Plantas uteis da Africa Portugueza por Conde de Ficalho - Versão HTML

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PLANTAS ÚTEIS

i>\

AFRICA PORTUGUEZA

ADVERTÊNCIA

Preparando agora para nova

impressão os artigos publicados no

Boletim da Sociedade de

Geographia de Lisboa, sob o titulo

de Nomes vulgares de algumas

plantas africanas principalmente

angolenses, eu tive occasião do

acrescentar muita matéria nova, já

intercalando nos seus togares

algumas plantas que haviam sido

omittidas, já dando sobre outras

mais largas e detidas informações; e

fazendo preceder a enumeração de

uma introducçSo absolutamente

inédita. É pois uma obra pela maior

parte nova a que hoje vou dar á

estampa. Os nomes vulgares,

embora merecessem a minha

attenção, deixaram de ser a feição

principal d'este trabalho, e pareceu-

me conveniente substituir o antigo

titulo pelo actual, mais curto, e ao

mesmo tempo mais comprehensivo.

Por motivos, que são óbvios, não

me demorei na des-cripção das

espécies mencionadas; ou são

conhecidas e os seus caracteres se

encontrarão facilmente nas obras

citadas; ou são novas, e n'esse caso

a diagnose minuciosa— tal qual

hoje se exige nos trabalhos de

botânica systema-tica — seria

completamente deslocada. Abstive-

me pois cuidadosamente de dar

nomes novos a algumas espécies

que julgo inéditas, por isso que a

simples publicação de um nome,

sem descripção ou ícones que a

apoie, nem constitue direito de

prioridade, nem está de accordo

com as regras salutares hoje

estabelecidas. Apenas cm alguns

casos — c

poucos — citei os nomes

manuscriptos adoptados por Wel-

witsch no seu herbario, quando

julguei que se referiam a espécies

verdadeiramente inéditas.

Dei, pelo contrario, toda a attençao

á identificação dos nomes

scientificos já conhecidos com os

nomes vulgares de plantas ou

productos utilisados nas colónias,

pois que d J ahi resulta o mais fácil

estudo d'esses productos. Não me

lisonjeio, no cmtanto, de haver

sempre acertado nestas difficeis

investigações.

C. de F.

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Plantas cultivadas

Percorrendo uma lista de plantas

úteis africanas, e reparando nas que

são geralmente cultivadas, e

formam a base da alimentação dos

povos de raça negra, occorre

naturalmente fazer um reparo

curioso — e vem a ser, que a maior

parte d 9 essas plantas são

estranhas á Africa, oriundas de

outras regiões, e foram ali

introduzidas em epochas mais ou

menos remotas.

Ja no anno de 1818 Roberto Brown,

um dos primeiros botânicos do

nosso século, havia notado esta

circumstancia, e apontado a

provável origem asiática ou

americana de muitas das plantas

cultivadas na África *. Não podia

então apoiar este parecer sobre

provas decisivas e concludentes; o

centro do continente era quasi

desconhecido, e aã investigações

sobre a origem das espécies

cultivadas estavam bem longe de

haverem sido levadas ao ponto a

que depois chegaram. A sua

opinião, na epocha em que a

emittiu, era—na phrase justíssima

de Schweinfurth—uma verdadeira

prophecia. O certo é que os

descobrimentos feitos depois pelos

que téem devassado os segredos das

mysteriosas terras centraes, e por

outro lado os estudos dos botânicos

sobre a origem das formas

cultivadas, vie-

1 Narrative of an expedition to

explore the river Zaire by Capt

Tuckey. Appendix V.— 1818.

rani confirmar as suas previsões.

Entre esses estudos, dispersos por

muitas obras variadas, avultam os

de Humboldt nos seus grandes

trabalhos sobre a America e sobre a

Ásia, e particularmente os do sr.

Aftbnso de Candolle, que em 1855 e

recentemente l tratou essa questão

de um modo completo e com muita

auetoridade.

É por certo singular que as plantas

cultivadas pelo africano, as que

formam a base da sua sustentação,

viessem — exceptuando o sorgho e

poucas mais—de outras regiões, e

parte d'ellas em epochas

relativamente recentes. E singular

que o milho 2 , o massa-ngo

(Pennisetum), a mandioca, a

bananeira de fruetos alimentares, a

batata doce, diversas castas de

feijões, a canna de assucar, a

ginguba, o gergelim, os pimentos e

outras; isto é, algumas das mais

importantes plantas feculentas,

oleosas, condimentares de que vive

o Negro, fossem introduzidas na

Africa pelos povos de outras

regiões, e que muitas arvores de

frueto, como ateiras, mangueiras,

cajueiros, sejam do mesmo modo

estranhas â Africa pela sua origem,

se bem que hoje ali vulgares.

Em vista d'esta circumstancia tao

notável, somos naturalmente

levados a considerar quaes seriam

as condições da população africana,

na epocha em que estas plantas nào

haviam ali penetrado. Podemos

admittir uma de duas hypotheses:

ou existiam en-tilo outras plantas

em cultura, que mais tarde cederam

o logar ás introduzidas de fora, mas

6 difficil imaginar quaes fossem; ou

a cultura era pobríssima e quasi

desconhecida. Esta hypothese

parece, sob o ponto de vista da

botânica pura, a única admissível.

Vejamos se o que podemos saber ou

1 Gtographie botanitjue raiaoiniée,

p. 810 a 991 —1855. Origine des

pLnttes cuftivces.— 18SÍJ.

2 Sobre a origem de algumas destas

plantas podem subsistir duvidas, e

terei de fazer algumas reservas nas

paginas seguiutes.

conjecturar relativamente ao

passado africano a confirma ou a

destroe.

A Africa não tem historia,

exceptuando naturalmente a zona

septentrional, o valle do Nilo

inferior e a Abyssinia. N'esta terra

singular as gerações passam sem

deixarem vestígios da sua

existência, nem mesmo esses

vestígios que na Europa ficaram de

populações tão barbaras como as

africanas. Na Africa não ha ruínas

nem quasi tradições. As cidades e os

palácios dos potentados africanos—

se cidades e palácios se podem

chamar—construídos de madeira e

cobertos de capim, apodrecem e

des-troeni-se mais rapidamente

ainda do que se apaga a memoria

dos acontecimentos na mente dos

habitantes. A terra, invadida pela

exhuberante vegetação tropical, não

guarda a marca da mão do homem,

como o espirito infantil do Negro

não conserva a impressão do

passado. Todas as conjecturas que

fizermos sobre a historia africana

serão forçosamente vagas e

destituídas de provas; mas por isso

mesmo pôde ter interesse o

consideral-a por um lado novo,

procurando indicios que venham

reforçar os que já existem.

Os viajantes que do norte ou do sul

téem penetrado profundamente no

continente africano, até ás

proximidades do equador, têem

obtido informações mais ou menos

vagas, mais ou menos entremeadas

de circumstancias fabulosas e

inacreditáveis, sobre a existência de

povos muito selvagens, geralmente

descriptos como sendo de pequena

estatura; os quaes são considerados

como os representantes dos

Pygmeus, conhecidos dos antigos e

mencionados em passagens dos

seus livros, tão celebradas, e tantas

vezes citadas, que ê desnecessário

recordal-as. Foi assim que Krapf

teve noticia da existência dos Doko

no oriente; Escayrac de Lauture da

dos Mala-gilagé, e Kõlle da dos

Kenkob e Betsan no centro;

e que du Chaillu no occidente viu os

Obongo, e depois Stanley viu os

Wa-tua. Já em tempos antigos os

Portuguezes haviam sabido da

existência dos Bakka-bakka ou

Mimos, súbditos do Macoco'. O dr.

Schweinfurth particularmente teve

occasião de ver, medir, e desenhar

alguns dos Acka, um dos ramos

d'esta curiosa raça. O capitulo em

que elle trata das raças anãs da

Africa equatorial é um dos mais

interessantes do seu

interessantíssimo livro 2 . Este

distincto ethnographo,

reconhecendo a afinidade que existe

entre aquelles povos e os

Boschjemans da Africa austral, nao

hesita em considerar uns e outros,

como os representantes actuaes de

uma grande raça aborígene, antes

numerosa, hoje decadente e

dividida em fragmentos dispersos.

Em dois livros modernos

portuguezes encontramos relatados

factos, que são uma interessante

confirmação doeste modo de ver.

Refiro-me á existência dos Ba-kan-

kala, errantes entre as populações

negras ao norte do Cunene, de que

falia o sr. Nogueira 3 ; e á presença

dos Mucassequeres — ou Ba-

kassequere 4 —

1 Veja-se Dapper, Dcscription de V

Afrique, p. 358-359, ed. de 1686. Às

informações transmittidas por

Dapper foram obtidas pelos

Portuguezes, que, segundo elle diz,

mandavam os seus pombeiros

resgatar mar6m ao interior do reino

do Macoco.

2 Hcart of Africa, ir, p. 65. Nào

tendo tido á minha disposição o

original, cito constantemente a

versão ingleza, 3. a ed. —1878. Veja-

se também um longo e completo

resumo sobre essas raças, em um

artigo Ziverg võlker in Afrika,

inserido em Pctcrmann, Mitthei-

lungen —1871, p. 139. Emquanto ás

viagens posteriores veja-se Stanley,

Through the dark continent, n, p.

101, 172 e 218.

3 A raça negra, p. 99 —1881.

4 Mu-kasscquere no singular, Ba-

kassequere no plural. Esta prefixa,

que designa o plural nos nomes dos

povos, e que é usada na frfrma lia,

ou Ban, segundo a euphonia,

encontra se escripta na forma Wa

pelos Inglezes e Allemães em geral,

sobretudo referindo-se a povos

orientaes, mas sem grande

regularidade. Assim quasi todos

escrevem Ba-suto c Ba-bisa,

escrevendo ao mesmo tempo Wa-

suáheli e Wa-niamuezi. Nào me

julgando auetorisado a fazer

alteraçuea, que podiam parecer

pretenciosas, emprego a orthogra-

phia tal qual a encontro, tanto

n'este caso, como no caso das

prefixas que designam a língua qui,

quin ou ki> e cm muitos outros.

Unicamente transcrevo o ou dos

Francezes, e os dois oo dos Inglezes

por u, como os dois ec dos Inglezes

por i.

na região entre Cubango e Cuando,

observada por Serpa Pinto 1 .

Nenhuma duvida pôde restar, de

que estas tribus pertencem aos

povos, chamados por Pritchard

Saabicos, e abrangidos por outros

sob a designação de Koi-Koin. O sr.

Nogueira descreve minuciosamente

os Ba-kankala, e sem repetir aqui

todos os caracteres que aponta,

notarei a estatura pequena, a côr

clara amarellada, e o uso de uma

lingua especial, bem diversa dos

dialectos dos Negros. O sr. Serpa

Pinto descreve os Ba-kassequere

quasi do mesmo modo, e insiste

também sobre o tom amarello

terroso da pelle, e sobre a natureza

da lingua, não só diversa, como

afastada dos dialectos da raça negra.

A presença d'estas tribus no

parallelo de 15° latitude sul, ou

ainda ao norte, é um facto muito

importante. Os Ba-kankala, os Ba-

kassequere, e também os Ba-kuisse

do litoral, são fragmentos

disjunctos da grande raça primitiva,

são elos que prendem os

Bochsjemans do Ka-lahari aos Acka

e outros do equador. Falta-nos, ó

verdade, uma prova importante, e

que seria decisiva, da sua commum

origem, a qual resultaria da

afinidade das suas línguas. Á dos

Ba-kankala e Ba-kassequere — e

parece que também a dos Ácka—é

desconhecida. Sabemos no em

tanto, que é especial, sui generis, e

inintelligivel para os Negros, os

quaes, com maior ou menor

facilidade, comprehendem os

dialectos variados das suas diffe-

rentes nações 1 .

1 Como eu atravessei Africa, i, p.

279.

2 A linguagem doa Boschjemans

tem muitas analogias com o

bottentote. Recordarei a propósito

uma curiosa indicação dada por

Moffat, o conhecido philologo

africano. Diz elle (Missionary

labourê in êouthern África, p. 5)

que, dando a um Syriano

explicações e exemplos da lingua

bottentote, este lhe contou que no

Cairo encontrara escravos fali ando

uma lingua siniilhante, os quaes

vinham muito do interior, e eram

de cor relativamente clara. Sendo

assim, teríamos a prova evidente

das relações desses povos do norte

central com os da parte austral.

Emquunto á lingua dos Ba-

kassequere, que tão estra-

A hypothese que considera estas

tribus nómadas, como formas

decadentes e regressivas de varias

raças, parece-me inadmissivel, e

partilho inteiramente n'este ponto a

opinião tão auctorisada de

Schweinfurth.

Seremos pois levados a admittir a

existência de uma raça numerosa e

antiquíssima, que occupou toda a

Africa tropical e austral, a qiíal hoje

está fraccionada, quasi destruida, e

representada apenas pelos povos

que foram rechaçados para a zona

árida do Kalahari, e pelas tribus

pouco numerosas, que vagueiam

entre as populações de raça negra

ou se acoitam nas densas florestas

equatoriaes.

Dos hábitos dos seus

representantes actuaes, podemos

até certo ponto concluir, qual foi o

modo de vida d'essa raça primitiva.

Os Boschjemans — o grupo mais

conhecido — são descriptos, pelos

numerosos viajantes que os têeni

observado, como perfeitamente

nómadas, não construindo

habitações, abrigando-se com

alguns ramos de arvores que

derribam, ou procurando covas e

cavernas natu-raes, não cultivando

a terra, e vivendo exclusivamente da

caça'. O mesmo diz Nogueira dos

Ba-kankala, e Serpa Pinto dos Ba-

kassequere. Igual reputação de

hábeis frecheiros, e peritos

caçadores toem actualmente os

Acka, e tiveram os pequenos Bakka-

bakka, que os Jagas celebravam

como os mais dextros e atrevidos

caçadores de elephantes. Podemos

pois imaginar uma raça occupando

toda a

nha impressão fez no ouvido de

Serpa Pinto, é muito provavelmente

também um dos dialectos dos

Boschjemans, os quaes têeni, alem

das gutturaes c dos cliks do

hottentote, um som da garganta

similhantc ao grasnar dos corvos —

a croaldng souncl.

1 Veja-so, entre outros, o que diz

Burchell, Southern África, e

também Moffàt, Missionary

labours, cap. ív. Emquanto os

Negros construem cubatas, os

povos da raça primitiva,

Boschjemans, Ba-kuissec outros,

têeni uma certa tendência a

procurar as cavernas c abrigos das

rochas. É curiosa a approximaç.ào

entre este facto, c a asserção de

Aristóteles de que os Pygmeus

viviam cm cavernas.

África do sul; raça de pequena

estatura, côr clara amarellada,

existência perfeitamente nómada,

vivendo da caça, ignorando a

agricultura, e cuja alimentação

vegetal consistia apenas nas raizes

das plantas espontâneas ou nos

fructos das arvores silvestres— o

puro ideal do selvagem.

As conjecturas da ethnographia

confirmam pois as deducções da

botânica. Aquella indica-nos a

existência de um povo a que as

praticas agrícolas eram estranhas,

esta a existência de uma epocha em

que faltavam as plantas cultivadas e

quasi as cultiváveis—permitta-se a

expressão 1 .

Sobre esta raça primitiva derramou-

se depois a raça negra em uma

epocha desconhecida, e vindo de

um ponto de Africa igualmente

problemático. Sob uma variedade

quasi infinita de typos, e uma

confusão extrema de tribus e

nações, que se cruzam, se

sobrepõem, se misturam ou se

combatem, o viajante pôde, todavia,

entrever um principio de unidade;

que abraça quasi toda a população

negra e indica uma origem

commum*. Ao norte do equador,

desde as terras altas da Abyssinia

pelo Sudan até á costa norte-

occidental, as relações são mais

confusas; demais, certos povos de

mui diversas origens, como os

Fulbe, Berberes e Árabes, têem ahi

penetrado e modificado

profundamente a pura raça negra.

Mas ao sul, a unidade da raça é

evidente. Ainda ahi existem

differenças profundas de indole ou

de aspecto entre os variados povos,

como são as

1 Este estado de cousas é

exemplificado pelo que se dava em

uma epocha relativamente recente,

na maior parte da Austrália, onde

nem existia cultura, nem quasi

espécies indigenas aproveitáveis; e

onde os progressos agrícolas e a

transformação dos campos tiveram

por base a introducçilo de plantas

estranhas. Esta introducção fez-sc,

porém, de modos bem diversos; na

Austrália foi rápida e methodica,

sendo devida a um povo civilisado;

na Africa foi lenta, gradual e muito

imperfeita, pois teve logar por

intermédio de raças quasi trio

barbaras como a anterior.

2 Veja-se sobre este ponto uma

pagina de Schweinfurth

magistralmente eecrípta. Htart of

África, i, p. 148.

que afastam um guerreiro Zulu de

um pacifico Mu-chicongo. As

affinidades, porém, são também

grandes, e entre ellas avulta o

próximo parentesco das linguas, o

qual se patenteia nos vocabulários,

e ainda mais na estructura

grammatical, no uso constante das

prefixas, e na singular concordância

euphonica que reúne todas essas

linguas no grupo denominado

alliteral*.

Esta grande raça negra, destruindo

em parte, e dispersando a raça que a

precedera, parece ter oc-cupado a

Africa desde proximamente o

parallelo de 20° latitude norte, até

ao parallelo de 25° latitude sul e

ainda alem. O grau de adiantamento

a que chegou é muito superior ao da

sua predecessora. Por barbaras que

sejam as cortes do Muata-Ianvo ou

do Cazembe, de Munsa ou de

Kamrasi, temos quasi a tentação de

as chamar civilisadas, quando as

comparámos com uma tribu de

Boschjemans. A distancia que vae

de um soldado do Muzila, já meio

disciplinado, a um Mu-kassequere

errante; é enorme. Esta

superioridade revela-se em dois

traços princi-paes, a habitação fixa,

e a cultura da terra. O Negro em

geral não é nómada, fixa-se, e

construe habitações a que na nossa

Africa occidental dão o nome de

cubatas, chamando á sua reunião

libatas 2 . Uma parede

habitualmente circular, sobre a qual

descansa um tecto cónico, e em que

se abre uma porta

1 Veja-sc Appleyard, The JCafir

language; Krapf, Outline of the Ki-

suáhelilanguage, e outros. É justo

dizer que antes de Appleyard, Krapf

e Boyce, fr. Bernardo de

Cannecattim, se não havia

penetrado profundamente no

mcchanismo complicado da

concordância euphonica tinha pelo

menos uma idéa clara do seu

principio, (ColL de observ.

grammaticaes sobre a língua bunda

— 1805, a p. li)). Veja-se o exemplo

que elle dá sobre o modo porque o

adjectivo numeral mochi, um —

varia segundo a forma do nome a

que se liga— riála rimochif um

homem — caiada camochi, um

rapaz — quima qui-moclii uma

cousa.

2 Libata, ou mais propriamente é-

jxxta, parece abranger as duas ou

tres cabanas habitadas por cada

fainilia. Nogueira, A raça negra, p.

128.

baixa, dando accesso e alguma luz

ao interior— porque o negro ainda

não soube inventar a janella,

segundo observa Sir S. Baker—;

como materiaes, a madeira, o barro

amassado e o colmo, tal é o typo da

casa africana. Este typo modifica-se

em variantes numerosas,

características das diversas nações.

As vezes o edifício apresenta

proporções consideráveis, toma

uma certa elegância de formas, e

denota singular perícia da parte do

operário 1 ; mas os materiaes

consistem sempre nas mesmas

substancias pouco duradouras, e

sob as variantes ha traços de

notável uniformidade, que são mais

uma prova da origem commum

d'estes povos. Estas habitações,

sendo de fácil construcção, são, por

isso mesmo, facilmente

abandonadas; e as povoações—

chamadas na nossa Africa

occidental smzállas— mudam

frequentes vezes de logar sem que

no emtanto taes deslocações se

possam de modo algum assimilhar

ao vaguear constante do nómada.

O Negro fixando-se, cultiva. Ha por

certo povos iaçadores, alimentando-

se em parte da carne dos animaes

selvagens; ha também povos

pastores, os quaes, como os Dinka

do Bahr-el-Ghazal, e algumas tribus

no interior de Mossamedes, se

occupam quasi exclusivamente no

tratamento dos seus gados; mas em

geral o Negro—deveríamos talvez

antes dizer a Negra— é cultivador, e

vive do producto do solo. Os seus

campos, ou, como lhes chamam em

Angola, os seus arimos* são

tratados com um certo esmero.

1 Veja se em Schweinfurth, Ueart of

Africa, u, p. 28, o desenho e

descripçào da sala de baile do rei

Munsa.

2 Este nome, adoptado pelos

Portuguezes, pertence ás línguas

africanas, e procede da^ raiz rima

do verbo — cti-ríwa, cultivar —

nahi-rima, eu cultivo. £ uma

palavra bastante espalhada; em ki-

mka, língua fallada no oriente,

perto da costa, entre Mombaça e os

montes Kilima-Ndscharo, a terra

lavradia chama-se zi ya kurima. Em

lingua n'bunda, cultivador chama-se

muca-curimiêsa, ou muca-curima; e

em dialecto ki-hiau, das

proximidades do Nyassa, mku~

rima. Em Moçambique a mesma

palavra culima — com a simples

mudança do r em l, tào fácil na boca

dos Negros — é geralmente

As relações dos viajantes mostram-

nos a cultura da terra generalisada

do Atlântico ao mar Indico, e do

Sudan á Cafraria. Ha mesmo

regiões que da agricultura derivam

o nome; Unyanyembe, segundo diz

Cameron 1 , significa litteralmente

— a terra da enxada. E a enxada é de

feito o instrumento geral do Negro,

que ainda não soube aproveitar o

trabalho dos animaes.

As plantas em cultura sao

numerosas, e serão mencionadas

adiante nas suas respectivas

famílias; nao farei pois mais do que

citar aqui um pequeno numero das

que têem maior importância. Entre

estas avultam algumas Gramíneas,

e entre as Gramíneas o sorgho,

representado por differentes

variedades. No hemispherio boreal

o sorglio forma a base da

alimentação vegetal de quasi todas

as populações do Sudan, e bacia

media do Nilo e seus affluentes 2 .

No hemispherio austral é

largamente cultivado na parte sul

de Angola, em toda a vastíssima

bacia do Zambeze, e em geral entre

todos os povos, vagamente

denominados Cafres 3 . Moid á mão

pelas negras, nas duas pedras bem

conhecidas, e de forma geral em

quasi toda a Africa 4 , o sorgho dá a

farinha de que se fazem as papas,

ou

adoptada pelos Portuguczes para

designar a cultura. É inútil insistir

sobre a importância evidente d'estas

approximaçocs, as quaos mostram a

similhança da3 línguas, e ao mesmo

tempo a antiguidade da cultura.

1 Across Africa, n, p. 298.

2 Veja-se relativamente ao Sudan o

que diz Barth, Iteisen und

entdeckungen in nord und central

Afriha, em diversas passagens ;

relativamente á bacia do Nilo,

Sckwcinfurth, Speke, Baker e

outros.

3 Sobre a frequência d'csta cultura

nas terras austro-orientaes, veja-se

Livingstone e outros; e entre os

Portuguezes, fr. Joilo dos Santos,

Lacerda, Sebastiíto Xavier Botelho,

Gamitto, ete, que todos faliam do

milho fino, como fornecendo o

principal alimento aos Cafres.

* Compare-se a estampa de

Schweinfurth, Ilcart of Africa, ir, p.

231, com a de Livingstone, The

Zambesi, p. 543 e 544, reparando

em que uma se refere ao Sudan, e a

outra ás margens do ríyassa. No

occidente as duas pedras são ás

vezes substituídas por grandes

nlmofarizcs do madeira.

os pães chatos, não levedados,

cozidos nas cinzas, alimento

habitual de vastas populações. Essa

farinha serve também para o fabrico

das bebidas fermentadas, de que o

Negro usa e abusa — a garapa de

Angola, e o pombé do oriente.

A cultura do sorgho, anda annexa

mais ou menos geralmente por

quasi toda a Africa, a de duas outras

Gramíneas de menor valor

alimentai*, o Pen-7tis et um e a

Eleusine. Emquanto á cultura do

arroz e do milho, 6 muito

importante por certo em algumas

localidades, mas não está

igualmente generali-sada.

Caminhando no hemispherio norte

em direcção ao equador, o dr.

Schweinfurth notou uma curiosa

substituição de culturas. Emquanto

entre os 13on-go, os Babuckur e

outros povos ao norte do parallelo

de 5 o latitude norte, os cereaes

forneciam o alimento principal,

mais ao sul, entre os Niam-niam, A-

Ban-ga e Monbuttu, diminuia a sua

cultura, sendo substituídos pelas

raizes feculentas — a mandioca,

Icatata doce, Colocasia e Dioscorea.

Faltam para outras regiões, dados

tão exactos e dignos de fé, como os

que reuniu aquelle sábio botânico.

Todavia, indicações mais ou menos

vagas, dispersas por muitos livros,

levam-nos a crer que a mesma

substituição tem logar no

hemispherio sul. Parece existir ahi

um limite que mui grosseiramente

se pôde talvez collocar entre os

parallelos 13' e 10° latitude sul, ao

sul do qual predomina a cultura dos

cereaes, sendo ao norte mais

frequente a das raizes feculentas 1 .

Estas reflexões não podem de modo

algum appli-car-se ás terras

situadas na proximidade imniediata

do litoral, onde a intervenção dos

Europeus tem mesclado as diversas

culturas.

1 Assim nos planaltos da Huilla a

cultura da massa-mballa (sorgho) c

massa-ngo (Pcnnúsdtim) ó

frequento; mas no Congo é mais

rar.i, sendo a mandioca a bate da

alimentação.

2

Chegando ainda mais próximo do

equador, encontramos uma zona,

não muito larga, onde a bananeira

oceupa o primeiro logar. Já no paiz

dos Monbuttu a sua cultura é geral.

Na U-ganda os campos estão

cobertos de bananeiras, e uma

população rica e densa, encontra na

banana a sua alimentação principal

e quasi exclusiva. Depois a oeste

dos lagos pelo valle do Lualaba e

Congo, continua a ser frequente *.

Poderia ainda citar mais algumas

plantas das famílias das

Leguminosas, Cucurbitaceas e

outras que entram com frequência

na cultura do Negro; mas bastarão

por emquanto os exemplos dados.

A área relativamente vasta

oceupada pelos campos cultivados,

a similhança dos processos, tanto

no imperfeito amanho da terra,

como na preparação dos produetos,

a existência de nomes idênticos, ou

pelo menos derivados da mesma

origem para designar o cultivador e

a cultura em pontos afastados, tudo

nos leva a crer que a agricultura é

muito antiga na Africa e

contemporânea talvez da dispersão

da raça negra.

E agora apresenta-se naturalmente

ao espirito a questão de saber

quando, como e de onde vieram

todas estas espécies vegetaes que o

Negro cultiva.

E certo que algumas são indígenas

do continente africano e portanto

poderam ser semeadas e tratadas

pelo homem a partir de períodos

extremamente remotos; mas o seu

numero não 6 muito considerável,

nem a sua importância alimentar

muito grande, exceptuando apenas

o sorgho, que é sem

1 Veja-se, sobre os Monbuttu,

Schwcinfurth, Hcart of Africa; sobro

a U-ganda, Speke, Journal of thc.

dixe. of tltr sources ofthe Nile, e

mais particularmente Grant, Trans.

Linn.,Soe, xxix, pars in, p. lf>; c

relativamente ao occidente, Stanley,

Throuyh thc. darl; contínent.

duvida n planta principal da

agricultura africana, e parece ser

indígena 4 .

Entre as espécies introduzidas

convém estabelecer dois grupos,

relativamente aos quaes as cousas

se passaram em epochas e de

modos bem diversos: o grupo das

espécies da Ásia, ou em geral do

velho mundo, e o grupo das

espécies da America.

A introducçao na Africa das plantas

pertencentes ao primeiro grupo

pôde ser antiquíssima. Todos sabem

quanto é remota a existência da

cultura no Egypto. A poderosa

nação que se estabeleceu no valle

do Nilo esteve desde as primeiras

origens históricas em contacto com

a Europa e com a Ásia, sendo em

tempos primitivos invadida pelos

exércitos de Esar-haddon, e fazendo

mesmo muito depois parte

integrante de uma das monarchias

asiáticas 3 . Que os Egypcios

recebessem de fora muitas das

plantas que cultivaram nas ricas

alluviões do seu celebrado rio, é

facto perfeitamente fora de duvida 3

. Mas será mais difficil de provar

que alguma d'essas espécies se

introduzisse por este ca-

1 Alem do sorgho, poderíamos citar

algumas Leguminosas, como

Voandzeia, Cajamui, e um

Phaseolus; algumas Cucurbitaccas

como Cifndlus, e varias mais.

2 Sobre as relações dos grandes

impérios asiáticos com o Egypto

veja-se particularmente Rawlinson,

The five great monarchies, ii, p. 192,

iii, p. 113. Por outro lado silo bem

conhecidas as transacções

commerciaea que tiveram logar

entre o Egypto c a Grecia t

sobretudo a partir do reinado de

Fsammetico, as quaes ainda mais se

multiplicaram quando, muito

depois, Alexandria, sob o dominio

dos Lagides, se tornou como que o

centro da civilização hcllenica.

3 E imo só plantas de uso commum,

introduzidas desde tempos muito

remotos, senão também espécies

raras que mandaram transplantar

alguns dos seus soberanos,

sobretudo quando a expansão dos

gregos pela Ásia tornou mais

conhecidas as ricas producçoes

d'aquella região. Pliuio, fallando da

arvore do incenso, diz ialesqve in

Carmania apparere, et in /Egypto

satãs studio Ptolemasorum re-

gnanlium (HisL nai. y i, p. 484, ed.

Littrc); e, quando trata da planta

que dá o ladanum, diz também

Xecnon et fruticem esse dicunt t/i

Car mania y et super jEgyptum per

Ptolcemeo* tramlatis plantx* (1. c,

p. 487). Este zelo sciontifico dos

opulentos e cultos Lagides pouca

influencia podia ter na rude

agricultura do Negro africano.

minho nas terras centraes, de que

especialmente nos occupâmos. Os

desertos da Libya que limitam o

Egypto pelo occidente, e os da

Núbia que o limitam pelo meio dia,

oppunham á extensão gradual das

culturas um obstáculo insuperável.

Sobre isso succedeu, que o Egypto

devia sobretudo receber da Europa

e da Ásia temperada plantas

incompatíveis com o clima tropical,

e ás quaes este simples facto vedava

o accesso ás regiões do sul. Foi

assim que o trigo de tao antiga e

geral cultura no valle do Nilo

inferior, ficou ali limitado. E

possível que algumas plantas

passassem do Egypto á Ethiopia,

pois as duas potencias rivaes

estiveram sempre em contacto, e

d'ahi penetrassem nas regiões

centraes; mas nao é provável que o

seu numero fosse grande.

As antigas relações da Africa com a

Ásia nao se limitaram, porém, ás

que tiveram logar por intermédio do

Egypto. Entre a Arábia meridional e

a costa africana fronteira houve

communicações seguidas. Ainda

mais, o parentesco ou origem coni-

mum dos povos que habitavam as

duas margens do Mar Vermelho

está perfeitamente demonstrado. As

antigas civilisações do Yemen e da

Abyssinia teem o mesmo typo; as

ruínas de Mareb e de Axum offe-

recem muitos caracteres de

similhança; e as analogias entre o

Himyaritico e o Ghez são eviden-,

tes *. O contacto intimo que se

estabeleceu desde mui remotas eras

entre a Arábia e a Africa do

nordeste, separadas apenas por um

mar estreito e facilmente navegável,

é pois um facto histórico que nao

pôde deixar duvida.

Nem eram também difficeis as

communicações entre a costa de

Oman e a do Malabar, sendo fa-

1 Sobre as analogias do Himyaritico

com o Ghez, c as antigas

iimuigracocs de populações

semíticas no nordeste da África,

veja 8C Renan, Histuire des langues

simitiques, livr. iv, ehap. i.

vorecidas pelo phenomeno das

monções, que tão importante papel

representava na imperfeita

navegação dos antigos. Ha todos os

motivos para sup-por que os povos

da peninsula abriram cedo esse

caminho marítimo, e por certo

conservaram uma espécie de

monopólio do commercio com a

índia, pois na epocha dos Lagides,

os productos indianos se

encontravam unicamente nos

mercados da Arábia. Relações

commerciaes muito mais antigas e

activas do que por algum tempo se

imaginou ligaram pois os

habitantes do litoral do mar Indico

e das suas grandes enseadas—o

golpho Pérsico e o golpho Arábico 1

.

Pelo que diz respeito á Afinca

oriental do sul, sabemos igualmente

que os antigos navegadores se nao

circumscreviam nos apertados

limites do mar Vermelho; saíam o

estreito, dobravam o cabo dos

Aromas, e alongavam as suas

viagens pela costa oriental, até

talvez ás proximidades do actual

Zanzibar. Ahi se julga ter estado

collocada a antiga cidade de Rapta

de que falia Ptolomeu, empório

commercial d^quellas regiões,

sujeita ao domínio ou influencia

dos habitantes da Arábia *. Estava

1 Os Gregos attribuiam n um dos

seus, Hippalo, o mérito de haver

seguido peia primeira vez o

caminho directo da índia, e ligavam

mesmo o seu nome á monção — o

vento Hippalo — com que navegou.

Na verdade, do tempo de Alexandre

datam as noções mais claras que

temos sobre o commercio com a

índia; mas o próprio commercio

deve ser muito mais antigo. Perto

de vinte séculos antes de Alexandre,

as naus de Ur na Chaldéa sulcavam

o mar Indico, negociavam com a

Ethiopia, e é bem possivel que

também com a índia.

2 Alguns commentadores têem

julgado encontrar a situação da

antiga Rapta na bahia de Bagamoio,

um pouco ao sul da ilha de

Zanzibar, que c ainda hoje um dos

principaes pontos onde vem

desembocar o commercio interior.

Segundo o auetor do Ptripto do mar

Erythreu, Rapta estava sujeita ao

soberano de Maphartis na Sabéa;

por onde se vô que os habitantes da

Arábia tinham n'aauellas regiões a

principal influencia. Pôde ver-se

sobre estas identificações

geographicas a opinião de D. João

de Castro, e as eruditas notas do sr.

Joào do Andrade Corvo, Hoteiro de

Lisboa a Goa —1882, p. 320. Sobro

as relações dos Árabes com a Africa

oriental em epochas ante-islâmicas

veja-se também o dr. Krapf, Outlinc

of the elem. of the Kwiáheli

pois aberto o caminho para a

introducção na Africa das plantas

úteis asiáticas, e caminho muito

mais fácil que o do Egypto: primeiro

porque do litoral para o interior se

estendiam as férteis terras dos

Negros, sem zonas desérticas

intermédias; segundo porque as

espécies introduzidas, provindo da

parte quente da Ásia, podiam

prosperar na Africa tropical.

É portanto aos Árabes—ou melhor

aos habitantes da Arábia— que

devem attribuir-se principalmente

as primeiras dispersões de espécies

vegetaes úteis de um para outro

continente, as quaes tiveram logar

desde as remotas eras da civilisaçíío

Home-rita, ou mesmo desde

períodos anteriores; nao fal-lando

das problemáticas viagens das

frotas de Salomão em busca do ouro

de Sofala, por instigações da Rainha

de Sabá *.

granmar, p. 9 e seguintes. Deve-se

advertir que as relações dos Semitas

com esta parte da costa se nao

podem inteiramente as^imilhar ás

que tiveram logar mais ao norte,

onde houve uma larga immigra-Çíto

de povos que impozcrain a sua

língua; o Ghez e o Amharico silo

idiomas semíticos. Pelo contrario

no sul, os Semitas, encontrando-se

cm menor numero, adoptaram a

linguagem dos Negros; o Ki-euáhcli,

comquanto tenha arabismos, é um

puro dialecto do grupo allitcral.

1 Poucas questões têem sido mais

largamente debatidas do que a

verdadeira situação de Ophir, que

alguns collocam na Arábia, outros

na índia, c outros na Africa oriental;

deixando de parte opiniões

singulares, como a que põe Ophir

na America, ou na costa de

Portugal. Os mais celebres eruditos,

taes como Gcsenius, Hecren,

Lassen, Quatremére, Humboldt, e

vários mais se oceuparam d'csta

questão. Também os nossos antigos

escriptores d'ella trataram; o cónego

Gaspar Barreiros no Commaitarius

de Ophyra regione, que anda

annexo á sua Chorographia,

impressa cm 15Í>1; fr. João dos

Santos na Elhiopia oriental, parte

1.*, p. 57; o padre Francisco de

Sousa no Oriente conquistado, i, p.

810, etc.

Os dois últimos seguiram a opinião

que colloca Ophir nas terras de

Sofala, a qual tem por si algumas

auetoridades de grande valor, como

a de Heeren c a de Quatremóre.

Bruce, na relação da sua celebrada

viagem á Abyssinia, também a

segue, c publica mesmo uma

curiosa carta destinada a mostrar

como — attendendo ao phenoineno

das monções e ao modo de navegar

de cntào — a viagem de Azion-gaber

a Sofala devia durar exactamente o

tempo marcado na Bíblia.

Modernamente o viajante Karl

Mauch descobriu, ou antes visitou

umas ruínas importantes em

Zimbaoe, o que deu uma espécie de

Se a origem da influencia árabe se

pôde assim procurar em epochas

muito anteriores ao

estabelecimento da religião

mahometana, é certo que essa

influencia se torna sobretudo

decisiva e preponderante nos

séculos que se seguem á Hégira,

exercendo-se então pelo norte como

pelo oriente. Pelo norte os Árabes,

apoderando-se da zona

mediterrânica, obrigaram os

Berberes a refluírem sobre os

estados da Nigricia, dominando-os

em parte, e encerrando a raça negra

nos seus actuaes limites.

Foram as tribus berberes dos

Tuareg — conhecidas dos nossos

antigos viajantes pelo nome de

Azenegues ! — que, havendo

adoptado os preceitos do Islam,

introduziram a nova religião entre

os puros Negros e os Fulbe, sendo

depois seguidos pelos próprios

Árabes. Assim se estabeleceu, em

resultado de luetas, cuja historia é

absolutamente estranha ao nosso

assumpto, essa zona de estados

mahometanos do Sudan, que ainda

hoje existe, e se estende do

Kordofan ao Futa-

ac tu ai idade á questão. £ digo

visitou porque parece que essas

ruínas foram conhecidas dos

Portuguezes. Pode ler-se a historia

de uma curiosa informação qnc

mandou tirar sobre este assumpto o

governo Portuguez, e da resposta

que lhe deu em 1723 um fr. Manuel

de 8. Thomás na interessantíssima

nota do sr. João de Andrade Corvo

ao Roteiro de D. João de Castro, a p.

336. Por ella se vê que tanto os que

perguntavam, como o que

respondia, tinham noticia da

existência de ruinas e inscripçoes, e

as referiam ao tempo de Salomão.

De feito mais de um século antes fr

João dos Santos fez menção das

ruinas situadas na serra de Fura,

notou com muito acerto a sua

importância n'aquclla terra onde

modernamente tudo se construía de

madeira c colmo, c n'uma phrase