Poesias Inéditas por Fernando Pessoa - Versão HTML

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Sob uma umbela de chá embaixo estamos E é súbita a lembrança

Da velha Quinta e do espalmar dos ramos Fecharam-me os olhos para toda a história !

Como sapos saltamos e erramos...

É Inda Quente

É inda quente o fim do dia...

Meu coração tem tédio e nada...

Da vida sobe maresia...

Uma luz azulada e fria

Pára nas pedras da calçada...

Uma luz azulada e vaga

Um resto anônimo do dia...

Meu coração não se embriaga

Vejo como quem vê e divaga...

E uma luz azulada e fria.

E ou jazigo haja

E OU JAZIGO haja

Ou sótão com pó.

Bebé foi-se embora.

Minha alma está só.

É uma brisa leve

É uma brisa leve

Que o ar um momento teve

E que passa sem ter

Quase por tudo ser.

Quem amo não existe.

Vivo indeciso e triste.

Quem quis ser já me esquece

Quem sou não me conhece.

E em meio disto o aroma

Que a brisa traz me assoma

Um momento à consciência

Como uma confidência.

E, ó vento vago

E, ó vento vago

Das solidões,

Minha alma é um lago

De indecisões.

Ergue-a em ondas

De iras ou de ais,

Vento que rondas

Os pinheirais!

Em outro mundo, onde a vontade é lei

Em outro mundo, onde a vontade é lei, Livremente escolhi aquela vida Com que primeiro neste mundo entrei.

Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei Com o preço das vidas subseqüentes De que ela é a causa, o deus; e esses entes, Por ser quem fui, serão o que serei.

Por que pesa em meu corpo e minha mente Esta miséria de sofrer ? Não foi Minha a culpa e a razão do que me dói.

Não tenho hoje memória, neste sonho Que sou de mim, de quanto quis ser eu.

Nada de nada surge do medonho

Abismo de quem sou em Deus, do meu Ser anterior a mim, a me dizer

Quem sou, esse que fui quando no céu, Ou o que chamam céu, pude querer.

Sou entre mim e mim o intervalo _

Eu, o que uso esta forma definida De onde para outra ulterior resvalo, Em outro mundo

Em toda a noite o sono não veio

Em toda a noite o sono não veio. Agora Raia do fundo

Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo ?

Nada que a noite acalme ou levante a aurora, Coisa séria ou vã.

Com olhos tontos da febre vã da vigília Vejo com horror

O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim Do mundo e da dor _

Um dia igual aos outros, da eterna família De serem assim.

Nem o símbolo ao menos vale, a significação Da manhã que vem Saindo lenta da própria essência da noite que era, Para quem

Por tantas vezes ter sempre 'sperado em vão, Já nada 'spera.

Em torno ao candeeiro desolado

Em torno ao candeeiro desolado Cujo petróleo me alumia a vida, Paira uma borboleta, por mandado Da sua inconsistência indefinida.

Enfia a agulha

Enfia a agulha,

E ergue do colo

A costura enrugada.

Escuta : (volto a folha

Com desconsolo).

Não ouviste nada.

Os meus poemas, este

E os outros que tenho _

São só a brincar.

Tu nunca os leste,

E nem mesmo estranho

Que ouças sem pensar.

Mas dá-me um certo agrado

Sentir que tos leio

E que ouves sem saber.

Faz um certo quadro.

Dá-me um certo enleio...

E ler é esquecer.

Entre o luar e o arvoredo

Entre o luar e o arvoredo,

Entre o desejo e não pensar

Meu ser secreto vai a medo

Entre o arvoredo e o luar.

Tudo é longínquo, tudo é enredo.

Tudo é não ter nem encontrar.

Entre o que a brisa traz e a hora, Entre o que foi e o que a alma faz, Meu ser oculto já não chora

Entre a hora e o que a brisa traz.

Tudo não foi, tudo se ignora.

Tudo em silêncio se desfaz.

Entre o sossego e o arvoredo

ENTRE o sossego e o arvoredo,

Entre a clareira e a solidão,

Meu devaneio passa o medo

Levando-me a alma pela mão.

É tarde já, e ainda é cedo.

[...]

Epitáfio Desconhecido

QUANTA mais alma ande no amplo informe, A ti, seu lar anterior, do fundo Da emoção regressam, ó Cristo, e dormem Nos braços cujo amor é o fim do mundo.

Era isso mesmo

ERA ISSO mesmo -

O que tu dizias,

E já nem falo

Do que tu fazias...

Era isso mesmo...

Eras outra já,

Eras má deveras,

A quem chamei má...

Eu não era o mesmo

Para ti, bem sei.

Eu não mudaria,

Não - nem mudarei...

Julgas que outro é outro.

Não: somos iguais.

Eram Varões Todos

ERAM VARÕES todos,

Andavam na floresta

Sem motivo e sem modos

E a razão era esta.

E andando iam cantando

O que não pude ser,

Nesse tom mole e brando

Como um anoitecer

Em que se canta quanto

Não há nem é e dói

E que tem disso o encanto

De tudo quanto foi.

É um campo verde e vasto

É um campo verde e vasto,

Sozinho sem saber,

De vagos gados pasto,

Sem águas a correr.

Só campo, só sossego,

Só solidão calada.

Olho-o, e nada nego

E não afirmo nada.

Aqui em mim me exalço

No meu fiel torpor.

O bem é pouco e falso,

O mal é erro e dor.

Agir é não ter casa,

Pensar é nada Ter.

Aqui nem luzes (?) ou asa

Nem razão para a haver.

E um vago sono desce

Só por não ter razão,

E o mundo alheio esquece

À vista e ao coração.

Torpor que alastra e excede

O campo e o gado e os ver.

A alma nada pede

E o corpo nada quer.

Feliz sabor de nada,

Inconsciência do mundo, Aqui sem porto ou estrada,

Nem horizonte no fundo.

Eu

SOU LOUCO e tenho por memória

Uma longínqua e infiel lembrança De qualquer dita transitória

Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória

Do meu destino sem esperança,

Perdi, na névoa da noite inglória, O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre

Que a todo herdeiro só faz rico Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo, Na curva inútil em que fico

Da estrada certa que não sigo.

Eu amo tudo o que foi

EU AMO TUDO o que foi,

Tudo o que já não é,

A dor que já me não dói,

A antiga e errônea fé,

O ontem que dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

Eu me resigno. Há no alto da montanha

Eu me resigno. Há no alto da montanha Um penhasco saído,

Que, visto de onde toda coisa é estranha, Deste vale escondido,

Parece posto ali para o não termos, Para que, vendo-o ali,

Nos contentemos só com o aí vermos No nosso eterno aqui...

Eu me resigno. Esse penhasco agudo Talvez alcançarão

Os que na força de irem põe m tudo.

De teu próprio silêncio nulo e mudo, Não vás, meu coração.

Eu tenho idéias e razões

Eu tenho idéias e razões,

Conheço a cor dos argumentos

E nunca chego aos corações.

Exígua lâmpada tranqüila

Exígua lâmpada tranqüila,

Quem te alumia e me dá luz,

Entre quem és e eu sou oscila.

Falhei. Os astros seguem seu caminho

Falhei. Os astros seguem seu caminho.

Minha alma, outrora um universo meu, É hoje, sei, um lúgubre escaninho De consciência sob a morte e o céu.

Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.

O que tive por meu ou por haver Fica sempre entre um pólo e o outro pólo Do que nunca há de pertencer.

Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou, O que é já nada, com a lenha velha Onde, pois valho só quando me dou, Pegarei facilmente uma centelha.

Fito-me frente a frente ( I )

Fito-me frente a frente,

Conheço que estou louco.

Não me sinto doente.

Fito-me frente a frente.

Evoco a minha vida.

Fantasma, quem és tu ?

Uma coisa erguida.

Uma força traída.

Neste momento claro, Abdique a alma bem !

Saber não ser é raro.

Quero ser raro e claro.

Fito-me frente a frente ( II )

Fito-me frente a frente

E conheço quem sou.

Estou louco, é evidente,

Mas que louco é que estou ?

É por ser mais poeta

Que gente que sou louco ?

Ou é por ter completa

A noção de ser pouco ?

Não sei, mas sinto morto

O ser vivo que tenho.

Nasci como um aborto,

Salvo a hora e o tamanho.

Flui, indeciso na bruma

Flui, indeciso na bruma,

Mais do que a bruma indeciso,

Um ser que é coisa a achar

E a quem nada é preciso.

Quer somente consistir

No nada que o cerca ao ser,

Um começo de existir

Que acabou antes de o Ter.

É o sentido que existe

Na aragem que mal se sente

E cuja essência consiste

Em passar incertamente.

Glosa

Minha alma sabe-me a antiga

Mas sou de minha lembrança,

Como um eco, uma cantiga.

Bem sei que isto não é nada,

Mas quem dera a alma que seja

O que isto é, como uma estrada.

Talvez eu fosse feliz

Se houvesse em mim o perdão

Do que isto quase que diz.

Porque o esforço é vil e vão,

A verdade, quem a quis ?

Escuta só meu coração.

Glosas

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda, Figura nosso esforço e nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita A possibilidade erma e infinita De onde o real emerge inutilmente, E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo Suposto, o Fado que chamamos Deus Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída E a outra uma água com um leve sal, E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre, E, renovando o curso, nasce e morre Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência, Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu Os doze signos que não há no céu

Gnomos do luar que faz selvas

Gnomos no luar que faz selvas

As florestas sossegadas,

Que sois silêncios nas relvas, E em aléas abandonadas

Fazeis sombras enganadas,

Que sempre se a gente olha

Acabastes de passar

E só um tremor de folha

Que o vento pode explicar

Fala de vós sem falar,

Levai-me no vosso rastro,

Que em minha alma quero ser

Como vosso corpo, um astro

Que só brilha quando houver

Quem o suponha sem ver.

Assim eu que canto ou choro

Quero velar-me a partir.

Lembrando o que não memoro,

Alguns me saibam sentir,

Mas ninguém me definir.

Gostara, realmente

Gostara, realmente,

De sentir com uma alma só,

Não ser eu só tanta gente

De muitos, meto-me dó.

Não Ter lar, vá. Não ter calma

'Stá bem, nem ter pertencer

Mas eu, de ter tanta alma,

Nem minha alma chego a ter.

Gradual, desde que o calor

Gradual, desde que o calor

Teve medo,

A brisa ganhou alma, à flor

Do arvoredo.

Primeiro, os ramos ajeitaram

As folhas que há,

Depois, cinzentas, oscilaram,

E depois já

Toda a árvore era um movimento E o fresco viera.

Medita sem Ter pensamento !

Ignora e 'spera !

Gradual, desde que o calor

Grande sol a entreter

Meu meditar sem ser

Neste quieto recinto...

Quanto não pude ter

Forma a alma com que sinto...

Se vivo é que perdi...

Se amo é que não amei...

E o grande bom sol ri...

E a sombra está aqui

Onde eu sempre estarei...

Há uma música do povo

Há uma música do povo,

Nem sei dizer se é um fado

Que ouvindo-a há um ritmo novo No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria

Se desejar fosse ser...

É uma simples melodia

Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...

É isso mesmo que eu quis ...

Perdi a fé e o caminho...

Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora

A vaga e triste canção ...

Que a minha alma já não chora

Nem eu tenho coração ...

Sou uma emoção estrangeira,

Um erro de sonho ido...

Canto de qualquer maneira

E acabo com um sentido!

Já ouvi doze vezes dar a hora

Já ouvi doze vezes dar a hora

No relógio que diz que é meio dia A toda a gente que aqui mora.

(O comentário é do Camões agora:)

«Tanto que espera! Tanto que confia!»

Como o nosso Camões, qualquer podia Ter dito aquilo, até outrora.

E ainda é uma grande coisa a ironia.

Há um frio e um vácuo no ar

Há um frio e um vácuo no ar.

Stá sobre tudo a pairar,

Cinzento-preto, o luar.

Luar triste de antemanhã

De outro dia e sua vã

Sperança e inútil afã.

É como a morte de alguém

Que era tudo que a alma tem

E que não era ninguém.

Ladram uns cães a distância

Ladram uns cães a distância

Cai uma tarde qualquer,

Do campo vem a fragrância

De campo, e eu deixo de ver.

Um sonho meio sonhado,

Em que o campo transparece,

Está em mim, está a meu lado,

Ora me lembra ou me esquece,

E assim neste ócio profundo

Sem males vistos ou bens,

Sinto que todo este mundo

É um largo onde ladram cães.

Lá fora onde árvores são

Lá fora onde árvores são

O que se mexe a parar

Não vejo nada senão,

Depois das árvores, o mar.

É azul intensamente,

Salpicado de luzir,

E tem na onda indolente

Um suspirar de dormir.

Mas nem durmo eu nem o mar,

Ambos nós, no dia brando,

E ele sossega a avançar

E eu não penso e estou pensando.

Leve no cimo das ervas

Leve no cimo das ervas

O dedo do vento roça...

Elas dizem-me que sim...

Mas eu já não sei de mim

Nem do que queira ou que possa.

E o alto frio das ervas

Fica no ar a tremer...

Parece que me enganaram

E que os ventos me levaram

O com que me convencer.

Mas no relvado das ervas

Nem bole agora uma só.

Porque pus eu uma esperança

Naquela inútil mudança

De que nada ali ficou?

Não: o sossego das ervas

Não é o de há pouco já.

Que inda a lembrança do vento

Me as move no pensamento

E eu tenho porque não há.

Mais triste do que o que acontece

Mais triste do que o que acontece É o que nunca aconteceu.

Meu coração, quem o entristece?

Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece

O grande campo sob o céu.

Memórias? Tudo é o que esquece.

A vida é quanto se perdeu.

E há gente que não enlouquece!

Ai do que em mim me chamo eu!

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando O mais íntimo ser da minha vida, Vou dentro em mim a sombra procurando.

Mas o hóspede inconvidado

Mas o hóspede inconvidado

Que mora no meu destino,

Que não sei como é chegado,

Nem de que honras é dino.

Constrange meu ser de casa

A adaptações de disfarce.

Minha alma sabe-me a antiga

Minha alma sabe-me a antiga

Mas sou de minha lembrança,

Como um eco, uma cantiga.

Bem sei que isto não é nada,

Mas quem dera a alma que seja

O que isto é, como uma estrada.

Talvez eu tosse feliz

Se houvesse em mim o perdão

Do que isto quase que diz.

Porque o esforço é vil e vão,

A verdade, quem a quis?

Escuta só meu coração.

Minhas mesmas emoções

Minhas mesmas emoções

São coisas que me acontecem.

Minha mulher, a solidão

Minha mulher, a solidão,

Consegue que eu não seja triste.

Ah, que bom é o coração

Ter este bem que não existe!

Recolho a não ouvir ninguém,

Não sofro o insulto de um carinho E falo alto sem que haja alguém: Nascem-me os versos do caminho.

Senhor, se há bem que o céu conceda Submisso à opressão do Fado,

Dá-me eu ser só - veste de seda-, E fala só - leque animado.

Na noite que me desconhece

Na noite que me desconhece

O luar vago, transparece

Da lua ainda por haver.

Sonho. Não sei o que me esquece, Nem sei o que prefiro ser.

Hora intermédia entre o que passa, Que névoa incógnita esvoaça

Entre o que sinto e o que sou?

A brisa alheiamento abraça.

Durmo. Não sei quem é que estou.

Dói-me tudo por não ser nada.

Da grande noite. embainhada

Ninguém tira a conclusão.

Coração, queres?

Tudo enfada Antes só sintas, coração.

Não digas nada!

Não digas nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender -

Tudo metade

De sentir e de ver...

Não digas nada

Deixa esquecer

Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã

Toda essa viagem

Até onde quis

Ser quem me agrada...

Mas ali fui feliz

Não digas nada.

Não quero rosas, desde que haja rosas.

Não quero rosas, desde que haja rosas.

Quero-as só quando não as possa haver.

Que hei-de fazer das coisas

Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora A fez em ouro e azul se diluir.

O que a minha alma ignora

É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria Versos para dizer que inda o não sei.

Tenho a alma pobre e fria...

Ah, com que esmola a aquecerei?...

No Fim da chuva e do vento

No Fim da chuva e do vento

Voltou ao céu que voltou

A lua, e o luar cinzento

De novo, branco, azulou.

Pela imensa 'stelação

Do céu dobrado e profundo,

Os meus pensamentos vão

Buscando sentir o mundo.

Mas perdem-se como uma onda

E o sentimento não sonda

O que o pensamento vale

Que importa? Tantos pensaram

Como penso e pensarei.

O abismo é o muro que tenho

O abismo é o muro que tenho

Ser eu não tem um tamanho.

O Amor

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de *dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

O céu de todos os invernos

O céu de todos os invernos

Cobre em meu ser todo o verão...

Vai p'ras profundas dos infernos E deixa em paz meu coração!

Por ti meu pensamento é triste, Meu sentimento anda estrangeiro; A tua idéia em mim insiste

Como uma falta de dinheiro.

Não posso dominar meu sonho.

Não te posso obrigar a amar.

Que hei de fazer? Fico tristonho.

Mas a tristeza há de acabar.

Bem sei, bem sei...

A dor de corno

Mas não fui eu que lho chamei.

Amar-te causa-me transtorno,

Lá que transtorno é que não sei...

Ridículo? É claro. E todos?

Mas a consciência de o ser,

fi-la bas-tante clara deitando-a a rodos Em cinco quadras de oito sílabas.

O meu coração quebrou-se

O meu coração quebrou-se

Como um bocado de vidro

Quis viver e enganou-se...

O ruído vário da rua

O ruído vário da rua

Passa alto por mim que sigo.

Vejo: cada coisa é sua.

Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade

Um mar que torna a descer.

Ah, nisto tudo a verdade

É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.

Não, não ajusto nada

Ao meu conceito perdido

Como uma flor na estrada.

O som do relógio

O som do relógio

Tem a alma por fora,

Só ele é a noite

E a noite se ignora.

Não sei que distância

Vai de som a som

Peguando, no tique,

Do taque do tom.

Mas oiço de noite

A sua presença

Sem ter onde acoite

Meu ser sem ser.

Parece dizer

Sempre a mesma coisa

Como o que se senta

E se não repousa.

Outros terão

Outros terão

Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.

A inteira, negra e fria solidão Está comigo.

A outros talvez

Há alguma coisa quente, igual, afim No mundo real. Não chega nunca a vez Para mim.

"Que importa?"

Digo, mas só Deus sabe que o não creio.

Nem um casual mendigo à minha porta Sentar-se veio.

"Quem tem de ser?"

Não sofre menos quem o reconhece.

Sofre quem finge desprezar sofrer Pois não esquece.

Isto até quando?

Só tenho por consolação

Que os olhos se me vão acostumando À escuridão.

Parece às vezes que desperto

Parece às vezes que desperto

E me pergunto o que vivi;

Fui claro, fui real, é certo,

Mas como é que cheguei aqui?

A bebedeira às vezes dá

Uma assombrosa lucidez

Em que como outro a gente está.

Estive ébrio sem beber talvez.

E de aí, se pensar, o mundo

Não será feito só de gente

No fundo cheia de este fundo

De existir clara e èbriamente?

Entendo, como um carrocel;

Giro em meu torno sem me achar...

(Vou escrever isto num papel

Para ninguém me acreditar...)

Parece que estou sossegando

Parece que estou sossegando

'Starei talvez para morrer.

Há um cansaço novo e brando

De tudo quanto quis querer.

Há uma surpresa de me achar

Tão conformado com sentir.

Súbito vejo um rio

Entre arvoredo a luzir.

E são uma presença certa

O rio, as árvores e a luz.

Pela rua já serena

Pela rua já serena

Vai a noite

Não sei de que tenho pena,

Nem se é pena isto que tenho...

Pobres dos que vão sentindo

Sem saber do coração!

Ao longe, cantando e rindo,

Um grupo vai sem razão...

E a noite e aquela alegria

E o que medito a sonhar

Formam uma alma vazia

Que paira na orla do ar...

Poemas dos Dois Exílios

Paira no ambíguo destinar-se

Paira no ambíguo destinar-se

Entre longínquos precipícios,

A ânsia de dar-se preste a dar-se Na sombra vaga entre suplícios, Roda dolente do parar-se

Para, velados sacrifícios,

Não ter terraços sobre errar-se Nem ilusões com interstícios,

Tudo velado, e o ócio a ter-se De leque em leque, a aragem fina Com consciência de perder-se...

Tamanha a flama e pequenina

Pensar na mágoa japonesa

Que ilude as sirtes da Certeza.

Dói viver, nada sou que valha ser.

Dói viver, nada sou que valha ser.

Tardo-me porque penso e tudo rui.

Tento saber, porque tentar é ser.

Longe de isto ser tudo, tudo flui.

Mágoa que, indiferente, faz viver.

Névoa que, diferente, em tudo influi.

O exílio nado do que fui sequer Ilude, fixa, dá, faz ou possui.

Assim, noturno, a árias indecisas, O prelúdio perdido traz à mente O que das ilhas mortas foi só brisas, E o que a memória análoga dedica Ao sonho, e onde, lua na corrente, Não passa o sonho e a água inútil fica.

Análogo começo

Análogo começo.

Uníssono me peço.

Gaia ciência o assomo —

Falha no último tomo.

Onde prolixo ameaço

Paralelo transpasso

O entreaberto haver

Diagonal a ser.

E interlúdio vernal,

Conquista do fatal,

Onde, veludo, afaga

A última que alaga.

Timbre do vespertino.

Ali, carícia, o hino O

utonou entre preces,

Antes que, água, comeces.

Doura o dia. Silente, o vento dura

Doura o dia. Silente, o vento dura.

Verde as árvores, mole a terra escura, Onde flores, vazia a álea e os bancos.

No pinal erva cresce nos barrancos.

Nuvens vagas no pérfido horizonte.

O moinho longínquo no ermo monte.

Eu alma, que contempla tudo isto, Nada conhece e tudo reconhece.

Nestas sombras de me sentir existo, E é falsa a teia que tecer me tece.

Por quem foi que me trocaram

Por quem foi que me trocaram

Quando estava a olhar pra ti?

Pousa a tua mão na minha

E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento

Porque eu só quero pensar

Que é de mim que ele esta feito É que tens para me dar.

Depois aperta-me a mão

E vira os olhos a mim...

Por quem foi que me trocaram

Quando estás a olhar-me assim?

Qual é a tarde por achar

Qual é a tarde por achar

Em que teremos todos razão

E respiraremos o bom ar

Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star Ao pé do sossego ou do fogão?

Qual é a tarde por voltar?

Essa tarde houve, e agora não.

Qual é a mão cariciosa

Que há de ser enfermeira minha —

Sem doenças minha vida ousa —

Oh, essa mão é morta e osso ...

Só a lembrança me acarinha

O coração com que não posso.

Quanta mais alma ande no amplo informe

Quanta mais alma ande no amplo informe A ti, seu lar anterior, do fundo Da emoção regressam, ó Cristo, e dormem Nos braços cujo amor é o fim do mundo.

Que suave é o ar! Como parece

Que suave é o ar! Como parece

Que tudo é bom na vida que há!

Assim meu coração pudesse

Sentir essa certeza já.

Mas não; ou seja a selva escura Ou seja um Dante mais diverso, A alma é literatura

E tudo acaba em nada e verso.

Relógio, morre

Quem vende a verdade, e a que esquina?

Quem dá a hortelã com que temperá-la?

Quem traz para casa a menina

E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes

E conhece o nome dos navios?

Dividi o meu estudo inteiro em partes E os títulos dos capítulos são vazios...

Meu pobre conhecimento ligeiro, Andas buscando o estandarte eloqüente Da filarmônica de um Barreiro

Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma

Quadros virados contra a parede ...

Ninguém conhece, ninguém arruma Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,

Colcha de crochê do anseio morto, Grande prolixidade do navio

Que existe só para nunca chegar ao porto.

Se alguém bater um dia à tua porta Se alguém bater um dia à tua porta, Dizendo que é um emissário meu, Não acredites, nem que seja eu; Que o meu vaidoso orgulho não comporta Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir Alguém bater, fores a porta abrir E encontrares alguém como que à espera De ousar bater, medita um pouco. Esse era Meu emissário e eu e o que comporta O meu orgulho do que desespera.

Abre a quem não bater à tua porta

Se tudo o que há é mentira

Se tudo o que há é mentira

É mentira tudo o que há.

De nada nada se tira,

A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha

Uma coisa ou não com fé,

Suponho-a se ela é risonha,

Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida

É pôr a vida com jeito.

Fana a rosa não colhida

Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,

Que o resto ortigas o cobrem

E só se cumpra o dever

Para que as palavras sobrem.

Sim, tudo é certo logo que o não seja

Sim, tudo é certo logo que o não seja.

Amar, teimar, verificar, descrer.

Quem me dera um sossego à beira-ser Como o que à beira-mar o olhar deseja.

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso Sonhei, confuso, e o sono foi disperso, Mas, quando dispertei da confusão, Vi que esta vida aqui e este universo Não são mais claros do que os sonhos são Obscura luz paira onde estou converso A esta realidade da ilusão

Se fecho os olhos, sou de novo imerso Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida, É a mesma mistura de entre-seres Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres Pertence a uma forma definida, Rastro visto de coisa só ouvida.

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias, Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias, Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!

Pobre esperença a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo E em si mesmo se sente diferente, Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.

Quer só a noite plácida e enorme, A grande, universal, solente pausa Antes que tudo em tudo se transforme.

Sou o Espírito da treva

Sou o Espírito da treva,

A Noite me traz e leva;

Moro à beira irreal da Vida,

Sua onda indefinida

Refresca-me a alma de espuma...

Pra além do mar há a bruma...

E pra aquém? há Cousa ou Fim?

Nunca olhei para trás de mim...

Tenho esperança? Não tenho.

Tenho esperança? Não tenho.

Tenho vontade de a ter?

Não sei. Ignoro a que venho,

Quero dormir e esquecer.

Se houvesse um bálsamo da alma, Que a fizesse sossegar,

Cair numa qualquer calma

Em que, sem sequer pensar,

Pudesse ser toda a vida,

Pensar todo o pensamento -

Então [...]

Tenho pena até... nem sei. . .

Tenho pena até... nem sei. . .

Do próprio mal que passei

Pois passei quando passou.

Todas as cousas que há neste mundo Todas as cousas que há neste mundo Têm uma história,

Excepto estas rãs que coaxam no fundo Da minha memória.

Qualquer lugar neste mundo tem Um onde estar,

Salvo este charco de onde me vem Esse coaxar.

Ergue-se em mim uma lua falsa

Sobre juncais,

E o charco emerge, que o luar realça Menos e mais.

Onde, em que vida, de que maneira Fui o que lembro

Por este coaxar das rãs na esteira Do que deslembro?

Nada. Um silêncio entre jucos dorme.

Coaxam ao fim

De uma alma antiga que tenho enorme As rãs sem mim.

Uma maior solidão

Uma maior solidão

Lentamente se aproxima

Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser

Como um olhar a cegar,

A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...

Tanto nada quis de nada,

Que hoje nada o quer de mim

...Vaga História

...Vaga História comezinha

Que, pela voz das vozes, era a minha...

Quem sou eu? Eles sabem e passaram.

Vendaval

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza, Só têm a tristeza que a gente lhes vê E nisto que em mim é vácuo e tristeza É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!

Tu, vento do norte, teimoso, iracundo, Que rasgas os robles - teu pulso divida Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia, A alma que tenho pudesses levar -

Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento, Mar torvo do caos que parece volver -

Porque é que não entras no meu pensamento Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!

Horror de sentir a alma sempre a pensar!

Arranca-me, é vento; do chão da existência, De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura, Pelo caos furioso que crias no mundo, Dissolve em areia esta minha amargura, Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares, Telhados daqueles que têm razão, Atira, já pária desfeito dos ares, O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo, Tornado a substância dispersa e negada Do vento sem forma, da noite sem termo, Do abismo e do nada!

Vou com um passo como de ir parar

Vou com um passo como de ir parar Pela rua vazia

Nem sinto como um mal ou mal-'star A vaga chuva fria...

Vou pela noite da indistinta rua Alheio a andar e a ser

E a chuva leve em minha face nua Orvalha de esquecer ...

Sim, tudo esqueço.Pela noite sou Noite também

E vagaroso eu ...] vou, Fantasma de magia.

No vácuo que se forma de eu ser eu E da noite ser triste

Meu ser existe sem que seja meu E anônimo persiste ...

Qual é o instinto que fica esquecido Entre o passeio e a rua?

Vou sob a chuva, amargo e diluído E tenho a face nua.

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