Paraísos Artificiais por Charles Baudelaire - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

index-3_1.jpg

SUMÁRIO

Página de rosto

Introdução

Poema do Haxixe

O gosto pelo infinito

O que é o haxixe?

O teatro de Serafim

O Homem-Deus

Moral

Um comedor de Ópio

Precauções oratórias

Confissões preliminares

Volúpias do ópio

Torturas do Ópio

Um falso desfecho

O gênio criança

Desgostos da infância

Visões de Oxford

Conclusão

Apêndice

Do vinho e do haxixe

Sumário Biográfico

Página de créditos

A

J.G.F.

Minha cara amiga,

O bom-senso nos diz que as coisas da terra não existem inteiramente e que a

verdadeira realidade só é encontrada nos sonhos. Para digerir a felicidade natural,

como a artificial, é preciso, antes de tudo, ter a coragem de engoli-la e os que talvez

merecessem a felicidade são justamente aqueles a quem a felicidade, tal como a

concebem os mortais, sempre teve o efeito de um vomitivo.

Aos de espírito néscio parecerá estranho, e mesmo impertinente, que um quadro

de volúpias seja dedicado a uma mulher, a mais comum das fontes das mais naturais

volúpias. Entretanto, é evidente que, como o mundo natural penetra no espiritual,

serve-lhe de alento, e concorre, desta forma, a operar este amálgama indefinível que

chamamos de nossa individualidade, a mulher é o ser que projeta a mais negra

sombra ou a mais clara luz em nossos sonhos. A mulher é fatalmente sugestiva: ela

vive uma outra vida que não a sua; ela vive espiritualmente nas imaginações que ela

própria povoa e fecunda.

Importa muito pouco, além disso, que seja compreendido o motivo desta

dedicatória. É realmente necessário, para o contentamento do autor, que um livro

seja compreendido, exceto por aquele ou aquela para quem ele foi composto? Afinal

de contas, é indispensável que haja sido escrito para alguém. Quanto a mim, tenho

tão pouco gosto pelo mundo vivo que, semelhante às mulheres sensíveis e ociosas

que enviam, comenta-se, pelo correio, suas confidências a amigos imaginários, com

prazer escrevia para os mortos.

Mas não é a uma morta que dedico este pequeno livro; é a uma que, embora

doente, está sempre ativa e viva em mim e que agora volta todos os seus olhares ao

Céu, este local de todas as transformações. Pois, tanto quanto de uma droga

perigosa, o ser humano goza do privilégio de poder tirar novos e sutis prazeres da

dor, da catástrofe e da fatalidade.

Você verá neste quadro um caminhante sombrio e solitário, imerso na corrente

das multidões, que remete seu coração e seu pensamento a uma Electra longínqua

que há algum tempo enxugava sua fronte banhada de suor e refrescava seus lábios

percorridos pela febre; e você perceberá a gratidão de um outro Orestes cujos

pesadelos você sempre velou e de quem dissipou, com mão leve e maternal, o sono

aterrorizador.

POEMA

DO

HAXIXE

I

O GOSTO PELO INFINITO

Os que sabem observar-se a si mesmos e guardam a lembrança de suas impressões,

os que souberam, como Hoffmann, construir seu barômetro espiritual, puderam por

vezes notar, no observatório de seu pensamento, belas estações, dias felizes, minutos

deliciosos. São dias em que o homem se levanta com um gênio jovial e vigoroso. Com

suas pálpebras livres do sono que as selava, o mundo exterior se oferece a ele com um

relevo bem-marcado, uma nitidez de contornos, uma riqueza de cores admiráveis. O

mundo moral abre suas vastas perspectivas, cheias de novas claridades. O homem

agradecido por esta beatitude, infelizmente rara e passageira, sente-se ao mesmo tempo

mais artista e mais justo, mais nobre, para dizer tudo em uma só palavra. Mas o que há

de mais extraordinário neste estado excepcional do espírito e dos sentidos, que posso

sem exageros chamar de paradisíaco, se o comparo às pesadas trevas da existência

comum e cotidiana, é que ele não foi criado por nenhuma causa visível e fácil de ser

definida. Seria o resultado de uma boa higiene e de um regime sensato? Esta é a

primeira explicação que se oferece ao espírito, mas somos obrigados a reconhecer que

constantemente esta maravilha, esta espécie de prodígio, produz-se como se fosse o

efeito de uma força superior e invisível, exterior ao homem, após um período em que

este abusou de suas faculdades físicas. Diremos que é a recompensa pela prece assídua

e pelos ardores espirituais? É certo que uma elevação constante do desejo, uma tensão

das forças espirituais em direção ao céu, seria o regime ideal para se criar esta saúde

moral, tão deslumbrante e gloriosa; mas em virtude de que lei absurda ela se manifesta

após culposas orgias da imaginação, após um abuso sofístico da razão, que são para o

seu uso honesto e razoável o que as luxações são para a boa ginástica? Eis por que

prefiro considerar esta condição anormal do espírito uma verdadeira graça, como um

espelho mágico onde o homem é convidado a ver-se belo, isto é, tal qual deveria e

poderia ser; uma espécie de exaltação angelical, um apelo à ordem, de forma

cerimoniosa. Da mesma maneira, uma certa escola espiritualista, que tem

representantes na Inglaterra e na América, considera os fenômenos sobrenaturais, tais

como as aparições de fantasmas, as assombrações etc., como manifestações da vontade

divina, prontas para despertar no espírito humano a lembrança das realidades

invisíveis.

Além disto, este estado encantador e estranho, onde se equilibram todas as forças,

onde a imaginação, ainda que maravilhosamente poderosa, não leva consigo o sentido

moral para aventuras perigosas, onde uma sensibilidade delicada não é mais

perturbada por nervos doentios, estes frequentes conselheiros do crime ou do

desespero, este estado maravilhoso, já disse eu, não tem sintomas prenunciadores. É

tão imprevisto como um fantasma. É uma espécie de obsessão mas uma obsessão

intermitente, da qual deveríamos tirar, se fôssemos sábios, a certeza de uma existência

melhor e a esperança de alcançá-la pelo exercício diário de nossa vontade. Esta

acuidade de pensamento, este entusiasmo dos sentidos e do espírito devem ter, em

todos os tempos, aparecido ao homem como o primeiro dos bens; eis por que,

considerando apenas a volúpia imediata, sem se preocupar em violar as leis de sua

constituição, buscou na ciência física, na farmacêutica, nos mais grosseiros líquidos,

nos perfumes mais sutis, em todos os climas e em todos os tempos, os meios de

escapar, mesmo que por algumas horas, à sua morada de lobo e, como disse o autor de

Lazare: “Tomar o paraíso de um só golpe”. Infeliz! Os vícios do homem, tão repletos

de horror como supomos, contêm a prova (quando não fosse apenas a infinita expansão

deles mesmos!) de seu gosto pelo infinito; acontece que é um gosto que sempre toma o

caminho errado. Poderíamos entender em um sentido metafórico o provérbio vulgar:

Todo caminho leva a Roma, e aplicá-lo ao mundo moral; tudo leva à recompensa ou

ao castigo, duas formas de eternidade. O espírito humano transborda de paixões; tem

até para vender, para servir-me de uma outra locução trivial; mas este espírito

maravilhoso, cuja depravação natural é tão grande quanto sua aptidão súbita, quase

paradoxal, à caridade e às virtudes mais difíceis, é fecundo em paradoxos que lhe

permitem empregar para o mal esta superabundância de paixões. Não acredita jamais

vender-se por atacado. Esquece, em sua fatuidade, que ele escarnece de alguém mais

astuto e mais forte que ele, e que o Espírito do Mal, mesmo quando lhe damos apenas

um fio de cabelo, não demora em levar a cabeça inteira. Este senhor visível da

natureza visível (falo do homem) quis, portanto, criar o paraíso pelas drogas, pelas

bebidas fermentadas, semelhante a um maníaco que substituiria os móveis sólidos e os

jardins verdadeiros por cenários pintados sobre tela e emoldurados. É nesta

depravação do sentido do infinito que jaz, na minha opinião, a razão de todos os

excessos culposos, desde a embriaguez solitária e concentrada do literato que,

obrigado a procurar no ópio o alívio de uma dor física, e tendo desta forma descoberto

uma fonte de prazeres mórbidos, fez disto pouco a pouco sua única higiene e como que

o sol de sua vida espiritual, até a embriaguez mais repugnante dos suburbanos que, com

o cérebro carregado de fogo e glória, rolam ridiculamente nos lixos da rua.

Entre as drogas mais próprias a criar o que chamo de Ideal artificial, se deixamos

de lado os licores que levam rapidamente ao furor material e abatem a força espiritual,

e os perfumes cujo uso excessivo, ao tornar a imaginação do homem mais sutil, esgota

gradualmente suas forças físicas, as duas substâncias mais enérgicas, aquelas cujo

emprego é mais cômodo e mais à mão, são o haxixe e o ópio. A análise dos efeitos

misteriosos e dos prazeres mórbidos que estas drogas podem provocar, dos inevitáveis

castigos que resultam de seu uso prolongado e, enfim, da própria imortalidade,

implícita nesta perseguição de um falso ideal, constitui o objeto deste estudo.

O trabalho sobre o ópio foi feito de uma maneira a um só tempo tão brilhante,

médica e poética, que não ousaria acrescentar-lhe nada. Contentar-me-ei, portanto, em

um outro estudo, em fazer uma análise deste livro incomparável, que nunca foi

traduzido na França em sua totalidade. O autor, homem ilustre, de uma imaginação

poderosa e aguda, hoje afastado e silencioso, ousou fazer, com uma trágica candura, o

relato dos prazeres e das torturas que outrora encontrara no ópio, e a parte mais

dramática de seu livro é aquela em que fala dos esforços sobre-humanos de vontade

que lhe foi necessário empregar para escapar à danação a que ele imprudentemente se

havia devotado.

Hoje, falarei apenas do haxixe e falarei segundo informações numerosas e

minuciosas, extratos de anotações ou de confidências de homens inteligentes que se

entregaram a esta droga por longo tempo. Farei apenas uma fusão destes documentos

variados em uma espécie de monografia, escolhendo uma alma, por sinal fácil de

explicar e definir, como tipo próprio às experiências desta natureza.

II

O QUE É O HAXIXE?

As narrativas de Marco Polo, das quais erro neamente rimos, como de alguns outros

antigos viajantes, foram verificadas pelos eruditos e merecem nossa crença. Não

contarei, como ele já o fez, como o Velho da Montanha trancava, após havê-los

embriagado com haxixe (de onde Haxixin ou Assassinos), em um jardim cheio de

delícias, os seus mais jovens discípulos, aos quais queria dar uma ideia do paraíso,

recompensa merecida, por assim dizer, em troca de uma obediência passiva e

irrefletida. O leitor pode, com relação à sociedade secreta dos Haxixins, consultar o

livro de M. de Hammer e as memórias de M. Sylvestre de Sacy, incluídas no tomo XVI

das Mémoires de l’Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, e, relativamente à

etimologia da palavra assassino, sua carta ao redator do Moniteur, inserida no número 359 do ano de 1809. Heródoto conta que os citas colhiam grãos de cânhamo sobre os

quais lançavam pedras avermelhadas a fogo. Era para eles como que um banho de

vapor mais perfumado que o de nenhuma outra estufa grega e o prazer era tão vivo que

lhes arrancava gritos de alegria.

O haxixe, na verdade, chega para nós do Oriente; as propriedades excitantes do

cânhamo eram bem-conhecidas no Antigo Egito e seu uso era muito difundido, sob

diferentes nomes, na Índia, na Argélia e na Arábia Feliz. Mas temos perto de nós, sob

nossos olhos, exemplos curiosos da embriaguez causada por emanações vegetais. Sem

falar das crianças que, após haverem brincado e rolado nos montes de alfafa colhida,

constantemente sofrem estranhas vertigens, sabemos que, após a colheita do cânhamo,

os trabalhadores, homens e mulheres, experimentam efeitos análogos; poderíamos dizer

que a colheita exala um miasma que turva maliciosamente seus cérebros. A cabeça do

lavrador está tomada por turbilhões, às vezes carregada de sonhos. Em certos

momentos, os membros se enfraquecem e recusam o serviço. Já ouvimos falar de crises

de sonambulismo bastante frequentes entre os camponeses russos, cuja causa, comenta-

se, deve ser atribuída ao uso do óleo de sementes de cânhamo na preparação de

alimentos. Quem não conhece a extravagância das galinhas que comeram grãos desta

planta e o entusiasmo fogoso dos cavalos que os camponeses, nas núpcias ou nas festas

religiosas, preparam para uma corrida à paróquia com uma ração de sementes de

cânhamo, às vezes regada a vinho?

No entanto, o cânhamo francês não é apropriado à transformação em haxixe, ou

pelo menos, após repetidas experiências, impróprio a dar uma droga igual ao haxixe

em poder. O haxixe, ou cânhamo indiano, cannabis indica, é uma planta da família das

urticáceas, bastante semelhante, salvo por não alcançar a mesma altura, ao cânhamo de

nossos climas. Possui propriedades embriagadoras muito extraordinárias que, há

alguns anos, chamaram a atenção, na França, de eruditos e aristocratas. Ele é mais ou

menos estimado segundo suas diferentes proveniências; o de Bengala é o mais prezado

pelos amadores; no entanto, os do Egito, de Constantinopla, da Pérsia e da Argélia

gozam das mesmas propriedades, mas em grau inferior.

O haxixe (ou erva, isto é, a erva por excelência, como se os árabes tivessem

querido definir em uma palavra a erva, fonte de todas as volúpias imateriais) leva

diferentes nomes, segundo sua composição e o modo de preparação pelo qual passou

no país onde foi recolhido: na Índia, bengie; na África, teriaki; na Argélia e na Arábia Feliz, madjound etc. É importante colhê-lo em épocas do ano determinadas; é quando

está em flor que possui sua maior energia; as extremidades floridas são,

consequentemente, as únicas partes empregadas nas diferentes preparações sobre as

quais temos algumas palavras a dizer.

O extrato gorduroso do haxixe, tal como o preparam os árabes, é obtido

fervendo-se as extremidades da planta fresca na manteiga com um pouco de água. Após

a evaporação completa de toda umidade, filtra-se a solução e obtém-se, desta forma,

um preparado com a aparência de uma pomada de cor amarelo-esverdeada e que

mantém um odor desagradável de haxixe e de manteiga rançosa. Sob esta forma, é

usado em bolinhas de dois a quatro gramas; mas devido ao seu odor repugnante, que

aumenta com o tempo, os árabes usam o extrato gorduroso em forma de confeito.

O mais comum destes confeitos, o dawamesk, é uma mistura do extrato gorduroso,

açúcar e diversas fragâncias tais como baunilha, pistache, amêndoa, almíscar. Às

vezes, acrescenta-se mesmo um pouco de cantárida, com uma finalidade que nada tem

em comum com os resultados frequentes do haxixe. Sob esta nova forma, o haxixe nada

tem de desagradável, e pode-se tomar uma dose de quinze, vinte e trinta gramas,

envolta numa folha de pão ázimo ou numa xícara de café.

As experiências feitas por MM. Smith, Gastinel e Decourtive tiveram por fim

chegar à descoberta do princípio ativo do haxixe. Apesar de seus esforços, sua

composição química é ainda pouco conhecida; mas geralmente atribui-se suas

propriedades a uma matéria resinosa que se encontra em boa quantidade no haxixe, em

uma proporção de aproximadamente l0%. Para se obter esta resina, reduz-se a planta

seca em pó grosso, lava-se este pó várias vezes com álcool que é em seguida destilado

para retirá-lo em parte; é evaporado até alcançar a consistência de extrato; este extrato

é tratado com água que dissolve as matérias gomosas estranhas, ficando então a resina

em estado de pureza.

Este produto é mole, de cor verde-escura e possui em alto grau o odor

característico do haxixe. Cinco, dez, quinze centigramas bastam para produzir efeitos

surpreendentes. Mas a haxixina, que pode ser administrada sob a forma de pastilhas de

chocolate ou pequenas pílulas de gengibre, tem, como o dawamesk e o extrato

gorduroso, efeitos mais ou menos vigorosos e uma natureza muito variada segundo o

temperamento dos indivíduos e suas suscetibilidades nervosas. E, melhor ainda, o

resultado varia no mesmo indivíduo. Tanto pode ser uma alegria imoderada e

irresistível quanto uma sensação de bem-estar e de plenitude de vida, outras vezes, um

sono equívoco e cheio de sonhos. Existem, porém, fenômenos que se reproduzem com

bastante regularidade, sobretudo nas pessoas de temperamento e educação análogos; há

uma espécie de unidade na variedade que me permitirá redigir sem muita dificuldade

esta monografia da embriaguez da qual falei há pouco.

Em Constantinopla, na Argélia e mesmo na França, algumas pessoas fumam haxixe

misturado ao tabaco, mas então os fenômenos em questão produzem-se apenas sob uma

forma muito moderada e, por assim dizer, preguiçosa. Ouvi dizer que, recentemente,

por meio da destilação, havia sido extraído do haxixe um óleo essencial que parece

possuir uma virtude muito mais ativa que todos os preparados conhecidos até o

presente; mas ainda não foi bastante estudado para que eu possa falar de seus

resultados com certeza. Não seria supérfluo dizer que o chá, o café e os licores são

ajudantes poderosos que aceleram mais ou menos a eclosão desta embriaguez

misteriosa?

III

O TEATRO DE SERAFIM

O que se experimenta? O que se vê? Coisas maravilhosas, não é? Espetáculos

extraordinários? São belos? E terríveis? E perigosos ? Tais são as perguntas que

frequentemente fazem, com uma curiosidade misturada a medo, os ignorantes aos

adeptos. Diríamos uma impaciência infantil em saber, como a das pessoas que nunca

saíram de casa quando se encontram diante de um homem que volta de países

longínquos e desconhecidos. Eles imaginam a embriaguez do haxixe como um país

prodigioso, um vasto teatro de prestidigitação e escamotagem onde tudo é milagroso e

imprevisto. Há aí um preconceito, um desprezo completo e uma vez que, para os

leitores e curiosos comuns, a palavra haxixe comporta a ideia de um mundo estranho e

confuso, a expectativa de sonhos prodigiosos (seria melhor dizer alucinações, que são,

aliás, menos frequentes do que imaginamos), eu chamarei a atenção em seguida para a

importante diferença que separa os efeitos do haxixe do fenômeno do sono. No sono,

esta viagem aventurosa de todas as noites, há algumas coisas de positivamente

milagroso; é um milagre cuja pontualidade acabou com o mistério. Os sonhos do

homem são de duas classes. Uns, cheios de vida cotidiana e suas preocupações, seus

desejos, seus vícios, combinam-se de uma maneira mais ou menos estranha com os

objetos percebidos durante o dia que indiscretamente se fixaram sobre a vasta tela da

memória. Eis o sonho natural; é o próprio homem. Mas e a outra espécie de sonho? O

sonho absurdo, imprevisto, sem relação nem conexão com o caráter, a vida e as

paixões do adormecido? Este sonho, que chamarei de hieroglífico, representa

evidentemente o lado sobrenatural da vida, e é justamente por ser absurdo que os

antigos julgavam-no divino. Como é inexplicável pelas causas naturais, atribuíram-lhe

uma causa exterior ao homem; e ainda hoje, sem falar dos oniromancistas, existe uma

escola filosófica que vê nos sonhos deste gênero ora uma admoestação, ora um

conselho; em suma, um quadro simbólico e moral gerado no próprio espírito do homem

adormecido. É um dicionário que se precisa estudar, uma língua cuja chave podem

obter os sábios.

Na embriaguez do haxixe, nada parecido. Não sairemos do sonho natural. A

embriaguez, em toda sua duração, será apenas, é verdade, um imenso sonho, graças à

intensidade das cores e à rapidez de concepções; mas guardará sempre a tonalidade

particular do indivíduo. O homem quis sonhar, o sonho governará o homem; mas este

sonho será o filho de seu pai. O ocioso esforçou-se por introduzir artificialmente o

sobrenatural em sua vida e em seu pensamento; mas, após tudo e apesar da energia

acidental de suas sensações, ele continua sendo o mesmo homem aumentado, o mesmo

número elevado a uma altíssima potência. É subjugado; mas, para sua infelicidade, é

ele mesmo que se subjuga, isto é, pela parte já dominante dele mesmo; quis ser anjo,

tornou-se besta, momentaneamente muito poderosa, se todavia pudermos chamar de

poder uma excessiva sensibilidade, sem governo que a modere ou explore.

Que os aristocratas e os ignorantes, curiosos de conhecer prazeres excepcionais,

saibam, portanto, que não encontrarão no haxixe nada de miraculoso, absolutamente

nada do natural excessivo. O cérebro e o organismo sobre os quais opera o haxixe

oferecerão apenas seus fenômenos comuns, individuais, aumentados, é verdade, quanto

ao número e à energia, mas sempre fiéis às suas origens. O homem não escapará à

fatalidade de seu temperamento físico e moral: o haxixe será, para as impressões e os

pensamentos familiares do homem, um espelho que aumenta, mas um simples espelho.

Eis a droga diante de seus olhos: um pouco de confeito verde, grande como uma

noz, extremamente aromático, a ponto de causar uma certa repulsa e ânsias de vômito,

como o faria, de resto, todo odor agudo e mesmo agradável levado à sua força máxima

e, por assim dizer, à sua densidade máxima. Que me seja permitido notar, de passagem,

que esta proposição pode ser invertida e que o perfume mais repugnante, mais

revoltante, poderia se tornar um prazer se fosse reduzido à sua quantidade e expansão

mínimas. – Eis aí a felicidade! Uma colherzinha bem cheia! A felicidade com toda a

sua embriaguez, todas as suas loucuras, todas as suas criancices! Pode engolir sem

medo, disto não se morre. Seus órgãos físicos não sofrerão nada. Mais tarde, talvez,

um apelo demasiadamente frequente ao sortilégio diminuirá a força de sua vontade,

talvez torne-se menos homem do que é hoje; mas o castigo está tão longe e o desastre é

de uma natureza tão difícil de se definir! Que riscos você corre? Amanhã, um pouco de

cansaço nervoso. Você não corre o risco, todos os dias, dos maiores castigos por

recompensas menores? Desta forma, está dito; para dar-lhe mais força e expansão,

você chegou até mesmo a diluir sua dose de extrato gorduroso em uma xícara de café

preto; tomou o cuidado de manter o estômago livre, transferindo para as nove ou dez

horas da noite a refeição substancial para dar ao veneno toda a liberdade de ação; no

máximo, dentro de uma hora, você tomará uma sopa leve. Você está agora

suficientemente lastreado para uma longa e extraordinária viagem. O vapor apitou, o

velame está orientado, e você tem sobre os viajantes comuns este curioso privilégio de

ignorar aonde vai. Você quis; viva a fatalidade!

Suponho que você teve a precaução de escolher bem o seu momento para esta

expedição aventurosa. Toda orgia perfeita necessita de um perfeito repouso. Você

sabe, além disto, que o haxixe cria o exagero não apenas do indivíduo, mas também da

circunstância e do meio; você não tem deveres a cumprir que exijam a pontualidade e a

exatidão; nenhuma tristeza de família; nenhuma dor de amor. É preciso ter cuidado.

Esta infelicidade, esta inquietude, esta lembrança de um dever que reclama sua

vontade, sua atenção a um momento determinado soarão como um dobre de finados em

meio à sua embriaguez e envenenarão seu prazer. A inquietação será transformada em

angústia; a tristeza, em tortura. Se, observadas todas estas condições preliminares, o

tempo estiver bom, se você estiver em um ambiente favorável, como uma paisagem

pitoresca ou um apartamento poeticamente decorado, se, além disto, você puder contar

com um pouco de música, então tudo é para o melhor.

Há, geralmente, na embriaguez do haxixe, três fases bastante fáceis de serem

distinguidas, e não há nada mais curioso a observar, nos noviços, que os primeiros

sintomas da primeira fase. Você já ouviu falar vagamente dos maravilhosos efeitos do

haxixe, sua imaginação tem preconcebida uma ideia particular, algo como um ideal de

embriaguez; você demora a saber se a realidade está decididamente à altura de sua

expectativa. Basta isto para que você se lance, desde o início, em um estado ansioso,

bastante favorável ao espírito conquistador e invasor do veneno. A maioria dos

noviços, no primeiro grau de iniciação, reclama da lentidão dos efeitos; esperam-nos

com uma impaciência pueril e, como a droga não age com a rapidez que queriam,

entregam-se a fanfarronadas de incredulidade que são muito divertidas para os velhos

iniciados que sabem como se governa o haxixe. Os primeiros ataques, como os

sintomas de uma tempestade por longo tempo indecisa, aparecem e se multiplicam no

seio mesmo desta incredulidade. Há inicialmente uma certa hilaridade, extravagante,

irresistível que se apodera de você. Estes acessos de alegria não motivada, da qual

você quase se envergonha, reproduzem-se frequentemente e separam intervalos de

entorpecimento durante os quais você tenta, em vão, concentrar-se. As palavras mais

simples, as ideias mais triviais tomam uma fisionomia nova e estranha; você se espanta

de, até o momento, tê-las achado tão simples. Semelhanças e aproximações

incongruentes, impossíveis de serem percebidas, jogos de palavras intermináveis,

tentativas de comicidade jorram continuamente de seu cérebro. O demônio o invadiu; é

inútil resistir a esta hilaridade, dolorosa como cócegas. De vez em quando, você ri de

si mesmo, de sua ingenuidade e de sua loucura, e seus companheiros, se você os tem,

riem igualmente de seu estado e do deles; mas, como eles não têm malícia, você não

tem rancores.

Esta alegria alternadamente lânguida e pungente, este mal-estar dentro do prazer,

esta insegurança, esta indecisão da enfermidade geralmente dura pouco tempo. Logo,

as harmonias de ideias tornam-se tão vagas, o fio condutor que liga seus conceitos, tão

fino, que apenas seus cúmplices podem compreender você. E ainda, sobre este assunto

e deste aspecto, não há meio de verificação; eles talvez acreditem compreendê-lo e a

ilusão é recíproca. Esta brincadeira e estas gargalhadas, que se assemelham a

explosões, parecem ser verdadeira loucura, ou pelo menos um disparate de maníaco, a

qualquer homem que não estiver no mesmo estado. Da mesma forma que o bom

comportamento e o bom-senso , a regularidade de pensamentos da testemunha prudente

que não estiver embriagada o diverte e o alegra como um gênero particular de

demência. Os papéis ficam invertidos. O sangue-frio de sua testemunha leva você aos

últimos limites da ironia. Não é uma situação misteriosamente cômica a de um homem

que goza de uma alegria incompreensível para quem não está situado no mesmo meio

que ele? O louco toma-se de piedade pelo prudente e, desde logo, a ideia de sua

superioridade começa a despontar no horizonte de seu intelecto. Logo ela crescerá,

aumentará e explodirá como um meteoro.

Fui testemunha de uma cena deste gênero que chegou longe demais e onde o

grotesco apenas era inteligível entre aqueles que conheciam, ao menos pela

observação, sobre outrem, os efeitos da substância e a enorme diferença de diapasão

que ele cria entre duas inteligências supostamente iguais. Um músico famoso, que

ignorava as propriedades do haxixe, e que possivelmente nunca ouvira falar delas, cai

em um círculo onde várias pessoas já haviam tomado a droga. Tentam fazê-lo

compreender seus maravilhosos efeitos. Diante destes relatos prodigiosos, sorri com

graça, por complacência, como um homem que quer se apresentar bem por alguns

minutos. Seu desprezo é logo percebido pelos espíritos aguçados pelo veneno e os

risos o ferem. As explosões de alegria, os jogos de palavras, as fisionomias alteradas,

toda a atmosfera malsã irritam-no e levam-no a declarar, mais cedo talvez do que o

desejasse, que esta charge de artista é má e que, além disto, deve ser mais cansativa

para os que a empreenderam. A comicidade ilumina todos os espíritos como um

relâmpago. Houve um redobramento de alegria. “Esta charge pode ser boa para vocês,

diz ele, mas para mim, não” – “Basta que seja boa para nós”, replica egoisticamente

um dos enfermos. Sem saber se está lidando com verdadeiros loucos ou com pessoas

que simulam loucura, nosso homem crê que o mais sensato a fazer é retirar-se; mas

alguém fecha a porta e esconde a chave. Um outro, ajoelhando-se diante dele, pede-lhe

perdão em nome do círculo, e declara-lhe insolentemente, mas às lágrimas, que, apesar

da inferioridade espiritual do músico, o que talvez provocasse um pouco de piedade,

todos são tomados de uma profunda amizade por ele. Este resigna-se a ficar, e mesmo

condescende, após súplicas veementes, em tocar um pouco de música. Mas os sons do

violino, ao se difundirem pelo apartamento como um novo contágio, arrebatam (a

palavra não é muito forte) ora um enfermo, ora outro. Eram suspiros roucos e

profundos, soluços súbitos, rios de lágrimas silenciosas. O músico, assustado,

interrompe sua música e, aproximando-se daquele cujo êxtase provocava maior ruído,

pergunta-lhe se está sofrendo muito e o que seria necessário fazer para aliviá-lo. Um

dos assistentes, um homem prático, sugere limonada e ácidos. Mas o enfermo, com

êxtase no olhar, fita os dois com um desprezo indizível. Querer curar um homem doente

de excesso de vida, doente de alegria!

Como se pode notar por este fato, a benevolência ocupa um espaço bastante amplo

nas sensações causadas pelo haxixe; uma benevolência mole, preguiçosa, muda,

derivada do abrandamento dos nervos. Como reforço a esta observação, uma pessoa

me contou uma aventura pela qual passou neste estado de embriaguez; e como havia

guardado uma lembrança muito exata de suas sensações, compreendi perfeitamente em

que embaraço grotesco, inextricável, havia sido lançada por esta diferença de diapasão

e de nível de que falei há pouco. Não me lembro se era a primeira ou a segunda

experiência do homem em questão. Haveria tomado uma dose um pouco forte demais,

ou haveria o haxixe produzido, sem a ajuda de nenhuma outra causa aparente (o que

acontece frequentemente), efeitos muito mais vigorosos? Contou-me que em meio ao

seu prazer, este prazer supremo de sentir-se cheio de vida e de se acreditar tomado de

genialidade, havia encontrado, subitamente, um objeto de terror. Seduzido inicialmente

pela beleza de suas sensações, passou, de repente, a ser tomado de pânico. Perguntou-

se o que aconteceria a sua inteligência e aos seus órgãos se este estado, que ele achava

ser sobrenatural, fosse se agravando para sempre, se seus nervos tornassem-se cada

vez mais delicados. Pela capacidade de amplificação que possui o olho espiritual do

paciente, este medo deve ter sido um suplício inefável. “Eu era”, disse-me ele, “como

um cavalo levado pela corrente até um abismo, querendo parar mas sem poder. Na

verdade, era um galope assustador e meu pensamento, escravo da circunstância, do

meio, do acidente e de tudo o que puder estar implicado na palavra acaso, havia

tomado uma aparência pura e absolutamente rapsódica. É tarde demais! repetia para

mim mesmo sem cessar com desespero. Quando terminou esta maneira de sentir, que

me pareceu durar um tempo infinito e que levou talvez apenas alguns minutos, quando

acreditei poder enfim mergulhar na beatitude, tão cara aos orientais, que sucede esta

fase furibunda, fui oprimido por uma nova infelicidade. Uma nova inquietação, bem

trivial e bem pueril, abateu-se sobre mim. Lembrei-me subitamente que estava

convidado para um jantar, para uma reunião de homens sérios. Vi-me antecipadamente

no meio de uma multidão bem-comportada e discreta onde cada um era mestre de si

mesmo, obrigado a esconder cuidadosamente meu estado de espírito sob o brilho de

numerosas lâmpadas. Acreditava que teria êxito, mas também sentia-me quase

desmaiar ao pensar nos esforços de vontade que me seria necessário empregar. Por

não sei que acidente, as palavras do Evangelho: ‘Infeliz aquele a quem o escândalo

alcança!’ acabam de surgir em minha memória e, mesmo querendo esquecê-las,

esforçando-me para esquecê-las, eu as repetia sem cessar em meu espírito. Minha

infelicidade (pois era uma verdadeira infelicidade) tomou então proporções

grandiosas. Resolvi, apesar de minha fraqueza, fazer ato de energia e consultar um

farmacêutico, pois ignorava os reagentes e queria ir, com o espírito livre e

desimpedido, ao mundo onde meu dever me chamava. Mas à porta da farmácia, fui

tomado por um pensamento súbito que me parou por alguns instantes e me pôs a

refletir. Eu acabava de me observar, rapidamente, no espelho de uma vitrina e meu

rosto me espantara. A palidez, os lábios contraídos, os olhos dilatados! Vou inquietar

este pobre homem, disse-me, e por uma tolice! Acrescentem a isto o sentimento de

ridículo que eu queria evitar, o receio de encontrar a farmácia cheia. Mas minha súbita

benevolência por este boticário desconhecido dominou todos os meus outros

sentimentos. Imaginava este homem tão sensível como eu mesmo neste instante funesto

e como eu imaginava também, que seus ouvidos e sua alma deviam, como os meus,

vibrar ao menor ruído, decidi entrar na sua farmácia na ponta dos pés. Eu não saberia,

me dizia a mim mesmo, mostrar bastante discrição na casa de um homem cuja caridade

eu iria sobressaltar. E eu me prometi diminuir o som da voz com o ruído de meus

passos; você a conhece, a voz do haxixe? Grave, profunda, gutural e que se parece

muito com a voz dos antigos comedores de ópio. O resultado foi o contrário do que

queria obter. Decidido a tranquilizar o farmacêutico, eu o espantava. Ele não conhecia

nada desta doença, nunca tinha ouvido falar. No entanto, observava-me com uma

curiosidade misturada a uma alta dose de desconfiança. Tomava-me por um louco, um

malfeitor ou um mendigo? Nem isto, nem aquilo, sem dúvida; mas todas estas ideias

absurdas percorriam meu cérebro. Fui obrigado a explicar-lhe demoradamente (que

cansaço!) o que era o confeito de cânhamo e a que servia, repetindo-lhe, sem cessar,

que não havia perigo algum, que não havia, para ele, razão para alarmar-se e que

pedia apenas um meio de alívio ou de reação, insistindo frequentemente na tristeza

sincera que sentia por causar-lhe incômodo. Enfim, compreenda bem toda a

humilhação contida para mim nestas palavras – ele pediu-me que me retirasse. Tal foi

a recompensa a minha caridade e a minha benevolência excessivas. Fui à minha

reunião; não escandalizei ninguém. Ninguém percebeu os esforços sobre-humanos que

me foram necessários para ser igual aos outros. Mas não esquecerei jamais as torturas

de uma embriaguez ultrapoética, molestada pelo decoro e contrariada por um dever!”

Embora naturalmente levado a simpatizar com todas as dores que nascem da

imaginação, não pude deixar de rir deste relato. Seu autor não se corrigiu. Continuou a

pedir ao confeito maldito a excitação que se deve procurar em si mesmo; mas como

trata-se de um homem prudente, comportado, um aristocrata, diminuiu suas doses, o

que permitiu-lhe um aumento de frequência. Mais tarde, irá apreciar os frutos

apodrecidos de sua higiene.

Voltemos ao desenvolvimento regular da embriaguez. Após esta primeira fase de

alegria infantil, há como que um apaziguamento. Mas novos acontecimentos se

anunciam, em seguida, por uma sensação de frescor nas extremidades (que pode

mesmo tornar-se um frio muito intenso em alguns indivíduos) e uma grande fraqueza de

todos os membros; você tem, agora, mãos de manteiga e em sua cabeça, em todo o seu

ser, há um estupor e uma estupefação embaraçantes. Seus olhos dilatam-se; estão como

que lançados em todos os sentidos por um êxtase implacável. Seu rosto inunda-se de

palidez. Seus lábios se contraem e entram em sua boca, com o movimento da

respiração ofegante que caracteriza todo homem presa de grandes projetos, oprimido

por vastos pensamentos ou que simplesmente toma fôlego. A garganta se fecha, por

assim dizer. O palato é ressecado por uma sede a qual seria infinitamente bom

satisfazer se as delícias da preguiça não fossem mais agradáveis e não se opusessem à

menor alteração do corpo. De seu peito, escapam suspiros roucos e profundos, como

se o seu velho corpo não pudesse mais suportar os desejos e atividades de sua alma

nova. De vez em quando, um tremor atravessa seu corpo e o obriga a um movimento

involuntário, como estes sobressaltos que, ao fim de um dia de trabalho ou durante uma

noite agitada, precedem o sono definitivo.

Antes de continuar, quero, a propósito desta sensação de frescor da qual falei

acima, contar uma outra história que servirá para mostrar até que ponto os efeitos,

mesmo os puramente físicos, podem variar segundo os indivíduos. Desta vez, é um

literato quem fala, e em algumas passagens de seu relato poderemos, acredito,

encontrar os indícios de um temperamento literário.

“Havia tomado”, disse-me ele, “uma dose moderada do extrato gorduroso e tudo

ia bem. A crise de alegria doentia havia durado muito tempo, e encontrava-me em um

estado de languidez e de admiração que se assemelhava à felicidade. Portanto,

anunciava-se uma noite tranquila e sem preocupações. Infelizmente, o acaso me

obrigou a acompanhar alguém ao teatro. Resolvi ser forte, decidido a esconder meu

imenso desejo de preguiça e imobilidade. Como todos os carros de meu quarteirão já

estavam ocupados, tive que me resignar a fazer um longo trajeto a pé, a caminhar

através dos barulhos dissonantes dos carros, as conversas estúpidas dos passantes,

todo um oceano de trivialidades. Um leve frescor já se havia anunciado na ponta de