Patton – O Herói Polemico Da Segunda Guerra por João Fábio Bertonha - Versão HTML

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refazer suas linhas. Um método eficiente e econômico, em termos de baixas, de derrotar o

inimigo, que usufruía dos avanços tecnológicos posteriores a 1918 e deveria ser capaz de

impedir a repetição da guerra de trincheiras.

Essa doutrina alemã (ou uma ideia geral que permeou o Exército, já que ela nunca foi

sistematizada e oficializada e há imenso debate, entre os historiadores militares, sobre a sua

origem, evolução e real adoção pelo Exército alemão) tinha origens, como visto, em teóricos

alemães e estrangeiros. Ela se aproveitava das técnicas alemãs de infiltração e penetração

profunda de forças de infantaria nas linhas inimigas desenvolvidas já durante a Primeira

Guerra. Além disso, resultou do fato de a Alemanha ser privada de um grande Exército pelos

Aliados depois de 1918, o que deixava seus militares mais abertos a experimentos técnicos e

doutrinários que pudessem compensar a inferioridade numérica.

De qualquer forma, retornando ao nosso biografado, fica claro como as defesas de Patton

relativas aos cavalos e aos sabres eram as de um major de cavalaria e não do coronel do

corpo de tanques que ele havia sido anos antes. Nesse ponto, vemos claramente que, para além

da reflexão intelectual de um militar e seu posicionamento frente a um dos debates mais vivos

da época em todos os quartéis, havia o corporativismo característico de Patton. Ele valorizava

a arma a qual estava ligado (assim como havia defendido o corpo de tanques enquanto fazia

parte dele), por conta do medo de perder prestígio e possibilidades de ascensão se a “sua”

cavalaria perdesse importância.

Por outro lado, é fato que ele acreditava que havia um excesso de confiança, no Exército,

sobre as vantagens da mecanização. Patton tinha ojeriza à ideia de que as guerras eram

vencidas pelas máquinas e pela superioridade tecnológica. Para ele, eram os homens e a força

de vontade que levavam à vitória, e não os instrumentos. Seu raciocínio, em boa medida, se

baseava na análise histórica e na premissa de que toda inovação tecnológica trazia,

inevitavelmente, uma resposta, a qual anulava suas vantagens, permanecendo, como princípios

decisivos da guerra a coragem e a determinação.

Esse raciocínio era compartilhado por outras pessoas naquele momento, como o general

Hans von Seeckt, comandante das Forças Armadas alemãs, que também valorizava o espírito

de luta e a coragem em detrimento da tecnologia e cujo livro Patton leu e incorporou.

Além disso, Patton valorizava o Exército profissional em detrimento das grandes massas de

recrutas. Acreditava no “espírito de luta” e no guerreiro enquanto profissional e não no

simples “cidadão em armas”. No seu trabalho de conclusão de curso apresentado ao Army

War College em 1932, ele utilizou conhecimentos de história para argumentar que exércitos

profissionais (como o macedônio ou o romano antigo) foram capazes de derrotar forças muito

mais numerosas, mas pouco treinadas e motivadas, já que contavam com habilidade técnica e

dedicação. Recordando o exemplo da guerra de 1914-1918, argumentou que ela tinha sido

uma exceção, motivada pela criação de novas armas que tinham levado à paralisia nas

trincheiras e à necessidade de mobilizar milhões de civis. Para ele, o próximo conflito

voltaria ao padrão “normal” da história, com pequenos exércitos profissionais móveis.

Claro que, com o olhar de hoje, é fácil saber que Patton estava errado e que, menos de uma

década depois, grandes exércitos de recrutas, com milhões de homens, se enfrentariam em

campo. Patton, aliás, seria justamente o comandante de um desses exércitos. Mas, naquele

momento, suas conclusões eram, em essência, um palpite ilustrado pelos seus conhecimentos

de História Militar, e tão válidos como qualquer outro. Eles indicam, de qualquer forma,

como o intelectual Patton avaliava a questão da guerra na época.

A visão da guerra de Patton baseava-se, igualmente, em uma maneira muito pessoal de

encarar a vida e a existência. Foi moldada, como apontam a maioria de seus biógrafos, pela

crença de Patton na “reencarnação da alma” (ainda que ele fosse membro da Igreja Episcopal)

e em suas “vidas passadas”, sempre como um soldado. Em vários dos numerosos poemas e

contos que ele escreveu nessa época e escreveria ao longo da sua vida, Patton imaginava-se

como um soldado que morria em combate: um soldado grego lutando contra o rei Ciro, um

legionário romano, um inglês no Exército que derrotou os franceses em Crécy em 1346, um

cavaleiro nas forças de Napoleão, um guerreiro viking etc.

A certeza de que estava destinado a ser, como havia sido em suas outras vidas, um herói, um

guerreiro que, ao final, morria gloriosamente em combate, marcou também a sua forma de se

comportar como militar. Ele não conseguia se imaginar como um oficial que simplesmente

fazia seu trabalho, seguindo as normas burocráticas, e nem como um mero condutor de

máquinas, um técnico que deveria atingir um propósito através de um meio.

Na mente de Patton, fazer a guerra não era nada disso. Era, sim, uma busca da glória, da

excitação e da mesma morte gloriosa que ele já havia tido inúmeras vezes e que teria ainda em

vidas futuras. Não espanta, pois, que, enquanto estava no Havaí, por exemplo, ele sonhasse

com uma guerra contra o Japão, a China, a Rússia ou novamente a Alemanha. Pouco importava

o inimigo. O importante era ter um rival com o qual se medir em batalha.

Do mesmo modo, para ele, a ideia de derrotar o inimigo facilmente pela superioridade

tecnológica era quase um sacrilégio. Garantir a vitória pela supe-rioridade material era

correto, mas não a ponto de tornar os soldados dependentes e sem espírito de luta. Patton

alimentava, assim, uma visão quase romântica da guerra, ao mesmo tempo em que assimilava,

aos poucos, a sua face mais moderna.

Num artigo publicado em 1931 no Cavalry Journal e intitulado “Success in War”, essa sua

visão aparece nítida. Nesse texto, Patton conclui que conhecimento, planejamento ou

treinamento não são o mais importante para a vitória. Superioridade tecnológica também não.

O fundamental é o comandante – um comandante que não seja um ser isolado dos seus

comandados, que só sabe transmitir ordens e mensagens, mas uma presença viva, uma

personalidade forte, uma “alma de guerreiro” capaz de motivar os homens para o combate e,

se necessário, o sacrifício. Mais importante ainda, ele argumenta, é que essa presença forte

pode ser adquirida e treinada, como fazem os atores. A partir daí, compreende-se o seu

esforço em criar, por toda a vida, uma imagem particular, com suas pistolas chamativas de

marfim, suas estudadas poses marciais, suas botas rigorosamente polidas e seus discursos

obscenos e vulgares diante das tropas, emitidos mesmo com sua voz muito aguda e pouco

imponente.

Patton, que acreditava ter uma alma imortal de um guerreiro, a refinaria para levar seus

homens ao sucesso e ele próprio ao panteão dos grandes militares da História. Isso não

significa, contudo, que ele fosse uma espécie de lunático, pronto a simplesmente desembainhar

sua espada contra qualquer inimigo que aparecesse. Não apenas Patton fazia parte da cadeia

de comando das Forças Armadas dos EUA (e sabia que atos ostensivos de rebeldia levariam

ao fim da sua carreira), como tinha ideias políticas, talvez não intelectualmente

desenvolvidas, mas sedimentadas o suficiente para fazer dele um oficial extremamente

conservador e polêmico.

UM OFICIAL CONSERVADOR

No período entreguerras tendo dinheiro e tempo à disposição, George, Jr. e sua esposa

transitavam nas altas esferas sociais e políticas de Washington, formando alianças e

cultivando relações. Já nessa época, Patton expressava algumas de suas opiniões polêmicas,

manifestando aversão ao movimento operário, aos socialistas e à política em geral e

imaginando que apenas o Exército poderia restaurar uma ordem pública ameaçada. Tais

opiniões eram muito mais conservadoras, aliás, do que seria esperado, dada a influência do

seu pai, um progressista que sempre havia desconfiado dos muito ricos e do poder do

dinheiro.

Como Patton raramente se preocupava com questões públicas, a não ser na medida em que

afetassem sua carreira e o Exército, fica difícil saber exatamente como ele formou sua

consciência política. Em parte, seu conservadorismo veio da sua origem social. Ele era,

afinal, apesar de ter muito menos dinheiro do que a esposa, um homem razoavelmente rico,

tendo herdado ações e outros papéis que lhe rendiam muito mais do que seu salário de oficial.

Com isso, podia manter cavalos particulares de corrida e de polo, ter um automóvel e outros

luxos inimagináveis para um oficial que tivesse que viver apenas do seu trabalho. Mas não

parece ter sido esse o fator principal no seu conservadorismo.

Efetivamente, há sinais de que a maior influência nesse sentido veio da família da esposa,

especialmente do cunhado Charles Fanning Ayer e de pessoas próximas a este. Charles havia

dirigido uma das fábricas da família Ayer, a American Woolen Company, durante a Grande

Greve de 1912, quando seus operários – especialmente judeus e italianos – protestaram contra

os baixos salários e as condições de moradia. Desde então, Charles Fanning Ayer manifestou

uma quase fobia contra sindicatos, socialistas e qualquer forma de socialismo. Tais opiniões

parecem ter sido passadas a Patton, que, sem tempo nem interesse por refinar o seu

pensamento político, absorveu-as em grande parte e passou a repeti-las em declarações feitas

ao longo dos anos.

Em cartas e documentos privados dessa época, por exemplo, Patton manifestava ideias que,

se tornadas públicas, horrorizariam os defensores da República e da democracia. Em escritos

dirigidos à esposa, ele expressava sua esperança secreta de que houvesse uma grande guerra e

que, como resultado dela, pela força ou pelo voto, ele se tornaria um novo Napoleão. Patton

também não apreciava a política progressista do presidente Roosevelt e nem o próprio,

considerando-o muito condescendente para com as escalas inferiores da sociedade.

Nos seus discursos públicos, como o que fez na sede da American Legion, na Virgínia, em

1932, ele era mais cuidadoso na escolha das palavras, mas, mesmo assim, expressava imenso

desdém pelos pacifistas e por tudo o que consi-derasse progressista.

Com isso, Patton era alguém passível de ser classificado como sendo da direita mais

reacionária. Nos anos 1930, caso tivesse optado por uma carreira política e não militar,

poderia também ter tido sucesso. Afinal, num mundo em que as soluções autoritárias estavam

em ascensão, e a América, depois da Crise de 1929, empobrecia, suas posições contra a paz e

os pacifistas e sua defesa da ordem e da autoridade a qualquer custo poderiam ter tido algum

eco. Para completar, provavelmente, seu lado ator teria feito dele um orador capaz de cativar

as massas. Porém, a estabilidade da democracia americana, a liderança marcante de Franklin

Delano Roosevelt e o próprio fato de Patton fazer parte do Exército (que impedia a atividade

política dos seus membros) preveniram, contudo, um risco para a República americana que

poderia, quem sabe, ter se tornado sério.

Ainda que Patton nunca tenha se engajado em alguma atividade política antissemita, ele

nutria e manifestava um forte preconceito contra os judeus. Acreditava também que cada grupo

étnico tinha características próprias e que a “raça branca”, em linhas gerais, era superior,

sendo a “anglo-saxã” superior a todas. Essa era uma visão comum a quase todos os

americanos brancos de origem anglo-saxã naquele momento e que ele matizava, contudo, com

suas visões guerreiras, pois completava que os homens brancos oriundos do Sul dos Estados

Unidos eram superiores aos outros em termos marciais.

Os japoneses, por exemplo, eram vistos por ele como um povo inferior e perigoso, mas, por

outro lado, Patton admirava os samurais como “verdadeiros guerreiros”. Quando da sua

segunda estada no Havaí, foi autor de um plano para lidar com os muitos residentes japoneses

locais em caso de guerra contra o Japão. Solicitado pelo departamento de guerra a redigir um

projeto contemplando essa eventualidade, Patton sugeriu a aplicação de uma lei marcial na

ilha, com confinamento de todos os japoneses (cidadãos americanos ou não) e atribuição de

todos os poderes locais a si próprio.

Ele não teve oportunidade de aplicar pessoalmente o seu plano, mas algo semelhante a suas

ideias seria implantado em 1941-1942, tanto no Havaí como na costa oeste dos EUA (para não

falar em outros locais, como o Canadá e o Brasil), removendo os japoneses para o interior

desértico. Uma indicação não apenas das posições conservadoras de Patton, como de que elas

estavam longe de ser isoladas ou fora de contexto naquele momento.

Patton parecia não entender o desespero dos pobres e dos desempregados numa América

que, a partir de 1929, estava em plena Grande Depressão. Postura compreensível para alguém

que havia nascido em berço de ouro e que, apesar de ser financeiramente afetado pela crise,

não podia nem imaginar como seria viver sem o mínimo necessário. Sua visão da política e do

conflito social e seu apoio a soluções de força ficam mais claros, contudo, quando dos

acontecimentos relacionados aos veteranos da Primeira Guerra em Washington em 1932.

Em maio, cerca de 17 mil ex-soldados marcharam sobre a capital pedindo o pagamento de

bônus e outros auxílios, sendo, num primeiro momento, recebidos e apaziguados pelo governo.

Patton se enfureceu com o que considerou um tratamento condescendente dado aos seus

próprios companheiros de armas.

Em 28 de julho, entretanto, um policial matou um veterano num conflito de rua e o presidente

Hoover ordenou a intervenção do Exército. Patton ficou feliz em participar. Sob o comando

geral do general Douglas MacArthur, as tropas do Exército limparam a cidade dos que

protestavam, resultando em ao menos um morto e dezenas de feridos. A unidade de cavalaria

comandada por Patton foi ativa participante no processo de “limpeza”, seus soldados

espancaram e feriram os veteranos, utilizando inclusive aquele sabre que Patton havia

desenhado em 1912. O próprio Patton desferiu muitos golpes, mas também foi ferido na

cabeça durante a ação.

Como oficial, ele, evidentemente, tinha que obedecer a ordens. Mas o acontecimento em si

revela muito sobre como Patton via os membros do seu amado Exército. Enquanto estavam em

uniforme prontos a dar a vida pela Pátria, mereciam alguma consideração. Depois, se

fizessem, como civis, qualquer reivindicação, se tornavam problema social a ser resolvido

com a força.

Outro sinal dessa maneira de pensar foi a sua recusa, documentada pelos jornais, em

encontrar o sargento Joseph Angelo, que, em 1918, tinha salvado a sua vida, resgatando-o

ferido do campo de batalha. Ele agora era participante ativo do grupo dos veteranos e, ao

pedir para ver o antigo comandante, foi solenemente ignorado.

Ao contrário de Eisenhower, Truscott e outros oficiais, que manifestavam ao menos alguma

simpatia pelas demandas dos veteranos, Patton demonstrou total insensibilidade e uma visão

clara de que pobres e soldados comuns tinham um lugar bem delimitado no seu mundo de

grandes generais e da alta sociedade.

UM GUERREIRO DE ALMA NOVA NUM NOVO

EXÉRCITO (1939-1942)

A trajetória de Patton, suas promoções e suas transferências pelo território americano

estavam aquém das típicas de um oficial naquele momento. Mesmo com todo o seu dinheiro e

conexões, Patton não estava sendo especialmente bem-sucedido. Vários dos seus colegas no

Army War College eram, em 1931, mais jovens ou tinham se graduado bem antes do que ele.

Além disso, a carreira escolhida não era tão promissora nos EUA naqueles anos, quando o

Exército era claramente inferior – em prestígio e recursos – à Marinha e tinha efetivos e

equipamentos bastante limitados. Os EUA consideravam-se seguros no seu continente,

protegidos por dois oceanos e pela sua relativamente poderosa Marinha. Não havia interesse

em alocar mais recursos para forças terrestres que muito provavelmente seriam utilizadas, no

máximo, para expedições punitivas no Caribe ou para guarnecer as Filipinas. Assim, para os

oficiais, as oportunidades de avanço profissional dentro desta arma pequena (280 mil homens

em 1920, 140 mil em 1922 e 189 mil em 1939) e pouco prestigiosa não eram grandes, mas as

de Patton pareciam ainda menores.

Um momento claro de crise para ele foi quando de sua volta ao Havaí, em 1935. Com quase

50 anos de idade, ele era ainda um tenente-coronel e não vislumbrava grandes perspectivas de

promoção rápida, especialmente devido ao tamanho minúsculo do Exército. Conseguir todo

sucesso que almejava, então, era um sonho muito distante e isso se refletiu claramente na sua

vida pessoal.

Foi naquele tempo, efetivamente, que seu casamento começou a ir mal e ele, segundo

algumas fontes, iniciou um relacionamento com uma amante décadas mais jovem. Seus hábitos

de beber em excesso, arrumar brigas e confusões e utilizar palavras obscenas (o que sempre

havia lhe trazido problemas) tornaram-se ainda mais pronunciados.

Ele também começou a procurar alternativas na carreira, e utilizou suas conexões políticas

para tentar transferências e promoções. Mas sua grande chance só viria com uma guerra

importante. E, felizmente para ele, Adolf Hitler começou o conflito ao invadir a Polônia em 1o

de setembro de 1939.

Nesse momento, a mecanização do Exército continuava a ser um dos temas mais discutidos

dentro de todos os grandes Exércitos do mundo, e o dos Estados Unidos não eram uma

exceção. Em 1939, oficiais como os generais Adna Chaffee e Daniel Van Voorhis defendiam,

após examinarem o exemplo do Exército alemão, a imediata transferência de todos os tanques

disponíveis no país para uma divisão blindada independente, mesmo que soldados e recursos

tivessem que ser subtraídos à cavalaria.

Do Kansas, Patton estava entre os oficiais que não aceitavam a perda de influência da

cavalaria e tentavam lutar pela sua manutenção. Em agosto de 1939, em manobras na região de

Manassas (na Virgínia), ele comandou sua cavalaria com imensa eficiência, utilizando-a para

flanquear a infantaria e espalhar o caos na retaguarda da tropa inimiga (americana, colocada

na oposição a ele nas manobras), o que poderia ter tido o potencial de reforçar os argumentos

favoráveis a ela.

No entanto, os acontecimentos internacionais acabaram por indicar claramente a força dos

tanques. Em apenas um mês, em 1939, o Exército alemão, utilizando a Blitzkrieg, destruiu as

forças armadas polonesas. Para ironia dos que ainda defendiam a importância da cavalaria,

foi justamente nessa campanha que aconteceu uma das últimas cargas de cavalaria da história,

dos poloneses contra os tanques alemães, com os resultados esperados, ou seja, a morte de

quase todos os primeiros, sem causar danos aos blindados alemães.

Uma manobra no Texas em outubro, quando a infantaria motorizada foi claramente capaz de

flanquear e capturar uma unidade equivalente de cavalaria, reforçou ainda mais os argumentos

dos que defendiam a aposentadoria definitiva dos cavalos. Nem todos os oficiais se

convenceram disso, mas Patton foi um deles, voltando-se definitivamente para os tanques.

Outro que se convenceu foi o general Marshall, que ordenou a execução de uma série de

grandes manobras de avaliação da nova realidade e do novo Exército que estava sendo

formado.

Em maio de 1940, na Louisiana, as manobras indicaram claramente a superioridade dos

blindados, que venceram as unidades a cavalo. Mesmo assim, havia resistências quanto ao seu

uso independente da infantaria e muitos oficiais consideravam perigoso que as colunas

blindadas se afastassem demasiado dos soldados a pé que as apoiavam. Mas os resistentes

estavam claramente perdendo a batalha para a nova realidade.

A campanha da França, entre maio e junho de 1940, também foi decisiva para a mudança de

mentalidade dos militares americanos. Quando os Exércitos de Hitler atacaram as forças

anglo-britânicas, o fizeram num ponto menos defendido da fronteira com a França e a Bélgica,

e com emprego maciço de tanques e aviões. Sob o comando de entusiastas da guerra blindada,

como os generais Erwin Rommel e Heinz Guderian, as forças alemãs quebraram as linhas de

defesa dos Aliados, espalhando o caos na sua retaguarda, e obrigaram a capitulação da França

e a fuga dos remanescentes dos Exércitos britânico e francês para a Inglaterra.

O mais impressionante, para os observadores militares, é que isso foi obtido mesmo quando

os Aliados dispunham de mais tanques (cerca de 4 mil diante de 2.200 alemães) e aviões,

normalmente melhores em termos técnicos, do que os nazistas. Além disso, o Exército alemão,

naquele momento, tinha menos veículos, em geral, do que o francês e sua base continuava a ser

formada por massas de infantaria que caminhavam para a linha de frente e eram abastecidas

por trens e cavalos. Apenas umas poucas divisões eram realmente motorizadas e as blindadas

eram a minoria absoluta. Mas eles utilizaram o pouco que tinham de maneira inovadora,

enquanto os Aliados continuaram a empregar os tanques de forma conservadora, dispersando-

os entre a infantaria, e isso foi fatal para as suas forças.

Claro que a campanha da França também revelou os limites do tipo de guerra feito pelos

alemães. Em primeiro lugar, em termos estritamente militares, demonstrou-se que as unidades

de tanques não podiam, efetivamente, se afastar em excesso de suas unidades de apoio, sob o

risco de serem isoladas e destruídas, como quase aconteceu com as unidades alemãs frente às

britânicas em alguns momentos. Ao mesmo tempo, os profundos golpes blindados só

conseguiam um resultado estratégico (obrigar o inimigo a se render) quando este já tinha

pouca vontade de lutar – como era o caso da França de 1940 – e em países territorialmente

não muito grandes. Em campanhas como, por exemplo, a da Rússia em 1941-45, os limites

táticos e estratégicos da Blitzkrieg ficaram mais claros.

Não obstante, a lição mais clara das campanhas alemãs em 1939 e 1940 era que a guerra

moderna implicava, sim, o uso concentrado de tanques, blindados, aviões e armas de apoio.

Todos os Exércitos começaram imediatamente a refazer suas doutrinas, e o dos EUA não foi

exceção. Em 10 de julho de 1940, finalmente, o general Adna R. Chaffee, um antigo defensor

da guerra blindada, recebeu o comando da recém-criada U.S. Armored Force e do Primeiro

Corpo Blindado. Pouco depois, Patton foi designado para comandar uma das brigadas da 2a

Divisão Blindada, recém-criada em Fort Benning (Columbus, Geórgia).

Essa era, ainda, uma brigada em formação, com 5.500 homens, 383 tanques e 202 carros

blindados. A maioria dos tanques estava armada com apenas uma metralhadora e tinha

blindagem leve, sendo adaptados para apoio à infantaria, mas não para as manobras de

rompimento da linha inimiga, como faziam as divisões Panzer alemãs. Seus soldados eram

civis recém-incorporados e com pouco treinamento. Mas era um bom começo, e Patton ficou

bem satisfeito com seu novo comando. Em 1o de outubro, finalmente, ele chegou ao

generalato, sendo promovido a brigadeiro-general. Logo, assumiu o comando de toda a

divisão.

Na Geórgia, Patton, que sempre havia sido um grande estudioso de assuntos relacionados a

tanques, mesmo quando defendia a validade do emprego de cavalos, ampliou, a partir de

então, suas leituras com livros e artigos escritos por oficiais alemães e traduzidos para o

inglês. Em uma palestra que fez em setembro de 1940, sua conversão final ao novo modelo de

guerra, somada à manutenção da sua crença no valor da liderança e do moral, ficou nítida.

Dirigindo-se aos oficiais da sua divisão, Patton reconheceu que o uso da moderna tecnologia e

de uma nova doutrina havia dado grandes vitórias aos alemães. Argumentou, porém, que

algumas das táticas, como a do envolvimento, eram antigas como a humanidade e que a

qualidade da liderança ainda era fundamental.

Em 1941, quando novas e imensas manobras foram organizadas pelo Exército americano, a

questão não era mais verificar se os tanques eram superiores aos cavalos ou se a infantaria

deveria ser apoiada pelos tanques ou o inverso, mas como refinar e resolver problemas de

uma nova doutrina que havia se imposto pela força dos fatos. Nessas manobras, a divisão de

Patton mostrou um grande potencial.

Em junho, no Tennessee, ele fez um discurso aos seus homens que ficaria famoso. Na

ocasião, ressaltou que os princípios fundamentais da sua divisão, em particular, e da guerra

blindada, em geral, eram “pegar o inimigo pelo nariz e golpeá-lo na retaguarda”. Golpear, se

movimentar, golpear novamente e continuar a se mover, não permitindo ao inimigo se

recuperar; eis a essência da guerra blindada para Patton.

Nas manobras de 1941, foi exatamente isso que sua divisão procurou fazer; porém, os

problemas e as dificuldades para colocar a teoria em prática ficaram evidentes. As tropas

demonstraram entusiasmo, mas também falta de expe-riência e problemas de coordenação.

Ficou claro, igualmente, que os tanques estavam longe de ser invulneráveis, podendo ser

destruídos com relativa facilidade pelos canhões antitanque. Conclusões semelhantes puderam

ser tiradas das batalhas entre britânicos e alemães, ocorridas no mesmo período, no norte da

África.

Nas manobras seguintes, na Louisiana, em agosto e setembro, houve todo um esforço, e não

só na divisão de Patton, para corrigir esses problemas e incorporar rapidamente as novas

lições que a guerra estava trazendo. Em novembro, as grandes manobras das Carolinas, as

quais envolveram quatrocentos mil soldados em uma área imensa, finalizaram a série.

Em alguns desses exercícios, a divisão de Patton esteve no lado perdedor, mas, em geral,

atuou com eficiência. A principal lição foi a necessidade de não deixar os tanques isolados,

mas fazê-los atuar em conjunto com as unidades de reconhecimento, a infantaria e a artilharia.

Nessas manobras, Patton também experimentou vários métodos de controle e comunicação

entre as tropas (como o uso de aviões para observação) e fez várias sugestões técnicas, que

foram incorporadas.

Contudo, outras de suas sugestões foram recusadas, como a adoção de um uniforme especial

para os tanquistas, feito de tecido verde, com um design moderno e capacete dourado. Era

prático, mas foi considerado tão ridículo que Patton foi apelidado, pelos jornais, de “O

Besouro Verde” (título de um então popular personagem de programas de rádio) ao aparecer

vestindo o protótipo. De qualquer modo, sendo elogiado ou criticado, a partir de então, Patton

passaria a estar sempre em evidência, nos jornais, sendo aos poucos notado pelo grande

público.

Mais importante, contudo, para a sua carreira foi o fato de ter sido finalmente notado por

membros dos escalões superiores, como o general Marshall, como alguém especialmente

audaz e dotado para um comando tático. Isso sim seria fundamental para a sua ascensão no

novo Exército em construção.

Nesse momento, efetivamente, as forças armadas dos EUA iniciavam um vigoroso programa

de expansão e reequipamento devido à crescente tensão internacional e à guerra na Europa.

Em 1940, pela primeira vez na história do país, foi instituído o recrutamento militar

obrigatório em tempos de paz e maciços programas de reequipamento foram implantados. Em

alguns setores, como o das munições, apenas nesse ano, o financiamento aprovado pelo

Congresso era igual à soma de tudo o investido nos vinte anos antes e tal soma seria

considerada pequena frente ao que viria depois. A imensa indústria americana começou a ser

mobilizada e, aos poucos, foi capaz de fornecer material em enorme quantidade aos militares.

Tal situação permitiu um fluxo contínuo de recrutas e material para o Exército (que incluía a

Força Aérea), a Marinha, os Fuzileiros Navais e a Guarda Costeira. Por fim, com a entrada do

país na Segunda Guerra Mundial depois do ataque japonês a Pearl Harbour, em fins de 1941,

as Forças Armadas se expandiram ainda mais velozmente e adquiriram dimensões

inimagináveis anos antes.

Efetivamente, enquanto o conjunto das Forças Armadas cresceu de 370 mil homens em 1939

para quase 12 milhões em 1945, apenas o Exército, que havia sido negligenciado num

primeiro momento, se desdobrou de uma força de menos de 200 mil soldados e oficiais para

1,5 milhão em 1941 e quase 8 milhões em 1945, ou seja, multiplicou-se por 40. Dentro do

Exército, foi fundamental a figura do general George Marshall, o qual conduziu, com

impecáveis dotes de organizador, a transformação de um Exército pequeno e relativamente

mal armado numa força imensa, capaz de invadir a Europa de Hitler e forçar a derrota do

Japão no Pacífico.

Marshall, aliás, foi o cérebro por trás de uma reorganização fundamental no Exército, que

não apenas cresceu muito e reformulou sua doutrina tática, mas foi reformado estruturalmente

em base triangular. Por esse esquema, três esquadras de doze homens eram reunidas em um

pelotão; três pelotões formavam uma companhia; três companhias formavam um batalhão e

assim por diante, passando por regimento, divisão, corpo, Exército e grupo de Exércitos. Um

sistema quase modular e voltado ao movimento e à rapidez, com uma unidade que atacava,

outra que procurava o flanco do inimigo e outra que esperava a oportunidade para atuar.

Com a total motorização, essas unidades podiam se mover dez vezes mais rápido que a

Força Expedicionária americana na Primeira Guerra e tinham um poder de fogo muito superior

ao de suas congêneres de vinte anos antes. Vencer pelo poder de fogo, pela mobilidade e pela

superioridade material, eis a nova filosofia do Exército. Nesse contexto, não espanta que um

homem como Patton tenha chamado a atenção dos superiores.

Dentro da nova realidade, as perspectivas dos oficiais já nas fileiras se tornaram

imensamente promissoras, e alguns conseguiram avanços de quatro ou cinco posições na

hierarquia no espaço de poucos anos. Eisenhower, por exemplo, ascendeu de coronel a

general de cinco estrelas em apenas três anos, e muitos outros repetiram esse caminho.

Patton, que já havia revelado todos os seus dotes de tático nas manobras de 1940 e 1941,

chamou a atenção não apenas do seu velho amigo Eisenhower, mas também do general

Marshall. Para completar a sua boa fase, seu velho amigo Henry Stimsom tinha assumido o

posto de secretário da guerra, o que deu a Patton uma retaguarda política de primeiro nível.

Assim, ele começou a ascender rapidamente tanto na hierarquia como na ocupação de postos

de importância.

No início de 1942, por exemplo, ele foi convocado pelo Departamento da Guerra para

formar um centro de treinamento de guerra no deserto no sudoeste dos EUA e para lá foi

transferido, juntamente com a sua divisão e outras tropas. Lá, Patton treinou os soldados com

imenso rigor e nas condições terríveis da região, exigindo disciplina estrita e enorme

dedicação.

Em junho de 1942, acontecimentos em outro deserto alteraram a vida do general Patton.

Tropas alemãs, comandadas pelo famoso general Erwin Rommel, derrotaram os britânicos em

Tobruk e se aproximaram do Egito. Ao mesmo tempo, Eisenhower, promovido a tenente-

general, foi enviado a Londres como comandante geral do Teatro de Operações europeu.

Esses dois acontecimentos acabaram conduzindo Patton a sua nova missão: ajudar a preparar

a invasão do norte da África francês (Marrocos e Argélia) pelos Aliados.

Chegando a Londres em agosto, Patton começou imediatamente a trabalhar nessa tarefa. As

dificuldades eram imensas, pois os desembarques se dariam a grandes distâncias das bases,

com unidades pouco treinadas em desembarque anfíbio e frente a tropas bem mais

experimentadas, as alemãs. Patton, segundo os registros e documentos de época, imaginava

superar as dificuldades, bem no seu estilo, graças a sua liderança incomum e capacidade de

motivar as tropas.

Há registros, inclusive, de discursos seus nos quais dizia às tropas que elas deviam estuprar

as mulheres dos inimigos, matá-los, pilhar suas cidades e atirar os “fdp” ao mar. Igualmente,

muitos testemunhos mencionam que, na época, ele dizia repetidamente que preferia não voltar

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a retornar derrotado, o que lhe parecia a escolha – vitória ou morte – digna de um guerreiro.

Se ele realmente acreditava em tudo isso é questionável, mas manifestar essas ideias aos

quatro ventos fazia claramente parte de sua forma de liderar.

Em 23 de outubro de 1942, Patton embarcou no cruzador Augusta, no porto de Hampton

Roads. Estava no comando de uma das forças de ataque e seu destino era a África. Finalmente,

após tantos anos sonhando com o comando de homens em combate real, ele seguia para a

guerra.

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A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL:

ÁFRICA, SICÍLIA E OVERLORD

OPERAÇÃO TORCH: ARGÉLIA E MARROCOS

Desde a invasão da URSS pelas tropas de Hitler em 22 de junho de 1941, os soviéticos eram

os que enfrentavam a maior parte das forças aéreas e terrestres do Terceiro Reich e seus

companheiros do Eixo, totalizando cerca de 160 divisões alemãs, com outras 40 fornecidas

por seus aliados finlandeses, romenos, italianos, húngaros e outros. No total, contando as

forças de apoio mais as aéreas, lutavam entre três e quatro milhões de homens, os quais

representavam o grosso dos efetivos militares totais do Eixo.

Os Aliados ocidentais, nesse período, mantinham uma campanha de bombardeio aéreo

contra a Alemanha e travavam batalhas contra os submarinos e a frota de superfície alemã. A

única frente de batalha terrestre era o norte da África, onde, desde 1940, ingleses e italianos

disputavam o controle do Egito e da Líbia, então colônias. Com as contínuas derrotas dos mal

armados italianos, tropas alemãs foram enviadas para tentar resolver a questão. Era o famoso

Afrikakorps, comandado por um dos mais brilhantes generais alemães, Erwin Rommel, ao

qual se opunha o 8o Exército britânico, comandado, na sua fase final, pelo general Bernard

Montgomery.

Os combates nos desertos da Líbia e do Egito tornaram famosos esses dois generais e foram

imortalizados em muitos filmes e livros, mas representavam, em comparação com as lutas

imensas na frente russa, algo muito pequeno. Stalin, por isso mesmo, não cansava de pedir a

Churchill e Roosevelt a abertura imediata de uma nova frente de batalha para desviar recursos

alemães da União Soviética. O seu desejo maior era um desembarque em massa de soldados

anglo-americanos na França, sendo que os Estados Unidos também acreditavam que essa

abordagem direta seria o melhor. Isso, contudo, era inviável em curto prazo, dada a

necessidade de acumular imensos recursos, na Inglaterra, antes do ataque.

Para atender à demanda soviética e garantir seus próprios interesses geopolíticos no

Mediterrâneo, os britânicos sugeriram um desembarque americano muito menor no norte da

África francês. O objetivo inicial era facilitar a expulsão dos alemães e italianos da África e

derrotar o Afrikakorps (a ser atacado pelos dois lados, do ocidente e do oriente). Com isso,

os Aliados conseguiriam melhorar o controle naval do Mediterrâneo e, por fim, aumentar a

pressão sobre a Itália e o sul da Europa, com a possibilidade, inclusive, de novas operações

posteriores nessa região. Os americanos, mesmo não concordando completamente com a

abordagem britânica, acabaram por aceitar participar da operação que foi batizada de Torch.

O inimigo a ser combatido não era nem os fascistas de Mussolini, nem os alemães, mas os

franceses. Desde 1940, com a derrota da França, um governo aliado ao nazismo havia se

instalado no país – o Governo de Vichy – e as colônias francesas do norte da África (Argélia,

Tunísia e Marrocos) obedeciam a ele. Ali, os franceses contavam com cerca de 130 mil

soldados, algumas centenas de tanques obsoletos e outro tanto de aviões, alguns dos quais em

condições de enfrentar os anglo-americanos. Havia também várias unidades navais e

submarinos, que poderiam ser um problema para a invasão.

Os Aliados, contudo, não acreditavam que os franceses iriam lutar. Isso porque boa parte

dos oficiais e soldados franceses seguia com relutância a política de aliança com os inimigos

alemães e acreditava-se que um pouco de pressão política e militar seria capaz de fazê-los

cooperar em vez de resistir. Até por isso, os soldados britânicos e americanos receberam

ordens de só atirar em resposta, e foi feito todo um esforço, digno de filmes de espionagem,

para contatar clandestinamente os comandantes franceses e garantir o máximo de apoio

possível antes dos desembarques.

Operação Torch. A invasão do norte da África – novembro de 1942.

Em linhas gerais, a operação se compunha de três grandes forças navais, cada uma das quais

deveria desembarcar em uma região-chave. A Eastern Task Force e a Center Task Force

seriam dirigidas à Argélia e, mais especificamente, aos portos mediterrâneos de Argel e Oran,

com posterior avanço para a Tunísia. A Western Task Force, por sua vez, se dirigiria à costa

atlântica do Marrocos, visando à conquista de Casablanca e outros portos secundários. No

total, estavam envolvidos cerca de oitenta mil soldados, na maioria americanos. A Western