Passeio Ao Farol por Virginia Woolf - Versão HTML

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Virginia Woolf

Passeio Ao Farol

Título original: TO THE LIGHTHOUSE

© Copyright 1927 by Angelica Garnett, Virgínia Bell and Cressida Bell.

© Copyright desta edição, Editora Rio Gráfica Ltda. Rio de Janeiro, 1987.

Publicado no Brasil sob licença de Editora Nova Fronteira S.A.

Tradução: Luiza Lobo.

Ilustração de capa: Enio Squeff.

Composição: Editora Rio Gráfica Ltda. e AM Produções Gráficas Ltda.

Digitalização e conversão para epub: Nalua

Distribuidor exclusivo para todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S.A. Rua Teodoro da Silva, 907, CEP 20563, Rio de Janeiro.

Editora Rio Gráfica Ltda. Rua Itapiru, 1209, CEP 20251, Rio de Janeiro. Rua do Curtume, 665, CEP 05065, São Paulo.

Impressão e acabamento nas oficinas gráficas da Gráfica Editora Hamburg Ltda.

Sumário

A janela

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O tempo passa

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O Farol

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VIRGINIA WOOLF VIDA E OBRA

A janela

1

— É claro que amanhã fará um dia bonito — disse a Sra. Ramsay. — Mas vocês

terão que madrugar — acrescentou.

Essas palavras trouxeram uma extraordinária alegria a seu filho, como se a

excursão já estivesse definitivamente marcada. Após a escuridão de uma noite e a

travessia de um dia, o desejo — por tantos anos aspirado — era agora tangível.

James Ramsay, sentado no chão, enquanto a mãe falava, recortava gravuras do

catálogo das Lojas do Exército e da Marinha. Mesmo aos seis anos de idade, pertencia

ao número daqueles que não conseguem separar um sentimento do outro mas, ao

contrário, deixam que as expectativas futuras — com suas alegrias e tristezas —

toldem o que no momento está ao alcance da mão. Para tais pessoas, ainda na mais

tenra idade, qualquer oscilação de sensações tem o poder de cristalizar e fixar o

momento em que repousam, misturadas, alegria e tristeza: assim é que James Ramsay

emprestava à fotografia de uma geladeira uma felicidade beatífica. Cercava-a de

alegria. O carrinho de mão, o cortador de grama, o som dos álamos, folhas

branqueando antes da chuva, gralhas grasnando, o raspar de vassouras, vestidos

roçando — tudo isso era tão colorido e distinto em sua mente que ele já tinha seu

código particular, sua linguagem secreta, embora fosse a imagem da mais pura e

inflexível severidade: testa alta, arrogantes olhos azuis, impecavelmente cândido,

recriminativo ao deparar com alguma fraqueza humana. Observando-o assim a guiar a

tesoura com precisão em torno da geladeira, sua mãe imaginou-o num tribunal com

uma rútila toga de arminho, ou talvez dirigindo uma empresa durante uma crise

financeira.

— Mas o dia não ficará bom — disse o pai, parando em frente à janela da sala

de visitas.

Se houvesse um machado, um atiçador, ou qualquer outra arma à mão que abrisse

uma fenda no peito do pai e por onde a vida se escoasse, James a teria empunhado

naquele instante. Tais eram os extremos de emoção que o Sr. Ram-say despertava no

íntimo dos filhos, apenas com sua presença. Ali estava: de pé, o perfil agudo como uma

faca e estreito como sua lâmina, sorrindo sarcasticamente — não apenas pelo prazer

de desiludir o filho e lançar sua mulher (que era mil vezes melhor do que ele, pensou

James) no ridículo, mas sobretudo por causa da certeza íntima que tinha da exatidão de

seus julgamentos. O que ele dizia era verdade. Era incapaz de mentir: nunca interferia

em alguma coisa ou se pronunciava de modo a dar um pouco de prazer a qualquer

mortal, e muito menos a seus filhos, que, desde a infância, ficavam sabendo que a vida

é árdua, os fatos inflexíveis, e que a passagem para essa terra fabulosa onde nossas

esperanças mais brilhantes se extinguem e nossas frágeis críticas malogram na

escuridão exige, acima de tudo — concluiria o Sr. Ramsay, empertigando-se e

franzindo os olhos azuis na direção do horizonte —, coragem, lealdade e

perseverança.

— Mas talvez fique bom, pelo menos espero — disse a Sra. Ramsay

impacientemente, ao dar um ponto na meia castanha que tricotava. Se a terminasse

nessa mesma noite, e afinal fossem mesmo ao Farol, seria dada ao filho do faroleiro,

que estava ameaçado de tuberculose, além de uma pilha de revistas velhas e um pouco

de fumo. Tudo que encontrassem atirado pelo chão, desarrumando a sala, e que

realmente ninguém quisesse para si, seria dado àquela pobre gente que devia morrer de

tédio, sentada o dia inteiro, sem nada para fazer, a não ser limpar a lâmpada, acender o

lume e revolver um pequeno jardim. Faria qualquer coisa para alegrá-los, pois como

poderia alguém gostar de ficar trancado um mês inteiro, num rochedo perdido no meio

do mar — e ainda mais, se o tempo estivesse ruim?, perguntou-se ela. Não receber

cartas ou jornais, não ver ninguém; sendo casado, não ver a mulher, não saber como

estão os filhos: se adoeceram, se caíram e quebraram a perna ou o braço. Ver sempre

as mesmas ondas quebrando tristemente semana após semana, interrompidas em seu

ritmo monótono apenas pela tempestade que se aproxima, cobrindo as janelas de

espuma, atirando os pássaros de encontro ao Farol, estremecendo tudo, impedindo as

pessoas de saírem, com medo de serem varridas para o mar. Como se poderia gostar

disso?, perguntou, dirigindo-se principalmente às filhas. Acrescentou, então, num tom

bastante diferente, que as pessoas precisavam levar-lhes todo o conforto possível.

— É justamente o "oeste" — disse Tansley. o ateu, que compartilhava do passeio

noturno do Sr. Ramsay pelo terraço, mantendo os dedos ossudos afastados para que o

vento soprasse por entre eles. Isso significava que o vento soprava da pior direção

possível para se atracar no Farol. Era detestável de sua parte trazer isso à baila e

desapontar James ainda mais, admitiu a Sra. Ramsay. Realmente ele dizia coisas

desagradáveis, mas ela não permitiria que rissem dele. "O ateu", chamavam-no, "o

ateuzinho." Rose zombava dele; Prue, Andrew, Jasper, Roger também. Até o velho e

desdentado Badger espicaçara-o quando Nancy dissera (segundo suas próprias

palavras) que ele era o centésimo décimo jovem a persegui-las até as Hébridas,

quando elas teriam preferido ficar sozinhas.

— Isso não faz sentido — disse a Sra. Ramsay com severidade. Não admitia que

seus filhos, exagerados como ela mesma (que convidava pessoas demais e acabava por

ter de hospedar algumas na cidade), fossem indelicados para com seus convidados,

particularmente em relação aos jovens que vinham passar as férias e que eram pobres

como ratos de igreja — embora "excepcionalmente capazes", como dizia seu marido

com ungida admiração. Sem dúvida alguma tinha sob sua proteção a totalidade do sexo

que não era o seu, por razões que não conseguia explicar: pelo cavalheirismo dos

homens, seu valor, pelo fato de negociarem tratados, governarem a índia, controlarem

as finanças ou, mais possivelmente, por certa atitude em relação a ela que nenhuma

mulher poderia se eximir de achar agradável — algo de leal, inocente, respeitável,

que, em sua idade, poderia receber de um jovem sem perder a dignidade, enquanto as

jovens (rogava aos céus não se desse o mesmo com suas filhas) não viam o verdadeiro

e recôndito valor disso.

Ela se voltou para Nancy, dizendo com severidade: ele não as perseguira. Fora

convidado.

Era preciso achar um meio de escapar a tudo aquilo. Devia haver uma forma mais

simples, menos complicada, suspirou ela. Quando se olhou no espelho, viu os cabelos

grisalhos, a face abatida, aos cinqüenta anos, e pensou: poderia ter conduzido melhor

as coisas — seu marido, o dinheiro, os livros dele. Mas nunca se, arrependeria de suas

decisões, nunca fugiria das dificuldades ou se eximiria de suas obrigações. Irradiava

dignidade nesse momento, e só com um rápido alçar de olhos do prato diante de si,

após o silêncio que se seguiu às suas palavras sobre Charles Tansley, é que as filhas

— Prue, Nancy e Rose — ousaram deleitar-se com a idéia do que imaginavam ser uma

vida diferente da que tinham: talvez mais emocionante, possivelmente em Paris, sem ter

de se precaver contra este ou aquele homem. Havia no pensamento de todas elas uma

indizível curiosidade em relação a coisas tão diversas como cavalheirismo, o Banco

da Inglaterra e o Império das índias, dedos repletos de anéis e rendas. Havia nisso,

para todas elas, um pouco da essência da beleza, que enchia seus jovens corações de

anseios pela masculinidade, e as fazia, enquanto se sentavam à mesa sob os olhos da

mãe, respeitar a extrema severidade e cortesia com que as advertira sobre o

desprezível ateu que as tinha perseguido na Ilha de Skye, ou — falando mais

precisamente — fora convidado para ficar com elas. Tal advertência fora feita com a

mesma dignidade com que uma rainha tiraria da lama o pé imundo de um mendigo para

lavá-lo.

— Ninguém atracará no Farol amanhã — disse Charles Tansley ao Sr. Ramsay,

batendo as mãos, enquanto olhava pela janela. Sem dúvida, ele já havia dito o bastante.

Ela desejava que ambos deixassem James e a ela em paz, e continuassem seu passeio.

Não pôde evitar olhá-lo: era um espécime tão miserável, diziam as crianças, cheio de

reentrâncias e saliências. Não sabia jogar etiquete, era hesitante, confundia-se. Era

grosseiro e sarcástico, dizia Andrew. Sabiam do que mais gostava: andar de um lado

para outro com o Sr. Ramsay, comentando quem havia ganho isto ou aquilo, quem

"recitava às maravilhas" versos latinos, quem era "brilhante mas fundamentalmente

doente, na minha opinião", quem era sem dúvida "o sujeito mais capaz em Balliol",

mas enterrara sua inteligência em Bristol ou Bedford, estando agora, no entanto,

prestes a alcançar fama, quando seus prolegómenos para um ramo da matemática ou

filosofia fossem publicados. A propósito, as provas das primeiras páginas já estavam

com ele, será que o Sr. Ramsay gostaria de vê-las? Era sobre isso que falavam.

Algumas vezes ela não podia deixar de rir. Há dias falara algo sobre ondas "altas

como montanhas". Sim, respondera Charles Tansley, estavam um pouco agitadas.

"Você não está completamente encharcado?", perguntara-lhe ela. "Só um pouco úmido,

mas não muito", respondeu o Sr. Tansley apertando a camisa, tocando as meias.

Mas não era bem isso que importunava as crianças, nem seu rosto ou suas

maneiras: era ele mesmo, seu modo de ser interior. Quando falavam de alguma coisa

interessante — sobre pessoas, música, história — ou quando comentavam que a manhã

estava bonita e seria bom ficarem sentados ao ar livre, Charles Tansley não se dava

por contente enquanto não mudasse completamente o rumo da conversa e os

exasperasse com sua mania de esmiuçar tudo. Estava sempre falando de galerias de

arte e perguntando se gostavam de sua gravata. "Só Deus sabe como sua gravata é

detestável", dizia Rose.

Desaparecendo da mesa logo após a refeição, furtivos como gazelas, os oito

filhos da Sra. Ramsay procuravam seus quartos — o único lugar seguro na casa em que

poderiam conversar sobre qualquer coisa: a gravata de Tansley, a Carta da Reforma,

aves marinhas, borboletas ou pessoas. Enquanto isso, numa dessas mansardas —

separadas umas das outras por uma simples tábua que permitia ouvir cada passo ou os

soluços da moça suíça que chorava pelo pai que morria de câncer num vale dos

Grisons —, o sol se despejava iluminando raquetes, flanelas, chapéus de palha,

tinteiros, tubos de tinta, escaravelhos e crânios de pequenos pássaros, fazendo

desprender-se de longas tiras encrespadas de algas presas à parede um odor de sal e

ervas: o mesmo que se desprendia das toalhas de banho carregadas de areia.

Brigas, separações, divergências de opinião e preconceitos compunham a própria

tessitura do ser — oh, por que tinham de começar tão cedo, lastimava-se a Sra.

Ramsay. Eram tão críticos, seus filhos. Diziam tantas tolices. Veio da sala de jantar,

segurando James pela mão, pois ele não iria com os outros. Parecia-lhe tão sem nexo

inventar divergências, quando as pessoas já as tinham em demasia. "As divergências

reais são mais que suficientes", pensou, de pé junto à janela da sala de visitas. Nesse

momento pensava nos ricos e nos pobres, nos nobres e nos plebeus: os nobres, ela os

respeitava com certa relutância, pois possuía nas veias o sangue daquela nobilíssima e

algo mítica casa italiana, cujas descendentes tão trêfega e encantadoramente

sussurraram e saracotearam pelos salões ingleses do século XIX. Delas herdara a

inteligência, a maneira de ser e o gênio: não dos vadios ingleses ou dos frios

escoceses. Preocupava-se particularmente com o problema dos ricos e dos pobres: as

coisas que vira pessoalmente ali e em Londres, quando visitara viúvas e esposas

dedicadas, munida de uma bolsa, um caderno de notas e um lápis, apontando salários e

despesas, emprego e desemprego, em colunas cuidadosamente dispostas para esse fim,

na esperança de assim deixar de ser uma mulher voltada apenas para si mesma, cuja

caridade era em parte um consolo para sua própria indignação, em parte um alívio para

sua curiosidade — pretendendo tornar-se uma pesquisadora que explicasse o fenômeno

social, coisa que, para seu espírito pouco cultivado, era objeto de vívida admiração.

Essas questões pareciam-lhe insolúveis, enquanto permanecia de pé ali,

segurando James pela mão. O jovem do qual todos riam tinha-a seguido até a isala de

visitas. Estava perto da mesa, mexendo desajeitadamente em alguma coisa. Mesmo sem

o olhar, ela percebia o quanto se sentia deslocado. Todos tinham ido embora: as

crianças, Minta Doyle e Paul Rayléy, Augustus Carmichael, o Sr. Ramsay — todos.

Ela voltou-se com um suspiro e disse:

— Será que o aborreceria acompanhar-me, Sr. Tansley? Tinha que dar um recado

enfadonho na cidade e uma ou duas cartas para escrever. Demoraria uns dez minutos.

Iria pôr um chapéu. Passado algum tempo, ela reapareceu com uma cesta e uma

sombrinha, como se estivesse preparada para uma excursão que, no entanto,

interrompeu no preciso momento em que cruzavam o campo de tênis, para dirigir-se ao

Sr. Carmichael — que se aquecia ao sol com seus olhos felinos entreabertos, olhos

que pareciam refletir o movimento dos ramos e o passar das nuvens, sem, contudo, dar

qualquer sinal da existência de pensamentos ou emoções. Perguntou-lhe se queria

alguma coisa.

Estavam fazendo uma grande expedição — disse ela, rindo. Iam à cidade. —

Selos, papel de carta, fumo?, sugeriu, parando a seu lado. Não, ele não queria nada.

Suas mãos entrelaçavam-se sobre a vasta barriga. Os olhos pestanejaram como se

quisesse agradecer amavelmente essas gentilezas (ela estava sedutora, apesar de um

pouco nervosa). Mas não pôde, submerso numa sonolência cinzento-esverdeada que os

envolvia a todos, sem necessidade de palavras, numa vasta e bondosa letargia

carregada de benevolência: toda a casa, o mundo e as pessoas que o habitavam. Ele

pusera umas gotas de alguma coisa em seu copo no almoço — pensavam as crianças,

devido às vivas listras amarelo-canário nas barbas e bigodes, que normalmente seriam

branco-leito-sos. Não, não queria nada — murmurou finalmente.

Poderia ter sido um grande filósofo — disse a Sra. Ramsay, enquanto desciam a

estrada em direção à vila de pescadores —, mas fizera um mau casamento. Segurando

sua sombrinha com muito aprumo e andando com um ar de indescritível expectativa —

como se fosse encontrar alguém na primeira esquina — contou a história: uma paixão

em Oxford por uma moça, um casamento prematuro, a pobreza, uma viagem à Índia,

algumas traduções de poemas — "belíssimas em minha opinião" —, a vontade de

ensinar persa ou hindustani às crianças (mas qual a utilidade disso?). E agora se

deixava ficar deitado na grama — como tinham visto.

Charles Tansley sentiu-se lisonjeado. Maltratado como sempre fora, agradou-lhe

que a Sra. Ramsay lhe contasse isso. As insinuações que ela fazia sobre a grandeza da

inteligência masculina — mesmo na sua decadência —, sobre a submissão de todas as

esposas aos trabalhos de seus maridos (não que ela culpasse aquela moça, pois o

casamento não fora de todo mau), fizeram-no sentir-se bem como nunca. Gostaria, se

tomasse um táxi, por exemplo, de pagar a corrida. Quanto à sua sacola, não poderia

carregá-la? Não, não — respondeu —, sempre a carregava ela mesma. E foi isso o

que ela fez. Sim, isso e muitas outras coisas — particularmente algo que o exaltava e

perturbava por razões que não saberia dizer. Gostaria que o visse de bata e capuz,

andando numa procissão. Uma colegiatura, um professorado — sentia-se capaz de

qualquer coisa e imaginava-se... mas o que estava ela olhando? Um homem colando

um cartaz. A enorme folha de papel pendente alisava-se, e cada golpe da brocha

revelava pernas, arcos, cavalos, brilhantes tonalidades de verde e vermelho lindamente

suaves — até que metade do muro ficou coberta com o anúncio de um circo: uma

centena de homens a cavalo, vinte focas amestradas, tigres. Esticando o pescoço, pois

era míope, ela leu:. . . "visitará esta cidade." Era um trabalho terrivelmente perigoso

um homem com um só braço subir ao topo de uma escada assim — exclamou. O braço

esquerdo daquele ali fora cortado por uma ceifadeira dois anos atrás.

— Vamos! — gritou ela, continuando a andar, como se todos esses cavalos e

cavaleiros a tivessem enchido de euforia infantil, fazendo-a esquecer sua comiseração

de há pouco.

— Vamos — repetiu ele, estalando a língua, mas com uma tal circunspecção que

a fez estremecer. — Vamos ao circo. — Não, ele não conseguia dizê-lo normalmente.

Nem senti-lo direito. Mas por que não? — perguntou-se a Sra. Ramsay. O que havia

de errado com o rapaz? Gostava dele sinceramente naquele momento. Não tinham

ambos ido ao circo, quando eram crianças? — perguntou-lhe. Nunca — respondeu-

lhe, como se ela tivesse feito exatamente a pergunta que ele queria responder: ansiava

há dias por dizer que não iam ao circo. Sua família era grande, com nove irmãos e

irmãs, e seu pai era um trabalhador: — Meu pai é farmacêutico, Sra. Ramsay. Tem

uma loja. — Ele s,e mantinha desde os treze anos. Não raro passava os invernos sem

um casacão. Na universidade nunca pôde "retribuir gentilezas" (esse era seu jargão

habitual). Tinha que fazer seus pertences durarem duas vezes mais que os outros;

fumava o tabaco mais barato — desse fumo ruim que os velhos de beira de cais

fumam. Trabalhava muito: sete horas por dia.. . — continuava falando, e o assunto

agora era sobre a influência de alguma coisa sobre alguém. Prosseguiam em seu

caminho, e a Sra. Ramsay não captava bem o sentido do que ele dizia, apenas uma

palavra aqui e ali: tese... bolsa de estudos. . . licenciatura. .. leitorado.. . Não

conseguia acompanhar o horrível jargão acadêmico que jorrava com tanta facilidade

— mas via agora por que a ida ao circo o perturbara tanto, coitadinho, e por que no

mesmo instante se saíra com toda aquela história sobre o pai, a mãe, os irmãos e

irmãs. Cuidaria que não rissem mais dele. Contaria isso a Prue. Supunha que ele

gostaria de comentar que fora ver Ibsen com os Ramsays. Ele era terrivelmente pedante

— oh, sim, um maçante insuportável, pois, embora já tivessem chegado à cidade e

estivessem na rua principal onde carroças passavam raspando o cascalho, mesmo

assim continuava falando sobre escolas populares, ensino, operários, ajuda à nossa

própria classe, e conferências, até que ela percebeu que ele recobrara completamente

sua circunspecção. Tinha-se recuperado do circo, e ia começar (agora gostava dele

sinceramente) a lhe contar que... — Mas nesse momento deram no cais e, ao ver as

casas desvanecendo de ambos os lados e toda a baía estendendo-se diante deles, a Sra.

Ramsay não pôde deixar de exclamar: — Oh! Que lindo!, pois a imensidão de água

azul surgia diante dela; o antigo Farol, distante, austero, no centro; e à direita, tão longe

quanto a vista alcançava, diminuindo e declinando em suaves ondulações, as dunas

verdes de relva fluida e selvagem, que sempre pareciam correr para algum país lunar,

inabitado pelos homens.

Era essa a paisagem — disse ela, parando, com os olhos mais cinzentos — de que

seu marido gostava tanto.

Ficou imóvel por um momento. Mas agora, disse, artistas vieram para cá. E lá

estava, a apenas alguns passos, um deles, de pé, com um chapéu panamá e botas

amarelas — todo seriedade, suavidade, concentração. Por tudo isso era observado por

dez menininhos, com um ar de profundo contentamento no rosto redondo e vermelho.

Olhava atentamente e, depois, mergulhava a ponta do pincel num montículo macio de

verde ou rosa. Desde que o Sr. Paunceforte chegara ali, três anos atrás, todos os

quadros eram assim, disse ela, verdes e acinzentados, com barcos a vela cor de limão

e mulheres cor-de-rosa na praia.

Mas os amigos de sua avó, observou ela, lançando uma olhadela discreta ao

passarem, tinham o maior trabalho: primeiro misturavam os pigmentos, depois moíam-

nos, e então colocavam panos levemente molhados sobre a tinta para mantê-la úmida.

O Sr. Tansley pensou que ela estava insinuando que a pintura daquele homem

estava rala — foi isso o que disse? As cores não pareciam sólidas? Foi isso o que

disse? Sob a influência da extraordinária emoção que começara no jardim, quando

quisera segurar sua sacola, e crescera durante todo o passeio, aumentando na cidade,

quando quisera contar-lhe tudo sobre si mesmo (e tudo que conhecera até então),

chegava a ver tudo um pouco deformado. Era terrivelmente estranho.

Ali estava ele de pé, na sala da casinha acanhada onde ela o trouxera, esperando-

a, enquanto ia um instante ao segundo andar ver uma mulher. Ouvia seu passo rápido

em cima;

ouvia sua voz alegre e logo depois baixa. Olhou os guardanapos e caixas de chá,

e as sombras dos globos, enquanto esperava bastante impaciente, ansioso por voltar

para casa e decidido a levar a sacola dela. Então ouviu-a sair; fechar a porta; dizer que

deveriam manter as janelas abertas e as portas fechadas (devia estar falando com uma

criança). De repente, surgiu, parando por um instante em silêncio (como se tivesse

ficado representando lá em cima, e por um momento permanecesse parada agora, quase

imóvel, diante do quadro da Rainha Vitória, com a Ordem Azul da Jarretei-ra). De

repente, descobriu: era a pessoa mais bela que conhecera.

Com estrelas nos olhos e véus no cabelo, com ciclamens e violetas selvagens —

mas em que despropósito estava pensando? Tinha no mínimo cinqüenta anos e oito

filhos. Caminhando por campos floridos e levando ao peito botões esmagados e

carneiros caídos; com estrelas nos olhos e o vento no cabelo — ele segurou sua sacola.

— Adeus, Elsie — disse ela, e subiram a rua, ela segurando a sombrinha, muito

aprumada, andando como se esperasse encontrar alguém na próxima esquina. Pela

primeira vez em sua vida, Charles Tansley sentiu um orgulho extraordinário; um

homem escavando num bueiro parou de cavar e olhou-a; deixou o braço tombar e

olhou-a. Charles Tansley sentiu um orgulho extraordinário; sentiu o vento, os ciclamens

e as violetas, pois andava com uma mulher bela pela primeira vez em sua vida.

Segurou sua sacola.

2

— Ninguém vai ao Farol, James — disse ele, de pé, ao lado da janela, falando

grosseiramente, mas, em deferência à Sra. Ramsay, tentando abrandar a voz e dar-lhe

pelo menos uma aparência de amabilidade.

"Que homenzinho detestável", pensou a Sra. Ramsay, "para que continuar dizendo

isso?"

3

— Talvez você acorde e encontre o sol brilhando e os passarinhos cantando —

disse ela compassivamente, alisando o cabelo do menino, pois o marido, com a frase

cáustica de que o dia não ficaria bom, abatera seu ânimo, como bem se podia ver. Essa

ida ao Farol era uma paixão dele, e, como se o marido já não tivesse dito bastante,

esse homenzinho detestável trouxera tudo de novo à baila.

— Talvez o dia fique bonito amanhã — disse ela, alisando o cabelo do menino.

Tudo que ela poderia fazer agora era admirar a geladeira e virar as páginas do

catálogo das Lojas, na esperança de chegar a algo semelhante a um ancinho ou uma

ceifeira que, com seus dentes e cabos, exigiriam o maior cuidado e habilidade para

recortar. Todos esses jovens parodiavam seu marido, refletiu; ele disse que choveria;

eles declaravam que seria positivamente um furacão.

Então, quando virou a página, a procura de uma gravura de um ancinho ou uma

ceifeira foi repentinamente interrompida; o murmúrio grosseiro dos homens falando —

que o tirar e recolocar do cachimbo na boca interrompia a intervalos — dava-lhe uma

certa sensação de conforto, embora não pudesse compreender o que diziam, pois

estava junto à janela. Esse murmúrio já durava há meia hora e se juntava suavemente à

escala de sons que se acumulava ao bater dos tacos nas bolas e ao alarido das crianças

jogando críquete, irrompendo por vezes, de modo abrupto; "Acertou? Acertou?" Mas,

de repente, todo ruído cessou, restando apenas a cadência monótona das ondas na praia

— que quase sempre era um rufiar repousante e ritmado para seus pensamentos,

parecendo repetir sempre, enquanto se sentava com as crianças, as palavras

consoladoras de uma velha canção de ninar: "Eu cuido de você; eu sou o seu apoio."

Mas, às vezes, repentina e inesperadamente — sobretudo quando sua atenção se

desviava um pouco do que estava fazendo no momento —, não tinha esse sentido tão

calmo: pois, como o rufar fantasmagórico de tambores que batessem impiedosamente o

sentido da vida, fazia pensar na destruição da ilha e no seu engolfamento com o mar e a

prevenia (a ela cujo dia escapara com um afazer depois do outro) de que tudo era

efêmero como um arco-íris. Esse som que fora abafado e encoberto sob os outros sons

de repente soou oco em seus ouvidos e a fez erguer os olhos num impulso de horror.

Eles haviam parado de falar; era essa a explicação. Escapando por um segundo à

tensão de que fora possuída, passou, como para se recuperar do dispêndio

desnecessário de emoção, ao outro extremo de seu ser, que era frio, divertido, e mesmo

um tanto malicioso, e concluiu que o pobre Charles Tansley fora rechaçado. Isso não

tinha muita importância. Se seu marido lhe exigia sacrifícios (e sem dúvida os exigia),

ela lhe ofertava alegremente Charles Tansley, que tinha sido grosseiro com seu

filhinho.

E ainda um momento, com a cabeça erguida, ela ouvia — como se esperasse por

algum som habitual — um ruído mecânico e regular, algo ritmado, entre dito e cantado,

começar no jardim (o marido andava compassadamente para cima e para baixo no

terraço), algo entre um coaxar e uma canção. Acalmou-se ainda uma vez,

reconfortada, pois tudo ia bem, e tornando a olhar o catálogo solire o colo, achou a

gravura de uma faca com seis lâminas, que James só poderia recortar se tivesse muito

cuidado.

De repente, um grito agudo, como o de um sonâmbulo meio acordado, algo como

Bombardeados por tiros e granadas1

soou com a maior intensidade em seu ouvido, e a fez voltar-se apreensivamente

para ver se alguém mais ouvira. Era apenas Lily Briscoe, e estava contente por vê-la; e

aquilo não importava. Mas ao ver a moça de pé, na extremidade do gramado,

pintando, lembrou-se de que deveria manter a cabeça tanto quanto possível na mesma

posição para o quadro de Lily. O quadro de Lily! A Sra. Ramsay sorriu. Com seus

pequenos olhos chineses e seu rosto enrugado, ela nunca se casaria; mas era uma

criatura independente. A Sra. Ramsay gostava dela por isso, e assim, lernbrando-se de

sua promessa, inclinou a cabeça.

--

1 Stormed at with shot and shell. Verso famoso do poema "Carga da brigada ligeira" ("The charge of the light brigade"), escrito por

Tennyson em 1854, seguido de outras citações do mesmo poema. Ele se refere à batalha de Balaclava, na Criméia, a 25 de novembro daquele ano.

(N. da T.)

4

Sem dúvida ele quase derrubou o cavalete, ao vir em sua direção, agitando as

mãos e gritando: "Cavalgamos bem e com coragem", mas, felizmente, deu meia volta e

se afastou cavalgando, para morrer gloriosamente, supunha, nas alturas de Balaclava.

Nunca alguém fora tão ridículo e tão assustador ao mesmo tempo. Contudo, enquanto

ele se mantivesse assim, gritando, agitando-se, estava salva; pelo menos não ficaria

parado e quieto, olhando seu quadro. Era isso que Lily Briscoe não poderia suportar.

Mesmo enquanto olhava o volume, as cores e linhas, a Sra. Ramsay sentada à janela

com James, Lily Briscoe mantinha-se atenta para o caso de alguém surgir, pois não

queria ter sua pintura observada repentinamente. Agora, porém — com todos os

sentidos tão avivados, olhando, tensa, até que a cor do muro e das iridáceas mais além

se incendiaram em seus olhos —, tinha consciência de que alguém saía da casa e

caminhava em sua direção. Mas, de certa forma, adivinhou, pelo modo de andar, ser

William Bankes, e por isso, embora sentisse o pincel estremecer, não virou a tela na

grama — como faria se fosse o Sr. Tansley, Paul Rayley, Minta Doyle, ou

praticamente qualquer outra pessoa — e deixou-a ficar onde estava. William Bankes

parou a seu lado. Hospedavam-se no mesmo lugar na cidade e assim, entrando e

saindo, despedindo-se tarde na soleira da porta, faziam pequenos comentários sobre a

sopa, as crianças, sobre isto ou aquilo, o que os tornava aliados. Por isso, quando ele

parou a seu lado, om seu jeito judicial (tinha idade bastante para ser seu pai, um

botânico, ou um viúvo, muito escrupuloso e limpo, cheirando a sabonete), ela

permaneceu no mesmo lugar. Ele também. Os sapatos dela eram excelentes, observou

ele. Permitiam aos dedos sua natural expansão. Habitando a mesma casa que ela,

também notara como era arrumada, levantando-se antes do café e saindo para pintar

sozinha. Embora pobre, como era de supor, e sem a tez ou a sedução da Srta. Doyle,

seu bom senso a fazia, a seu ver, superior a essa jovem. Por exemplo, tinha certeza de

que, quando Ramsay irrompeu diante deles gritando, gesticulando, a Srta. Briscoe o

compreendera.

Alguém se equivocara.2

O Sr. Ramsay fixou os olhos neles. Fixou os olhos neles sem parecer vê-los. E

isso os fez sentirem-se vagamente constrangidos. Juntos viram uma coisa que não

queriam ver. Haviam penetrado em algo muito íntimo. Foi provavelmente um pretexto,

pensou Lily, para partir, para ficar fora de alcance, que fez o Sr. Bankes quase

imediatamente comentar que fazia frio e sugerir uma volta. Ela iria, sim. Mas não foi

sem dificuldade que desprendeu os olhos de seu quadro.

As iridáceas estavam de um violeta brilhante; o muro, de um branco cintilante. Ela

não considerava honesto modificar o violeta claro e o branco cintilante, já que os via

assim, embora isso estivesse na moda depois da visita do Sr. Paunceforte. Então, sob a

cor havia a forma. Podia ver isso com clareza, imperiosamente, quando olhava: quando

pegava no pincel é que tudo mudava. Era nesse vôo momentâneo entre a paisagem e sua

tela que os demônios a possuíam, levando-a à beira das lágrimas, e tornavam a

passagem da concepção para o trabalho tão terrível quanto o era a incursão por um

corredor escuro para uma criança. Assim se sentia, freqüentemente, numa luta

terrivelmente desigual para manter a coragem e dizer: "Mas isso é o que eu vejo, isso é

o que eu vejo", e desse modo reunir em seu peito os restos miseráveis de sua visão,

que milhares de forças buscavam arrancar-lhe. E era também nesse momento, dessa

forma fria e inconstante, que, quando começava a pintar, pressionavam-na outros

pensamentos, sua própria imperfeição, sua insignificância, tendo de sustentar o pai

numa casa além da estrada de Brompton, e tendo de se esforçar muito para controlar

seu impulso de se atirar ao colo da Sra. Ramsay (graças a Deus, sempre resistira) e

dizer-lhe — mas o que poderia dizer-lhe? "Estou apaixonada por você?" Não, não era

verdade. "Estou apaixonada por tudo isso?" — com um gesto largo abrangendo a sebe,

a casa, as crianças? Era absurdo, impossível. Não se pode dizer o que se tem vontade

de dizer. Por isso, pousou os pincéis ordenadamente na caixa, um ao lado do outro, e

disse ao Sr. Bankes:

— Esfriou de repente. O sol parece estar menos quente

— falou, olhando em redor, pois tudo estava muito claro, a grama ainda de um

suave verde profundo, a casa cintilando na sua folhagem com flores púrpuras de

maracujá, e gralhas lançando gritos cortantes do alto azul. Mas alguma coisa moveu-

se, brilhou, virou uma asa prateada no céu. Afinal, era setembro, meados de setembro,

e mais de seis horas da tarde. Assim, caminharam pelo jardim na direção costumeira;

passando pela quadra de tênis e pela grama alta, até aquela clareira na espessa sebe

protegida por suas hastes de vermelho incandescente como brasas de carvão queimado,

por entre as quais as águas azuis da baía pareciam ainda mais azuis.

Vinham até ali regularmente, todas as noites, arrastados por alguma necessidade.

Era como se a água fluísse e fizesse com que os pensamentos estagnados em terra firme

deslizassem por ela e dessem até mesmo a seus corpos uma espécie de alívio físico.

Primeiro, o movimento da cor inundava a baía de azul e o coração expandia-se com ele

e o corpo nadava, para somente no instante seguinte ser reprimido e enregelado pela

cortante escuridão das ondas inquietas. Então, bem atrás da grande rocha negra, quase

toda noite jorrava irregularmente uma fonte de água branca, de modo que se tinha de

aguardá-la e era um deleite quando a água brotava; enquanto se esperava por ela, via-

se, na pálida praia em semicírculo, onda após onda derramar continuamente uma

névoa suave em tons de madrepérola.

Os dois permaneceram ali, sorridentes. Ambos sentiram uma alegria em comum,

exaltados pelas ondas em movimento; e então, pela corrida cortante e rápida de um

barco que, tendo traçado uma curva na baía, parou, estremeceu, deixou tombar a vela,

com um instinto natural para completar o quadro, após esse rápido movimento, ambos

olharam para as dunas distantes e, em vez de alegria, uma certa tristeza abateu-se sobre

eles — em parte porque tudo estava completo, em parte porque paisagens distantes

parecem ultrapassar de um milhão de anos (pensou Lily) aquele que as observa, e estar

em comunhão com um céu que contempla uma terra em completo descanso.

Olhando as dunas longínquas, William Bankes pensou em Ramsay: pensou em

Ramsay andando sozinho com lar gas passadas por um longo caminho, com a solidão

que parecia ser seu ar natural. Mas isso foi repentinamente interrompido. William

Bankes lembrou-se (e devia referir-se a algum incidente real) de uma galinha estirando

as asas para proteger uma ninhada de pintinhos, e Ramsay, parando, apontara sua

bengala e dissera: "Bonito, bonito" — o que era como uma estranha centelha no

coração que mostrava sua simplicidade, sua simpatia para com as coisas humildes;

parecia-lhe, no entanto, que sua amizade cessara, ali, naquele trecho de estrada.

Depois, Ramsay se casara. E mais tarde, com uma coisa e outra, a melhor parte de sua

amizade se fora. De quem era a culpa, não saberia dizer; apenas, após algum tempo, a

repetição tomara o lugar da novidade. Era para repetir que se encontravam. Mas

nesse mudo colóquio com as dunas ele insistia que sua afeição por Ramsay não tinha

de modo algum diminuído; lá estava — como o corpo de um jovem encerrado em turfa

por um século, a carne vermelha dos lábios — sua amizade, em toda a sua agudeza e

realidade, conservada do outro lado da baía, por entre as dunas.

Angustiava-se ao pensar em sua amizade e talvez também por querer escapar à

acusação de que teria envelhecido e ficado enrugado. Enquanto Ramsay vivia num

rebuliço de filhos, Bankes não tinha nenhum e era viúvo — angustiava-se. Não fosse

Lily Briscoe desprezar Ramsay (a seu modo uma grande pessoa); queria que ela

compreendesse como as coisas eram entre eles. Sua amizade começara há muitos anos

e acabara numa estrada de Westmoreland, onde uma galinha aninhara seus pintinhos

entre as asas; depois, Ramsay se casara, e seus caminhos se separaram, e passou a

haver, sem dúvida — ninguém era culpado disso —, uma certa tendência, quando se

encontravam, à repetição.

Sim. Era isso. Acabara. Virou-se de costas para o mar. E, tendo-se voltado para

seguir por outro caminho, o Sr. Bankes emocionou-se com coisas que não o tocariam,

se essas dunas não lhe tivessem revelado o corpo daquela amizade encerrado em turfa

— emocionando-se, por exemplo, com Cam, a menininha, a filha menor de Ramsay.

Ela colhia um ramo de alelis junto à água. Era rebelde e violenta. Não "daria uma flor

ao cavalheiro", como a babá mandara. Não! Não! Não! Não daria! Cerrou os punhos e

bateu o pé. O Sr. Bankes sentiu-se velho e triste e de' certa forma enganado sobre sua

amizade, só por causa dela. Devia ter envelhecido e ficado enrugado.

Os Ramsays não eram ricos, e era um prodígio como conseguiam dar conta de

tudo aquilo. Oito filhos! Alimentar oito filhos de filosofia! Lá adiante passeava outro

deles, Jasper, que ia atirar num passarinho — como disse com indiferença ao passar,

sacudindo a mão de Lily como uma alavanca de bomba, coisa que fez o Sr. Bankes

comentar amargamente que era ela a favorita. Havia também a educação a ser

considerada (era verdade que a Sra. Ramsay talvez possuísse alguns bens), sem falar

da roupa diária, o gasto dos sapatos e das meias, de que esses "respeitáveis senhores",

todos bem crescidos, angulosos, jovens despreocupados, deviam precisar. Quanto a

ter certeza de quem eram, ou em que ordem vinham, estava além de sua capacidade.

Chamava-os, na intimidade, pelos nomes dos reis e rainhas da Inglaterra: Cam a

Perversa, James o Cruel, Andrew o Justo, Prue a Bela — pois Prue seria linda,

pensou, e como poderia ser diferente? —, e Andrew seria inteligente. Enquanto

caminhava pela estrada e Lily Briscoe dizia sim ou não e concordava com seus

comentários (pois gostava de todos, amava o mundo), ele ponderava o caso de

Ramsay, comiserava-se dele, invejava-o, como se o tivesse visto privar-se de todas as

glórias do isolamento e austeridade que o coroaram na sua juventude, para se

embaraçar definitivamente no alvoroço e na agitação dos problemas caseiros. Essas

coisas davam algo a Ramsay, reconheceu William Bankes; teria sido agradável se

Cam tivesse prendido uma flor no seu casaco ou subido em seu ombro, como fazia com

o pai para olhar uma gravura do Vesúvio em erupção; mas seus velhos amigos não

podiam deixar de sentir que se havia destruído alguma coisa. O que pensaria um

estranho agora? O que essa Lily Briscoe pensava? Poderia alguém deixar de notar que

Ramsay adquirira certos hábitos? Excentricidades, fraquezas talvez? Era surpreendente

como um homem de seu intelecto conseguira decair tanto como ele fizera — mas essa

era uma frase por demais rude — e que pudesse depender tanto da aprovação dos

outros. — Oh, mas pense na obra dele! — disse Lily. Sempre que ela "pensava" na

obra dele, via claramente diante de si uma grande mesa de cozinha. Era por culpa de

Andrew. Perguntara-lhe de que tratavam os livros do pai. "O sujeito e o objeto e a

natureza da realidade", respondera Andrew. E quando ela exclamara: "Céus", pois não

tinha a menor idéia do que isso significava, ele acrescentara: "Pense numa mesa de

cozinha, então, quando você não está lá."

Assim, ela sempre via uma mesa de cozinha rústica, quando pensava na obra do

Sr. Ramsay. Estava pousada agora na forquilha de uma pereira, pois tinham

alcançado o pomar. E com um penoso esforço de concentração, focalizou sua mente,

não nas pregas prateadas da casca da árvore ou nas folhas, que tinham a forma de

peixes, mas em uma mesa de cozinha imaginária, uma dessas toscas mesas de madeira,

ásperas e cheias de nós, cuja principal virtude parece ser a de terem sempre ficado ali,

despojadas, durante anos de integridade muscular, com as quatro pernas ao vento.

Naturalmente, se a vida de uma pessoa transcorresse na visão dessas essências

angulares, na redução dessas noites maravilhosas com nuvens purpúreas, azuis e

prateadas, a uma mesa de pinho com quatro pernas (e era um sinal da maior

inteligência fazê-lo), naturalmente não se poderia julgar essa pessoa como alguém

comum.

Agradou ao Sr. Bankes que ela lhe tivesse pedido que "pensasse na obra dele".

Ele pensara nisso muitas e muitas vezes. Vezes sem fim dissera: "Ramsay é um desses

homens que fazem o melhor de sua obra antes dos quarenta." Dera uma contribuição

decisiva para a filosofia em um pequeno livro, quando tinha mais ou menos vinte e

cinco anos; o que veio depois foi praticamente ampliação, repetição. Só que o número

de homens que dão uma contribuição decisiva em qualquer sentido é muito pequeno,

disse ele, parando ao lado da pereira, muito compenetrado, com seu ar

escrupulosamente exato, perfeitamente judicial. Bruscamente, como se o movimento de

sua mão tivesse libertado Lily do peso das impressões acumuladas, estas inflaram e

rebentaram numa pesada avalanche com tudo o que ela sentia por ele. Era só uma

sensação. Então, como uma fumaça, elevou-se a essência do ser do Sr. Bankes. E agora

havia outra sensação. Sentia-se trespassada pela intensidade de sua percepção: era sua

severidade; sua bondade. Eu o respeito (dirigia-se a ele em silêncio) em todos os seus

átomos; você não é vaidoso; é extremamente altruísta; é mais dedicado que o Sr.

Ramsay; é o melhor ser humano que conheço; não tem mulher nem filho (sem qualquer

sentimento sexual, ela ansiava por confortar sua solidão), você vive para a ciência

(involuntariamente prateleiras de batatas surgiram diante de seus olhos); elogiá-lo

seria um insulto para você; é generoso, puro de coração, um homem heróico!

Simultaneamente, porém, lembrou-se de que ele trouxera consigo um criado; que fazia

objeções a cachorros subirem em cadeiras; que discorreria durante horas (até que o Sr.

Ramsay saísse da sala batendo a porta) sobre sal nas verduras e a abominação da

cozinha inglesa.

Em que resultava tudo isso, então? Como julgar os outros, pensar sobre os

outros? Como se acrescentava uma coisa à outra e se concluía que era afeto ou desafeto

o que se sentia? E que sentido atribuir a essas palavras, afinal? Ela estava de pé, perto

da pereira, aparentemente transportada e inundada pelas impressões sobre esses dois

homens. Seguir o pensamento dela era como seguir a voz que fala rápido demais para

que se possa tomar nota do que diz. E a voz era a sua própria dizendo, sem que lhe

soprassem nada, coisas inegáveis, eternas, contraditórias, tanto que mesmo as fendas e

saliências no tronco da pereira estavam irrevogavelmente fixadas ali por toda a

eternidade. Você tem grandeza, continuou ela, e o Sr. Ramsay não. Ele é inferior,

egoísta, vaidoso, egocêntrico; é temperamental; é um tirano; cansa a Sra. Ramsay até a

morte; mas ele tem o que você (dirigia-se ao Sr. Bankes) não tem: é desapegado das

coisas mundanas; não se importa com insignificâncias; gosta de cachorros e dos filhos.

Tem oito. Você não tem nenhum. Não descera ele, uma dessas noites, com dois casacos

nas costas, deixando que a Sra. Ramsay amparasse seu cabelo com uma bacia? Tudo

isso rodava em sua mente, como um enxame de mosquitos, cada qual separado, mas

todos maravilhosamente controlados por uma rede elástica e invisível — girava na

mente de Lily, no meio e ao redor dos ramos da pereira, onde ainda se dependurava a

imagem da tosca mesa de cozinha, símbolo de seu profundo respeito pela inteligência

do Sr. Ramsay, até que seu pensamento, que rodopiara cada vez mais rápido, explodiu

por sua própria intensidade; sentiu-se aliviada; um tiro partiu bem próximo, e surgiu,

fugindo de seus estilhaços, num vôo assustado, efusivo, tumultuado, um bando de

estorninhos.

— Jasper! — exclamou o Sr. Bankes. Voltaram-se na direção de onde haviam

voado os estorninhos, sobre o terraço. Seguindo a dispersão rápida dos pássaros no

céu, atravessaram a passagem na sebe e depararam-se imediatamente com Ramsay,

que se precipitou tragicamente sobre eles: "Alguém se equivocara!"

Os olhos deste, translúcidos de emoção, arrogantes de trágica intensidade,

encontraram os deles por um segundo e pestanejaram à beira do reconhecimento; mas

então, esboçando um gesto até o rosto, como para afastar, expulsar, numa angustiante e

persistente vergonha, o olhar deles, que era absolutamente normal, Ramsay

parecia implorar-lhes que refreassem por um momento o que ele sabia ser inevitável,

como se impusesse a eles seu próprio ressentimento infantil por ter sido interrompido.

Contudo, mesmo no momento da revelação, não seria completamente destroçado,

estava decidido a reter algo dessa deliciosa emoção — a impura rapsódia de que se

envergonhava, mas com a qual se deleitava. Voltou-se abruptamente, batendo-lhes no

rosto a porta de seu gabinete; Lily Briscoe e o Sr. Bankes, olhando o céu pouco à

vontade, observaram que os estorninhos que Jasper desbaratara com sua espingarda

foram se empoleirar em bandos no topo dos carvalhos.

--

2 Someone had blundered. A brigada em questão foi dizimada por um ataque heróico, mas resultante de um erro na transmissão de uma

ordem. (N. da T.)

5

— E mesmo que amanhã o tempo não fique bom, ficará melhor noutro dia

qualquer — disse a Sra. Ramsay, erguendo os olhos para dar uma espiadela em

William Bankes e Lily Briscoe que passavam. — E agora — disse, pensando que o

charme de Lily eram os olhos de chinesa, oblíquos no seu ros-tinho branco e enrugado;

só que seria necessário um homem muito inteligente para descobrir isso. — E agora

fique em pé quieto e deixe-me medir sua perna. — Pois, apesar de tudo, poderiam ir

ao Farol, e tinha de verificar se a meia não precisava de uma ou duas polegadas a mais

na perna.

Sorrindo, pois uma idéia admirável surgira em sua mente naquele mesmo instante

— William e Lily deveriam casar-se —, pegou a meia em tons de urze e cuja boca

tinha desenhos em pontos de cruz feitos com agulhas de aço, e a mediu sobre a perna de

James.

— Meu querido, fique quieto — disse, pois James, no seu ciúme, não gostava de

servir de modelo para o filho menor do faroleiro; agitava-se de propósito e, assim,

como poderia ela ver se estava comprida ou curta demais?, perguntou.

Ergueu os olhos — que demônio possuía o filho menor, o seu querido? — e,

vendo a sala, as cadeiras, achou-as terrivelmente maltratadas. Suas entranhas — como

Andrew dissera há dias — estavam espalhadas pelo chão; mas então, perguntou-se,

que vantagem havia em comprar boas cadeiras para deixá-las estragarem-se ali