Poesia por Federico García Lorca - Versão HTML

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Poemas de Federico García Lorca

(em português)

Índice

A casada infiel

As seis cordas

Às Vezes

De outra maneira

O poeta pede a seu amor que lhe escreva

Paisagem da multidão que urina

Paisagem com duas tumbas e um cão assírio

Pranto por Ignacio Sanches Mejías

Romance sonâmbulo

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Soneto da carta

Tenho Medo de Perder a Maravilha

A casada infiel

(A Lydia Cabrera

e à sua negrinha)

E eu que fui levá-la ao rio

Certo de que era donzela,

Mas bem que tinha marido.

Foi a noite de São Tiago

E quase por compromisso.

As lâmpadas se apagaram

E se acenderam os grilos.

Já nas últimas esquinas

Toquei seus peitos dormidos,

Que de pronto se me abriram

Como ramos de jacinto.

A goma de sua anágua

Vinha ranger-me no ouvido

Como seda que dez facas

Rasgassem em pedacinhos.

Sem luz de prata nas copas

As árvores têm crescido

E um horizonte de cães

Ladra bem longe do rio

Após franqueadas as brenhas,

Franqueados juncos e espinhos,

Por baixo de seus cabelos

Fiz um ninho sobre o limo.

Eu tirei minha gravata.

Ela tirou seu vestido.

Eu, cinturão e revolver.

Ela, seus quatro corpinhos.

Nem nardos nem caracóis

Têm cútis com tanto viço,

Nem os cristais sob a lua

Alumbram com igual brilho.

Sua coxas me escapavam

Como peixes surpreendidos,

Metade cheias de lume,

Metade cheias de frio.

Galopei naquela noite

Pelo melhor dos caminhos,

Montado em potra nácar

Sem rédeas e sem estribos.

As coisas que ela me disse,

Por ser homem não repito

Faz a luz do entendimento

Que eu seja assim comedido.

Suja de beijos e areia,

Eu levei-a então do rio.

Contra o vento se batiam

As baionetas dos lírios

Portei-me como quem sou.

Como gitano legítimo.

Dei-lhe cesta de costura,

Grande, de cetim palhiço,

E não quis enamorar-me,

Pois ela, tendo marido,

Me disse que era donzela

Quando eu a levava ao rio.

As seis cordas

A guitarra

faz soluçar os sonhos.

O soluço das almas

perdidas

foge por sua boca

redonda.

E, assim como a tarântula,

tece uma grande estrela

para caçar suspiros

que bóiam no seu negro

abismo de madeira.

Às Vezes

Às vezes fazemos coisas

Que não queremos fazer,

Talvez por existir

Um pingo de esperança

Esperança essa que nem sempre

Nos faz bem

Nos leva para o caminho certo

Às vezes amamos intensamente

Às vezes sonhamos os mais belos sonhos

Às vezes até odiamos

com a mesma intensidade que amamos

Mais o certo é que,

Nem sempre

“Às vezes” dura um só momento

Às vezes os “Às vezes” podem

Durar eternamente!!!

Nem sempre.

Cacida da Mão Impossível

Tradução de Oscar Mendes

Não quero mais que uma mão,

mão ferida, se possível.

Não quero mais que uma mão,

inda que passe noites mil sem cama.

Seria um lírio pálido de cal,

uma pomba atada ao meu coração,

o guarda que na noite do meu trânsito

de todo vetaria o acesso à lua.

Não quero mais que essa mão

para os diários óleos e a mortalha de minha

agonia.

Não quero mais que essa mão

para de minha morte ter uma asa.

Tudo mais passa.

Rubor sem nome mais, astro perpétuo.

O demais é o outro; vento triste

enquanto as folhas fogem debandadas.

Cacida da Mulher Estendida

Tradução de Oscar Mendes

Despida ver-te é recordar a terra.

A terra lisa, limpa de cavalos.

A terra sem um junco, forma pura

ao futuro cerrada: argêntea fímbria.

Despida ver-te é compreender a ânsia

da chuva que procura débil talhe,

ou a febre do mar de imenso rosto

sem a luz encontrar de sua face.

O sangue soará pelas alcovas

e virá com espada fulgurante,

mas tu não saberás onde se oculta

o coração de sapo ou a violeta.

Teu ventre é uma luta de raízes,

teus lábios, uma aurora sem contorno,

por sob as rosas tépidas da cama

os mortos gemem esperando vez.

Confusão

Tradução de Oscar Mendes

Meu coração

é teu coração?

Quem me reflexa pensamentos?

Quem me presta

esta paixão

sem raízes?

Por que muda meu traje

de cores?

Tudo é encruzilhada!

Por que vês no céu

tanta estrela?

Irmão, és tu

ou sou eu?

E estas mãos tão frias

são daquele?

Vejo-me pelos ocasos,

e um formigueiro de gente

anda por meu coração.

De outra maneira

Tradução de Antonio Miranda

A fogueira expõe no campo da tarde

umas lanças de cervo enfurecido.

Todo o vale se estende. Por seus lombos,

caracoleia o vento suave.

O ar cristaliza sob a névoa.

- olho de gato triste e amarelo-.

Eu, em meus olhos, passo pelos ramos.

Os amos passeiam pelo rio.

Chegam minhas coisas essenciais.

São estribilhos de estribilhos.

Entre os juncos e a baixa tarde,

que estranho que me chame Federico!

E Eu te Beijava

Tradução de Oscar Mendes

E eu te beijava

sem me dar conta

de que não te dizia:

Oh lábios de cereja!

Que grande romântica

eras!

Bebias vinagre às escondidas

de tua avó.

Toda te enfeitaste como um

arbusto de primavera.

E eu estava enamorado

de outra. Vê que pena?

De outra que escrevia

um nome sobre a areia.

Este é o Prólogo

Tradução de Oscar Mendes

Deixaria neste livro

toda minha alma.

Este livro que viu

as paisagens comigo

e viveu horas santas.

Que compaixão dos livros

que nos enchem as mãos

de rosas e de estrelas

e lentamente passam!

Que tristeza tão funda

é mirar os retábulos

de dores e de penas

que um coração levanta!

Ver passar os espectros

de vidas que se apagam,

ver o homem despido

em Pégaso sem asas.

Ver a vida e a morte,

a síntese do mundo,

que em espaços profundos

se miram e se abraçam.

Um livro de poemas

é o outono morto:

os versos são as folhas

negras em terras brancas,

e a voz que os lê

é o sopro do vento

que lhes mete nos peitos

— entranháveis distâncias. —

O poeta é uma árvore

com frutos de tristeza

e com folhas murchadas

de chorar o que ama.

O poeta é o médium

da Natureza-mãe

que explica sua grandeza

por meio das palavras.

O poeta compreende

todo o incompreensível,

e as coisas que se odeiam,

ele, amigas as chama.

Sabe ele que as veredas

são todas impossíveis

e por isso de noite

vai por elas com calma.

Nos livros seus de versos,

entre rosas de sangue,

vão passando as tristonhas

e eternas caravanas,

que fizeram ao poeta

quando chora nas tardes,

rodeado e cingido

por seus próprios fantasmas.

Poesia, amargura,

mel celeste que mana

de um favo invisível

que as almas fabricam.

Poesia, o impossível

feito possível. Harpa

que tem em vez de cordas

chamas e corações.

Poesia é a vida

que cruzamos com ânsia,

esperando o que leva

nossa barca sem rumo.

Livros doces de versos

são os astros que passam

pelo silêncio mudo

para o reino do Nada,

escrevendo no céu

as estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas

e nunca aliviadas,

as vozes dolorosas

que os poetas cantam!

Deixaria no livro

neste toda a minha alma...

Gazel da Lembrança de Amor

Tradução de Oscar Mendes

Tua lembrança não leves.

Deixa-a sozinha em meu peito,

tremor de alva cerejeira

no martírio de janeiro.

Dos que morreram separa-me

um muro de sonhos maus.

Dou pena de lírio fresco

para um coração de gesso.

A noite inteira, no horto,

meus olhos, como dois cães.

A noite inteira, correndo

os marmelos de veneno.

Algumas vezes o vento

uma tulipa é de medo,

é uma tulipa enferma

a madrugada de inverno.

Um muro de sonhos maus

me afasta dos que morreram.

A névoa cobre em silêncio

o vale gris de teu corpo.

Pelo arco do encontro

a cicuta está crescendo.

Mas deixa tua lembrança,

deixa-a sozinha em meu peito.

Gazel do Amor Imprevisto

Tradução de Oscar Mendes

O perfume ninguém compreendia

da escura magnólia de teu ventre.

Ninguém sabia que martirizavas

entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem

na praça com luar de tua fronte,

enquanto eu enlaçava quatro noites,

inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar

era um pálido ramo de sementes.

Procurei para dar-te, no meu peito,

as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,

teu corpo fugitivo para sempre,

teu sangue arterial em minha boca,

tua boca já sem luz para esta morte.

Gazel do Amor que não se Deixa Ver

Tradução de Oscar Mendes

Somente por ouvir

o sino da Vela

pus em ti uma coroa de verbena.

Granada era uma lua

afogada entre as heras.

Somente por ouvir

o sino da Vela

destrocei meu jardim de Cartagena.

Granada era uma corça

rosada pelos cataventos.

Somente por ouvir

o sino da Vela

me abrasava em teu corpo

sem saber de quem era.

O poeta pede a seu amor que lhe escreva

Amor de minhas entranhas, morte viva,

em vão espero tua palavra escrita

e penso, com a flor que se murcha,

que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte

nem conhece a sombra nem a evita.

Coração interior não necessita

o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,

tigre e pomba, sobre tua cintura

em duelo de mordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura

ou deixa-me viver em minha serena

noite da alma para sempre escura.

Paisagem com duas tumbas e um cão assírio

Tradução de Antonio Miranda

Amigo,

levanta para que ouças latir

o cão assírio.

As três ninfas do câncer estiveram dançando,

filho meu.

Trouxeram umas montanhas de lacre rubro

e uns lençóis duros onde estava o câncer

dormido.

O cavalo tinha um olho no pescoço

E a lua estava no céu tão frio

que teve de desgarrar-se seu monte de Vênus

e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

Amigo,

desperta, que os montes ainda não espiram

e as ervas de meu coração estão em outro lugar.

Não importa que estejas repleto de água do mar.

Eu amei muito tempo um menino

que tinha cem anos dentro de um punhal.

Desperta. Cala. Escuta. Incorpora-te um pouco.

O uivo é uma longa língua arroxeada de deixa

formigas de espanto e licor de lírios.

Já vem até a rocha. Não alongues tuas raízes!

Aproxima-te. Geme. Não soluces em sonhos,

amigo.

Amigo!

Levanta para que ouças uivar

o cão assírio.

Paisagem da multidão que urina

(NOCTURNO DE BATTERY PLACE)

Tradução de Anibal Fernandes

Eles ficaram sós:

esperavam a velocidade das últimas bicicletas.

Elas ficaram sós:

aguardavam a morte de uma criança no veleiro

japonês.

Eles, elas, ficaram sós,

a sonhar com os bicos que os pássaros abrem na agonia,

com o guarda-sol agudo que fura

o sapo esmagado ainda há pouco,

sob um silêncio de mil orelhas,

e bocas de água diminutas

nos desfiladeiros que resistem

ao feroz ataque da lua.

Chorava, a criança do veleiro, e os corações

partiram-se

angustiados pelo testemunho e a vigília de todas as coisas

e porque assim mesmo nomes escuros gritavam

no chão celeste de negras pegadas,

gritavam salivas e rádios de níquel.

Não importa se a criança deixa de chorar quando lhe espetam o

nem a derrota da brisa na corola do algodão,

[último alfinete,

pois há um mundo da morte com definitivos

marinheiros

que hão-de subir aos arcos e congelá-los por

detrás das árvores.

É inútil procurar o cotovelo

onde a noite se esquece da viagem

e espreitar um silêncio que não tenha

fatos rotos e cascas e pranto,

pois basta o banquete da aranha, minúsculo,

para desfazer o equilíbrio de todo o céu.

Para o gemido do veleiro Japonês não há

remédio,

nem para esta gente oculta que tropeça nas

esquinas.

Para unir as raízes num só ponto o campo morde o seu próprio rabo

e o novelo vai procurar na erva a sua ânsia

insatisfeita de longitude.

A lua! Os polícias! As sereias dos transatlânticos!

Semblante de crina, de fumo; anémonas e luvas

de borracha.

Tudo está roto nesta noite

aberta de pernas em cima dos terraços.

Tudo está roto por esses canos mornos

de uma terrível e silenciosa fonte.

Ó gente! Ó mulherzinhas! ó soldados!

Temos de viajar nos olhos dos idiotas,

campos livres onde silvam mansas cobras

deslumbradas,

paisagens cheias de sepulcros que produzem

maçãs fresquíssimas,

para nos chegar a exorbitante luz

que os ricos temem por detrás das suas lupas,

o cheiro de um só corpo com vertente dupla de

lírio e rata,

e queimar-se então esta gente que pode urinar à volta de um gemido

ou nos cristais que explicam as ondas nunca

repetidas.

Pranto por Ignacio Sanches Mejías

Tradução de Vasco Graça Moura

1

A colhida e a morte

Davam cinco da tarde.

Davam as cinco em ponto dessa tarde.

Um moço trouxe uma toalha branca

davam cinco da tarde.

Uma seira de cal já preparada

davam cinco da tarde.

Tudo o mais era a morte e só a morte

davam cinco da tarde.

O vento fez voar os algodões

davam cinco da tarde.

E o óxido semeou cristal e níquel

davam cinco da tarde.

Já lutavam a pomba e o leopardo

davam cinco da tarde.

E a coxa com uma haste desolada

davam cinco da tarde.

Começaram os dobres do bordão

davam cinco da tarde.

As campanas de arsénico e o fumo

davam cinco da tarde.

Pelas esquinas grupos de silêncio

davam cinco da tarde.

E o touro só de coração ao alto!

davam cinco da tarde.

2

O sangue derramado

Que não quero vê-la!

Dizei à lua que venha,

que eu não quero ver do sangue

de Ignacio a mancha na arena.

Que não quero vê-la!

A lua de par em par.

cavalo de nuvens quietas,

e a praça cinza do sonho

com salgueiros nas barreiras.

Que não quero vê-la!

Que a lembrança se me queima.

Ide avisar os jasmins

em sua alvura pequena!

Que não quero vê-la!

A vaca do velho mundo

passa a língua da tristeza

sobre um focinho de sangues

derramados pela arena,

e os touros de Guisando,

quase morte e quase pedra,

mugiram como dois séculos

fartos de pisar a terra,

Não.

Que não quero vê-la!

Pelos degraus sobe Ignacio,

toda a morte às costas leva.

Buscava o amanhecer

e o amanhecer não era.

Busca o seu formoso corpo

e encontra a sangria aberta.

Ah, não me digais que a veja!

Não quero sentir o jorro

em que a força desalenta;

esse jorro que ilumina

os palanques e rebenta

no veludinho e no couro

de uma multidão sedenta.

Quem me grita a mim que assome?

Ah, não me digais que a veja!

Não se fecharam seus olhos

quando viu os cornos cerca,

mas então as mães terríveis

levantaram a cabeça.

E através das ganadarias

houve um ar de vozes secretas

que gritavam a touros celestes,

maiorais de uma pálida névoa.

Não houve príncipe em Sevilha

a poder pedir-lhe meças,

nem espada qual sua espada,

nem coração tão deveras.

Como um rio de leões

a sua força soberba,

e como um torso de mármore

a desenhada prudência.

Um ar de Roma andaluza

o dourava na cabeça

em que o seu riso era um nardo

de sal e de inteligência.

Que mor toureiro na praça!

Que serrano mor na serra!

Que brando com as espigas!

nas esporas que dureza!

E que terno com o orvalho!

Que deslumbrante na feira!

Que tremendo com as últimas

bandarilhas só de treva!

Porém já dorme sem fim.

Já os musgos e a erva

abrem com dedos seguros

a flor da sua caveira.

E o seu sangue já lá vem cantando:

cantando pelos plainos e lameiras,

resvalando por hirtos cornos frios,

vacilando sem alma pela névoa,

tropeçando nos cascos aos milhares

como uma língua triste, escura, espessa,

para formar um charco de agonia

junto ao Guadalquivir lá das estrelas.

Oh branco muro de Espanha!

Oh negro muro de pena!

Oh sangria atroz de Ignacio!

Oh rouxinol dessas veias!

Não.

Que não quero vê-la!

Que não há cálice que a contenha,

que não há andorinhas pra bebê-la,

não há geada de uma luz que a esfrie,

não há canto nem dilúvio de açucenas,

não há cristal que a cubra já de prata.

Não.

Eu não quero vê-la!

3

Corpo presente

A pedra é uma fronte por onde os sonhos gemem

sem terem água curva nem ciprestes gelados.

A pedra é uma espalda para levar o tempo

com árvores de lágrimas e tiras e planetas.

Vi chuvas pardas correrem para as ondas

erguendo os ternos braços feitos crivo,

para não serem caçadas pela pedra alongada

que desata seus membros sem se empapar de

sangue.

Porque a pedra recolhe sementes, nevoeiros,

os ossos das calhandras e lobos de penumbra;

mas ela não dá sons, nem dá cristais, nem fogo, só praças e mais praças e outras praças sem

muros.

Sobre a pedra já está Ignacio o bem-nascido.

Já se acabou: que foi? Olhai sua figura:

veio a morte cobri-lo de pálidos enxofres

e pôs-lhe uma cabeça de obscuro Minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra em sua boca.

O ar enlouquecido esvaziou-lhe o peito,

e o Amor, empapado com lágrimas de neve,

vai-se aquecer no cimo das ganadarias.

Que dizem? Um silêncio com fedor repousa.

Estamos com um corpo presente que se esfuma,

com uma forma clara que teve rouxinóis

e que vemos encher-se de buracos sem fundo.

Quem enruga o sudário? Não é verdade o que diz!

Nem canta aqui ninguém, nem chora no recinto,

nem espeta as esporas, nem espanta a serpente: aqui não quero mais do que os olhos redondos

para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura.

Os que domam cavalos e dominam os rios:

os homens a quem soa o esqueleto e cantam

com uma boca cheia de sol e pedernais.

Aqui eu quero vê-los. Diante desta pedra.

Diante deste corpo com as rédeas quebradas.

Eu quero que me mostrem onde está a saída

para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me ensinem um pranto como um

rio

que tenha doces névoas e as margens mais

profundas,

para levar o corpo de Ignacio e que se perca

sem escutar o duplo resfolegar dos touros.

Que se perca na praça redonda lá da lua

que finge de menina dolente rés imóvel;

que se perca na noite sem música dos peixes

e no branco daninho do fumo congelado.

Não quero que lhe tapem a cara com um lenço

para que se acostume à morte que assim leva.

Vai-te, Ignacio: Não sintas esse quente bramido.

Dorme, voa, repousa: que também morre o mar!

4

Alma ausente

Não te conhecem touro nem figueira,

nem cavalos nem formigas do teu lar.

Não te conhece a tarde ou o menino,

porque tu estás morto para sempre.

Não te conhece a pedra no seu dorso,

nem o negro cetim onde te perdes.

Não te conhece o teu recordar mudo

porque tu estás morto para sempre.

O outono virá com os seus búzios,

uva de névoa e montes agrupados,

mas ninguém quererá fitar teus olhos

porque tu estás morto para sempre.

Porque tu estás morto para sempre,

como todos os mortos que há na Terra,

como todos os mortos que se esquecem

num monturo de cães que se apagaram.

Ninguém que te conheça. Não. Mas eu te canto.

Eu canto para já teu perfil e tua graça.

A madurez insigne do teu conhecimento.

Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.

A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce, um andaluz tão claro, tão rico de aventura.

Eu canto sua elegância com palavras que gemem

e recordo uma brisa triste pelas oliveiras.

Romance sonâmbulo

(A Gloria Giner e a

Fernando de los Rios)

Verde que te quero verde.

Verde vento. Verdes ramas.

O barco vai sobre o mar

e o cavalo na montanha.

Com a sombra pela cintura

ela sonha na varanda,

verde carne, tranças verdes,

com olhos de fria prata.

Verde que te quero verde.

Por sob a lua gitana,

as coisas estão mirando-a

e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.

Grandes estrelas de escarcha

nascem com o peixe de sombra

que rasga o caminho da alva.

A figueira raspa o vento

a lixá-lo com as ramas,

e o monte, gato selvagem,

eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...

Ela fica na varanda,

verde carne, tranças verdes,

ela sonha na água amarga.

— Compadre, dou meu cavalo

em troca de sua casa,

o arreio por seu espelho,

a faca por sua manta.

Compadre, venho sangrando

desde as passagens de Cabra.

— Se pudesse, meu mocinho,

esse negócio eu fechava.

No entanto eu já não sou eu,

nem a casa é minha casa.

— Compadre, quero morrer

com decência, em minha cama.

De ferro, se for possível,

e com lençóis de cambraia.

Não vês que enorme ferida

vai de meu peito à garganta?

— Trezentas rosas morenas

traz tua camisa branca.

Ressuma teu sangue e cheira

em redor de tua faixa.

No entanto eu já não sou eu,

nem a casa é minha casa.

— Que eu possa subir ao menos

até às altas varandas.

Que eu possa subir! que o possa

até às verdes varandas.

As balaustradas da lua

por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres

até às altas varandas.

Deixando um rastro de sangue.

Deixando um rastro de lágrimas.

Tremiam pelos telhados

pequenos faróis de lata.

Mil pandeiros de cristal

feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,

verde vento, verdes ramas.

Os dois compadres subiram.

O vasto vento deixava

na boca um gosto esquisito

de menta, fel e alfavaca.

— Que é dela, compadre, dize-me

que é de tua filha amarga?

— Quantas vezes te esperou!

Quantas vezes te esperara,

rosto fresco, negras tranças,

aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna

balançava-se a gitana.

Verde carne, tranças verdes,

com olhos de fria prata.

Ponta gelada de lua

sustenta-a por cima da água.

A noite se fez tão íntima

como uma pequena praça.

Lá fora, à porta, golpeando,

guardas-civis na cachaça.

Verde que te quero verde.

Verde vento. Verdes ramas.

O barco vai sobre o mar.

E o cavalo na montanha.

Ruína

Tradução de Oscar Mendes

Sem encontrar-se.

Viajante pelo seu próprio torso branco.

Assim ia o ar.

Logo se viu que a lua

era uma caveira de cavalo

e o ar uma maçã escura.

Detrás da janela,

com látegos e luzes se sentia

a luta da areia contra a água.

Eu vi chegarem as ervas

e lhes lancei um cordeiro que balia

sob seus dentezinhos e lancetas.

Voava dentro de uma gota

a casca de pluma e celulóide

da primeira pomba.

As nuvens, em manada,

ficaram adormecidas contemplando

o duelo das rochas contra a aurora.

Vêm as ervas, filho;

já soam suas espadas de saliva

pelo céu vazio.

Minha mão, amor. As ervas!

Pelos cristais partidos da morada

o sangue desatou suas cabeleiras.

Tu somente e eu ficamos;

prepara teu esqueleto para o ar.

Eu só e tu ficamos.

Prepara teu esqueleto;

é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,

nosso perfil sem sonho.

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome

nas noites escuras,

quando vêm os astros

beber na lua

e dormem nas ramagens

das frondes ocultas.

E eu me sinto oco

de paixão e de música.

Louco relógio que canta

mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,

nesta noite escura,

e teu nome me soa

mais distante que nunca.

Mais distante que todas as estrelas

e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então

alguma vez? Que culpa

tem meu coração?

Se a névoa se esfuma,

que outra paixão me espera?

Será tranquila e pura?

Se meus dedos pudessem

desfolhar a lua!!

Sinto

Tradução de Oscar Mendes

Sinto

que em minhas veias arde

sangue,

chama vermelha que vai cozendo

minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,

derramai água:

quando tudo se queima,

só as fagulhas voam

ao vento.

Soneto da carta

Tradução de Afonso Félix de Sousa

Amor, que a vida em morte em mim convertes,

espero em vão tua palavra escrita

e, flor a se murchar, meu ser medita

que se vivo sem mim quero perder-te.

É infinito o ar. A pedra inerte

nada sabe da sombra e não a evita.

Íntimo, o coração não necessita

do congelado mel que a lua verte.

Por ti rasguei as veias às dezenas,

tigre e pomba, cobrindo-te a cintura

com luta de mordiscos e açucenas.

Tuas palavras encham-me a loucura

ou deixa-me viver minha serena

e infinda noite da alma, escura, escura.

Tenho Medo de Perder a Maravilha

Tenho medo de perder a maravilha

de teus olhos de estátua e aquele acento

que de noite me imprime em plena face

de teu alento a solitária rosa.

Tenho pena de ser nesta ribeira

tronco sem ramos; e o que mais eu sinto

é não ter a flor, polpa, ou argila

para o gusano do meu sofrimento.

Se és o tesouro meu que oculto tenho

se és minha cruz e minha dor molhada,

se de teu senhorio sou o cão,

não me deixes perder o que ganhei

e as águas decora de teu rio

com as folhas do meu outono esquivo.

Fontes:

Antologia Poética. Tradução e seleção de

Afonso Felix de Sousa. Editora Leitura S.A.

Rio de Janeiro, 1966.

Banca de Texto (blog)

Belleliteratura (blog)

Releituras

Wikipedia

http://vidales.tripod.com/lorca.htm

http://poemargens.blogspot.com.br/

www.antoniomiranda.com.br

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    Eu Sou O Que Eu Sou Poesia por Nádia Perla
    Eu Sou O Que Eu Sou
    Eu Sou O Que Eu Sou

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    Publicado:
    Aug 2019

    Nós somos a natureza, Um só ser universal. Somos verdade, pureza... A transmutação do mal! Nós somos seres infinitos, Multidimensionais, Transparentes e boni...

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  • O que o Sol
    O que o Sol Poesia por R. K.
    O que o Sol
    O que o Sol

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    46

    Publicado:
    Apr 2019

    Da mesma autora de outros jeitos de usar a boca, best-seller com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil. o que o sol faz com as flores é uma coletânea...

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