Poesias por Júlio Dinis - Versão HTML

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POESIAS

Transportaram-me ao leito aonde a triste

Lutara na .agonia,

Era tarde! A primeira vez na vida,

Ao beijá-la, suas bênçãos não colhia I

E as lágrimas, tao fluentes na infância

Meus olhos não banhavam!

Então senti que os dias de ventura

Com ela para sempre me deixavam.

Depois os mesmos anjos, que na infância

No berço me sorriam,

Em vez das vestes cândidas d'outrora,

Agora negras túnicas cingiam.

Nunca mais como a flor na Primavera

Eu as vi radiantes;

Mas sim como no Outono ela se ostenta,

Pendendo as alvas pétalas fragrantes.

Pobres flores! tão cedo sem abrigo,

Dia a dia enlanguescem

Como as que adornam virginais capelas,

E ao fim dum baile pelo chão fenecem.

Como cândidas pombas surpreendidas

Por furiosa tormenta,

Voam amedrontadas a acolher-se

Junto à mãe que no seio as acalenta,

Assim elas também amedrontadas

Das tormentas da vida

Voam pro Céu, e no materno seio

Procuram contra elas fiel guarida.

Um dia eu vi-me só! junto ao meu berço

Os anjos não sorriam,

Nem sequer suas lágrimas saudosas

Uma a uma nas faces me caíam.

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POESIAS

Passaram tempos, e da infância aos dias

Seguiu-se uma outra idade;

Mas nem o tempo, nem paixões mais vivas

Me extinguiram a imagem da saudade.

Ainda as vejo a ambas, quando às vezes

Em sonhadas delicias,

Recordo o tempo da passada infância,

Recordo seu amor, suas carícias.

Outras vezes, mais vago o pensamento,

Num só anjo as confunde;

E então adoro essa visão querida,

Que n'aima ignotas sensações me infunde.

Se a imagem delas é como o crepúsculo

Dum dia já passado,

A nova imagem será ainda aurora

Dum dia ardentemente desejado?

Meu Deus! a flor dos campos também murcha

Vive um momento apenas;

Mas depois nova quadra veste os prados

De outro manto de rosas e açucenas.

Também as flores de infantil idade

Eu vi cair sem vida:

Deixa que a nova quadra dos vinte anos

Se adorne de uma túnica florida.

VISÃO

Não és real. Para o seres

Não foras, ó flor, tão bela;

Se à mente Deus te revela,

Não te cria o mundo, não.

Vegetas no peito do homem,

Mas não há viçoso prado

Onde te beije embriagado

O sopro da viração.

MORENA

Morena, morena

Dos olhos castanhos,

Quem te deu morena,

Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos

Não vi nunca assim.

Morena, morena

Tem pena de mim.

Morena, morena

Dos olhos rasgados,

Teus olhos, morena,

São os meus pecados.

São os meus pecados

Uns olhos assim.

Morena, morena

Tem pena de mim.

Morena, morena

Dos olhos galantes,

Teus olhos morena

São dois diamantes.

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P O E S I A S

São dois diamantes

Olhando-me assim.

Morena, morena

Tem pena de mim.

Morena, morena

Dos olhos morenos,

O olhar desses olhos

Concede-me ao menos.

Concede-me ao menos

Não sejas assim.

Morena, morena

Tem pena de mim.

De As Pupilas do Sr. Reitor.

MOMENTO DECISIVO

O Sol descia ao poente,

E florente estava o prado;

Ouviam-se auras suaves

E das aves o trinado.

Tu sentada ao pé da fonte

O horizonte contemplavas

Vias o Sol declinando

E, corando, suspiravas.

E depois... seria acaso?

Do ocaso a vista ergueste,

E, ao olhar-me, mais coraste,

Suspiraste e emudeceste.

Foi bem rápido o momento

Dum alento repentino;

Porém nesse olhar de fogo

Eu li logo o meu destino.

Nesse olhar, no rubor vivo,

No furtivo respirar...

Diz, tu mesma nessas letras

Não soletras já: amar?

1860.

Nota do Autor. — Não é muito fácil esta espécie de leitura, o sentido das letras é diferente, conforme os desejos do que as pretende decifrar e daí mil decepções e amar gos desenganos.

Eu não sei se li bem ou mal; mas é certo que depois disso, o livro parece fechado...

nao descubro caracteres novos.

CULTO SECRETO

Ouve, lânguida virgem das cidades,

A paixão que me inspiraste.

Curvada, como a flor em vaso d'ouro,

Tu, bela, me encantaste.

Eu vi-te assim pendida; a estrela d'alva

Ao surgir do oriente

Não nos envia mais saudosos raios

Do seu leito fulgente.

A viração da tarde, mais amena

No bosque, não murmura;

A alva açucena, que o vergel enfeita,

Não tem a cor mais pura.

Eu vi-te, e desde então sempre em meus sonhos

Surges, e magoada

Pareces ver as vagas desta vida

Na margem debruçada

Vejo-te então ainda, e pensativa,

Os lábios entreabertos,

Murmurando em sentida linguagem

Pensamentos incertos.

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POESIAS

Vejo-te ainda, as lágrimas ferventes

Dos olhos rebentando,

E, ao correrem nas faces, indiscretas,

Segredos revelando.

Que segredo é o teu, lãnguida virgem,

Ideal dos meus amores?

Que imaginas nos sonhos dessas noites

Tão cheias de fulgores?

Que mistério procuras no ocidente

Ao desmaiar do dia?

Ou que visão esperas, quando a aurora

Com rosas se anuncia?

Que oculto sentimento reprimido

Te faz ansiar o seio?

Que íntima dor, que pensamento acerbo?

Que indefinido enleio?

Olha, se o coração te pede amores,

Virgem, não chores, canta,

Para ti é que são as flores da vida

E a luz que nos encanta.

Tu, sim, podes amar; nas sacras aras

Dessa chama inquieta,

Ateia o sacro fogo com que inflamas

O coração do poeta.

Tu sim, podes amar; mas eu... se ao ver-te

Interrogo o futuro,

Uma voz me murmura: «Adora, mártir,

Adora, e morre obscuro».

ENFIM!

Enfim! enfim! encontrei-te.

Luz há tanto suspirada!

Raiaste, aurora fadada

Dum longo dia de amor!

Resplandece, Sol brilhante

Da primavera da vida!

Surge, surge, estrela querida,

Que tão grato é teu fulgorl

Se soubesses como ansioso

Aguardava este momento,

Que há tanto no pensamento

Me aprazia em conceber!

Se soubesses, minha esp'rança,

Que anelar ardente e incerto

Na aridez deste deserto

Me fazia esperar e crer!

Ai, bem-vinda, mensageira

Duma indizível ventura!

A uma vida de amargura,

Ridente imagem, põe fim!

Para longe esta tristeza,

Vejo enfim formosos dias!

Oh! dá-me, dá-me alegrias,

Oue me cansa a vida assim!

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POESIAS

Qual a terra desflorida

Pelas mãos do Inverno agreste,

Que de gelos a reveste,

E lhe afrouxa a luz do Sol;

Cinge as vestes de verdura,

Toda de amor palpitante,

Qual virgem junto do amante

Da Primavera ao arrebol;

Tal minh'alma envolta em trevas

Dum passado de incerteza,

Rasga o seu véu de tristeza,

Ao ver-te surgir, amor !

E num hino de alegria

Saúda a risonha aurora,

Que deslumbrante a namora

Com fatídico fulgor,

Bela flor, fragrante rosa

Nos agros campos da vida,

Entre as outras escondida,

Como pudeste florir!

Como os vendavais furiosos

Das tempestades humanas,

Em suas fúrias insanas

Te não puderam ferir?

Foi condão do Céu por certo,

Foi talvez aura celeste

Que, ao nasceres, recebeste

E em ti se difundiu;

E, forte, desceste ao mundo,

Brilhando de luz divina;

Essa luz que me fascina,

Que nas trevas me sorriu I

Também, tu, bela, aspiravas

A um futuro vago ainda?

Também uma dita infinda

Te pedia o coração?

Ai, conta-me os teus segredos,

Os teus sonhos, teus anelos,

Conta-me, quero sabê-los:

Teus sentimentos meus são.

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P O E S I A S

Diz-me se naquele instante,

Em que te vi meiga e bela,

Quando tu, formosa estrela,

Te elevaste no meu céu,

Uma voz misteriosa,

Prendendo-te em doce enleio,

Segredar-te ao ouvido veio:

«Ama! teu dia nasceu!»

Diz-me, se ao viver inquieto

Por não sei que oculta chama

Não sucede, quando se ama,

Uma existência de paz?

Se no horizonte sombrio,

Novo astro fulgurando,

Longínquas praias mostrando,

Venturas ver-te não faz?

Conta-me a vida passada

Antes do mágico instante

Em que te vi radiante

Meiga visão a sorrir.

Diz-me os teus jogos da infância

As lágrimas que verteste,

As penas que padeceste,

Sem eu as poder sentir.

Tu choravas! quando longe

Eu de ti, talvez sorria!

Tu choravas! e eu podia

Tão indiferente viver!

Oh! não! mística influência,

Que dois entes num só liga,

Embora longe, os obriga

Um com outro a padecer.

E é esse, esse o segredo

Da tristeza indefinida,

Que em certas horas da vida

Nos oprime o coração;

Esse o segredo das lágrimas,

Que de olhos virgíneos correm,

E dos suspiros que morrem

Nas asas da viração

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POESIAS

Mas deixemos o passado,

Suas penas, suas dores,

Deixemos auras melhores

Nos manda o porvir de além,

Qual no meio do oceano,

Após longínqua viagem,

Ao nauta fragrante aragem

Da Pátria falar-lhe vem.

Em que mago encantamento

Esta dita a alma me embebe!

Só quem o sente o concebe;

Não se exprime este prazer!

Bem hajas, cândida virgem!

Bem hajas tu, que no seio

De aspirações todo cheio,

O amor fizeste nascer!

*

Adeus pois, passado triste,

Longas horas de amargura;

Adeus, paz da sepultura,

Sem encantos para mim;

Adeus sofrimentos vagos,

Adeus, febris pensamentos;

Esperam-me outros momentos,

Que o amor surgiu enfim.

Acorda pois, ó minh'alma,

Chegou enfim tua festa;

E qual se adorna a floresta

Da manhã ao grato alvor,

Veste também tuas galas,

O teu mais florido manto

E leva um sentido canto

Ao sol da vida, ao amor!

Julho de 1859.

Nota do Autor. —Em vez de —enfim — antes lhe devera chamar — rebate falso.

A ser mais de que um sonho, não passou de um desejo. Não se deve portanto tirar ilações arrojadas porque seriam falsas.

METAMORFOSE

Repara: — a imóvel crisálida

Já se agitou inquieta,

Cedo, rasgando a mortalha,

Ressurgirá borboleta.

Que misteriosa influência

A metamorfose opera!

Um raio de Sol, um sopro

Ao passar, a vida gera.

Assim minh'alma, inda ontem

Crisálida entorpecida,

Já hoje treme, e amanhã

Voará cheia de vida.

Tu olhaste — e do letargo

Mago influxo me desperta;

Surjo ao amor, surjo à vida,

À luz de uma aurora incerta.

1 de Maio de 1860.

Onde vai teu pensamento

Quando, os olhos elevando,

Segues das aves ligeiras

Esse harmonioso bando?

Que te dizem os gorjeios

Dessas pobres foragidas,

Que vão procurar ao longe

Outras selvas mais floridas?

Acaso temes, como elas,

As nuvens negras, pesadas,

E os ventos que descem rápidos

Das altas serras nevadas?

Acaso invejas as asas

Desses plumosos viajantes?

Acaso aspiras à vida

Noutros climas mais distantes?

Não, querida, não receies

Do Inverno os duros rigores;

Quando do Sol falta a chama

Brilha a chama dos amores.

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Não são para nós mais lúcidas

As noites que o próprio dia?

Que onde a luz do céu falece,

A paixão é que alumia.

E o gelo, que as pobres aves

Na relva prostra sem vida,

Fundir-se-á ao fogo ardente

Da nossa paixão, querida.

18 de Outubro de 1862.

A CABREIRA

Andava a pobre cabreira

O seu rebanho a guardar

Desde que rompia o dia

Até a noite fechar.

De pequenina nos montes

Não tivera outro brincar.

Nas canseiras do trabalho

Seus dias vira passar.

Sentada no alto da serra

Pôs-se a cabreira a chorar.

Porque chorava a cabreira

Ides agora escutar:

«Ai! que triste a sina minha,

Ai! que triste o meu penar,

Que não sei de pai nem mãe

Nem de irmãos a quem amar,

«De pequenina nos montes

Nunca tive outro brincar.

Nas canseiras do trabalho

Meus dias vejo passar.»

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P O E S I A S

Mas, ao desviar seus olhos

Viu coisa que a fez pasmar:

Uma cabra toda branca

Se lhe fora aos pés deitar I

Branca toda, como a neve,

Que nem se deixa fitar,

Coberta de finas sedas

Que era coisa singular!

Nunca a tinha visto ante3

No seu rebanho a pastar,

E foi a fazer-lhe festa...

E foi para a afagar...

Eis vai a cabra fugindo

Pelos vales sem parar ;

Ia a cabreira atrás dela

Mas não a pôde alcançar.

E andaram assim três dias

E três noites, sempre a andar!

Até que às portas de uns paços

Afinal foram parar.

Chorava o' rei e a rainha

Há dez anos, sem cessar,

Que lhe roubaram a filha

Numa noite de luar.

E dez anos são passados

Sem mais dela ouvir falar;

Eis chega a cabreira à porta

A porta se foi sentar.

«Ai que bonita cabreira

Que lá em baixo vejo estar!

E uma cabra toda branca

Que nem se deixa fitar.

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POESIAS

«Meus criados e escudeiros,

Ide a cabreira buscar.»

Isto dizia a rainha,

Este foi o seu mandar.

Foram buscar a cabreira

E a cabra de a acompanhar

Até às salas do paço

Onde o rei a viu chegar.

«Pela minha c'roa de ouro

Eu quero agora apostar,

Que é esta a filha roubada

Numa noite de luar.»

Milagre! quem tal diria!

Quem tal pudera contar!

A cabrinha toda branca

Ali se pôs a falar:

«Esta é a filha roubada

Numa noite de luar,

Andou dez anos no monte

Quem nasceu para reinar!»

Que alegrias vão nos paços!

E que festas sem cessar!

A filha há tanto perdida

No trono os pais vão sentar.

E vêm damas pra vesti-la

E vêm damas pra calçar;

E as mais prendadas de todas

Para as trancas lhe enfeitar.

Vão procurar a cabrinha...

Ninguém a pôde encontrar;

Mas um anjo de asas brancas

Viram aos Céus a voar.

De As Pupilas do Sr Reitor.

NUVENS

Vês as nuvens no azul do firmamento

De brancuras ofuscantes,

Como impelidas por tufão violento

Se formam em legiões extravagantes?

Olha; acolá, reunidas uma a uma,

Um trono simbolizam;

Ali, rasgam-se em flocos, como a espuma

Das vagas crespas que em areais deslizam.

Mais longe, vês? as massas vaporosas

Informe monstro imitam,

E além, tingidas pela cor das rosas,

Paços que ocultas mágicas habitam.

Agora, vastos pórticos, ogivas,

E um longo peristilo,

Colunas, capiteis, arcadas vivas,

Arquitecturas de ignorado estilo.

Logo por esses plainos dispersadas

Pelo sopro do vento,

Como níveos cordeiros às manadas

Sucedem-se velozes cento a cento:

Ora parecem gigantescas serras

Com seus eternos gelos;

Ora planícies de nevadas terras,

E das águas boreais os caramelos:

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P O E S I A S

Ali nos representam funda gruta

E rochas diamantinas;

Acolá, mil exércitos em luta;

Mais além, mil cidades em ruinas.

E sabes tu no que essas formas vagas

Perto de nós se tornam!

Dize, quando no prado a sós divagas,

Tens visto as gotas que o vergel adornam?

Pois são esses os tronos deslumbrantes,

A ogiva preciosa,

Os fustes das colunas de diamantes,

E encantados palácios cor-de-rosa.

Esse vasto espectáculo dos ares,

Essas mágicas cenas,

A que presos estão nossos olhares,

Vê-los ao perto? são orvalho apenas.

Bem assim os projectos, áureos sonhos

Que na vida sonhamos;

Belos fantasmas, fúlgidos, risonhos,

Que nos céus do futuro divisamos.

Pois que junto de nós, essas imagens,

Essa visão querida,

Desvanecem-se, pérfidas miragens,

Fundem-se como a neve derretida;

Esp'rança no porvir, nuvens formosas,

Em que assim te deleitas,

Com esse orvalho que humedece as rosas

Hás-de vê-las em lágrimas desfeitas.

4 de Setembro de 1862.

LAVA OCULTA

Não me entendes? não suspeitas

Que esta frieza é fingida?

Não vês, .cega, que envolvida

Está nela ardente paixão?

Quando teus olhares evito,

Quando julgas que medito,

Não compreendes que me agito

Em profunda inquietação?

E julgas isto frieza?

Julgas que o meu peito é gelo?

Se o que sinto não revelo,

Julgas que isso é não sentir?

Ai, louca, que assim te iludes;

Um momento que me estudes,

Verás que tortnentas rudes

Me estão no peito a brarnir.

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P O E S I A S

Se a mão te cinjo à partida,

Não a sentes vacilante?

Diz, não vês como inconstante

Busco e evito o teu olhar?

Chamas a isto indiferença?

Não é, não, repara, pensa;

E o amor que se condensa

Para mais me devorar.

E tu não sentes... nem podes;

Pra que os olhos vejam tanto,

E, sob indiferente manto,

Descubram violento amor,

Não, não basta olhar somente;

O que o peito não pressente,

Só quando fora rebente

Pode aos olhos ter valor...

E o teu coração... outrora

Esperei que me entendesse;

Julguei que nunca esquecesse

O que na infância nasceu,

E com os olhos no futuro

Caminhei firme e seguro,

E nunca este culto puro

No peito me adormeceu-

Mas tu... Essa flor singela

Da afeição que nos unia

Se definhava e morria

Desde que outra flor surgiu;

Cenas da infância, folguedos,

Seus sorrisos, seus segredos,

Passam, como nos olmedos,

A folha que ao chão caiu.

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POESIAS

E por isso as esqueceste;

Eu não; que então já no seio

Ocultava com receio

Mais do que infantil amor.

Quando, só, em ti pensava,

E só contigo me achava,

Não te lembras? já corava,

Nem pra mais tinha valor.

Cresci, e esta idéia sempre

Afagava na lembrança;

Sempre, sempre esta esperança,

Sempre, sempre esta ilusão!

Ilusão, sim, era apenas;

Todas as passadas cenas

E recordações amenas

Riscou-tas nova paixão.

Foi uma noite. Esta idéia

Inda a conservo bem viva,

Cada dia mais se aviva

Pra mais me fazer sentir;

Desde então já não me iludo,

Foi uma noite; vi tudo,

E fiquei gelado, mudo,

Sem esperanças, sem porvir I

Um outro estranho, que importa?

Te falava com meiguice

E às palavras que te disse

Tu sorriste e ele sorriu,

E, desumana, não vias

Que o amigo de outros dias,

De cada vez que sorrias,

Cruéis angústias sentiu!

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POESIAS

Ai, noite de insónia aquela!

Tu caiçaras o passado,

Nem talvez nunca pensado

Havias nele como eu;

Quis esquecer-te, vingar-me,

A outro amor entregar-me,

Mas só consegui cansar-me;

Este amor permaneceu.

Até quando? Só Deus sabe.

Comprimido ele floresce,

Mas vive, mas não fenece,

Que já da infância ele vem;

Tu não vês, que uma outra chama

Há muito teu seio inflama,

E quando deveras se ama,

Vê-se o amante e mais ninguém?

Bom é pois que não suspeites

Que esta frieza é mentida,

Que não vejas que envolvida

Oculta ardente paixão.

Quando teus olhares evito,

Quando julgas que medito,

Nunca saibas que me agito

Em profunda inquietação.

Abril de 1860.

Nota do Autor. — Esta poesia é um enigma, que eu não decifrarei. Isto quase eqüi-vale a dizei que ficará sendo um enigma para todos e para sempre talvez.

Foi escrita o ano passado e esquecida. Encontrei-a, fiz-lhe algumas modificações

• inclui-a nesta colecção. É em grande parte imaginária.

P R E S S Á G I O

Era em florente Junho;

A Lua se ostentava

Serena em seu brilhar;

A brisa na alameda

Saudosa suspirava

Nas folhas ao passar.

Contigo, eu só no bosque

Ouvia-te, tao triste,

Soltar, mais triste, a voz;

Falavas magoada

Da paz que só existe

Da fria morte após.

E os olhos lacrimosos

Fitavas nos espaços

Da mais amena cor,

Como se desejasses

Romper terrenos laços

E o azul do céu transpor.

Calado eu te fitava,

Porém ao ver-te o pranto

Banhar-te a face assim,

Não sei que dor pungente,

Não sei que mago encanto,

Me fez falar-te enfim.

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P O E S I A S

E disse-te: «Não chores,

Na Terra é tudo flores,

No Céu é tudo luz.

Escuta os sons do bosque,

Respira os seus odores,

O aroma que seduz.»

Olhaste-me e sorriste;

E quanto não diziam

Então os olhos teus!

Quão íntima tristeza,

Que dor não reflectiam

Quando os erguestes aos céus!

E eu ficava mudo,

Olhando-te inquieto,

Sem bem te compreender;

E um ramo de cipreste,

O arbusto teu dilecto,

Vieste-me oferecer.

«Bem vês, da campa à beira

Também a flor rebenta»,

Disseste-me a sorrir,

«Também no chão da morte

De seiva se alimenta,

Também a vês florir.

«Quem vir esta campina

Virente e matizada

Viçar à luz do Sol,

Dirá, que neste manto

Se envolve a fria ossada

Do morto em seu lençol!»

De novo emudeceste,

E eu, triste, contemplei-te:

Mas não, não te entendi,

Parecia que na mágoa

Achavas um deleite,

Qual nunca igual senti!

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POESIAS

Mas cedo teus perfumes

Da Terra aos Céus subiram,

E soube tudo então!

Era uma voz profética

Das que o poeta inspiram,

Falando ao coração.

No meio dos festejos

Da estiva natureza,

Sentias só a dor,

Vias a campa aberta

E em sua profundeza

Sumir-se a esp'rança em flor.

E hoje, sim, compreendo

Tua conversa triste,

Quando comigo a sós...

E porque a entende agora?

Não sei. Talvez existe

Em mim a mesma voz.

Oh! sim, ele me mostre

No meio destas galas,

Que vejo em torno de mim,

A terra húmida e fria,

Do cemitério as valas

E o esquecimento enfim.

Abril de 1860.

Nota do Autor. — Esta é filha de um momento de spleen. Pareceu-me verdadeira então, hoje não. Estes pensamentos lúgubres acometem-me de quando em quando, mas passam. Estando dominado por eles, acho nesta produção um valor que. depois, debalde lhe procuro. Não é decerto no primeiro caso que melhor a avalio no que ela vale.

Não há ninguém que não tenha os seus momentos de hipocondria, muitos com

menos razões do que eu. Desculpem-me portanto os efeitos de um desses momentos.

JUNTO A UMA CAMPA

Que seria de ti, se desfolhada

Não fosses, linda flor, no chão da morte?

Quem pode ler na página cerrada

Do livro do futuro a ignota sorte?

Ninguém; e quantas vezes iludidos

Choramos o que é núncio de ventura?

Quantas, na esperança de prazeres mentidos,

Vemos luz onde tudo é noite escura?

Que seria de ti? Não sei. Se escuto

A voz do coração, fala de amores.

Mas quem me diz que a dor com que hoje luto

Não findará com o aroma doutras flores?

Que me diz que minh'alma, que palpita

Ao recordar-te, ó virgem desditosa,

Não viria inda um dia a ser precita

Ao fogo da paixão mais poderosa?

Quem sane ? Tudo muda: o peito do homem

Como a ondulante face do oceano;

A um volvem as paixões que nos consomem,

A outro as fúrias do vento vário e insano.

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P O E S I A S

Tudo muda! E meu seio não se exime

Da eterna lei que rege este universo:

Bênção ou maldição. Ela se exprime

Sem cessar na existência desde o berço.

E então se no porvir o ardente culto

Que eu te votava, ó sombra idolatrada,

Tivesse de findar, antes sepulto

Seja todo este amor na urna gelada.

Foste feliz talvez, talvez na vida

Tivesses de provar amarga taça,

E hoje à sombra da campa, adormecida

Colhes a prece e o pranto de quem passa.

Vivias para amar, morreste amando,

Morreste rodeada do perfume

Da divindade, e virgem, não ansiando

No pungir aflitivo do ciúme.

Morreste amando e amada. Sobre o leito

Onde tombaste inânime, sentiste

A sacra chama que me enchia o peito

E na extrema agonia inda sorriste.

Não devo lamentar-te, não. Podias

Sentir na vida dores que ignoraste;

E eu mesmo, a quem do túmulo sorrias,

Talvez te desse a coroa, que enjeitaste;

A coroa do martírio, que a não colhe

Quem verga, como tu, tão cedo à terra;

Mas sim quem vive e ao túmulo se colhe

Depois de transes de porfiada guerra.

Eu li na descrição de antigas viagens

O destino de um náufrago, que os ventos

Sobre parcéis e incógnitas voragens

De longe arremessaram violentos.

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POESIAS

Ia a desfalecer, no húmido abismo

Buscando o último leito e o eterno olvido,

Mas no esforço do extremo paroxismo

Firmou-se às rochas de um penhasco erguido.

E salvou-se! prostrado sobre as

Ao Eterno com júbilo agradece;

E, olhando ao longe as furiosas vagas,

Do destino dos mais se compadece.

Mas bem cedo na estéril penedia

Colheu o triste amargo desengano,

Vendo seguir-se um dia após um dia,

E tudo só na vastidão do oceano.

Era a mudez da campa! Em passos lentos

Se aproximava a descarnada fome;

Longos dias de horríficos tormentos

A preceder-lhe um túmulo sem nome!

Até que enfim o pobre, quase louco,

Pra fugir à tortura que o devora,

Nas próprias ondas, que evitara há pouco,

Busca o refúgio, o passamento, agora!

Nos naufrágios da vida, quantas vezes

Nós, pobres nautas, o furor das vagas

Vencemos, pra mais ríspidos reveses

Irmos sofrer em solitárias plagas!

Feliz o que sucumbe na tormenta;

Um instante de angústia... e o eterno sono

O livra do martírio que experimenta

O que sofre na Terra o abandono.

Feliz pois tu, que cedo desfolhada

Caíste, ó bela flor, no chão da morte;

Quem sabe o que na página cerrada

Do livro seu te reservava a sorte?

20 de Dezembro de 1861.

A ESPERANÇA

No passado, uma saudade,

No presente, uma amargura,

E no futuro, uma esp'rança

De imaginária ventura;

Eis no que consiste a vida

Imposta por Deus ao homem.

Nisto se consomem dias!

Nisto anos se consomem!

Saudade é flor sem perfumes

Quando ainda verdejante,

Mas à medida que murcha,

Ai, que aroma inebriante!

A amargura é duro espinho

Que nas carnes penetrando,

Faz desesperar da vida,

Suas flores definhando.

A esperança é frouxa luz

Que nas trevas nos fulgura;

Vendo-a, ousados caminhamos:

Mas, ai, que bem pouco dura;

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P O E S I A S

Quantos mais passos andados

Na agra senda desta vida,

Mais amargo é o presente,

E a saudade mais sentida.

Mas a esperança não; os anos

Fazem-lhe perder o brilho;

Caem-lhe uma a uma as folhas

Da existência pelo trilho.

A velhice nada espera,

Nada da esperança lhe dura...

Mas não, cansada da vida,

Tem a paz da sepultura.

Tem a morada fulgente

Da inteligência divina;

Tem as regiões sagradas,

Que eterno sol ilumina.

Bendito sejas, meu Deus!

Que nos dás na vida inteira

A filha dos céus, a esperança,

Por suave companheira.

Ela nos enxuga o pranto

O pranto alegre e amargoso;

Não a acusemos de pérfida,

Esperar já é um gozo.

A mente, esperando, concebe,

Concepção sempre iludida,

Prazeres talvez entrevistos

Nas cenas duma outra vida.

Esperemos, pois, companheiros

Desta fadigosa viagem!

Se a esp'rança é a imagem do gozo,

Adoremos essa imagem.

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P O E S I A S

E cruzando este oceano

Com os olhos no porvir.

Esqueçamos no presente

Seu horroroso bramir.

E quando enfim, já cansados,

Reclinarmos nossa fronte.

Que a esperança nos revele

Mais dilatado horizonte.

Agosto de 1859.

ILUDAMO-NOS

Desenganos do passado,

Não servireis ao porvir?

Sempre a perder ilusões

Sempre ilusões a sentir!

Não mais, não mais; nesta vida

Ainda esperar é loucura.

Sofrer: eis nosso destino!

Sonhar: eis toda a ventura!

Soframos pois... Não, sonhemos,

Criando mundos ideais,

E com mentidos prazeres

Curemos penas reais.

Ilusões, sede bem-vindas,

Povoai-me o pensamento:

Convosco, sim, a ventura

Se goza per um momento.