Patton – O Herói Polemico Da Segunda Guerra por João Fábio Bertonha - Versão HTML

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Copyright© 2011 João Fábio Bertonha

Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.)

Foto de capa

General George Smith Patton, Jr. uniformizado (reprodução)

Consultoria e coordenação de texto

Carla Bassanezi Pinsky

Montagem de capa e diagramação

Gustavo S. Vilas Boas

Preparação de textos

Lilian Aquino

Revisão

Rinaldo Milesi

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bertonha, João Fábio

Patton : o herói polêmico da segunda guerra / João Fábio Bertonha. – São Paulo : Contexto, 2011.

ISBN 978-85-7244-649-5

1. Comando de tropas 2. Generais – Estados Unidos – Biografia 3. Guerra Mundial, 1939-1945 4. Guerra mundial,

1939-1945 – Campanhas – Norte da África 5. Patton, George Smith, 1885-1945 I. Título.

11-05645

CDD-973.920

Índice para catálogo sistemático:

1. Estados Unidos : Generais : Biografia 973.920

2011

EDITORA CONTEXTO

Diretor editorial: Jaime Pinsky

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05083-030 – São Paulo – SP

PABX: (11) 3832 5838

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SUMÁRIO

Introdução

Um soldado em formação (1885-1918)

As origens familiares

Em West Point

Um jovem oficial

Com Pershing no México (1916)

Os Estados Unidos e a Primeira Guerra Mundial (1917-1918)

Patton e os campos de batalha da França

Um guerreiro à espera do seu momento (1919-1942)

A defesa da arma blindada (1919-1920)

Entre tanques e cavalos: Patton nas décadas de 1920 e 1930

Um oficial conservador

Um guerreiro de alma nova num novo Exército (1939-1942)

A Segunda Guerra Mundial: África, Sicília e Overlord

Operação Torch: Argélia e Marrocos

Husky: a invasão da Sicília

Sicília: um general em maus lençóis

Patton e a preparação de Overlord

A Segunda Guerra Mundial: França, Alemanha e as Ardenas

Um golpe de mestre: o norte da França e o avanço para a Alemanha

As Ardenas: um milagre tático

Para a Alemanha

Contra a União Soviética

Patton e o 3º Exército em batalha: uma avaliação

Polêmicas, a morte e a memória

O governo militar da Baviera

Uma carreira política?

A morte

A memória e o mito Patton

O homem e o soldado

Um gênio militar?

Patton e seus aliados e rivais

Patton e a guerra contemporânea

Conclusões

O discurso de Patton ao 3o Exército antes da invasão da França

Fontes e bibliografia comentada

Filmes e documentários citados

Carreira militar de George Smith Patton, Jr.

Cronologia geral

O autor

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INTRODUÇÃO

Em 3 de agosto de 1943, o general George Smith Patton, Jr. visitava um hospital de

campanha do Exército dos Estados Unidos na Sicília quando um jovem soldado de 27 anos –

Charles H. Kuhl – chamou a sua atenção por não parecer ferido. Ao saber que Kuhl estava no

hospital por exaustão nervosa, o general Patton se enfureceu e, após chamá-lo de covarde e

insultá-lo com obscenidades, o esbofeteou e chutou para fora da tenda onde estavam os

feridos.

Alguns dias depois, em 10 de agosto, um incidente semelhante ocorreu em outro hospital.

Nesse dia, Patton não apenas insultou e ameaçou com o fuzilamento o soldado Paul G. Bennett,

mas também usou uma de suas famosas pistolas para atingi-lo com o cabo de marfim. Quando

o soldado caiu, aos prantos, Patton o golpeou novamente e, em seguida, deixou o local

proferindo mais obscenidades.

Por acaso, esses incidentes chegaram ao conhecimento de jornalistas americanos e

constatou-se que ambos os soldados não eram covardes, tinham folhas de serviço respeitáveis

e estavam realmente doentes. Especialmente o segundo incidente, amplamente divulgado pelos

meios de comunicação, gerou uma série de protestos contra o general. Disciplinado por seu

comandante em chefe, Eisenhower, Patton teve que se desculpar publicamente. Com isso,

escapou de ser removido do comando, um posto muito cobiçado. Não obstante, o episódio

marcou a sua biografia e tornou-se emblemático da complexa personalidade de um dos

generais mais famosos, eficientes e polêmicos da Segunda Guerra Mundial.

Patton realmente era um homem contraditório. Originário de uma família rica e poderosa

(sendo considerado o oficial mais rico do Exército dos EUA na sua época), era capaz de falar

a linguagem simples dos soldados. Seu poder de persuasão podia levá-los aos maiores

sacrifícios, fazendo de Patton um comandante amado e odiado ao mesmo tempo. Tímido e

inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo em outros. Sabia, como nenhum

outro oficial, comandar tropas em batalha. Exigia disciplina e obediência dos seus

comandados, mas entrava constantemente em conflito com seus superiores. Muitas vezes,

encontrou meios criativos de desobedecer a ordens sem ser punido.

Sentia-se perfeitamente à vontade com cavalos e espadas, mas tinha uma habilidade especial

em lidar com tanques, blindados e outros elementos da guerra motorizada do século XX, na

qual foi um mestre. Seu desempenho durante a Segunda Guerra Mundial foi decisivo para a

derrota do nazismo, mas Patton nutria preconceitos contra negros e judeus. Além disso, tinha

uma grande aversão ao comunismo e à União Soviética, então aliada do seu país.

É a vida desse homem tão contraditório o tema deste livro. Do seu nascimento, em 1885,

passaremos pela sua infância e adolescência na Califórnia e a sua formação militar na

Academia de West Point, onde Patton se graduou em 1909. Também veremos sua participação

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na expedição do general Pershing, no México, em 1916, e nas trincheiras da Primeira Guerra

em 1917-1918, assim como o desenvolvimento de sua carreira militar durante o período

entreguerras.

O foco maior do livro será, contudo, os quatro anos (1942-1945) em que ele construiu a sua

fama de eficiente comandante militar, nas campanhas no norte da África, na Sicília e,

especialmente, nas sangrentas batalhas no norte da França e na Alemanha, até sua morte, em

1945.

Completam o quadro uma análise de como se construiu o “mito Patton” a partir de então

(especialmente em filmes e livros produzidos depois de sua morte) e uma reflexão sobre a sua

influência no pensamento militar contemporâneo.

Sobre Patton, produziu-se uma quantidade monumental de livros e artigos, de qualidade

desigual, e, com o advento da internet, existem sites sobre ele, com os mais variados enfoques.

Na sua imensa maioria, são textos embasados em pouca pesquisa documental, que repetem os

lugares-comuns e as lendas a seu respeito, sem uma preocupação maior em retratar o homem e

o militar por trás dos fatos narrados. Como não podia deixar de ser, frente a uma figura

polêmica como Patton, a bibliografia a seu respeito também é altamente polarizada, com

defensores e inimigos do general expondo suas opiniões, nem sempre respaldadas por

pesquisas adequadas.

Este livro baseia-se em uma bibliografia especializada, produzida por historiadores

militares sérios e capazes de encontrar o homem atrás da mitologia. Textos mais gerais sobre

a Segunda Guerra Mundial e a imensa gama de informações disponíveis sobre ele na rede

mundial também foram utilizados, mas de forma secundária. A fonte principal desta biografia

de Patton é a produção bibliográfica de maior qualidade, quase toda originária dos Estados

Unidos, que li e analisei com o olho crítico de um historiador especializado em temas

militares e internacionais e com larga experiência nas guerras mundiais e na história dos

Estados Unidos. Não há, no decorrer do texto, notas ou citações relativas ao material

pesquisado. Para os leitores que quiserem conhecê-lo em detalhes, sugiro conferir a

bibliografia comentada, ao final do volume.

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UM SOLDADO EM FORMAÇÃO (1885-

1918)

AS ORIGENS FAMILIARES

George Smith Patton, Jr. nasceu em San Gabriel, Califórnia, em 11 de novembro de 1885,

filho de George Smith Patton (1856-1927) e Ruth Wilson (1861-1928) e faleceu num acidente

rodoviário, em Heidelberg, na Alemanha, em 21 de dezembro de 1945, aos sessenta anos de

idade. Patton casou-se com Beatrice Banning Ayer (1886-1953) em 26 de maio de 1910 e teve

três filhos, Beatrice (1911-1952), Ruth Ellen (1915-1993) e George Patton IV (1923-2004),

que chegou ao posto de major-general no Exército dos Estados Unidos.

A família de Patton era de origem escocesa (o ancestral Robert Patton emigrara da Escócia

para a América inglesa em 1770). George Patton nasceu na Califórnia, mas seus familiares

tinham raízes profundas no sul dos Estados Unidos, onde, desde a chegada da Europa, vários

de seus membros alcançaram importantes cargos políticos e militares. O general Hugh Mercer,

personagem de destaque na Independência dos EUA, era seu parente, assim como John M.

Patton, que governou a Virgínia. Outros de seus antepassados eram aparentados ou ligados por

laços de família a James Madison, George Washington e outros “pais fundadores” dos Estados

Unidos.

Durante a Guerra de Secessão (1860-1865), vários membros da família de Patton foram

oficiais e, como “bons sulistas”, todos serviram no Exército da Confederação. Seu avô,

coronel George Smith Patton, foi morto durante a Batalha de Opequon, e um seu tio-avô

participou da famosa “Carga de Pickett” durante a Batalha de Gettysburg, falecendo por conta

dos ferimentos ali recebidos. Outros parentes foram coronéis e oficiais menores na Marinha e

no Exército confederados.

O pai do futuro general nasceu em Charleston (hoje Virgínia Ocidental) em 1856 e graduou-

se no Virginia Military Institute em 1877, e, depois de se mudar para a Califórnia, exerceu o

cargo de promotor público em Los Angeles e Pasadena, além de ter sido prefeito de San

Marino.

Do lado materno, a família de Patton também era influente e poderosa. Seu avô materno,

Benjamin Davis Wilson, era um aventureiro do Tennessee que fez fortuna e se tornou grande

proprietário de terras na Califórnia.

Essa listagem de nomes e datas não é mera curiosidade e nem está aqui para cansar o leitor.

Ela serve para que fique claro o background familiar do futuro general e as redes e conexões

que ele tinha disponíveis para alavancar sua carreira militar e projetar seu futuro.

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Patton como cadete no Virginia Military Institute, 1903.

Do mesmo modo, indicar os postos e carreiras militares dos seus antepassados não tem

como objetivo sugerir que a habilidade militar estivesse nos genes da família ou que Patton

estivesse destinado a seguir uma carreira das armas. Isso não é verdade. Porém, a história

familiar parece ter tido algum peso na infância e adolescência do futuro oficial, convencendo-

o de que pertencia a uma estirpe especial e induzindo-o desde cedo a abraçar a profissão das

armas. A profusão de altos cargos militares e políticos ocupados por seus parentes indica a

importância que sua família adquiriu e sua capacidade de transferir poder, além de riqueza,

geração após geração, o que facilitava muito a vida e os projetos dos seus novos membros,

incluindo George.

Realmente, George Patton não foi um militar que construiu sozinho a sua carreira. Seus

méritos são evidentes, mas ele herdou bens, contatos e facilidades que lhe permitiram

ascender na profissão escolhida sem as dificuldades que outros encontrariam. Para um filho de

operários analfabetos, nascido no mesmo ano e local que Patton, as perspectivas de uma

carreira militar ou política eram muito menos róseas. No máximo, esse homem poderia, salvo

as exceções de praxe, chegar a sargento, e comandar meia dúzia de soldados em algum posto

isolado no continente americano.

No caso de Patton, bem-nascido, rico, instruído e dispondo de uma imensa rede de contatos

políticos e militares a explorar, as perspectivas eram muito melhores. De fato, o futuro general

não teve nenhum problema em lançar mão das vantagens que o nascimento havia lhe

proporcionado.

Já na infância, teve acesso a recursos disponíveis a poucas crianças da época. Além do

básico, como boa alimentação e roupas adequadas, ele e sua irmã podiam contar com a

assistência de empregados e tutores e dispunham de uma biblioteca em casa. Sem precisar

colaborar com o orçamento doméstico, como tantos outros da mesma idade, George tinha

tempo livre e recursos para praticar polo, além de outros esportes, e caçar. Como convinha

em uma família tradicional, desde cedo, o jovem Patton recebeu lições de uso de armas e

equitação. Aos 5 anos de idade, ganhou de presente uma pistola. Aos 15 anos, desfilou como

porta-estandarte montado a cavalo numa famosa parada em Pasadena.

Desde cedo, como mencionado, Patton demonstrou interesse por assuntos militares. George

Hugh Smith, um parente, ensinou-o a ler mapas e a se localizar via coordenadas quando ele

ainda era menino. Mesmo suas brincadeiras tinham, na maioria das vezes, conotação militar.

A figura paterna também exerceu enorme influência na infância de George. Nessa época, seu

pai, George Patton, Sr., era um ativo membro do Partido Democrata e atacava o poder das

grandes empresas e dos capitães da indústria. Seguia a tradição de Thomas Jefferson, que

imaginava a América uma terra de pequenos produtores e em que vigorava a democracia, em

oposição à de Alexander Hamilton, que preferia as grandes empresas e a implantação de uma

quase oligarquia dos mais ricos.

Entretanto, em alguns casos, as posições políticas de Patton, Sr. podiam ser muito

conservadoras. No início do século XX, ele se opunha à imigração de chineses e japoneses

para a Califórnia, como forma de preservar o poder e o domínio da raça branca nos Estados

Unidos, e era um firme inimigo do direito de voto às mulheres, chegando a ser um dos líderes

do movimento nesse sentido.

O jovem Patton não apenas foi exposto às posições políticas de seu pai (o que não significa,

claro, que ele as tenha seguido incondicionalmente), como também à sua visão peculiar de

educação. Por conta dela, George Patton, Sr., apresentou aos filhos os contos de fadas, a

mitologia e outras histórias, mas apenas em forma oral. O jovem Patton só teria acesso à

palavra impressa bem mais tarde, e, justamente por isso, apesar de escrever e ler sem

problemas (e ser, na verdade, um leitor compulsivo), o futuro general sempre teve problemas

com a ortografia. Tais problemas levaram alguns dos seus biógrafos a pensar que ele fosse

disléxico, o que não parece ser o caso. O tema, contudo, ainda é polêmico entre os estudiosos

do general.

EM WEST POINT

Patton iniciou seus estudos regulares apenas em 1897, numa escola para meninos de elite em

Pasadena. Aluno com boas notas, ambicionava ingressar na famosa Academia militar de West

Point, onde poderia começar a carreira de oficial do Exército. Instalada no estado de Nova

York e fundada em 1802, a Academia de West Point é, até hoje, o mais importante centro de

formação de oficiais dos EUA. Patton acreditava que West Point era essencial para o seu

projeto de vida.

No entanto, para ser aceito na Academia, precisava ser recomendado por um deputado ou

senador e, apesar dos contatos de seu pai, o futuro general teve dificuldades em obter tal

recomendação. Seu pai decidiu enviá-lo a outra prestigiosa Academia militar, o Virginia

Military Institute, e ficou instalado em Lexington, Virgínia, à espera do momento apropriado

para a entrada em West Point.

Em Lexington, a partir de 1903, Patton teve um desempenho escolar acima da média e

continuou, com o auxílio do pai, a procurar viabilizar seu ingresso na Academia de West

Point. Em fevereiro de 1904, finalmente, conseguiram uma recomendação do senador Thomas

Bard, da Califórnia, e o jovem George pôde se transferir para Nova York em junho do mesmo

ano.

Em West Point, Patton foi testemunha de grandes mudanças. O campus estava sendo

ampliado e recebendo novos edifícios e equipamentos. Ao mesmo tempo, o currículo passava

por uma revisão, agora com maior ênfase em matérias mais técnicas, relacionadas à arte

militar, e menor em Matemática e Ciência. Formar oficiais capazes de comandar homens em

batalha e não cientistas ou acadêmicos com postos militares era a nova diretriz, e o jovem

Patton adaptou-se bem à nova realidade acadêmica.

A sua turma começou com 148 homens, incluindo o futuro general Courtney Hodges, que

comandaria o 1o Exército dos Estados Unidos, no flanco do 3o Exército de Patton, na Segunda

Guerra Mundial, e outros tantos futuros oficiais graduados que lutariam nesse conflito. Desde

aquela época, Patton demonstrava amplos conhecimentos e leituras de História. Alcançava

desempenho excelente nas matérias propriamente militares, mas apresentava tantas

dificuldades em Matemática que foi obrigado a repetir um ano. Foi nos anos de West Point

que ele descobriu a esgrima e o futebol americano, saindo-se muito bem no primeiro e

decepcionando no segundo. Não foi um cadete especialmente popular, pois exigia demais de

seus subordinados (como os calouros) e colegas. Sua conversa incessante sobre obter “glória”

em batalha o fazia ser visto como alguém bastante pitoresco.

Em termos acadêmicos gerais, suas notas e desempenho foram bons, mas não excepcionais.

No esporte e nas matérias militares, saiu-se muito melhor, mas dentro da média. Ele se formou

em 46o lugar entre cento e três graduados.Na sua ficha escolar, consta que seu comportamento

era impecável, com exceção de ocasionais reprimendas recebidas por coisas menores, mas

típicas de Patton, como o uso de palavras de baixo calão e gestos obscenos.

Ao mesmo tempo em que estudava na Academia, Patton também fazia o que jovens da sua

idade fazem, ou seja, namorar. Além de vários flertes, teve envolvimentos mais sérios com

duas jovens, Kate Fowler e Beatrice Banning Ayer, ambas herdeiras de grandes fortunas. Em

cartas à família, ele reconhecia explicitamente a importância de um bom casamento para a

ascensão na carreira militar e afirmava que seria mais lógico o matrimônio com Kate Fowler,

muito mais rica do que Beatrice Ayer.

Nesse caso, no entanto, os sentimentos predominaram sobre a lógica e ele esposou a segunda

em maio de 1910, seguindo em lua de mel para a Europa. Curiosamente, para um homem que

mais tarde ganharia fama combatendo os alemães, o navio que levou o casal para o velho

continente era o Deutschland (Alemanha). Em Londres, Patton comprou um exemplar do

famoso livro do teórico alemão da guerra, Von Clausewitz, Sobre a guerra. Leu a obra com

tamanho interesse que sua jovem esposa parece ter se incomodado.

UM JOVEM OFICIAL

Ao sair de West Point, Patton devia optar por uma arma. A decisão não foi difícil. Ele não

tinha notas e nem aptidão suficientes para a engenharia e não apreciava a artilharia, pois

ficava longe demais da linha de frente, do “furor da batalha”. Restavam então a infantaria e a

cavalaria. Para um excelente cavaleiro como ele, a segunda pareceu ser a escolha mais lógica.

Assim, Patton tornou-se oficial de cavalaria em 1909, fazendo finalmente parte de um Exército

que, na época, não tinha mais do que oitenta mil homens em armas, menos do que quase todos

os países europeus.

Patton foi designado segundo-tenente da Companhia K do 15o Regimento de Cavalaria,

instalado em Fort Sheridan, Illinois, e apresentou-se a ela em 12 de setembro de 1909. Numa

guarnição isolada e longe de problemas, os primeiros tempos de vida como jovem oficial se

revelaram tediosos. Ele ansiava por uma guerra que o fizesse ascender rápido na hierarquia

militar para finalmente conquistar uma posição de destaque. Porém, suas tarefas cotidianas

eram banais; incluíam supervisionar a prisão da guarnição, disciplinar os recrutas (o que fazia

com especial rigor), cuidar dos cavalos e comparecer a bailes e demais atividades sociais na

vizinha Chicago.

Em dezembro de 1911, graças às conexões políticas do pai, Patton conseguiu ser transferido

para outro regimento de cavalaria, instalado em Fort Myer, Virgínia. Situado nas

proximidades de Washington, pareceu-lhe o lugar ideal para conhecer pessoas e se aproximar

de políticos e militares capazes de impulsionar a sua carreira. Patton, então, filiou-se ao

Metropolitan Club (clube frequentado pela elite de Washington) e fez tudo o que pôde para ser

notado pela elite política e militar do país.

Em 1912, para sua sorte, foi escolhido para representar os EUA na prova de pentatlo

moderno (hipismo, tiro ao alvo, natação, esgrima e corrida) nos Jogos Olímpicos de

Estocolmo. Terminou em quinto na competição e seu desempenho foi considerado muito bom.

Depois dos jogos, em licença, Patton decidiu dedicar algum tempo ao aperfeiçoamento de seus

dotes de esgrima e passou duas semanas tendo aulas com Monsieur Cléry, o instrutor-chefe de

esgrima da Escola de Cavalaria do Exército francês em Saumur.

Voltando aos Estados Unidos como uma celebridade, Patton conseguiu estreitar relações

com pessoas influentes, como o general Leonard Wood, chefe do estado-maior do exército, e o

secretário da Guerra, Henry L. Stimson. No decorrer dos anos, este último se revelaria um

amigo fiel, que sempre o apoiaria na vida profissional.

Ao mesmo tempo em que fazia os contatos certos, Patton também conseguia ser notado por

outros talentos. Em dezembro de 1912, provisoriamente transferido para o escritório do

comandante do estado-maior do exército, começou a projetar e aperfeiçoar um novo sabre

para a cavalaria e acabou reconhecido como um especialista nessa área, tendo escrito vários

artigos sobre o tema para diversas publicações do Exército.

Em junho de 1913, Patton foi transferido para Fort Riley, Kansas, onde deveria se

apresentar em outubro. Nos meses de intervalo, foi autorizado a voltar para a França para se

aperfeiçoar em esgrima, de forma a poder repartir seus conhecimentos, posteriormente, com o

resto do Exército americano.

Em Fort Riley, no verão de 1914, um episódio demonstrou com clareza a visão de mundo do

jovem oficial e a absoluta primazia do Exército dentro dela. Um soldado negro foi acusado de

estuprar uma jovem branca e houve rumores de que a população local pretendia linchá-lo. Na

ocasião, Patton deixou claro que acreditava que os negros eram especialmente dispostos a

esse tipo de barbaridade e que ele era particularmente favorável a uma punição, porém não

permitiria que um homem em uniforme do Exército sofresse a indignidade de ser linchado. Um

membro do Exército tinha, para Patton, um status especial, mesmo que fosse um simples

recruta. O soldado, portanto, foi salvo do linchamento. Mais tarde, sua inocência seria

comprovada.

Ainda no Kansas, Patton observou com vivo interesse a crescente tensão entre as nações

europeias e, por fim, a eclosão da guerra em 1914. Para alguém que desejava ardentemente

mostrar seu valor em combate e ascender na escala militar usufruindo da oportunidade dos

tempos de guerra, a política do presidente Woodrow Wilson, que mantinha os Estados Unidos

longe da guerra europeia, era fonte de imensa frustração e raiva.

Entretanto, pouco tempo depois, Patton teve a chance de sentir a emoção do combate, num

local que, provavelmente, ele não havia imaginado: o México, para onde seria enviado em

1916.

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COM PERSHING NO MÉXICO (1916)

A expedição do Exército dos Estados Unidos ao México nesse ano é um evento pouco

conhecido fora desses dois países. Desde a eclosão da Revolução Mexicana, em 1912, o

México vivia um caos geral, pois bandos armados circulavam pelo território mexicano,

combatendo uns aos outros e saqueando a população. Bandos armados e rebeldes mexicanos

cruzavam continuamente a fronteira entre Estados Unidos e México, fazendo com que o

governo do presidente Woodrow Wilson interviesse em vários momentos nesse conflito.

Wilson ordenou, por exemplo, a ocupação do porto de Veracruz em abril de 1914. Em março

de 1916, uns dos líderes rebeldes mexicanos, Pancho Villa, atacou uma pequena cidade

americana (Columbus, Novo México), matando 17 pessoas. Imediatamente, para responder à

opinião pública, o presidente Wilson ordenou o envio de uma expedição, com duas brigadas

de cavalaria e uma de infantaria, ao país para capturar Villa e dar um fim às incursões ao

território americano.

Library of Congress, EUA, 1913.

O general Pershing, à direita, com oficiais mexicanos em Fort Bliss, 1913. Patton está logo

atrás dele.

Patton, em 1915, havia sido transferido para o 8o Regimento de Cavalaria, em Fort Bliss, El

Paso, Texas, bem na fronteira mexicana. Nos primeiros tempos, suas atividades ali eram

bastante rotineiras, incluindo estudos para sua promoção a primeiro-tenente, instrução de

tropas e encontros sociais. Ali também conheceu o general John J. Pershing, comandante de

Fort Bliss. O general Pershing seria o comandante da expedição americana na fronteira sul,

assim, não espanta a presença de Patton na campanha de Pershing contra Pancho Villa.

Já em 16 de março, Patton atravessou a fronteira junto com a expedição, que foi, porém, um

completo fracasso. Villa conhecia bem melhor o terreno e, além disso, o norte do México era

uma área imensa e cheia de potenciais esconderijos. Os soldados americanos se

movimentavam sem cessar atrás do seu alvo, mas não conseguiam atingi-lo.

George Patton irritou-se com a dificuldade em capturar Villa, mas revelou-se pouco

impressionado pelo México ou pelos mexicanos. Ao contrário, os considerou um povo

extremamente atrasado e de padrões morais questionáveis.

Apesar do fracasso da expedição, Patton conseguiu dois trunfos. Em primeiro lugar, como

membro da equipe de Pershing, teve seu nome divulgado em toda a imprensa americana. E, em

segundo, viu finalmente um pouco de ação, como sempre havia desejado. No começo de maio,

foi autorizado por Pershing a tentar capturar Julio Cárdenas, auxiliar de Pancho Villa. Patton,

então, cavalgou, junto com seus soldados, até a fazenda de Cárdenas, em San Miguelito.

Cárdenas, alertado pela poeira dos cavalos, escapou; seu tio, sua esposa e seu filho recém-

nascido foram capturados pela tropa do jovem oficial. Na ocasião, Patton deixou aflorar seu

lado mais selvagem e usou de tortura para extrair informações do tio do rebelde, sufocando-o

várias vezes antes de conseguir o que queria. Esse episódio lamentável parece não tê-lo

abalado.

Em 14 de maio de 1916, o jovem oficial vivenciou, pela primeira vez em sua vida, o

combate. Antes que caminhões começassem a trazer suprimentos do território americano, a

expedição tinha que viver do terreno e, todos os dias, um oficial era designado para a compra

de cereais e outros produtos nas fazendas próximas. Nesse dia, o encarregado era Patton, que

saiu do acampamento com uma tropa e três veículos. Ao chegar a uma propriedade chamada

San Miguelito, eles se depararam com três mexicanos a cavalo que começaram a atirar contra

os americanos.

Na troca de tiros que se seguiu, dois mexicanos foram mortos e o terceiro, que era

justamente Julio Cárdenas, tentou fugir, mesmo estando com o braço direito ferido por um

disparo do revólver de Patton. Atingido outras vezes, Cárdenas acabou morto no local. Seu

corpo, junto com o dos outros dois, foi então levado pela tropa para ser exibido a Pershing.

Esse foi o primeiro combate na história do Exército dos Estados Unidos no qual os soldados

tinham chegado a campo em veículos motorizados, e haviam vencido.

Muito mais tarde, Patton gostava de recordar que foi a partir desse momento que decidiu

usar dois revólveres. Durante a troca de tiros com Cárdenas e seus homens, Patton teve que

parar várias vezes para recarregar seu revólver de seis tiros e quase foi morto por conta

disso. Assim, desde então, ele preferia andar com dois revólveres, sempre com cabos de

marfim e suas iniciais gravadas, o que, além de lhe dar mais segurança, projetava uma imagem

mais glamorosa.

Promovido a primeiro-tenente em maio, Patton continuou a liderar patrulhas contra membros

do grupo de Pancho Villa até seu retorno aos EUA, em 10 de outubro de 1916, em licença

médica após uma queimadura causada por um lampião defeituoso.

Nesse meio tempo, seu pai apresentou-se como candidato ao Senado dos Estados Unidos

pelo partido Democrata, na Califórnia. George, Jr. decidiu ajudá-lo tanto com a venda de

algumas ações para pagar as despesas, como participando dos comícios. Com uma bandagem

na cabeça por causa da queimadura, o jovem tenente se tornou muito popular, contribuindo

bastante nos comícios do pai. Não obstante, este não conseguiu a vaga que ambicionava no

Senado.

Patton retornou ao México em meados de novembro. Pershing tinha perdido as esperanças

de capturar Pancho Villa, que havia fugido para o sul, e a expedição havia se tornado,

claramente, algo sem sentido. Sem nada para fazer até seu retorno definitivo ao território

americano em fins de janeiro de 1917, Patton utilizou o tempo livre para refletir e escrever

sobre o papel da cavalaria na guerra moderna. Em artigos que produziu então, ele argumentava

que a cavalaria tinha que ser agressiva, servindo não apenas na tarefa de reconhecimento,

colaborando com a força principal de infantaria, mas também na desestabilização do inimigo

em ataques de profundidade e sempre em movimento. Tais reflexões seriam aplicadas pouco

tempo depois, trocando cavalos por tanques, nos campos de batalha da França.

OS ESTADOS UNIDOS E A PRIMEIRA GUERRA

MUNDIAL (1917-1918)

A entrada norte-americana na Primeira Guerra Mundial foi um processo demorado, para

desespero de pessoas como George Patton, Jr., que realmente a desejavam. A maior parte da

população dos Estados Unidos não queria se envolver no conflito e mesmo os interessados

estavam divididos entre os pró-Potências Centrais (Áustria-Hungria, Alemanha, Império

Turco-otomano e Bulgária) e os pró-Aliados (França, Inglaterra, Itália, Rússia, entre outros).

O governo de Washington, por sua vez, tinha fortes vínculos com a França e a Inglaterra e não

via com bons olhos uma possível vitória alemã na guerra, pois significaria a conquista da

Europa pela Alemanha e o surgimento de uma superpotência rival. Mas não tinha como

enfrentar a hostilidade popular frente à ideia de os Estados Unidos participarem do conflito.

Apenas em 1917, com a campanha submarina irrestrita desenvolvida pelos alemães (a qual

afetou fortemente os interesses comerciais norte-americanos no oceano Atlântico) e a

divulgação de uma suposta oferta alemã de uma aliança ao México numa guerra com os EUA,

que indignou o país, a opinião pública começou a aceitar a ideia de participar da guerra. Em

19 de março de 1917, com o afundamento do navio mercante Vigilantia , não havia mais como

sustentar o isolamento e, em dois de abril, os Estados Unidos declararam guerra às Potências

Centrais.

Os imensos recursos navais, financeiros, industriais e agrícolas dos Estados Unidos tiveram

que ser lançados na luta. Entretanto, o Exército dos Estados Unidos, nesse momento, era muito

pequeno – 107.641 homens – para alterar o rumo da guerra na Europa. Na verdade, o Exército

americano não tinha condições de enviar uma grande expedição ao exterior, e suas poucas

tropas só serviam para combater rebeldes nas Filipinas (então colônia americana) ou

perseguir bandos armados no México, como havia feito a expedição de Pershing.

Para modificar isso, Washington ordenou a mobilização do grande capital humano norte-

americano, o que produziu, juntamente com os recursos econômicos, um bom número de

divisões que seguiria para a Europa. Realmente, a capacidade dos americanos em criar uma

força militar imensa quase do nada foi impressionante. Vinte e quatro milhões de homens

foram registrados e 2,8 milhões recrutados, o que, junto com a mobilização da Guarda

Nacional e outras armas, elevou os efetivos das forças armadas para quatro milhões. Essa

imensa reserva de homens descansados começou a ser transportada para a Europa. Trezentos

mil soldados norte-americanos chegaram à França em março de 1918 e 1,3 milhão em agosto.

Mesmo assim, a base inicial a partir do qual se formou a Força Expedicionária dos Estados

Unidos era tão exígua, em termos de equipamentos e oficiais treinados, que fez com que os

americanos tivessem que contar com a boa vontade de franceses e ingleses. Boa parte do

material utilizado pelos soldados que chegavam à Europa em 1918 (como tanques e outros

equipamentos) era de origem francesa ou britânica, já que o tempo não tinha bastado para

fabricá-los nos Estados Unidos.

Essa constatação nos permite compreender, inclusive, como a participação dos Estados

Unidos nas duas guerras mundiais, apesar de decisiva nos dois casos, teve um caráter

diferente em cada uma. De fato, quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra

Mundial, em 1941, eles jogaram, como veremos a seguir, todo o peso dos seus recursos

industriais e militares no conflito e colaboraram decisivamente para a derrota do Eixo. Em

1917-1918, a chegada da Força Expedicionária Americana ao continente europeu e a

mobilização dos seus recursos econômicos e navais também foi fundamental, mas

principalmente pelo momento em que se deu e seus efeitos morais, aumentando a vontade de

lutar dos esgotados Aliados e diminuindo a dos alemães.

Realmente, quando os soldados norte-americanos começaram a desembarcar na Europa, os

Exércitos e as economias dos Estados envolvidos no conflito estavam no limite. A

participação norte-americana representou uma transfusão de sangue novo num organismo

prestes a entrar em colapso.

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PATTON E OS CAMPOS DE BATALHA DA FRANÇA

A vivência de Patton no continente europeu nesses anos só pode ser compreendida com esse

pano de fundo. Promovido a capitão em maio de 1917, ele fez o que pôde para ser incluído na

primeira unidade que seguiria para a Europa. Para a sua sorte, o comandante dessa unidade (e

de toda a Força Expedicionária Americana) seria o general John Pershing, com o qual

mantinha um relacionamento estreito desde a experiência comum no México (e também pelo

fato de o general estar flertando com a irmã de Patton naquele momento). Assim, não foi

difícil para Patton conseguir ser incorporado à unidade de Pershing.

Em 28 de maio, Patton e outros membros do Estado-Maior da Força Expedicionária

partiram de Nova York no HMS Baltic, com destino a Liverpool. Fluente em francês, ele

aproveitou o tempo para passar algumas noções básicas a colegas oficiais e também aos

soldados. Oito dias depois, os americanos chegaram ao território britânico e seguiram para

Londres, onde foram festivamente recebidos pelos exaustos britânicos, e, em seguida, para a

França.

Com a esmagadora maioria das tropas ainda em seleção e treinamento nos EUA, oficiais

como Patton tinham pouco a fazer. Na Europa, ele participava de eventos sociais, fazia visitas

a tropas e oficiais britânicos e franceses, entre outras atividades distantes do calor da batalha.

Pôde, entretanto, sentir o gosto da guerra moderna, ao ver aviões alemães bombardeando

unidades aliadas e sendo recebidos por fogo de metralhadoras e canhões antiaéreos ou ao

observar o efeito dos bombardeios de artilharia nos campos e nos soldados feridos.

Library of Congress, EUA, 1914.

As trincheiras. Pesadelo da Primeira Guerra Mundial.

Chateado por não poder agir imediatamente, Patton pensava em pedir transferência para

outra unidade ou se tornar instrutor de baionetas. Foi nessa época que ele ouviu, pela primeira

vez, a palavra “tanques”, designação de uma nova arma que mudaria o curso da guerra no

século XX e a carreira do jovem capitão. Vale a pena, pela importância dessa invenção na sua

vida e no seu ofício, compreender um pouco melhor o que ela significou para a história da

guerra.

Num certo sentido, a Primeira Guerra Mundial representou, em termos militares, o encontro

do velho e do novo. Ao mesmo tempo em que cavalos e mulas ainda formavam parte

substancial do sistema logístico dos exércitos, transportando armas e suprimentos, a velha

cavalaria revelou-se inútil.Pombos-correios ainda eram utilizados para as comunicações, ao

mesmo tempo em que o rádio e o telégrafo também eram largamente empregados. Lança-

chamas, minas e submarinos foram desenvolvidos e melhorados, mas ainda se confiava muito

nos encouraçados e nos dirigíveis.

Na verdade, o grande problema militar desse conflito era o rompimento das linhas inimigas.

Num primeiro momento, todos acreditavam que o conflito seria uma guerra de movimento de

curta duração, como indicam os planos como o Schlieffen alemão e o XVII francês, todos

prevendo uma incursão rápida e violenta em território inimigo.

Com o fracasso desses planos, o esgotamento das tropas e o equilíbrio de forças, abriu-se

uma nova fase na guerra. Ambos os lados já haviam percebido que, ao enfrentar um adversário

que tivesse tido tempo de construir obstáculos e preparar linhas de defesa, os ataques de

infantaria se tornavam custosos e quase impossíveis. Assim, quando ficou claro que o

movimento havia terminado, ambos os lados procuraram se proteger abrindo trincheiras e

formando uma linha contínua de defesa que, com o tempo, se estendeu do mar do Norte até a

Suíça.

Os soldados aliados e os das Potências Centrais construíram, assim, centenas de

quilômetros de trincheiras, repletas de arame farpado e outros obstáculos. As redes de

trincheiras variavam enormemente, em termos de profundidade, densidade, número de tropas

que as guarneciam e estrutura defensiva. Franceses, alemães e britânicos também tinham

concepções diferentes de como utilizar as trincheiras na luta contra o inimigo. Os alemães, por

exemplo, acreditavam numa primeira linha de defesa extremamente forte e a ser retomada

imediatamente se perdida. Já os franceses acreditavam numa primeira linha mais fraca, a ser

abandonada em caso de ataque do inimigo, e em pontos fortificados mais atrás. Enfim,

conforme o terreno, a disponibilidade de tropas e a doutrina operacional de cada Exército, o

sistema de trincheiras variava.

Guerra de trincheiras

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Mesmo assim, alguns traços básicos podem ser identificados. As trincheiras se dividiam em

várias linhas, separadas por alguns quilômetros e, nelas, afundada na terra, ficava a infantaria,

pronta a repelir os avanços inimigos a tiros de fuzil e granadas. A artilharia, na retaguarda,

também podia dirigir o fogo mortal de canhões e morteiros sobre quaisquer atacantes. Ninhos

de metralhadoras, nas trincheiras e entre elas, completavam o sistema defensivo.

Nesse cenário, a ofensiva se tornou difícil. O padrão clássico de qualquer ofensiva militar,

naquele momento, implicava romper a frente inimiga, utilizando a combinação infantaria-

artilharia. Quaisquer defesas, nesse raciocínio, cederiam frente a massas de soldados

previamente treinados no serviço militar, equipados com rifles e apoiados por canhões. Feito

isso, seria possível explorar o ataque e envolver a resistência por trás, superando a barreira

das trincheiras e obstáculos construídos pelo inimigo.

O problema é que, com o uso de novas tecnologias e a substancial melhoria da rede de

trincheiras, tal estratégia se revelou falha. Para que o assalto da infantaria pudesse dar certo,

era preciso esmagar a resistência dos soldados inimigos através de uso maciço da artilharia (o

que incluía, a partir de certo momento, o emprego de projéteis com gases venenosos) e abrir,

então, uma brecha na rede de arame farpado.

Mas, com as trincheiras cada vez mais fundas e protegidas e a instalação de ninhos de

metralhadoras e abrigos de concreto em vários locais, destruir completamente o inimigo com

uma chuva de projéteis de artilharia se tornou impossível.Normalmente, os soldados que

sobreviviam eram suficientes para, utilizando metralhadoras e outros sistemas de tiro rápido,

massacrar as fileiras de atacantes.

Mesmo quando, a um custo imenso, o atacante conseguia romper a primeira linha de

trincheiras do inimigo, o ataque não era mais surpresa e o atacado já tinha tido tempo de

providenciar reforços, artilharia e suprimentos para defender a segunda linha e, se necessário,

construir outra, mesmo que improvisada, mais atrás. Enfim, se, na arte da guerra, há sempre

um pêndulo entre momentos em que a tecnologia favorece a ofensiva e outros a defesa, a

Primeira Guerra foi claramente do segundo tipo.

Mesmo com esse quadro, por vários anos, entre 1915 e 1917, os esta-dos-maiores de ambos

os lados, interessados na ruptura da linha inimiga e incapazes de deixar de lado a doutrina que

haviam aprendido nas academias militares nos anos anteriores, lançaram grandes ofensivas,

que falharam uma após outra, levando a um impasse, na Frente Ocidental. E um impasse

sangrento, pois, naqueles anos, todas as ofensivas se revelavam extremamente custosas em

termos de vidas humanas.

Em 1915, houve ofensivas alemãs em Ypres e dos Aliados em Artois e em Champagne,

resultando em centenas de milhares de mortes. As maiores e mais sangrentas operações

ocorreram, porém, em 1916. A primeira delas foi dirigida contra a fortaleza francesa de

Verdun. O plano do general alemão Erich von Falkenhayn era obrigar os franceses a saírem

em defesa da praça-forte e destruí-los em uma grande e decisiva batalha, usando

especialmente a artilharia. Como prenúncio disso, em fevereiro de 1916, iniciou o ataque com

bombardeios de artilharia que foi dos mais violentos da guerra. Na ocasião, as trincheiras

francesas se dissolveram e milhares de franceses morreram. No entanto, as tropas do general

Petáin foram capazes de aguentar. Reforços foram enviados e, após seis meses de combate

contínuo, nos quais somente o Exército francês disparou cerca de 14 milhões de projéteis de

artilharia, quase um milhão de soldados franceses e alemães estava ferido ou morto sem que

houvesse ganho real para nenhum dos Exércitos.

Num esforço para desviar os recursos dos alemães, os britânicos também atacaram em julho

de 1916, na região do Somme. O comandante inglês, general Douglas Haig, também

imaginava, da mesma forma que o comandante alemão em Verdun, que o simples poder dos

seus canhões seria suficiente para levar à vitória. Assim, apenas na primeira semana do

ataque, 1,5 milhão de projéteis de artilharia caíram sobre as trincheiras alemãs. Para os

ingleses, tratava-se apenas, agora, de ocupar o terreno. Porém, embora os soldados

germânicos tivessem, é certo, sofrido grandes perdas (milhares pereceram), os sobreviventes

(em maior número que os mortos), que estavam escondidos em abrigos subterrâneos, puderam

reagir. Quando os ingleses avançaram para as trincheiras inimigas, foram recebidos por um

dilúvio de fogo de canhões, metralhadoras e fuzis. Em algumas unidades inglesas, nenhum

soldado sobreviveu. Só no primeiro dia do ataque da infantaria, sessenta mil britânicos foram

feridos ou mortos. Foi o dia mais sangrento da história do Exército britânico.

Após cinco meses, o Exército inglês tinha conquistado apenas 12 km de terra ensanguentada,

ao custo de mais de um milhão de mortos entre britânicos, franceses e alemães. Outras

ofensivas desse tipo se repetiram durante a guerra. “Como sair desse banho de sangue?”

tornou-se uma questão fundamental.

Depois do impulso inicial e da constatação de que a barreira das trincheiras era

inexpugnável, abriu-se efetivamente o problema de deixar esse impasse e voltar à guerra de

movimento em busca da definição do conflito. Inúmeras alternativas e técnicas foram pensadas

para dar conta desse problema, influenciando profundamente a maneira de fazer a guerra não

apenas naquele momento, mas por todo o século XX e ainda hoje.

Os italianos e os alemães, por exemplo, conceberam a ideia de tropas especiais, de assalto.

Pequenas unidades, muito bem treinadas e armadas, que deveriam atacar os ninhos de

metralhadora e as posições do inimigo a partir de uma infiltração disfarçada e inesperada. Os

generais alemães Bruchmuller e von Hutier foram especialmente hábeis em explorar a

infiltração e o uso flexível da artilharia na luta contra o Exército russo. Foi uma técnica bem-

sucedida até certo ponto, mas, pela própria densidade da rede de trincheiras na Frente

Ocidental e a escala envolvida, revelou-se uma solução sem potencial para decidir a guerra.

Os alemães também foram pioneiros na guerra química, tendo utilizado o gás cloro contra os

soldados inimigos em Ypres, Bélgica, em 22 de abril de 1915. Os Aliados imediatamente

responderam e, assim, gases tóxicos como mostarda e cloro foram largamente utilizados por

ambos os lados. Entre 1915 e 1918, mais de cem mil toneladas de gás venenoso foram

utilizadas, matando noventa mil homens e ferindo mais de um milhão. Mas a guerra química

não chegou a ser uma arma decisiva, pois logo foram criadas máscaras e outros mecanismos

de proteção.

A grande inovação, contudo, veio do lado britânico. Os militares britânicos conceberam a

ideia de veículos armados dotados de couraça e lagarta que os permitia atravessar a lama e os

obstáculos das trincheiras sem serem destruídos (a não ser pelo tiro direto de canhões) e com

capacidade de atirar de volta. Chamados de carros de combate pelos militares, eles acabaram

por receber o apelido de “tanques”, devido ao fato de lembrarem os tanques de metal que

eram utilizados para transportar água.

Os oficiais britânicos foram apresentados ao carro de combate em 1915 e sua estreia em

ação ocorreu em setembro de 1916. A ideia atraiu os franceses, que construíram o maior

número de unidades durante o conflito, ou seja, mais de quatro mil. Já os alemães não levaram

a sério as possibilidades dos blindados e construíram apenas uns poucos, experimentais.

De qualquer modo, no início, os carros de combate foram utilizados de maneira isolada e

apenas como apoio à infantaria, o que limitava a sua mobilidade e eficácia. O seu potencial

total só foi percebido quase no final da guerra, em dezembro de 1917, quando uma investida

de tanques britânicos, atuando em massa, rompeu as linhas alemãs em Cambrai. Também

foram usados em Amiens, na ofensiva aliada de agosto de 1918. Em 1919, os Aliados

planejaram o uso maciço de tanques para uma ofensiva geral contra a Alemanha, no entanto, a

guerra acabou antes que isso pudesse acontecer. Apenas em 1939-1941 o verdadeiro potencial

da guerra blindada seria revelado, ironicamente, como veremos depois, pelo Exército alemão.

Signal Corps Photograph Collection, EUA, 1918.

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Patton ao lado de um tanque Renault francês. França, 1918.

Na Primeira Guerra, os tanques só foram utilizados de forma eficiente quando o conflito já

estava quase decidido. Naquele momento, foi desperdiçada, pois seria uma arma capaz de

romper o impasse das trincheiras. Isso ocorreu por conta dos limites técnicos dos primeiros

protótipos, mas, acima de tudo, pela incapacidade da grande maioria dos militares em

perceber a potencialidade dos novos inventos.

Patton não poderia ser incluído, com certeza, entre eles. Enquanto muitos generais

acreditavam que os tanques só pudessem servir para facilitar a penetração da infantaria, por

vias tradicionais, nas linhas inimigas ou, ainda, para abrir uma brecha a ser explorada pela

cavalaria, Patton já antevia as possibilidades revolucionárias do novo armamento como forma

de golpear decisivamente o inimigo em ataques profundos e mortíferos.

O jovem capitão não havia vivenciado a guerra das trincheiras, tendo chegado à França num

outro momento, quando a guerra voltava a ser móvel. Não obstante, ele foi capaz de perceber

que algum sistema tinha que ser encontrado para evitar a perda inútil (sem nenhum ganho

militar) de vidas nas trincheiras e recuperar a mobilidade que era a essência do seu estilo de

pensar a guerra.

Claro que ele não podia, naquele momento, ter suficiente clareza do que representaria a

arma blindada na guerra e, especialmente, nas guerras do futuro. Tanto que, num primeiro

momento, o fator principal que o motivou a se transferir para o novo corpo, o dos blindados,

foi a possibilidade de ascensão em termos de carreira militar numa arma totalmente nova,

diferente da infantaria ou da artilharia.

Mas sua experiência no México já o levara a reconhecer o mérito da velocidade e da

surpresa, e os tanques lhe pareceram ser a quintessência disso. Não é de espantar que, logo

que Patton se decidiu pela arma blindada, seus progressos com ela tenham sido rápidos e

substanciais.

Já em novembro, ele se inscreveu no centro de treinamento em tanques leves do Exército

francês em Compiègne. Lá, durante um curso de duas semanas, aprendeu o básico sobre as

novas máquinas, dirigiu um modelo Renault e começou a compreender os mistérios e os

desafios da nova arma. Em dezembro, visitou a fábrica da Renault em Paris, quando já foi

capaz de fazer várias sugestões técnicas, as quais foram aceitas pelos franceses.

Na mesma época em que Patton estudava em Compiègne, o Exército britânico realizava o já

mencionado ataque a Cambrai: 378 tanques Mark IV atacaram um setor da linha principal de

defesa alemã, avançando, em poucas horas, quatro milhas, mais do que os ataques maciços de

infantaria tinham conseguido em quatro meses. Mais da metade dos veículos foram perdidos

nesse meio tempo e ficou claro como o seu uso tinha que ser aperfeiçoado. Contudo, o

potencial da arma ficou demonstrado e num momento muito propício para Patton, que agora

estava na posição de ser um dos criadores do corpo de tanques do Exército dos Estados

Unidos.

O jovem capitão esperava ser nomeado comandante do novo corpo de tanques do Exército

dos EUA, mas o posto foi atribuído ao coronel Samuel D. Rockenbach. Em janeiro de 1918, foi

promovido a major (tenente-coronel em março do ano seguinte) e assumiu o posto de chefe do

destacamento de tanques leves, deixando o estado-maior de Pershing.

A formação da nova unidade foi lenta e cheia de dificuldades. Os soldados voluntários, que

haviam vindo de outras armas, tinham que ser treinados no novo equipamento e nas novas

técnicas; porém, os primeiros tanques Renault só chegaram em março.

As táticas empregadas eram simples: pelotões de tanques pesados liderando o ataque, com

outros de tanques leves vindos atrás e a infantaria ao final, com unidades reservadas para

enfrentar contra-ataques e explorar brechas. Porém, demorou para que fosse formado o

primeiro batalhão, e apenas em junho surgiu um segundo, permitindo a criação de uma

brigada, a 304a.

Na mesma época, Patton frequentou mais um curso para oficiais de Estado-Maior e lá

defendeu ideias revolucionárias para o uso dos tanques, como raids (rápidas incursões ao

território inimigo) noturnos de pequenos pelotões, substituição total das barragens de

artilharia tradicionalmente utilizadas para abrir caminho à infantaria pelos tanques, entre

outras sugestões.

Em setembro, o corpo de tanques foi convocado para participar do ataque contra o saliente

de Saint-Mihiel, um bolsão de 25 milhas de largura e 15 de profundidade nas linhas aliadas.

Para o assalto, a brigada contava com 144 tanques Renault franceses. O Exército francês

forneceu também dois grupos de tanques de apoio.

Em 12 de setembro, os tanques e a infantaria americanos atacaram as trincheiras alemãs,

enfrentando tanto a resistência germânica como a chuva e a lama. Muitos quebraram ou

ficaram impossibilitados de prosseguir por conta das dificuldades do terreno e da falta de

combustível. Mesmo assim, o corpo blindado conseguiu, com poucas perdas, apoiar o avanço

da infantaria. Nisso tudo, Patton esteve sempre na linha de frente, contrariando as ordens que

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diziam que oficiais superiores deviam ficar na retaguarda.

Poucos dias depois, a brigada de Patton recebeu ordens de apoiar a 28a e a 35a divisões do

Primeiro Exército americano num ataque na região do Meuse-Argonne, contra a linha

Hindenburg, defesa principal dos alemães na Frente Ocidental. Procurando resolver os

problemas identificados no ataque anterior, ele fez com que seus tanques carregassem

combustível extra e, seguindo a sugestão de um soldado, criou unidades de mecânicos que

acompanhavam os blindados na linha de frente, providenciando reparos menores quando

necessário e recolocando os tanques rapidamente em condição de combate.

O avanço final dos Aliados na Frente Ocidental entre agosto e novembro de 1918 e os

ataques das forças americanas.

Em 26 de setembro, o ataque foi lançado. Toda a participação de Patton, na verdade, não

levou mais do que um dia. Às 5h30 da manhã, a infantaria havia marchado para frente em meio

à neblina e fumaça. Uma hora depois, Patton e alguns soldados seguiram para a linha de frente

e encontraram cinco de seus tanques parados, por serem incapazes de atravessar algumas

trincheiras alemãs, bloqueadas por um tanque danificado. Sob pesada artilharia alemã, Patton,

então, dirigiu as operações para superar esse obstáculo e logo os veículos subiram a colina,

na direção dos alemães.

Animado, Patton liderou uma força de cerca de 150 homens na mesma direção, mas esta foi

recebida por pesado fogo alemão. A maioria dos americanos recuou, mas Patton e alguns

soldados seguiram em frente, sendo quase todos abatidos pelas metralhadoras germânicas, até

que apenas o próprio Patton e o soldado Joseph T. Angelo restassem em pé.

Continuando a avançar, Patton foi atingido por uma bala que atravessou sua perna esquerda

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e parte do quadril. O soldado Angelo levou o tenente-coronel para um buraco e ficou com ele

mais de uma hora, até que os tanques eliminaram as metralhadoras alemãs e Patton pôde ser

removido para um hospital de campo. Lá, ele recebeu a notícia da sua promoção a coronel e,

em pouco tempo, recuperou-se dos ferimentos.

Em 11 de novembro de 1918, o Armistício foi assinado e as armas pararam de atirar em

todo o continente europeu. A 304a havia lutado por quase dois meses e, dos seus 55 oficiais, 3

haviam sido mortos e outros 18 feridos, incluindo Patton. Da sua tropa de 757 soldados, por

sua vez, 16 haviam sido mortos em ação e outros 118 feridos. Apesar de ter passado

relativamente pouco tempo na linha de frente e de ter tido baixas ínfimas em comparação à

maioria das unidades de infantaria dos Exércitos francês, britânico ou alemão (muitas das

quais tinham visto anos de ação e renovação completa dos efetivos, por baixas, várias vezes),

o então coronel de 33 anos pôde orgulhar-se de sua ação e da participação de sua brigada no

conflito.

Entre o final de 1918 e 1919, os soldados da Força Expedicionária Americana foram

embarcando de volta para casa. Ao contrário do que aconteceria depois de 1945, os Estados

Unidos não tinham a intenção de manter um exército de ocupação na Alemanha ou instalado no

continente europeu. Agora que a derrota de Berlim estava garantida, a ordem era reembarcar

os doughboys (termo com o qual eram designados os soldados americanos na Europa naquele

conflito) assim que possível. Enquanto esperava sua vez de voltar, Patton se preocupava com

questões pessoais, como seu desejo de receber condecorações (como a Distinguished Service

Medal, que foi concedida a ele em 4 de dezembro) e seu futuro em tempos de paz. Agora que a

guerra havia terminado, o Exército haveria de ter, inevitavelmente, seu efetivo diminuído.

Finalmente, após receber permissão pessoal de Pershing, Patton foi autorizado a viajar para

os Estados Unidos juntamente com a sua brigada. Em 2 de março de 1919, embarcou em

Marselha e chegou a Nova York 15 dias depois. O coronel e seus homens receberam

entusiástica acolhida por parte do público e dos jornais locais. Patton estava em casa.

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UM GUERREIRO À ESPERA DO SEU

MOMENTO (1919-1942)

A carreira de Patton entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da Segunda não foi

nada excepcional. Em julho de 1920, ele (que havia retornado ao posto de capitão logo após o

fim da guerra) foi promovido a major e voltou a Fort Myer e ao 3o Regimento de Cavalaria.

Em 1923, frequentou a Escola Avançada de Cavalaria no Kansas e um curso de Estado-Maior

em Fort Leavensworth. Após breve estadia em Boston, foi designado para o Havaí, onde

chegou em março de 1925, sendo incorporado à divisão local do Exército, cuja função central

era proteger a ilha de uma possível invasão japonesa. Sem muito para fazer, dedicou-se aos

esportes competitivos que apreciava, como o polo, e continuou a ser aquele oficial

extremamente rigoroso com seus subordinados e causador de atritos com seus colegas.

Em 1928, Patton retornou ao continente e, em 1931, foi escolhido para estudar no Army War

College (AWC), a mais graduada escola do Exército, voltando logo depois ao seu regimento de

cavalaria em Fort Myer. Em 1934, foi promovido a tenente-coronel e no ano seguinte voltou

ao Havaí. Em 1937, retornou ao Kansas e, em 1938, promovido a coronel, comandou o 5o

Regimento de Cavalaria, em Fort Clark, Texas. Porém, no mesmo ano, foi novamente

designado para atuar no Kansas.

Nesses anos, além da sua dedicação aos esportes, aos cavalos e à leitura, ele teve que se

posicionar, às vezes por escrito, frente a várias questões que marcavam a instituição militar da

qual ele fazia parte, como a mecanização das tropas, o papel da cavalaria e a própria posição

dos líderes e oficiais no comando dos soldados. Também teve que lidar com os assuntos de

uma época crescentemente politizada e socialmente agitada, além, é claro de seus próprios

sonhos ligados à carreira militar.

A DEFESA DA ARMA BLINDADA (1919-1920)

Pouco depois da sua chegada aos EUA, Patton já demonstrava, em cartas e documentos

pessoais, o quanto sentia falta da excitação do combate, do barulho das explosões e do ruído

das metralhadoras. Para um homem que se sentia mais vivo do que nunca liderando soldados

em combate e enfrentando a morte, nada poderia ser pior do que a paz. Ele ansiava por uma

nova oportunidade de ser guerreiro.

Tal oportunidade, contudo, demoraria a chegar e, naquele momento, o que lhe restava era

continuar sua carreira no Exército. Já no início dos anos 1920, conheceu outro jovem oficial

cujo nome seria muito famoso nas décadas a seguir, o futuro comandante em chefe das Forças

Aliadas na Europa e presidente dos EUA, o então coronel Dwight D. Einsenhower.

Os dois coronéis tinham muitas coisas em comum. Ambos voltaram ao grau de capitão em

1920, perdendo a promoção temporária da época da guerra. Ambos também apreciavam

equitação e a prática do tiro e questionavam com severidade o sentimento antiguerra que

varria os Estados Unidos naquele momento e que levava o Congresso a planejar intensos

cortes no orçamento militar. E, mais do que tudo, ambos eram fervorosos advogados da guerra

blindada num Exército em que as vantagens dos tanques ainda não eram plenamente

reconhecidas.

A experiência dos tanques na Primeira Guerra Mundial havia indicado a imensa

potencialidade deles, mas não a ponto de gerar uma adesão consensual de todos os militares à

guerra blindada. Não espanta, na verdade, que a disputa entre defensores e opositores dos

tanques e blindados como instrumentos de guerra ainda estivesse tão intensa, e não apenas nos

Estados Unidos, naqueles anos. De fato, tendo entrado em ação apenas no final do conflito,

com claras limitações técnicas e de doutrina e com resultados limitados, a arma blindada não

podia se vangloriar de ter decidido a guerra ou de ter colaborado decisivamente para a

derrota da Alemanha, como podiam fazer a infantaria ou a artilharia. Isso levou muitos oficiais

a pensarem que os tanques eram algo superado ou secundário.

Nesse debate, Patton e Eisenhower eram aliados. Ambos os oficiais fizeram estudos e

testaram as técnicas e a teoria da guerra blindada tanto intelectual-mente como em campo. Ao

mesmo tempo, defenderam as suas ideias em várias revistas militares, como a Infantry

Journal, na qual, em 1920, publicaram artigos em favor da autonomia da arma blindada e do

maior investimento no seu desenvolvimento.

Mesmo com esses esforços, o Congresso reduziu, em 1919, o efetivo do Corpo de Tanques

para apenas 154 oficiais e 2.508 soldados. Nesse ano, Patton tinha, sob seu comando, centenas

de tanques leves Renault, mas com efetivo suficiente para formar uma única companhia. Em

1920, a situação piorou, o Congresso transferiu o corpo de tanques de volta para a infantaria,

eliminando a sua autonomia.

Essa derrota provisória dos defensores dos tanques, contudo, não foi o resultado de um

simples debate intelectual baseado em argumentos técnicos. Como em qualquer outra

instituição, os Exércitos também estão permanentemente divididos pelo corporativismo, pela

tendência e desejo de garantir a maior parte dos recursos para o seu grupo. Ainda mais num

momento de cortes generalizados de orçamento, cada arma – cavalaria, infantaria, artilharia,

engenharia e outras – tentava defender a sua existência e seus recursos, em detrimento das

demais. Dessa forma, o debate sobre a guerra do futuro também implicava uma surda luta por

prestígio, poder e recursos dentro da instituição militar e, nessa disputa, os jovens oficiais

defensores de uma arma inovadora tiveram menos cacife frente a outras, ao menos nesse início

da década de 1920.

ENTRE TANQUES E CAVALOS: PATTON NAS DÉCADAS

DE 1920 E 1930

Com o fim do corpo independente de tanques, George Patton, promovido a major, percebeu

que não teria futuro como oficial da infantaria e solicitou transferência para a sua velha

paixão, a cavalaria. Em setembro de 1920, retornou a Fort Myer e ao 3o Regimento de

Cavalaria. Lá, exerceu as atividades esperadas de um oficial em tempo de paz – treinamento,

manutenção do equipamento e atividades sociais de relações públicas. Com tempo de sobra,

dedicou-se a jogar polo e lidar com cavalos.

Mas também continuou a escrever sobre o tema da guerra blindada e sobre as lições a serem

tiradas da última guerra. Curiosamente, para alguém que hoje é visto como um visionário da

guerra blindada e mecanizada, suas ideias, naqueles anos, eram conservadoras ou, o que é

mais preciso, combinavam uma visão contemporânea da guerra com uma mais romântica, do

passado.

Ele continuava a crer no valor das cargas de infantaria com baioneta e no da cavalaria como

armas fundamentais em futuros conflitos. Em 1922, por exemplo, publicou um artigo no qual

comentava as ações da cavalaria britânica na guerra do deserto em 1917 e 1918 e defendia o

valor das cargas de cavalaria e dos sabres nos conflitos modernos. Nesse cenário, os cavalos

ainda teriam um papel fundamental e nem de longe poderiam ser substituídos por máquinas.

No máximo, cavalos e tanques poderiam trabalhar em conjunto e se apoiar mutuamente,

complementando-se.

Em outros textos publicados nos anos seguintes, ele manteve a mesma linha de pensamento,

opondo-se aos defensores da mais completa possível mecanização do Exército e à ideia de

que os tanques e aviões tinham tornado a cavalaria obsoleta, como propunham os analistas

britânicos Fuller e Liddel-Hart ou os seus colegas oficiais Bradford Chynoweth e Gilbert

Cook, entre outros.

Vale a pena recordar que, nesse momento, o debate sobre o uso dos tanques e blindados na

guerra foi talvez o mais importante na maioria dos grandes Exércitos do mundo, todos tentando

avaliar da melhor maneira as lições da Primeira Guerra Mundial e definir o uso dos tanques

nas guerras do futuro.

Ingleses e franceses foram os que mais refletiram a respeito. A França, que havia utilizado,

na Primeira Guerra, seus tanques como arma de apoio à infantaria, manteve essa tradição, e o

pensamento dominante no Exército era de que os veículos blindados deviam ser lentos e

pesados, espalhados pelos batalhões a pé, de forma a dar um apoio consistente ao avanço dos

infantes. Ainda que derrotado, um firme opositor dessa ideia e defensor do uso concentrado e

em profundidade dos tanques foi o coronel Charles de Gaulle, futuro líder da França Livre.

Na Inglaterra, o pensamento relativo à guerra blindada também refletiu a experiência

britânica no conflito de 1914-1918, na qual os tanques haviam sido utilizados de forma muito

menos conservadora que pelos franceses. Homens como Liddel-Hart e Fuller, já mencionados,

foram os expoentes da chamada “corrente britânica”, que tendia a ver na arma blindada a

substituta da cavalaria. Fuller acreditava nas vantagens de uma força formada cem por cento

por tanques, enquanto Liddel-Hart defendia o uso de tanques leves e eficientes, apoiados por

infantaria, engenharia e artilharia também móveis, os quais exerceriam a antiga função da

cavalaria de atacar as linhas de comunicação e suprimento do inimigo. Em 1927, o Exército

britânico autorizou a formação de uma força experimental para testar essas teorias. Formada

por 48 tanques pesados, vários tanques leves e blindados para reconhecimento, um batalhão

motorizado de metralhadoras, um regimento de artilharia mecanizada e uma companhia

motorizada de engenharia, essa força experimental era inteiramente móvel e independente. Em

manobras concretas, ela demonstrou sua superioridade sobre as forças convencionais. Provou

também que a visão de Liddel-Hart a respeito do uso combinado de tanques com outras armas,

todas motorizadas, era a mais promissora.

No entanto, a força experimental foi dissolvida em 1929, em boa medida pela resistência do

grosso do Exército em aceitar novas ideias. Além disso, algumas das falhas identificadas nas

manobras, como a incapacidade por parte da infantaria embarcada em caminhões de

acompanhar os tanques com esteiras, indicavam soluções muito caras para o orçamento do

Exército naquele momento, como a criação de veículos de transporte de infantaria com

esteiras. Como resultado, durante os anos 1930, o Exército britânico manteve brigadas de

tanques e unidades de infantaria motorizada nas quais os tanques também estavam presentes,

mas sem a coordenação necessária. Com essa deficiência de coordenação, mostraram-se

muito inferiores às unidades blindadas alemãs.

Na União Soviética, igualmente, a questão dos tanques era fundamental, pois, juntamente

com os aviões, os tanques eram vistos como chave para o fortalecimento militar nacional. No

final da década de 1930, quase 25 mil tanques estavam em operação no Exército da União

Soviética. A indústria soviética também produzia dez mil aviões por ano para a Força Aérea.

Faltavam, contudo, homens treinados para tripular todos os tanques disponíveis e vários deles

tinham problemas técnicos. O pior é que faltava uma doutrina militar clara de como utilizar

todos esses aviões e tanques. Os expurgos de Stalin no corpo de oficiais, a partir de 1937,

movidos por sua desconfiança de tudo e todos que pudessem ameaçar seu poder, pioraram

ainda mais a situação, sobretudo porque atingiram especialmente os oficiais mais brilhantes,

como Tukachevski, entusiastas da guerra em profundidade e do uso maciço de tanques. Isso

deixou o Exército nas mãos de homens, na sua maioria, de competência duvidosa. O resultado

foi o desmantelamento dos corpos blindados que estavam sendo criados nos moldes alemães e

a distribuição dos tanques pelas divisões de infantaria, com consequências desastrosas quando

da necessidade de enfrentar as divisões blindadas alemãs a partir de 1941.

Foi na Alemanha que a questão dos tanques atingiu refinamentos especiais, com a criação da

doutrina conhecida como Blitzkrieg: uma força de infantaria motorizada, artilharia e

blindados, com apoio de aviões, trabalhando num sistema de armas combinadas. A ideia era

concentrar poder de fogo num ponto específico da linha inimiga e, após o seu rompimento,

penetrar decisivamente pelo seu flanco, desestabilizando-o sem parar e impedindo-o de