Poemas por Fernando Pessoa - Versão HTML

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Fernando Pessoa

Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/fpesso.html Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,

transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,

ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

[Nota de SF

"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]

Tudo quanto penso

Tudo quanto penso,

Tudo quanto sou

É um deserto imenso

Onde nem eu estou.

Extensão parada

Sem nada a estar ali,

Areia peneirada

Vou dar-lhe a ferroada

Da vida que vivi.

Vendaval

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,

Não achas, soprando por tanta solidão,

Deserto, penhasco, coval mais vazio

Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano

Faz louco lugar, caverna sem fim,

Não são tão deixados do alegre e do humano

Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,

Só têm a tristeza que a gente lhes vê

E nisto que em mim é vácuo e tristeza

É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!

Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,

Que rasgas os robles — teu pulso divida

Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,

A alma que tenho pudesses levar -

Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia

De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,

Mar torvo do caos que parece volver -

Porque é que não entras no meu penssamento

Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!

Horror de sentir a alma sempre a pensar!

Arranca-me, é vento; do chão da existência,

De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,

Pelo caos furioso que crias no mundo,

Dissolve em areia esta minha amargura,

Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares, Telhados daqueles que têm razão,

Atira, já pária desfeito dos ares,

O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,

Tornado a substância dispersa e negada

Do vento sem forma, da noite sem termo,

Do abismo e do nada!

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que sogue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: "Fui eu ?"

Deus sabe, porque o escreveu.

Quinto Império

Vibra, clarim, cuja voz diz.

Que outrora ergueste o grito real

Por D. João, Mestre de Aviz,

E Portugal!

Vibra, grita aquele hausto fundo

Com que impeliste, como um remo,

Em El-Rei D. João Segundo

O Império extremo!

Vibra, sem lei ou com lei,

Como aclamaste outrora em vão

O morto que hoje é vivo — El-Rei

D. Sebastião!

Vibra chamando, e aqui convoca

O inteiro exército fadado

Cuja extensão os pólos toca

Do mundo dado!

Aquele exército que é feito

Do quanto em Portugal é o mundo

E enche este mundo vasto e estreito

De ser profundo.

Para a obra que há que prometer

Ao nosso esforço alado em si,

Convoco todos sem saber

(É a Hora!) aqui!

Os que, soldados da alta glória,

Deram batalhas com um nome,

E de cuia alma a voz da história

Tem sede e fome.

E os que, pequenos e mesquinhos,

No ver e crer da externa sorte,

Convoco todos sem saber

Com vida e morte.

Sim, estes, os plebeus do Império;

Heróis sem ter para quem o ser,

Chama-os aqui, ó som etéreo

Que vibra a arder!

E, se o futuro é já presente

Na visão de quem sabe ver,

Convoca aqui eternamente

Os que hão de ser!

Todos, todos! A hora passa,

O gênio colhe-a quando vai.

Vibra! Forma outra e a mesma raça

Da que se esvai.

A todos, todos, feitos num

Que é Portugal, sem lei nem fim,

Convoca, e, erguendo-os um a um,

Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,

Oculta neste mundo misto.

Seu peito atrai, rubra e templária,

A Cruz de Cristo.

Glosam, secretos, altos motes,

Dados no idioma do Mistério —

Soldados não, mas sacerdotes,

Do Quinto império.

Aqui! Aqui! Todos que são.

O Portugal que é tudo em si,

Venham do abismo ou da ilusão,

Todos aqui!

Armada intérmina surgindo,

Sobre ondas de uma vida estranha.

Do que por haver ou do que é vindo —

É o mesmo: venha!

Vós não soubesses o que havia

No fundo incógnito da raça,

Nem como a Mão, que tudo guia,

Seus planos traça.

Mas um instinto involuntário,

Um ímpeto de Portugal,

Encheu vosso destino vário

De um dom fatal.

De um rasgo de ir além de tudo,

De passar para além de Deus,

E, abandonando o Gládio e o escudo,

Galgar os céus.

Titãs de Cristo! Cavaleiros

De uma cruzada além dos astros,

De que esses astros, aos milheiros,

São só os rastros.

Vibra, estandarte feito som,

No ar do mundo que há de ser.

Nada pequeno é justo e bom.

Vibra a vencer!

Transcende a Grécia e a sua história

Que em nosso sangue continua!

Deixa atrás Roma e a sua glória

E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor

E a todos chama ao mundo visto.

Hereges por um Deus maior

E um novo Cristo!

Vinde aqui todos os que sois,

Sabendo-o bem, sabendo-o mal,

Poetas, ou Santos ou Heróis

De Portugal.

Não foi para servos que nascemos

De Grécia ou Roma ou de ninguém.

Tudo negamos e esquecemos:

Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!

Grita a nossa ânsia já ciente

Que o seu inteiro vôo libra

De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!

Vibra! E tu mesmo, voz a arder,

O Portugal de Deus proclama

Com o fazer!

O Portugal feito Universo,

Que reúne, sob amplos céus,

O corpo anônimo e disperso

De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta

Do fundo surdo do Destino,

E, como a Grécia, obscuro canta

Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,

Que, universal perante a Cruz,

Reza, ante à Cruz universal,

Do Deus Jesus.

Para Além Doutro Oceano de C[oelho] Pacheco

Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano Houve posições dum viver mais claro e mais límpido E aparências duma cidade de seres

Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro Todos viviam na vida dos restantes

E a maneira de sentir estava no modo de se viver Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser E houve pasmos de toda a realidade ser só isto Mas a vida era a vida e só era a vida

O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente Com a mesma doçura duma máquina untada que se move sem fazer barulho Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me imóvel Para não desmanchar o equilíbrio que me faz tê-lo desse modo Pressinto que é nesses momentos que o meu pensamento é claro Mas eu não o oiço e silencioso ele trabalha sempre de mansinho Como uma máquina untada movida por uma correia E não posso ouvir senão o deslizar sereno das peças que trabalham Eu lembro-me às vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto como eu Mas dizem que lhes dói a cabeça ou sentem tonturas Esta lembrança veio-me como me podia vir outra qualquer Como por exemplo a de que eles não sentem esse deslizar E não pensam em que o não sentem

Neste salão antigo em que as panóplias de armas cinzentas São a forma dum arcaboiço em que há sinais doutras eras Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras, Aquele segredo de alma que é a causa de eu viver Se fito na panóplia o olhar mortificado em que há desejos de não ver Toda a estrutura férrea desse arcaboiço que eu pressinto não sei por quê Se apossa do meu senti-la como um clarão de lucidez Há som no serem iguais dois elmos que me escutam A sombra das lanças de ser nítida marca a indecisão das palavras Dísticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim Oiço já as coroações de heróis que hão de celebrar-me E sobre este vício de sentir encontro-me nos mesmos espasmos Da mesma poeira cinzenta das armas em que há sinais doutras eras Quando entro numa sala grande e nua à hora do crepúsculo E que tudo é silêncio ela tem para mim a estrutura duma alma É vaga e poeirenta e os meus passos têm ecos estranhos Como os que ecoam na minha alma quando eu ando Por suas janelas tristes, entra a luz adormecida de lá de fora E projeta na parede escura em frente as sombras e as penumbras Uma sala grande e vazia é uma alma silenciosa E as correntes de ar que levantam pó são os pensamentos Um rebanho de ovelhas, é uma coisa triste

Porque lhe não, devemos poder associar outras idéias que não sejam tristes E porque assim é e só porque assim é porque é verdade Que devemos associar idéias tristes a um rebanho de ovelhas Por esta razão e só por esta razão é que as ovelhas são realmente tristes Eu roubo por prazer quando me dão um objeto de valor E eu dou em troca uns bocados de metal. Esta idéia não é comum nem banal Porque eu encaro-a de modo diferente e não há relação entre um metal e outro objeto Se eu fosse comprar latão e desse alcachofras prendiam-me Eu gostava de ouvir qualquer pessoa expor e explicar O modo como se pode deixar de pensar em que se pensa que se faz uma coisa E assim perderia o receio que tenho de que um dia venha a saber Que o pensar eu em coisas e no pensar não passa duma coisa material e perfeita A posição dum corpo não é indiferente para o seu equilíbrio E a esfera não é um corpo porque não tem forma Se é assim e se todos ouvimos um som em qualquer posição Infiro que ele não deve ser um corpo

Mas os que sabem por intuição que o som não é um corpo Não seguiram o meu raciocínio e essa noção assim não lhes serve para nada Quando me lembro que há pessoas que jogam as palavras para fazerem espírito E se riem por isso e contam casos particulares da vida de cada um Para assim se desenfastiarem e que acham graça aos palhaços de circo E se incomodam por lhes cair uma nódoa de azeite no fato novo Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu não compreendo Na arte de cada operário vejo toda uma geração a esbater-se E por isso eu não compreendo arte nenhuma e vejo essa geração O operário não vê na sua arte nada duma geração E por isso ele é operário e conhece a sua arte O meu físico é muitas vezes causa de eu me amargurar Eu sei que sou uma coisa a porque não sou diferente de uma coisa qualquer Sei que as outras coisas serão como eu e têm de pensar que eu sou uma coisa comum Se portanto assim é eu não penso mas julgo que penso E esta maneira de me eu acondicionar é boa e alivia-me Eu amo as alamedas de árvores sombrias e curvas E ao caminhar em alamedas extensas que o meu olhar afeiçoa Alamedas que o meu olhar afeiçoa sem que eu saiba como Elas são portas que se abrem no meu ser incoerente E são sempre alamedas que eu sinto quando o pasmo de ser assim me distingue Muitas vezes oculto-me sensações e gostos

E então elas variam e estão em acordo com as dos outros Mas eu não as sinto e também não sei que me engano Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é Mas porque não posso viver figuradamente

E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la Há coisas belas que são belas em si

Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas E se elas são belas nós não as sentimos

Na seqüência dos passos não posso ver mais que a seqüência dos passos E eles seguem-se como se eu os visse seguirem-se realmente Do fato deles serem tão iguais a si mesmo

E de não haver uma seqüência de passos que o não seja É que eu vejo a necessidade de nos não iludirmos sobre o sentido claro das coisas Assim havíamos de julgar que um corpo inanimado sente e vê diferentemente de nós E esta noção pode ser admissível demais seria incômoda e fútil Se quando pensamos podemos deixar de fazer movimento e de falar Para que é preciso supor que as coisas não pensam Se esta maneira de as ver é incoerente e fácil para o espírito?

Devemos supor e este é o verdadeiro caminho

Que nós pensamos pelo fato de o podermos fazer sem nos mexermos nem falar Como fazem as coisas inanimadas

Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qualquer surge E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes Esta maneira de dizer não é figurada

E eu sei que ela redemoinha em volta de mim como uma borboleta em volta de uma luz Vejo-lhe sintomas de cansaço e horrorizo-me quando julgo que ela vai cair Mas de nunca suceder isso acontece eu estar às vezes isolado Há pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona E outras que se não impressionam

Mas o arranhar das paredes é sempre igual

E a diferença vem das pessoas. Mas se há diferença entre este sentir Haverá diferença pessoal no sentir das outras coisas E quando todos, pensem igual duma coisa é porque ela é diferente para cada um A memória é a faculdade de saber que havemos de viver Portanto os amnésicos não podem saber que vivem Mas eles são como eu infelizes e eu sei que estou vivendo e hei de viver Um objeto que se atinge um susto que se tem

São tudo maneiras de se viver para os outros Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços Depois de comer quantas pessoas se sentam em cadeiras de balanço Ajeitam-se nas almofadas fecham os olhos e deixam-se viver Não há luta entre o viver e a vontade de não viver Ou então — e isto é horroroso para mim — se há realmente essa luta Com um tiro de pistola matam-se tendo primeiro, escrito cartas Deixar-se viver é absurdo como um falar em segredo Os artistas de circo são superiores a mim

Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo E dão os saltos só por os dar

E se eu desse um salto havia de querer saber por que o dava E não os dando entristecia-me

Eles não são capazes de dizer como é que os dão Mas saltam como só eles sabem saltar

E nunca perguntaram a si mesmos se realmente saltam Porque eu quando vejo alguma coisa

Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam E se as visse também podia supor que elas sucediam Uma ave é sempre bela porque é uma ave

E as aves são sempre belas

Mas uma ave sem penas é repugnante como um sapo E um montão de penas não é belo

Deste fato tão nu em si não sei induzir nada E sinto que deve haver nele alguma grande verdade O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez E deste modo eu vivo para que os outros saibam que vivem Às vezes ao pé dum muro vejo um pedreiro a trabalhar E a sua maneira de existir e de poder ser visto é sempre diferente do que julgo Ele trabalha e há um incitamento dirigido que move os seus braços Como é que acontece estar ele trabalhando por uma vontade que tem disso E eu não esteja trabalhando nem tenha vontade disso E não possa ter compreensão dessa possibilidade?

Ele não sabe nada destas verdades mas não é mais feliz do que eu com certeza Em áleas doutros parques pisando as folhas secas Sonho às vezes que sou para mim e que tenho de viver Mas nunca passa este ver-me de ilusão

Porque me vejo afinal nas áleas desse parque Pisando as folhas secas que me escutam

Se pudesse ao menos ouvir estalar as folhas secas Sem ser eu que as pisasse ou sem que elas me vissem Mas as folhas secas redemoinham e eu tenho de as pisar Se ao menos nesta travessia eu tivesse um outro como toda a gente Uma obra-prima não passa de ser uma obra qualquer E portanto uma obra qualquer é uma obra-prima Se este raciocínio é falso não é falsa a vontade Que eu tenho de que ele seja de fato verdadeiro E para os usos do meu pensar isso me basta

Que importa que uma idéia seja obscura se ela é uma idéia E uma idéia não pode ser menos bela do que outra Porque não pode haver diferença entre duas idéias E isto é assim porque eu vejo que isto tem de ser assim Um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa

E os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos Como outros quaisquer. Se vejo alguém olhando-me Começo sem querer a pensar como toda a gente E é tão doloroso isso como se me marcassem a alma a ferro em brasa Mas como posso eu saber se é doloroso marcar a alma a ferro em brasa Se um ferro em brasa é uma idéia que eu não compreendo O descaminho que levaram as minhas virtudes comove-me Compunge-me sentir que posso notar se quiser a falta delas Eu gostava de ter as minhas virtudes gostosas que me preenchessem Mas só para poder gozar e possuí-las e serem minhas essas virtudes Há pessoas que dizem sentir o coração despedaçado Mas não entrevistam sequer o que seria de bom Sentir despedaçarem-nos o coração

Isso é uma coisa que se não sente nunca

Mas não é essa a razão por que seria uma felicidade sentir o coração despedaçado Num salão nobre de penumbra em que há azulejos Em que há azulejos azuis colorindo as paredes E de que o chão é escuro e pintado e com passadeiras de juta Dou entrada às vezes coerente por demais

Sou naquele salão como qualquer pessoa

Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas É uma tristeza feita de silêncio desnivelada Pelas janelas reticuladas entre a luz quando é dia, Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recantos montões de negrume Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões E tudo é dolorido neste solar de velharias

Alegra-me às vezes passageiramente pensar que hei de morrer E serei encerrado num caixão de pau cheirando a resina O meu corpo há de derreter-se para líquidos espantosos As feições desfar-se-ão em vários podres coloridos E irá aparecendo a caveira ridícula por baixo Muito suja e muito cansada a pestanejar

Quadras ao Gosto Popular

Cantigas de portugueses

São como barcos no mar —

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.

Eu tenho um colar de pérolas

Enfiado para te dar:

As per'las são os meus beijos,

O fio é o meu penar.

A terra é sem vida, e nada

Vive mais que o coração...

E envolve-te a terra fria

E a minha saudade não!

Deixa que um momento pense

Que ainda vives ao meu lado...

Triste de quem por si mesmo

Precisa ser enganado!

Morto, hei de estar ao teu lado

Sem o sentir nem saber...

Mesmo assim, isso me basta

P'ra ver um bem em morrer.

Não sei se a alma no Além vive...

Morreste! E eu quero morrer!

Se vive, ver-te-ei; se não,

Só assim te posso esquecer.

Se ontem à tua porta

Mais triste o vento passou —

Olha: levava um suspiro...

Bem sabes quem to mandou...

Entreguei-te o coração,

E que tratos tu lhe deste!

É talvez por 'star estragado

Que ainda não mo devolveste ...

A caixa que não tem tampa

Fica sempre destapada

Dá-me um sorriso dos teus

Porque não quero mais nada.

Tens o leque desdobrado

Sem que estejas a abanar.

Amor que pensa e que pensa

Começa ou vai acabar.

Duas horas te esperei

Dois anos te esperaria.

Dize: devo esperar mais?

Ou não vens porque inda é dia?

Toda a noite ouvi no tanque

A pouca água a pingar.

Toda a noite ouvi na alma

Que não me podes amar.

Dias são dias, e noites

São noites e não dormi...

Os dias a não te ver

As noites pensando em ti.

Trazes a rosa na mão

E colheste-a distraída...

E que é do meu coração

Que colheste mais sabida?

Teus olhos tristes, parados,

Coisa nenhuma a fitar...

Ah meu amor, meu amor,

Se eu fora nenhum lugar!

Depois do dia vem noite,

Depois da noite vem dia

E depois de ter saudades

Vêm as saudades que havia.

No baile em que dançam todos

Alguém fica sem dançar.

Melhor é não ir ao baile

Do que estar lá sem lá estar.

Vale a pena ser discreto?

Não sei bem se vale a pena.

O melhor é estar quieto

E ter a cara serena.

Rosmaninho que me deram,

Rosmaninho que darei,

Todo o mal que me fizeram

Será o bem que eu farei.

Tenho um relógio parado

Por onde sempre me guio.

O relógio é emprestado

E tem as horas a fio.

Quando é o tempo do trigo

É o tempo de trigar,

A verdade é um postigo

A que ninguém vem falar.

Levas chinelas que batem

No chão com o calcanhar.

Antes quero que me matem

Que ouvir esse som parar.

Em vez da saia de chita

Tens uma saia melhor.

De qualquer modo és bonita,

E o bonita é o pior.

Levas uma rosa ao peito

E tens um andar que é teu...

Antes tivesses o jeito

De amar alguém, que sou eu.

Teus brincos dançam se voltas

A cabeça a perguntar.

São como andorinhas soltas

Que inda não sabem voar.

Tens uma rosa na mão.

Não sei se é para me dar.

As rosas que tens na cara,

Essas sabes tu guardar.

Fomos passear na quinta,

Fomos à quinta em passeio.

Não há nada que eu não sinta

Que me não faça um enleio.

Os alcatruzes da nora

Andam sempre a dar e dar,

É para dentro e pra fora

E não sabem acabar.

Ó minha menina loura,

Ó minha loura menina,

Dize a quem te vê agora

Que já foste pequenina ...

Tens um livro que não lês,

Tens uma flor que desfolhas;

Tens um coração aos pés

E para ele não olhas.

Nunca dizes se gostaste

Daquilo que te calei.

Sei bem que o adivinhaste.

O que pensaste não sei.

O vaso que dei àquem

Que não sabe quem lho deu

Há de ser posto à janela

Sem ninguém saber que, é meu.

Tive uma flor para dar

A quem não ousei dizer

Que lhe queria falar,

E a flor teve que morrer.

Quando olhaste para trás,

Não supus que era por mim.

Mas sempre olhaste, e isso faz

Que fosse melhor assim.

Todos os dias eu penso

Naquele gesto engraçado

Com que pegaste no lenço

Que estava esquecido ao lado.

Tens uma salva de prata

Onde pões os alfinetes...

Mas não tem salva nem prata

Aquilo que tu prometes.

Adivinhei o que pensas

Só por saber que não era

Qualquer das coisas imensas

Que a minh'alma sempre espera.

Ouvi-te cantar de dia.

De noite te ouvi cantar.

Ai de mim, se é de alegria!

Ai de mim, se é de penar!

Por um púcaro de barro

Bebe-se a água mais fria.

Quem tem tristezas não dorme,

Vela para ter alegria.

O malmequer que arrancaste

Deu-te nada no seu fim,

Mas o amor que me arrancaste,

Se deu nada, foi a mim.

Teu xaile de seda escura

É posto de tal feição

Que alegre se dependura

Dentro do meu coração.

O manjerico comprado

Não é melhor que o que dão.

Põe o manjerico ao lado

E dá-me o teu coração.

Rosa verde, rosa verde,...

Rosa verde é coisa que há?

É uma coisa que se perde

Quando a gente não está lá.

A rosa que se não colhe

Nem por isso tem mais vida.

Ninguém há que te não olhe

Que te não queira colhida.

Há verdades que se dizem

E outras que ninguém dirá.

Tenho uma coisa a dizer-te

Mas não sei onde ela está.

Quando ao domingo passeias

Levas um vestido claro.

Não é o que te conheço

Mas é em ti que reparo.

Tenho vontade de ver-te

Mas não sei como acertar.

Passeias onde não ando,

Andas sem eu te encontrar.

Andorinha que passaste,

Quem é que te esperaria?

Só quem te visse passar.

E esperasse no outro dia.

Nuvem do céu, que pareces

Tudo quanto a gente quer,

Se tu, ao menos, me desses

O que se não pode ter!

O burburinho da água

No regato que se espalha

É como a ilusão que é mágoa

Quando a verdade a baralha.

Leve sonho, vais no chão

A andares sem teres ser.

És como o meu coração

Que sente sem nada ter.

Vai alta a nuvem que passa.

Vai alto o meu pensamento

Que é escravo da tua graça

Como a nuvem o é do vento.

Ambos à beira do poço

Achamos que é muito fundo.

Deita-se a pedra, e o que eu ouço

É teu olhar, que é meu mundo.

Aquela senhora velha

Que fala com tão bom modo

Parece ser uma abelha

Que nos diz: "Não incomodo".

Maria, se eu te chamar,

Maria, vem cá dizer

Que não podes cá chegar.

Assim te consigo ver.

Boca com olhos por cima

Ambos a estar a sorrir...

Já sei onde está a rima

Do que não ouso pedir.

Quem lavra julga que lavra

Mas quem lavra é o que acontece...

Não me dás uma palavra

E a palavra não me esquece.

Tinhas um pente espanhol

No cabelo Português,

Mas quando te olhava o sol,

Eras só quem Deus te fez.

Boca de riso escarlate

E de sorriso de rir...

Meu coração bate, bate,

Bate de te ver e ouvir.

Quem me dera, quando fores

Pela rua sem me ver,

Supor que há coisas melhores

E que eu as pudera ter.

Acendeste uma candeia

Com esse ar que Deus te deu.

Já não é noite na aldeia

E, se calhar, nem no céu.

Eu te pedi duas vezes

Duas vezes, bem o sei,

Que por fim me respondesses

Ao que não te perguntei.

Não digas mal de ninguém

Que é de ti que dizes mal.

Quando dizes mal de alguém

Tudo no mundo é igual.

Todas as coisas que dizes

Afinal não são verdade.

Mas, se nos fazem felizes,

Isso é a felicidade.

Dás nós na linha que cose

Para que pare no fim.

Por muito que eu pense e ouse,

Nunca dás nó para mim.

Não sei em que coisa pensas

Quando coses sossegada...

Talvez naquelas ofensas

Que fazes sem dizer nada.

As gaivotas, tantas, tantas,

Voam no rio pro mar...

Também sem querer encantas,

Nem é preciso voar.

As ondas que a maré conta

Ninguém as pode contar.

Se, ao passar, ninguém te aponta,

Aponta-te com o olhar.

Todos os dias que passam

Sem passares por aqui

São dias que me desgraçam

Por me privarem de ti.

Quando cantas, disfarçando

Com a cantiga o cantar,

Parece o vento mais brando

Nesta brandura do ar.

Não sei que grande tristeza

Me fez só gostar de ti

Quando já tinha a certeza

De te amar porque te vi.

A mantilha de espanhola

Que trazias por trazer

Não te dava um ar de tola

Porque o não podias ter.

Boca de riso escarlate

Com dentes brancos no meio,

Meu coração bate, bate,

Mas bate por ter receio.

Se há uma nuvem que passa

Passa uma sombra também.

Ninguém diz que é desgraça

Não ter o que se não tem.

Tu, ao canto da janela

Sorrias a alguém da rua,

Porquê ao canto, se aquela

Posição não é a tua?

Dá-me, um sorriso ao domingo,

Para à segunda eu lembrar.

Bem sabes: sempre te sigo

E não é preciso andar.

Tens olhos de quem não quer

Procurar quem eu não sei.

Se um dia o amor vier

Olharás como eu olhei.

Pobre do pobre que é ele

E não é quem se fingiu!

Por muito que a gente vele

Descobre que já dormiu.

Não me digas que me queres

Pois não sei acreditar.

No mundo há muitas mulheres

Mas mentem todas a par.

Água que não vem na bilha

É como se não viesse.

Como a mãe, assim a filha...

Antes Deus as não fizesse.

Ó loura dos olhos tristes

Que me não quis escutar...

Quero só saber se existes

Para ver se te hei de amar.

Há grandes sombras na horta

Quando a amiga lá vai ter...

Ser feliz é o que importa,

Não importa como o ser!

O moinho de café

Mói grãos e faz deles pó.

O pó que a minh'alma é

Moeu quem me deixa só.

Dizem que não és aquela

Que te julgavam aqui.

Mas se és alguém e és bela

Que mais quererão de ti?

Tenho um livrinho onde escrevo

Quando me esqueço de ti.

É um livro de capa negra

Onde inda nada escrevi.

Olhos tristes, grandes, pretos,

Que dizeis sem me falar

Que não há filhos nem netos

De eu não querer amar.

Meu coração a bater

Parece estar-me a lembrar

Que, se um dia te esquecer,

Será por ele parar.

Quantas vezes a memória

Para fingir que inda é gente,

Nos conta uma grande história

Em que ninguém está presente

Trazes o vestido novo

Como quem sabe o que faz.

Como és bonita entre o povo,

Mesmo ficando para trás!

A tua boca de riso

Parece olhar para a gente

Com um olhar que é preciso

Para saber que se sente.

A laranja que escolheste

Não era a melhor que havia.

Também o amor que me deste

Qualquer outra mo daria.

Se o sino dobra a finados

Há de deixar de dobrar.

Dá-me os teus olhos fitados

E deixa a vida matar!

Por muito que pense e pense

No que nunca me disseste,

Teu silêncio não convence.

Faltaste quando vieste.

Tome lá, minha menina,

O ramalhete que fiz.

Cada flor é pequenina,

Mas tudo junto é feliz.

A vida é pouco aos bocados.

O amor é vida a sonhar.

Olho para ambos os lados

E ninguém me vem falar.

Dei-lhe um beijo ao pé da boca

Por a boca se esquivar.

A idéia talvez foi louca,

O mal foi não acertar.

Compras carapaus ao cento,

Sardinhas ao quarteirão.

Só tenho no pensamento

Que me disseste que não.

Duas horas te esperei.

Duas mais te esperaria.

Se gostas de mim não sei...

Algum dia há de ser dia ...

Tenho um desejo comigo

Que me traz longe de mim.

É saber se isto é contigo

Quando isto não é assim.

Leve vem a onda leve

Que se estende a adormecer,

Breve vem a onda breve

Que nos ensina a esquecer.

Quando a manhã aparece

Dizem que nasce alegria.

Isso era se Ela viesse.

Até de noite era dia.

Nuvem alta, nuvem alta,

Porque é que tão alta vais?

Se tens o amor que me falta,

Desce um pouco, desce mais!

Teu carinho, que é fingido,

Dá-me o prazer de saber

Que inda não tens esquecido

O que o fingir tem de ser.

A luva que retiraste

Deixou livre a tua mão.

Foi com ela que tocaste,

Sem tocar, meu coração.

O avental, que à gaveta

Foste buscar, não terá

Algibeira em que me meta

Para estar contigo já?

Quando vieste da festa,

Vinhas cansada e contente.

A minha pergunta é esta.

Foi da festa ou foi da gente?

Rouxinol que não cantaste,

Galo que não cantarás,

Qual de vós me empresta o canto

Para ver o que ela faz?

Quando chegaste à janela

Todos que estavam na rua

Disseram: olha, é aquela,

Tal é a graça que é tua!

Nuvem que passas no céu,

Dize a quem não perguntou

Se é bom dizer a quem deu:

"O que deste, não to dou."

"Vou trabalhando a peneira

E pensando assim assim.

Eu não nasci para freira.

Gosto que gostem de mim."

Roseiral que não dás rosas

Senão quando as rosas vêm,

Há muitas que são formosas

Sem que o amor lhes vá bem.

Ribeirinho, ribeirinho,

Que vais a correr ao léu

Tu vais a correr sozinho,

Ribeirinho, como eu.

"Vesti-me toda de novo

E calcei sapato baixo

Para passar entre o povo

E procurar quem não acho."

Tua boca me diz sim,

Teus olhos me dizem não.

Ai, se gostasses de mim

E sem saber a razão.

Quero lá saber por onde

Andaste todo este dia!

Nunca faz-bem quem se esconde

Mas onde foste, Maria?

O vaso do manjerico

Caiu da janela abaixo.

Vai buscá-lo, que aqui fico

A ver se sem ti te acho.

O cravo que tu me deste

Era de papel rosado.

Mas mais bonito era inda

O amor que Me foi negado,

Trazes os sapatos, pretos

Cinzentos de tanto pó.

Feliz é quem tiver netos

De quem tu sejas avó!

Vem de lá do monte verde

A trova que não entendo.

É um som bom que se perde

Enquanto se vai vivendo.

Moreninha, moreninha,

Com olhos pretos a rir.

Sei que nunca serás minha,

Mas quero ver-te sorrir.

Puseste a chaleira ao lume

Com um jeito de desdém.

Suma-te o diabo que sume

Primeiro quem te quer bem!

Lá vem o homem da capa

Que ninguém sabe quem é...

Se o lenço os olhos te tapa

Veio os teus olhos por fé.

Loura dos olhos dormentes,

Que são azuis e amarelos,

Se as minhas mãos fossem pentes,

Penteavam-te os cabelos.

O sino dobra a finados.

Faz tanta pena a dobrar!

Não é pelos teus pecados

Que estão vivos a saltar.

Traze-me um copo com água

E a maneira de o trazer.

Quero ter a minha mágoa

Sem mostrar que a estou a ter.

Olha o teu leque esquecido!

Olha o teu cabelo solto!

Maria, toma sentido!

Maria, senão não volto!

Já duas vezes te disse

Que nunca mais te diria

O que te torno a dizer

E fica para outro dia.

Lavadeira a bater roupa

Na pedra que está na água,

Achas minha mágoa pouca?

É muito tudo o que é mágoa.

O teu lenço foi mal posto

Pela pressa que to pôs.

Mais mal posto é o meu desgosto

Do que não há entre nós.

Olhos de veludo falso

E que fitam a entender,

Vós sois o meu cadafalso

A que subo com prazer.

Duas vezes eu tentei

Dizer-te que te queria,

E duas vezes te achei

Só a que falava e ria.

Meu coração é uma barca

Que não sabe navegar.

Guardo o linha na arca

Com um ar de o acarinhar.

Tenho um desejo comigo

Que hoje te venho dizer:

Queria ser teu amigo

Com amizade a valer.

És Maria da Piedade

Pois te chamaram assim.

Sê lá Maria à vontade,

Mas tem piedade de mim.

Tu És Maria da Graça,

Mas a que graça é que vem

Ser essa graça a desgraça

De quem a graça não tem?

Caiu no chão o novelo

E foi-se desenrolando.

Passas a mão no cabelo.

Não sei em que estás pensando.

A tua saia, que é curta,

Deixa-te a perna a mostrar:

Meu coração já se furta

A sentir sem eu pensar.

Meu amor é fragateiro.

Eu sou a sua fragata.

Alguns vão atrás do cheiro,

Outros vão só pela arreta.

Vai longe, na serra alta,

A nuvem que nela toca...

Dá-me aquilo que me falta —

Os beijos da tua boca.

HÁ um doido na nossa voz

Ao falarmos, que prendemos: