Pálido Ponto Azul por Carl Sagan - Versão HTML

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desafio à sabedoria convencional. Numa espécie de solução de compromisso

esquizofrênica, o sistema centrado no Sol foi tratado como simples conveniência

computacional e não como realidade astronômica. Em outras palavras: a Terra

realmente no centro do Universo, como todos sabiam; mas se alguém desejava predizer

onde Júpiter estaria na segunda-feira de novembro do ano seguinte, era-lhe permitido

fingir que o Sol estava no centro. Então era possível fazer o calculo sem afrontar as

autoridades.

“Não há perigo nenhum nisso”, escreveu Robert Cardinal Bellarmine, o

principal teólogo do Vaticano no inicio do século XVII, “e satisfaz os matemáticos. Mas

afirmar que o Sol está na verdade fixo no centro dos céus e que a Terra gira muito

rapidamente ao redor dele é perigoso, pois não só irrita os teólogos e os filósofos como

ofende a Santa Fé e torna falsa a Sagrada Escritura”.

“A liberdade de opinião é perniciosa”, escreveu Bellarmine em outra ocasião.

“Nada mais é do que a liberdade de estar errado.”

Além disso, se a Terra girasse ao redor do Sol, as estrelas próximas dariam a

impressão de se moverem contra o pano de fundo das estrelas mais distantes, sempre

que, a cada seis meses, deslocássemos nossa perspectiva de um lado da órbita da Terra

para o outro. Não se havia descoberto nenhuma “paralaxe anual” desse tipo. Os

copernicanos argumentavam que isso se devia ao fato de as estrelas estarem

extremamente longe – talvez um milhão de vezes mais distantes do que a Terra está do

Sol. Melhores telescópios, no futuro, talvez descobrissem uma paralaxe anual. Os

adeptos do geocentrismo consideravam esse argumento uma tentativa desesperada de

salvar uma hipótese falha, risível diante das circunstâncias.

Quando Galileu virou o primeiro telescópio astronômico para o céu, a maré

começou a mudar. Ele descobriu que Júpiter tinha um pequeno séqüito de luas

descrevendo órbitas ao seu redor, as mais próximas girando mais rápido que as mais

afastadas, exatamente como Copérnico tinha concluído a respeito do movimento dos

planetas ao redor do Sol. Observou que Mercúrio e Vênus passavam por fases com a

Lua (o que indicava que giravam ao redor do Sol.). Além disso, a Lua cheia de crateras

e o Sol coberto de manchas desafiavam a perfeição dos céus. Este pode ter sido, em

parte, o tipo de problema que preocupava Tertuliano uns 1300 anos antes, quando pedia:

“Se você tem algum tino ou decoro, pare de sondar as regiões do céu, o destino e os

grandes segredos do Universo”.

Ao contrário, Galileu ensinava que se pode interrogar a natureza por meio da

observação e da experimentação. Assim, “fatos que à primeira vista parecem

improváveis deixarão cair o manto que os encobre e aparecerão em toda a sua beleza

simples e nua, mesmo que à luz de explicações escassas”. Esses fatos, que até os céticos

podem confirmar, não são uma visão do Universo de Deus mais segura que todas as

especulações dos teólogos? E se, todavia, esses fatos contradisserem as convicções

daqueles que consideram a sua religião incapaz de cometer erros? Os príncipes da Igreja

ameaçaram o astrônomo idoso com torturas se ele persistisse em lecionar a doutrina

abominável de que a Terra se movia. Foi condenado a uma espécie de prisão domiciliar

para o resto de sua vida.

Uma ou duas gerações mais tarde, na época em que Isaac Newton demonstrou

que uma física simples e elegante podia explicar quantitativamente – e predizer – todos

os movimentos planetários e lunares observados (desde que se assumisse que o Sol

estava no centro do Sistema Solar), a ilusão geocêntrica desgastou-se ainda mais.

Em 1725, numa tentativa de descobrir o paralaxe estelar, o dirigente

astrônomo amador inglês James Bradley encontrou, por acaso, a aberração da luz. Acho

que o termo aberração da luz traz em si um pouco de caráter inesperado da descoberta.

Observando-as ao longo de um ano, descobriu-se que as estrelas traçavam pequenas

elipses no céu. Era, conforme se constatou, o que todas as estrelas faziam. Isso não

podia ser paralaxe, pois se esperava uma grande paralaxe para as estrelas próximas e

outra incapaz de ser detectada para as estrelas distantes. Em lugar disso, a aberração é

semelhante a impressão de estarem caindo obliquamente que as gotas de chuva, que

atingem um carro em movimento, dão aos passageiros; quanto mais veloz o carro, mais

pronunciada a inclinação. Se a Terra estivesse parada no centro do Universo, em vez de

se movendo velozmente ao redor do Sol, Bradley não teria descoberto a aberração da

luz. Era uma demonstração irrefutável de que a Terra girava em torno do Sol.

Convenceu a maioria dos astrônomos e alguns outros, mas não convenceu, na opinião

de Bradley, os “anticopernicanos”.

Só em 1837 observações diretas das estrelas mostraram de forma muito clara

que a Terra, de fato, gira ao redor do Sol. A paralaxe anual tão longamente discutida foi

por fim descoberta – não por melhores argumentos, mas por melhores instrumentos.

Como explicar o que a paralaxe significa é muito mais simples que explicar a aberração

da luz, sua descoberta foi muito importante. Colocou o último prego no caixão do

geocentrismo. Basta olhar para o seu dedo com o olho esquerdo e depois com o direito,

e você verá que ele parece se mover. Todo mundo é capaz de compreender a paralaxe.

No século XIX, caso ainda existam alguns relutantes, podemos resolver a

questão diretamente. Podemos testar se vivemos num sistema centrado na Terra, com

planetas afixados em esferas de cristal transparente, ou num sistema centrado no Sol,

com planetas controlados a distância pela gravidade dessa estrela. Por exemplo, temos

investigados os planetas com radar. Quando fazemos um sinal ricochetear numa lua de

Saturno, não captamos nenhum eco de rádio vindo de uma esfera de cristal mais

próxima, ligada a Júpiter. Nossas naves espaciais chegam a seus destinos com precisão

newtoniana. Quando nossas naves voam a Marte, seus instrumentos não captam nenhum

tinido nem detectam cacos de cristal quebrado, ao irromperem pelas “esferas” que –

segundo as opiniões autorizadas que prevaleceram durante milênios – impelem Vênus

ou o Sol em seus movimentos obedientes ao redor da Terra Central.

Ao esquadrinhar o Sistema Solar de um ponto além do planeta mais afastado, a

Voyager 1 viu, assim como Galileu e Copérnico haviam previsto, o Sol no meio e os

planetas em órbitas concêntricas ao seu redor. Longe de ser o centro do Universo, a

Terra é apenas um dos pontos em órbita. Por já não estamos convidados em um mundo

único, somos agora capazes de alcançar outros mundos e determinar de forma decisiva

que tipo de sistema planetário habitamos.

Todas as outras propostas, e seu número é impressionante, de nos afastar do

centro do palco cósmico também encontraram resistência, em partes por razões

semelhantes. Parecemos ansiar por privilégios a que não teríamos direito por nossas

realizações, mas pelo nosso nascimento, pelo simples fato de sermos humanos e termos

nascido sobre a Terra. Poderíamos dar a essa presunção o nome de antropocêntrica –

“centrada no humano”.

Presunção que beira o clímax na noção de que somos criados à imagem de

Deus: o Criador e Regente de todo o Universo se parece comigo. Céus, que

coincidência! Que conveniente e satisfatório! Xenófanes, filósofo grego do século VI a.

C., compreendeu a arrogância desse ponto de vista:

Os etíopes atribuem a seus deuses pele preta e nariz arrebitado; os trácios dizem que os seus

têm olhos azuis e cabelo vermelho... Sim, e se os bois, os cavalos ou os leões tivessem mãos, pudessem

pintar e produzir obras de arte como os homens, os cavalos pintariam os deuses sob a forma de cavalos e

os bois lhes dariam a forma de bois.

Essas atitudes eram outrora descritas como “provincianas” – a expectativa

ingênua de que as hierarquias políticas e as convenções sociais de uma província

obscura se estendessem a um imenso império composto de muitas tradições e culturas

diferentes; de que as aldeias familiares, as nossas aldeias, são o centro do mundo. Os

caipiras quase nada sabem da possibilidade de alternativas. Não conseguem

compreender a insignificância de sua província nem a diversidade do Império. Com

desenvoltura, aplicam seus próprios padrões e costumes ao resto do planeta. Mas

despejados em Viena, por exemplo, Hamburgo ou Nova York, reconhecem tristemente

o quanto a sua perspectiva é limitada. Tornam-se “desprovincianizados”.

A ciência moderna tem sido uma viagem ao desconhecido, com uma lição de

humildade em casa parada. Muitos passageiros teriam preferido ficar em casa.

CAPÍTULO 3

AS GRANDES HUMILHAÇÕES

Um filósofo afirmava conhecer todo o segredo... Ele examinou

os dois estranhos celestes da cabeça aos pés e afirmou, diante deles, que suas pessoas, seus mundos, sóis e

estrelas haviam sido criados unicamente para servir o homem. Diante dessa afirmação, nossos dois

viajantes caíram nos braços um do outro, tomados de um acesso incontrolável de... riso.

VOLTARIE, MICRÔMEGAS, UMA HISTÓRIA

FILOSÓFICA (1752).

No século XVII ainda havia alguma esperança de que a Terra fosse o único

“mundo”, mesmo não sendo o centro do Universo. Mas o telescópio de Galileu revelou

que “a Lua certamente não possui uma superfície lisa e polida” e que outros mundos

poderiam ter “uma superfície parecida com a da própria Terra”. A Lua e os planetas

tinham tanto direito a serem mundos quanto a Terra – com montanhas, crateras,

atmosferas, calotas polares, nuvens e, no caso de Saturno, um deslumbrante conjunto de

anéis circunferentes. Foram milênios de debate filosófico até a questão ser decidida pela

pluralidade de mundos”. Talvez eles fossem profundamente diferentes do nosso,

nenhum tão compatível com a vida. Mas a Terra não era o único mundo.

Essa foi outra na série das Grandes Humilhações: experiências de

rebaixamento, demonstrações de nossa aparente insignificância, feridas que a ciência,

em busca dos fatos de Galileu, infligiu ao orgulho humano.

Bem, esperam alguns, mesmo que a Terra não esteja no centro do Universo, o

Sol está. O Sol é o nosso Sol. Assim, a Terra está aproximadamente no centro do

Universo. Talvez com isso parte do nosso orgulho fosse poupada. Mas no século XIX a

astronomia de observação deixou claro que o Sol é apenas uma estrela solitária num

grande conjunto de sóis com gravidade própria chamado galáxia da Via Láctea. Longe

de ocupar o centro da galáxia, o nosso Sol, com seu séqüito de planetas minúsculos e

pálidos, está num setor difuso de um braço obscuro da espiral, a 30 mil anos-luz do

centro.

Bem, nossa Via Láctea é a única galáxia. A galáxia da Via Láctea é uma

dentre bilhões, talvez centenas de bilhões de galáxias, e não sobressai pela massa,

brilho, ou configuração e arranjo de suas estrelas. Algumas fotografias modernas de

exposição profunda revelam mais galáxias além da Via Láctea que estrelas dentro dela:

ilhas-universos que talvez contenham centenas de bilhões de sóis. A imagem é um

manifesto sobre a humildade.

Bem, ao menos, nossa galáxia está no centro do Universo. Errado de novo.

Quando e expansão do Universo foi descoberta, muita gente achou que a Via Láctea

estava no centro da expansão com todas as outras galáxias afastando-se velozmente

dela. Hoje sabemos que os astrônomos, em qualquer galáxia, veriam todas as demais em

fuga veloz; a não ser que fossem muito cuidadosos, todos concluíram que eles é que

estavam no centro do Universo. Não existe, na verdade, centro pra a expansão ou ponto

de origem do Big Bang; não no espaço tridimensional comum.

Bem, mesmo que existam centenas de bilhões de galáxias, com centenas de

bilhões de estrelas cada, nenhuma outra estrela tem planetas. Se não há outros planetas

além do nosso Sistema Solar, talvez não difíceis de identificar. A tecnologia adequada

progride depressa, mas mesmo um mundo gigantesco como Júpiter, que gira ao redor

deda estrela mais próxima, a Alfa de Centauro, seria difícil de detectar. Os geocentristas

tiram sua esperança de ignorância.

Houve, em certa época, uma hipótese cientifica – mas só bem aceita, mas

predominante – de que o nosso Sistema Solar se formara pela quase colisão do antigo

Sol com outra estrela; a maré de interação gravitacional teria arrancado anéis de matéria

solar que se condensaram rapidamente, formando os planetas. Como o espaço é vazio

na sua maior parte e as quase colisões estelares são muito raras, concluiu-se que não há

muitos outros sistemas planetários – apenas um, talvez, ao redor da outra estrela que

outrora cogerou os mundos do nosso sistema solar. No início dos meus estudos, fiquei

estupefato e desapontado por se haver considerado, em relação aos planetas de outras

estrelas, ausência de evidência como evidência de ausência.

Hoje temos provas da existência de três planetas girando em torno de uma

estrela muito densa, o pulsar B1257+12, sobre o que falarei mais adiante. Descobrimos

ainda que mais da metade das estrelas com massa semelhante à do Sol no início da vida

eram circundadas por grandes discos de gás e poeira, matéria de que os planetas

parecem se formar. Outros sistemas planetários, talvez ate mundos semelhantes a Terra,

parecem agora um lugar-comum cósmico. Em poucas décadas devemos poder

inventariar ao menos os planetas maiores, se existirem, de centenas de estrelas

próximas.

Bem, nossa posição no espaço não demonstra nosso papel especial, mas nossa

posição no tempo, sim: estamos no Universo desde o Início. Recebemos

responsabilidades especiais do Criador. Outrora parecia razoável pensar que o

Universo tivesse começado a existir um pouco antes de nossa memória coletiva

obscurecida pela passagem do tempo e a ignorância de nossos antepassados. Em termos

genéricos, há milhares de anos. As religiões que descrevem a origem do Universo

freqüentemente especificam – implícita ou explicitamente – uma data de origem mais

ou menos dessa safra, uma data de aniversário para o mundo.

Somando as “gerações” do Gênesis, por exemplo, obteremos uma idade para a

Terra: cerca de 6 mil anos. O Universo teria exatamente a mesma idade da Terra. Essa é

a verdade de judeus, cristãos e fundamentalistas mulçumanos, verdade claramente

refletida no calendário judeu.

Um Universo tão jovem propõe uma pergunta embaraçosa: como podem

existir objetos astronômicos a mais de 6 mil anos-luz de distância? A luz leva um ano

para atravessar um ano-luz, 10 mil para cruzar 10 mil anos-luz, e assim por diante.

Quando olhamos para o centro da galáxia da Via Láctea, a luz que vemos partiu de sua

fonte há 30 mil anos. A mais próxima galáxia espiral semelhante à nossa, a M31, na

constelação de Andrômeda, está a 2 milhões de anos luz; nós a vemos, portanto, como

era quando sua luz partiu na longa viagem para a Terra – há 2 milhões de anos. E

quando observamos quasares distantes, a 5 bilhões de anos-luz, nós os vemos como

eram há 5 bilhões de anos, antes de a Terra ser formada. (É quase certo que eles são

muito diferentes hoje em dia.)

Se, apesar de tudo isso, aceitássemos a verdade literal dos livros sagrados,

como conciliar os fatos? A meu ver, a única conclusão plausível é que Deus criou

recentemente todos os fótons de luz que chegam à Terra num formato coerente a ponto

de induzir gerações de astrônomos ao erro de acreditar na existência de fenômenos

como galáxias e quasares, levando-os à conclusão espúria de que o Universo é vasto e

antigo. Essa é uma teologia tão malévola que custo a acreditar que alguém possa

considerá-la com seriedade.

Além disso, a datação radioativa das rochas, a abundância de crateras de

impacto em muitos mundos, a evolução das estrelas e a expansão do Universo são

evidencias independentes e indiscutíveis de que nosso Universo tem muitos bilhões de

anos, apesar das afirmativas de teólogos respeitados, de que um mundo tão antigo

contradiz a palavra de Deus e de que as informações sobre a Antigüidade do mundo só

não acessíveis a fé. Esses indícios também teriam de ser criados por uma divindade

enganadora, a menos que o mundo seja mais antigo que os literalistas da religião

judaico-cristã-islâmica supõem. Claro, esse problema não existe para muitos fiéis que

tratam a Bíblia e o Alcorão como guias históricos e morais e como grande literatura,

sem deixar de reconhecer que suas noções sobre o mundo natural refletem a ciência

rudimentar da época em que foram escritas.

Muitas eras se passaram até a Terra começar a existir. Outras seguirão seu

curso antes de sua destruição. Devemos distinguir entre a idade da Terra (uns 4,5

bilhões de anos) e a idade do Universo (uns 15 bilhões de anos a partir do Big Bang).

Dois terços do imenso intervalo de tempo entre a origem do Universo e nossa época já

se haviam passado quando a Terra veio a existir. Há estrelas e sistemas planetários

bilhões de anos mais jovens e bilhões de anos mais antigos, mas no Gênesis, capítulo 1,

versículo 1, o Universo e a Terra são criados no mesmo dia. A religião hinduísta-

budista-jainista tende a não confundir os dois acontecimentos.

Nós humanos, somos retardatários. Aparecemos no último instante do espaço

cósmico. Haviam transcorrido 99,998% da história do Universo até o presente quando

nossa espécie entrou na cena. No vasto circuito de eras, não temos responsabilidades

especial por nosso planeta ou pela vida. Não estávamos presentes.

Bem, se não temos nada especial quanto a nossa posição ou nossa época,

vejamos nosso movimento. Newton e os outros grandes físicos clássicos afirmavam que

a velocidade da Terra no espaço era um “sistema de referencia privilegiado”. Albert

Einstein, um crítico agudo do preconceito e do privilégio, considerava essa física

“absoluta” resíduo de um chauvinismo terrestre cada vez mais desacreditado. Achava

que as leis da natureza deveriam ser as mesmas, fosse qual fosse a velocidade ou o

sistema de referência do observador. Com essa noção como ponto de partida,

desenvolveu a Teoria Especial da Relatividade. As conseqüências dessa teoria são

bizarras, contrárias à intuição, a contrários ao bom senso, mas só em velocidades muito

elevadas. Observações cuidadosas e repetidas mostram que essa célebre teoria é uma

descrição acurada da constituição do mundo. Nossas intuições podem estar erradas.

Nossas preferências não contam. Não vivemos num sistema de referência privilegiado.

Uma conseqüência da relatividade especial é a dilatação do tempo, isto é, seu

retardamento à medida que o observador se aproxima da velocidade da luz. Ainda se

encontram afirmações de que a dilatação se aplica a relógios e partículas elementares e,

presumivelmente, ao ritmo circadiano e outros em plantas, animais e micróbios, não se

aplica, todavia, ao relógio biológico humano. Sugere-se que nossa espécie teria uma

imunidade especial às leis da natureza – capaz, portanto, de discernir conjuntos de

matéria com ou sem esse privilégio. (Na verdade, a prova de Einstein para a relatividade

especial não admite tais distinções.) Ver os seres humanos como exceções à relatividade

parece outra forma da noção da criação especial.

Bem, mesmo que nossa posição, nossa época, nosso movimento e nosso

mundo não sejam únicos, talvez nós sejamos. Somos diferentes dos outros animais.

Fomos especialmente criados. O zelo particular do Criador do Universo é evidente em

nós. Essa crença foi apaixonadamente defendida por razões religiosas e outras. Na

metade do século XIX, entretanto, Charles Darwin mostrou que uma espécie pode

evoluir para outra espécie mediante processos inteiramente naturais, que se reduzem a

função impiedosa da natureza de salvar as hereditariedades que funcionam e rejeitar as

que não funcionam e rejeitar as que não funcionam. “O homem na sua arrogância se

considera uma grande obra, digna da intervenção de uma divindade”, anotou Darwin em

seu caderno de notas. “É mais humilde e penso, mais verdadeiro considerar que foi

criado a partir de animais”. No final do século XX as conexões profundas e íntimas dos

seres humanos com as outras formas de vida sobre a Terra têm sido indiscutivelmente

demonstradas pela nova ciência da biologia molecular.

Em cada época, os chauvinismos que afirmam nossa superioridade são

desafiados em nova arena do debate cientifico – neste século, nas tentativas de

compreender a natureza da sexualidade humana, a existência da mente inconsciente e o

fato de muitas doenças psiquiátricas e “defeitos” de caráter terem origem molecular.

Bem, ainda que sejamos intimamente relacionados com alguns dos outros

animais, somos diferentes – em grau e espécie – no que realmente importa: raciocínio,

autoconsciência, manufatura de ferramentas, ética, altruísmo, religião, linguagem,

nobreza e caráter. Os seres humanos, como todos os animais, têm características que os

diferenciam – senão, como poderíamos distinguir uma espécie da outra? – o caráter

único do ser humano tem sido exagerado, às vezes grosseiramente. Os chimpanzés

raciocinam, tem autoconsciência, fazem ferramentas, demonstram afeto etc. os

chimpanzés e os seres humanos têm 99,6% de seus genes ativos em comum. (Ann

Druyan e eu apresentamos um resumo dessas evidencias em nosso livro Shadows of

forgotten ancestors).

Na cultura popular, adota-se a posição oposta, também induzida pelo

chauvinismo humano (e pela falta de imaginação): as histórias infantis e os desenhos

animados fazem os animais vestir roupa, morar em casas, usar garfo e faca, e falar. Os

três ursos dormem em camas. A coruja e o gatinho vão à praia num belo barco verde-

amarelo. As mães dinossauras acariciam os filhotes. Os pelicanos entregam cartas. Os

animais de estimação têm nomes humanos. Bonecas, quebra-nozes, xícaras e pires

dançam e têm opiniões. Na série Thomas the tank engine, vemos até locomotivas e

vagões antropomórficos, representados com muito encanto. Seja qual for o objetivo de

nosso pensamento, animado ou inanimado, tendemos a lhe atribuir traços humanos. Não

podemos evitar. As imagens logo acodem à mente. As crianças são apaixonadas por

elas.

Quando falamos em céu “ameaçador”, mar “agitado”, diamantes que

“resistem” a arranhões, na “atração” que a Terra exerce sobre um asteróide que passa ou

na “excitação” de um átomo, voltamos a uma visão de mundo animista. Reificamos.

Um nível antigo de nosso pensamento dota a natureza inanimada de vida, paixões e

reflexão próprias.

A noção de que a Terra é autoconsciente veio na esteira da hipótese “Gaia”.

Era, no entanto, uma convicção corriqueira entre os gregos antigos e os primeiros

cristãos. Origen queria saber se “também a terra, pela sua própria natureza, seria

responsável por algum pecado”. Muitos eruditos antigos pensavam que as estrelas eram

seres vivos. Essa era também a opinião de Origen, de santo Ambrósio (o mentor de

santo Agostinho) e até, mais qualificadamente, de santo Tomás de Aquino. A posição

filosófica estóica sobre a natureza do Sol foi dada por Cícero no século I a. C.: “Como o

Sol se parece com aqueles fogos que estão contidos nos corpos das criaturas vivas, o Sol

também deve ser vivo”.

As atitudes animistas, em geral, parecem estar se disseminando. Num

levantamento norte-americano de 1954, 75% das pessoas entrevistadas se dispunham a

afirmar que o Sol não é vivo; em 1989, apenas 30% apoiariam essa proposição. E um

pneu de carro, sente alguma coisa? Em 1954 90% dos entrevistados achavam que não,

mas apenas 73% manifestaram igual opinião em 1989.

Podemos aqui reconhecer uma deficiência – grave em algumas circunstâncias

– de nossa capacidade de compreender o mundo. Caracteristicamente, gostemos ou não,

parecemos compelido a projetar nossa própria natureza na Natureza. Embora possa

resultar em uma visão do mundo sistematicamente distorcida, essa atitude tem uma

grande virtude: a projeção é a precondição essencial pra a compaixão.

Ok, talvez não sejamos grande coisa, talvez tenhamos um parentesco

humilhante com os macacos, mas pelo menos somos o que de melhor existe. À parte

Deus e os anjos, somos os únicos seres inteligentes no Universo. Um correspondente

me escreve: “Tenho tanta certeza disso quanto de qualquer de minhas experiências. Não

existe vida consciente em nenhum outro lugar no Universo. A humanidade retoma sua

posição legítima de centro do Universo”. Em parte pela influencia da ciência e da ficção

cientifica, hoje a maioria das pessoas, ao menos nos Estados Unidos, rejeita essa

proposição por razões formuladas essencialmente pelo antigo filosofo grego Crisipo:

“Seria um caso insano de arrogância um ser humano vivo pensar que nada lhe é superior

em todo o mundo”.

O fato básico é que ainda não descobrimos vida extraterrestre. Estamos nas

primeiras fases de observação. A questão está em aberto. Se eu tivesse de fazer

conjeturas, diria que o Universo está repleto de seres muito mais inteligentes e muito

mais avançados que nós. É claro, que eu poderia estar errado. Essa conclusão, quando

muito, fundamenta-se na possibilidade derivada do número de planetas, da ubiqüidade

de matéria orgânica, das imensas escalas de tempo disponíveis para a evolução e assim

por diante. Não é demonstração cientifica. A questão é uma das mais fascinantes de toda

a ciência. Estamos começando a desenvolver as ferramentas para tratá-la com seriedade.

E o que dizer da questão correlata de sermos capazes de criar inteligências

mais sagazes que a nossa? Os computadores realizam rotineiramente operações

matemáticas que nenhum ser humano conseguiria fazer sem ajuda, superam campeões

mundiais de damas e xadrez, falam e entendem inglês e outras línguas, escrevem contos

e composições musicais razoáveis, aprendem com seus erros e pilotam navios, aviões e

naves espaciais. Sua capacitação aumenta continuamente. Estão ficando menores, mais

rápidos e baratos. A cada ano, a maré do progresso científico avança um pouco sobre a

ilha da singularidade intelectual do ser humano com seus náufragos em disposição de

batalha. Se nesta fase primitiva de nossa evolução tecnológica conseguimos criar

inteligência com silício e metal, o que não faremos nas próximas décadas e séculos? O

que acontece quando máquinas inteligentes fabricam máquinas mais inteligentes?

A indicação mais clara, talvez, de que a busca de uma imerecida posição

privilegiada para os seres humanos jamais será totalmente abandonada é o que, na física

e na astronomia, se chama Princípio Antrópico. Um nome mais adequado seria

Princípio Antropocêntrico. Ele aparece de varias formas. O Princípio Antrópico “Fraco”

observa simplesmente que, se as leis da natureza e as constantes físicas – como a

velocidade da luz, a carga do elétron, a constante gravitacional newtoniana ou a

constante da mecânica quântica de Planck – tivessem sido diferentes, o curso dos

acontecimentos que deram origem aos seres humanos nunca teria ocorrido. Sob outras

leis e constantes, os átomos não se manteriam coesos, as estrelas evoluiriam depressa

demais para que a vida tivesse tempo de evoluir em planetas próximos, os elementos

químicos que compõem a vida nunca teriam sido gerados etc. Leis diferentes, nada de

seres humanos.

Não há controvérsia sobre o Princípio Antropico Fraco. Alteradas as leis e as

constantes da natureza, se isso fosse possível, talvez surgisse um Universo muito

diferente; em muitos casos, um Universo incompatível com a vida. O simples fato de

existirmos implica (mas não impõe) restrições às leis da natureza. Já os Princípios

Antrópicos “Fontes” vão bem mais longe; alguns de seus defensores chegam quase a

deduzir que as leis da natureza e os valores das constantes físicas foram estabelecidos

(não perguntem como, nem por Quem) para que os seres humanos viessem a existir.

Quase todos os outros universos possíveis, dizem eles, são inóspitos. Dessa forma,

ressuscita-se a antiga ilusão de que o Universo foi criado para nós.

Em tudo isso escuto ecos do dr. Pangloss, do Cândido de Voltarie, que achava

que este mundo, com todas as suas imperfeições, é o melhor possível. É como jogar

minha primeira mão de bridge e ganhar, sabendo que existem 54 bilhões de bilhões de

bilhões de outras mãos possíveis que eu teria igual probabilidade de ter recebido... e

depois concluir que existe um deus do bridge que me favorece, um deus que arranjou e

embaralhou as cartas com a minha vitória predeterminada desde O início. Não sabemos

quantas outras mãos vencedoras existem no baralho cósmico, quantos outros tipos de

universo, quantas leis da natureza e constantes físicas também poderiam ter dado

origem à vida e à inteligência e até ilusões de importância. Não sabemos quase nada

sobre como o Universo foi criado, nem mesmo se foi criado, por isso é difícil

desenvolver essa linha de raciocínio.

Voltaire perguntava: “Por que existe o mundo”?. A formulação de Einstein era

se Deus teve a opção de criar o Universo. Ora, se o Universo é infinitamente antigo – se

o Big Bang de uns 15 bilhões de anos atrás não passa de ápice mais recente de uma série

infinita de contrações e expansões cósmicas - , então ele nunca foi criado e fica sem

sentido perguntar a razão de ele ser como é.

Por outro lado, se o Universo tem uma idade finita, por que é como é? Por que

não lhe foi dado um caráter muito diferente? Que leis da natureza combinam com que

outras leis? Existem metaleis especificando as conexões? Seria possível descobri-las?

De todas as leis concebíveis da gravidade, quais podem coexistir, e com que leis

concebíveis da gravidade, quais podem coexistir, e com que leis concebíveis da física

quântica que determinam a própria existência de matéria macroscópica? Serão possíveis

todas as leis que podemos imaginar, ou existe apenas um número restrito que pode, de

alguma maneira, ser criado? Não há dúvida de que nem sequer vislumbramos como

determinar as leis da natureza “possíveis” e as que não o são. Não temos mais que uma

noção muito rudimentar das correlações de leis naturais “permitidas”.

A lei de Newton da gravitação universal, por exemplo, especifica que a força

gravitacional mútua que faz com que dois corpos se atraiam é inversamente

proporcional ao quadrado da distância entre eles. Se você se afastar para um pouco duas

vezes mais distante do centro da Terra, passará a ter um quaro de seu peso habitual; se

for dez vezes mais longe, terá apenas um centésimo dele etc. É essa lei do inverso do

quadrado que determina as estranhas órbitas circulares e elípticas dos planetas ao redor

do Sol e das luas ao redor dos planetas, assim como as trajetórias precisas de nossas

naves espaciais, dizemos que a força gravitacional varia com 1/r elevado ao quadrado.

Mas se esse expoente fosse outro, se a lei da gravidade fosse 1/r elevado à

quarta potência, digamos, em vez de 1/r elevado ao quadrado, as órbitas não fechariam;

depois de bilhões de revoluções, os planetas se aproximariam do Sol em espiral fechada

e seriam consumidos nas suas profundezas abrasadoras, ou dele se afastariam em espiral

aberta e se perderiam no espaço interestelar. Se o Universo fosse construído com uma

lei do inverso da quarta potência, e não com uma lei do inverso do quadrado, em pouco

tempo não haveria planetas que os seres vivos pudessem habitar.

Assim, de todas as possíveis leis gravitacionais, por que temos a sorte de viver

num universo onde há uma lei compatível com a vida? Em primeiro lugar, é claro que

temos essa “sorte” porque, se não a tivéssemos, não estaríamos aqui para fazer a

pergunta: afinal, seres indagadores que evoluem em planetas só podem ser encontrados

em universos que admitem planetas. Em segundo lugar, a lei do inverso do quadrado

não é a única compatível com uma estabilidade de mais de bilhões de anos. Qualquer lei

com potência menos elevada que 1/r elevado ao cubo manterá um planeta nas

proximidades de uma órbita circular, mesmo que receba um empurrão. Tendemos a

desconsiderar a possibilidade de outras leis concebíveis de natureza podem ser

compatíveis com a vida.

Não há outro ponto: não é arbitrário termos uma lei da gravitacional no

inverso do quadrado. Quando a teoria de Newton é compreendida em termos da teoria

mais abrangente da relatividade geral, vemos que o expoente da lei da gravidade é 2,

porque o número de dimensões físicas em que vivemos é 3. Nem todas as leis da

gravidade estão à disposição, à escolha de um criador. Mesmo que considerasse um

número infinito de universos tridimensionais para algum deus brincar, a lei da gravidade

teria de ser sempre a lei do inverso do quadrado. A gravitação newtoniana não é uma

faceta contingente do nosso Universo, mas uma faceta necessária.

Na relatividade geral, a gravidade é devida à dimensionalidade e à curvatura

do espaço. Quando falamos em gravidade, falamos em pequenos encurvamentos locais

no espaço-tempo. Isso não é nada evidente, e até contraria o bom senso. Quando

examinadas em profundidade, as idéias de gravidade e massa não são questões

separadas, mas ramificações de geometria subjacente ao espaço-tempo.

Pergunto-me se algo parecido não se aplica a todas as hipóteses antropicas. As

leis ou constantes físicas de que nossa vida depende revelam-se membros de uma classe,

talvez de uma imensa classe, de outras leis e outras constantes físicas, algumas também

compatíveis com alguém tido de vida. Às vezes não examinamos (ou não podemos

examinar) tudo o que esse outros universos permitem. Além disso, nem toda escolha

arbitrária de uma lei da natureza ou constante física é possível, mesmo para um criador

de universos. Nossa compreensão das leis da natureza e das constantes físicas à

disposição é, na melhor das hipóteses, fragmentária.

Além do mais, não temos acesso a nenhum suposto universo alternativo. Não

dispomos de método experimental pra testar as hipóteses antrópicas. Mesmo que a

existência desses universos fosse uma sólida conseqüência de teorias bem estabelecidas

– da mecânica quântica ou da gravitação, por exemplo – não poderíamos estar seguros

de que não há teorias melhores que não prevêem universos alternativos. Até chegar essa

hora, se é que vai chegar, acho prematuro depositar esperanças no Princípio Antrópico

enquanto argumento a favor de caráter central ou único de ser humano.

Finalmente, mesmo que o Universo fosse intencionalmente criado para admitir

o surgimento da vida e da inteligência, podem existir outros seres em inúmeros mundos.

Nesse caso, seria um triste consolo para os adeptos do antropocentrismo sabe que

habitamos um dos poucos universos que permitem vida e inteligência.

Há algo de excepcionalmente limitado na formação do Principio Antrópico:

apenas certas leis e constantes de natureza são compatíveis com o nosso tipo de vida.

Mas, essencialmente, as mesmas leis e constantes são necessárias para criar uma rocha.

Então por que não falar num Universo projetado para que as rochas pudessem um dia

vir a ser, e em Princípios Líticos fortes e fracos? Se as pedras pudessem filosofar,

imagino que os Princípios Líticos estariam entre o que há de mais avançado

intelectualmente.

Atualmente formunlam-se modelos cosmológicos em que até o Universo

inteiro nada tem de especial. Andrei Linde, ex-membro do Instituto Físico Lebedev, em

Moscou, e atualmente na Universidade de Stanford, combinou a compreensão atual da

física quântica e das forças nucleares fortes e fracas para criar um novo modelo

cosmológico. Linde imagina um vasto cosmo, muito maior que nosso Universo –

estendendo-se, talvez, até o infinito no espaço e no tempo – em lugar dos insignificantes

15 bilhões de anos de idade e cerca de 15 bilhões de anos-luz de raio da noção habitual.

Como em nosso Universo, existe nesse cosmo uma espécie de felpa quântica em que

estruturas minúsculas muito menores que um elétron formam-se, transformam-se e

dissipam-se por toda a parte; no qual, como em nosso Universo, flutuações no espaço

totalmente vazio criam pares de partículas elementares – um elétron e um pósitron, por

exemplo. Na espuma das bolhas quânticas, a imensa maioria permanece

submicroscópica, mas uma fração minúscula se dilata, cresce e atinge uma

universalidade respeitável. Elas se acham, porém, tão distantes de nós – muito mais que

os 15 bilhões de anos-luz da escala convencional de nosso Universo – que, se existem,

parecem inacessíveis e indetectáveis.

A maioria desses outros universos atinge um tamanho máximo e entra em

colapso, contrai-se até virar um ponto de desaparecer para sempre. Outros podem

oscilar. Outros podem expandir-se sem limites. Em universo diferentes, haverá leis da

natureza diferentes. Vivemos, afirma Linde, num desses universos. Um universo em que

a física é adequada ao crescimento, à dilatação, à expansão, e galáxias, estrelas, mundo,

vida. Imaginamos que nosso Universo é único, mas ele é um meio a um imenso número,

talvez infinito, de universos igualmente válidos, igualmente independentes, igualmente

isolados. Haverá vida em alguns e não em outros. Segundo essa visão, o Universo

observável é apenas um remanso recém-formado de um cosmo muito mais vasto,

infinitamente antigo e totalmente inobservável. Se um modelo assim está correto, até

nosso orgulho remanescente, por mais tênue que seja, de viver no único Universo, nos é

negado.

Alguém dia, apesar das evidências atuais, talvez possamos conceber um meio

de investigar os universos adjacentes que ostentam leis da natureza muito diferentes e

vejamos que outras coisas são possíveis. Ou, quem sabe, os habitantes de universos

adjacentes investiguem o nosso. Sem dúvida, nessas especulações fomos muito além

dos limites do conhecimento. Se, no entanto, algo parecido com o cosmo de Linde é

verdade, ainda há outra devastadora desprovincianização à nossa espera.

Nossos poderes estão longe de permitir a criação de universos em futuro

próximo. As idéias do Princípio Antrópico Forte não são passiveis de provas (embora a

cosmologia de Linde tenha algumas características testáveis). Vida extraterrestre à

parte, se as pretensões a centralidade se retiraram para baluartes impermeáveis à

experimentação, a seqüência de batalhas cientificas contra o chauvinismo humano

parece ter sido, em grande parte, vitoriosa.

A opinião, de longa data, resumida pelo filósofo Immanuel Kant, de que “se o

homem... toda a criação seria simples deserto, uma coisa vã, sem objetivo final”, revela

a insensatez de quem é auto-indulgente. Um Princípio de Mediocridade parece aplicar-

se a todas as nossas circunstâncias. Não poderíamos ter sabido de antemão que as

evidências seriam tão repetida e totalmente incompatíveis com a proposição de que os

seres humanos estão no palco central do Universo. Os debates tendem decididamente

para uma posição que, por mais dolorosa que seja, pode ser resumida em uma frase: não

nos foi dado papel principal no drama cósmico.

É possível que esse papel tenha sido dado a outros. Talvez não. De todo modo,

temos boas razões para ser humildes.

CAPÍTULO 4

UM UNIVERSO QUE NÃO FOI FEITO PARA NÓS

O Mar da Fé teve outrora, também, seu apogeu, e ao redor da

costa terrestre se estendia como as dobras de uma brilhante faixa enrolada. Mas agora escuto apenas seu

rugido melancólico, longo e retraído, recuando, ao sopro do vento noturno, pelas imensas margens

sombrias e pelas praias do mundo.

MATHEW ARONLD, “DOVER BEACH” (1867)

“Que belo pôr-do-sol”, dizemos. Ou então: “Eu me levanto antes do sol

nascer”. Não importa o que aleguem os cientistas, na linguagem de todos os dias

freqüentemente ignoramos as suas descobertas. Não dizemos que a Terra gira, mas que

o Sol se levanta e se põe. Tente formular o mesmo fato na linguagem copernicana. Você

diria: Billy, quero que você volte para casa quando a rotação da Terra já tiver ocultando

o Sol no horizonte”? Billy estaria longe antes de você acabar a frase. Não conseguimos

sequer encontrar uma locução graciosa que transmita acuradamente a visão

heliocêntrica. Nós no centro e tudo o mais girando ao nosso redor está incorporando à