Poesias Inéditas por Fernando Pessoa - Versão HTML

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Poesias Inéditas

Fernando Pessoa

Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/fpesso.html Poemas:

A pálida luz da manhã de inverno

A 'sperança, como um fósforo inda aceso

A tua voz fala amorosa...

Aqui está-se sossegado

Aqui neste profundo apartamento

Árvore verde

As lentas nuvens fazem sono

As nuvens são sombrias

A tua carne calma

Basta pensar em sentir

Bem, hoje que estou só e, posso ver

Bóiam farrapos de sombra

Brincava a criança

Cai chuva do céu cinzento

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa

Caminho a teu lado mudo

Cansado até dos deuses que não são

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir

Canta onde nada existe

Ceifeira

Cheguei à janela

Chove. Que fiz eu da vida?

Clareia cinzenta a noite de chuva...

Começa, no ar da antemanhã

Como às vezes num dia azul e manso

Como é por dentro outra pessoa

Como nuvens pelo céu

Como um vento na floresta

Criança, era outro

De aqui a pouco acaba o dia

Deixa-me ouvir o que não ouço

Deixei atrás os erros do que fui

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã

Deixei de ser aquele que esperava

Deixo ao cego e ao surdo

Depois que o som da terra, que é não tê-lo

Depois que todos foram

Desfaze a mala feita pra a partida!

Desperto sempre antes que raie o dia

Deus não tem unidade

Deve chamar-se tristeza

Do fundo do fim do mundo

Dói-me no coração

Dói-me quem sou. E em meio da emoção

Do meio da rua

Dorme, criança, dorme

Dormir! Não ter desejos nem esperanças

Do seu longínquo reino cor-de-rosa

Doze signos do céu o Sol percorre

Durmo, cheio de nada, e amanhã

Durmo. Regresso ou espero?

E a extensa e vária natureza é triste

É boa! Se fossem malmequeres

E fala aos constelados céus

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!

É Inda Quente

E ou jazigo haja

É uma brisa leve

E, ó vento vago

Em outro mundo, onde a vontade é lei

Em toda a noite o sono não veio

Em Torno

Em torno ao candeeiro desolado

Enfia, a agulha

Entre o luar e o arvoredo

Entre o sossego e o arvoredo

Epitáfio Desconhecido

Era isso mesmo

Eram varões todos

É um campo verde e vasto

Eu

Eu amo tudo o que foi

Eu me resigno. Há no alto da montanha

Eu tenho idéias e razões

Exígua lâmpada tranqüila

Falhei. Os astros seguem seu caminho

Fito-me frente a frente ( I )

Fito-me frente a frente ( II )

Flui, indeciso na bruma

Glosa

Glosas

Gnomos do luar que faz selvas

Gostara, realmente

Gradual, desde que o calor

Grande sol a entreter

Há uma música do povo

Há um frio e um vácuo no ar

Já ouvi doze vezes dar a hora

Ladram uns cães a distância

Lá fora onde árvores São

Leve rio cimo das ervas

Mais triste do que o que acontece

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando

Mas o hóspede inconvidado

Minha alma sabe-me a antiga

Minhas mesmas emoções

Minha mulher, a solidão,

Na noite que me desconhece

Não digas nada!

Não quero rosas, desde que haja rosas

No Fim da chuva e do vento

O abismo é o muro que tenho

O Amor

O céu de todos os invernos

O meu coração quebrou-se

O ruído vário da rua

O som do relógio

Outros terão

Parece às vezes que desperta

Parece que estou sossegando

Pela rua já serena

Poemas dos Dois Exílios

Por quem foi que me trocaram?

Qual é a tarde por achar

Quanta mais alma ande no amplo informe

Que suave é o ar! Como parece

Relógio, morre

Se alguém bater um dia à tua porta

Se tudo o que há é mentira

Sim, tudo é certo logo que o não seja.

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso

Sossega, coração! Não desesperes!

Sou o Espírito da treva

Tenho esperança? Não tenho

Tenho pena até... nem sei. . .

Todas as cousas que há neste mundo

Uma maior solidão

...Vaga História

Vendaval

Vou com um passo como de ir parar A pálida luz da manhã de inverno A pálida luz da manhã de inverno, O cais e a razão

Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer, Ao meu coração.

O que tem que ser

Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio Na rua a acordar

Não há mais sossego, nem menos sossego sequer, Para o meu 'sperar.

O que tem que não ser

Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

A 'sperança, como um fósforo inda aceso A 'sperança, como um fósforo inda aceso, Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso.

A falha social do meu destino

Reconheci, como um mendigo preso.

Cada dia me traz com que 'sperar O que dia nenhum poderá dar.

Cada dia me cansa de Esperança ...

Mas viver é sperar e se cansar.

O prometido nunca será dado

Porque no prometer cumpriu-se o fado.

O que se espera, se a esperança e gosto, Gastou-se no esperá-lo, e está acabado.

Quanta ache vingança contra o fado Nem deu o verso que a dissesse, e o dado Rolou da mesa abaixo, oculta a conta.

Nem o buscou o jogador cansado.

A tua voz fala amorosa...

Qual é a tarde por achar

Em que teremos todos razão

E respiraremos o bom ar

Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star Ao pé do sossego ou do fogão?

Qual é a tarde por voltar?

Essa tarde houve, e agora não.

Qual é a mão cariciosa

Que há de ser enfermeira minha —

Sem doenças minha vida ousa —

Oh, essa mão é morta e osso ...

Só a lembrança me acarinha

O coração com que não posso.

Aqui está-se sossegado

Aqui está-se sossegado,

Longe do mundo e da vida,

Cheio de não ter passado,

Até o futuro se olvida.

Aqui está-se sossegado.

Tinha os gestos inocentes,

Seus olhos riam no fundo.

Mas invisíveis serpentes

Faziam-a ser do mundo.

Tinha os gestos inocentes.

Aqui tudo é paz e mar.

Que longe a vista se perde

Na solidão a tornar

Em sombra o azul que é verde!

Aqui tudo é paz e mar.

Sim, poderia ter sido...

Mas vontade nem razão

O mundo têm conduzido

A prazer ou conclusão.

Sim, poderia ter sido...

Agora não esqueço e sonho.

Fecho os olhos, oiço o mar

E de ouvi-lo bem, suponho

Que veio azul a esverdear.

Agora não esqueço e sonho.

Não foi propósito, não.

Os seus gestos inocentes

Tocavam no coração

Como invisíveis serpentes.

Não foi propósito, não.

Durmo, desperto e sozinho.

Que tem sido a minha vida?

Velas de inútil moinho —

Um movimento sem lida...

Durmo, desperto e sozinho.

Nada explica nem consola.

Tudo está certo depois.

Mas a dor que nos desola,

A mágoa de um não ser dois

Nada explica nem consola.

Aqui neste profundo apartamento Aqui neste profundo apartamento Em que, não por lugar, mas mente estou, No claustro de ser eu, neste momento Em que me encontro e sinto-me o que vou, Aqui, agora, rememoro

Quanto de mim deixer de ser

E, inutilmente, [....] choro

O que sou e não pude ter.

Árvore verde

Árvore verde,

Meu pensamento

Em ti se perde.

Ver é dormir

Neste momento.

Que bom não ser

'Stando acordado !

Também em mim enverdecer

Em folhas dado !

Tremulamente

Sentir no corpo

Brisa na alma !

Não ser quem sente,

Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho

Que me encantava.

Se a manhã vinha,

Como eu a odiava !

Volvia a noite,

E o sonho a mim.

Era o meu lar,

Minha alma afim.

Depois perdi-o.

Lembro ? Quem dera !

Se eu nunca soube

O que ele era.

As lentas nuvens fazem sono

As lentas nuvens fazem sono,

O céu azul faz bom dormir.

Bóio, num íntimo abandono,

À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água, O sentir que não sou alguém,

Não sou capaz de peso ou mágoa.

Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro

Saber que é ele que vai indo...

E só em sono eu vou primeiro.

E só em sonho eu vou seguindo.

As nuvens são sombrias

As nuvens são sombrias

Mas, nos lados do sul,

Um bocado do céu

É tristemente azul.

Assim, no pensamento,

Sem haver solução,

Há um bocado que lembra

Que existe o coração.

E esse bocado é que é

A verdade que está

A ser beleza eterna

Para além do que há.

Como uma voz de fonte que cessasse Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram), p'ra além dos meus palmares De sonho, a voz que do meu tédio nasce Parou... Apareceu já sem disfarce De música longínqua, asas nos ares, O mistério silente como os mares, Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longínqua só existe Para haver nela um silêncio em descida P'ra o mistério, silêncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo, O mundo, o informe mundo onde há a vida...

E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

Basta Pensar em Sentir

Basta pensar em sentir

Para sentir em pensar.

Meu coração faz sorrir

Meu coração a chorar.

Depois de parar de andar,

Depois de ficar e ir,

Hei de ser quem vai chegar

Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.

Bem, hoje que estou só e posso ver Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto se o for, serei em vão, Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz, Nem colhi nas urtigas dos meus dias

A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico Em qualquer cousa, se procurar bem, A grande indiferença com que fico.

Escrevo-o para o lembrar bem.

Bóiam farrapos de sombra

Bóiam farrapos de sombra

Em torno ao que não sei ser.

É todo um céu que se escombra

Sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas

Desfaz-se em ritmos sem forma

Nas desregradas negruras

Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz

O universo um ser desfeito,

Guardei, como a minha paz,

A 'sp'rança, que a dor me traz, Apertada contra o peito.

Brincava a criança

Brincava a criança

Com um carro de bois.

Sentiu-se brincado

E disse, eu sou dois !

Há um brincar

E há outro a saber,

Um vê-me a brincar

E outro vê-me a ver.

Estou atrás de mim

Mas se volto a cabeça

Não era o que eu qu'ria

A volta só é essa...

O outro menino

Não tem pés nem mãos

Nem é pequenino

Não tem mãe ou irmãos.

E havia comigo

Por trás de onde eu estou,

Mas se volto a cabeça

Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho

E sente comigo,

Nem pai, nem padrinho,

Nem corpo ou amigo,

Tem alma cá dentro

'Stá a ver-me sem ver,

E o carro de bois

Começa a parecer.

Cai chuva do céu cinzento

Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não, E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa, Substitui o calor.

P'ra ser feliz tanta coisa é precisa.

Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém pra mim.

Sonhando sou eu só.

A luzir, em quem não tem fim

E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira, Ao roçar por mim traz

Uma ilusão de sonho, em cuja esteira A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma, Luz da candeia além

Da eterna ausência da ansiada calma, Final do inútil bem.

Que, se quer, e, se veio, se desconhece Que, se for, seria

O tédio de o haver... E a chuva cresce Na noite agora fria.

Caminho a teu lado mudo

Caminho a teu lado mudo

Sentes-me, vês-me alheado ...

Perguntas: Sim... Não ... Não sei...

Tenho saudades de tudo...

Até, porque está passado,

Do próprio mal que passei.

Sim, hoje é um dia feliz.

Será, não será, por certo

Num princípio não sei que

Há um sentido que me diz

Que isto — o céu longe e nós perto É só a sombra do que é ...

E lembro-me em meia-amargura

Do passado, do distante, E tudo me é solidão ...

Que fui nessa morte escura?

Quem sou neste morto instante?

Não perguntes ... Tudo é vão.

Cansado até os deuses que não são Cansado até os deuses que não são...

Ideais, sonhos... Como o sol é real E na objetiva coisa universal

Não há o meu coração...

Eu ergo a mão.

Olho-a de mis, e o que ela é não sou eu.

Entre mim e o que sou há a escuridão.

Mas o que são isto a terra e o céu ?

Houvesse ao menos, visto que a verdade É falsa, qualquer coisa verdadeira De outra maneira

Que a impossível certeza ou realidade.

Houvesse ao menos, som o sol do mundo, Qualquer postiça realidade não O eterno abismo sem fundo,

Crível talvez, mas tenho coração.

Mas não há nada, salvo tudo sem mim.

Crível por fora da razão, mas sem Que a razão acordasse e visse bem; Real com o coração, inda que [...]

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir.

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir.

Alheia a nós, em nós e fora,

Rui a hora, e tudo nela rui.

Inutilmente a alma o chora.

De que serve ? O que é que tem que servir ?

Pálido esboço leve

Do sol de inverno sobre meu leito a sorrir...

Vago sussuro breve.

Das pequenas vozes com que a manhã acorda, Da fútil promessa do dia,

Morta ao nascer, na 'sperança longínqua e absurda Em que a alma se fia.

Canta Onde Nada Existe

Canta onde nada existe

O rouxinol para seu bem (?),

Ouço-o, cismo, fico triste

E a minha tristeza também (?) Janela aberta, para onde

Campos de não haver são

O onde a dríade se esconde

Sem ser imaginação.

Quem me dera que a poesia

Fosse mais do que a escrever !

Canta agora a cotovia

Sem se lembrar de viver...

Ceifeira

Mas não, é abstrata, é uma ave De som volteando no ar do ar,

E a alma canta sem entrave

Pois que o canto é que faz cantar.

Cheguei à janela

Cheguei à janela,

Porque ouvi cantar.

É um cego e a guitarra

Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,

São uma coisa só

Que anda pelo mundo

A fazer ter dó.

Eu também sou um cego

Cantando na estrada,

A estrada é maior

E não peço nada.

Chove. Que fiz eu da vida ?

Chove. Que fiz eu da vida?

Fiz o que ela fez de mim...

De pensada, mal vivida...

Triste de quem é assim!

Numa angústia sem remédio

Tenho febre na alma, e, ao ser, Tenho saudade, entre o tédio,

Só do que nunca quis ter...

Quem eu pudera ter sido,

Que é dele? Entre ódios pequenos De mim, estou de mim partido.

Se ao menos chovesse menos!

Clareia cinzenta a noite de chuva

Clareia cinzenta a noite de chuva, Que o dia chegou.

E o dia parece um traje de viúva Que já desbotou.

Ainda sem luz, salvo o claro do escuro, O céu chove aqui,

E ainda é um além, ainda é um muro Ausente de si.

Não sei que tarefa terei este dia; Que é inútil já sei...

E fito, de longe, minha alma, já fria Do que não farei.

Começa, no ar da antemanhã

Começa, no ar da antemanhã,

A haver o que vai ser o dia.

É uma sombra entre as sombras vã.

Mais tarde, quanto é a manhã

Agora é nada, noite fria.

É nada, mas é diferente

Da sombra em que a noite está; E há nela já a nostalgia

Não do passado, mas do dia

Que é afinal o que será.

Como às vezes num dia azul e manso

Como às vezes num dia azul e manso No vivo verde da planície calma Duma súbita nuvem o avanço

Palidamente as ervas escurece

Assim agora em minha pávida alma Que súbito se evola e arrefece A memória dos mortos aparece...

Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo Como que não há comunicação possível, Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;

As dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,

Com a suposição de qualquer semelhança No fundo.

Como nuvens pelo céu

Como nuvens pelo céu

Passam por mim.

Nenhum dos sonhos é meu

Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são

Enquanto a vista as conhece,

Depois são sombras que vão

Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna

Meu coração ao que foi?

Que dor de mim me transforma?

Que coisa inútil me dói?

Como um vento na floresta

Como um vento na floresta.

Minha emoção não tem fim.

Nada sou, nada me resta.

Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos

Há grandes sons de folhagem,

Também agito segredos

No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento

Que as folhas cobrem de som

Despe-me do pensamento :

Sou ninguém, temo ser bom.

Criança, era outro...

Criança, era outro...

Naquele em que me tornei

Cresci e esqueci.

Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.

Ganhei ou perdi ?

De aqui a pouco acaba o dia

De aqui a pouco acaba o dia.

Não fiz nada.

Também, que coisa é que faria ?

Fosse a que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.

Chega em vão

Para quem como eu só tem

Para o contar o coração.

E após a noite e irmos dormir

Torna o dia.

Nada farei senão sentir.

Também que coisa é que faria ?

Deixa-me ouvir o que não ouço...

Deixa-me ouvir o que não ouço...

Não é a brisa ou o arvoredo;

É outra coisa intercalada...

É qualquer coisa que não posso Ouvir senão em segredo, E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir... Não fales alto !

Um momento !... Depois o amor, Se quiseres... Agora cala !

Tênue, longínquo sobressalto Que substitui a dor, Que inquieta e embala...

O quê? Só a brisa entre a folhagem?

Talvez... Só um canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois...

Sim, torna a mim, e a paisagem E a verdadeira brisa, ruído...

Vejo-me, somos dois...

Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui, Deixei atrás os erros do que quis E que não pude haver porque a hora flui E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem Deixei nas circunstâncias do caminho, No episódio que fui e na paragem, No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa Por viajar com uma capa sua,

E a certa altura se desfaz da capa E atira com a capa para a rua.

Deixem-me o sono ! Sei que é já manhã

Deixem-me o sono ! Sei que é já manhã.

Mas se tão tarde o sono veio,

Quero, desperto, inda sentir a vã Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar A estar dormindo ainda,

E, entre a noção irreal de aqui estar, Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou Nem que, debruçado eu

Da varanda por sobre onde não estou, Nem sequer veja o céu.

Deixei de ser aquele que esperava

Deixei de ser aquele que esperava, Isto é, deixei de ser quem nunca fui...

Entre onda e onda a onda não se cava, E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava, O presente ao futuro cria e inclui.

Se os mares erguem sua fúria brava É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.

Por isso meu ser mudo se converte Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.

E sobre tudo a lua alheia verte A luz que tudo dissipa e nada vence.

Deixo ao cego e ao surdo

Deixo ao cego e ao surdo

A alma com fronteiras,

Que eu quero sentir tudo

De todas as maneiras.

Do alto de ter consciência

Contemplo a terra e o céu,

Olho-os com inocência :

Nada que vejo é meu.

Mas vejo tão atento

Tão neles me disperso

Que cada pensamento

Me torna já diverso.

E como são estilhaços

Do ser, as coisas dispersas

Quebro a alma em pedaços

E em pessoas diversas.

E se a própria alma vejo

Com outro olhar,

Pergunto se há ensejo

De por isto a julgar.

Ah. tanto como a terra

E o mar e o vasto céu,

Quem se crê próprio erra,

Sou vário e não sou meu.

Se as coisas são estilhaços

Do saber do universo,

Seja eu os meus pedaços,

Impreciso e diverso.

Se quanto sinto é alheio

E de mim sou ausente,

Como é que a alma veio

A acabar-se em ente ?

Assim eu me acomodo

Com o que Deus criou,

Deus tem diverso modo

Diversos modos sou.

Assim a Deus imito,

Que quando fez o que é

Tirou-lhe o infinito

E a unidade até.

Depois que o som da terra, que é não tê-lo

Depois que o som da terra, que é não tê-lo, Passou, nuvem obscura, sobre o vale E uma brisa afastando meu cabelo Me diz que fale, ou me diz que cale, A nova claridade veio, e o sol Depois, ele mesmo , e tudo era verdade, Mas quem me deu sentir e a sua prole?

Quem me vendeu nas hastas da vontade?

Nada. Uma nova obliquação da luz, Interregno factício onde a erva esfria.

E o pensamento inútil se conduz Até saber que nada vale ou pesa.

E não sei se isto me ensimesma ou alheia, Nem sei se é alegria ou se é tristeza.

Depois que todos foram

Depois que todos foram

E foi também o dia,

Ficaram entre as sombras

Das áleas do ermo parque

Eu e minha agonia.

A festa fora alheia

E depois que acabou

Ficaram entre as sombras

Das áleas apertadas

Quem eu fui e quem sou.

Tudo fora por todos.

Brincaram, mas enfim

Ficaram entre as sombras

Das áleas apertadas

Só eu, e eu sem mim.

Talvez que no parque antigo

A festa volte a ser.

Ficaram entre as sombras

Das áleas apertadas

Eu e quem sei não ser.

Desfaze a mala feita pra a partida !

Desfaze a mala feita pra a partida !

Chegaste a ousar a mala ?

Que importa ? Desesperar ante a inda Pois tudo a ti iguala.

Sempre serás o sonho de tim mesmo.

Vives tentando ser,

Papel rasgado de um intento, a esmo Atirado ao descrer.

Como as correias cingem

Tudo o que vais levar!

Mas é só a mala e não a ida [?]

Que há de sempre ficar !

Desperto sempre antes que raie o dia Desperto sempre antes que raie o dia E escrevo com o sono que perdi.

Depois, neste torpor em que a alma é fria, Aguardo a aurora, que já quantas vi.

Fito-a sem atenção, cinzento verde Que se azula de galos a cantar.

Que mau é não dormir ? A gente perde O que a morte nos dá pra começar.

Oh Primavera quietada, aurora, Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria, O que é que na alma lívida a colora Com o que vai acontecer no dia.

Deus não tem unidade

Deus não tem unidade,

Como a terei eu ?

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza

Isto que não sei que seja

Que me inquieta sem surpresa

Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela

Que nasce de conhecer

Que ao longe está uma estrela

E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.

Tudo mais é tudo só.

E eu deixo ir o pó que apanho

De entre as mãos ricas de pó.

Do fundo do fim do mundo

Do fundo do fim do mundo

Vieram me perguntar

Qual era o anseio fundo

Que me fazia chorar.

E eu disse, "É esse que os poetas Têm tentado dizer

Em obras sempre incompletas

Em que puseram seu ser.

Ë assim com um gesto nobre

Respondi a a quem não sei

Se me houve por rico ou pobre.

Dói-me no coração

Dói-me no coração

Uma dor que me envergonha

Quê ! Esta alma que sonha

O âmbito todo do mundo

Sofre de amor e tortura

Por tão pequena coisa...

Uma mulher curiosa

E o meu tédio profundo ?

Dói-me quem sou. E em meio da emoção

Dói-me quem sou. E em meio da emoção Ergue a fronte de torre um pensamento É como se na imensa solidão

De uma alma a sós consigo, o coração Tivesse cérebro e conhecimento.

Numa amargura artificial consisto, Fiel a qualquer idéia que não sei, Como um fingido cortesão me visto Dos trajes majestosos em que existo Para a presença artificial do rei.

Sim tudo é sonhar quanto sou e quero.

Tudo das mãos caídas se deixou.

Braços dispersos, desolado espero.

Mendigo pelo fim do desespero, Que quis pedir esmola e não ousou.

Do meio da rua

Do meio da rua

(Que é, aliás, o infinito)

Um pregão flutua,

Música num grito...

Como se no braço

Me tocasse alguém

Viro-me num espaço

Que o espaço não tem.

Outrora em criança

O mesmo pregão...

Não lembres... Descansa,

Dorme, coração !...

Dorme, criança, dorme

Dorme, criança, dorme,

Dorme que eu velarei;

A vida é vaga e informe,

O que não há é rei.

Dorme, criança, dorme,

Que também dormirei.

Bem sei que há grandes sombras Sobre áleas de esquecer,

Que há passos sobre alfombras

De quem não quer viver;

Mas deixa tudo às sombras,

Vive de não querer.

Dormir! Não Ter desejos nem 'speranças

Dormir! Não Ter desejos nem 'speranças Flutua branca a única nuvem lenta E na azul quiescência sonolenta A deusa do não-ser tece ambas as tranças.

Maligno sopro de árdua quietude Perene a fronte e os olhos aquecidos, E uma floresta-sonho de ruídos Ensombra os olhos mortos de virtude.

Ah, não ser nada conscientemente!

Prazer ou dor? Torpor o traz e alonga, E a sombra conivente se prolonga No chão interior, que à vida mente.

Desconheço-me. Embrenha-me futuro, Nas veredas sombrias do que sonho.

E no ócio em que diverso me suponho, Vejo-me errante, demorado e obscuro.

Minha vida fecha-se como um leque.

Meu pensamento seca como um vago Ribeiro no verão . Regresso , e trago Nas mão flores que a vida prontas seque.

Incompreendida vontade absorta Em nada querer... Prolixo afastamento Do escrúpulo e da vida no momento...

Do seu longínquo reino cor-de-rosa

Do seu longínquo reino cor-de-rosa, Voando pela noite silenciosa,

A fada das crianças vem, luzindo.

Papoulas a coroam, e , cobrindo Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve, E, pondo-lhe na fronte a mão de neve, Os seus cabelos de ouro acaricia -

E sonhos lindos, como ninguém teve, A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam Em coisas vivas, e um cortejo formam: Cavalos e soldados e bonecas,

Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam, E palhaços que tocam em rabecas...

E há figuras pequenas e engraçadas Que brincam e dão saltos e passadas...

Mas vem o dia, e, leve e graciosa, Pé ante pé, volta a melhor das fadas Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.

Doze signos do céu o Sol percorre

Doze signos do céu o Sol percorre, E, renovando o curso, nasce e morre Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência, Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu Os doze signos que não há no céu.

Durmo, cheio de nada, e amanhã

Durmo, cheio de nada, e amanhã é, em meu coração,

Qualquer coisa sem ser, pública e vã Dada a um público vão.

O sono! este mistério entre dois dias Que traz ao que não dorme

À terra que de aqui visões nuas, vazias, Num outro mundo enorme.

O sono! que cansaço me vem dar O que não mais me traz

Que uma onda lenta, sempre a ressacar, Sobre o que a vida faz ?!

Durmo. Regresso ou espero?

Durmo. Regresso ou espero?

Não sei. Um outro flui

Entre o que sou e o que quero

Entre o que sou e o que fui.

E a extensa e vária natureza é triste

E a extensa e vária natureza é triste Quando no vau da luz as nuvens passam.

É boa ! Se fossem malmequeres !

É boa ! Se fossem malmequeres !

E é uma papoula

Sozinha, com esse ar de "queres?"

Veludo da natureza tola.

Coitada !

Por ela

Saí da marcha pela estrada.

Não a ponho na lapela.

Oscila ao leve vento, muito

Encarnada a arroxear.

Deixei no chão o meu intuito.

Caminharei sem regressar.

O Louco

E fala aos constelados céus

De trás das mágoas e das grades Talvez com sonhos como os meus ...

Talvez, meu Deus!, com que verdades!

As grades de uma cela estreita Separam-no de céu e terra...

Às grades mãos humanas deita

E com voz não humana berra...

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha !

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha !

Como amei quando amei ! Ah, como eu via Como e com olhos de quem nunca lia Tinha o trono onde ter uma rainha.

Sob os pés seus a vida me espezinha.

Reclinando-te tão bem ? A tarde esfria...

Ó mar sem cais nem lado na maresia, Que tens comigo, cuja alma é a minha ?