Paraísos Artificiais por Charles Baudelaire - Versão HTML

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meus dedos; logo transformou-se em um frio intenso, como se minhas duas mãos

estivessem mergulhadas em um balde de água gelada. Mas não era um sofrimento; esta

sensação quase aguda penetrava-me, sobretudo, como uma volúpia. Entretanto, parecia

que o frio invadia-me cada vez mais, à medida que continuava minha interminável

viagem. Perguntei duas ou três vezes à pessoa que me acompanhava se estava

realmente fazendo muito frio; respondeu-me que, ao contrário, a temperatura estava

quase morna. Finalmente instalado na sala, fechado na caixa que me havia sido

destinada, com três ou quatro horas de repouso diante de mim, acreditei haver chegado

a terra prometida. Irromperam então os sentimentos que eu havia repelido durante a

caminhada, com toda a pobre energia de que dispunha, e abandonei-me livremente ao

meu mudo frenesi. O frio aumentava sempre e, no entanto, via pessoas vestidas de

roupas leves ou mesmo enxugando a testa com ar de cansaço. Fui tomado por uma ideia

divertida, a de que eu era um homem privilegiado, o único a quem era dado o direito

de ter frio no verão em uma sala de espetáculo. O frio aumentava a ponto de se tornar

alarmante; mas eu estava, antes de tudo, dominado pela curiosidade de saber até que

temperatura poderia descer. Enfim, chegou a tal ponto, foi tão completo, tão geral, que

todas as minhas ideias se congelaram, por assim dizer; eu era um pedaço de gelo

pensante; considerava-me uma estátua talhada em um só bloco de gelo; e esta

alucinação louca deixava-me orgulhoso, provocava em mim um bem-estar moral que

não saberia defini-lo para você. O que aumentava o meu prazer abominável era a

certeza de que todos os assistentes ignoravam o meu estado e que superioridade eu

tinha sobre eles; e também a felicidade de pensar que meu companheiro não duvidava

um só instante das estranhas sensações pela qual eu passava! Recebia a recompensa

pela minha dissimulação e minha volúpia excepcional era um verdadeiro segredo.

“De resto, mal entrei em meu camarote e meus olhos ficaram perturbados por uma

impressão de trevas que me pareceu ter algum parentesco com a ideia de frio. É

possível que estas duas ideias se tenham dado forças recíprocas. Você sabe que o

haxixe invoca sempre magnificências de luz, esplendores gloriosos, cascatas de ouro

líquido; toda luz lhe agrada, a que flui em camadas e a que, como lantejoulas, agarra-se

às pontas e às asperidades, os candelabros dos salões, as velas do mês de Maria, as

avalanchas de rosa do pôr do sol. Parecia que o miserável lustre emitia uma luz

insuficiente para a minha sede insaciável de claridade; acreditei estar entrando, como

já lhe disse, em um mundo de trevas, que, aliás, aumentavam gradualmente, enquanto

que eu imaginava noites polares e frios eternos. Quanto à cena (era uma cena

consagrada ao gênero cômico), somente ela era luminosa, infinitamente pequena e

afastada, muito afastada, como que na extremidade de um imenso estereoscópio. Não

posso dizer que ouvia os artistas, você sabe que isso é impossível; às vezes meu

pensamento agarrava um pedaço de frase, e, semelhante a uma bailarina hábil, servia-

se dela como um trampolim para lançar-se em sonhos longínquos. Poderíamos dizer

que faltam lógica e encadeamento a um drama ouvido desta maneira; é engano;

descobri um sentido muito sutil no drama criado por minha distração. Nada me

chocava e eu parecia um pouco com o poeta que, ao ver representarem Esther pela

primeira vez, achou muito natural que Aman fizesse uma declaração de amor à rainha.

Era, você pode adivinhar, o momento em que este lança-se aos pés de Esther para

implorar perdão por seus crimes. Se todos os dramas fossem ouvidos segundo este

método, muito ganhariam em beleza, mesmo os de Racine.

“Os atores me pareciam excessivamente pequenos e circundados por um contorno

preciso e cuidadoso, como as figuras de Meissonier. Via distintamente não apenas os

detalhes mais minuciosos de suas vestimentas, os desenhos do tecido, as costuras, os

botões etc., mas também a linha de separação da testa falsa da verdadeira, o branco, o

azul e o vermelho e todos os meios de se fazer uma máscara. E os liliputianos estavam

revestidos por uma claridade fria e mágica, como a que um vidro bem claro acrescenta

a uma pintura a óleo. Quando pude enfim sair deste jazigo de trevas geladas e, após

dissipar-se a fantasmagoria interior, voltei a mim mesmo, senti uma preguiça maior que

nenhum outro trabalho árduo e forçado tenha me causado.”

É, na verdade, ao fim deste período de embriaguez que se manifesta uma

sagacidade, uma acuidade superior a todos os sentidos. O olfato, a visão, a audição, o

tato participam igualmente deste processo. Os olhos alcançam o infinito. O ouvido

percebe sons quase inaudíveis no centro do maior tumulto. É aí então que começam as

alucinações. Lentamente, sucessivamente, os objetos ganham aparências estranhas;

deformam-se e se transformam. Em seguida, surgem os equívocos, os desprezos e as

transposições de ideias. Os sons se revestem de cores e as cores contêm uma música.

Isto, dirão, é muito natural, e todo cérebro poético em seu estado são e normal,

facilmente concebe estas analogias, mas já adverti o leitor de que não há nada de

positivamente sobrenatural na embriaguez do haxixe; trata-se apenas de que estas

analogias se revestem, então, de uma vivacidade fora do comum; penetram, invadem,

oprimem o espírito com seu caráter despótico. As notas musicais se tornam números, e

se seu espírito for dotado de alguma aptidão matemática, a melodia, a harmonia

ouvida, mantendo seu caráter voluptuoso e sensual, transforma-se em uma vasta

operação aritmética, onde os números geram números e cujas fases e gerações você

acompanha com uma facilidade inexplicável e uma agilidade igual àquela do

executante.

Acontece, às vezes, de desaparecer a personalidade, e a objetividade, que é

própria aos poetas panteístas, desenvolve-se de modo tão anormal que a contemplação

dos objetos externos faz com que você esqueça a sua própria existência e confunda-se,

em seguida, com eles. Seu olhar se fixa em uma árvore harmoniosa curvada pelo vento.

Em alguns segundos o que seria para o cérebro de um poeta apenas uma comparação

bastante natural torna-se realidade para o seu. Primeiramente, você empresta à árvore

as suas paixões, seus desejos ou sua melancolia; os gemidos e as oscilações tornam-se

seus e, logo, você é a árvore. Da mesma forma, o pássaro que plana no fundo do céu

representa inicialmente o imortal anseio de planar acima das coisas humanas; mas eis

que você é o próprio pássaro. Eu o imagino sentado e fumando. Sua atenção repousará

longamente sobre as nuvens azuladas que exalam de seu cachimbo. A ideia de uma

evaporação, lenta, sucessiva, eterna, tomará conta de seu espírito, e você aplicará em

seguida esta ideia aos seus próprios pensamentos, à sua matéria pensante. Por um

estranho equívoco, por uma espécie de transposição ou de quiproquó intelectual, você

se sentirá evaporando e atribuirá ao seu cachimbo (no qual você vai se sentir curvado

e encolhido como o tabaco) a estranha faculdade de fumá-lo.

Por felicidade, esta imaginação interminável durou apenas um minuto, pois um

intervalo de lucidez, com grande esforço, permitiu-lhe examinar o pêndulo. Mas você é

levado por uma outra corrente de ideias; ela o transportará ainda por um minuto em seu

turbilhão vivo, e este outro minuto será uma nova eternidade. Pois as proporções do

tempo e do ser estão completamente alteradas pela multidão e pela intensidade de

sensações e de ideias. Seria mesmo possível dizer que se vive várias vidas humanas

no espaço de uma hora. Você não é então um romance fantástico que seria vivo em

lugar de ser escrito? Não há mais harmonia entre os órgãos e os prazeres; e é

sobretudo desta consideração que surge a repreensão aplicável a este perigoso

exercício onde desaparece a liberdade.

Quando falo de alucinação, é preciso não tomar a palavra em seu sentido mais

estrito. Uma nuança muito importante distingue a alucinação pura, tal qual os médicos

constantemente têm a oportunidade de estudar, da alucinação ou, melhor, do desprezo

dos sentidos no estado mental ocasionado pelo haxixe. No primeiro caso, a alucinação

é súbita, perfeita e fatal; além disto, não encontra nem pretexto nem desculpas no

mundo dos objetos externos. O doente vê uma forma, ouve sons onde não há nada. No

segundo caso, a alucinação é progressiva, quase involuntária, e não se torna perfeita,

torna-se madura apenas pela ação da imaginação. Enfim, ela tem um pretexto. O som

falará, dirá coisas distintas, mas havia um som. O olhar embriagado do homem tomado

pelo haxixe verá formas estranhas; mas, antes de serem estranhas ou monstruosas, estas

formas eram simples e naturais. A energia, a vivacidade realmente falante da

alucinação na embriaguez não diminui em nada esta diferença original. Aquela tem a

raiz no meio ambiente e no tempo presente e esta não.

Para melhor compreender esta efervescência da imaginação, esta maturação do

sonho e este parto poético ao qual é condenado um cérebro intoxicado pelo haxixe,

contarei ainda um fato curioso. Desta vez, não é um jovem ocioso quem fala e não é,

tampouco, um homem de letras; é uma mulher, uma mulher um pouco madura, curiosa,

de espírito excitável e que, tendo cedido à vontade de travar conhecimento com o

veneno, descreve desta forma, para uma outra senhora, a principal de suas visões.

Transcrevo literalmente:

“Ainda que tenham sido estranhas e novas as sensações que consegui com minha

loucura de doze horas (doze ou vinte? na verdade, eu não sei dizer), não voltarei mais

a elas. A excitação espiritual é viva demais, o cansaço que dela resulta, grande

demais; e, em suma, vejo nesta criancice algo de criminoso. Enfim, cedi à curiosidade;

e depois, era uma loucura incomum, na casa de velhos amigos, onde eu não via nenhum

grande mal se perdesse um pouco de dignidade. Antes de mais nada, devo lhe dizer que

este maldito haxixe é uma substância bem pérfida; acreditamos às vezes estar livres da

embriaguez, mas é uma falsa calmaria. Há repousos e depois retomadas. Assim, pelas

dez horas da noite, encontrei-me em um destes estados momentâneos; acreditei estar

livre desta superabundância que me havia causado tantos prazeres, é verdade, mas que

não havia sido sem medo. Pus-me a cear com prazer, como que fatigada por uma longa

viagem. Porque, até então, por prudência, eu me abstivera de comer. Mas, antes mesmo

de me levantar da mesa, meu delírio me havia novamente surpreendido, como um gato

a um rato, e o veneno pôs-se de novo a brincar com meu pobre cérebro. Embora minha

casa não fosse longe do castelo de nossos amigos e houvesse um carro à minha

disposição, sentia-me de tal maneira arrebatada pela necessidade de sonhar e de me

entregar a esta irresistível loucura, que aceitei com prazer a oferta que me fizeram de

me hospedarem até o dia seguinte. Você conhece o castelo; sabe que arrumaram,

decoraram e remodelaram de maneira moderna toda a parte habitada pelos

proprietários, mas que a parte geralmente inabitada foi deixada intacta, com seu velho

estilo e sua velha decoração. Foi decidido que improvisariam um quarto para mim

nesta parte do castelo, e escolheram, para isto, o menor quarto, uma espécie de

camarim um pouco envelhecido e decrépito, mas que, apesar disto, tinha o seu encanto.

É preciso que eu o descreva, mais ou menos, para você, a fim de que compreenda a

estranha visão que me tomou uma noite inteira, sem que eu tivesse oportunidade de

perceber a fuga das horas.

“Este camarim é muito pequeno, muito estreito. À altura da cornija, o teto toma a

forma de uma abóbada; as paredes são recobertas por vidros estreitos e alongados,

separados por telas em que foram pintadas paisagens no estilo negligente, dos

cenários. À altura da cornija, sobre as quatro paredes, estão representadas diversas

figuras alegóricas, umas em atitude de repouso, outras correndo ou girando. Sobre elas

alguns pássaros brilhantes e flores. Atrás das figuras, ergue-se um gradil pintado de

forma a dar uma impressão de relevo real e seguindo, naturalmente, a curva do teto.

Este teto é dourado. Todos os interstícios entre as molduras e as figuras são, portanto,

recobertos de ouro e no centro o ouro é interrompido apenas pelo emaranhado

geométrico do gradil simulado. Você pode ver que tudo isto se parece um pouco com

uma gaiola muito elegante, uma belíssima gaiola para um enorme pássaro. Devo

acrescentar que a noite estava muito bela, muito transparente, a lua muito viva, a ponto

de, mesmo após ter apagado a vela, toda a decoração continuar visível, não iluminada

pelo olho do meu espírito, como você poderia crer, mas clareada por esta bela noite,

cujos brilhos embaraçavam-se a todo este bordado de ouro, espelhos e cores

mosqueadas.

“Espantei-me de início ao ver grandes espaços estenderem-se diante de mim, ao

meu lado, de todos os lados; eram margens límpidas e paisagens verdejantes que se

refletiam nas águas tranquilas. Você pode adivinhar aí o efeito das telas repercutidas

nos espelhos. Ao levantar os olhos, vi um sol poente, semelhante ao metal em fusão

que se esfria. Era o ouro do teto; mas o gradil me fez pensar que eu estava em uma

espécie de gaiola ou casa aberta de todos os lados no espaço e que eu estava separada

de todas estas maravilhas apenas pelas barras de minha magnífica prisão. Inicialmente,

ria de minha prisão. Mas, quanto mais a olhava, mais a magia aumentava, tomava vida,

transparência e despótica realidade. A partir de então, a ideia de clausura dominou-me

o espírito, sem prejudicar em demasia, devo dizer, os vários prazeres que tirava do

espetáculo que se desdobrava em volta e acima de mim. Considerava-me presa por

muito tempo, por milhares de anos, talvez, nesta gaiola suntuosa, em meio a estas

paisagens feéricas, entre estes horizontes maravilhosos. Eu sonhava com a Bela

adormecida, com expiações a sofrer, com uma futura libertação. Acima de minha

cabeça, giravam pássaros brilhantes dos trópicos, e, como meu ouvido percebesse o

som de sinetas no pescoço dos cavalos que caminhavam, ao longe, na estrada, os dois

sentidos fundiram suas impressões em uma única ideia e eu atribuía aos pássaros este

misterioso canto de cobre e acreditei que cantavam por uma garganta de metal.

Evidentemente, eles falavam de mim e celebravam meu cativeiro. Macacos faziam

cambalhotas, sátiros bufos pareciam divertir-se com esta prisioneira estendida,

condenada à imobilidade. Mas todas as divindades mitológicas que observavam com

um sorriso encantador, como que para me encorajar a suportar pacientemente o

sortilégio e todas as pupilas deslizavam no canto das pálpebras como para se

prenderem ao meu olhar. Concluí que se culpas antigas, se alguns pecados

desconhecidos por mim mesma haviam necessitado este castigo temporário, eu podia

contar, no entanto, com uma bondade superior que, condenando-me à prudência,

oferecia-me prazeres mais graves que os prazeres de boneca que enchem nossa

juventude. Você pode ver que as considerações morais não estavam ausentes de meu

sonho; mas devo confessar que o prazer de contemplar estas formas e estas cores

brilhantes, e de crer-me o centro de um drama fantástico, absorvia frequentemente

todos os outros pensamentos. Este estado durou muito tempo, muitíssimo tempo...

Durou até a manhã? isto eu ignoro. Vi subitamente o sol da manhã instalar-se em meu

quarto; assaltou-me um vivo espanto, e apesar de todos os esforços de memória que

pude fazer, foi-me impossível saber se havia dormido ou se havia sofrido

pacientemente uma deliciosa insônia. Há pouco era noite, e agora é dia! E, no entanto,

eu havia vivido tanto, oh! tanto!... A noção do tempo ou, antes, a medida do tempo foi

abolida e a noite inteira era mensurável para mim apenas pela profusão de meus

pensamentos. Ainda que, deste ponto de vista, ela me tenha parecido longa, tive a

impressão de que havia durado apenas alguns segundos ou então que não havia tomado

lugar na eternidade.

“Não vou lhe falar de meu cansaço..., foi imenso. Dizem que o entusiasmo dos

poetas e dos criadores assemelha-se ao que senti, embora eu sempre tenha imaginado

que as pessoas encarregadas de nos emocionar devessem ser dotadas de um

temperamento muito calmo; mas se o delírio poético assemelha-se ao que me foi

proporcionado por uma pequena colherada de confeito, penso que os prazeres do

público custam bem caro aos poetas, e não foi sem um certo bem-estar, uma satisfação

prosaica, que enfim senti-me em minha pessoa, em minha pessoa intelectual, quero

dizer, na vida real.”

Eis uma mulher evidentemente razoável; mas vamos nos servir de seu relato

apenas para tirarmos algumas notas úteis que completarão esta descrição bastante

sumária das principais sensações engendradas pelo haxixe.

Ela falou da ceia como um prazer que chega bem a propósito, no momento em que

uma bonança momentânea, mas que parecia definitiva, permitia-lhe voltar à vida real.

Na verdade, há, como já disse, intermitências e falsas calmarias, e constantemente o

haxixe determina uma fome voraz, quase sempre uma sede excessiva. Acontece que o

jantar ou a ceia, no lugar de trazerem um repouso definitivo, criam uma reduplicação,

uma crise vertiginosa da qual reclamava esta senhora, e que foi seguida de uma série

de visões encantadoras, levemente tingidas de pavor, às quais resignou-se

positivamente e de bom grado. A fome e a sede tirânicas em questão não se aplacam

sem um certo esforço. Pois o homem se sente de tal maneira acima das coisas materiais

ou, antes, está de tal forma dominado por sua embriaguez, que, para ele, é necessário

desenvolver uma grande coragem para remover uma garrafa ou um garfo.

A crise definitiva determinada pela digestão dos alimentos é na verdade, muito

violenta: é impossível combatê-la e semelhante estado não seria suportável se durasse

demais e se em breve tempo não desse lugar a uma outra fase da embriaguez que, no

caso acima citado, traduz-se por visões esplêndidas, docemente terrificantes e, ao

mesmo tempo, repletas de consolos. Este novo estado é chamado pelos orientais de

kief. Já não se trata mais de algo turbulento e tumultuoso; é um êxtase calmo e imóvel,

uma resignação gloriosa. Há muito que você já não é seu mestre, mas isto não lhe causa

mais aflição alguma. A dor e a ideia de tempo desapareceram ou, se às vezes ousam

produzir-se, são transfiguradas pela sensação dominante e estão, assim, em relação à

sua forma habitual, como a melancolia poética está para a dor positiva.

Mas, antes de mais nada, notemos que no relato desta senhora (é neste sentido que

o transcrevo) a alucinação é de um gênero ilegítimo e tira sua razão de ser do

espetáculo exterior; o espírito é apenas um espelho onde o meio ambiente se reflete

transformado de uma maneira exagerada. Em seguida, vemos intervir o que, com boa

vontade, chamarei de alucinação moral: o indivíduo julga-se submetido a uma

expiação; mas o temperamento feminino, que é pouco próprio à análise, não lhe

permitiu notar o caráter singular e otimista da dita alucinação. O olhar benevolente das

divindades do Olimpo é poetizado por um verniz essencialmente haxixin. Não diria

que esta senhora tenha beirado o remorso; mas seus pensamentos, momentaneamente

levados à melancolia e à lamentação, foram rapidamente coloridos de esperança. Esta

é uma observação que teremos ainda ocasião de verificar.

Ela se referiu ao cansaço da manhã seguinte; na verdade, este cansaço é grande,

mas não se manifesta imediatamente e, quando você se vê obrigado a admiti-lo, não o

faz sem espanto. Pois, a início, quando você já constatou que um novo dia surgiu no

horizonte de sua vida, você experimenta um surpreendente bem-estar; julga gozar de

uma leveza de espírito maravilhosa. Mas, mal você se levanta e um velho resto de

embriaguez acompanha-o e o atrasa como os grilhões de sua recente servidão. Suas

pernas fracas conduzem-no com timidez e a cada minuto você teme quebrar-se como

um objeto frágil. Uma grande lassidão (há pessoas que pretendem nesta lassidão um

certo encanto) toma conta de seu espírito e expande-se por suas faculdades como a

névoa na paisagem. Eis você, incapaz ainda por algumas horas de trabalho, ação e

energia. É a punição pela prodigalidade ímpia com a qual gastou seus fluidos

nervosos. Você disseminou sua personalidade aos quatro ventos do céu e, agora, que

dificuldade encontra para reuni-la e concentrá-la!

IV

O HOMEM-DEUS

É tempo de deixar de lado toda esta prestidigitação e estas grandes marionetes

nascidas da névoa dos cérebros infantis. Não temos de falar de coisas mais graves:

modificações dos sentimentos humanos e, em uma palavra, a moral do haxixe?

Até o presente, fiz somente uma monografia sumária da embriaguez; limitei-me a

acentuar os principais traços, sobretudo os materiais. Mas, o que é mais importante,

creio, para o homem espiritual, é conhecer a ação do veneno sobre a parte espiritual

do homem, isto é, o engrandecimento, a deformação e a exageração de seus sentimentos

habituais e de suas percepções morais que apresentam, agora, em uma atmosfera

excepcional, um verdadeiro fenômeno de refração.

O homem que, após se haver entregue por longo tempo ao ópio ou ao haxixe, pôde

encontrar, enfraquecido como estava pelo hábito de sua servidão, a energia necessária

para se libertar, se me assemelha a um prisioneiro evadido. Não inspira mais

admiração que o homem prudente que nunca errou e que sempre teve o cuidado de

evitar a tentação. Os ingleses frequentemente se servem, a propósito dos comedores de

ópio, de termos que podem parecer excessivos somente aos inocentes de quem são

desconhecidos os horrores desta degradação: enchained, fettered, enslaved! Grilhões,

na verdade, perto dos quais todos os outros, grilhões do dever, grilhões do amor

ilegítimo, são apenas tramas de gaze e teias de aranha! Assustador casamento do

homem consigo mesmo! “Tornei-me escravo do ópio; ele me tinha em suas mãos, e

todos os meus trabalhos e planos haviam tomado a cor dos meus sonhos”, disse o

esposo de Ligeia; mas em quantas maravilhosas passagens Edgar Poe, este poeta

incomparável, este filósofo irrefutável, que se deve sempre citar a propósito das

misteriosas doenças do espírito, não descreve os sombrios e atraentes esplendores do

ópio? O amante da luminosa Berenice, Egeus, o metafísico, fala de uma alteração de

suas faculdades que o obriga a dar um valor nominal, monstruoso, aos fenômenos mais

simples: “Refletir infatigavelmente por longas horas, a atenção fixa em qualquer

citação pueril na margem ou no texto de um livro –, permanecer absorto, a maior parte

de um dia de verão em uma estranha sombra que se alonga obliquamente na tapeçaria e

no soalho –, esquecer-me de mim mesmo uma noite inteira a observar a chama erecta

de uma lâmpada ou as brasas da lareira –, divagar dias inteiros sobre o perfume de

uma flor –, repetir de maneira monótona qualquer palavra vulgar, até que o som, à

força de ser repetido, cesse de apresentar ao espírito uma ideia qualquer –, tais eram

algumas das mais comuns e das menos perniciosas aberrações de minhas faculdades

mentais, aberrações que, sem dúvida, encontram exemplos, mas que desafiam

certamente toda explicação e toda análise”. E o nervoso Auguste Bedloe que a cada

manhã, antes do passeio, engole sua dose de ópio, revela-nos que o principal benefício

que obtém deste envenenamento diário é dar a todas as coisas, mesmo as mais triviais,

um interesse exagerado: “Entretanto, o ópio produzira seu efeito costumeiro, que é

revestir todo o mundo exterior de uma intensidade de interesses. No tremular de uma

folha –, na cor da relva –, na forma de um trevo –, no zumbido de uma abelha –, no

brilho de uma gota de orvalho –, no suspiro do vento –, nos vagos odores vindos da

floresta –, produzia-se todo um mundo de inspirações, uma procissão magnífica e

matizada de pensamentos desordenados e rapsódicos”.

Assim se exprime, pela boca de suas personagens, o mestre do horrível, o príncipe

do mistério. Estas duas características do ópio são perfeitamente aplicáveis ao haxixe;

tanto em um quanto em outro, a inteligência, ainda há pouco livre, torna-se escrava;

mas a palavra rapsódico, que define tão bem um aglomerado de pensamentos sugerido

e comandado pelo mundo exterior e pelo acaso das circunstâncias, é de uma verdade

mais verossímil e mais terrível no caso do haxixe. Aqui, o raciocínio são destroços à

mercê de todas as correntes e o aglomerado de pensamentos é infinitamente mais

acelerado e mais rapsódico. Isto equivale a dizer, creio, de uma maneira bastante

clara, que o haxixe é, em seu efeito presente, muito mais veemente que o ópio, muito

mais inimigo da vida regular em uma palavra, muito mais perturbador. Ignoro se dez

anos de intoxicação pelo haxixe levarão a desastres iguais aos causados por dez anos

de regime de ópio; afirmo, pela hora presente e pelo amanhã, que o haxixe tem

resultados mais funestos; o primeiro é um sedutor pacífico, o outro, um demônio

desordenado.

Pretendo, nesta primeira parte, definir e analisar a devastação moral causada por

esta ginástica perigosa e delicada, devastação tão grande, perigo tão profundo, que

aqueles que retornaram do combate apenas levemente avariados assemelham-se a

valentes, salvos da caverna de um Proteu multiforme, Orfeus vencedores do Inferno.

Mesmo que veja, se quiserem, esta forma de linguagem como uma metáfora excessiva,

confessarei que os venenos excitantes me parecem não somente um dos mais terríveis e

dos mais seguros meios dos quais dispõe o Espírito das Trevas para seduzir e subjugar

a deplorável humanidade, mas também uma de suas mais perfeitas incorporações.

Desta vez, para abreviar minha tarefa e tornar mais clara minha análise, em lugar

de unir fatos esparsos, acumularei sobre uma só personagem fictícia um grande número

de observações. Devo, portanto, supor uma alma de minha escolha. Em suas

Confessions[1], De Quincey afirma com razão que o ópio, em lugar de adormecer o

homem, excita-o, mas apenas por sua via natural, e que, desta forma, para julgar as

maravilhas do ópio, seria absurdo relatá-las a um mercador de bois; pois este

imaginará apenas bois e pastagens. Ora, não tenho de descrever as pesadas fantasias de

um lavrador embriagado de haxixe; quem as leria com prazer? Quem consentiria em lê-

las? Para idealizar meu indivíduo, devo concentrar todos os raios em um círculo único,

devo polarizá-los; e o círculo trágico onde irei reuni-los será, como já disse, uma alma

de minha escolha algo análogo ao que o século XVIII chamava de homem sensível, ao

que a escola romântica denominava homem incompreendido e ao que as famílias e a

massa burguesa geralmente difamam com o epíteto de original.

Um temperamento meio nervoso, meio bilioso, assim é o mais favorável às

evoluções de semelhante embriaguez; acrescentemos um espírito culto, habituado aos

estudos da forma e da cor; um coração, terno, fatigado pela infelicidade, mas ainda

pronto para o rejuvenescimento; iremos, se assim quiserem, até o ponto de admitir

antigas culpas e, o que deve resultar em uma natureza facilmente excitável, senão

remorsos positivos, ao menos o arrependimento do tempo profanado e mal-empregado.

O gosto pela metafísica, o conhecimento das diferentes hipóteses da filosofia sobre o

destino humano, não são certamente complementos inúteis –, não mais que este amor

pela virtude, pela virtude abstrata, estoica ou mística, que é posto em todos os livros

de que se nutre a infância moderna, como o mais alto cume que uma alma honrada

possa escalar. Se acrescentamos a tudo isto uma grande sutileza de sentimentos que

omiti como condição suplementar, creio ter reunido os elementos gerais mais comuns

ao homem sensível moderno do que poderíamos chamar de forma banal da

originalidade. Vejamos agora o que acontecerá a esta individualidade levada a

extremos pelo haxixe. Sigamos esta procissão da imaginação humana até sob seu

último e mais esplêndido repositório, até a crença do indivíduo em sua própria

divindade.

Se você é uma destas almas, seu amor inato pela forma e pela cor encontrará

inicialmente imenso alento nos primeiros desenvolvimentos de sua embriaguez. As

cores ganharão uma energia inusitada e penetrarão o cérebro com uma intensidade

vitoriosa. Delicadas, medíocres, ou mesmo más, as pinturas dos tetos irão se revestir

de uma vitalidade assustadora; os mais grosseiros papéis que cobrem as paredes das

estalagens se transformarão em esplêndidos dioramas. As ninfas de pele

resplandecente o observam com grandes olhos mais profundos e mais límpidos que o

céu e a água; as personagens da antiguidade, ridiculamente vestidas com seus trajes

sacerdotais ou militares, trocam com você, por um simples olhar, solenes confidências.

A sinuosidade das linhas é uma linguagem definitivamente clara onde você lê a

agitação e o desejo das almas. Entrementes, desenvolve-se esse estado misterioso e

temporário do espírito, onde a profundidade da vida, sobrecarregada de seus múltiplos

problemas, se revela completamente no espetáculo, por mais trivial e natural que seja,

que se nos apresenta aos olhos –, onde o primeiro objeto que nos chega torna-se

símbolo falante. Fourier e Swedenborg, aquele com suas analogias, este com sua

correspondência, encarnam-se no vegetal e no animal que se apresentam ao alcance de

seu olhar e em lugar de ensinarem pela voz, eles o doutrinam pela forma e pela cor. A

inteligência da alegoria toma em você proporções desconhecidas por você mesmo;

notaremos, de passagem, que a alegoria, este gênero tão espiritual, que os pintores

ineptos nos acostumaram a desprezar, mas que é realmente uma das formas primitivas e

das mais naturais da poesia, retoma seu domínio legítimo na inteligência iluminada

pela embriaguez. O haxixe se estende então sobre toda a vida como um verniz mágico;

colore-a com solenidade e aclara-lhe toda a profundeza. Paisagens recortadas,

horizontes fugazes, perspectivas de cidades embranquecidas pela lividez cadavérica

da tempestade ou iluminadas pelos ardores concentrados dos sóis poentes –,

profundeza do espaço, alegoria da profundidade do tempo –, a dança, os gestos ou a

declaração dos atores, se você houver entrado em um teatro –, a primeira fase lida, se

seu olhar cair sobre um livro –, tudo enfim, o universo dos seres ergue-se diante de

você com uma nova glória não suspeitada até então. A gramática, a própria árida

gramática, torna-se algo como uma feitiçaria evocadora, as palavras ressuscitam

revestidas de carne e de osso, o substantivo, em uma majestade substancial, o adjetivo,

vestimenta transparente que o envolve e o colore com um tom brando e diáfano, e o

verbo, anjo do movimento que dá impulso à frase. A música, outra língua cara aos

preguiçosos e aos espíritos profundos que buscam o lazer na variedade do trabalho,

fala-lhe de você mesmo e narra-lhe o poema de sua vida: incorpora-se em você e você

nela se funde. Ela conta sua paixão, não de uma maneira vaga e indefinida, como faz

em suas noites ociosas em dia de ópera, mas de uma maneira circunstancial, positiva,

com cada movimento do ritmo marcando um movimento conhecido de sua alma, cada

nota transformando-se em palavra e o poema inteiro entrando em seu cérebro como um

dicionário dotado de vida.

Não é preciso acreditar que todos estes fenômenos se produzem no espírito de

maneira confusa, com o tom agudo da realidade e a desordem da vida exterior. O olhar

interior transforma tudo e dá a todas as coisas o complemento de beleza que lhes falta

para que sejam verdadeiramente dignas de nos serem agradáveis. É ainda nesta fase

essencialmente voluptuosa e sensual que é preciso retirar o amor das águas límpidas,

correntes ou estagnadas, que se desenvolve tão espantosamente na embriaguez cerebral

de alguns artistas. Os espelhos tornam-se um pretexto para este devaneio que se

assemelha a uma sede espiritual, conjugada à sede física que resseca a garganta, e da

qual já falei anteriormente; as águas fugazes, os jatos d’água, as cascatas harmoniosas,

a imensidão azul do mar, correm, cantam, dormem com um encanto inexprimível. A

água se apresenta como uma feiticeira e, embora não acredite muito nas loucuras

furiosas causadas pelo haxixe, eu não afirmaria que a contemplação de um abismo

límpido seja totalmente sem perigo para um espírito apaixonado pelo espaço e pelo

cristal, e que a velha fábula de Ondina não possa tornar-se para o entusiasta uma

trágica realidade.

Creio ter falado suficientemente do aumento monstruoso do tempo e do espaço,

duas ideias sempre conexas, mas que o espírito afronta então sem tristeza e sem medo.

Ele olha com uma certa delícia melancólica através dos anos profundos e se entranha

audaciosamente nas infinitas perspectivas. Já adivinhamos, presumo, que este aumento

anormal e tirânico se aplica igualmente a todos os sentimentos e a todas as ideias; da

mesma forma à benevolência; a este respeito, acredito ter dado uma boa amostra; da

mesma forma ao amor. A ideia de beleza deve naturalmente apoderar-se de um vasto

local no temperamento espiritual como supus. A harmonia, o equilíbrio das linhas, a

eurritmia dos movimentos, surgem ao sonhador como necessidades, como deveres, não

apenas para todos os seres da criação, mas para ele próprio, o sonhador, que se acha,

neste período da crise, dotado de uma maravilhosa aptidão para compreender o ritmo

imortal e universal. E se ao nosso fanático falta-lhe beleza pessoal não pensem que ele

sofre por longo tempo por uma confissão a qual sente-se obrigado a fazer, nem que se

vê como uma nota distoante do mundo de harmonia e beleza improvisado por sua

imaginação. Os sofismas do haxixe são numerosos e admiráveis, tendendo, geralmente,

ao otimismo e um dos principais, o mais eficaz, é o que transforma o desejo em

realidade. Sem dúvida, acontece o mesmo em muitos casos da vida diária, mas aqui

com muito mais ardor e sutileza! Além disto, como um ser tão bem-dotado para

compreender a harmonia, uma espécie de sacerdote do Belo, poderia ser uma exceção

e uma nódoa em sua própria teoria? A beleza moral e seu poder, a graça e suas

seduções, a eloquência e suas proezas, todas estas ideias se apresentam logo como

corretivos de uma feiura indiscreta, em seguida como consoladores, enfim, como

aduladores perfeitos de um cetro imaginário.

Quanto ao amor, já ouvi muitas pessoas, levadas por uma curiosidade colegial,

indagarem àquelas a quem era familiar o uso do haxixe. O que pode ser esta

embriaguez do amor, já tão poderosa em seu estado natural, quando está encerrada em

outra embriaguez, como o sol dentro de um sol? Tal é a questão que será levantada por

uma multidão de espíritos que chamarei de néscios do mundo intelectual. Para

responder a uma insinuação desonesta, nesta parte da questão que não ousa se produzir,

enviarei o leitor a Plínio que mencionou em algum lugar as propriedades do cânhamo

de maneira a dissipar sobre este assunto muitas ilusões. Sabe-se, além disto, que a

atonia é o resultado mais comum do abuso que os homens fazem de seus nervos e das

substâncias próprias a excitá-los. Ora, como não se trata aqui de poder afetivo, mas de

emoção ou de suscetibilidade, rogarei simplesmente ao leitor que considere que a

imaginação de um homem nervoso, embriagado pelo haxixe, é levada até um grau

prodigioso tão pouco determinável como a força extrema possível do vento em uma

borrasca, e seus sentidos aprimorados a um ponto quase também difícil de definir. É,

portanto, permitido crer que uma leve carícia, a mais inocente de todas, um aperto de

mãos, por exemplo, pode ter um valor centuplicado pelo atual estado da alma e dos

sentidos e pode conduzi-los, talvez, de maneira rápida, até esta síncope considerada

pelos vulgares mortais como o summum da felicidade. Mas que o haxixe desperta, em

uma imaginação constantemente tomada pelas coisas do amor, lembranças suaves, as

quais a dor e a infelicidade chegam a dar um lustre novo, isto é indubitável. Não é

menos certo que uma forte dose de sensualidade se mistura a estas agitações do

espírito; e, além disto, não é inútil notar, o que bastaria para constatar a este respeito a

imoralidade do haxixe, que uma seita de ismaelitas (é dos Ismaelitas que saíram os

Assassinos) levava suas adorações muito além da imparcial Lingam, isto é, até o culto

absoluto e exclusivo da metade feminina do símbolo. Nada mais natural, sendo cada

homem a representação da história, que ver uma heresia, obscena, uma religião

monstruosa produzir-se no espírito que está negligentemente à mercê de uma droga

infernal e que sorri à dilapidação de suas próprias faculdades.

Já que vimos manifestar-se na embriaguez do haxixe uma benevolência singular

aplicada até mesmo aos desconhecidos, uma espécie de filantropia feita antes de

piedade que de amor (é aqui que se mostra o primeiro germe do espírito satânico que

se desenvolverá de maneira extraordinária), mas que vai até o medo de afligir quem

quer que seja, podemos adivinhar em que pode se transformar a sentimentalidade

localizada, aplicada a uma pessoa querida, desempenhando ou tendo desempenhado um

papel importante na vida moral do enfermo. O culto, a adoração, a prece, os sonhos de

felicidade se projetam e se arremessam com a energia ambiciosa e o brilho de um fogo

de artifício; como a pólvora e as matérias corantes do fogo ofuscam e se esvaem nas

trevas. Não há combinação sentimental à qual não possa se prestar o submisso amor de

um escravo do haxixe. O gosto pela proteção, um sentimento de ardente e devoto

paternalismo pode unir-se a uma sensualidade culpada que o haxixe poderá sempre

desculpar e absolver. Vai ainda mais longe. Imagino faltas cometidas que deixaram na

alma rastros amargos, um marido ou um amante que contempla somente com tristeza

(em seu estado normal) um passado tempestuoso; estas amarguras podem então se

transformar em doçuras, a necessidade de perdão torna a imaginação mais hábil e

suplicante, e o próprio remorso, neste drama diabólico que se exprime apenas por um

longo monólogo, pode agir como excitante e aquecer poderosamente o entusiasmo do

coração. Sim, o remorso! Estava eu errado ao dizer que o haxixe aparecia, a um

espírito verdadeiramente filosófico, como um perfeito instrumento satânico? O

remorso, estranho ingrediente do prazer, perde-se logo na deliciosa contemplação do

remorso, em uma espécie de análise voluptuosa; e esta análise é tão rápida, que o

homem, este diabo natural, para falar como os swedenborguianos, não percebe o

quanto ela é involuntária e o quanto, de segundo em segundo, ele se aproxima da

perfeição diabólica. Ele admira seu remorso e se glorifica, enquanto perde sua

liberdade.

Eis, portanto, meu homem suposto, o espírito de minha escolha chegado a este grau

de prazer e serenidade, onde é levado a admirar-se a si mesmo. Toda contradição

desaparece, todos os problemas filosóficos tornam-se límpidos, ou pelo menos assim

parecem. Tudo é motivo de prazer. A plenitude de sua vida atual lhe inspira um

orgulho desmesurado. Uma voz nele fala (infeliz! é a sua própria voz) e lhe diz: “Você

tem agora o direito de se considerar superior a todos os homens; ninguém conhece ou

poderia compreender tudo o que você pensa e sente; seriam mesmo incapazes de

apreciar a benevolência que lhe inspiram. Você é um rei que os passantes

desconhecem, e que vive na solidão de sua convicção: mas que importa? Você por

acaso não possui este desprezo soberano que torna a alma tão boa?”

No entanto, podemos imaginar que, de tempo em tempo, uma lembrança mordaz