algum mérito em mais de

um lado, freqüentemente discuto comigo mesmo. Espero que, no ultimo capítulo, fique

claro aonde quero chegar.

O plano do livro é, em linhas gerais, o seguinte: examinar primeiro as

afirmações, muito difundidas em toda a história humana, de que o nosso mundo e a

nossa espécie são únicos, e, até, centrais para o funcionamento e a finalidade do cosmo.

Percorrer o Sistema Solar, seguindo os passos das últimas viagens de exploração e

descoberta, e, então, avaliar as razões geralmente apresentadas para enviar seres

humanos ao espaço. Na última parte desse livro, mais especulativa, traço um esboço de

como imagino que será, a longo prazo, o nosso futuro no espaço.

Pálido ponto azul é sobre esse novo reconhecimento, que ainda nos invade

lentamente, de nossas coordenadas, de nosso lugar no Universo – e de como um

elemento central do futuro humano se encontra muito além da Terra, embora o apelo da

estrada aberta esteja hoje emudecido.

CAPÍTULO 1

VOCÊ ESTA AQUI

A Terra inteira é somente um ponto, e o lugar de nossa habitação,

apenas um canto minúsculo desse ponto.

MARCO AURÉLIO, IMPERADOR ROMANO,

MEDITAÇÕES, LIVRO 4 (170 d.c.)

Como os astrônomos são unânimes em explicar, o circuito de

toda a Terra, que nos parece infinito comparado com a grandeza do Universo, assemelha-se a um ponto

diminuto.

AMMIANUS MARCELLINUS (330-395 d.c.)

O ÚLTIMO GRANDE HISTORIADOR ROMANO EM A

CRÔNICA DOS ACONTECIMENTOS.

A nave espacial estava muito distante de casa, além da órbita do planeta

mais afastado e bem acima do plano da eclíptica – que é uma superfície plana

imaginária que podemos visualizar como uma pista de corrida onde as órbitas dos

planetas ficam principalmente confinadas. A nave afastava-se aceleradamente do Sol a

60 mil quilômetros por hora. Mas, no início de fevereiro de 1990, foi alcançada por uma

mensagem urgente da Terra.

Obedientemente, redirecionou suas câmeras para os já distantes planetas.

Girando sua plataforma de varredura de um ponto a outro no espaço, tirou sessenta

fotografias e as armazenou sob forma digital em seu gravador. Depois, lentamente, em

março, abril e maio, radiotransmitiu os dados pra a Terra. Cada imagem era composta

de 640 mil elementos individuais (“pixels"), como os pontos em uma fotografia de

jornal transmitida por telégrafo ou em uma pintura pontilhista. A nave espacial estava a

6 bilhões de quilômetros da Terra, tão distante que cada pixel levava cinco horas e

meia, viajando à velocidade da luz, para chegar até nós. As fotos poderiam ter sido

enviadas mais cedo, mas os grandes radiotelescópios na Califórnia, na Espanha e na

Austrália, que recebem esses sussurros da orla do Sistema Solar, tinham

responsabilidades para com outras naves que transitam pelo mar espacial – entre elas,

Magellan, rumo a Vênus, e Galileo, em sua travessia tortuosa por Júpiter.

A Voyager 1 estava tão acima do plano da eclíptica porque, em 1981, passara

muito perto de Titã, a lua gigantesca de Saturno. Sua nave irmã, a Voyager 2, fora

enviada numa trajetória diferente dentro do plano da eclíptica e, por isso, pudera realizar

as célebres explorações de Urano e Netuno. Os dois robôs Voyager exploraram quatro

planetas e quase sessenta luas. São triunfos da engenharia humana e uma das glórias do

programa espacial norte-americano. Ainda estarão nos livros de história, quando muitos

outros dados sobre nossa época já tiveram caído no esquecimento.

O funcionamento das Voyager só estava garantido até o encontro com Saturno.

Achei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, que elas lançassem um último

olha para casa. Eu sabia que, vista a partir de Saturno, a Terra pareceria demasiado

pequena para que a Voyager distinguisse algum detalhe. O nosso planeta seria apenas

um ponto de luz, um pixel solitário, mal distinguível dos muitos outros pontos de luz

que a Voyager podia divisar, planetas próximos e sóis distantes. Mas, justamente por

causa da obscuridade de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter a fotografia.

Os marinheiros fizeram um levantamento meticuloso das costas litorâneas dos

continentes. Os geógrafos traduziram essas descobertas em mapas e globos. Fotografias

de pequenos fragmentos da Terra foram tiradas, primeiro por balões e aviões, depois por

foguetes em vôos balísticos curtos e, finalmente, por naves espaciais em órbita –

gerando uma perspectiva similar à que obtemos quando posicionamos o globo ocular

uns três centímetros acima de uma grande esfera. Embora quase todo mundo aprenda

que a Terra é um globo ao qual estamos, de certa forma, presos pela gravidade, a

realidade de nossa circunstância só começou, de fato, a penetrar em nosso entendimento

com a famosa fotografia Apollo 17 na última viagem de seres humanos à Lua.

Ela se tornou uma espécie de ícone da nossa era. Ali está a Antártida, que

norte-americanos e europeus consideram a parte extrema da Terra, e toda a África

estirando-se acima dela: vemos a Etiópia, a Tanzânia e o Quênia, onde viveram os

primeiros seres humanos. No alto, à direita, estão a Arábia Saudita e o que os europeus

chamam Oriente Médio. Mal e mal espiando no topo, está o mar Mediterrâneo, ao redor

do qual surgiu uma parte tão grande de nossa civilização global. Podemos distinguir o

azul do oceano, o amarelo-ocre do Saara e do deserto árabe, o castanho-esverdeado da

floresta e dos prados.

Não há, entretanto, sinal de seres humanos na fotografia, nem de nosso

reelaboração da superfície da Terra, nem de nossas máquinas, nem de nós mesmos:

somos demasiado pequenos e nossa política é demasiado fraca para sermos vistos por

uma nave espacial entre a Terra e a Lua. Desse ponto de observação, nossa obsessão

com o nacionalismo não aparece em lugar algum. As fotografias Apollo da Terra inteira

transmitiram às multidões algo bem conhecidos dos astrônomos: na escala de mundos –

para não falar da escala de estrelas ou galáxias – os seres humanos são insignificantes,

uma película fina de vida sobre um bloco obscuro e solitário de rocha e metal.

Parecia-me que outra fotografia da Terra, tirada de um ponto de centenas de

milhares de vezes mais distantes, poderia ajudar no processo continuo de revelar-nos

nossa verdadeira circunstância e condição. Os cientistas e filósofos da Antigüidade

clássica tinham compreendido muito bem que a Terra era um simples ponto num vasto

cosmo circundante, mas ninguém jamais a vira nessa condição. Era a nossa primeira

oportunidade (e também a última em várias décadas).

Muitos membros do Projeto Voyage da NASA deram o seu apoio. Vista a

partir da orla do Sistema Solar, porém, a Terra fica muito perto do Sol, como uma

mariposa enfeitiçada ao voar ao redor de uma chama. Apontaríamos a câmera para tão

perto do Sol, a ponto de correr o risco de queimar o sistema vidicon da nave espacial?

Não seria melhor esperar ate que fossem obtidas todas as imagens cientificas de Urano e

Netuno, se a nave espacial chegasse a durar tanto tempo?

E assim, esperamos – o que foi bom – de 1981, em Saturno, a 1986, em Urano,

e a 1989, quando as duas naves espaciais já tinham passado das órbitas de Netuno e

Plutão. Por fim, chegou a hora. Havia, porém, algumas calibrações instrumentais a

serem feitas primeiro, e esperamos um pouco mais. Embora a nave espacial estivesse

nos lugares certos, os instrumentos ainda funcionassem maravilhosamente, e não

houvesse outras fotografias a serem tiradas, alguns membros do projeto se opuseram.

Não era ciência, diziam. Descobrimos, então, que, numa NASA em dificuldades

financeiras, os técnicos que projetavam e transmitiam os comandos de rádio para a

Voyager estavam para ser dispensados imediatamente ou transferidos para outras

tarefas. Se quiséssemos tirar a fotografia, tinha de ser naquele momento. No último

minuto – na verdade, no meio do encontro da Voyager 2 com Netuno – o então

administrador da NASA, contra-almirante Richard Truly, interveio e garantiu que as

imagens fossem obtidas. Os cientistas espaciais Candy Hansen, do Laboratório de

Propulsão a Jato da NASA (JPL), e Carolyn Porco, da Universidade do Arizona,

projetaram a seqüência de comandos e calcularam os tempos de exposição da câmera.

Assim, aqui estão elas – um mosaico de quadrados dispostos sobre os planetas

e uma coleção heterogênea de estrelas mais distantes ao fundo. Não só conseguimos

fotografar a Terra, mas também outros cinco dos nove planetas conhecidos que giram

em torno do Sol. No brilho deste, perdeu-se Mercúrio, o mais próximo. Marte e Plutão

eram demasiado distantes. Urano e Netuno são tão indistintos que, para registrar a sua

presença, foram necessárias longas exposições; conseqüentemente, devido ao

movimento da nave espacial, suas imagens não ficaram nítidas. Essa seria a imagem eu

os planetas ofereceriam a uma espaçonave alienígena que se aproximasse do Sistema

Solar depois de uma longa viagem interestelar.

A partir dessa distância, os planetas parecem apenas pontos de luz, nítidos ou

não – mesmo através do telescópio de alta resolução a bordo da Voyager. São como os

planetas vistos a olho nu da superfície da Terra; pontos luminosos, mais brilhantes que a

maioria das estrelas. Durante um período de meses, a Terra, como os outros planetas,

pareceria mover-se entre as estrelas. Olhando simplesmente para um desses pontos, não

se pode dizer como ele é, o que existe na sua superfície, qual foi seu passado e se, neste

momento em particular, alguém vive ali.

Devido ao reflexo da luz do Sol na nave espacial, a Terra parece estar pousada

num raio de luz, como se nosso pequeno mundo tivesse um significado especial. Mas é

apenas um acidente de geometria e óptica. O Sol emite sua radiação eqüitativamente em

todas as direções. Se a foto tivesse sido tirada um pouco mais cedo ou um pouco mais

tarde, nenhum raio de sol teria dado mais luz à Terra.

E por que essa cor cerúlea? O azul provém em parte do mar, em parte do céu.

Embora transparente, a água em copo absorve um pouco mais de luz vermelha que de

azul. Quando se tem dezenas de metros da substância ou mais, a luz vermelha é

totalmente absorvida e o que se reflete no espaço é sobretudo o azul. Da mesma forma,

o ar parece perfeitamente transparente num pequeno campo de visão. Ainda assim –

algo que Leonardo da Vinci era mestre em pintar – quando mais distante o objeto, mas

azul ele parece ser. Por quê? O ar dispersa muito melhora a luz azul do que a vermelha.

O matiz azulado, portando, provém da atmosfera espessa, mas transparente, da Terra e

de seus oceanos profundos e líquidos. E o branco? Em um dia normal, a Terra tem

quase metade de sua superfície coberta por nuvens brancas de água.

Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo porque

conhecemos muito bem. Se um cientista extraterrestre, recém chegado às imediações do

nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera

espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente

diferentes. Desse ponto de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum

interesse especial.

Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a

nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de

quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as

suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões,

ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes,

criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados,

pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral,

políticos corruptos, “superastros”, “lideres supremos”, todos os santos e pecadores da

historia da nossa espécie, ali – num grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem

nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória

do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pesem

nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os

habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua

ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.

Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma

posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida.

O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em

nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de

algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.

A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há

nenhum outro lugar, ao menos no futuro próximo, para onde nossa espécie possa

migrar. Visitar, sim. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.

Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina

humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do

que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para min, ela sublinha a

responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de

preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.

CAPÍTULO 2

ABERRAÇÕES DA LUZ

Se o homem fosse retirado do mundo, todo o resto pareceria

extraviado, sem fim ou propósito... não levando a lugar nenhum.

Francis Bacon, A SABEDORIAS DOS ANTIGOS (1619)

Ann Druyan sugere uma experiência: olhem de novo para o pálido ponto

azul do capitulo anterior. Observem bem. Olhem fixamente para o ponto por um longo

tempo e tentem se convencer de que Deus criou todo o Universo para uma das

aproximadamente 10 milhões de espécies de vida que habitam este grão de poeira.

Agora dêem um passo adiante: imaginem que tudo foi feito apenas para uma única

nuança dessa espécie, gênero ou subdivisão religiosa ou étnica. Se isso não lhes parecer

improvável, tomem outro dos pontos. Imaginem que ele é habitado por uma forma

diferente de vida inteligente. Que também nutre a noção de um Deus que criou todas as

coisas para o seu bem. Até que ponto vocês levariam a sério essa pretensão?

“Está vendo aquela estrela?”

“A vermelha brilhante”? – pergunta a filha em resposta.

“Sim. Sabe, ela talvez já não esteja ali. Poder ter desaparecido a essa altura –

explodido ou algo assim. A sua luz ainda está cruzando o espaço, só agora atingindo

nossos olhos. Mas não a vemos como ela é. Nós a vemos como ela foi”.

Muitas pessoas experimentam estimulante admiração quando se vêem, pela

primeira vez, diante dessa verdade simples. Por quê? Por que ela seria tão irresistível?

Em nosso pequeno mundo, a luz se move, para todos os fins práticos, instantaneamente.

Se uma lâmpada está acessa, é claro que se encontra, brilhando onde a vemos.

Estendemos a mão e a tocamos: está ali, sem dúvida alguma, e desagradavelmente

quente. Se o filamento se rompe, a luz se apaga. Não a vemos no mesmo lugar,

brilhando, iluminando o quarto, anos depois que se queimou e foi removida de seu

suporte. A simples idéia parece sem sentido. Se estamos distantes, porém, um sol inteiro

pode se apagar e continuaremos a vê-lo brilhar resplandecentemente; é bem possível

que, por eras, fiquemos sem saber de sua morte – na verdade, durante o período do

tempo que a luz, de velocidade assombrosa mas não infinita, leva para cruzar a

imensidão intermediária.

As imensas distâncias até as estrelas e as galáxias significam que todos os

corpos que vemos no espaço estão no passado – alguns deles tal como eram antes que a

Terra viesse a existir. Os telescópios são máquinas do tempo. Há muitas eras, quando

uma galáxia primitiva começou a derramar luz na escuridão circundante, nenhuma

testemunha poderia ter adivinhado que bilhões de anos mais tarde alguns blocos

remotos de rocha e metal, gelo e moléculas orgânicas se juntariam para formar um lugar

chamado Terra; nem surgiria a vida, nem que seres pensantes evoluiriam e um dia

captariam um ponto dessa luz galáctica, tentando decifrar o que a enviara em sua

trajetória. E depois que a Terra morrer, daqui a uns 5 bilhões de anos, depois que ela for

calcinada ou até tragada pelo Sol, surgirão outros mundos, estrelas e galáxias – e eles

nada saberão de um lugar outrora chamado Terra.

Quase nunca parece preconceito. Ao contraio, parece apropriada a justa idéia

de que, por ter nascido acidentalmente, o nosso grupo (seja ele qual for) deveria ter uma

posição central no universo social. Entre os principais faraônicos e os pretendentes dos

Plantagenet, os filhos de barões saqueadores e os burocratas do Comitê Central, as

gangues de rua e os conquistadores de nações, os membros de maiorias convictas, seitas

obscuras e minorias ultrajadas, essa atitude de favorecer os seus próprios interesses

parece tão natural quanto respirar. Ele tira o seu sustento das mesmas fontes em que se

alimentam o sexismo, o racismo, o nacionalismo e outros chauvinismos mortais que

atormentam nossa espécie. É necessária força incomum de caráter para resistir às

lisonjas dos que nos atribuem uma superioridade evidente, até concedida por Deus,

sobre os nossos companheiros. Quando mais precária a nossa auto-estima, maior a

nossa vulnerabilidade a esses apelos.

Como os cientistas são pessoas, não é surpreendente que pretensões parecidas

tenham se insinuado na visão científica do mundo. Na verdade, muitos dos debates

centrais na história da ciência parecem ser, ao menos em parte, disputas em que se

procura decidir se os seres humanos são especiais. Quase sempre, o pressuposto aceito é

de que a premissa é examinada com cuidado, descobre-se – em um número

desalentadoramente grande de casos – que não somos.

Os nossos antepassados viviam ao ar livre. Sua familiaridade com o céu

noturno era igual à que temos hoje com nossos programas favoritos de televisão. O Sol,

a Lua, as estrelas e os planetas, todos nasciam no leste e se punham no oeste, cruzando o

alto do céu nesse meio tempo. O movimento dos corpos celestes não era simplesmente

uma diversão, provocando uma saudação ou resmungo reverente; era a única maneira de

reconhecer as horas do dia e as estações. Para os caçadores e colhedores, bem como

para os povos agrícolas, conhecer o céu era uma questão de vida ou morte.

Providencial que o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas fizessem parte de um

relógio cósmico elegantemente configurado? Nada parecia acidental. Eles ali estavam, a

nosso serviço. Quem mais fazia uso deles? Para que mais serviam?

E as luzes no céu se levantam e se põem ao nosso redor, não é evidente que

estamos no centro do Universo? Os corpos celestes – tão claramente impregnados de

poderes extraterrenos, especialmente o Sol, de que dependemos tanto, pois dele

dependemos tanto, pois dele recebemos luz e calor – giram ao redor de nós como

cortesãos adulando o rei. Mesmo que ainda não tivéssemos adivinhado, o exame mais

elementar dos céus revela que somos especiais. O Universo parece projetado para seres

humanos. É difícil considerar essas circunstancias sem experimentar confiança e

orgulho. Todo o Universo feito para nós! Devemos ser realmente algo especial.

Essa demonstração satisfatória de nossa importância, escorada na observação

cotidiana dos céus, transformou o conceito geocêntrico em uma verdade transcultural –

ensinada nas escolas, incorporada à língua, parte integrante da grande literatura e das

Escrituras Sagradas. Os dissidentes foram desencorajados, às vezes por meio de tortura

e morte. Não é de admirar que, durante a maior parte da história humana, ninguém a

tenha questionado.

Era, sem dúvida, a visão de nossos antepassados caçadores e saqueadores. No

segundo século, Ptolomeu, o grande astrônomo da Antigüidade, sabia que a Terra era

uma esfera, sabia que seu tamanho era “um ponto” se comparado à distância das estrelas

e ensinava que ela estava “bem no meio dos céus”. Aristóteles, Platão, santo Agostinho,

santo Tomás de Aquino e quase todos os grandes filósofos e cientistas de todas as

culturas acreditaram nessa ilusão durante 3 mil anos até o século XVII. Alguns se

ocupavam em imaginar como o Sol, a Lua, as estrelas e os planetas poderiam estar

engenhosamente presos a esferas cristalinas, de transparência perfeita – as grandes

esferas, é claro, centradas na Terra -, o que explicaria os movimentos complexos dos

corpos celestes. Tão meticulosamente relatados por gerações de astrônomos. E foram

bem-sucedidos: com modificações posteriores, a hipótese geocêntrica explicava

adequadamente os fatos do movimento planetário, assim como este era conhecido nos

séculos II e XVI.

Daí foi apenas um passo para reivindicação ainda mais grandiosa – a de que a

“perfeição” do mundo seria incompleta sem os seres humanos, como Platão afirmou em

Timeu. “O homem é tudo”, escreveu o poeta e clérigo John Donne em 1625. “Ele não é

uma parte do mundo, mas o próprio mundo; e logo abaixo da glória de Deus, a razão da

existência do mundo”.

A Terra, no entanto – não importa quantos reis, papas, filósofos, cientistas e

poetas tenham insistido em afirmar o contrário – persistiu em girar em torno do Sol

durante todos esses milênios. Pode-se imaginar um observador extraterrestre severo

olhando a nossa espécie com desprezo durante todo o tempo, enquanto tagarelávamos

animadamente: “O Universo criado pra nós! Somos o centro! Tudo nos rende

homenagem! E concluído que nossas pretensões são divertidas, nossas aspirações

patéticas e que este deve ser o planeta dos idiotas.

Esse juízo é demasiado severo, porém. Fizermos o melhor possível. Havia uma

coincidência infeliz entre as aparências cotidianas e nossas esperanças secretas.

Tendemos a não ser especialmente críticos diante de evidências que parecem confirmar

nossos preconceitos. E havia pouca evidência que os anulasse.

Em abafado contraponto, algumas vozes dissidentes, através dos séculos,

aconselhavam humildade e uma visão mais realista. Na aurora da ciência, os filósofos

atomistas da Grécia e Roma antigas – que sugeriram pela primeira vez que a matéria é

feita de átomos – Demócrito, Epicuro e seus discípulos (e Lucrecio, o primeiro

divulgador da ciência), propuseram a escandalosamente a existência de muitos mundos

e muitas formas alienígenas de vida, todos constituídos pelas mesmas espécies de

átomos de que somos feitos. Apresentavam à nossa consideração infinidades no espaço

e no tempo. Mas nos cânones predominantes do Ocidente, seculares e sacerdotais,

pagãos e cristãos, as idéias atomistas eram atacadas. Ao contrario do que professavam,

os céus não eram absolutamente parecidos com o nosso mundo. Eram inalteráveis e

“perfeitos”. A Terra era mutável e “corrupta”. O estadista e filosofo romano Cícero

resumiu a opinião comum: “Nos céus... não há sorte ou acaso, nem erro ou frustração,

mas uma ordem absoluta, exatidão, calculo e regularidade”.

A filosofia e a religião alertavam que os deuses (ou Deus) eram muito mais

poderosos que nós, ciosos de suas prerrogativas e rápidos em dispensar justiça por

qualquer arrogância intolerável. Ao mesmo tempo, essas disciplinas nem sequer

suspeitavam de que seu próprio ensinamento sobre a organização do Universo era uma

presunção e um engano.

A filosofia e a religião apresentavam simples opiniões – que poderiam ser

derrubadas pela observação e experimentação – com certezas. Que algumas de suas

convicções profundamente arraigadas pudessem se revelar erros não era uma

possibilidade considerada. Isso não as preocupava de modo algum. A humildade

doutrinaria deveria ser praticada pelos outros. Os próprios ensinamentos eram isentos de

erro, infalíveis. Na verdade, eles tinham mais razoes para ser humildes do que

imaginavam.

A partir de Copérnico, da metade do século XVI em diante, a questão passou a

ser formalmente discutida. Era considerado perigoso imaginar que o Sol, e não a Terra,

estava no centro do Universo. Condescendentemente, muitos estudiosos apressaram-se

em garantir à hierarquia religiosa que essa nova hipótese não representava nenhum sério