Poirot Salva o Criminoso por Agatha Christie - Versão HTML

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Obras de AGATHA CHRISTIE

POIROT SALVA O CRIMINOSO

edição LIVROS DO BRASIL Lisboa

Tradução de E ALMEIDA LIMA

Capa de ANTÓNIO PEDRO

Título da edição original SAD CYPRESS

Copyright 1929/1940 by Agatha Christie Mailowan

Reservados todos os direitos pela legislação em vigor

VENDA INTERDITA NA REPOBLICA FEDERATIVA DOS ESTADOS UNIDOS DO

BRASIL

PRÓLOGO

Elinor Katharine Carlisle. comparece perante este tribunal

acusada de ter morto Mary Gerrard no dia 27 de Julho passado.

Confessa-se culpada ou não.»

Elinor Carlisle estava de pé, muito direita, a cabeça

levantada. Era uma cabeça graciosa, de contornos finos e bem

definidos. Os olhos eram de um azul intenso, o cabelo preto.

As sobrancelhas tinham sido reduzidas a uma linha leve e

fina.

Houve um silêncio - um silêncio bastante marcado.

Sir Edwin Bulmer, advogado de defesa, sentiu receio, e

pensou: «Meu Deus, vai confessar-se culpada... Perdeu a

coragem. . .» Elinor Carlisle, entreabrindo a boca, disse:

«Estou inocente.» O advogado de defesa recostou-se para trás.

Passou um lenço pela testa, e pensou que fora por um triz...

Sir Samuel Attenbury estava de pé, expondo o caso ao

tribunal.

«Ex.mo Sr. Dr. Juiz, srs. jurados, no dia 27 de Julho, às

três e meia da tarde, Mary Gerrard morreu em Hunterbury,

Maidensford...» A voz continuou, sonora e agradável de ouvir.

Embalava Elinor a ponto de quase perder consciência. Da

narrativa simples e concisa só uma ou outra frase penetrava

no seu consciente.

...Caso particularmente simples e claro...

«...Compete a este tribunal... esclarecer o motivo e a

oportunidade. . .

«...Ninguém, ao que parece, tinha motivo algum para matar a

infeliz Mary Gerrard, senão a acusada. Era uma rapariga com

um excelente feitio, de quem todos gostavam e sem ter, por

assim dizer, qualquer inimigo...» Mary, Mary Gerrard! Que

longínquo e irreal tudo parecia agora. . .

«..Chama-se a vossa atenção especialmente para os seguintes

pontos:

1. Que oportunidades e meios tinha a acusada de administrar o veneno?

2. Que motivo tinha para o fazer?

«...Compete-me trazer perante vós testemunhas que vos possam

ajudar a chegar a uma conclusão verdadeira sobre estas

questões...

«...Quanto ao envenenamento de Mary Gerrard, tentarei

mostrar-vos que ninguém tinha oportunidade de cometer este

crime senão a acusada...»

Elinor sentia-se como que envolvida num denso nevoeiro.

Palavras soltas rompiam essa bruma.

«. . .Sanduíches. . .

«...Conservas de peixe...

«...Casa vazia...»

As palavras atravessavam a espessa cortina que envolvia os

pensamentos de Elinor - qual picadas de alfinete através de

um véu pesado que a isolava...

O tribunal. Rostos. Filas e filas de rostos! Certo rosto com

um grande bigode preto e olhos espertos. Hercule Poirot, de

olhar pensativo, cabeça inclinada um pouco para o lado,

observava-a.

Ela pensou: está a tentar compreender qual a verdadeira razão por que fiz aquilo... Está a tentar penetrar no meu espírito

para compreender o que pensei - o que senti...

O que senti... ? Uma nuvem toldou-lhe a vista e teve uma leve e deiagradável sensação de choque... O rosto de Roddy - o

rosto querido, com o seu nariz afilado e a boca revelando

sensibilidade... Roddy! Sempre Roddy - lembrava-se dele desde pequena... desde aqueles tempos em Hunterbury por entre as

framboesas, ou no parque, ou lá em baixo próximo do regato.

Roddy--Roddy--Roddy...

Outros rostos! A enfermeira O'Brien, a boca ligeiramente

aberta, o rosto fresco e sardento muito espetado. A

enfermeira Hopkins de aspecto impecável - impecável e

implacável.

O rosto de Peter Lord Peter Lord - tão amável, tão simpático

tão - tão reconfortante! Mas parecendo agora - o quê? -

aflito? Sim, era isso - aflito ! Preocupado - terrivelmente

preocupado com tudo aquilo! Enquanto ela própria, a figura

central não se preocupava nada! Ei-la, bastante calma e

indiferente, perante um tribunal, acusada de assassínio.

Qualquer coisa se moveu; a cortina que lhe envolvia o cérebro tornou-se mais leve, mais transparente. No tribunal!...

Muita gente...

Gente inclinada para a frente, a boca um pouco entreaberta,

os olhos cheios de curiosidade, fixos nela, Elinor, com uma

satisfação de vampiros, ouvindo, com uma espécie de prazer

lento e cruel, o que aquele homem alto com nariz de judeu

dizia a respeito dela.

«Os factos, neste caso, são extremamente fáceis de seguir e

não estão em discussão. Vou apresentá-los de uma maneira

simples. Começando pelo início...» Elinor pensou:

«O início... O início? Foi no dia em que veio aquela horrível carta anónima! Sim, foi esse o início...»

PRIMEIRA PARTE

I

Uma carta anónima! Elinor Carlisle, com ela na mão, ficou a

olhá-la. nunca tinha recebido nenhuma Causava-lhe uma

sensação desagradável. Era uma carta mal escrita, com erros

ortográficos e num papel barato cor-de-rosa. Dizia o

seguinte:

Tem esta o fim da avisar. ;Não digo nomes mas há uma pessoa

que anda muito de roda da sua tia e se não tem coidado fica

sem nada.

As raparigas novas são muto sabidas e as senhoras de idade

ficam muto derretidas guando uma pessoa nova as amima e lhes

diz coisas bonitas. No meu entender devia vir cá ver com os

seus olhos o que se passa não é justo que tirem o que é da

senhora e do otro senhor 6 ela é muto sabida e a boa senhora

pode murrer dum mumento pra outro.

Uma pessoa que lhe quer Bem.

Elinor, estava ainda de olhos fixos nesta missiva, com as

sobrancelhas franzidas numa expressão de desagrado, quando a

porta se abriu e a criada anunciou: «O sr. Welman».

Roddy entrou.

Roddy! Como sempre que via Roddy, Elinor sentiu uma sensação

de ligeira tontura, uma vibração de súbito prazer, e achou

que devia mostrar que possuía um espírito prático e não era

susceptível de emoções. Porque era bem evidente que Roddy,

apesar de a amar, não sentia por ela o que ela sentia por

ele. Vê-lo, produzia-lhe um efeito como se lhe estivessem a

oprimir o coração a ponto de quase lhe fazer doer.

Era absurdo que um homem - um homem vulgar, sim,

perfeitamente vulgar - conseguisse produzir aquele efeito em

alguém! Que o simples facto de olhar para ele fizesse ver

tudo à roda, que ouvir a sua voz desse vontade de chorar...

O amor devia ser certamente uma emoção agradável, e não tão

intensa que se tornasse assim pungente... Uma coisa era

evidente: era preciso ter o cuidado de mostrar que encarava a questão despreocupada e naturalmente. Os homens não gostam de dedicação nem de adoração. E Roddy não gostava com certeza.

Ela disse desprendidamente:

- Olá, Roddy!

- Olá, querida. Estás com ar trágico. Isso é alguma conta?

Elinor abanou a cabeça negativamente.

- Pensei que fosse; no Verão, bem sabes, é quando as fadas

dançam e as contas lá vêm dançando também. É terrível,

horroroso. É uma carta anónima.

Roddy franziu a testa. O seu rosto afilado e tristonho

tornou-se duro.

- Não é possível - esclamou com repulsa: Elinor repetiu:

- É terrível, horroroso . . .

Dirigiu-se para a secretária.

- O melhor que há a fazer é rasgá-la, parece-me.

Podia fazer isso - esteve quase a fazer - porque Roddy e

cartas anónimas eram incompatíveis. Podia deitá-la fora e não pensar mais nela. Ele não a impediria. O de interesse por

tudo estava muito mais fortemente desenvolvido nele do que a

curiosidade.

Mas num impulso Elinor resolveu outra coisa e observou:

- No entanto, talvez seja melhor tu lê-la primeiro. Depois

queimo-a. É a respeito da tia Laura.

Roddy abriu muito os olhos surpreendido.

- Da tia Laura?

Pegou na carta, leu-a, fez uma expressão de desagrado e

tornou a entregá-la.

- Sim, é de queimar, sem dúvida! Há pessoas muito

extraordinárias!

- É de uma das criadas, não achas?

- Acho que sim. - Ele hesitou. - Não imagino quem seja a

pessoa a que se referem.

- Deve ser Mary Gerrard, julgo eu.

Roddy semicerrou os olhos num esforço de memória.

- Mary Gerrard? Quem é?

- A filha do guarda. Deves lembrar-te dela em criança. A tia

Laura sempre gostou muito da garota e tomou interesse por

ela. Pagou-lhe os estudos e vários extras, como lições de

piano e francês e outras coisas mais.

- Ah, sim, já me lembro dela: uma miudita que era só pernas e braços com uma grande cabeleira loira.

Elinor confirmou.

- Sim, provavelmente nunca mais a viste desde aquelas férias

de Verão em que a mãe e o pai foram ao estrangeiro. É verdade que não tens ido a Hunterbury tantas vezes como eu, e ela

esteve recentemente na Alemanha, mas nós costumávamos brincar e fazer troça dela quando éramos pequenos.

- Como está ela agora? - perguntou Roddy.

- Está uma rapariga muito bonita e bem educada. Com aquela

educação ninguém dirá que é filha do velho Gerrard.

- Fez-se uma senhora, não?

- É verdade. Acho que por causa disso não vive muito bem em

casa do pai. A srª Gerrard morreu há alguns anos e Mary e o

pai não se dão um com o outro. Ele faz troça dos estudos e

das «maneiras finas» dela.

Roddy comentou irritado:

- As pessoas nem sonham o mal que podem fazer em educar

alguém! Às vezes é crueldade e não bondade!

- Suponho que ela passa muito tempo lá em casa... Sei que lê

para a tia Laura desde que ela teve o ataque.

- Por que não lhe lê a enfermeira? - perguntou Roddy.

Elinor respondeu com um sorriso:

- A enfermeira O Brien tem um sotaque muito marcado! Não me

admiro que a tia Laura prefira a Mary.

Roddy passeou rápida e nervosamente de um lado para o outro

durante uns minutos.

- Sabes, Elinor, acho que devíamos ir lá.

- Por causa disto? - perguntou Elinor após uma ligeira

surpresa.

- Não, não é por causa disso. Ou por outra, sejamos francos,

é! Embora essa comunicação seja idiota, pode haver alguma

verdade por trás dela. Bem vês, a pobre senhora está muito

doente.

- Sim, Roddy.

Ele olhou para ela com o seu encantador sorriso, admitindo as fraquezas humanas.

- E o dinheiro tem importância para nós Elinor, para ti e

para mim.

- Pois tem - concordou cla imediatamente.

Ele continuou com ar sério:

- Não é que eu seja mercenário. Mas aliás a própria tia Laura tem dito e repetido que tu e eu somos os seus únicos

parentei. Tu és sobrinha, filha de um irmão, e eu sou

sobrinho do marido. Sempre nos deu a entender que por morte

dela tudo o que possui ficaria para um de nós ou mais

provavelmente ainda para ambos. E é uma soma considerável,

Elinor.

- Sim, deve ser - disse Elinor pensativa.

- Manter Hunterbury não é brincadeira. - Fez uma pausa.

- Parece-me que o tio Henry já vivia o que se pode chamar

bem, quando encontrou a tua tia Laura. Mas além disso ela era uma herdeira. Ela e o teu pai ficaram bastante prósperos. Foi pena que o teu pai se metesse em negócios e perdesse grande

parte do dinheiro.

Elinor suspirou.

- Coitado do pai, nunca teve jeito para negócios. Andava

muito preocupado com tudo antes de morrer.

- Sim, a tua tia Laura teve muito mais cabeça do que ele.

Casou-se com o tio Henry e compraram Hunterbury, e disse-me

ela uma vez que tinha sido sempre excepcionalmente feliz no

emprego de capital. Praticamente nada lhe tinha falhado.

- O tio Henry deixou-lhe tudo quando morreu, não deixou?

Roddy confirmou.

- Foi trágico morrer tão cedo. E ela não tornou a casar.

Envelheceu fiel. Foi sempre muito boa para nós. Tratou-me

como se eu fosse sobrinho dela, pelo sangue. Sempre que

estive em apuros ajudou-me, o que, felizmente, não sucedeu

muitas vezes! - Para mim tem sido também muitíssimo generosa

- disse Elinor com gratidão.

- A tia Laura é boa pessoa. Mas, sabes Elinor, talvez sem

querer, tu e eu vivamos bastante extravagantemente, em

relação aos meios de que realmente dispomos!

Ela confirmou calmamente:

- Suponho que sim... Tudo custa tão caro! Os fatos, o

cabeleireiro, coisas sem importância como cinemas e cocktails e até os discos!

- Querida, tu és um dos lírios do campo, não és? Não

trabalhas nem fias!

- Achas que devia, Roddy?

Ele abanou a cabeça negativamente.

- Gosto de ti como és: delicada, distante e irónica.

Detestava que tomasses a vida demasiado a sério. Só digo que

se não fosse a tia Laura estarias possivelmcnte trabalhando

em qualquer emprego detestável. E o mesmo se passa comigo. O

emprego que tenho não me interessa. Estar no Lewis Hume não

é muito fatigante. Está mesmo a calhar para mim. Mantenho o

respeito por mim próprio tendo um emprego; mas, nota bem, não me preocupo com o futuro por causa das minhas esperanças na

tia Laura.

- Parecemos sanguessugas!

- Qual! Foi-nos dado a entender que um dia teríamos dinheiro, e pronto. É claro que esse facto influencia a nossa conduta.

Elinor observou, pensativa:

- A tia Laura nunca nos disse em definitivo e exactamente

como deixaria o dinheiro...

- Isso não importa! Provavelmente dividiu-o por nós dois; mas se não for assim, se te deixar todo ou quase todo por seres

do seu sangue, eu também o partilharei porque vou casar

contigo; e se a boa senhora achar que eu devo ficar com a

maior parte, como representante masculino dos Welmans, também está bem, porque tu vais casar comigo.

É uma sorte gostarmos um do outro. Tu gostas de mim, não

gostas, Elinor?

- Gosto - disse ela friamente, num tom quase afectado.

- Gosto! - repetiu Roddy imitando-a. - És adorável, Elinor.

Esse teu arzinho distante, impenetrável... Ia Prulccssc

Lointaine. Creio que são esses teus atributos que me fazem

gostar de ti.

Elinor conteve um suspiro e exclamou:

- Ah, sim?

- Sim. Algumas mulheres são tão. . . não sei. . . tão

terrivelmente absorventes .. tão... tão caninamente

dedicadas, alardeando os seus sentimentos por toda a parte!

Detestava isso. Contigo nunca sei, nunca tenho a certeza: de

um momento para o outro voltas as costas com aquele teu modo

frio e desprendido e dizes que mudaste de ideias, assim tal

qual, friamente, sem pestanejar! És uma criatura fascinante,

Elinor.

És como uma obra de arte, tão, tão completa e..

E continuou:

- Sabes, acho que o nosso casamento será um casamento

perfeito... Gostamos ambos um do outro, o suficiente sem ser

demasiado. Somos bons amigos. Temos muitos gostos em comum.

Conhecemo-nos profundamente bem. Temos todas as vantagens de

ser primos sem as desvantagens de parentesco de sangue. Nunca me cansarei de ti, porque és versátil. É verdade que podes

cansar-te de mim. Sou uma pessoa tão vulgar.

- Nunca me cansarei de ti, Roddy, nunca - disse Elinor.

- Minha querida! - E beijou-a.

- Penso - disse ele ainda - que a tia Laura, lá para si, tem

uma ideia do que se passa entre nós, embora não tivéssemos

estado com ela desde que assentámos tudo. É uma boa desculpa

para irmos lá agora, não é verdade?

- Pois é. Outro dia estive a pensar...

Roddy acabou a frase por ela.

- ...Que não vamos lá tantas vezes como devíamos. Também

pensei nisso. Quando ela teve o primeiro ataque iamos lá,

semana sim, semana não. E agora deve haver quase dois meses

que lá não vamos.

- Se ela nos tivesse chamado tínhamos ido imediatamente -

afirmou Elinor.

- Isso é verdade. E sabemos que ela gosta da enfermeira

O'Brien e é bem tratada. Contudo, talvez tenhamos sido um

pouco descuidados. Agora não estou a falar sob o ponto de

vista do dinheiro, mas do mero aspecto humano.

- Compreendo.

- Afinal essa repelente carta fez algum bem! Vamos lá para

proteger os nossos interesses e porque gostamos da boa

senhora! Acendeu um fósforo e deitou fogo à carta que tirou

da mão de Elinor.

- Fazes ideia de quem a escreveu? - perguntou. - Não é que

isso tenha importância... Foi com certeza alguém que estava

«do nosso lado» como nós costumávamos dizer quando éramos

pequenos. Talvez nos tenham feito um favor. A mãe de Jim

Partington foi para a Riviera tratar-se, apaixonou-se pelo

médico assistente que era um clínico italiano novo e

simpático, e deixou-lhe todo o dinheiro que possuía. Jim e as irmãs tentaram modificar o testamento mas não conseguiram.

- A tia Laura gosta do novo médico que foi para o lugar do

Dr. Ransome mas não a esse ponto! Aliás aquela horrível carta mencionava uma rapariga. Deve ser Mary.

- Vamos até lá ver com os nossos próprios olhos...

II

A enfermeira O'Brien saiu silenciosamente do quarto da srª

Welman para a casa de banho.

- É só pôr a água a ferver - disse - com certeza sabe-lhe bem uma chávena de chá, antes de se ir embora.

A enfermeira Hopkins exclamou com satisfação:

- Pois sim, filha, a mim sabe-me sempre bem uma chávena de

chá. E costumo dizer que não há nada que chegue a uma boa

chávena de chá, bem forte!

A enfermeira O'Brien enquanto enchia a chaleira e acendia o

fogão de gás explicou:

- Tenho tudo aqui neste armário: bule, chávenas e açúcar; e a Edna traz-me leite fresco duas vezes por dia. Não é preciso

ficar um tempo sem fim a tocar a campainha. Este fogão de gás é bom; ferve uma chaleira num instante.

A enfermeira O'Brien era uma mulher de trinta anos alta,

ruiva, com dentes brancos e brilhantes, o rosto sardento e um sorriso simpático. A sua boa disposição e vitalidade

tornavam-na querida dos doentes. A enfermeira Hopkins,

enfermeira da localidade, que vinha todas as manhãs ajudar a

fazer a cama e a toilette da pesada doente, era uma mulher de meia idade de feições grosseiras com ar eficiente e modos

bruscos.

Esta disse, então, elogiando:

- Nesta casa está tudo m1ito bem feito.

- Pois está - concordou a outra. - Apenas algumas coisas são

antiquadas. Por exemplo, não há aquecimento central, embora

haja muitos fogões de sala. Quanto às criadas são todas

raparigas prestáveis e a srª Bishop dirigia-as bem.

- Estas raparigas de agora, não tenho paciência para as

aturar - exclamou a enfermeira Hopkins. - Não sabem o que

querem, e não fazem um dia de trabalho que se veja.

- Mary Gerrard é boa rapariga - disse a enfermeira O'Brien. -

Realmente não sei o que seria da srª Welman sem ela. Nunca a

ouviu chamar por ela? Bem, devo dizer, que a rapariga é

encantadora e sabe lidar com a senhora.

- Tenho pena de Mary. O pai dela faz tudo para a humilhar.

- Não sabe o que é uma palavra delicada, o diabo do homem.

Pronto, a chaleira já está a assobiar. Assim que ferver é só

deitar-lhe o chá.

Fez o chá e serviu-o quente e forte. As duas enfermeiras

pegaram nas chávenas e foram sentar-se para o quarto da

enfermeira O'Brien contíguo ao da srª Welman.

- O sr. Welman e Miss Carlisle vêm cá, - informou a

enfermeira O'Brien. - Chegou um telegrama esta manhã.

- Agora percebo. Achei que a nossa doente estava entusiasmada com qualquer coisa. Há muito tempo que cá não vem, pois não?

- Estiveram cá há dois meses ou mais. O sr. Welman é tão novo e tão simpático! Mas tem um certo ar orgulhoso.

- Vi o retrato dela no Tatler um dia destes, em Newmarket com uma amiga - disse a enfermeira Hopkins.

- Ela é muito conhecida na sociedade, não é? E anda sempre

muito bem vestida. Acha que é realmente bonita?

- É difícil saber como realmente são estas raparigas sem

maquilhagem! Na minha opinião não pode sequer comparar-se com a formosura de Mary Gerrard!

A enfermeira O'Brien cerrou os lábios e inclinou a cabeça

para um lado.

- Pode ser que tenha razão. Mas à Mary falta-lhe classe! O

hábito faz o monge - sentenciou a enfermeira Hopkins.

- Quer outra chávena de chá?

- Pois sim, obrigada.

Com as chávenas fumegantes na mão aproximaram-se um pouco

mais uma da outra, e a enfermeira O'Brien disse:

- A nOite passada, aconteceu uma coisa estranha. Como é

costume entrei no quarto às duas da manhã para colocar a

nossa doente numa posição confortável, e ela estava acordada.

Mas devia ter estado a sonhar, pois mal entrei disse: «A

fotografia. Quero a fotografia». Então eu observei-lhe «Pois

sim, srª Welman. Mas não prefere esperar pela manhã?» «Não,

quero vê-la agora» respondeu-me. Então perguntei: «E onde

está essa fotografia? É a do sr. Roderick?» «Roderick? Não,

Lewis» disse ela e começou a querer mexer-se. Ajudei-a a

soerguer-se, tirou as chaves da caixinha que está ao lado da

cama e disse-me que abrisse a segunda gaveta do toucador, e

lá estava, realmente uma fotografia grande numa moldura de

prata. Era a fotografia de um homem muito interessante e

tinha Lewis esCrito a um canto. Era antiga, deve ter sido

tirada há muitos anos. Levei-lha, ela agarrou-a e ficou a

contemplá-la muito tempo. Murmurava apenas, «Lewis... Lewis»-

Depois suspirou, deu-ma e mandou-me pô-la no mesmo sítio. E

quer crer que quando me voltei outra vez para ela, tinha

adormecido Suavemente como uma criança?

- Como que era o marido dela? - perguntou a enfermeira

Hopkins.

era! Porque esta manhã perguntei casualmente shop, qual era

o primeiro nome do sr. Welman e ela dssse-me que era HenrY !

As duas trocaram olhares. A enfermeira Hopkins tinha o nariz

comprido e a ponta tremeu-lhe um pouco de agradável emoção.

Por fim disse pensativamente:

- Lewis... Lewis... Não sei. Não me lembro desse nome aqui

por estes sítios.

- Deve ter sido há muitos anos - lembrou a outra.

- Sim, é claro, e eu estou aqui apenas há um par de anos. Não sei.

- Era um homem muito interessante. Parecia ser oficial de

cavalaria!

- É muito curioso! - exclamou a enfermeira Hopkins, sorvendo

o chá: - Talvez quando eram ambos novos tivessem inclinação

um para o outro e um pai cruel os separasse... - conjecturou

romanticamente a enfermeira O'Brien.

- Talvez ele tivesse morrido na guerra... - alvitrou a

enfermeira Hopkins suspirando profundamente.

III

Quando a enfermeira Hopkins agradavelmente excitada pelo chá

e pelas especulações românticas saiu finalmente, Mary Gerrard veio a correr ao encontro dela.

- Posso ir até à vila consigo, srª Hopkins?

- Pois pode, minha filha.

- Preciso de lhe falar. Estou tão preocupada com tudo isto -

disse Mary Gerrard ofegante.

A outra olhou para ela ternamente.

Com os seus vinte e um anos, Mary Gerrard era uma rapariga

encantadora, com um pouco da imaterialidade de uma rosa

selvagem: um pescoço longo e delicado, cabelo de um louro

pálido, em leves ondas naturais emoldurando-lhe a cabeça,

estranhamente modelada, os olhos de um azul intenso.

- Que há? - perguntou a enfermeira Hopkins.

- Há que o tempo passa e eu sem fazer nada.

- Tem muito tempo - exclamou secamente a enfermeira Hopkins.

- Não, mas sinto-me tão, tão pouco segura. A srª Welman foi

muitíssimo boa, dando-me todos aqueles estudos dispendiosos.

Acho que devia agora começar a ganhar a vida. Devia arranjar

qualquer trabalho para ir praticando.

A enfermeira Hopkins fez um aceno de compreensão e simpatia.

- É desperdiçar tudo se não faço alguma coisa. Tentei

explicar o que sinto à srª Welman, mas é difícil, ela parece

não compreender. Diz sempre que tenho muito tempo.

- Lembre-se de que ela é uma pessoa doente.

Mary corou, embaraçada.

- Sim, eu sei. Sei que não devo causar-lhe aborrecimentos.

Mas estou preocupada, e o meu pai fala disto tão brutalmente!

Está sempre a implicar comigo por causa das minhas «maneiras

finas». E realmente eu não quero andar à boa vida!

- Eu sei que não quer.

- O pior é que adquirir práctica de qualquer coisa é quase

sempre dispendioso. Sei bem alemão e podia aproveitar esse

conhecimento. Mas o que eu desejava verdadeiramente era ser

enfermeira. Gosto de enfermagem e de pessoas doentes.

- Lembre-se de que tem de ser forte como um touro! - disse

prosaicamente a enfermeira Hopkins.

- Eu sou forte! E gosto muito de enfermagem. A irmã da minha

mãe, que vive na Nova Zelândia, foi enfermeira. Como vê,

está-me na massa do sangue.

- Que diz a massagens? - sugeriu a enfermeira Hopkins. - Ou

puericultura, já que gosta de crianças. Nas massagens ganha-

se muito dinheiro.

- É caro praticar, não é? Eu tinha esperança de que. . . mas, é claro, é muita ambição minha... ela já fez muito por mim.

- Refere-se à srª Welman, não é? Então não diga disparates. A meu ver ela deve-lhe isso. Deu-lhe uma educação excelente mas de pouca utilidade prática. Não quer ser professora?

- Não me acho suficientemente inteligente para isso.

- Há inteligência e inteligência! Se quer um conselho, Mary,

por agora tenha paciência. Como lhe disse, na minha opinião a srª Welman tem obrigação de a ajudar a arranjar um modo de

vida. E não tenho dúvidas de que tenciona fazê-lo. Mas a

verdade é que gosta muito de si e não a quer perder.

- Acha que é isso? - perguntou Mary contendo a respiração.

- Não tenho a mínima dúvida! A pobre senhora está para ali

mais ou menos inválida, paralítica de um lado e sem nada nem

ninguém que a distraia. Para ela é uma grande coisa ter em

casa uma pessoa nova, bonita e fresca como você. E a Mary tem muito jeito para lidar com doentes.

- Se realmente acha que é isso, já me sinto melhor... Querida srª Welman, gosto tanto dela! Foi sempre tão boa para mim!

Faria tudo por ela!

- Então o melhor que tem a fazer é deixar-se estar onde está

e não se preocupar, não será por muito tempo - disse a

enfermeira Hopkins secamente.

- Tem a impressão de que... ?

Os olhos de Mary ao esboçar a pergunta pareciam maiores e

assustados.

A enfermeira Hopkins acenou com a cabeça.

- Ela refez-se com facilidade, mas está por pouco. Terá

Segundo ataque e terceiro. Sei bem como estas coisas são.

Tenha paciência, minha filha. Se preencher e tonar felizes os últimos dias da pobre senhora é a melhor acção que pode

fazer. Depois terá tempo para outras coisas.

- A senhora é muito boa.

- Lá está o seu pai à porta de casa, e não é com certeza para gozar este belo dia!

Estavam precisamente a chegar aos grandes portões de ferro.

Na entrada da casa do guarda um homem de idade, curvado e

coxeando, descia a custo os dois degraus.

A enfermeira Hopkins saudou alegremente.

- Bom dia, sr. Gerrard.

Ephraim Gerrard resmungou:

- Viva!

- Lindo dia.

- Talvez para si - disse o velho Gerrard com mau modo.

- Para mim não. O meu lumbago tem andado a atacar-me que é um caso sério. - Isso deve ter sido do tempo húmido que esteve a semana passada. Agora este tempo quente e seco vai curá-lo

depressa.

O tom brusco e profissional dela pareceu aborrecer o velho

que disse num tom desagradável:

- Enfermeiras... As enfermeiras são todas iguais. Com o mal

dos outros podem elas bem. Que importa! E ainda a Mary fala

em ser enfermeira também. Pensei que quisesse ser alguma

coisa melhor do que isso, com o que sabe de francês e alemão

e piano e tudo o que aprendeu nas boas escolas por onde andou e nas viagens ao estrangeiro.

- Ser enfermeira está muito bem para mim! - disse Mary com

entusiasmo.

- Sim, e melhor seria ainda não fazer nada, não é? Andares

para aí a pavonear-te com esses ares e essas maneiras de

senhora fina, que não tem nada que fazer. De mandriar é que

tu gostas, minha menina!

Mary protestou com as lágrimas nos olhos:

- Isso não é verdade, pai. Não é justo que diga isso!

A enfermeira Hopkins interveio com ar de ponderação e de

gracejo forçado:

- Estamos a destoar do tempo esta manhã, não estamos? Não tem razão no que diz, Gerrard. Mary é boa rapariga e boa filha.

Gerrard olhou para a filha quase com aversão.

- Ela é lá minha filha... com falar delico-doce. . . Uf !

Virou as costas e entrou para casa.

- Vê como é difícil? - disse Mary ainda de lágrimas nos

olhos. - Ele é tão incompreensivo. Nunca gostou de mim, mesmo quando eu era pequenina. A mãe estava sempre a defender-me.

- Deixe lá e não se preocupe. Estas coisas são-nos mandadas

para nos experimentar! Meu Deus, tenho que me despachar. As

voltas que ainda tenho que dar esta manhã! Enquanto ficou

olhando a figura desenvolta que se afastava, Mary Gerrard

pensou desconsoladamente que não havia ninguém

verdadeiramente bom ou que pudesse realmente ajudar-nos. A

enfermeira Hopkins apesar de toda a sua bondade, estava

perfeitamente satisfeira de apresentar uma série de

banalidades e oferecê-las como ideias novas.

E Mary pensou: «Que hei-de fazer?»

CAPÍTULO SEGUNDO

A srª Welman estava recostada nos almofadões cuidadosamente

empilhados. A respiração era um pouco pesada mas não estava a dormir. Os olhos, uns olhos ainda profundos e azuis como os

da sobrinha Elinor, contemplavam o tecto.

Era uma senhora forte, pesada com um belo perfil aquilino.

Um rosto revelador de orgulho e decisão.

Baixou os olhos que foram pousar na pessoa sentada perto da

janela. Pousaram nela ternamente, quase ansiosamente, e

chamou por fim:

- Mary.

A rapariga voltou-se imediatamente.

- Ah, está acordada.

- Sim, acordei há pouco... - disse Laura Welman.

- Eu não sabia. Se não teria...

A srª Welman interrompeu-a:

- Não faz mal. Estive a pensar... a pensar em várias coisas.

- Ah, esteve?

O olhar simpático, a voz interessada, despertaram no rosto da boa senhora uma expressão de ternura e disse suavemente:

- Gosto muito de ti, filha. És muito boa para mim.

- Oh srª Welman, a senhora é que tem sido boa para mim. Não

sei que seria de mim se não fosse a senhora! Devo-lhe tanto!

- Não sei. . . Não sei, parece-me que. . . - A doente moveu-

se desassossegadamente, o braço direito contraiu-se, e o

esquerdo permaneceu inerte e sem vida. - Cada qual julga que

faz tudo pelo melhor; mas é tão difícil saber o que é o

melhor, o que é justo. Agi sempre com demasiada confiança em

mim própria...

- Tenho a certeza de que sabe sempre o que é melhor e o que é mais justo que se faça.

Mas Laura Welman abanou a cabeça negativamente.

- Não, não. E isso preocupa-me. Tive sempre um defeito

secreto, Mary: sou orgulhosa. O orgulho pode ser o diabo.

E é de família. Elinor também o tem.

- Vai ser muito agradável para a senhora ter cá Miss Elinor e o sr. Roderick. Vai dar-lhe muita alegria. Há já bastante

tempo que cá não vêm.

- São bons pequenos, muito bons pequenos - disse a srª Welman suavemente. - E gostam ambos de mim. Sei que basta chamá-los, vêm imediatamente. Mas não quero fazer isso demasiadas vezes.

São novos e felizes, têm a vida à sua frente. Não há

necessidade de os aproxirnar da decadência e do sofrimento

antes de tempo.

- Tenho a certeza de que não sentiam nada disso - afirmou

Mary.

A srª Welman, falando talvez mais para ela própria do que

para a rapariga, continuou:

- Sempre tive esperanças de que se casassem. Mas nunca tentei sequer insinuar nada disso. os jovens são tão contraditórios!

Afastavam-se logo um do outro. Tenho, desde há muito tempo,

ainda eles eram crianças, a ideia de que Elinor gosta de

Roddy. Mas não estou nada certa sobre ele. É uma pessoa

estranha. Henry era assim, muito reservado e tristonho...

Sim, Henry...

Ficou por algum tempo silenciosa, pensando no marido que

morrera, e por fim murmurou:

- Já lá vai tanto tempo... tanto tempo... Estávamos casados

há cinco anos apenas quando ele morreu. Uma pneumonia

dupla... Éramos felizes, sim, muito felizes; mas não sei

porquê essa felicidade parece-me pouco real. Eu era então uma garota estranha e grave, com a cabeça cheia de ideais e de

admiração pelos grandes homens. A realidade não existia...

- Deve ter-se sentido muito só. . . depois - murmurou Mary.

- Depois? Ah sim... terrivelmente só. Tinha vinte e seis

anos... e agora tenho mais de sessenta. Já lá vão muitos

anos, filha... muitos anos...- E com repentino azedume

exclamou: - E agora isto!

- A sua doença?

- Sim. Um ataque destes foi o que sempre receei. A

indignidade disto! Ser lavada e tratada como um bebé! Estar

impossibilitada de fazer seja o que for por mim própria! É de enlouquecer! A O'Brien é boa pessoa, diga-se a verdade. Tem

paciência para mim, e não é tão pateta como a maioria das

enfermeiras. Mas ter-te a ti Mary significa muito para mim.

- É realmente assim, srª Welman? - perguntou a rapariga

corando. - Estou tão... tão contente.

Laura Welman disse em tom de suspeita:

- Tens andado preocupada, não tens? Com o teu futuro? Deixa

isso comigo, filha. Eu providenciarei para que possas ser

independente e escolher uma profissão. Mas tem paciência mais um tempo. Para mim é um grande prazer ter-te aqui.

- Pois sim, srª Welman, pois sim! Não a deixarei por nada

deste mundo. Nunca, se realmente quer que eu fique...

- Se quero que fiques... - A voz era invulgarmente profunda e firme. - Tu és... tu és como uma filha para mim, Mary. Vi-te

crescer aqui em Hunterbury, desde bebézinho a gatinhar até te tornares uma bonita rapariga... Orgulho-me de ti. Só espero

ter procedido sempre para teu bem.

- Se pensa que ter sido tão boa para mim e ter-me educado

acima... bem, acima da minha posição... se pensa que isso me

tornou insatisfeita ou... ou me deu o que o meu pai chama

ideias de senhora fina, creia que realmente não é assim. Só

lhe estou e estarei sempre muito grata, mais nada.

E se estou ansiosa por começar a ganhar a vida, é só porque

acho que não é justo que eu não... não faça nada depois de

tudo que fez por mim. Não gostava que pensassem que eu estava a viver à sua custa.

A voz de Laura Welman tornou-se subitamente aguda:

- Com que então é isso que Gerrard te anda a meter na cabeça?

Não dês ouvidos ao teu pai, Mary. Nunca viveste nem viverás à minha custa! Peço-te que fiques cá um pouco mais somente por

minha causa. Isto acabará em breve...

Se as coisas acontecessem como devia ser, a minha vida

terminava neste momento, e não haveria nada destas demoras

tolas com enfermeiras e médicos.

- Não é bem assim, srª Welman. O dr. Lord diz que pode ainda

viver muitos anos.

- Obrigada, mas não o desejo! Disse-lhe outro dia que num

país devidamente civilizado, o que havia a fazer era eu

declarar-lhe categoricamente que queria terminar com isto e

ele liquidava-me sem dor com qualquer droga apropriada. E

disse-lhe mais: Se o doutor tivesse coragem, fazia-o!

- E que disse ele?

- O descarado limitou-se a rir de mim, filha, e disse que não estava para se arriscar a ser enforcado. E acrescentou ainda-

«Se me deixasse o seu dinheiro, era um caso diferente, é

claro!» Ora vejam o impertinente! Mas eu gosto dele.

As suas visitas fazem-me melhor do que os remédios que me

receita.

- Sim é muito simpático - concordou Mary. - A enfermeira

O'Brien tem muita consideração por ele e a enfermeira Hopkins também.

- A Hopkins, com a idade dela, devia ter mais bom senso.

Quanto à O'Brien toda ela sorri, e exclama: «Oh doutor!» e

sacode as pontas da touca quando ele se aproxima dela.

- Coitada da enfermeira O'Brien.

- Ela realmente não é má pessoa, mas as enfermeiras

aborrecem-me; julgam todas que nos há-de apetecer uma boa

chávena de chá às cinco da manhã: - fez uma pausa.

- Que foi isto? Será o carro?

Mary foi ver à janela.

- Miss Elinor e o sr. Roderick chegaram agora.

- Fiquei muito contente de saber que estás noiva de Roddy,

Elinor - disse a srª Welman à sobrinha.

Elinor sorriu-lhe.

- Sempre pensei que a tia ficaria.

- Gostas dele, não gostas, Elinor ? - perguntou a boa

senhora, depois de um momento de hesitação.

Elinor ergueu as sobrancelhas finas.

- Claro que gosto.

Laura Welman apressou-se a dizer:

- Deves desculpar-me, filha. Bem sabes que és muito

reservada. É muito difícil saber o que pensas ou sentes.

Quando ainda eram ambos muito pequenos pareceu-me que

começavas a interessar-te de mais pelo Roddy...

Elinor ergueu de novo as sobrancelhas delicadas:

- De mais?

- Sim - confirmou a boa senhora. - Gostar de mais não é

sensato. E às vezes com as raparigas muito novas sucede

precisamente isso... Fiquei contente quando partiste para a

Alemanha a fim de pôr termo à situação. Depois, quando

voltaste parecias bastante indiferente para com ele - pois

bem, também tive pena! Sou uma velha difícil de contentar!

Mas sempre pensei que devias ter uma natureza bastante

ardente - esse género de temperamento é de família. Não traz

grande felicidade aos que o possuem... Mas, como digo, quando vieste de fora tão indiferente para com Roddy, fiq1ei com

pena, porque sempre esperei que se unissem.

E agora que vão unir-se, está tudo bem! E tu gostas realmente dele?

- Gosto bastante de Roddy sem ser de mais - disse gravemente

Elinor.

A srª Welman fez um sinal de aprovação.

- Então parece-me que vais ser feliz. Roddy precisa de

amor... mas não gosta de emoções violentas. Furtar-se-ia a

uma posse excessiva.

- Conhece muito bem Roddy! - exclamou Elinor sensibilizada.

- Se Roddy gostar de ti nem que seja só um pouco mais do que

tu dele, tanto melhor - disse a srª Welman.

- Página de conselhos da tia Agatha «Conserva o teu noivo na

expectativa! Que ele não esteja demasiado seguro de ti.»

- És infeliz, minha filha? Sucedeu alguma coisa? - perguntou

sobressaltada Laura Welman.

- Não, nada.

- Achaste apenas que estava sendo muito. . . banal. És nova e sensível, minha filha. Mas crê que a vida é muito banal . . .

- Suponho que sim - disse Elinor com ligeiro azedume.

- És infeliz filha? Que tens?

- Nada... absolutamente nada. - Levantou-se e dirigiu-se à

janela. Meia voltada para trás, perguntou:

- Diga-me, sinceramente, tia Laura, acha que o amor é sempre

uma felicidade?

O rosto da srª Welman tornou-se grave.

- No sentido que queres dizer, não, provavelmente não...

Gostar apaixonadamente de outra pessoa traz sempre mais

tristeza do que alegria; mas em todo o caso, Elinor, ninguém

devia deixar de ter essa experiência. Quem nunca amou

verdadciramente, nunca viveu...

A jovem inclinou a cabeça.

- Sim... a tia compreende... sabe o que isso é...

De repente voltando-se disse, com uma expressão

interrogativa: - Tia Laura...

A porta abriu-se e a enfermeira o'Brien entrou, anunciando

com um modo desembaraçado:

- Está aqui o médico para a ver, srª Welman.

III