Pelo Curdistão vol 5 por Karl May - Versão HTML

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KARL MAY

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CURDISTÃO

BRAVIO

VOL. V

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KARL MAY

PELO CURDISTÃO

BRAVIO

VOL. V

Tradução de

Armando Gomes Ferreira

Ilustrações de

Marcos Romanowski

Digitação e Revisão

Arlindo_San

e

Lorna Íris

EDITORA GLOBO

3

RIO DE JANEIRO — PORTO ALEGRE — SÃO PAULO

4

Título do original alemão:

DURCHS WILD KURDISTAN

ESTA OBRA FOI REEDITADA

MEDIANTE FINANCIAMENTO CONCEDIDO

PELO

BANCO LAR BRASILEIRO S. A.

1966

DIREITOS EXCLUSIVOS DE TRADUÇÃO, EM LÍNGUA PORTUGUESA, DA

EDITORA GLOBO S. A. - PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL

ESTADOS UNIDOS DO BRASIL

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ÍNDICE

CAPÍTULO I — PREPARANDO A CONTRA-OFENSIVA ............................ 7

AS SOLENIDADES RELIGIOSAS DOS DSCHESIDIS ........ 11

Uma “estrela” suspeita ............................................................... 14

Espreitando os turcos ................................................................. 17

Aprisionando a artilharia turca ................................................... 21

Rechaçando o ataque .................................................................. 28

Inominável traição — Horrível vingança ................................... 37

Os primórdios da paz .................................................................. 38

O armistício ................................................................................ 49

Traição frustrada ......................................................................... 56

Desarmando os turcos ................................................................. 60

Os funerais de Pir Kamek ........................................................... 64

CAPÍTULO II — O PRESBÍTERO-REI ............................................................ 66

A despedida aos Dschesidis e aos Badinans ............................... 69

Em Spandareh ............................................................................. 71

Encontro inesperado ................................................................... 76

CAPÍTULO III — RUMO A AMADIJAH ...................................................... 88

Uma despótica governanta ........................................................ 95

Aproximando-se do objetivo .................................................... 98

Um “empréstimo” singular ....................................................... 103

Com o Mutesselim .................................................................... 107

Gesto altivo de um curdo .......................................................... 113

Uma péssima administração ..................................................... 115

Exercendo a medicina ............................................................... 121

Incidente Mersinah versus Halef .............................................. 125

Libertando os prisioneiros ........................................................ 127

Na casa de minha “cliente” ....................................................... 128

CAPÍTULO IV — A RECEPÇÃO EM PALÁCIO .......................................... 131

Aplicando a “tisana” ................................................................. 134

Visitando o presídio .................................................................. 139

Confabulando como prisioneiro ............................................... 144

Grandes reviravoltas na administração de Mossul ................... 150

Assistindo à distribuição de alimentos aos presos .................... 151

Um esconderijo para o árabe .................................................... 155

Tentativa de prisão .................................................................... 159

A prisão do Makredsch ............................................................. 167

Aplicando novamente a “tisana” .............................................. 172

A apreensão “legal” de valores ................................................. 180

Libertando o jovem Amad ........................................................ 183

Novo perigo para o plano ......................................................... 196

Os últimos momentos em Amadijah ......................................... 210

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A partida ................................................................................... 214

Amad reúne-se à caravana ........................................................ 217

CAPÍTULO V — ENTRE VINGADORES DE SANGUE .............................. 219

Uma hospedagem perigosa ....................................................... 223

As conseqüências de uma temeridade ...................................... 241

Um contratempo favorável ao inimigo ..................................... 243

No palácio do Bei de Gumri ..................................................... 247

CAPITULO VI — UMA ORIGINAL CAÇADA DE URSOS ........................ 256

Caindo na emboscada ............................................................... 262

“Ensinando” o manejo das armas ............................................. 266

Prisioneiro do Melek ................................................................ 274

Em Lizan................................................................................... 296

CAPITULO VII — O ESPÍRITO DA CAVERNA .......................................... 308

A reunião do Conselho dos curdos........................................... 313

Uma mensagem de paz e de concórdia ..................................... 314

As deliberações tomadas ........................................................... 317

Aprisionamento do emissário ................................................... 319

Uma prisão singular .................................................................. 320

Uma revelação inesperada ........................................................ 322

A “pérola” do curdistão ............................................................ 326

Halef socorre o prisioneiro ....................................................... 331

Os acontecimentos em Lizan .................................................... 333

Diante do “Espírito da Caverna” .............................................. 339

Novamente em Lizan ................................................................ 344

Atendendo ao chamado do “Espírito” ...................................... 349

Uma palavra que vale por um oráculo ...................................... 351

Depois da paz............................................................................. 356

Último encontro com o “ruh i kulyan” ..................................... 359

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CAPÍTULO I

Preparando a contra-ofensiva

Voltávamos da visita que fizéramos ao chefe dos Curdos Badimans. Ao

chegarmos à última colina e ao relancearmos os olhos pelo vale dos Adoradores do

Diabo, vimos, bem nas proximidades da casa do Bei, um grande monte de palhas de

arroz, que os Dschesidis se empenhavam em aumentar. Pir Kamek assistia aos

trabalhos e punha, às vezes, pedaços de betume no monte.

— Aquela é a pira — disse o Bei Ali.

— O que pretendem sacrificar?

— Não sei.

— Algum animal?

— Somente os hereges costumam queimar animais.

— Frutas?

— Os Dschesidis não queimam nem animais nem frutas no fogo dos seus

sacrifícios. O Pir nada me disse, por isso não sei o que irão sacrificar hoje. Ele é uma

pessoa virtuosa, um santo, e o que fizer não é pecado.

Na colina fronteira continuavam as salvas dos peregrinos, salvas que eram

respondidas no vale; quando lá cheguei, notei, entretanto, que não caberia mais gente

do que a que já havia. Entregamos as nossas montarias e nos dirigimos ao sepulcro, em

cujo caminho levantava-se um chafariz cercado por chapas de grés. O Mir Xeque

Khan, sentado numa das chapas, dirigia a palavra aos peregrinos que, a uma certa

distância, o escutavam cheios de profundo respeito.

— Esta fonte é santa e só o Mir, eu e os sacerdotes nela nos podemos sentar.

Peço-te, pois, não te magoares por teres que ficar de pé! — disse Ali Bei.

À nossa aproximação o Khan fêz um sinal aos presentes estes abriram alas para

passarmos. Em seguida ergueu-se e veio ao nosso encontro, estendendo-nos a mão.

— Sejam bem-vindos. Tomem lugar à minha direita e à minha esquerda.

Dizendo isso, indicou ao Bei Ali o seu lado esquerdo, de modo que a mim cabia

sentar-me à direita. Sentei-me na laje santa, sem que tivesse percebido num só dos

presentes o menor gesto de contrariedade. Oh! quanto contrastava, no entanto, essa

minha atitude com aquela que os maometanos eram obrigados a adotar!

— Falaste com o chefe? — perguntou o Khan.

— Falei e está tudo na melhor ordem. Participaste alguma coisa aos peregrinos?

— Ainda não.

— Está em tempo. Dá ordens para que essa gente se reúna!

— Eu sou o guia espiritual. O resto é contigo. Não pretendo tirar-te a glória de

teres protegido os fiéis e vencido os inimigos!

Era um sinal de modéstia de que jamais seria capaz um Imã maometano. Ali, o

Bei, ergueu-se e saiu a passos. Enquanto eu palestrava com o Khan, notei um invulgar

movimento entre os peregrinos, movimento que ia crescendo de minuto a minuto. As

mulheres e crianças, imóveis, ficaram paradas nos seus respectivos lugares; os homens

estavam enfileirados junto ao arroio e os chefes de tribos, ramificações e localidades,

formavam um círculo em torno do Bei Ali, que lhes comunicava os propósitos de

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Mutessarif de Mossul. Notava-se um silêncio e uma ordem dignos de menção; não

havia a algazarra desordenada que, em geral, se notava quando as tropas orientais se

reuniam. Depois de terem sido transmitidas às ordens e o aviso do Bei Ali, a reunião se

dissolveu na mesma ordem e compostura.

O Bei Ali voltou.

— Quais as ordens que lhes transmitiste? — perguntou-lhe o Khan.

O interrogado estendeu o braço, indicou uma tropa composta de vinte homens

que subia pela mesma estrada de onde descêramos e declarou:

— Vejam: são os guerreiros de Airam, Hadschi Dsho e Shura Khan, que

conhecem muito bem esses caminhos. Vão ao encontro dos turcos e nos avisarão, em

tempo, quando estes estiverem chegando. Estendi, igualmente, sentinelas na direção de

Baadri; desse modo, o inimigo não nos poderá atacar de surpresa. Até o anoitecer

temos ainda três horas, tempo mais que suficiente para transportarmos os animais e

todos os nossos haveres para o vale do Idiz. Selek irá junto como guia da tropa.

— E os homens que seguem para o Idiz estarão de volta à hora do Santo Ofício?

— Sim, com toda certeza.

— Então que se inicie já o transporte!

Logo que a patrulha partiu, uma extensa fileira de homens, uns conduzindo

animais pelas rédeas e outros levando aos ombros diversas utilidades, passou por nós,

desaparecendo um após o outro, por trás do sepulcro. Em seguida, surgiram

novamente numa vereda encravada na rocha e dos nossos lugares podíamos

acompanhá-los com o olhar até desaparecerem ao alto, numa densa mata.

Tive que fazer a refeição em companhia do Bei Ali. Ao findar, a Baschi-Bozuk

acercou-se de mim:

— Senhor, tenho algo a dizer-te.

— Fala com franqueza!

— Estamos na iminência de um grande perigo!

— Ah! Que perigo?

— Esses homens, os Adoradores do Diabo, estiveram a fitar-me durante meia

hora com olhares terríveis. Pareciam querer matar-me.

Como Buluk-Emini ostentasse o seu uniforme, achava justificável a atitude dos

Dschesidis, ameaçados pelos turcos. Contudo, tinha convição de que nada sucederia a

Baschi-Bozuk.

— Isso é grave, — disse eu. — Quem servirá, depois, a cauda do teu burro?

— Eles sangrarão o burro também! Não viu como mataram a maior parte dos

búfalos e ovelhas que havia?!

— O teu burro está seguro e tu também! Um pertence ao outro e ninguém há de

separá-los.

— Prometes?

— Prometo.

— Estive muito inquieto durante a tua ausência.

— Pretendes ausentar-te novamente?

— Por enquanto, não; ordeno-te porém, que permaneças aqui e não te mistures

com os Dschesidis, porque, do contrário, não poderei proteger-te.

O herói, a quem Mutessarif prometera a minha proteção, afastou-se meio

tranqüilo. Em seguida recebi nova advertência: Halef procurou-me.

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Sídi, já sabes que vai haver uma guerra?

— Uma guerra? Entre quem?

— Entre os Osmanlis e os Adoradores do Diabo.

— Quem te disse!

— Ninguém.

— Ninguém? Não ouviste nada a respeito do que falamos hoje de manhã, em

Baadri?

— Não ouvi coisa alguma, pois vocês falaram no idioma dos turcos e esta gente

fala de tal jeito que não compreendo nada do que dizem. Vi, porém, que se realizou

aqui uma grande assembléia e que depois desta todos os homens examinaram as

armas. Daí a pouco retiraram do local as alimárias e tudo o mais que possuíam. Em

seguida, quando subi ao avarandado para falar com o Xeque Maomé, estava ele

ocupado em retirar de suas pistolas a carga velha para substituí-la por nova. Não bas-

tam, então, esses indícios para se estar convencido do perigo?

— Tens razão, Halef. Amanhã, ao romper da alvorada, de Baadri e também de

Kaloni, chegarão tropas turcas para atacar os Dschesidis.

— E eles sabem disso?

— Sabem, sim.

— Qual é o efetivo dos turcos?

— Mil e quinhentos homens.

— Eles terão muitas perdas, pois o seu plano de guerra foi denunciado! Ao lado

de quem te vais colocar Sídi?

— Não participarei da luta.

— Não? — retrucou o homenzinho decepcionado. — Também não devo tomar

parte no combate?

— A qual dos combatentes és simpático?

— Aos Dschesidis.

— A esses, Halef? Aos Dschesidis que acreditavas te roubarem o paraíso?

— Oh, Sídi! Não os conhecia ainda; agora estimo essa gente!

— Mas são ímpios!

— Ora, Sídi, tu também não estás sempre pronto a acudir gente de bem, sem

cogitar do seu credo, sem perguntar se adoram a Alá ou a qualquer outro deus?

Vi com satisfação que o meu bravo Halef, que a todo transe pretendera converter-

me ao islamismo, se expandia abertamente num sentimentalismo essencialmente

cristão! Respondi-lhe:

— Ficarás comigo!

— Enquanto os combatentes demonstram a sua coragem e valor guerreiro?

— É possível que se proporcione ocasião de mostrarmos, também nós, e em

muito mais elevado grau, a nossa valentia e o nosso valor bélico.

— Neste caso, ficarei contigo! O Buluk Emini também ficará?

— Também.

Subi ao avarandado para ir ter com o Xeque Maomé Emin.

Hamdullillah, louvado seja Deus, porque chegas! — exclamou ele. Ansiava

pela tua vinda como a relva anseia pelo orvalho da noite!

— Estiveste sempre aqui em cima?

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— Sempre. Ninguém deve reconhecer-me, porque então estarei descoberto. Que

novidades trazes?

Depois de lhe haver narrado tudo, ele, apontando para as armas que se achavam à

sua frente, disse:

— Terão uma recepção brilhante!

— Não chegarás a usar essas armas.

— Não? Pensas então que nossos amigos e eu não saberemos defender-nos?!

— Seus amigos são bastante fortes e valentes para, sozinhos, defenderem suas

posições. Acaso pretendes morrer atingido por uma bala ou por um golpe de faca para

que teu filho pereça na fortaleza de Amadijah?

— Emir, falas como um homem prudente, não, porém, como um homem valente!

— Xeque, sabes muito bem que não temo inimigo algum! Não é o medo que fala

em mim, não! Bei Ali exigiu que nos afastássemos da luta. Ele, como eu, estamos

convencidos de que ela não se realizará.

— Neste caso, esperas que os turcos se rendam sem oporem a mínima

resistência?

— E se não se renderem serão fuzilados em massa!

— Os oficais turcos não possuem valor algum, os soldados, porém, são valentes.

Eles assaltarão as colinas e ficarão facilmente senhores da situação.

— Mas mil e quinhentos contra seis mil homens?

— O único meio de vencê-los seria sitiá-los aqui dentro do vale.

— E é exatamente o que vai suceder.

— Então teremos que nos retirar com as mulheres para o vale do Idiz?

— Tu irás.

— E tu?

— Ficarei aqui.

Allah kerihm. Fazendo o quê? Encontrarias morte certa.

— Não tenho o menor receio disso. Encontro-me sob a sombra do Padixá, sou

portador de uma recomendação do Mutessarif e tenho em minha companhia um Buluk

Emim, cuja presença, por si só, seria o bastante para pôr-me ao abrigo de qualquer

violência dos turcos.

— Mas que pretendes fazer aqui?

— Evitar a consumação de grandes males, se isso me fôr possível.

— E o Bei Ali sabe disso?

— Não.

— E o Mir Xeque Khan?

— Também não. Saberão tudo oportunamente.

A muito custo convenci o Xeque de que eu devia ficar com ele. Finalmente

aceitou minha proposta.

Allah illa Allah! Os caminhos dos homens estão prescritos no livro —

declarou ele; não pretendo demover-te do teu propósito, mas ficarei aqui contigo!

— Tu? Não é possível!

— Por que não?

— Eles não devem encontrar-te.

— E a ti, também não.

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— Já te disse que não corro perigo algum; a tua sorte, porém, será bem diversa,

se fores surpreendido.

— O fim do homem está prescrito no livro! Como tenho que morrer um dia, não

importa que seja aqui ou na fortaleza de Amadijah.

— Queres ir de encontro à desgraça e te esqueces que me arrastarás contigo!

Vi que era este o único meio de arrancá-lo à sua obstinação.

— Como? — perguntou-me.

— Se eu ficar sozinho, serei protegido pelos meus Firmans; mas se te

encontrarem comigo, a ti um inimigo do Mutessarif e um prisioneiro foragido, terei

perdido essa proteção e não poderei mais contar com a ajuda daquela gente. Então

estaremos ambos perdidos!

O velho ficou pensativo. Percebi logo por que relutava em refugiar-se no vale do

Idiz, mas deixei-lhe tempo para tomar uma resolução. Finalmente declarou em voz

baixa e indecisa:

— Emir, me achas um covarde?

— Não. Sei que és um homem valente e decidido.

— E que pensará, depois, Bei Ali a meu respeito?

— Pensará o mesmo que eu e o Mir Xeque Khan.

— E os demais Dschesidis?

— Todos conhecem as tuas tradições de bravura e sabem perfeitamente que não

és capaz de fugir de inimigo algum, por mais feroz que este seja!

— E se duvidarem da minha coragem guerreira, serás o meu defensor? Dirás

abertamente que segui para o vale de Idiz, para junto das mulheres, por causa,

unicamente de teus rogos insistentes?

— Direi isso a todos de viva voz.

— Pois bem, farei o que me propões.

Resignado, afastou a sua espingarda e virou-se para o vale, que já estava sendo

envolvido pelo manto escuro da noite.

AS SOLENIDADES RELIGIOSAS DOS DSCHESIDIS

Naquele instante voltavam os homens que haviam seguido para o vale do Idiz

conduzindo os haveres. Vinham em préstito, um a um, e se dispersaram no vale diante

de nós.

Nesse momento, ressoou uma salva no sepulcro do Santo, emquanto o Bei Ali

subia e nos falava:

— Iniciam-se as grandes comemorações junto ao sepulcro. Nunca foram essas

solenidades assistidas por um estranho, mas o Mir Xeque Khan, em nome de todos os

sacerdotes, autorizou-me a convidar-vos para as mesmas!

Evidentemente aquele convite constituía uma grande honra para nós; mas o

Xeque Maomé o recusou:

— Muito obrigado, Senhor; mas aos muçulmanos não é permitido tomar parte em

adorações a outro deus que não seja Alá!

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Sem dúvida, ele era muçulmano; contudo deveria ter-se esquivado um pouco

mais delicadamente de comparecer ao rito religioso daquela gente! Ele ficou e eu

acompanhei o Bei Ali.

Ao sairmos defrontamos uma paisagem verdadeiramente bela. Todo o vale estava

banhado num verdadeiro mar de luzes. As ramagens das árvores, o arroio em baixo, as

majestosas rochas das colinas, em torno das casas e nas suas soleiras, tudo enfim

estava maravilhosamente iluminado. O Mir acendera uma tocha na lâmpada eterna do

túmulo e, empunhando-a, veio para o pátio interno. Naquela tocha os Xeques e os

Kawals acendiam as suas lanternas; na luz destas os faquires, por sua vez, acendiam as

suas e em seguida todos saíam do pátio para a planície do vale, onde milhares e

milhares de pessoas acorreram para se purificarem no fogo santo das lanternas.

Aquele que lograsse aproximar-se das lanternas dos sacerdotes passava a mão

pelas chamas, para depois levá-la à testa e à altura do coração. Os homens casados

passavam a mão duas vezes, a fim de obterem a bênção também para as suas mulheres.

O mesmo faziam as mães para os seus filhos menores que não podiam atravessar a

multidão e chegar até as tochas do fogo sagrado. Nessa cerimônia notava-se um júbilo

intenso, um delírio de contentamento que, não obstante a grande aglomeração de fiéis,

nada tinha de irritante.

Também o santuário foi iluminado. Em todos os nichos dos muros ardia uma

lâmpada e por sobre os pátios estendiam-se linhas de guirlandas vistosas que

produziam um efeito encantador.

Os sacerdotes haviam-se postado em duas filas no pátio interno. Num dos lados,

formavam os Xeques com suas vestimentas brancas e, em frente, os Kawals. Estes

empunhavam, alternativamente, um deles uma flauta e o outro um tamborim. Eu me

sentara, juntamente com o Bei Ali, debaixo de um parreiral. Não pude ver onde se

encontrava Mir Xeque Khan.

De repente, do interior do sepulcro, ressoou um brado e os Kawals se prepararam

para tocar os seus instrumentos. A flauta passou a executar, em som plangente, uma

lenta e amargurada melodia, enquanto o tamborim marcava-lhe o compasso. Em

seguida a música desenvolveu-se subitamente em acordes prolongados, em quatro

escalas, primeiramente o tamborilar pianíssimo das pontas dos dedos no tamborim,

depois piano, mais forte, fortíssimo e então entraram as flautas em duas claves a tocar

notas que não existem em nossa escala musical, mas de efeito bem agradável.

Quando os Kawals terminaram de tocar, o Mir Xeque Khan saiu do interior da

casa, acompanhado de mais dois Xeques. Um deles precedia-o, conduzindo uma

estante de madeira, semelhante à estante de música; esta foi colocada no meio do

pátio. O outro trazia dois jarros, um contendo água e outro um líquido inflamável.

Esses dois vasilhames foram colocados sobre a estante da qual O Mir Xeque Khan

aproximou-se.

Fêz um sinal com a mão e passaram a tocar um prelúdio, acompanhado pelos

sacerdotes, que cantavam um hino a uma voz. Infelizmente não me foi possível anotar

as palavras, pois isso daria na vista. O hino era escrito no idioma árabe e incitava os

fiéis à purificação, à fé e à vigilância.

Depois do hino, Mir Xeque Khan dirigiu um breve sermão aos sacerdotes. Em

poucas palavras, ele falou na necessidade de todos pautarem a sua conduta isenta de

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quaisquer pecados, de fazer bem a todos os homens e de manter-se firmes e

inabaláveis na sua fé, defendendo-a dos inimigos.

Em seguida voltou e sentou-se junto de nós, embaixo da parreira. Um dos

sacerdotes trouxe, então, um galo vivo, que amarrou, pelo pé, ao púlpito; à sua

esquerda foi colocada a água e à direita o material inflamável já ardendo.

Começaram novamente a tocar. O galo, encolhido, acocorava-se no solo. Parecia

não dar atenção aos sons pianíssimos da música. Esta começou a tornar-se mais forte e

a ave pôs-se a espreitar. Levantando a cabeça, passeou uns olhares desconfiados pela

assistência, deparando, durante este exame, com o jarro de água. Apressadamente deu

um pulo e meteu o bico na vasilha para beber. Esse fato auspicioso foi anunciado com

alegres rufados dos tamborins. Estes pareceram despertar o interesse musical da ave.

Ela ergueu a cabeça e escutava como que em doce recolhimento. Mas daí a minutos

notou que se achava na iminência do perigo das chamas. Quis voltar, mas não pôde

porque estava presa ao púlpito. Enraivecido o galo bateu as asas e cantou, sendo

seguido imediatamente pelos tamborins e pelas flautas. Essa atitude dos músicos

pareceu convencê-lo de que se achava num concurso musical. Virou-se para os exe-

cutantes e, batendo as asas, cantou novamente. Responderam-lhe o canto como há

pouco e, por algum tempo, cantou novamente num torneio musical, que parecia não ter

mais fim, até que a ave, furiosa, voou para dentro do sepulcro.

A música acompanhou esse feito heróico do galo com os mais intensos

“fortíssimos”; as vozes jubilosas dos sacerdotes se fizeram ouvir e, junto com os

instrumentos, atacaram o andante final com uma intensidade que fatalmente teria que

fatigar músicos e cantores! Ao terminarem a execução da peça, os Kawals beijaram os

instrumentos.

Os sentimentos religiosos de um cristão revoltam-se, naturalmente, ao assistir tais

ritos pagãos, mas, a falar a verdade, nada divisei de amoral naquela prática religiosa.

Agora devia seguir-se a venda de balas, da qual já falei. Antes, porém, os

sacerdotes se aproximaram e ofereceram a mim e ao Bei algumas de presente. Eram

balas bem redondas gravadas com uma palavra árabe, feita com instrumento

apropriado para tal fim. Das sete que me deram, quatro delas traziam as palavras: El

Chems, o sol.

As vendas foram efetuadas no pátio externo, ao passo que no interno a música e

as canções ainda continuavam, com seus esquisitos acordes. Deixei o santuário. Do

alto da colina, o vale deveria apresentar um aspecto maravilhoso, e eu saí em busca de

Halef para acompanhar-me até lá. Encontrei-o no avarandado da casa, sentado ao lado

do Buluk Emini. Pareciam entregues a uma animada palestra, pois ouvi Halef dizer:

— Quêee? Deve ter sido um russo?

— Sim, um russikow a quem provera Alá cortar-lhe a cabeça; sim, porque se não

fosse ele eu ainda teria nariz! Como louco, eu desferia pancadas em torno de mim; o

biltre, porém, tentava atingir-me a cabeça; quis desviar-me e recuei. O golpe que me

devia atingir a cabeça, acertou somente o...

— Hadschi Halef — chamei.

Tinha prazer em interromper mais uma vez a espirituosa palestra do nariz...

Ambos ergueram-se, num salto, e se chegaram a mim.

— Quero que me acompanhes, Halef, vem!

— Aonde, Sídi?

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— Até o alto da colina. Quero apreciar o vale que, sem dúvida deve apresentar

um deslumbrante espetáculo de iluminação!

— Oh, Emir, deixe-me ir junto! — pediu Ifra.

— Não me oponho a isso. Portanto, vamos!

UMA “ESTRELA” SUSPEITA

Subimos a colina situada na direção de Baadri. Por toda parte encontrávamos

mulheres e crianças munidas de lanternas e todas nos saudavam e nos falavam com

alegria infantil. Vários Dschesidis nos acompanharam para iluminar o caminho. Eu,

porém, pedi-lhes que voltassem ou ao menos apagassem os fachos luminosos. Para

melhor apreciar o panorama era preciso que ficássemos às escuras.

Embaixo, no vale, continuava a orgia de luzes, que jorravam de todas as partes.

Milhares de pontos luminosos cruzavam-se, saltitavam, desviavam, bailavam e

voavam numa confusão bela e grandiosa, pequeninos ao longe, lá embaixo, e, depois,

avolumando-se cada vez mais, ao aproximarem-se de nós. O santuário borbulhava de

luzes multicores e as duas torres, em harmoniosa simetria, elevavam-se flamejantes

dentro da escuridão da noite. Além do efeito empolgante da iluminação, sentíamos,

como se viesse de muito longe, o rufar dos tambores, o trinado das flautas, o som

abafado de vozes humanas intercalado por constantes brados de júbilo; tudo isso

completava o conjunto maravilhoso daquele espetáculo que nos deliciava os olhos e os

ouvidos. Tive vontade de me deixar ficar horas inteiras para gozar melhor aquele

maravilhoso espetáculo.

— Que estrela é aquela? — perguntou alguém perto de mim em idioma curdo. A

pergunta fora feita por um dos Dschesidis.

— Onde? — perguntou um dos seus companheiros.

— Olha para a Rea Kadisahn (1) à direita!

— Estou olhando.

— Em baixo cintila uma estrela muito brilhante. Agora ela apareceu novamente!

Conseguiste vê-la?

— Sim. É a Kjale be scheri. (2).

As quatro estrelas que em nossa constelação formam o costado do urso, para os

curdos têm o nome de “O Velho”. Eles acham que “O Velho” tem a cabeça oculta

nalgum grupo de estrelas vizinho. As três estrelas que entre nós formam a cauda da

Grande Ursa, para eles são os “dois irmãos e a mãe cega do “Velho”.

— O Kjale be scheri? Mas este é formado por quatro estrelas! — opinou um

deles. — Deve ser a Kumikji chiwan (3).

— Esta fica mais ao alto. Agora surgiu novamente. Ah! nós nos enganamos; ela

aparece ao sul! Não pode ser outra senão a Meschin (4).

— Talvez tenhas razão. Meschin é formada também de várias estrelas. Que acha

o senhor daquelas estrelas?

_____________________

(1) Via Láctea.

(2) Literalmente: O velho sem cabeça. (Grande Ursa).

(3) Vênus. E (4) Balança: — Constelação do zodíaco.

15

Essa pergunta fora dirigida a mim. O fenômeno impressionara-me.

Os fachos e as lanternas embaixo lançavam uma claridade tal para o alto que me

era difícil reconhecer a nova estrela surgida. O brilho, porém, que ao longe, no

firmamento, de quando em quando surgia, para desaparecer em seguida, era intenso.

Assemelhava-se a um fogo-fátuo que subitamente se acendia para em seguida apagar-

se. Observei a claridade por algum tempo ainda e depois disse a Halef:

— Hadschi Halef, corra depressa para a esplanada do vale e diga ao Bei Ali que

se digne a vir imediatamente cá! Trata-se de um assunto importante.

O meu servo desapareceu com passos apressados e eu avancei um pouco para a

frente não só a fim de examinar melhor a nova estrela, como também para esquivar-me

das inúmeras perguntas que me dirigiam os Dschesidis.

Felizmente o Bei ouvira que eu havia subido a colina e resolvera seguir-me. Halef

encontrou-o perto de onde estivéramos e o trouxe à minha presença.

— Que pretendes mostrar-me, Emir?

Estendi o braço, horizontalmente.

— Olha nessa direção! Não demorarás em ver surgir uma estrela. Ei-la!

— Vejo-a nitidamente.

— Agora ela desapareceu. Tu a conheces?

— Não. Está muito longe no firmamento e não pertence a uma das constelações

conhecidas.

Penetrei nas moitas e cortei algumas varas. Finquei uma delas no solo e fui me

postar alguns passos na sua frente.

— Ajoelha diante dessa vara. Fincarei outra na direção em que a estrela tornar a

surgir. Viste-a agora?

— Sim, vi-a distintamente.

— Onde devo enterrar a vara? Aqui?

— Meio palmo mais para a direita.

— Então aqui?

— Aí mesmo.

— Bom. Continua a observar!

— Apareceu outra vez! — exclamou o Bei, depois de alguns minutos.

— Onde? Vou fincar uma terceira vara!

— Já não apareceu mais no mesmo rumo e sim muito para a esquerda.

— A que distância?

— A dois passos da vara anterior.

— Aqui?

— Sim, aí mesmo.

Enterrei a terceira vara no solo e o Bei continuou observando.

— Vi-a novamente — declarou.

— Onde?

— Já não à esquerda, mas à direita.

— Está bem! Era isto o que te queria mostrar. Agora podes levantar-te.

Os demais que nos acompanhavam admiravam-se da minha atitude e o Bei

também não a podia compreender.

— Por que mandaste chamar-me por causa daquela estrela?

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— Porque não se trata de estrela alguma!

— Que é então aquele ponto luminoso? Uma simples luz no firmamento?

— Se fosse uma simples luz no firmamento seria digna de estudos

cosmográficos. Mas trata-se de uma linha luminosa.

— De que forma chegas a tal conclusão?

— Não pode ser uma estrela porque surge abaixo do cimo da montanha. E que de

fato são diversas luzes, facilmente constatarás pela experiência que acabamos de fazer.

Naquele rumo cavalgam ou andam a pé numerosas pessoas munidas de archotes ou

lanternas e uma ou mais delas de quando em quando projetam o seu clarão para cá.

O Bei proferiu uma exclamação.

— Tens razão, Emir!

— E quem serão aquelas pessoas?

— Peregrinos não podem ser, porque estes viriam pela estrada de Baadri a Xeque

Adi.

— Pensas nos turcos!...

— Senhor! Isso seria possível?

— Ao certo, não sei. Não conheço a zona. Descreve-a para mim, Ali Bei.

— Daqui, em linha reta, a estrada segue para Baadri e ali mais à esquerda para

Ain Sifni. Divide essa estrada em três partes e seguindo pelo primeiro terço, terás

aquelas luzes à tua esquerda na direção do rio, que vem de Xeque Adi.

— É possível atravessar o rio a cavalo?

— É, sim.

— E depois seguir-se para Xeque Adi?

— É possível sim.

— Então houve em todos os preparativos uma grande negligência!

— Qual?

— Destacaste patrulhas para Baadri e Kaloni e não para Ain Sifni.

— Daquele ponto não chegarão os turcos. A gente de Ain Sifni nos denuciaria a

sua passagem.

— Sim, mas se os turcos, em vez de passarem diretamente por Ain Sifni,

atravessarem Khausser, em Dscheraijah, para, entrando na estrada de Ain Sifni,

alcançar este vale? Palpita-me que eles então tomariam o mesmo turno daquelas luzes.

Vê, a mesma avançou agora um pouco para a esquerda!

— Emir, a tua suposição talvez seja verdadeira. Vou expedir imediatamente

algumas patrulhas.

— E eu vou examinar a estrela mais de perto. Tens um homem que conheça bem

essa zona?

— Ninguém a conhece melhor do que Selek.

— Êle é um bom cavaleiro. Põe Selek para guia!

Descemos a colina o mais depressa possível. A última parte de nosso diálogo foi

falada baixinho de modo que ninguém, nem mesmo o Baschi-Bozuk percebeu coisa

alguma. Selek foi encontrado logo; deram-lhe um cavalo e ele tomou de suas armas e

munições. Fiz questão que Halef também me acompanhasse. Eu podia confiar nele

mais que em qualquer outro. Vinte minutos depois de haver eu avistado a estrela pela

primeira vez, cavalgávamos pela estrada que conduzia a Ain Sifni. Na próxima colina

17

paramos. Passei em revista o horizonte na semi-escuridão e finalmente divisei a luz

que surgiu novamente. Para ela chamei a atenção de Selek.

— Emir, aquilo não é estrela nenhuma, nem tampouco archotes, pois estes

iluminariam perímetro mais extenso. São lanternas.

— Pois preciso aproximar-me o mais possível delas. Conheces bens aquela zona?

— Vou conduzir-te para lá; conheço a estrada com os seus mínimos acidentes.

Segue-me sempre e traze o animal de rédeas curtas.

ESPREITANDO OS TURCOS

O meu guia tomou a direita do rio e depois cavalgamos a pequeno trote, sempre

para a frente. Foi uma cavalgada dificultosa, mas dentro de um quarto de hora

podíamos distinguir várias luzes em vez de uma só como até agora. Após outro quarto

de hora, durante o qual as luzes desapareceram por trás de uma montanha, alcançamos

esta e vimos então, diante de nós, uma extensa fileira de cavaleiros. Que espécie de

cavaleiros era, ainda não podíamos distinguir. Estes desapareceram depois,

subitamente, e não tornaram a surgir.

— Existe por lá alguma colina?

— Não, o terreno se desenvolve numa vasta planície — respondeu Seleck.

— Ou quem sabe alguma baixada, algum vale, onde as luzes tenham

desaparecido?

— Não.

— Ou quem sabe, ainda, algum mato que...

— Sim, Emir — acudiu o guia. — Lá onde elas desapareceram há um

bosquezinho de oliveiras.

— Ah! Ficarás então aqui com os cavalos e esperarás pela minha volta. Halef,

porém, irá comigo.

— Senhor, leva-me também! — pediu Selek.

— E os animais? Se os levarmos, eles denunciarão a nossa presença.

— Eles ficam aqui, amarrados!

— O meu garanhão é de muito valor para deixá-lo aqui sem vigilância. Além

disso, não és adestrado em caminhar de gatinhas para fazer uma observação. Logo te

ouviriam ou, talvez até, te enxergariam.

— Emir, sou um hábil rastejador!

— Acalma-te! — replicou-lhe Halef. — Também eu pensei que conseguiria

rastejar para o meio de um Duar para de lá tirar o melhor cavalo; mas quando tive de

rastejar diante do Efêndi, fiquei acanhado como se fosse um menino de escola! Mas

consola-te. Alá não quis que nascesses para lagarto!...

Depusemos as armas e nos fomos. A noite era tão clara que se podia distinguir

sofrivelmente uma pessoa a uns quinze passos. Diante de nós surgiu um ponto negro

que cada vez avolumava-se mais: era o bosque de oliveiras. Quando dele nos

acercamos de modo a podê-lo alcançar dentro de cinco ou seis minutos, paramos e eu

me pus atentamente a observar. Não se percebia o menor ruído.

— Caminha bem por detrás de mim para que os nossos vultos formem uma só

linha!

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—Eu trajava calças e casaco de côr escura; à cabeça trazia o tarbusch, que tirara

do turbante. Desse modo não era fácil distinguir-me do solo escuro. Halef estava no

mesmo caso.

Lentamente prosseguíamos caminhando meio curvados. Nisso percebemos

distintamente um ruído causado pela quebra de gravetos. Deitamo-nos, então, de

ventre no solo e rastejamos para frente. O ruído se avolumava cada vez mais.

— Estão juntando gravetos talvez para acender um fogo.

— Que bom para nós, Sídi! — cochichou-me Halef.

Não tardamos em atingir a orla posterior do bosque. Relinchos de animais e

vozes humanas cada vez se nos tornavam mais perceptíveis. Nesse instante chegamos

a um denso tufo de ervas altas. Apontei para o mesmo e sussurrei:

— Esconde-te aqui e me espera, Halef!

— Senhor, jamais te abandonarei; irei em tua companhia!

— Tu contribuirias para que me descobrissem. Rastejar silenciosamente no meio

da mata é mais difícil do que em campo raso. Trouxe-te comigo apenas para que me

cobrisses a retirada. Ficarás aqui deitado, mesmo que ouvires o detonar de tiros.

Quando eu te chamar, então sim, vem o mais depressa possível!

— E se não voltares e nem me chamares?

— Então, passada meia hora, rastejarás para frente a ver o que me aconteceu.

Sídi, se te matarem, matarei eu a todos!

Ouvi apenas essas suas palavras; mas não me havia ainda afastado muito dele,

quando percebi uma voz alta ordenar:

Et atesch. — Acende o fogo!

Essa voz partira de uma distância talvez de uns cem passos. Eu podia, pois,

descuidadamente continuar rastejando. Nisso, ouvi o crepitar de fogo e notei umas

labaredas que iluminavam através das árvores até bem próximo de mim. Este fato

constituía naturalmente um sério obstáculo para o meu propósito.

Taschlar atesch tschewresinde. — Colocai pedras em torno do fogo! —

comandou a mesma voz.

Esta ordem foi, é claro, imediatamente obedecida, pois as chamas não

produziram mais a mesma claridade e, assim, eu podia avançar facilmente. Arrastei-me

de uma oliveira para outra e em cada uma delas parava a observar se não fora notado.

Felizmente essa precaução era supérflua; eu não me achava nos sertões da América do

Norte e aquela boa gente nunca imaginaria que algum mortal fosse capaz de observá-

los daquela forma!

Deste modo fui avançando, sempre para frente, até que cheguei perto de uma

árvore em cujas raízes havia um enorme tufo de vergônteas, que formavam um

excelente esconderijo. Tanto mais vantajosa se me tornou essa posição quando depois

vi que próximo à referida árvore se achavam parados dois homens, justamente a quem

desejava escutar, visto serem oficiais.

Com toda cautela, atingi a moita de vergônteas, por trás da qual me pus a escutar.

Ergui os olhos e vi tudo o que se passava.

Dois canhões e dois obuzes se achavam ali perto; mais adiante, e amarrados aos

troncos de árvores, pastavam vinte muares, número necessário para o transporte

daquelas peças de artilharia. Em geral, para a condução de um canhão, são precisos de

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quatro a cinco animais; um para o cano, outro para o armão e de dois a quatro para o

transporte das caixas de munições.

Os artilheiros estavam deitados, comodamente, no solo e palestravam. Os dois

oficiais, porém, pretendiam tomar café e fumar o seu Tschibuk; por isso é que fora

aceso o fogo no qual, sobre duas pedras, aquecia uma chaleira com água. Um dos

heróis era capitão e o outro tenente. O primeiro tinha a aparência de um honrado e

displicente burguês; parecia-se mais com um rotundo mestre-padeiro alemão que

alugara por marco e meio um uniforme de oficial turco, a fim de representar nalguma

peça teatral... Com o tenente acontecia quase a mesma cousa. Assemelhava-se a uma

copeira de café, sessentona com idéias de donzela, e que se fantasiara de oficial turco

para tomar parte nalgum baile carnavalesco.

Tive vontade de sair do meu esconderijo para dizer-lhes:

— Boa noite, mestre padeiro, boa noite, senhorita, não me conhecem? — “Não

conheço, não!” — seria a resposta.

Naturalmente as palavras que ouvi foram bem outras. Estava tão próximo deles

que podia ouvir tudo o que diziam.

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— Os nossos canhões são excelentes, — rosnou o capitão.

— Excelentes! — respondeu o tenente com voz de flauta.

— Arrazaremos, arrazaremos tudo!

— Tudo! — disse o tenente, como se fora o eco do seu superior.

— Faremos boas presas!

— Boas presas.

— Lutaremos com bravura!

— Com bravura!

— Seremos promovidos!

— Promovidos! Galgaremos as mais elevadas posições!

— Depois só fumaremos fumos da Pérsia!

— Fumos de Schiras!

— E café da Arábia!

— Café de Moka!

— Os Dschesidis terão que morrer todos!

— Todos!

— Aqueles malfeitores!

— ... feitores!

— Aqueles impuros, aqueles desavergonhados!

— Aqueles cães!

— Mataremos a todos!

— Amanhã, bem cedo!

— Nem há dúvida!

Eu vira e ouvira o suficiente, razão por que retrocedi. Primeiro cautelosa e

lentamente e depois com relativa ligeireza. Ergui-me e passei até a caminhar ereto, do

que muito se admirou Halef, quando voltei para perto dele.

— Que há, Sídi?

— Artilheiros. Vem, não podemos perder tempo!

— Vamos sem rastejar?

— Não é preciso mais rastejarmos.

Alcançamos ligeiro os nossos cavalos, montamos e regressamos ao vale. O

caminho para Xeque Adi foi vencido agora muito mais rapidamente do que na vinda.

Fomos encontrar tudo no mesmo movimento de há pouco.

Disseram-me que o Bei Ali se achava no santuário e para lá me encaminhei; fui

encontrá-lo no pátio interno na companhia de Mir Xeque Khan. Veio-me ao encontro

ansiosamente.

— Que descobriu? — perguntou logo.

— Canhões!

— Oh! — fêz espantado. — Quantos?

— Quatro pequenos de montanha.

— Que visam eles?

— Bombardear Xeque Adi. Enquanto a cavalaria e a infantaria efetuam o ataque

pelos flancos, a artilharia operará à margem do arroio, lá embaixo. O plano não é mau,

não; daquela posição é fácil dominar todo o vale. O principal era transportar

imperceptivelmente as baterias através das montanhas e isso já conseguiram,

21

utilizando-se de muares para tal fim; dentro de uma hora poderão transportá-la do

acampamento atual até aqui.

— Que faremos, Emir?

— Põe-me imediatamente sessenta ginetes à disposição, bem como algumas

lanternas e dentro de duas horas verás os canhões e os soldados que os conduzem, aqui

em Xeque Adi!

— Aprisionados?

— Sim aprisionados.

— Forneço-te até cem ginetes em vez de sessenta!

— Muito bem, dá-me, então apenas oitenta e dize-lhes que estou à sua espera lá

embaixo, no arroio.

Saí e encontrei Halef e Selek ainda com os cavalos.

— Que pretende o Bei fazer? — perguntou-me o primeiro.

— Nada. Nós é que vamos fazer alguma cousa!...

— Que é isso, Sídi? Estás a rir! Senhor, conheço a tua fisionomia! Vamos buscar

os canhões, não é?

— É isso mesmo o que vamos fazer! Pretendo, porém, apossar-me das peças de

artilharia sem derramamento de sangue e, para consegui-lo, levaremos oitenta ginetes

conosco.

APRISIONANDO A ARTILHARIA TURCA

Montamos e cavalgamos para a saída do vale, onde não foi preciso esperarmos

muito pela chegada dos oitenta Dschesidis.

Mandei Selek com dez na frente e segui-o, a uma distância, com os demais. Até a

colina, onde o guia ficara à nossa espera, com as montarias, não encontramos inimigo.

Apeamos. Expedi alguns homens para a frente com o fim de velar pela nossa própria

segurança. Deixei dez vigiando os cavalos, com ordem de não abandonarem o local,

sem minha determinação. Depois nos encaminhamos de mansinho na direção do

bosque das oliveiras. A uma determinada altura, fizemos alto e eu prossegui sozinho.

Sem encontrar obstáculo, alcancei a oliveira de onde há pouco espionava os turcos.

Estavam divididos em vários grupos e palestravam. Eu contava encontrá-los já a

dormir. A vigilância militar e a expectativa do combate não os deixava, porém,

lembrar-se de repouso. Contei trinta e quatro homens, inclusive os sub-oficiais, o

capitão e o tenente; feito o que, voltei para junto de minha gente.

— Hadschi Halef e Selek tragam os cavalos! Vocês cavalgarão descrevendo um

arco e passarão pelos fundos do bosque. Serão detidos. Digam, porém, que erraram o

caminho e que pretendiam seguir para Xeque Adi, com o fim de assistir às grandes

festas que lá se estão realizando. Desta forma desviarão toda a atenção dos Osmanlis

de nós. Deixem o resto por nossa conta. Avante!

Dispus a tropa em duas extensas linhas na mesma direção, a fim de cercar o

bosque por três faces. Dei as necessárias instruções ao pessoal, deitamo-nos no chão e

rastejamos para a frente.

Como era natural, eu rastejava mais ligeiro, pois era o mais treinado nisso. Já me

achava no tufo de vergônteas há dois minutos, quando percebi fortes ruídos,

22

produzidos por cascos de cavalos. O fogo continuava a arder. Em vista disso era-me

possível ver bem o decurso das coisas no acampamento turco. Os dois oficiais, com

certeza, haviam fumado e tomado café durante a minha ausência .

— Xeque Adi é um antro pernicioso! — ouvi o capitão dizer.

— Muito pernicioso! — respondeu o tenente.

— A população adora o diabo!

— O diabo! Que Alá a esmague e a estraçalhe!

— Nós é que vamos fazer isso!

— Sim, nós a estraçalharemos!

— Todos, sem poupar um só!

Até aqui pude escutar, mas neste momento o trote dos cavalos foi ouvido. O

tenente levantou a cabeça.

— Chega alguém! — disse. O capitão pôs-se à espreita.

— Quem será? — perguntou ele.

— Vejo que são dois cavaleiros.

Os oficiais, que se achavam sentados, levantaram-se, sendo seguidos pelos

soldados. Halef e Selek foram avistados através da claridade que o fogo lançava no

bosque. O capitão saiu-lhe ao encontro e puxou da espada.

— Alto! Quem vem aí? — urrou-lhes.

Os meus dois companheiros foram imediatamente cercados pelos turcos. O

pequeno Halef contemplava os oficiais de baixo acima e eu compreendi que os

mesmos lhe causara igual impressão que a mim, quando os vi da primeira vez.

— Quem são, pergunto! — repetiu o capitão.

— Gente!

— Que gente?

— Homens!

— Que espécie de homens?

— Homens a cavalo!

— O diabo que te engula! Responde direito, do contrário receberás bastonadas!

Quem são vocês?

— Somos Dschesidis. — Respondeu Selek, à meia voz.

— Dschesidis? Ah! De onde?

— De Meca.

— De Meca! Alá, Alá! Também lá existem adoradores do diabo?

— Existem e exatamente em número de cinco vezes cem mil.

— Tantos assim! Alá kerihm; como Ele deixa crescer tanta erva daninha no meio

dos trigais! Para onde vão?

— Para Xeque Adi.

— Ah! cairam-me nas mãos! Que pretendem lá?

— Assistir às grandes festas.

— Já sei de tudo. Vocês cantam e dançam na companhia do diabo, ao mesmo

tempo que adoram um galo que foi escaldado no fogo do Desche-hennah! Apeiem!

Estão presos!

— Presos? Que fizemos?

— São filhos do diabo! Serão vergastados até que o diabo saia do corpo de vocês!

Desçam já dos cavalos!

23

O próprio capitão avançou e os dois homens foram formalmente arrancados das

montarias.

— Entreguem-me as armas!

Eu sabia que Halef jamais obedeceria a uma tal intimação, nem mesmo na

situação especial em que se achava. Ele olhou na direção do fogo à procura de algo e

eu ergui então a cabeça o quanto bastava para ele ver-me. Agora o meu servo adquirira

a certeza de se achar em segurança. Pelos rumores atrás de mim, percebi que minha

gente já havia sitiado o acampamento.

— Nossas armas? — perguntou Halef. — Ouve Jus Baschi: permite que te diga

uma coisa!

— O quê?

— Poderemos dizer apenas em reserva e só a ti e ao Mülasim.

— Não quero saber de nada do que pretendes comunicar-me!

— Mas trata-se de um assunto importante, importantíssimo mesmo!

— Que é, afinal?

— Ouve!

O pequeno Halef cochichou-lhe alguma cousa ao ouvido, fazendo com que o

capitão recuasse uns passos e o contemplasse numa atitude um tanto respeitosa. Mais

tarde, soube o que o meu astuto criado lhe dissera: “O que tenho a dizer-te será bom

para o teu bolso!”

— Estás falando a verdade? — perguntou-lhe o oficial.

— A verdade.

— E serás discreto, depois de fecharmos o negócio?

— Asseguro-te que ficarei mudo como uma porta!

— Jura!

— Como queres que eu jure?

— Dize: “Juro por Alá e pelas barbas do... — Não, vós sois Dschesidis. Jura-me

pelo Diabo que é o deus de tua adoração!

— Está bem. O diabo sabe que depois não direi nada a ninguém!

— Olha que ele te estraçalhará o corpo, se quebrares o juramento! Vem, Mülasim,

e venham também vocês dois.

Os quatro homens aproximaram-se do fogo; eu podia agora ouvir ainda melhor o

que diziam.

— Agora podes falar! — disse o capitão a Halef.

— Liberta-nos. Pagar-te-emos a nossa liberdade!

— Têm dinheiro?

— Temos, e muito até.

— E não sabem que todo o dinheiro que possuem me pertence? Tudo o que

trazem é nosso!

— Mas jamais acharias cousa alguma. Procedemos de Meca e quem empreende

uma tão longa viagem sabe ocultar bem o dinheiro e demais objetos de valor que

conduz.

— Eu já hei de achar!

— Pois afianço-te que não acharás, nem mesmo se nos matares e examinares

minuciosamente as nossas vestes. Os adoradores do diabo possuem meios eficazes

para tornar invisíveis os seus dinheiros.

24

— Alá é oniciente!

— Mas tu não és Alá!

— Não devo libertar vocês!

— Por que não?

— Depois de soltos, vocês nos trairiam.

— Trair? Como?

— Então não vês que nos achamos aqui numa expedição de guerra?

— Fica certo de que guardaremos reserva, nada dizendo a quem quer que seja!

— Mas vocês vão para Xeque Adi!

— Há nisso algum inconveniente para vocês?

— Há, sim!

— Então envia-nos para onde te convier!

— Concordas em seguir para Baaveiza e lá permanecer durante dois dias?

— De bom grado!

— Quanto pretendem pagar-nos pela liberdade?

— Qual o preço que exiges?

— Quinze mil piastras de cada um.

— Senhor, somos peregrinos pobres! Não trazemos tanto dinheiro conosco!

— Quanto possuem?

— Talvez nos seja possível pagar-te quinhentas piastras.

— Quinhentas? Pretendes lograr-me!

— É provável que, em último caso, consigamos reunir seiscentas!

— Pois me pagarão doze mil piastras e nem uma a menos. Juro isso por Maomé!

E se recusarem, mandarei vergastar vocês até que me entreguem essa importância. Tu

próprio confessaste que dispões de meios para tornar invisível o dinheiro que possuis;

portanto trazes elevada soma contigo e eu tenho meios ainda mais eficazes para fazer o

dinheiro aparecer bem depressa!

Halef fingiu que se assustara.

— Senhor, realmente não deixas por menos?

— Não!

— Neste caso, somos obrigados a nos curvar às tuas exigências!

— Canalhas! Agora descobri que trazem muito, muitíssimo dinheiro mesmo! E

em vista disso terão que me pagar a quantia que eu pedi antes, isto é, quinze mil

piastras!

— Perdão, senhor! Isto é muito pouco!

O capitão olhou perplexo para o pequeno Halef.

— Que pretendes dizer com isso, homem?

— Que qualquer de nós dois valemos muito mais do que quinze mil piastras.

Permite que te demos cincoenta mil?

— Homem, perdeste o uso da razão?

— Ou talvez cem mil!

O mestre-padeiro Jüs Baschi ficou pasmado. A sua carantonha difusa e rotunda

enrubesceu e ele olhou interrogativamente para o semblante magro e esquálido do

companheiro.

— Tenente, o que dizes de tudo isso? Este, boquiaberto, confessou ingenuamente:

— Nada, absolutamente nada! Não compreendo este homem!

25

— E eu tampouco. Deve ser um verdadeiro nababo!

E dirigindo-se novamente a Halef.

— Onde tens o dinheiro?

— Precisas saber?

— Claro que sim!

— Viajamos na companhia de alguém que paga por nós e este alguém não podes

ver!

— Valha-nos, Alá! — tu te referes ao diabo!

— Queres que o chame?

— Não, não, nunca! Não sou um Dschesidi e não sei falar com ele! Eu morreria

de susto à sua simples presença!

— Não te assustarás, não! Esse Scheitan surgirá em figura de homem. — Ei-lo,

que já vem!

Eu erguera-me por detrás da oliveira e com dois passos largos me postara diante

dos dois oficiais. Apavorados, desviaram-se, um para a direita e outro para a esquerda.

Como o meu vulto não lhes parecera lá muito apavorante, ficaram parados a me

contemplar, imersos em nervoso mutismo.

Jüs Baschi — interpelei-o — ouvi tudo o que falaste hoje de noite. Disseste

que Xeque Adi era um antro pernicioso!

Uma inspiração profunda fêz-se ouvir em lugar de resposta.

— Disseste que Alá esmagaria e estraçalharia a sua população.

— Oh, Oh! — soou.

— Disseste mais que fuzilarias aos montes aqueles impuros e desavergonhados e

que irias colher boas presas.

Um pavor mortal agitava o Mülasini e o Jüs Baschi se limitava a gemer,

parecendo haver emudecido.

— Depois disso ambos pretendiam galgar as mais elevadas posições e fumar

unicamente fumos deliciosos de Schiras!

— Oh, ele sabe de tudo! — balbuciou, finalmente, o obeso capitão.

— Sim, sei de tudo! Vou agora fazer vocês dois galgarem a uma posição bastante

elevada. Sabe qual?

O oficial meneou a cabeça negativamente.

— As colinas, no meio das quais fica o vale dos impuros, dos desavergonhados!

Não acham que as colinas são posições elevadas?... Agora digo eu o que disseste, não

faz muito aos meus companheiros: — Estão presos!

Os soldados não atinaram com a situação; achavam-se todos reunidos num

cerrado agrupamento. A um aceno dado por mim, os Dschesidis saíram de suas

posições e os cercaram. Nenhum deles lembrou-se de opor resistência. Os oficiais,

porém, compreenderam, finalmente, o verdadeiro estado das cousas e levaram a mão à

cintura.

— Alto lá! Nada de resistências! — adverti-os, sacando o revólver. — Aquele que

pegar em arma será fuzilado no mesmo instante!

— Quem és? — perguntou o capitão.

O gorducho estava banhado em suor. Até certo ponto, eu tinha compaixão

daquela figura de mestre-padeiro virado a oficial turco, bem como da figura de D.

Quixote ao seu lado! Lá se foram os seus sonhos de promoções! ...

26

— Sou amigo de vocês e por isso não desejo que sejam todos fuzilados pelos

Dschesidis. Entreguem as armas!

— Mas precisamos delas!

— Para quê?

— Para defender as baterias!

Não me pude conter diante daquela ingenuidade sem exemplo! Ri a bom rir!

Depois tranqüilizei-o:

— Não tenhas cuidado! Nós mesmos já haveremos de guarnecer muito bem os

canhões!

Ainda relutaram um pouco, mas por fim resolveram depor as armas.

— Que pretendem de nós? — perguntou o Jüs Baschi apreensivo.

— Tudo depende da atitude que mantiverem. É provável que sejam mortos, mas

também poderão alcançar indulgência desde que nos obedeçam.

— Neste caso que deveremos fazer?

— Primeiramente, respondam, com precisão, as perguntas que eu fizer.

— Está bem.

— Não vêm seguidos de outras tropas?

— Não.

— É esta realmente a única força em marcha?

— Sim.

— Pois então Miralai Omar Amed pôs em relevo a sua inépcia, a sua

incapacidade de organização! Xeque Adi acha-se guarnecida por milhares de homens

em pé de guerra e ele envia para lá apenas uma bateria composta de trinta e quatro

combatentes e quatro míseros canhões! Ao menos ele deveria expedir um Alai Emini à

testa de duzentos homens de infantaria para cobrir a marcha da artilharia. Aquele

homem julgou talvez que os Dschesidis, quais moscas, seriam fáceis de apanhar! Que

ordens recebeste dele?

— De transportarmos a bateria até ao arroio, sem que os Dschesidis o

percebessem.

— E daí?

— Subiríamos pela margem do arroio à meia hora de distância, e iríamos

postarmo-nos diante de Xeque Adi.

— Continua!

— Lá deveríamos esperar até ele nos enviar um emissário. Em seguida

avançaríamos até a entrada do vale para bombardeá-lo à bala, metralha e granadas.

— O avanço será permitido; podem mesmo marchar um pouco além da entrada

do vale. Mas do bombardeio se encarregará outra gente! Não é preciso se darem a esse

trabalho...

Já que tudo sucedera daquele modo, os turcos, como legítimos fatalistas,

entregaram-se calmamente ao Destino. Tiveram que entrar em forma e depois seguir

escoltados pelos Dschesidis. As peças de artilharia foram carregadas pelos muares que

eram conduzidos por trás da escolta. É óbvio que montamos, ao passar pela nossa

cavalhada.

À meia hora de distância do vale de Xeque Adi deixei os canhões, guarnecidos

por vinte homens. Assim procedemos para esperarmos o emissário que enviaria o

Miralai.

27

Logo à entrada do vale deparamos com uma formidável massa popular. O boato

da nossa pequena expedição se espalhara entre os peregrinos e todos ali se haviam

reunido, a fim de aguardar os acontecimentos. Nesse meio tempo cessaram também

todas as salvas que se faziam durante os festejos no vale, de modo que este se achava