Poemas de Fagundes Varela por Luís Nicolau Fagundes Varela - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro POEMAS

Fagundes Varella

ÍNDICE

DE VOZES DA AMÉRICA

Napoleão

Soneto

Ilusão

Deixa-me!

O Vizir

Não te Esqueças de Mim!

Soneto

Elegia

Tristeza

O Exilado

Aurora

As Selvas

À Lucília

Childe-Harold

O Sabiá

Estâncias

O Mar

DE VOZES DA AMÉRICA

NAPOLEÃO

Sobre uma ilha isolada, Por negros mares banhada, Vive uma sombra exilada, De prantos lavando o chão; E esta sombra dolorida, No frio manto envolvida, Repete com voz sumida:

- Eu inda sou Napoleão.

Tremem convulsas as plagas Bravias lutam as vagas, Solta o vento horríveis pragas Nos cendais da escuridão; Mas nas torvas penedias 2

Entre fundas agonias, Ela diz às ventanias:

- Eu inda sou Napoleão.

- E serei! do céu da glória, Nem dos bronzes da memória, Nem das páginas da história Meus feitos se apagarão; Passe a noite e as tempestades, Venham remotas idades, Caiam povos e cidades,

- Sempre serei Napoleão.

Da coluna de Vendôme, O bronze, o tempo consome, Porém não apaga o nome Que tem por bronze a amplidão.

Apesar de infausto dia, Da infâmia que tripudia, Dos bretões a cobardia,

- Sempre serei Napoleão.

Nos vastos plainos do Egito, Sobre Titães de granito, Eu tenho um poema escrito Que deslumbra a solidão.

Das Ísis rasguei os véus, Entre os altares fui deus, Fiz povos escravos meus,

- Ah! inda sou Napoleão.

Desde onde o crescente brilha Até onde o Sena trilha, Tive o mundo por partilha Tive imensa adoração; E de um trono de fulgores Fiz dos grandes - servidores, Fiz dos pequenos - senhores,

- E sempre fui Napoleão.

Quando eu cortava os desertos, Vinham-me os ventos incertos De incenso e mirra cobertos Lamber-me as plantas no chão; As caravanas paravam, E os romeiros que passavam Às solidões perguntavam:

- É este o deus Napoleão?

E lá nas plagas fagueiras, Onde as brisas forasteiras, 3

Entre selvas de palmeiras Corre o sagrado Jordão, O lago dizia ao prado, O prado ao monte elevado, O monte ao céu estrelado:

- Vistes passar Napoleão!

Dizei, auras do Ocidente, Dizei, tufão inda quente Do bafejo incandescente Do não vencido esquadrão, Como é ele? é belo, ousado?

Tem o rosto iluminado?

Tem o braço denodado?

- Sempre é grande Napoleão?

E as águias no céu corriam, E os areais se volviam, E horrendas feras bramiam No imenso da solidão; Mas as vozes do deserto Se erguiam como um concerto E vinham saudar-me perto:

- Tu és, senhor, Napoleão!

- Se sou! que Marengo o conte, De Austerlitz o horizonte, E aquela soberba ponte Que transpus como o tufão!

E a minha vida de Ajácio, E o meu sublime palácio, E os pescadores do Lácio Que só dizem - Napoleão!

Se o sou! que digam as plagas, Onde do sangue nas vagas, Coberta de enormes chagas Dorme vil população;

Digam da Ásia as bandeiras, Digam longas cordilheiras, Que se abatiam, rasteiras, Ao corcel de Napoleão!

Se o sou! diga Santa Helena Onde a mais sublime cena Fechou tranqüila e serena Minha história de Titão, Digam as ondas bravias, Digam torvas penedias, Onde as rijas ventanias Vêm murmurar: - Napoleão.

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E serei! do céu, da glória, Nem dos bronzes da memória Nem das páginas da história Meus feitos se apagarão!

Assim na rocha isolada Pelas espumas banhada, Disse a sombra desterrada, De prantos lavando o chão.

As névoas rolam nos céus, Da noite escura nos véus Soltam negros escarcéus Rugidos de imprecação; Mas das sombras a espessura A face da onda escura, O salgueiro que murmura Tudo fala - Napoleão!

SONETO

Desponta a estrela d’alva, a noite morre.

Pulam no mato alígeros cantores, E doce a brisa no arraial das flores Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre Das borboletas de brilhantes cores; Soluça o arroio; diz a rola amores Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma Às carícias da aurora, ao céu risonho, Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh’alma triste e sem um sonho Repete olhando o prado, o rio, a espuma:

- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

ILUSÃO

Sinistro como um fúnebre segredo Passa o vento do Norte murmurando Nos densos pinheirais; A noite é fria e triste; solitário Atravesso a cavalo a selva escura Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos Borbulham-me no cérebro, ferventes, Como as ondas do mar, E me arrastam consigo, alucinado, À casa da formosa criatura De meu doido cismar.

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Latem os cães; as portas se franqueiam Rangendo sobre os quícios; os criados Acordem pressurosos;

Subo ligeiro a longa escadaria, Fazendo retinir minhas esporas Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado, Suavemente repousando o seio Entre sedas e flores, Toda de branco, engrinaldada a fronte, Ela me espera, a linda soberana De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido De febre e de paixão... A noite é negra, Ruge o vento no mato; Os pinheiros se inclinam, murmurando:

- Onde vai este pobre cavaleiro Com seu sonho insensato?...

DEIXA-ME!

Quando cansado da vigília insana Declino a fronte num dormir profundo, Por que teu nome vem ferir-me o ouvido, Lembrar-me o tempo que passei no mundo?

Por que teu vulto se levanta airoso, Tremente em ânsias de volúpia infinda?

E as formas nuas, e ofegante o seio, No meu retiro vens tentar-me ainda?

Por que me falas de venturas longas, Por que me apontas um porvir de amores?

E o lume pedes à fogueira extinta, Doces perfumes a polutas flores?

Não basta ainda essa existência escura, Página treda que a teus pés compus?

Nem essas fundas, perenais angústias, Dias sem crenças e serões sem luz?

Não basta o quadro de meus verdes anos Manchado e roto, abandonado ao pó?

Nem este exílio, do rumor no centro, Onde pranteio desprezado e só?

Ah! não me lembres do passado as cenas, Nem essa jura desprendida a esmo!

Guardaste a tua? a quantos outros, dize, A quantos outros não fizeste o mesmo?

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A quantos outros, inda os lábios quentes De ardentes beijos que eu te dera então, Não apertaste no vazio seio Entre promessas de eternal paixão?

Oh! fui um doido que segui teus passos, Que dei-te em versos de beleza a palma; Mas tudo foi-se, e esse passado negro Por que sem pena me despertas n’alma?

Deixa-me agora repousar tranqüilo, Deixa-me agora dormitar em paz, E com teus risos de infernal encanto Em meu retiro não me tentes mais!

O VIZIR

- Não derribes meus cedros! murmurava O gênio da floresta aparecendo Adiante de um vizir, senão eu juro Punir-te rijamente! E no entanto O vizir derribou a santa selva!

Alguns anos depois foi condenado Ao cutelo do algoz. Quando encostava A cabeça febril no duro cepo, Recuou aterrado: - “Eternos deuses!

Este cepo é de cedro!” E sobre a terra A cabeça rolou banhada em sangue!

NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM!

Não te esqueças de mim, quando erradia Perde-se a lua no sidéreo manto; Quando a brisa estival roçar-te a fronte, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares Gemer a rola na floresta escura, E a saudosa viola do tropeiro Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo, Pejar os ermos de suave encanto, Lembre-te os dias que passei contigo, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando à tardinha Se cobrirem de névoa as serranias, E na torre alvejante o sacro bronze Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno, A voz soltares modulando um canto, Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

7

Não te esqueças de mim, quando meus olhos Do sudário no gelo se apagarem, Quando as roxas perpétuas do finado Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem, E o frio tempo consumir-te o pranto, Guarda ainda uma idéia a teu poeta, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

SONETO

Eu passava na vida errante e vago Como o nauta perdido em noite escura, Mas tu te ergueste peregrina e pura Como o cisne inspirado em manso lago.

Beijava a onda num soluço mago Das moles plumas a brilhante alvura, E a voz ungida de eternal doçura Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo A teus pés afoguei a mocidade Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas ai! cedo fugiste!... da soidade, Hoje te imploro desse amor tão fundo Uma idéia, uma queixa, uma saudade!

ELEGIA

A noite era bela - dormente no espaço A lua soltava seus pálidos lumes; Das flores fugindo, corria lasciva A brisa embebida de moles perfumes.

Do ermo os insetos zumbiam na relva, As plantas tremiam de orvalho banhadas, E aos bandos voavam ligeiras falenas Nas folhas batendo com as asas douradas.

O túrbido manto das névoas errantes Pairava indolente no topo da serra; E aos astros - e às nuvens perfumes - sussurros, Suspiros e cantos partiam da terra.

Nós éramos jovens - ardentes e sós, Ao lado um do outro no vasto salão; E as brisas e a noite nos vinham no ouvido Cantar os mistérios de infinda paixão!

Nós éramos jovens - e a luz de seus olhos Brilhava incendida de eternos desejos, 8

E a sombra indiscreta do níveo corpinho Sulcava-lhe os seios em brandos arquejos!

Nós éramos jovens - e as balsas floridas O espaço inundavam - de quentes perfumes, E o vento chorava nas tílias do parque, E a lua soltava seus tépidos lumes!...

Ah! mísero aquele que as sendas do mundo Trilhou sem o aroma de pálida flor, E à tumba declina, na aurora dos sonhos, O lábio inda virgem dos beijos de amor!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os anos apontam.

O tempo descora nos risos e prantos, E os dias do homem por gozos se contam.

Assim nessa noite de mudas venturas, De louros eternos minh’alma enastrei; Que importa-me agora martírios e dores, Se outrora dos sonhos a taça esgotei?

Ah! lembra-me ainda! - nem um candelabro Lançava ao recinto seu brando clarão, Apenas os raios da pálida lua Transpondo as janelas batiam no chão.

Vestida de branco - nas cismas perdida, Seu mórbido rosto pousava em meu seio, E o aroma celeste das negras madeixas Minh’alma inundava de férvido anseio.

Nem uma palavra seus lábios queridos Nos doces espasmos diziam-me então: Que valem palavras, quando ouve-se o peito E as vidas se fundem no ardor da paixão?

Oh! céus! eram mundos... ai! mais do que mundos Que a mente invadiam de etéreo fulgor!

Poemas divinos - por Deus inspirados, E a furto contados em beijos de amor!

No fim do seu giro, da noite a princesa Deixou-nos unidos em brando sonhar; Correram as horas - e a luz da alvorada Em juras infindas nos veio encontrar!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os anos apontam...

O tempo descora nos risos e prantos, 9

E os dias do homem por dores se contam!

Ligeira... essa noite de infindas venturas Somente em minh’alma lembranças deixou...

Três meses passaram, e o sino do templo À reza dos mortos os homens chamou!

Três meses passaram - e um lívido corpo Jazia dos círios à luz funeral, E, à sombra dos mirtos, o rude coveiro Abria cantando seu leito afinal!...

Nós éramos jovens, e a senda terrestre Trilhávamos juntos, de amor a sorrir, E as flores e os ventos nos vinham no ouvido Contar os arcanos de um longo porvir!

Nós éramos jovens, e as vidas e os seios, O afeto prendera num cândido nó!

Foi ela a primeira que o laço quebrando Caiu soluçando das campas no pó!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os anos apontam, O tempo descora nos risos e prantos, E os dias do homem por dores se contam!

- 1861.

TRISTEZA

Eu amo a noite com seu manto escuro De tristes goivos coroada a fronte Amo a neblina que pairando ondeia Sobre o fastígio de elevado monte.

Amo nas plantas, que na tumba crescem, De errante brisa o funeral cicio: Porque minh’alma, como a sombra, é triste, Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo a desoras sob um céu de chumbo, No cemitério de sombria serra, O fogo-fátuo que a tremer doideja Das sepulturas na revolta terra.

Amo ao silêncio do ervaçal partido De ave noturna o funerário pio, Porque minh’alma, como a noite, é triste, Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo do templo, nas soberbas naves, De tristes salmos o troar profundo; Amo a torrente que na rocha espuma 10

E vai do abismo repousar no fundo.

Amo a tormenta, o perpassar dos ventos, A voz da morte no fatal parcel, Porque minh’alma só traduz tristeza, Porque meu seio se abrevou de fel.

Amo o corisco que deixando a nuvem O cedro parte da montanha, erguido, Amo do sino, que por morto soa, O triste dobre na amplidão perdido.

Amo na vida de miséria e lodo, Das desventuras o maldito seio, Porque minh’alma se manchou de escárnios, Porque meu seio se cobriu de gelo.

Amo o furor do vendaval que ruge, Das asas negras sacudindo o estrago; Amo as metralhas, o bulcão de fumo, De corvo as tribos em sangrento lago.

Amo do nauta o doloroso grito Em frágil prancha sobre mar de horrores, Porque meu seio se tornou de pedra, Porque minha’alma descorou de dores.

O céu de anil, a viração fagueira, O lago azul que os passarinhos beijam, A pobre choça do pastor no vale, Chorosas flores que ao sertão vicejam, A paz, o amor, a quietação e o riso A meus olhares não têm mais encanto, Porque minh’alma se despiu de crenças, E do sarcasmo se embuçou no manto.

- 1861.

O EXILADO

O exilado está só por toda a parte!

Passei tristonho dos salões no meio, Atravessei as turbulentas praças Curvado ao peso de uma sina escura; As turbas contemplaram-me sorrindo, Mas ninguém divisou a dor sem termos Que as fibras de meu peito espedaçava.

O exilado está só por toda a parte!

Quando, à tardinha, dos floridos vales Eu via o fumo se elevar tardio 11

Por entre o colmo de tranqüilo albergue, Murmurava a chorar: - Feliz aquele Que à luz amiga do fogão doméstico, Rodeado dos seus, à noite, senta-se.

O exilado está só por toda a parte!

Onde vão estes flocos de neblina Que o euro arrasta nas geladas asas?

Onde vão essas tribos forasteiras Que à tempestade se esquivar procuram?

Ah! que me importa?... também eu doidejo, E onde irei, Deus o sabe, Deus somente.

O exilado está só por toda a parte!

Desta campina as árvores são belas, São belas estas flores que se vergam Das auras estivais ao débil sopro; Mas nem a sombra que no chão se alonga, Nem o perfume que o ambiente inunda São dessa gleba divinal que adoro.

O exilado está só por toda a parte!

Mole e lascivo no tapiz da selva Serpeia o arroio, e o deslizar queixoso Peja de amor as solidões dormentes; Mas nunca o rosto refletiu-me um dia, Nem foi seu burburinho enlanguescido Que embalou minha infância a descuidosa.

O exilado está só por toda a parte!

- Por que chorais? me perguntou o mundo; Contai-nos vossa dor, talvez possamos Saná-la às gotas de elixir suave; Mas, quando eu suspendi a lousa escura Que o túmulo cobria-me da vida, Riram-se pasmos sem sondar-lhe o fundo.

O exilado está só por toda a parte!

Vi o ancião da prole rodeado Sorrir-se calmo e bendizer a Deus, Vi junto à porta da nativa choça As crianças beijarem-se abraçadas; Mas de filho ou de irmão o santo nome Ninguém me deu, e eu fui passando triste.

O exilado está só por toda a parte!

Quando verei essas montanhas altas Que o sol dourava nas manhãs de agosto?

Quando, junto à lareira, as folhas lívidas Deslembrarei de meu sombrio drama?

Doida esperança! as estações sucedem-se 12

E sem um gozo vou descendo à campa.

O exilado está só por toda a parte!

Brandas aragens, que roçais fagueiras Das maravilhas nas cheirosas frontes, Aves sem pátria, que cortais os ares, Irmãs na sorte do infeliz romeiro, Ah! levai um suspiro à pátria amada, Último alento de cansado peito.

O exilado está só por toda a parte!

Quando nas folhas de lustrosos plátanos Novos luares descansarem gratos, Já sobre a estrada de meus pés os traços O pegureiro não verá, que passa!

Mísero! ao leito de final descanso Ninguém meu sono velará chorando.

O exilado está só por toda a parte!

AURORA

Antes de erguer-se de seu leito de ouro, O rei dos astros o Oriente inunda De sublime clarão;

Antes de as asas desprender no espaço, A tempestade agita-se e fustiga O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéias que se cruzam, O pensamento eterno que se move No levante da vida,

São auras santas, arrebóis esplêndidos, Que precedem à vinda triunfante De um sol imorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido, Que do seio dos povos se levanta, Anuncia a tormenta;

Essa tormenta salutar e grande Que o manto roçará, prenhe de fogo, Na face das nações.

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos, Rebatei vossos ferros e cadeias, Algozes e tiranos!

A hora se aproxima pouco a pouco, E o dedo do Senhor já volve a folha Do livro do destino!

Grande há de ser o drama, a ação gigante, Majestosa a lição! luzes e trevas Lutarão sobre os orbes!

O abismo soltará seus tredos roncos, 13

E o frêmito dos mares agitados Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos tronos frágeis, Buscando embalde sustentar nas frontes As úmidas coroas...

Debalde!... o vendaval na fúria insana Os levará com elas, envolvidos Num turbilhão de pó!

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico Sairão de seus paços vacilantes Nos podres alicerces...

E errantes sobre a terra irão chorando, Mendigar um farrapo ao vagabundo, E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra Terrível e feroz cobrindo os campos De cruentos horrores!

O palácio e a prisão irão por terra, E um segundo dilúvio, então de sangue, O mundo lavará!

O sábio em seu retiro, estupefato, Verá tombar a imagem da ciência, Fria estátua de argila, E um pálido clarão dirá que é perto O astro divinal que às turbas míseras Conduz a redenção!

Como aos dias primeiros do universo, O globo se erguerá banhado em luzes, Reflexos de Deus;

E a raça humana sob um céu mais puro Um hino insigne enviará, prostrada Aos pés do Onipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes; Iguais e belos, sem senhor nem peias, Nem tiranos e ferros!

O amor os unirá num laço estreito, E o trânsito da vida uma romagem Se tornará celeste!

A hora se aproxima pouco a pouco; O dedo do Senhor já volve a folha Do livro do destino!...

Ergue-se a tela do teatro imenso, E o mistério infinito se desvenda Do drama do Calvário!

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AS SELVAS

Selvas do Novo Mundo, amplos zimbórios, Mares de sombra e ondas de verdura, Povo de Atlantes soberano e mudo Em cujos mantos o tufão murmura.

Salve! minh’alma vos procura embalde, Embalde triste vos estendo os braços...

Cercam-me o corpo rebatidos muros, Prendem-me as plantas enredados laços!...

Pátria da liberdade! antros profundos!

Vastos palácios! eternais castelos!

Mandai-me os gênios das sombrias grutas De meus grilhões espedaçar os elos!...

Ah! que eu não possa me esquivar dos homens, Matar a febre que meu ser consome, E entre alegrias me arrojar cantando Nas secas folhas do sertão sem nome!

Ah! que eu não possa desprender aos ermos O fogo ardente que meu crânio encerra, Gastar os dias entre o espaço e Deus Nas matas virgens da colúmbia terra!

Eu não detesto nem maldigo a vida, Nem do despeito me remorde a chaga, Mas ah! sou pobre, pequenino e débil E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Que faço triste no rumor das praças?

Que busco pasmo nos salões dourados?

Verme do lodo me desprezam todos, O pobre e os grandes de esplendor cercados!

Fere-me os olhos o clarão do mundo, Rasgam-me o seio prematuras dores, E à mágoa insana que me enluta as noites, Declino à campa na estação das flores.

E há tanto encanto nas florestas virgens, Tanta beleza do sertão na sombra, Tanta harmonia no correr do rio, Tanta delícia na campestre alfombra...

Que inda pudera reviver de novo, E entre venturas flutuar minh’alma, Fanada planta que mendiga apenas A noite, o orvalho, a viração e a calma!

À LUCÍLIA

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Se eu pudesse ao luar, Lucília bela, Queimar-te a fronte de insensatos beijos, Dobrar-te ao colo, minha flor singela, Ao fogo insano de eternais desejos; Ai! se eu pudesse de minh’alma aos elos Prender tu’alma enfebrecida e cálida, Erguer na vida os festivais castelos Que tantas noites planejaste, pálida; Ai! se eu pudesse nos teus olhos turvos Beber a vida da volúpia ao véu, Bem como os juncos sobre as ondas curvos A chuva bebem que derrama o céu, Talvez que as mágoas que meu peito ralam Em cinzas frias se perdessem logo, Como as violas que ao verão trescalam Somem-se aos raios de celeste fogo!

Oh! vem Lucília! é tão formosa a aurora Quando uma fada lhe batiza o alvor, E a madressilva, que ao frescor vapora Os ares peja de lascivo amor...

Sou moço ainda; de meu seio aos ermos Posso-te louco arrebatar comigo...

De um mundo novo na solidão sem termos Deitar-te à sombra de amoroso abrigo!

Tenho um dilúvio de ilusões na fronte, Um mundo inteiro de esperanças n’alma, Ergue-te acima de azulado monte, Terás dos gênios do infinito a palma!...

CHILDE-HAROLD

(Sobre uma página de Byron) Não te rias assim, oh! não te rias, Basta de sonhos, de ilusões fatais!

Minh’alma é nua, e do porvir às luzes Meus roxos lábios sorrirão jamais!

Que pesar me consome? ah! não procures Erguer a lousa de um pesar profundo, Nem apalpares a matéria lívida, E a lama impura que pernoita ao fundo!

Não são as flores da ambição pisadas, Não é a estrela de um porvir perdida...

Que esta cabeça coroou de sombras E a tumba inclina ao despontar da vida!

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É este enojo perenal, contínuo, Que em toda a parte me acompanha os passos, E ao dia incende-me as artérias quentes, Me aperta à noite nos mirrados braços!

São estas larvas de martírio e dores Sócias constantes do judeu maldito!

Em cuja testa, dos tufões crestada, Labéu de fogo cintilava escrito!

Quem de si mesmo desterrar-se pode?

Quem pode a idéia aniquilar que o mata?

Quem pode altivo esmigalhar o espelho Que a torva imagem de Satã retrata?

Quantos encontram inefáveis gozos Nesses prazeres, para mim tormentos!

Quantos nos mares onde a morte enxergo Abrem as velas do baixel aos ventos!

O meu destino é vaguear e sempre!

Sempre fugindo funeral lembrança...

Férreo estilete que me rasga os músculos, Voz dos abismos que me brada: - Avança!

Que pesar me consome? ai! não mais tentes, Espera a lousa de um pesar profundo, Somente a morte encontrarás nas bordas, E o inferno inteiro a praguejar no fundo!

O SABIÁ

(Cançoneta)

Oh! meu sabiá formoso, Sonoroso,

Já desponta a madrugada, Desabrocha a linda rosa Donairosa,

Sobre a campina orvalhada.

Manso o regato murmura Na verdura

Descrevendo giros mil, Some-se a estrela brilhante, Vacilante,

No horizonte cor de anil.

Ergue-te, oh! meu passarinho, De teu ninho,

Vem gozar da madrugada...

Modula teu terno canto, Doce encanto

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De minh’alma amargurada.

Vem junto à minha janela, Sobre a bela

Verdejante laranjeira, Beber o eflúvio das flores, Teus amores,

Nas asas de aura fagueira.

Desprende a voz adorada, Namorada,

Poeta da solidão,

Ah! vem lançar com encanto Mais um canto,

No livro da criação!

Oh! meu sabiá formoso, Sonoroso,

Já desponta a madrugada...

Deixa teu ninho altaneiro, Vem ligeiro

Saudar a luz da alvorada.

ESTÂNCIAS

Quando à tardinha rumorejam brisas Roubando o aroma das agrestes flores, E doce e grave, nas viçosas matas, Mais triste canto o sabiá desata, Eu lembro-me de ti!

* * *

Eu lembro-me de ti, por que tu’alma É o sol de minh’alma e de meu gênio; E neste exílio que infernal me cerca, Mísera planta, desfaleço e morro Ao frio toque de hibernal geada!

* * *

Quando das franjas do Ocidente róseo Um raio ainda me clareia o cárcere, E um tom suave de tristeza e luzes Mistura o dia à palidez da noite, Eu lembro-me de ti!

* * *

Eu lembro-me de ti, porque teu seio Guarda um tesouro de piedade santa, E nesse instante que o pesar duplica Faltam-me as vozes de teus lábios meigos 18

E o doce orvalho de amorosos olhos!

* * *

Quando nas bordas de meu leito escuro Fatais espectros de pavor se cruzam, E exausto, e lívido, eu procuro embalde O grato sono que meus olhos deixa, Eu lembro-me de ti!

* * *

Eu lembro-me de ti, porque saudosa Sonho-te a imagem soluçando ao longe, E a fronte curva, e umedecidas pálpebras, Meu nome dizes ao tufão que passa, À brisa doida que te morde as tranças!

* * *

Quando meu corpo se debate em febre, E a lava ardente nas artérias corre...

Quando cruenta, de funéreos risos, Pressinto a morte levantar-se perto, Eu lembro-me de ti!

* * *

Eu lembro-me de ti que és minha vida, Último alívio neste mundo insano, Anjo da guarda que à minh’alma aflita Pudera as trevas espancar com as asas, Lavar-lhe as manchas num Jordão de lágrimas!

* * *

Ai! tudo os homens entre nós quebraram: A paz, o riso, as esperanças áureas; Mas de teu peito me arrancar não podem, Nem a minh’alma desprender da tua!...

Eu lembro-me de ti!...

O MAR

Sacode as vagas de teu dorso imenso, Oh! profundo oceano! Ergue-as altivas Com seus frígios barretes! Em vão tentam Lutar contigo temerárias frotas, Traçar-te raias a vaidade humana!

Tu és eterno e vasto como o espaço, Livre como a vontade onipotente.

Régio manto do globo! povo infindo De soberbos Titães! gênio da força, 19

Salve três vezes!... Das espáduas amplas Derribas todo o jugo que te oprime, Tragas gigantes de carvalho e cedro, E a fronte erguendo majestosa e bela Diademas de pérolas atiras Às estrelas do céu, e ao mundo cospes A férvida saliva em desafio!

Quantos impérios celebrados, fortes Não floresceram de teu trono às bases Sublime potestade! e onde estão eles?

O que é feito de Roma, Assíria e Grécia, Cartago, a valorosa? As vagas tuas Lambiam-lhes os muros, quer nos tempos De paz e de bonança, quer na quadra Em que chuvas de setas se cruzavam À face torva das hostis falanges!

Tudo esb’roou-se, se desfez em cinzas, Sumiu-se como os traços que o romeiro Deixa de Núbia na revolta areia!

Só tu, oh! mar, sem termos, imutável Como o quadrante lúgubre do tempo, Ruges, palpitas sem grilhões nem peias!

Nunca na face desse azul sombrio, Onde tranqüilas, ao chorar das brisas, Poesias do céu, flores do éter, As estrelas se miram namoradas...

Nunca o fogo e a lava, a guerra e a morte, A armada dos tiranos há deixado Um vestígio sequer de seus destroços!

Tal como à tarde do primeiro dia Que ao orbe clareou, hoje te ostentas Na tua majestade horrenda e bela!

Espelho glorioso onde entre fogos Se mostra onipotente, nas tormentas A face do Senhor! Monstro sublime Cujas garras de ferro o globo abraçam...

Até que um dia, quem o sabe? exausto Lance o último alento! ah! no teu seio Talvez tremendo espírito se agite, Misto sombrio de paixões sem freios, Cuja expressão vislumbra-te no rosto, Ora hediondo de compressos músculos, Ora suave como o louro infante Sobre o seio materno, ora cruento Gotejando suor, escuma e raiva!

Níobe eterna! de teu ventre túmido Os monstros dos abismos rebentaram, Em cujo dorso de argentadas conchas 20

Os raios das estrelas resvalavam: De teu lodo fecundo, inextinguível, Brotaram continentes cujas grimpas Iam bater na abóbada cerúlea; Teus paços de coral e de esmeraldas Encerravam princesas vaporosas, Louras ondinas, encantados gênios, Soberbas divindades! Entretanto Viste tudo cair! riscada a Atlântida Da face do universo, os brônzeos deuses Desterrados pra sempre, e só restou-te Uma voz gemedora que chorava:

- Já não vive o Deus Pã! oh! Pã é morto!

Oceano sem fundo! vagas túmidas Abismo de mistério, ah! desde a infância Preso na teia da atração divina Eu vos busquei sedento! sobre as praias, Curvas como os alfanjes dos eunucos, Eu me perdia nos dourados dias Da santa primavera, ouvindo os brados Dos marinhos corcéis, molhando as plantas Na gaze salitrosa que envolvia A areia cintilante! após mais tarde Sentava-me no cimo dos rochedos, Suspirando de amor aos verdes olhos, Aos moles braços que do salso leito Erguiam-se tão meigos e adorados!...

Amo-te ainda, oh! mar! amo-te muito, Mas não tranqüilo umedecendo a proa Da gôndola lasciva, nem chorando às carícias da lua! Amo-te horrível, Arrogante e soberbo, repelindo Os furacões que roçam-te nas crinas, Quebrando a asa de fogo que das nuvens Procura te domar, batendo a terra Com teus flancos robustos, levantando Triunfante e feroz no tredo espaço A cabeça estrelada de ardentias!

Amo-te assim, oh! mar, porque minh’alma Vê-te imenso e potente, desdenhoso Rindo às quimeras da cobiça humana!

Amo-te assim! ditoso no teu seio Zombo do mundo que meu ser esmaga, Sou livre como as vagas que me cercam E só a tempestade e a Deus respeito.

Salve, oceano onipotente e eterno!

Santo espelho de Deus, três vezes salve!

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DE NOTURNAS

NÉVOAS

Nas horas tardias que a noite desmaia, Que rolam na praia mil vagas azuis, E a lua cercada de pálida chama Nos mares derrama seu pranto de luz.

Eu vi entre os flocos de névoas imensas, Que em grutas extensas se elevam no ar, Um corpo de fada, serena dormindo, Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve, puríssima e nua, Um raio da lua de manso batia, E assim reclinada no túrbido leito Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas, Das verdes, cheirosas roseiras do céu, Acaso rolaste tão bela dormindo, E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte, As orlas do monte se escondem nas brumas, E queda repousas num mar de neblina, Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes, Tão frio não sentes o pranto filtrar?

E as asas de prata do gênio das noites Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo De um férvido beijo gozares em vão!...

Os astros sem alma se cansam de olhar-te, Não podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam, e as névoas tremiam, E os gênios corriam no espaço a cantar, Mas ela dormia tão pura e divina Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria, Brilhante Valquíria das brumas do norte, Não ouves ao menos do bardo os clamores, Envolta em vapores mais fria que a morte!

Oh! vem! vem, minh’alma! teu rosto gelado, Teu seio molhado de orvalho brilhante, Eu quero aquecê-los ao peito incendido, 22

Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido, Ouvindo o gemido da onda na praia, Na hora em que fogem as névoas sombrias, Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam, No leito batiam da fada divina...

Sumiram-se as brumas do vento à bafagem E a pálida imagem desfez-se em neblina!

Santos

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